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Liberdades. revista. Publicação do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais nº 18 janeiro/abril de 2015 ISSN

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L

iberdades

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| Publicação do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais | nº 18 – janeiro/abril de 2015 | ISSN 2175-5280 |

Expediente | Apresentação | Entrevista | Spencer Toth Sydow entrevista Luis Ernesto Chiesa | Artigos | Globalização e o Direito Penal | Carlo Velho Masi | Voltaire de Lima Moraes | A independência judicial e o inconsciente do julgador: um diálogo (im)possível? | Bruno Seligman de Menezes | Algumas indagações sobre a desnecessidade da proibição de extraditar em casos de crimes políticos: seria o terrorismo um crime político? | Gabriela Carolina Gomes Segarra | A perspectiva psicanalítica do crime e da sociedade punitiva | Carlos Eduardo da Silva Serra | Labelling Approach: o etiquetamento social relacionado à seletividade do sistema penal e ao ciclo da criminalização | Raíssa Zago Leite da Silva | El discurso de los menores bajo medida judicial | Concepción Nieto Morales | História | O pensamento de Enrico Ferri e sua herança na aplicação do direito penal no Brasil contemporâneo | Maria Paula Meirelles Thomaz de Aquino | Resenha de Livro |“Um preço muito alto: a jornada de um neurocientista que desafia nossa visão sobre as drogas”, de Carl Hart | Roberto Luiz Corcioli Filho

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Diretoria da Gestão 2015/2016

Publicação do

Instituto Brasileiro de Ciências Criminais

Diretoria Executiva

Presidente:

Andre Pires de Andrade Kehdi

1º Vice-Presidente:

Alberto Silva Franco

2º Vice-Presidente:

Cristiano Avila Maronna

1º Secretário:

Fábio Tofic Simantob

2ª Secretária:

Eleonora Rangel Nacif

1ª Tesoureira:

Fernanda Regina Vilares

2ª Tesoureira:

Cecília de Souza Santos

Diretor Nacional das

Coordenadorias Regionais e Estaduais:

Carlos Isa

Conselho Consultivo

Carlos Vico Mañas Ivan Martins Motta

Mariângela Gama de Magalhães Gomes Marta Saad

Sérgio Mazina Martins

Ouvidor

Yuri Felix

Colégio de Antigos Presidentes e Diretores

Alberto Silva Franco Alberto Zacharias Toron Carlos Vico Mañas Luiz Flávio Gomes

Mariângela Gama de Magalhães Gomes Marco Antonio R. Nahum

Marta Saad

Maurício Zanoide de Moraes Roberto Podval

Sérgio Mazina Martins Sérgio Salomão Shecaira

Coordenação da

Coordenador-Chefe:

Roberto Luiz Corcioli Filho

Coordenadores-Adjuntos:

Alexandre de Sá Domingues, Giancarlo Silkunas Vay, João Paulo Orsini Martinelli, Maíra Zapater, Maria Gorete Marques de Jesus e Thiago Pedro Pagliuca Santos.

Conselho Editorial:

Alexandre Morais da Rosa, Alexis Couto de Brito, Amélia Emy Rebouças Imasaki, Ana Carolina Carlos de Oliveira, Anderson Bezerra Lopes, André Adriano do Nascimento Silva, André Vaz Porto Silva, Antonio Baptista Gonçalves, Bruna Angotti, Bruno Salles Pereira Ribeiro, Camila Garcia, Carlos Henrique da Silva Ayres, Christiany Pegorari Conte, Cleunice Valentim Bastos Pitombo, Daniel Pacheco Pontes, Danilo Dias Ticami, Davi Rodney Silva, Décio Franco David, Eduardo Henrique Balbino Pasqua, Fábio Lobosco, Fábio Suardi D’ Elia, Francisco Pereira de Queiroz, Fernanda Carolina de Araujo Ifanger, Gabriel de Freitas Queiroz, Gabriela Prioli Della Vedova, Giancarlo Silkunas Vay, Giovani Agostini Saavedra, Humberto Barrionuevo Fabretti, Janaina Soares Gallo, João Marcos Buch, João Victor Esteves Meirelles, Jorge Luiz Souto Maior, José Danilo Tavares Lobato, Leonardo Smitt de Bem, Luciano Anderson de Souza, Luis Carlos Valois, Marcel Figueiredo Gonçalves, Marcela Venturini Diorio, Marcelo Feller, Maria Claudia Girotto do Couto, Matheus Silveira Pupo, Maurício Stegemann Dieter, Milene Maurício, Rafael Serra Oliveira, Renato Watanabe de Morais, Rodrigo Dall’Acqua, Ryanna Pala Veras e Yuri Felix.

revista

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Apresentação

...5

Entrevista

Spencer Toth Sydow entrevista Luis Ernesto Chiesa ...7

Artigos

Globalização e o Direito Penal ...16

Carlo Velho Masi e Voltaire de Lima Moraes

A independência judicial e o inconsciente do julgador: um diálogo (im)possível? ...44

Bruno Seligman de Menezes

Algumas indagações sobre a desnecessidade da proibição de extraditar

em casos de crimes políticos: seria o terrorismo um crime político? ...59

Gabriela Carolina Gomes Segarra

A perspectiva psicanalítica do crime e da sociedade punitiva ...79

Carlos Eduardo da Silva Serra

Labelling Approach: o etiquetamento social relacionado à seletividade do

sistema penal e ao ciclo da criminalização ...101

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El discurso de los menores bajo medida judicial ...110

Concepción Nieto Morales

História

O pensamento de Enrico Ferri e sua herança na aplicação do direito penal

no Brasil contemporâneo ...127

Maria Paula Meirelles Thomaz de Aquino

Resenha de Livro

“Um preço muito alto: a jornada de um neurocientista que desafia nossa

visão sobre as drogas”, de Carl Hart ...152

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Apresentação

Inicia-se 2015. No ano que passou as edições da Revista Liberdades trouxeram textos que sempre nos provocaram a reflexão. A primeira edição do novo ano, creio, conseguirá manter a linha.

Iniciamos com uma entrevista repleta de pontos polêmicos. Concedida pelo professor da Universidade de Nova Iorque, Luis Ernesto Chiesa, a Spencer Toth Sydow, o entrevistado revela a importância de seus mestres George Fletcher e Francisco Muñoz Conde, em uma formação em Direito Penal que reúne as visões continental e anglo-saxã sobre a matéria. Fornece detalhes da analogia em Direito Penal possível no direito americano e expõe sua polêmica posição determinista do agir humano.

Entre os artigos, Carlo Velho Masi e Voltaire de Lima Moraes retomam a Globalização, criminalidade internacional e política criminal. Após uma abordagem histórica e teórica da globalização e duvidar de sua linearidade, preocupam-se com seus efeitos sobre a produção em matéria penal.

Nesta edição, duas expedições sobre uma ciência sempre presente e pouco penetrada pelos operadores do Direito. No primeiro artigo, Bruno Seligman de Menezes adentra no diversificado e fascinante mundo da psicologia para, à luz do pensamento Freudiano, investigar a imparcialidade judicial.

Carlos Eduardo da Silva Serra, analisando correntes psicológicas diversas, investiga suas influências nas teorias criminológicas sobre o delito e a culpa.

Gabriela Carolina Gomes Segarra discute o instituto da extradição e a diferenciação entre crimes comuns e crimes políticos. Em especial a discussão gira em torno da dificuldade de conceituação do “político” que qualifica o delito e da evidente preocupação com a classificação do terrorismo naquela categoria.

