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Autobiografia Intelectual Karl Popper PDF

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Academic year: 2021

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jPopper é / reconhecidamente, um dos maiores nomes da Filosofia da Ciência em nossos dias. Nesta sua fas­ cinante-A U TO BIO G R AFIA IN TELEC TU A L, dá-nos ele um

estudo pessoal de suas 'próprias idéias e do ambiente histórico onde elas se desenvolveram. Assim é que, com sinceridade e. humor, fala~nos de Carnap, Einstein, ■Russell, Witígensteín e outros contemporâneos seus, ao mesmo tempo em que fórmula apreciações críticas do Círculo de Viena, do Positivismo Lógico, âõ desenvol­ vimento do nazismo e do marxismo, dos problemas do judaísmo e do anti-semitismo, enfim, de muito do que é intelectualmente importante na Cultura do nosso século. Tudo isso faz, deste livro, uma excelente intro­ dução não só ao pensamento popperiano como a alguns dos principais dilemas culturais, políticos e científicos da atualidade.

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AUTOBIOGRAFIA

INTELECTUAL

Karl Popper

Popper é o maior vulto da Filosofia da Ciência de hoje, assim como um dos maiores nomes da Filosofia Liberal, Esta autobiografia focaliza o desenvolvimento das suas idéias. A obra é na realidade um estudo pessoal da evo­ lução das idéias popperíanas e do ambiente intelectual onde se desenvolveram. Nesse am­ biente desfilam vultos como Carnap, Einstein, Gõdel, Polanyi, Russelí, Schrodinger, Tarski, Wittgenstein, Woodger e outros de igual emi­ nência, suas idéias e suas relações com Popper. Na análise da “ecologia” das idéias de Popper figuram brilhantes histórias e apreciações d o , Círculo de Viena, do Positivismo Lógico, do' desenvolvimento do nazismo e do marxismo, dos problemas do judaísmo e do anti-semitismo, en­ fim, de muito do que é intelectualmente impor­ tante na Cultura do nosso século. As informa­ ções pessoais são apresentadas de forma humana, sincera e com muito humor. O livro de Popper é precioso. É um documentário do maior inte­ resse não só sobre a Filosofia neste século mas, o que é raro, uma história da evolução das idéias de um grande filósofo escrita por ele mesmo. A obra, além de ser uma excelente introdução ao pensamento popperiano e ao seu desenvolvimento, tem o inestimável valor de ' mostrar como esse desenvolvimento ocorreu, quais os. fatores que contribuíram para a sua evolução e qual o ambiente em que se pro­ cessou. É, assim, ura relato precioso e raro para a História, & Sociologia e a Psicologia no desenvolvimento das idéias.

Esses fatos tornam a Autobiografia In ­

telectual de Popper não só indispensável para todos os estudiosos da Filosofia, especialmente da Filosofia da Ciência, mas também do maior valor para todos aqueles que têm interesse pela história social e cultural do nosso século e pela compreensão da evolução e da “ecologia” das idéias.

A. Brito da Cun h a

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K arl (Rainiurid) P O P P E R '

Nasceu em Viena, 1902

Professor emérito, Universidade de Londres

PhJD. (Viená-):; D. L it. (L o n d re s ); possui títulos honoríficos que lhe foram concedidos pelas Universidades de Chicago, Denver, W ar-wiijk, Ghristchurch (N ova Z elân dia), Salford. .

F ello w . da “Royal Society” e da “British Acaderay” . Membro corres-poiidéntè do "Institu t de F ran ce” ; méirtbro da “ International Acadèiny íò r the Philosophy of Science” ; membro estrangeiro ho­ norário dá “American Academy of Arts and Sciences” ; membro honorário da: “Royal Society of New Zéaland” ; fellow honorário da “Ldridcm School of Econom ics and Political Science” ; membro honorário do “H arvard C hapter” de Phi B eta Kappa.

Recebeu ò título de Sir em 1965.

Prêmio “GÍdade de V iena” , em 1 9 6 5 ; prêmio “ Sonning” , da U niver­ sidade de Gopenhague, 1973.

Publicações (apenas livros, que já foram traduzidos para 19 idiomas) :

Lp.gifi der Forsckung

ÍChe Õ pen Society and its Enem ies T h e Powerty of H istoricism

Th,e L ogic of Scientific Discovery Cofijectures and R efutai tons. Objective K now ledge

“Autobiografia e Réplicas aos Meus Gríticos” -— incluídas em T h e Philosophy of K arl Popper

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FICHA CATALOGRÁFICA

(P rep arad a pelo Centro de Catalogação-na-Fcm tes C âm ara Brasileira do Livro, S P )

Popper, K acl Raimund,

1902-P 8 6 6 a Autobiografia intelectual [p o r] K arl P o p p er; tra­ dução de Leônidas Hegenberg e O ctanny Silveira d a 2 . ed* M ota. 2 . e d . _ — , São Paulo, C ultríx,. 1 9 8 6 .

Bibliografia.

1 . C icncia — Filosofia 2 . Filosofia inglesa 3 . Popper, K arl Raimund, 1902- I . T ítu lo .

'jj-C D D -S 2 1 .2

«192

7 7 -0 3 3 6 -501

índices para catálogo sistemático: 1 . C iência : Filosofia. 301

2. Filosofia inglesa 192

3 . Filósofos ingleses.: Autobiografia 9 2 1 .2 4 . G rã -B re ta n h a : Filosofia 192

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K A R L P O P P E R

AUTOBIOGRAFIA

INTELECTUAL

Tradução de Le o n i d a s He g e n b e r g e

OcTANNY SlLVJEERA DA MoTTA

ED ITO RA G U L T R IX

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Título do original: TJNENDED QUEST

Ajm In t e l l e g t u a l Au-t o b i o g r a p h y

Copyright © 1974 by the Library of Living Philosophers Inc. Copyright © 1976 by K arl R . Popper

Edição Ano

2-3-4-5-6-7-8*9 86-87-88-89-90-9! -92^93 Direitos de tradução para a língua portuguesa adquiridos com exclusividade pela

EDITORA GULTRDC LTDA.

Rua D r. M ário Vicente, 374, 0 4 2 7 0 São Paulo, SP, fone 63-3141, que se reserva a propriedade literária, desta tradução.

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S U M Á R I O

A gradecim entos 1 j

0 1 ; Onisciência e falibilismo 1 3

0 2 . Lem branças d a infância 14

0 3 . Prim eiras influencias 1 6

0 4 . A Prim eira Grande Guerra 19

0 5 . U m antigo problema filosófico: o infinito 21

0 6 . M inha prim eira falha filosófica. O problema do essenciàiismo 23 0 7 . L onga digressão a respeito do essenciàiismo: aquilo que ainda

m e separa d a maioria dos pensadores contemporâneos 24 0 8 . U m ano im portante: marxismo, ciência e pseudociência 37

0 9 . Primeiros estudos 45

1 0 . Segunda digressão: pensamento dogmático e critico ; aprender

sem auxílio da indução 50

11 * Música 60

1 2 . Especulações em torno do surgimento da música polifônica: psico-. logia, da descoberta ou lógica da descoberta? 62

1 3 . Dois tipos de música 67

1 4 . Idéias progressistas em A rte, especialmente em M úsica 75

1 5 . Ültim os anos de Universidade 79

1 6 . T e o ria do conhecimento: Logik d er Forschung 86

1 7 . - Q uem m atou o positivismo lógico? 95

1 8 . Realismo e teoria quântica 98

1 9 . O bjetividade e Física 104

2 0 . V e rd a d e ; probabilidade; corroboração 106

2 1 . A guerra próxim a: o problema judeu 113

2 2 . - E m ig ra çã o : Inglaterra e Nova Zelândia 116

2 3 . Primeiros trabalhos na Nova Zelândia 119

2 4 . “A Sociedade Aberta” e “A Indigência do' Historicismo” 122 2 5 . O utros trabalhos realizados na Noya Zelândia- 128 26. Inglaterra: na “ London School of Economics and Political Science” 129

2 7 . Primeiros trabalhos na Inglaterra 134

2 8 . Prim eira visita aos E .U .A . Encontro com Eiiistein 136

2 9 . Problemas e teorias 140

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3 1 O b j e t i v i d a d e e crítica

3 2 . Indução; dedução; verdade objetiva 3 3 . Programas de pesquisa metafísica

3 4 . Combatendo o subjetivismo em Física: a M ecânica Quântica /•propensão

3 5 . Boltzinann e a direção do tempo • 3 6 . A teoria subjetivista ‘ d a entropia

;37. O darwinismo como program a metafísico de pesquisa i38. Mundo 3, ou o T erceiro. M undo

3 9 . O problema corpo-m ente e o M undo 3 4 0 . A posição dos valores num mundo dè fatos

>- t.

Notas

Principais publicações e abreviações dos títulos Bibliografia selecionada

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A G R A D E G I M E N T O S

Esta autobiografia foi preparada a fim de ser incluída nos dois volumes da obra The PhilosopHy of Karl P o p p e r editada por Paul Arthur Schilpp, que apareceu com os números 14/1 e 14/11 na coleção "The Library of Living Philosophers” (La Salle, Illinois: The Open Court Publíshing Gompany, 1974). Gomo em todos os volumes desta série, a autobiografia se deve à iniciativa do Professor Schilpp, fundador da coleção. Sou muito grato a ele por tudo quanto fez e pela sua infinita paciência em aguardar, a autobiografia

de 1963 a 1969. '

Muito peiihoradamente agradeço a Ernst Gombrich, Bryan Magee, Arne Petersen, Jeremy Sheamur, Sra. Pamela Watts e, aci­ ma de tudo, a David Miller e a minha esposa pelo trabalho paciente que. realizaram, lendo e melhorando o manuscrito.

Vários problemas surgiriam durante a fase de produção da edi­ ção original. Somente depois de prontas e revistas as provas tipo­ gráficas é que se deliberou reunir todas as notas, colocando-as ao final — fato que não é destituído de importância, pois ò manuscrito havia sido preparado segundo orientação previamente assentada pela qual se deixariam as notas ao pé das páginas correspondentes. .

Foi imenso o trabalho de organização dos volumes da série “The Library of Living Philosophers” ' executado pelo Professor Eugene Freeman, pela Sra. Ann Freeman e seus coadjuvantes: aqui regis­ tro meus agradecimentos pela atenção que me dispensaram e pelo cuidado com que levaram a bom termo suas atividades.

O texto da presente edição foi revisto. Introduziram-se alguns breves adendos e uma curta passagem saiu do corpo da obra para integrar-se à nota 20.

K. R. P. Penn, Buçkinghamshire

Maio, 1975

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t o

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O que exclu ir e . o que incluir ? Esse é o p r o b l e m á .

H ü g h L o ftin G j D o c t o T D o o lit t íe Js Z o o .

1 . Qnisciêucia e falibilismo

Aos vinte anos, fiz-me aprendiz de um velho mestre marceneiro de Viena, cujo nome era Adalbert Põsch, e com ele trabalhei de 1922 a 1924, em tempos não muito distanciados da Primeira Guerra Mundial. Ele se parecia muito com Georges Glemenceau, mas era homem cordato e bondoso. Depois de haver-lhe ganho a confiança, aconteceu, muitas vezes, que, sozinhos na oficina, ele me tornasse beneficiário de sua inexaurível riqueza de conhecimentos. Certa ocasião, disse-me que, por vários anos, se dedicara a trabalhar em diversos modelos de máquina de movimento perpétuo, acrescentando cismadoramente: “Dizem que não é possível construí-la, mas, depois de construída, dirão coisa diferente!” (“Da sag’n s5 dass m a’ so was net mach’n kann; aber wann amai eina ein’s g5machthat, dann wer’n s’ schon anders red-n!” ). Tinha ele como hábito favorito fazer-me tuna pergunta a respeito de História e respondê-la ele próprio, quando ocorria eu não saber a resposta (embora eu, seu aprendiz, fosse alüno da Universidade — fato que muito o orgu­ lhava). “Você sabe”, perguntava-me, “quem inventou as botas de cano alto? Não sabe? Foi Wailenstein, duque de Friedlarid, du­ rante a Guerra dos Trinta Anos”. Depois de uma ou duas per-guntas ainda mais difíceis, por ele formuladas e por ele triunfante­ mente respondidas, meu mestre dizia com modesto orgulho: “Vocé pode me perguntar o que quiser. Eu sei tu d o ” (“Da kõnnen S5 mi frag,n was Sie wolI’n: ich weiss alies”)

Creio que, ya respeito de teoria do conhecimento, aprendi mais com meu querido e onisciente mestre Adalbert Pòsch do que com qualquer outro .de meus professores. Ninguém, como ele, contribuiu tanto para que eu me tornasse discípulo de Sócrates. Foi ele, com efeito, quem me ensinou não apenas o quão pouco eu sabia, mas ■também que a sabedoria a que eu pudesse aspirar talvez consistisse u

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. ápénás; em dar-me eu conta mais amplamente do infinito de minha ignórância.

Essas e outras reflexões, que se colocavam no campo da Epis-temologia, ocupavam-me o espirito enquanto eu trabalhava com uma. escrivaninha. Recebemos, por aquela époça> uma grande en-, comenda de trinta escrivanilihas de mogno, com muitas gavetas.

Receio que a qualidade de algumas daquelas escrivaninhas, espe­ cialmente no tocante ao envemizamento, haja deixado muito a de­ sejar, em razão de minhas preocupações com a Bpístemología. Isso mostrou a meu mestre, e a mim também, que eu era demasiado ignorante e demasiado falível para semelhante espécie de trabalho. Assim, decidi que, ao completar o aprendizado^ em outubro de 1924, eu deveria procurar algo mais fácil de fazer do que escrivaninhas de mogno. Durante um ano, dediquei-me ao trabalho social com crian­ ças abandonadas, trabalho que já executara a n te s e havia conside­

rado muito árduo. Mais tarde, após cinco anos devotados princi­ palmente a estudar e escrever, casei-me e entreguei-me, com satis-r fação, ao mister de professor. Isso foi em 1930.

Naquela ocasião, eu não tinha outras ambições profissionais que nao a de ensinar, embora viesse a sentir-irie um tanto cansado de. tal função, após ver publicada a minha Logik der Forsehung, em fins de 1934. Foi, portanto/com satisfação que, em 1937, tive opor-' tunidade de abandonar o ensino e tornar-me um filósofo profissional.

Eu havia quase atingido os trinta é cinco anos e julguei que, final­ mente, resolvera o problema de trabalhar numa escrivaninha e, ape­ sar; disso,; preocupar-me com Episteinologia.