De forma direta e didática, Raíssa Zago Leite da Silva apresenta o labelling Approach, em um texto que tem como maior mérito a fluidez e brevidade das ideias em, após descrever a teoria, relacioná-la com a seletividade do sistema penal e suas consequências mais evidentes.

A perene preocupação com a formação socioeducativa dos adolescentes submetidos a medidas judiciais é explanada por Concepción Nieto Morales. Em seu texto, investiga as causas da criminalidade juvenil espanhola analisando aspectos como família, escola, amigos e drogas, e as confronta com a legislação da Espanha sobre a matéria.

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Um preço muito alto é um livro de memórias escrito por Carl Hart. Roberto Luiz Corcioli Filho nos apresenta uma resenha das memórias de um professor que ultrapassam a narrativa de fatos vividos e invadem um contexto de crítica social sobre o tratamento das drogas e sua política proibicionista.

Na seção de história, Enrico Ferri, notório pensador positivista, é retratado por Maria Paula Meirelles Thomaz de Aquino de forma cuidadosa e responsável. No texto, a autora consegue um retrato fiel e bem elaborado sobre as ideias de Ferri, os institutos que auxiliou a criar e como tais contribuições afetaram e ainda afetam sistemas penais pelo mundo, inclusive no Brasil. O Texto tem ainda outro mérito: foi produzido no seio do grupo de estudos avançados do instituto.

A primeira edição do ano marca também a passagem do cetro. Nas próximas edições, a revista contará com nova coordenação, algo sempre necessário e salutar para sua sobrevivência. Certamente, a qualidade será superada e toda a sorte é desejada ao trabalho que se inicia.

Boa leitura e um bom ano.

Alexis Couto de Brito

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Spencer Toth Sydow entrevista

Luis Ernesto Chiesa

1)

Por favor, nos conte um pouco sobre sua história pessoal, relacionada com seus estudos jurídicos.

Resposta: Na realidade, eu estudei administração de empresas, com concentração em contabilidade, na

Universidade de Porto Rico em minha graduação. Nos Estados Unidos – inclusive em Porto Rico – têm-se que

fazer quatro anos de graduação preliminar (denominada undergrad) após o colegial para poder ingressar na

faculdade de Direito. Após isso, a faculdade de Direito leva três anos. O resultado disso é que você recebe o título

de juris doctor após os sete anos de estudos que se seguem à escola. Depois de completar a faculdade de Direito,

fui para a Universidade de Columbia, em Nova Iorque, para cursar meu mestrado e, eventualmente, meu doutorado

em Direito (JSC ou Juris Science Doctorade, que é o grau de pesquisador em Direito). Aprendi imensamente

em Columbia, levando-se em conta que meus orientadores naquela universidade foram os Professores George

Fletcher e Francisco Muñoz Conde, ambos ganhadores do importante prêmio Humbold Wissenchaft em suas

bolsas de estudo em direito criminal.

Em termos de minha carreira, comecei a lecionar em tempo integral na Faculdade de Direito de Pace (Pace Las

School) em White Plains, Nova Iorque. Fiquei por lá por sete anos. No ano de 2013, fui aceito como professor de

Direito e Diretor do Centro de Direito Criminal de Buffalo, na State University of New York. Atualmente, também sou

o vice-diretor da Faculdade de Direito. Como diretor do Centro de Direito Criminal de Buffalo (CDCB), sou capaz

de fornecer aos estudantes e pesquisadores uma plataforma única para imersão em estudos acerca de direito

penal norte-americano, internacional e comparado. O CDCB enriquece a vida acadêmica da Faculdade de Direito

de Buffalo, pois a comunidade acadêmica nacional e internacional organiza importantes eventos acadêmicos,

recebendo estudiosos e promovendo a convergência entre as aproximações entre o sistema de commom law e o

de continental law relacionados à justiça criminal.

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na Universidade Torcuato di Tella em Buenos Aires (Argentina), na Universidade de Ottawa (Canadá) e na

Universidade de Porto Rico.

Finalmente, estou atualmente envolvido com o Poder Legislativo de Porto Rico para promover a mudança de seu

Código Penal.

2)

Então é possível dizer que você estudou tanto o direito continental quanto o direito anglo-saxão (common law)? Quanto importante isso foi para você e na sua vida profissional?

Sim, eu estudei ambas as aproximações no que se refere ao direito criminal durante meus estudos de graduação

e, mais tarde, em meu doutorado na Faculdade de Direito de Columbia, Nova Iorque. Estudar direito criminal

em Porto Rico necessariamente implica estudar direito criminal comparado, uma vez que o estado mistura

jurisdições civis e anglo-saxãs à luz de seus laços históricos com a Espanha e seus laços atuais com os

Estados Unidos da América do Norte. Eu aprofundei tais estudos comparados em meu doutorado, uma vez

que o Professor George Fletcher é um dos principais estudiosos do mundo nessa área. Além disso, aprendi

muito sobre direito criminal continental com Francisco Muñoz Conde, que considero ser meu mestre espanhol.

Considero ter sido essencial tal perspectiva comparativa para minha formação como pesquisador e como

professor. Isso contaminou todos os aspectos da minha vida pessoal e é o fator definidor da minha carreira

de estudos. Creio que se pode aprender muito olhando para outros sistemas legais e observando como tais

sistemas lidam com problemas comuns. Direito comparado nos dá uma ferramenta importante nesse sentido.

3)

Em sua opinião, quais as principais diferenças entre os dois sistemas (common law e continental law)?

Embora existam muitas maneiras em que sistemas de common law e civil law possam variar, uma diferença

particularmente importante é a maneira pela qual os advogados em cada jurisdição raciocinam a partir de um

problema jurídico.

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Em geral, os advogados de direito anglo-saxão raciocinam o direito penal (e outras áreas do Direito) indutivamente.

Ou seja, eles começam com um caso (ou grupo de casos) no qual eles têm interesse em resolver de modo

realista, razoável. Então o caso é decidido de uma forma que parece adequada. Subsequentemente, casos

semelhantes são decididos de forma semelhante. Eventualmente, um princípio que explica por que esses

casos foram decididos de forma semelhante surge como resultado do raciocínio indutivo.

Advogados de direito anglo-saxão, portanto, progridem de casos específicos para princípios gerais. Mas os

princípios apenas passam a existir porque eles representam adequadamente a resolução correta dos casos

individuais. Se surgirem casos no futuro que não podem ser resolvidos de forma justa pela aplicação do

princípio, advogados de direito anglo-saxão são bastante tendentes a fazer revisão ou abandonar o princípio

se essa for a única maneira de resolver um caso concreto (ou um grupo de casos) de forma adequada.

Em contraste, os advogados de direito continental tipicamente raciocinam seu caminho através de um problema

jurídico de modo dedutivo. Ou seja, eles começam a sua análise de um caso com um princípio aparentemente

aplicável, que é geralmente aceito como prevalente e vinculativo. Eles, então, aplicam o princípio para o caso

em questão para se chegar a uma solução. Advogados de direito continental, portanto, tipicamente vão dos

amplos princípios geralmente aceitos para a resolução específica de casos concretos. Como resultado, ao

contrário de jurisdições de direito comum, os princípios não se justificam, porque eles fornecem resultados

intuitivos em casos particulares. Em vez disso, os princípios são justificados, porque eles são vistos como

prevalentes de forma independente ou obrigatórios, independentemente de produzirem soluções intuitivas ou

contraintuitivas para casos particulares. O princípio é visto como autoritário ou o prevalente se ele deriva de

compromissos jurídicos, políticos ou morais ainda mais amplos.

4)

Por que você diz que o direito anglo-saxão não possui uma aproximação dogmática em seu modo de ser?

Alguns estudiosos de direito anglo-saxão realmente constroem o direito penal de uma forma que provavelmente

seria descrita como “dogmática”. O exemplo mais óbvio é o do Professor Paul Robinson. Se um estudioso de

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direito continental lesse o livro de Paul Robinson intitulado Estrutura e Funcionamento em Direito Penal (1997),

ele ficaria chocado com a semelhança da abordagem de direito penal feita por ele frente às modernas teorias

funcionalistas do tipo, populares em jurisdições atuais.

No entanto, não há nenhuma dogmática no direito anglo-saxão em um sentido mais amplo, porque teóricos

anglo-americanos passam pouco tempo tentando racionalizar normas legais existentes. Em vez de se engajar

em tais esforços descritivos, os teóricos anglo-americanos se envolvem mais no que você poderia chamar de

“filosofia do direito penal”. Portanto, eles veem seu trabalho como um conceito normativo que não pergunta

“como é que podemos racionalizar a lei existente” (a questão dogmática), mas sim “como deveria ser a lei

ideal” (a questão filosófica). É por isso que os principais professores anglo-americanos de direito penal são

realmente mais filósofos do que advogados (por exemplo, Michael Moore, Antony Duff, Doug Husak, Heidi

Hurd, Larry Alexander etc).

5)

Quais os trabalhos e/ou autores que mais o influenciaram em sua carreira?

O trabalho de direito penal que mais me influenciou foi – de longe – Repensando direito penal (Rethinking

Criminal Law), de George Fletcher. Eu acho que é o mais importante livro de Direito Penal escrito em qualquer

língua no século XX. É incrível como Fletcher foi capaz de expressar – em inglês – ideias, como a teoria finalista

da ação de Welzel, de um modo a fazê-la relevante para os advogados de direito anglo-saxão (common

law). Um trabalho realmente impressionante. É uma verdadeira pena que ele não tenha sido traduzido para o

espanhol, alemão ou português. Espero que alguém traduza isso em breve. Outra obra que influenciou meu

pensamento foi Estrutura e Funcionamento em Direito Penal (Structure and Function in Criminal Law), de Paul

Robinson. Lê-se como um texto em alemão, mas escrito em inglês. Fiquei impressionado com a forma como o

pensamento de Robinson é semelhante com a teoria básica do direito penal alemão.

No que se refere a autores europeus, fui bastante influenciado pela teoria da ação elaborada em Fundamentos

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forma como eu encaro o injusto passivo. Eu também acho muito importantes as obras de Manuel Cancio Meliá

sobre causalidade, “imputação objetiva” e conduta da vítima. Finalmente, admiro a obra de Jakobs, embora eu

costume discordar dele. No entanto, é difícil negar que Jakobs seja o teórico de direito criminal alemão mais

filosoficamente sofisticado das últimas décadas.

6)

Você acredita que estamos diante de uma espécie de fusão entre direito anglo-saxão e direito continental, especialmente considerando crimes que possuem consequências internacionais como lavagem de dinheiro, corrupção e crimes informáticos?

Na verdade, eu não acredito que o que está acontecendo pode ser chamado de “fusão” ou uma “convergência”

dos sistemas de common law e continental law de direito penal. Infelizmente, acho que o direito penal ainda

é considerado uma disciplina paroquial. No entanto, o Estatuto de Roma é definitivamente um exemplo que

tenta mesclar os dois sistemas. Creio que a afirmativa é verdadeira para Direito Penal Internacional em geral,

embora eu ache que ainda exista muito trabalho a ser feito; também acredito que os estudiosos do direito

penal internacional em geral – com exceção de Kai Ambos – comumente não são muito sofisticados em sua

compreensão da teoria do direito penal. Também é verdade que os crimes com consequências internacionais,

tais como lavagem de dinheiro, corrupção e crimes de internet, provavelmente vão forçar uma aproximação

dos sistemas para se conseguir lutar contra esses males. No entanto, eu não acredito que estamos lá ainda.

7)

Você acredita que os Estados Unidos da América do Norte possuem uma forma mais ampliada de interpretar o direito criminal?

Uma coisa que deve ser esclarecida é que nos EUA – como em jurisdições continentais europeias – o principal

órgão encarregado de criar o direito penal é o legislador. No entanto, é verdade que os tribunais norte-americanos

se sentem mais confortáveis para interpretar as leis penais de forma mais ampla do que seria, provavelmente,

considerada censurável na Europa ou na América Latina. Assim, por exemplo, a principal preocupação do

princípio da legalidade nos EUA parece ser a de garantir ao cidadãos um aviso prévio e justo do que seria uma

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conduta proibida, em vez de garantir uma apropriada separação de poderes entre o Legislativo e o Judiciário.

Como resultado, a chamada “proibição de analogia” (in bonan ou in malan partem) não existe nos EUA, uma

vez que os tribunais podem interpretar as legislações criminais analogicamente desde que a interpretação seja

razoavelmente previsível e, portanto, não prive cidadãos de aviso prévio e justo da existência da proibição da

conduta.

8)

Os Estados Unidos da América do Norte têm a maior população carcerária do mundo. Quais as causas que justificam isso em sua opinião? O sistema é muito eficiente, muito radical ou a sociedade é muito criminalizada?

Há um consenso entre os estudiosos do direito penal nos EUA de que nosso direito penal é demasiado punitivo

e que temos tanto um problema de supercriminalização quanto de superpopulação carcerária. As causas para

o encarceramento em massa são de natureza política. Políticos americanos frequentemente fazem campanhas

baseadas em uma mentalidade de serem “duros com o crime” que, inevitavelmente, se traduz em mais punição.

Estudiosos de ciências criminais sabem que isso não funciona, mas os políticos não se importam. Dito isso,

acredito que estamos começando a enxergar uma inversão da tendência de encarceramento em massa. As

prisões estão atualmente muito lotadas, e manter tantos detentos está começando a se tornar um grave fardo

financeiro. Isso está levando à liberação de muitos prisioneiros. Além disso, vários estados já descriminalizaram

o uso da maconha. Se essa tendência continuar, veremos consideravelmente menos prisões e, portanto,

menos pessoas presas ao menos por posse de drogas.

9)

O que você acha do Patriot Act (“Lei Patriota” promulgada após o episódio das Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001)? Acredita que diminui direitos constitucionais e processuais?

A “Lei Patriota” claramente restringiu os direitos substantivos e processuais dos suspeitos. No entanto, se a

restrição de direitos equivale a uma violação da constituição, já é uma questão diferente. É óbvio que a tortura

que aconteceu em Guantánamo e em prisões secretas eram inconstitucionais. É também óbvio que a detenção

prolongada de suspeitos sem eles terem a oportunidade de contestar a legalidade da sua detenção em um

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tribunal é inconstitucional. Mas nenhuma dessas situações foi autorizada pelo Patriot Act. Eram coisas que o

ex-presidente George W. Bush fez sem expressa autorização legislativa ou judicial. Um problema mais difícil

é a existência atual dos Tribunais FISA (Tribunais criados pelo Foreign Intelligence Surveillance Act ou Lei de

Vigilância da Inteligência Estrangeira), que autorizam a pesquisa de registros de internet e telefone celular

sem obtenção de um mandado tradicional de um tribunal norte-americano. Não estou convencido de que esse

procedimento é constitucional.