2 . Lembranças da infância

Conquanto a maioria de nós conheça a data e lugar de nasci­ mento; mo imeu caso, 28 de julho. de 1902, em Himmelhof, no distríto=.db Obet -St; Veit, em Viena — , poucos sabem como e quan­ do iniciáram;ssua? ; vida. intelectual; No que respeita a meu desen-volvimento : filosóficoy .lembro~me- de alguns de. seus. primeiros está­ gios. E não faáv duvida* de que éle éoineçou depois de principiado meu desenvolvimento emocional e moral. :

Em criança, tenho‘ a impressão de ter sido algo severo e até mesmo presumido, : embora: essa : atitude; ise-- temperasse com o sen-timento de .que eu. não ,tinha. o' direito ,de. jjilg&r pessoa alguma salvo eu próprio. Dentre as. minhas Jembranças mais recuadas, estão senr timentos .de admiração pelos mais; velhos* ;çpmo por meu primo . Eric Schiff, a quem eu, admirava por ser um: ano maí§ velho, por sua

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aparência bem euidâda e, especialmente, pela süa beleza —- dons que sempre considerei importantes e inatingíveis.

Hoje, ouve-se dizer com freqüência que: as crianças são' cruéis por natureza, Não creio, Eu era. quandò criança, o que os norte--americanos denominariam “molenga” e a compaixão é: uma das mais fortes emoções dè que. tenhó recordação; ^ÍPoi o componente principal de j^ha-^pifeièirá/- amor, octírrida quaiido eu tinha quatro ou- cinco anos. Fui leyádo a uní jardim de infância, onde havia uma linda ijiefiàha ide dpis!;aüõs^ cega.. ’ ’Meu* coração se dilacerou, tanto pela feelèzàvrdo sorrisQvjielfr quanto ‘ pela tragédia de sua cegueira. -Efal ainorià- Jamàis "a 'estjueci, a^esár de tê-la encontrado apenas uma véz é tãò^oménte por uma -hoía oü duas. Não voltei- ao! jardiln dè irifâiiGia ; íálvi^z: ;minha ‘mãe: Jivessc notado o quanto ali jae períurbeil " - •: ; - í

A visão ' da pobreza abjeta, em- "Viena, foi1. uih^dòkr píiiicipais. problemas a me comoverem quando eu era1 ainda. 'Criança; >— e. a comoção era tanta que estava sempre no fundo- dè -irietis pensa­ mentos, Poucas, dentre, as pessoas que vivem atu alm en te numâ :;das democracias ocidentais, sabem o que significava a pobreza no começo deste século: homens, mulheres e crianças vítimas da fome, dò frio e da desesperaria. Nós, crianças, éramos, porém, inütèis. Não podíamos' fazer mais que pedir alguns centavos para dár a um pobre.

So muitos anos depois vim a saber que meu pai se esforçara longamente para pôr paradeiro a tal situação, embora jamais hou­ vesse falado acerca dessas atividades. Ele trabalhava em duas co­ missões que buscavam oferecer abrigo para os sem-lar: uma loja máçônica, de que durante longo tempo ele foi Mestre, administrava u m a casa para órfãos, enquanto a outra comissão (não-maçônica) erigira e mantinha uma grande instituição para adultos e famílias desabrigadas. (Um dos internados nessa instituição — o Asyl für Obdachlose foi Adolf Hitler, quando de sua primeira passagem por Viena.)

O trabalho de meu pai recebeu inesperado reconhecimento ao dar-lhe o velho Imperador o título de Cavalheiro da Ordem de Francisco José (Rièter des Franz Josef Ordens), o que deve ter cons­ tituído não apenas uma surpresa, mas um problema. Com efeito, embora, à semelhança da maioria dos austríacos, respeitasse: o Impe­ rador, meu pai era um liberal radical, da escola de John Stuart Milí e de modo algum apoiava o governo.

-Na condição de maçom, pertencia a uma sociedade que, na ocasião, foi declarada ilegal pelo governo austríaco, embora o go-V

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^firno^íhungajio! d& Francisco José não fizesse o mesmo. Os maçons freqüentemente se reuniam do lado de lá da fronteira húngara, em P.ressburg:. (hoje Bratislava, na Checoslováquia). O Império Austro-“Hungarp, apesar de ser monarquia constitucional, não era gover­ nado por seus dois Parlamentos: não. tinham estes o poder de depor os.: dois: Primeiros-Ministros ou os dois Gabinetes, e nem mesmo o poder de emitir um voto de. censura.. O Parlamento Austríaco era, ao. que parece, ainda mais impotente do que o Parlamento inglês ao. tempo dè. William e Mary, se é que esta comparação tem algum cabimento. Travaram-se lutas pelo poder e havia severa censura política; por exemplo, uma brilhante . sátira política, Anno 1903, que .meu pai escrevera com.; o pseudônimo de Siegmund Karl Pflug, foi apreendida pela polícia, . quando de sua publicação em 1904, e

até 1918 permaneceu no Index de livros proibidos.

Nãò obstante tudo isso, naqueles dias anteriores a 1919 rei­ nava, na Europa, a oeste da Rússia czarísta, uma atmosfera, de libe­ ralismo, atmosfera: que também dominava a Áustria e que foi destruída, para. sempre, ao que. hoje ; parece, pela Primeira Guerra Mundial. A Universidade de Viena, com seus muitos professores de grande eminência, gozava de elevado grau de liberdade é auto­ nomia. O mesmo era verdade com relação aos teatros, importantes na vida dê Viena — quase tao importantes quanto a música. O Imperador se mantinha .à distância de todos os partidos políticos e não se identificava com nenhum dos governos. Seguia, quase ao pé . da letra, o conselho dado por Sdren Kierkegaard a Cristiano V III,. da Dinamarca

3 . Primeiras influências

Fui criado em ambiente indiscutivelmente livresco. Meu p ai,, o Dr; Simon Siegmund- Carl Popper, era, como seus dois irmãos, doutor em leis'- pela Universidade de Viena. Tinha uma grande biblioteca e haviá em casa livros por toda parte — com exceção da sala de jantar; onde> estava um majestoso^ Bõsendotfer de concertos e muitos volumes de. Bach, Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert e Brahms. Meu pai, que '-.tinha a mesma idade de Sigmund Freud ~ cujas obras possuía e. lera quando da publicação — trabalhava como advogado. Acerca de minha- mãe, Jenny Popper, nêe Schiff, falarei quando vier a ocupar-me de. música. Meu pai era um orador con­ sumado. Ouvi-o no tribunal^ apenas -uma vez, em 1924 ou 1925, sendo eu. o réu. O caso estava, em minha opinião, bem definido2. Por. isso mesmo, não lhe pedi que me. defendesse e senti-me emba-16

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raçado quando ele insistiu. E a completa simplicidade, clareza e sinceridade de seu discurso me impressionaram muito.