10)

É verdade que você não acredita em livre-arbítrio? Poderia nos explicar um pouco sobre isso?

É verdade. Antes de explicar meu ponto de vista, deixe-me primeiro esclarecer o que quero dizer com

“livre-arbítrio”. Eu defino o livre-arbítrio como “o grau de liberdade que faz juízos de culpa e atribuições de

responsabilidade moral possíveis”. Uma vez definido o livre-arbítrio dessa maneira, é fácil ver por que ele é

ameaçado pela tese do determinismo causal. Determinismo causal é a crença de que tudo o que acontece no

universo, incluindo a conduta humana, é o produto de tudo o que aconteceu no passado, em combinação com

o funcionamento de leis naturais.

Há pelo menos quatro razões que sugerem que a tese do determinismo causal deve ser levada a sério.

Primeiro, não há respaldo científico para a visão de que o comportamento de objetos macroscópicos é

determinado causalisticamente pela confluência do passado e as leis naturais. Em segundo lugar, estudos

neurocientíficos famosos, como os realizados por Benjamin Libet, sugerem que a conduta humana é determinada

por processos inconscientes que não estão sob o controle do ator.

Em terceiro lugar, estudos biológicos demonstram que aspectos do comportamento humano são, em

grande parte, determinados por nossa composição genética. Por fim, vários estudos psicológicos sugerem a

possibilidade de que aspectos do comportamento humano são determinados, em grande medida, por fatores

ambientais.

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Nenhum desses motivos sozinho é suficiente para estabelecer a verdade do determinismo causal.

No entanto, a combinação de todos esses fatores faz pelo menos com que uma dúvida séria seja lançada

sobre se o comportamento humano pode ser rastreado até processos indeterministas. Esse é especialmente

o caso quando a evidência mais forte até agora em favor da conclusão de que o comportamento humano não

é causalisticamente determinado é a intuição de que nós controlamos nossos destinos de uma forma que

desmente a tese do determinismo.

A maioria das pessoas acredita que seres humanos podem ser culpados ou elogiados por aquilo que fazem

apenas se tiverem a capacidade de escolher agir de forma diferente (os filósofos chamam este o princípio de

possibilidades alternativas). O determinismo causal ameaça o princípio de possibilidades alternativas, porque

sugere que, dada a fixidade do passado e da imutabilidade das leis naturais, os seres humanos não têm

controle sobre os fatores que moldam a sua conduta.

Curiosamente, a maioria dos filósofos e cientistas concorda que o determinismo causal é verdadeiro. No entanto,

muitos filósofos (os chamados “compatibilistas”) também acreditam que o livre-arbítrio é compatível com a

verdade do determinismo causal. Eu sou cético de que o livre-arbítrio e o determinismo causal são compatíveis.

À luz desse ceticismo, prefiro acreditar que o determinismo causal é verdadeiro e, assim, incompatível com

o livre-arbítrio (sou o que os filósofos chamam de “incompatibilista rígido”). Além disso – e mais importante –,

acredito que nós não perdemos muito se rejeitarmos o livre-arbítrio. Na verdade, penso que o direito penal é

melhor sem livre-arbítrio.

Se partirmos do princípio de que os seres humanos não têm livre-arbítrio, isso nos levaria a livrar-nos da

finalidade retributiva como uma justificativa para a imposição da pena.

Ao contrário do que os retributivistas nos querem fazer crer, acabar com a retribuição não faria o nosso sistema

de justiça criminal menos atraente.

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Uma legislação penal que não depende da retribuição como justificativa para a punição deverá conceber punição

como forma de neutralizar os infratores perigosos. Conceituar o direito penal como instrumento que pode ser

usado para neutralizar os infratores perigosos é suscetível de conduzir a um sistema economicamente mais

eficiente e humano de justiça criminal que se baseia menos em encarceramento e muito mais no tratamento e

reabilitação.

Como resultado, há boas razões para acreditar que a assunção de que os seres humanos não têm livre-arbítrio

geraria uma lei penal mais normativamente atraente do que a que temos hoje e isso, por sua vez, fornece-nos

boas razões para abraçar uma solução incompatibilista ao problema do livre-arbítrio.

11)

É importante que estudantes de um país que adota a sistemática continental como o Brasil estudem a forma de pensar do direito anglo-saxão? Como e por quê?

Certamente é importante. Creio que aprender como o direito anglo-saxão se aproxima do direito continental

dá ao estudante uma ferramenta por meio da qual ele pode avaliar a legislação de seu próprio país. Mais

especificamente, o estudante poderá verificar quais legislações necessitam de mudanças.

Embora esse uso crítico do direito criminal comparado seja obviamente relevante para a reforma legislativa,

também pode informar como o sistema judicial responde a questões complexas e importantes do direito penal

doméstico. Se ambos os sistemas abordarem um problema da mesma forma, então pode-se ter certeza de que

a solução é a correta. No entanto, se a solução do direito anglo-saxão para um determinado problema é diferente

da solução do direito continental europeu, então há razão para pensar sobre o assunto mais profundamente.

Por que as soluções são diferentes? Posso aprender alguma coisa com essa outra abordagem? É possível que

o outro sistema legal esteja realmente certo e o meu, errado? Essas são questões importantes e você pode

aprender muito sobre o seu próprio sistema de direito penal comparando-o com um sistema diferente.

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artigo 01

artigo 02

artigo 03

artigo 04

artigo 05

artigo 06

Globalização e o Direito Penal

Carlo Velho Masi

Mestre em Ciências Criminais pela PUC-RS.

Especialista em Direito Penal e Política Criminal pela UFRGS.

Pós-graduando em Direito Penal Econômico pela Universidade de Coimbra. Advogado Criminalista.

Voltaire de Lima Moraes

Mestre e Doutor pela PUC-RS.

Desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Professor do PPGCCrim da PUC-RS.

Resumo: Como fenômeno de contornos ainda difusos, a globalização demanda permanentes estudos em diversas áreas do conhecimento. Hoje, é inegável sua influência sobre o Direito e, de forma muito acentuada, sobre o Direito Penal. Entender quais as implicações da globalização sobre a questão criminal é um desafio do qual não podem se furtar as ciências criminais no contexto de liminaridade em que vivemos. Sendo assim, o presente artigo busca entender os múltiplos significados do fenômeno e seus principais atributos, avaliando seus reflexos sobre o Direito Penal moderno e sobre as perspectivas futuras da disciplina. De um modo geral, é possível perceber que o Direito Penal da globalização depara-se com uma criminalidade transnacional e organizada, o que inegavelmente demanda uma série de adaptações. Ao lado de uma corrente eficientista com maior aceitação, permanece vivo um discurso de resistência, que alerta para os malefícios de um expansionismo desenfreado. Graças à ampla possibilidade de debate que o ambiente atual propicia é possível verificar que o avanço da globalização implica uma maior intervenção do Direito Penal e uma diminuição da importância do Estado Nacional na tomada de decisões político-criminais.

Palavras-chave: Globalização; Direito Penal; Estado Nacional; Expansionismo Penal.

Abstract: As a phenomenon with still diffuse contours, Globalization demands permanent studies in many areas of knowledge. Today, its influence on the Law is undeniable, especially on the Criminal Law. To understand the implications of Globalization on the criminal matter is a challenge that the criminal sciences cannot evade in the context of liminarity in which we live in. Therefore, this article seeks to understand the multiple meanings of the phenomenon and its key attributes, assessing its impact on the modern Criminal Law and the future perspectives of the discipline. In general, it is possible to find that the Globalized Criminal Law faces a transnational and organized criminality, which undeniably requires a number of adjustments. Beside an efficientist party with greater acceptance, a resistance speech remains alive warning to the dangers of an unbridled expansionism. Thanks to the wide opportunity the current environment favors it is possible to verify that the advance of Globalization implies a greater intervention of the Criminal Law and a diminishing importance of the national state in taking criminal policy decisions.

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artigo 01

artigo 02

artigo 03

artigo 04

artigo 05

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Keywords: Globalization; Criminal Law; National State; Criminal expansionism.

Sumário: 1. Introdução: a ambiguidade do fenômeno – 2. As múltiplas extensões – 3. A falácia – 4. Os modos de produção – 5. Os efeitos – 6. A ruptura das fronteiras espaciais e temporais – 7. O esvaziamento da soberania e da autonomia nacionais – 8. O Direito Penal global – 10. Considerações finais: as consequências – Referências.

1. Introdução: a ambiguidade do fenômeno

A globalização apresenta-se como fenômeno de contornos ainda difusos.1 Como expressão ambígua, pode designar

tanto o poder, como a ideologia que pretende legitimá-lo. Na visão de Zaffaroni, não é um discurso, mas nada mais que um “novo momento de poder planetário”.2 A propósito, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso observa que, conquanto

tenha ganhado ímpeto recentemente, o tema de globalização, não é nada novo e refere-se ao grande debate em torno da expansão do capitalismo no século XIX.3

Novos ou antigos, os processos de globalização são fenômenos multifacetários de dimensões econômicas, sociais, tecnológicas, políticas, culturais, religiosas e legais, todas conectadas a uma tendência complexa. Estranhamente, combinam-se tanto a universalidade e a eliminação de fronteiras nacionais quanto a diversidade local, a identidade étnica e o retorno aos valores comunitários.

As origens do globalismo remontam o Estado de Direito de inspiração liberal-clássica, em que se tinham por objetivos e características “o princípio da soberania nacional, a ideia de Constituição e o primado do equilíbrio entre os

1 Segundo Paulo Sandroni, o termo “designa o fim das economias nacionais e a integração cada vez maior dos mercados, dos meios de comunicação e dos

transportes. Um dos exemplos mais interessantes do processo de globalização é o global sourcing, isto é, o abastecimento de uma empresa por meio de fornecedores que se encontram em várias partes do mundo, cada um produzindo e oferecendo as melho-res condições de preço e qualidade naqueles produtos que têm maiores vantagens comparativas” (SAN-DRONI, Paulo (org.). Novíssimo dicionário de economia. São Paulo: Best Seller, 1999, p. 265).

2 O autor refere-se a três momentos de poder planetário: a revolução mercantil e o colonialismo, nos séculos XV e XVI; a revolução industrial e o

neocolonialismo, nos séculos XVIII e XIX; e a revolução tecno-lógica e a globalização, a partir do século XX.

3 CARDOSO, Fernando Henrique. Conferência no Seminário Brasil século XXI – O direito na era da globa-lização: Mercosul, Alca e União Europeia. Brasília:

Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Bra-sil, 2001. p. 30. Segundo ele “Todos aqueles que pensaram a formação do sistema capitalista – dos conservadores até (Karl) Marx – mencionavam a tendência à expansão de um mesmo sistema produtivo. E a tendência, portanto, de que pouco a pouco se consolidasse uma ordem mundial. Já no século XX, alguns pensadores críticos – Rosa de Luxemburgo à frente – mostravam que existia, realmente, uma tendência incontrastável no sentido de que a homogeneização das forças produtivas seria impor uma ordem econômica só. A discussão que se travou mais tarde seria saber que ordem seria essa – se capitalista ou socialista. Por uma razão óbvia: é que as transformações tecnológicas foram de tal monta que era fácil prever a expansão do sistema produtivo e, como ele, os valores entranhados”.

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poderes”.4 Originalmente destinado a conter o absolutismo dos primeiros tempos do Estado moderno, cujo principal traço

era o monopólio do uso da violência por parte do despotismo esclarecido, o primado do equilíbrio dos poderes atribui a titularidade da iniciativa legislativa a parlamentares soberanos, restringe o campo de ação do Executivo aos limites estritos da lei e confere ao Judiciário a competência exclusiva para julgar e dirimir conflitos. Desse modo, embora o Estado detenha o poder total, ele não pode mais exercê-lo de modo absoluto.

Os desdobramentos naturais dessas concepções atingiram diretamente a identidade cultural nacional5 do homem,

ocasionando sua modificação, mais significativamente a partir do final do século XX.

Nas últimas três décadas, as interações internacionais se intensificaram dramaticamente, desde os sistemas de produção e das transferências financeiras, até a disseminação mundial de informação e imagens através da mídia, ou os movimentos em massas de pessoas, sejam turistas ou trabalhadores e refugiados imigrantes. A extraordinária amplitude e profundidade destes movimentos passaram a ser vistos pelos sociólogos e políticos como rupturas de formas prévias de interações fronteiriças, um fenômeno que se passou a denominar de globalização.

A rapidez da troca de informações e as respostas imediatas que esse intercâmbio acarretou nas decisões diárias são evidências inegáveis do mundo pós-moderno. Produtos ficam obsoletos antes do prazo de vencimento. A incerteza se radicaliza em todos os campos da interação humana. Não há mais padrões reguladores precisos e duradouros.6 Assim, o

termo “global” é hoje utilizado para referir-se tanto a processos como a resultados da globalização.

Por isso, tem-se afirmado que, assim como os conceitos que o precederam, tais quais o da modernização e o do

desenvolvimento, o conceito de globalização tem dois componentes: um descritivo e um prescritivo. A prescrição é, na

verdade, um vasto conjunto de prescrições, todos ancorados no consenso hegemônico neoliberal.7

4 FARIA, José Eduardo. Direito e globalização econômica: implicações e perspectivas. São Paulo: Malhei-ros, 1996, p. 5.

5 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guaracira Lo-pes Louro. 7. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2003, p. 8.

6 BORDON, Giovana. A fragilidade dos laços humanos. Jornal Gazeta Mercantil. Encarte “Fim de Sema-na”, de 31 jul. 2004.

7 SANTOS, Boaventura de Sousa. Globalizations. Theory, Culture & Society. Sage Publications, The TCS Centre, Nottingham Trent University, Nottingham,

Inglaterra, v. 23, n. 2-3, p. 393-399, maio 2006, p. 393-394. O consenso da economia neoliberal aponta que as economias nacionais devem abrir-se ao mer-cado mundial e os preços domésticos devem ser acomodados aos preços internacionais; deve ser dada prioridade ao setor de exportação, as políticas monetárias e fiscais devem ser orientadas para a redução da inflação; os direitos de propriedade privada devem ser efetivados e protegidos internacionalmente; o setor empresarial do estado deve ser privatizado; deve haver livre mobilidade de recursos (exceto de trabalho), investimentos e lucros; a regulação estatal da economia deve ser mínima; políticas sociais devem ter uma baixa prioridade no orçamento estatal, já não universalmente aplicadas, mas implementadas como medi-das compensatórias para os estratos sociais vulneráveis.