Meu pai trabalhava ativamente na profissão. Havia sido amigo e . sócio do último burgomestre liberal de Viena,, o Dr. Gari Grübl, a quein sucedera a testa de um- escritorio de advocacia. Esse escritório se integrava ao . grande apartamento onde vivíamos, no coração de Viena, em frente à porta principal da catedral (Stephanskirche). Papai trabalhava no escritório por longas horas, mas, em verdade, era antes homem de estudos que advogado- Historiador (parte - con­ siderável de sua biblioteca dizia' réspeitq à H is tó ria )tin h a par­ ticular interesse pelo período helenístáco e. pelos séculòs X V III e X I X . Fez poesia e verteu para o alemão versos gregos e latinos. (Raramente falava de tais assuntos. Fòi por acaso que^ certo dia, descobri algumas ágeis traduções de versos de Horácío. Seus dons característicos eram a delicadeza de trato e o forte senso de humor.) Mostrava grande inclinação péla Füosofia. A ele pertenceram obras que ainda possuo, de Platão, Bacon, Descartes, Spinoza, Locke, Kant, Schópenhauer e Eduard Von Hartmann; obras escolhidas de J. S. Mill (em versão alemã, editada por Theodor Gomperz (a cujos Pensadores Gregos devotava grande admiração) ; a maior parte dos livros de Kierkegaard, Nietzsche e Eucken,. e os trabalhos de Ernst Mach, a Crítica de Linguagem, de Fritz Mauthner e Geschlecht und Charakter, de Otto Weininger (obrais que parecem ter exercido alguma influência sobre Wittgenstein)3; e traduções da maior parte dos livros de Darwin. (Em seu escritório, havia os retratos de Dar-win e de Schópenhauer!) Ali estavam também os autores consa­ grados da literatura alemã, francesa, inglesa, russa e escandinava. Uma das grandes preocupações de meu pai eram, entretanto, os problemas sociais. Não apenas possuía as principais obras de Marx e Engels, de Lassalle, Karl KLautsky e Eduard Bernstein, mas ainda as dos críticos dç M arx: Bõhm-Bawerk, Gari Menger, Anton Men-ger, P. A. Kropotkin e Josef. Popper-Lynkeus (ao que parece, dis­ tante parente meu, pois nascera em Kolin, cidadezinha de origem de meu avô paterno). A biblioteca incluía um setor dedicado ao pacifismo, com livros de Bertha von Suttner, Friedrich Wilhêlm Fõrster e Norman Angell.

Assim, os livros fizeram parte de minha vida muito antes que eu pudesse lê-los. O primeiro livro a causar-me impressão forte e duradoura foi lido, por minha mãe, para minhas duas irmãs e para mifflj pouco antes de eu aprender a, ler. (Fui eu o último dos três filhos.) Era um livro para crianças, da.grande escritora sueca Selma Lagerlõf, em bela, versão alemã ( Wunderbare Reise des Kleinen

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N ils:-;-. lio Igersson mii den Wildgãnsen^ dC versão inglesa se intitula The 'Wònderful Adventures of Nils.) Durante muito e muito tempo, relij.èsse: livro pelo menos uma vez .por ano; e, posteriormente, li (prpyavelmente mais de uma vez) tudo quanto Selma Lagerlõf, escreveu. Não aprecio sèu primeiro jomance, Gosta Berling, embora ele tenha, indubitavelmente^ muitas qualidades. Todos os outros livros, dessa escritora continuam a ser. para mim, todavia,

obras--primas. • •

.Aprender a ler e, em menor grau, a escrever são, naturalmente, os^acontécimentos mais significativos. no.. desenvolvimento intelectual de ;úma pessoa. Nada há comparável, pois . poucas são as pessoas (Heien Keller é a grande exceção) capazes de recordar, o què para ela?;. significou aprender a falar. Serèi sempre grato a minha pro­ fessora,. Emma Goldberger, que jne ensinou a ler, escrever e. contar, Issò , é, creio eu, o que há de. essencial para ensinar a uma criança; e, para aprendê~lo} algumas crianças nem sequer precisam ser ensi­ nadas. Tudo o mais é atmosfera e aprendizado através ,de leitura e reflexão.

Sem contar meus pais, minha professora e Selma Lagerlõf,. a maior • influência exercida sobre os primeiros estágios de meu de­ senvolvimento intelectual foi, julgo eu, a de um amigo de toda a vida, Arthur Arndt, parente de Ernst Moritz von Arndt, um dos famosos, patriarcas do nacionalismo alemão no período das guerras napoleônicas V Arthur Arndt era antinacionalista ardoroso. Embora de; ascendência alemã, nascera em Moscou, onde passou a juven­ tude. Era mais velho do que eu cerca de vinte anos — ele estava próximo; dos trinta quando o conheei em 1912. Havia estudado engenharia .na. Universidade de Riga e fora um dos líderes estu­ dantis durante a ^malograda revolução russa de 1905. Era socialista e., ao mesmo tempo, feroz adveísárip dos bolcheviques, alguns de eujos- chefes conhecia pessoalmente desde 1905. Descrevia-os como jesuítas-: do ísocialismo, istO' é, capazes? de- sacrificar pessoas inocentes, mesma qüe da; -mesma, orientação, pois os: grandes fins justificavam todos os-ineios. > Arndt não era marxista convicto, embora conside-rasse? ;que, -atét aquelas íéppca, fora Ivíarxi o; mais importante teórico do socialismo. Ele encontrou em mim álguétn assaz disposto a ouvir íalar, das. idéias socialistasnada, acreditava, eu, podia ser màis.importante do,. .que- pôr .fim à. pobreza.

Arndt também se interessava .profundamente (muito mais do que meu pai) pelo movimento qiie os: .discípulos de Ernst Mach e Wilhelm Ostwald haviam; iniciado,, aima sociedade cujos membros denominavam a si próprios^ “rnonistas’.5- ( e q u e tinha ligação com

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a célebre revista norte-americana The Monist, de que Maçíl era colaborador). Os monistas. sentiam-se atraídos pela Ciência, pela Epistemologia e pelo que hoje chamaríamos Filosofia da Ciência. .Entre os. monistas .de.: Viena, o 'ímeío-socialistaí, Popper-Lynkeus

teve considerável número de seguidores, inclusive, Otto jNeurath. A primeira obra, que li acerca do socialismo- (provavelmente sob influência de meu amigo, Arndt;: meu pai. relutava em influen­ ciar-me) foi Looking; Backwurd, de Edward Bellamy. -Creio que/ a li quando tinha mais, ou menosdozeianos, e^oílivro ;muito me irnpres-{ sionou. Arndt levava-me a passeios^promo.vidos pelos monistas nos

bosques de Viena,. e, nessas ocasiões-, expunha e discutia-marxismo e darwinismo. A maior parte do ;que ele: .dizia.ficava* ;sem dúvida, , além de meu alcance; Mas era interessante e estimulante.

Uma dessas excursões domingueiras dos marxistas realizou-se no dia 28 de junho de 1914. Ao cair da noite, quando: nos aproxi­ mávamos dos subúrbios de Viena, soubemos, que o arquiduque Fer-dinando, herdeiro presuntivo da Áustria, havia sido assassinado em Sarajevò. Cerca de uma semana dçpois, minha mãe saiu comigo e minhas duas ■ irmãs para gozar férias de verão em Alt-Aussee, aldeia não muito distante de Salzburgo. Ali, rio meu décimo segundo ani-| versário, recebi carta de mêu pai em que ele dizia sentir não poder | juntar-se a nós, como pretendera, "porque, infelizmente, há guerra” (“denn es ist leider Krieg” ). Como a carta chegou no dia em que í houve a declaração de guerra entre a Áustria-Hungria e a Sérviaj í. parece que meu pai dava-se conta do que estava por vir.