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O fenômeno parece estar relacionado a uma vasta gama de transformações em todo o mundo, como um aumento dramático da desigualdade entre países ricos e pobres e entre ricos e pobres em cada país, desastres ambientais, conflitos étnicos, migração internacional em massa, surgimento de novos Estados e falência ou implosão de outros, proliferação de guerras civis, limpeza étnica, crime globalmente organizado, democracia formal como uma condição política para a ajuda internacional, terrorismo, militarismo etc.8

Trata-se, como já se pode antever, de uma realidade que, assim como as anteriores, também vem acompanhada de um discurso legitimante9 ou de uma ideologia10 – que não se resume às vantagens que obtêm seus protagonistas e se

assenta sobre o pensamento neoliberal de eficácia tecnocrática e de benefício –, tem uma gestão histórica e é irreversível, na medida em que representa um marco significativo de ruptura.11

O domínio político e cultural da globalização é um campo fundamental de debate, já que as ideias que constituem o discurso dominante passam para o senso comum e são vividas como uma realidade concreta e inexorável.

Bauman a retrata como a “nova desordem mundial” e percebe seu “caráter indeterminado, indisciplinado e de

autopropulsão dos assuntos mundiais; a ausência de um centro, de um painel de controle, de uma comissão diretora, de um gabinete administrativo”.12 Para Faria Costa, “As culturas, os gestos, os gostos, os saberes, as informações, tudo está

em qualquer lugar, em qualquer espaço”.13

Nesse sentido, a globalização pode ser expressa no paradoxo da interseção entre presença e ausência, caracterizando-se pelo “entrelaçamento de eventos e relações sociais que estão à distância de contextos locais”,14 como resultante dos

avanços tecnológicos, principalmente dos meios de comunicação, em especial da tecnologia eletrônica, mas, sobretudo, da mídia. A mobilidade, seja de corpos físicos ou exclusivamente de conteúdos informativos, é uma marca distintiva dessa sociedade pós-industrial:

8 SANTOS, Boaventura de Sousa. Ibidem, p. 393.

9 Para o colonialismo era a supremacia teológica; para o neocolonialismo, o evolucionismo racista.

10 BORJA JIMÉNEZ, Emiliano. Globalización y concepciones del derecho penal. Estudios Penales y Crimi-nológicos, Santiago de Compostela, Espanha,

USC, n. 29, p. 141-206, 2009, p. 141.

11 ZAFFARONI, Eugenio Raúl. La globalización y las actuales orientaciones de la política criminal. Direito e Cidadania, Praia, Cabo Verde, a. 3, n. 8, p. 71-96,

1999-2000, p. 72.

12 BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, p. 67.

13 FARIA COSTA, José Francisco de. A globalização e o direito penal (ou tributo da consonância ao elogio da incompletude). Revista de Estudos Criminais, v.

2, n, 6, Porto Alegre, 2002, p. 30.

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“Dentre todos os fatores técnicos da mobilidade, um papel particularmente importante foi desempenhado pelo transporte da informação – o tipo de comunicação que não envolve o movimento de corpos físicos ou só o faz secundária e marginalmente. Desenvolveram-se de forma consistente, meios técnicos que também permitiram à informação viajar independente dos seus portadores físicos – e independente também dos objetos sobre os quais informava: meios que libertaram os ‘significantes’ do controle dos ‘significados’. (...) O aparecimento da rede mundial de computadores pôs fim – no que diz respeito à informação – à própria noção de ‘viagem’ (e de ‘distancia’ a ser percorrida), tornando a informação instantaneamente disponível em todo o planeta, tanto na teoria como na prática”.15

A mobilidade, acompanhada da velocidade no transporte da informação, tornou possível a milhares de investidores individuais a transferência de “vasta quantidade de capital de um lado do mundo para outro ao clique de um mouse”.16 Ainda

que fisicamente imóveis, todos estão em movimento, seja esta condição desejável ou não ou, até mesmo, desconhecida. Logo, “imobilidade não é uma opção realista num mundo em permanente mudança”.17

André-Jean Arnaud sistematiza o conceito de globalização quando certo grupo de condições são preenchidas. Segundo o autor, em síntese, são elas: 1) mudança nos modelos de produção; 2) desenvolvimento de mercados de capitais com fluxo livre de investimentos sem que as fronteiras dos Estados sejam levadas em conta; 3) expansão crescente das multinacionais; 4) importância crescente dos acordos comerciais entre nações que formam blocos econômicos regionais de primeira importância; 5) ajuste estrutural, passando pela privatização e pela redução do papel do Estado; 6) hegemonia dos conceitos neoliberais em matéria de relações econômicas; 7) uma tendência generalizada em todo o mundo à democratização, à proteção dos direitos humanos, a um renovado interesse pelo Estado de Direito; e 8) o aparecimento de atores supranacionais e transnacionais promovendo essa democracia e essa proteção aos direitos humanos.18

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos refere-se ao fenômeno como “um vasto e intenso campo de

conflitos entre grupos sociais, estados e interesses hegemônicos por um lado e grupos sociais, estados e interesses subalternos por outro”.19 Trata da globalização como um conjunto de trocas desiguais em que certos artefatos, condições,

entidades ou identidades locais estendem sua influência para além das fronteiras locais ou nacionais e, ao fazê-lo, desenvolvem a capacidade de designar como local outro artefato, entidade, condição ou identidade rival.20

15 BAUMAN, Zygmunt. Globalização... cit., p. 21-22.

16 GIDDENS, Anthony. Mundo em descontrole. Rio de Janeiro: Record, 2000, p. 20.

17 BAUMAN, Zygmunt. Globalização... cit., p. 8.

18 ARNAUD, André-Jean. O direito entre modernidade e globalização: lições de filosofia do direito e do Estado. Trad. Patrice Charles Wuillaume. Rio de

Janeiro: Renovar, 1999. Introdução. s/p

19 SANTOS, Boaventura de Souza. Os processos da globalização: a globalização e as ciências sociais. São Paulo: Cortez, 2002, p. 27.

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O processo afeta a todos os âmbitos da vida humana, individual ou coletivamente, mas se expressa, na concepção de

Martínez González-Tablas em três relevantes manifestações:21 a “globalização econômica” (novas formas de organização

das empresas multinacionais ou transnacionais e seu protagonismo no mercado mundial; multiplicação exponencial das operações econômico-financeiras de curta duração em todo o planeta; e interdependência entre países e entre estes e os organismos internacionais, permitindo extensa margem de manobra e autonomia em sua direção e gestão),22 a “globalização

política” (novas realidades que afetam a perda de soberania do Estado; perda do espaço político das ideologias tradicionais de direita e de esquerda) e a “globalização das comunicações”23 (impacto das novas tecnologias da comunicação e da

informação na vida, permitindo o intercâmbio de informações em tempo real e em quantia quase ilimitada).24

Ao que se nota, a globalização é um fenômeno de numerosos significados, que, por configurar-se em uma sociedade conturbada, não poderia deixar de apresentar uma alta complexidade.

2. As múltiplas extensões

Os contornos e extensões da globalização sequer podem ser imagináveis, vez que a crise financeira que assola o mundo não revela inclinações claras ou direções seguras no seu enfrentamento, superação ou adaptação, pelo que se pode falar apenas em tendências de atuação imediata, sendo as conformações futuras ainda imprevisíveis.25

21 MARTÍNEZ GONZÁLEZ-TABLAS, Angel María. Aspectos más relevantes de la globalización económica. Cuadernos de Derecho Judicial, Madrid, Consejo

General del Poder Judicial, n. 5, p. 69-130, p. 73-74, 2002.

22 BORJA JIMÉNEZ, Emiliano. Curso de política criminal. 2 ed. Valência, Espanha: Tirant lo Blanch, p. 301.

23 HARDT, Michael; NEGRI, Antônio. Império. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 51, advertem que “a co-municação não apenas expressa mas também

organiza o movimento de globalização. Organiza o movi-mento multiplicando interconexões por intermédio de redes. Expressa o movimento e controla o sentido de direção do imaginário que percorre estas conexões comunicativas. (...) É por isso que as indústrias de comunicação assumiram posição tão central”. Poucos locais no mundo atual estão desconectados de todo este sistema. Muito embora seja reforçada através destes próprios meios a ideia de que o mundo globalizado é local de grande intercâmbio cultural, na medida em que existe uma dominação, não existe evidentemente igualdade nas trocas.

24 Segundo Bill Gates, cofundador da Microsoft Corporation, “Llegará un día, no muy lejano, en que seremos capaces de dirigir negocios, de estudiar y explorar

el mundo y sus culturas, de hacer surgir algún gran entretenimiento, hacer amigos, asistir a mercados locales, enseñar fotografías a parientes lejanos sin abandonar nuestra mesa de trabajo o nuestro sillón. No abandonaremos nuestra conexión a la red ni nos la dejaremos en la oficina o en el aula. Esta red será algo más que un objeto que portamos o un dispositivo que compremos. Será nuestro pasaporte para un modo de vida nuevo y mediático” (GATES, Bill; MYHRVOLD, Nathan (colab.); RINEARSON, Peter (colab.). Camino al futuro. Trad. Francisco Ortiz Chaparro. Madrid: McGraw-Hill Interamericana, 1995).

25 CUNHA, Danilo Fontenele Sampaio. Crise econômica e possíveis perspectivas jurídico-sociais. Revista Direito GV, São Paulo, n. 10, p. 343-358, jul.-dez.

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Os riscos provenientes da crise econômica mostram-se como os mais perversos dos enfrentados pela humanidade nos últimos tempos, trazendo consequências francas, diretas e intensas nas relações internacionais e na proteção aos direitos humanos e economias mundiais, atingindo profundamente a segurança social integral, não possuindo respostas únicas, individuais ou exclusivas.26

“A pluralidade de discursos sobre a globalização mostra que é imperioso produzir uma reflexão teórica crítica da globalização e de o fazer de modo a captar a complexidade dos fenômenos que ela envolve e a disparidade dos interesses que neles confrontam.”27

Os debates têm mostrado que o que usualmente é denominado globalização representa, em realidade, um vasto campo social de colisões antagônicas entre grupos sociais hegemônicos ou dominantes, Estados, interesses e ideologias. Mesmo o campo hegemônico é repleto de conflitos, mas, para além deles, há um consenso básico entre os seus membros mais influentes. É esse consenso que confere à globalização suas características dominantes.

Com a pluralidade de discursos que se observa, tem-se claramente que não há uma única globalização, ou somente um “processo de globalismo”. Aquilo que habitualmente designamos por globalização são, de fato, conjuntos diferenciados de relações sociais, que dão origem a diferentes fenômenos de globalização.

À luz destas disjunções e confrontos, torna-se claro que a nomenclatura globalização representa um conjunto de processos de globalização e, em última instância, das distintas, e por vezes contraditórias, “globalizações”, isto é, diferentes conjuntos de relações sociais, que dão origem a diferentes fenômenos. Nesses termos, não há, a rigor, uma única entidade chamada globalização, mas sim as globalizações. E, como conjuntos de relações sociais, as globalizações envolvem conflitos, dos quais emergem “vencedores” e “perdedores”. Porém, deve-se ter em conta que “O discurso dominante sobre

globalização é a história dos vencedores, contada pelos vencedores”.28

26 Idem, p. 356.

27 SANTOS, Boaventura de Sousa (org.). A globalização e as ciências sociais. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2005, p. 54. Segue o autor comentando que a

sua proposta teórica parte de três aparentes contradições que conferem especificidade transicional ao período em que vivemos. A primeira contradição é entre globali-zação e localização, onde na globalização quanto mais esta evolui, mais aumenta os direitos às opções, demonstrando que as relações interpessoais estão mais desterritorializadas. Já na localização, a contradição que exsurge fica por conta da tendência dos direitos às raízes, onde emerge o sentimento de novas identidades regionais, nacionais ou locais. A segunda contradição descrita pelo autor é entre o Estado-nação e o não Estado transnacional. Trata, pois, do papel do Estado na globalização. Para alguns, o Esta-do é uma entidade obsoleta, fragilizada e em vias de extinção. Para outros, em contraponto, o Estado continua a ser entidade política central. A terceira contradição é de ordem político-ideológica, entre os que veem na globalização a energia finalmente incontestável e imbatível do capitalismo e os que veem nela uma oportunidade nova para ampliar a escala e o âmbito da solidariedade transnacional e das lutas anticapitalistas.

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Uma importante noção que nos é trazida pela globalização é a percepção dos diversos lugares, da diversidade cultural e da diversidade de maneiras de ver o mundo. Daí a ideia de que a globalização não é uma só. São várias globalizações ocorrendo simultaneamente.

3. A falácia

A ideia de globalização, como um fenômeno linear, homogeneizado e irreversível, apesar de falsa, é hoje prevalente e tende a ser ainda mais, a medida que passamos do discurso científico para o discurso político e para a conversa cotidiana. Aparentemente transparente e sem complexidade, a ideia de globalização mascara mais do que revela o que está acontecendo no mundo. Estas transformações tem vindo a atravessar todo o sistema mundial, ainda que com intensidade desigual consoante a posição dos países no sistema mundial.

Longe de ser “inocente”, a globalização não se restringe ao campo econômico, mas deve ser considerada também um movimento ideológico e político. E dois motivos para tal movimento devem ser esmiuçados.29

O primeiro é o que poderíamos chamar de “falácia do determinismo”. Ele consiste em inculcar a ideia de que a globalização é um processo espontâneo, automático, inelutável e irreversível, que se intensifica e avança, segundo uma lógica e uma dinâmica fortes o suficiente para impor-se a despeito de qualquer interferência externa. A falácia consiste em transformar as causas da globalização em seus efeitos, obscurecendo o fato de que a globalização resulta de um conjunto de decisões políticas identificadas no tempo e no espaço.

O segundo motivo político é a “falácia do desaparecimento do sul”. Quer a nível financeiro, quer a nível da produção, ou mesmo de consumo, o mundo tornou-se integrado em uma economia global onde, perante a multiplicidade de interdependências, já não faz sentido distinguir entre o norte e o sul, ou entre o núcleo (antiga “metrópole”), a periferia (antiga “colônia”) e a semi-periferia do sistema mundial.

Nos termos desta falácia, até mesmo a ideia do “Terceiro Mundo” está se tornando obsoleta. Tendo em vista que, contrariamente a este discurso, as desigualdades entre o norte e o sul têm aumentado dramaticamente nas últimas três décadas, esta falácia parece não ter outro objetivo que não o de banalizar as conseqüências negativas e excludentes da globalização neoliberal, negando-lhes centralidade analítica. Assim, o “fim do sul”, e o “desaparecimento do Terceiro Mundo” são, acima de tudo, produtos das mudanças ideológicas que devem ser objeto de análise.