V 1 ' ^

4 . A Prim eira Grande Guerra

Tinha eu portanto doze anos quando começou a Primeira \ Grande Guerra; e os anos de conflito e suas conseqüências foram, r sob todos os aspectos, decisivos no que respeita a meu desenvolvi­

mento intelectual. Tornaram-me um crítico das opiniões correntes, * especialmente das opiniões políticas.,

Claro está que, por aquela época, poucas pessoas sabiam o que a guerra significava. Corria por todò o país um ensurdecedor brado de patriotismo, peío qual até. mesmo alguns membros do nosso grupo, anteriormente alheio às provocações de guerra, foram envolvidos. Meu pai vivia triste e deprimido. Arndt, contudo, entrevia algo desejável. Esperava ocorresse uma revolução democrática na Rússia. I .Posteriormente, recordei com freqüência, aqueles dias. Antes da guerra, muitos. integrantes, de nosso grupo haviam examinado teorias políticas de cunho decididamente pacifista que, pelo menos, 19

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faziam fortes restrições ao sistema existente, e tinham dirigido críti­ cas à aliança entre a Áustria e a Alemanha e à política expansio-nista da Áustria, nos Bálcãs, especialmente na Sérvia. Desconcerta­ va-me o fato de que pudessem eles transformar-se subitamente em defensores dessa mesma política.

Hoje entendo melhor tais coisas. Não havia apenas a pressão da opinião pública; havia também o problema das realidades divi­ didas. E havia ainda o medo — o meda das medidas violentas que, na guerra, as autoridades têm de tomar contra os dissidentes, pois não há como traçar nítida linha divisória entre dissensao e traição. Na época, contudo, seriti grande perplexidade. Nada sabia, natural­ mente, do que tinha ocorrido com os partidos socialistas da Alema­ nha e da França; nadá sabia do modo por que o internacionalismo defendido por eles se hâvia desintegrado. (Maravilhosa descrição desses acontecimentos pode ser lida nos últimos volumes de Os Thibault^, de Roger Martin du Gard.)

Durante algumas semanas, sób influência da propaganda de guerra feita em minha escola, deixei-me contaminar pela atmosfera geral. ’ No outono de 1914, escrevi um ridículo poema, “Celebração da Paz”, onde admitia que os austríacos e alémães haviam resistido vitoriosamente ao ataque (acreditava, então, que "nós” tivéssemos sido'atacados) e descrevia e louvava a restauração da paz. Conquanto não se tratasse de um poema de caráter muito belicoso, logo me envergonhei cóm a suposição de que; “nós” houvéssemos sido ataca­ dos. Percebi que a agressão austríaca à Sérvia e a agressão alemã à Bélgica eram coisas terríveis e que um poderoso sistema de pro­ paganda estava tentando persuadir-me de que tais agressões tinha justificativa. No inverno de 1915-16, convenci-me — sem dúvida sob influência da propaganda socialista de pré-guerra — de que era má a causa da Áustria e da Alemanha, de que merecíamos perder a guerra (e de que, portanto, a perderíamos, como eu ingenuamente argumentava).

Certo dia, penso que em 1916, abordei meu pai com o fito de mostrar-lhe uma justificação razoavelmente bem preparada dessa posição, mas ele foi menos receptivo do que eu esperava. Tinha mais dúvidas do que eu acerca dos erros e acertos da guerra e de seu resultado. Á um e outro respeito, cabia-lhe razão e, obviamente, eu vira as coisas de maneira demasiadamente simplificada. Não obstante, ele considerou com grande seriedade meus pontps de vista e, depois de longo debate, mostrou-se inclinado a concordar com eles. O mesmo ocorreu com meu amigo Arndt. Depois disso, pou­ cas dúvidas me restaram.

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A essa altura, todos os meus primos com idade suficiente com­ batiam como oficiais do exercito austríaco, o mesmo acontecendo coro muitos de meus amigos. IVtinha mae continuava a levar-nos para férias de verão nos Alpes e, em 1916, estivemos novamente em Salzkàmmergut —- dessa vez em Isclil, onde - alugamos uma pequena casa que se .erguia sobre um talude de madeira. Conosco esteve a irma de Freud, Rosa Graf, amiga de meus pais. Seu filho Hermann, só cinco anòs mais velho do que eu,, veio visitar-nos, uniformizado, em sua última licença, antes de partir para a frente de batalha. Pouco depois, chegava a notícia de sua morte. O pesar da mãe — e' da irmã, a sobrinha favorita de Freud1 — foi enorme. Fez-me compreender o significado das longas e aterradoras listas de pessoas mortas feridas e desaparecidas.

Logo depois, ressurgiram as questões políticas.' A :velha Áustria havia sido um Estado multilingual: nela se reuniam checos, eslo-vacos, poloneses, eslavos do sul (iugoslavos) e gente de . fala italiana. Começaram a surgir boatos de estarem os checos, eslavos e italianos desertando do exército austríaco. A desagregação começava. Um amigo de nossa família, que vinha atuando como auditor militar, falou-nos a respeito do movimento panreslavo, que, em razão de suas funçoês, estava compelido a estudar, e falou-nos de Masaryk, um filósofo saído das universidades de Viena e Praga que se tornara líder dos checos. Soubemos de um exército checo formado na Rússia e integrado por prisioneiros de guerra austríacos, de língua checa. E soubemos de sentenças de morte pronunciadas em casos de trai­ ção e do ambiente de terror em que as autoridades austríacas en­ volviam as pessoas suspeitas de deslealdade.

5 . Um antigo problema lilosófico: o infinito

De há muito acredito haja problemas filosóficos genuínos que não são meros quebra-cabeças nascidos do mau emprego da lingua­ gem. Alguns desses problemas são infantilmente óbvios. Ocorreu que eu tropeçasse num deles quando era ainda criança, prova­ velmente áos oito anps de idade.

H a v ia m -m e falado âcerca do sistema solar e do infinito do espaço (do. espaço newtoniano, é claro) e eu me senti perplexo: não podia imaginar nem que o . espaço fosse finito (que existiria, então, pára além deíe?), nem que fosse infinito. Meu pai aconse­ lhou-me a consultar um de seus irmãos, hábil, disse-me ele, para expli-car' esse tipo de coisas. Esse tio começou por indagar se eu tinha n

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alguma dificuldade em imaginar uma seqüência de números que aumentasse continuamente. Disse-lhe que não. Ele me pediu então que imaginasse uma pilha de tijolos à qual se acrescentasse mais um tijolo, e mais outro, e assim por diante, interminavelmente; essa pilha jamais chegaria a ocupar todo o espaço do Universo. Con­ cordei, de maneira algo relutante, que se tratava de . uma resposta conveniente, embora ela não me satisfizesse por completo. Claro está que eu nao tinha como formular as dúvidas que ainda me assaltavam: tratava-se da diferença, entre infinito real e infinito potencial, e da impossibilidade de reduzir o infinito real ao poten­ cial. O problema faz parte (a porção espacial) da primeira anti­ nomia de Kant e é (especialmente se lhe acrescentarmos a porção temporal) um problema filosófico difícil e ainda não resolvido6 — sobretudo depois que mais ou menos foram abandonadas as espe­ ranças que Einstein teve de solucioná-lo. pela demonstração de que o Universo é um espaço riemaniano fechado, de raio finito. Não me ocorreu, naturalmente, que minha perplexidade dizia respeito a um problema em aberto; muito ;aó; contrário, imaginei que se tratasse de questão que um adultò inteligente — mèu tio, por exem­ plo — deveria entender, ao passo que eu era ainda muito ignorante, ou talvez muito jovem ou muito estúpido, pára compreendê-lo intei­ ramente. Lembro-me de numerosos problemas . semelhantes — pro­ blemas genuínos e nao quebra-cabeças — enfrentados mais tarde, quando eu tinha doze ou treze anos: ò problema da origem da vida, por exemplo, deixado em ; aberto pela teoria darwiniana, e o de saber se a vida é simplesmente um processo químico (optei pela teoria de que os organismos são chamas) .