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4. Os modos de produção

A globalização não se refere apenas à criação de sistemas em ampla escala, mas à transformação de contextos da experiência social. As atividades cotidianas são cada vez mais influenciadas por eventos ocorrendo do outro lado do mundo; e, inversamente, hábitos locais de estilo de vida tornam-se globalmente consequentes. A globalização deveria ser vista não simplesmente como um fenômeno “lá fora” mas como um fenômeno também “aqui dentro”: ela afeta não apenas localidades mas até intimidades da existência pessoal, na medida em que age para transformar a vida cotidiana.30

Boaventura de Sousa Santos distingue entre dois modos principais de produção da globalização, consistentes num duplo processo de “localismos globalizados”/“globalismos localizados”.31

“Localismo globalizado” é o processo pelo qual um determinado fenômeno é globalizado com sucesso, seja a atividade mundial de uma multinacional, a transformação do idioma Inglês em uma língua universal, a globalização do

fast food americano, a música popular, ou a adopção mundial da mesmas leis de propriedade intelectual, patentes ou de

telecomunicações promovidas agressivamente pelos EUA.

Nesta forma de produção de globalização, o que se globaliza é o vencedor de uma “luta” pela apropriação ou valorização de recursos ou para o reconhecimento hegemônico de determinada diferença cultural, racial, sexual, étnica, religiosa ou regional. Esta “vitória” traduz a capacidade de ditar os termos da integração, da competição e da inclusão.

O segundo processo de globalização é o “globalismo localizado”, que consiste no impacto específico produzido pelas práticas e imperativos que surgem dos “localismos globalizados” nas condições locais. Para responder a esses imperativos transnacionais, as condições locais são desintegradas, oprimidas, excluídas, desestruturadas e, eventualmente, reestruturadas como inclusão subalterna.

Os globalismos localizados incluem a eliminação do comércio tradicional e da agricultura de subsistência; a criação de zonas de livre comércio; o desmatamento e a destruição maciça de recursos naturais, a fim de pagar a dívida externa; o uso de tesouros históricos, cerimônias religiosas ou lugares, artesanato e a vida selvagem para o benefício da indústria do turismo global; o “dumping ecológico” (compra pelos países do “Terceiro Mundo” de lixos tóxicos produzidos nos países capitalistas centrais, a fim de pagar a dívida externa); a conversão da agricultura de subsistência em agricultura de

30 GIDDENS, Anthony. Admirável mundo novo: o novo contexto da política. In: MILIBAND, David (Org.). Reinventando a esquerda. São Paulo: Editora da

Universidade Estadual Paulista, 1997.

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exportação como parte de “ajuste estrutural”; e a etnicização do local de trabalho (desvalorização do salário pelo fato de os trabalhadores serem de um grupo étnico considerado “inferior”).32

Esses dois processos, embora devam ser tratados separadamente, em razão da distinção entre seus fatores, agentes e conflitos, operam em conjunto e constituem um tipo hegemônico de globalização neoliberal que vem paulatinamente determinando e condicionando diferentes hierarquias que constituem o “mundo Capitalista global” (global capitalist

world).

A divisão internacional da produção da globalização tende a assumir o seguinte padrão: “países centrais

especializam-se em localismos globalizados, enquanto paíespecializam-ses periféricos têm apenas a opção do globalismo localizado”.33

5. Os efeitos

Conquanto se possam discutir os diversos significados da globalização, sabe-se, entretanto, que ninguém mais fica imune a seus efeitos. Isso porque, ao passo em que a sociedade global trouxe avanços, trouxe, também, riscos e inseguranças, reforçando, assim, a ideia do contraste entre determinação e indeterminação, estabilidade e instabilidade.34

No discurso de Silveira, a globalização surge como um elemento de interação no que se refere à sociedade do risco, ou seja, “uma atua sobre a outra, incrementando riscos globais e alterações pontuais nas relações humanas. Vale dizer,

o risco incrementa-se em uma sociedade globalizada”.35

No plano econômico, a globalização compreende a gênese dos mercados globais, nos quais os agentes econômicos (global players),36 o capital, o trabalho, os bens e serviços se movem com liberdade em escala mundial, o que é possível

graças ao avanço técnico. As economias nacionais devem se abrir ao mercado mundial e os preços domésticos devem tendencialmente adequar-se aos preços internacionais; deve ser dada prioridade à economia de exportação; as políticas monetárias e fiscais devem ser orientadas para a redução da inflação e da dívida pública e para a vigilância sobre a balança de pagamentos; os direitos de propriedade privada devem ser claros e invioláveis, o setor empresarial do Estado deve ser

32 SANTOS, Boaventura de Sousa. Globalizations. Theory… cit., p. 396-397.

33 Idem, ibidem, p. 397.

34 ROBALDO, José Carlos de Oliveira; VIEIRA, Vanderson Roberto. A sociedade de risco e a dogmática penal. São Paulo: IBCCRIM, 2002. Disponível em:

<http://www.ibccrim.org.br>. São Paulo: IBCCRIM, 2002.

35 SILVEIRA, Renato de Mello Jorge. Direito penal econômico como direito penal de perigo. São Paulo: RT, 2006, p. 56.

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privatizado, a regulação estatal da economia deve ser mínima; deve-se reduzir o peso das políticas sociais no orçamento do Estado.37

No plano político descritivo, a globalização representa a perda de relevância política mundial que sofrem os Estados nacionais (the breaking of nations) e a ascensão da governança global (global governance).

Já no plano político normativo, globalização confunde-se com uma orientação política com base em interesses mundiais da humanidade, e não em interesses nacionais. Ocorre o que Joachim Vogel chama de uma “aproximación del mundo”.38

É possível situar essas alterações socioeconômicas mais relevantes a partir da década de 1980 do século XX.39 A

primeira delas é, por excelência, a “mundialização da economia”, mediante a internacionalização dos mercados de insumo e consumo, o que causa o rompimento das fronteiras geográficas clássicas e a limitação da execução das políticas cambial, monetária e tributária dos Estados nacionais. Via de consequência, ocorre a desconcentração do aparelho estatal, mediante a descentralização de suas obrigações, a desformalização de suas responsabilidades, a privatização de empresas públicas e a “deslegalização” da legislação social.

O advento de processos de integração formalizados por blocos regionais e por tratados de livre comércio, com subsequente revogação dos protecionismos tarifários, das reservas de mercado e dos mecanismos de incentivos e subsídios fiscais acarreta uma internacionalização do próprio Estado.

O próximo passo foi a “desterritorialização” e reorganização do espaço da produção, mediante a substituição das plantas industriais rígidas, surgidas no começo do século XX, de caráter “fordista”, pelas plantas industriais “flexíveis”, de natureza “toyotista”, o que veio acompanhado da desregulamentação da legislação trabalhista e da flexibilização das relações contratuais.

O uso do salário, do emprego e da tributação como variáveis de ajuste provoca uma alta taxa de desemprego e de redução salarial. A menor arrecadação fiscal causa a redução de investimentos sociais.

Como resultado, os Estados perdem sua capacidade de mediação entre o capital e o trabalho. Os sindicatos carecem de poder para lutar contra essa situação. A especulação financeira adapta formas que tornam cada vez mais permeáveis as

37 SANTOS, Boaventura de Souza. Os processos da globalização: a globalização e as ciências sociais. São Paulo: Cortez, 2002, p. 29.

38 VOGEL, Joachim. Derecho penal y globalización. In: CANCIO MELIÁ, Manuel (coord.). Anuario de la Facultad de Derecho de la Universidad Autónoma de

Madrid, Madrid, n. 9, p. 113-126, 2005, p. 114-115.

Referências

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