-Esses, creio eu, são problemas quase inevitáveis para quem, criança ou adulto, tenha tido contato com Darwin. O fato de o trabalho experimental estar relacionado com eles nao os torna pro­ blemas não-filosóficos. E de modo algum devemos decidir, do alto de nossa suficiência, qué os problemas, filosóficos não existem ou que são insolúveis (embora talvez sejam dissolúveis).

Minha atitude perante esses problemas permaneceu invariável durante muito tempo. Sempre imaginei que as questões que me preocupavam tivessem sido há muito resolvidas; jamais imaginei que qualquer delas ; pudesse ser nova. Eu não duvidava de. que pessoas como o grande Wilhelm Ostwald, editor da revista Das monistische Jahrhundert (i. e. “O Século do Monismo” ) ; conhecessem todas as respostas. As dificuldades, julgava eu, deviam-se, totalmente, à mi­ nha compreensão limitada.

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6 . Minha primeira falha filosoficá: o problema do essencialàsmo Lembro-me perfeitamente da primeira discussão da primeira questão filosófica que se. tòrnou decisiva para o meu desenvolvi­ mento intelectual. A questão surgiu devido à minha. rejeição da atitude de atribuir importância a palavras, e seu significado (ou seu. .“ verâàâeiro. ■significado” ).

Eu deviá ter quinze anos, aproximadamente. Meu pai- havia sugerido que eu lesse alguns volumes- dà autobiografia de Strindberg. Não me recordo quais foram as passagens que m e-levaram . a,. con­ versando com meu pai, criticar o que eu/Considerava uma. atitude obscurantista de Strindberg: sua tentativa de extrair algo impor­ tante do “verdadeiro” significado de alguns vocábulos. Tenho lem­ brança, porém, de que me senti perturbadò em verdade; choca­ do — ao perceber que meti pai, enquanto eu formulava minhas objeçÕes, não se dava conta de minhas posições. Q ponto me parecia óbvio é, de fato, cada vez mais óbvio, na medida em que o expunha no correr da^ discussão. Quando interrompemos o diálogo, tarde da noite, compreendi que minhas idéias não tinham provocado muito impacto; havia de fato entre nós um abismo, que concernia a uma questão importante. Lembro-me ‘ de que depois dessa discussão pro­ curei - convencer-me a mim mesmo da. necessidade de. ter sempre presente o princípio de jamais discutir a respeito de palavras e seus significados, porque as discussões desse gênero, além de especiosas, são destituídas de importância. Lembro-me ainda de haver, ima­ ginado que esse princípio simples devia ser bem conhecido e ampla­ mente aceito: suspeitei que meu pai e Strindberg tinham-se esque­ cido de acompanhar os tempos.

Verifiquei, anos depois, que fora injusto com ambos; a erença na importância das palavras e de seus significados, particularmente das definições, era quase universal. A atitude que mais tarde deno­ minei “essencialismo” está ainda hoje muito disseminada e a frus­ tração sentida nos anos de escola tem voltado a perseguir-me com freqüência recentemente.

A sensação de que eu havia , falhado repetiu-se, pela primeira vez, quando tentei ler alguns, livros de Filosofia da biblioteca de meu pai. Descobri que a atitude de Strindberg e de meu pai. era, em verdade, muito generalizada. Isso gerou dificuldades para mim e certa aversão à Filosofia. Meu pai havia-me sugerido que eu lesser obras de Spinoza (uma cura, talvez), Infelizmente, não li .as. Cartas, mas a Ética e os Princípios Segundo Descartes, obras , que' estão cheias de definições que me pareceram arbitrárias, inúteis ,e

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* • ^

viciosasv (quando. chegavam a dizer alguma coisa). Disso, resultou uiria, ojeriza permanente pelas teorizações a propósito de Deus. (Á geologia, segundo penso ainda hoje, resulta da falta de fé.) Tam­ bém. percebi que a semelhança entre os procedimentos geométricos ,(a? Geometria riie Üavia fascinado, nos tempos de escola) e o more geometrico spinoziano era superficial. Kant era diferente. Embora eu achasse a Crítica muito difícil, pude notar que não abordava problemas ilusórios. Após tentar ler (com .encantamento, mas, se­ gundo imagino, sem clara compreensão do assunto) o “Prefácio” dâ segunda edição da Crítica (edição. <ie Benno Erdmann), lembro- -me de ter virado as páginas e de pérturbar-me e surpreender~me cOm o singular arranjo das antinomias. Não compreendi o ponto em exame. Não entendia o que Kant (ou qualquer outra pessoa) queria dizer ao asseverar que a razão podia contradizer-se a si mesma. Ainda assim observei, no quadro correspondente à primeira antinomia, que alguns problemas reais estavam em pau tá; e notei, com base no Prefácio, que era necessário compreender Matemática e Física a fim de debater tais problemas*

Neste ponto, creio que preciso voltar-me para a questão subja­ cente àquela discussão, cujo impacto sobre mim ténho presente ainda hoje. Tratà-se de uma questão que contínua a separar-me da maioria de meus contemporâneos e que, por haver assumido impor­ tância vital em minha vida de filósofo, devo examinar pormenori­ zadamente, ainda que isso exija uma longa digressão.

7 . Longa digressão a respeito do essenciàiismo : aquilo que ainda me separa da maioria dos pensadorès contemporâneos

Dois são os motivos que me levam a considerar isto uma di­ gressão. Em primeiro lügar, porque a. maneira pela. qual formulo minha posição antiessencialista, no terceiro parágrafo logo a seguir, é indiscutivelmente tendenciosa, pois resulta, de idéias muito poste­ riores aquelas que defendi na época a que alude, o capítulo anterior. Em segundo lugar, porque as partes finais do capítulo não visam propriamente a traçar a história de meu desenvolvimento intelec­ tual (embora esse aspecto não seja olvidado), mas a discutir uma questão cujo esclarecimento me tomou praticamente a vida inteira. Não pretendo insinuar que a formulação apresentada a seguir estivesse presente no meu espírito quándo eü tinha quinze anos de idade. Todavia, não vejo eomo definir1 com maior precisão a atitude que adotei após ia discussão travada còm meu pai, referida na seção anterior.

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Nunca se incline a considerar seriamente problemas relativos a palavras e seus significados. O que deve ser encarado com seriedade sao questões de fato e asserções a propósito, de fatosx teorias e hipó­

tesesf bem como os problemas que elas resolvem e.. suscitam.

No que segue, aludirei a este conselho que dei -a., mim mesmo chamando-lhe minha exortaçao ! antiess encialis t a.i. Dfiscóiisidefsnclò! a referência às teorias e às hipóteses (que deve ser;-.- provavelmente, bem posterior), a exortação traduz, com apreciável!/ fidelidade, os sentimentos que tive ao tomar consciência das armadilhas repre­ sentadas pelas preocupações ou discussões em torno- de: palavras £ seus significados. Aí está, segundo ainda hoje me parece,. ;.a. yia mais segura para a perdição intelectual: abandonar problemas reais

em favor de problemas verbais.

Cumpre ressaltar, porém, que meus pensamentos acerca desse ponto estiveram, durante longo período, imersos na crença ingênua, mas firme, de que; tudo isso devia ser bem conhecido, particular­ mente pelos filósofos, desde que estivessem suficientemente atualizados. A crença conduziu-me posteriormente, quando passei a . ler com a devida atenção as obras filosóficas, à tentativa de localizar meu problema — o da relativa falta de importância das palavras — entre os problemas tradicionais da Filosofia. Disso resultou minha decisão de que o problema estava intimamente associado ao clássico problema dos universais. Foi um erro de julgamento. Todavia, o erro índuziu-mè a dar atenção ao problema dos universais e à sua história; Convenci-me bem depressa de que por trás do clássico problema das palavras universais e de-seus significados (ou sentidos, ou denotações) havia um problema de maior profundidade e impor­ tância: o problema das leis universais e da sua verdade, isto é, o problema das regularidades.

O problema dos universais é tratado, ainda hoje, como se fora um problema acerca de palavras ou de usos da linguagem; ou de similaridades que se manifestam em certas situações e de como elas se põem em correspondência com similaridades de nossos simbo­ lismos lingüísticos. Parecia-me óbvio, entretanto, que o problema tinha muito maior, alcance; qúe ele dizia respeito, fundamentalmente, a reações similares, em situações biologicamente similares, Uma vez que todas (ou quase todas) as' reações, biologicamente falando, possuem um valor antecipatório, somos levados a considerar o proble­ ma da antecipação ou da expectativa e, por conseguinte, o problema da adaptação às regularidades.

-: Em toda a minha -vida não apenas acreditei na existência do que os filósofos denominam “mundo exterior** como também

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pjosiçãò^^GontráriÈt como indigna de: .ser encarada com ' :)^ ^ M f e r1?Sissa'^íãb; .quer dizer que eu não tenha discutido a questão comigo: inéàrno ou que não tenha tentado analisar, digamós5 o “mo-:nismo neutro” e outras posições idealistas semelhantes. Contudo, sempre :fut um adepto do realismo e isso meL permitiu notar que o termo s(trealismo” era empregado, no contexto da questão dos uni­ versais; com. significado bem peculiar: para indicar concepções :opostas ao nominalismo. A fim de contornar dificuldades oriundas

dèsse* modo de entender o vocábulo, inventei o termo “essenciàiismo” ■■(que provavelmente surgiu quando èu escrevia T h e Poverty . of Histoiicism, em 1935; ver “Nota Histórica*\ na edição em livro) para indicar qualquer concepção (clássica) oposta ao nominalismo, particularmente às teorias de Platão e de Aristóteles (e a “intuição, das?.essências”, de Husserl, entre os modernos);

Pelo menos dez anos antes de escolher esse nome eu já havia tomado, consciência .de que o: meu problema, diversamente do que sucedia, com o clássi,co problema, dos universais (e sua variante biológica), era ^nipToblema.-demêtoda. Com efeito, o que eu pro­ curara; gravar .na -mente, era uma, exortação, a pensar ou agir de uma;;dada! .maneira :e ínãor de outra*. Essa ai razão pela quãl, muito e “antiessencialisma”, eu j^^a^a^rtquaUÊicado ;‘‘^rninaHsmo’! xomo. termo de caráter “me­ todológico”, utilizando a> expressão “nominalismo metodológico” p^afídesignarv a^^tit)iid% caracterizada pela exortação. (Penso, hoje, que;;:p;. nqme. ,é; uni pouco enganador. A escolha de “nominalismo” resultou da, tentativa de comparar minha atitude com certas con-cepções. conhecidas ou da tentativa de pelo menos encontrar seme­ lhanças entre a atitude e alguma daquelas concepções. Todavia, nunca aceitei o “nominalismo” clássico.),

. No início da década iniciada em 1920 travei duas discussões que tiveram certa influência nessas idéias. A primeira com o eco­ nomista e teórico político Polanyi. Karl Polanyi acreditava que aquilo que eu chamava “nominalismo metodológico” era típico das Giências. Naturais, mas não das Ciências Sociais. A segunda dis­ cussão, que ocorreu um pouco mais tarde, travei-a com Heinrich Gomperz, pensador de idéias muito originais e vasta erudição, que muito me impressionou ao descrever minha posição como “realista”, em ambos os sentidos da palavra.

Julgo, agora, que tanto Polanyi como Gomperz estavam certos. Polanyi, porque as Ciências Naturais estão, isentas, em grande parte, de debates verbais, ao passo que o verbalismo. campeava (e ainda campeia) sob muitas f o r m as nas Ciências S o cia is. Mas isso não

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é tudo. Eu deveria dizer7a que as relações sociais pertencem, de múltiplas maneiras,: ao que em épocas recentes denominei 4‘terceiro mundo”, ou melhor, "mundo-3”, o mundo das teorias, dos, livros, das idéias, dos problemas; mundo que desde Platão — que o via como um universo de conceitos;— tem sido -analisado essencialistica-mente. De outra parte,' Gomperz estava certo, porque. ,um realista que admita a existência do “mundo.: exterior” acredita., necessaria­ mente, num cosmòs; nao em um. caos*" acredita, para dize-lò de outro modo, em regularidades. ‘E, conquanto’ eu .combatesse mais o essencialismo clássico do que o nòminálismo não me. dàva conta, na ocasião, de que, substituindo o problema ;da, existênciá de simi-laridades pelo probiqma da adaptação' biológica âs. regusimi-laridades, eu de fato me aproximava do “reâlismò” e não do nomihalisrno. A fim de explanar essas questões, nos moldes em que as coloco hoje, empregarei a tabela das idéias que publiquei em “On the Sources of Knowledge and Ignorance” 8.

ID ÉIA S ou sèjitf ENUNCIADOS o u PROPOSIÇÕES ou TEO RIAS D ESIG N A Ç Õ ES ou T E R M O S ou C O N C E IT O S

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por iats metos seu

S IG N IFIC A D O | , V E R D A D E conduz a um â regressão

infinita

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í? j©;-quadro é;.trivial:. está bem firmada a analogia lógica entre a coluna àa. esquerda e a da direita. Contudo, esse quadro permite ^situai; minha exortação, que pode ser assim reformulada:

. ' • Em que pese a perfeita analogia lógica• entre a coluna da es­ querda e a coluna da direita, a primeira é filosoficamente destituída ãe~import ancia, ao passo que a segunda e filosoficamente essencial9.

Isso implica que as filosofias do significado e as filosofias da linguagem (na medida em que se preocupem com palavras) seguem trilha errada. No que concerne àos assuntos intelectuais, os únicos alvos dignos de perseguir são teorias? verdadeiras ou teorias que se aproximam da verdade — isto é, que estão mais próximas da ver­ dade do que outras teorias rivais, mais antigas, por exemplo.

Acredito que a maioria das pessoas concordará com o que acabo de dizer; inclinar-se-ão essas pesSoas, porém, a argumentar como segue. Saber se uma teoria é verdadeira, ou nova, ou intelec­ tualmente signifiqatíva, é coisa que depende de seu significado; e o significado de uma teoria (desde que formulada sem ambigüidades* de um ponto de vista gramatical) é uma função dos significados das palavras em que a teoria é vazada. (“Função”, neste contexto, assim como na Matemática, é vocábulo utilizado com o objetivo de dar conta dà ordem, dos argumentos.)

Essa maneira de conceber p significado de uma teoria parece quase; óbvia; e amplamente acéita e, freqüentes vezes, inconsciente­ mente acolhida10. Apesar disso, quase não há verdade, no que ela sustenta. Eu: a refutaria sem descer a minúcias, com a. seguinte fprtnulação:

A relação? entre uxn- enunciado ou uma teoria e as palavras usa­ das para formulá-los e semelhante, .sob vários prismas, à relação que vige: entre palavras,, escritas e as letras utilizadas, para escrevê-las.

Obviamente^. as., "letras^ naç^ “significado”, no sentido em que a, têm as palavras j todavia, é indispensável conhecer as letras (ou seja,: seus “significados”, em. algum, outro sentido) para reco­ nhecer as palavras; e, assim, discemlr-lhes- os significados. Aproxi­ madamente, esm ole- podè dizer de palavras e enunciados ou teoriasv

s ’ As. letras, têm 'um papél meramente pragmático, ou técnico, na formação das palavras, No meu. entender, as palavras também de­ sempenham um : papél ^simplesmente pragmático, ou técnico, na for­ mulação de teorias» Assim, ietras-^e palavras são. apenas meios para certos fins (e fins diversificados).:- -E os únicos fins intelectualmente importantes, são; a formulação de problemas; a apresentação, em

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caráter de tentativa, de teorias que possam resolvei* esses problemas; e a discussão crítica de teorias rivais. A discussão crítica aprecia as teorias em termos de seu valor racional ou intelectual, como solu­ ções para o problema em pauta* e no que diz. respeito. à sua verdade ou aproximação da verdade. A. verdade é o princípio regulador fundamental quando se efetua a crítica das teorias; outro princípio é a capacidade que as teorias têm. :de colocar e jesolver novos pro­ blemas. (Ver, meu Conjectures and. Refutations; capítulo 10.)

Há exemplos excelentes para mostrar que duas: .teorias, e X 2, apresentadas em termos: inteiramente diversos- (termos: que não se traduzem de maneira biunívoca), podem - ser. apesar ídisso; logica­ mente equivalentes, a ponto de se poder -afirmar que se trata de meras formulações diferentes de uma: única teoria>. Isso atesta que é errôneo encarar o “significado” lógico dec mmà- teoria ;como algo que se determine pelos “significados” das palavras. (A fim de esta­ belecer a equivalência entre T 1 e T 2, pode ser necessário construir uma teoria mais ampla, T 3, na qual T x e T 2 venham a ser tra-duzíveis.' Sirva de exemplo um conjunto de axiomatiz&ções diversas da Geometria Projetiva; outro exemplo é dado pelos formalismos da Mecânica . Quântica, em termos de partículas ou em termos de ondas, cuja equivalência pode ser fixada quando os dois formalismos sao levados parà a linguagem dos operadores.)11

É óbvio, naturalmente, que a alteração de uma palavra pode produzir alterações radicais no significado de uma teoria ou de um enunciado, exatamente como a troca de uma letra pode modificar de todo o significado de Uma palavra e, assim, modificar uma teoria, fato que qualquer pessoa compreende, se já se interessou, digamos, pela interpretação dos textos de Parmênides. Todavia, os enganos de copistas ou de linotipistas,-conquanto fatalmente desnorteadores, podem ser corrigidos, via de regra, pelo exame do contexto,

Quem já se tenha dado ao trabalho de traduzir trechos escritos em outro idioma e tenha refletido sobre o tipo de esforço requerido, sabe que não existe uma tradução gramaticalmente correta e quase literal de qualquer texto iiiteressante. Uma boa tradução é uma interpretação do original; eu iria mais longe, afirmando que a boa tradução de um texto nao trivial deve ser uma reconstrução teoré-tica. Deve incorporar até pequenos comentários. Toda boa tradu­ ção tem de ser, a um tempo, próxima e livre. Incidentemente, é errôneo supor que as considerações de ordem estética não sejam pertinentes rias traduções de escritos de cunho teórico. Basta pensar numa teorià como. a de Newton ou a de Einstein para notar quão insatisfatória seria a tradução que fixasse o conteúdo da teoria se^u,

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;-íoda,via^4trazer à. tona certas ; simetrias^ internas que ela apresenta. Se alguém ;lesse uma tradução em que tais simetrias nao se fizessem pi:esé.ntesji ;,esse .alguém, ao descobri-las, “julgaria com razão que tinha umái iG o n trib u iç ã o original a dar, que havia descoberto um teorema,

aind.á.que o teorema interessasse apenas por motivos de ordem esté­ tica... (Motivos análogos: tornam preferível — mantendo-se outros fatores em pé de igualdade — uma tradução em verso das obras de Xenófanes, Parmênides, Empédocles ou Lucrécio, que se há

de-r e v e l a de-r m u i t o s u p e de-r i o de-r à t de-r a d u ç ã o e m p de-r o s a. ) 12

De qualquer maneira, embora uma tradução possa mostrar-se imperfeita por não ser suficientemente precisa*, a tradução precisa de um texto difícil simplesmente não existe. E se as duas línguas em tela tiverem estruturas diversas, algumas teorias poderão ser quase intraduzíyeis (como Benjamin Lee Whorf tão bem ressaltou). Ê claro que se as duas línguas se assemelharem tanto quanto, por exem­ plo, o grego e o latim, a introdução de alguns poucos vocábulos novos tornará a tradução possível. Contudo, há casos em. que co­ mentários minuciosos precisam; substituir a tradução 13.

Tendo em conta todos. essesr fatos* percebe-se quanto equívoco existe na idéia de linguagem precisa ou de. precisão de linguagem. Se nos, dispuséssemos a colocar “Precisão” em nosso Quadro de Idéias; apresentado acimaj fesse- iermo: figuraria.na coluna da ésquerda (porqueaj precisão lingiMstica de ,uxn .enunciado, dependeria inteira- , menter/d ^ ^ècis^ãòí;ídas palavras • utiUzadas^ vj.. ò termo teria por .cor-respôndeiitè^na .cpluna, da direita,; algo como; “Certeza”. Todavia, não ,po|og.uéi{.^çsse^- tennçs.. .jip:. quádro porque; desejei construí-lo de maneir;ã: ;a:.^conservar ánte^almenteMO. y;alor da., coluna da direita; e a pi^ççisa^ > : e z ideais; impossível alcançá-los, de modo,;:que;,ígles sef/íomamvp^iSP5^??1^11^6 enganadores, quando aceitos, sem; críticaj -na concÜção ^de guias. Perseguir. precisão ê o mesmo que perseguir certezas e, ambos, os; tobjetivos deverá ser .abandonados. ■

Não estou sugerindo, é, clarp, -que lo aumento ,de. precisão nao possa, tornar-se assazrdesejáyel. numa previsão ou na. formulação de^.ç^tas^íMoçÕesÇ.r. - e s t o u sugerindo resume-se nisto:, é sempre And&ejaueUéf&zer: jesforços.. no, sentido de. aumentar, a pr.eçisãpj a bem.âela^ r—: particularmente a: precisão lingüística ■ porque. isso leva, d-e. .':}iabito.j._..a. uma. diminuição da clareza, a uma perda de tempo e deí lenergia..com. .aspectos secundários (que muitas vezes são., inúteis, pois^e^yeem^supexadospelo real avanço da m atéria). Nunca se. deve procurar rnaipr, precisão do que a exigida: pela situação. Creio poder, formular minha posição da seguinte maneira. Cada aumento de clareza tem, por si: mesmo, u m valor intelectual; o au­

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