• Nenhum resultado encontrado

Infra-estrutura, crescimento e a reforma do Estado

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2020

Share "Infra-estrutura, crescimento e a reforma do Estado"

Copied!
19
0
0

Texto

(1)

FUNDAÇÃO

GETULIO VARGAS

EPGE

Escola de Pós-Graduação em Economia

Centro de Estudos de

Reforma do Estado

TÉXTO PARA DISCUSSÃO

N° 001

INFRA-ESTRUTURA, CRESCIMENTO

E A REFORMA DO ESTADO

Armando Castelar Pinheiro

Maio de 1997

Coordenação Geral

Prof Rubens Penha Cysne

Diretor de Pesquisas da

(2)

Infra-Estrutura, Crescimento

e a Reforma do Estado

Armando Castelar Pinheiro

Endereço para Contato:

BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social

Avenida República do Chile, 100 / 14° Andar

CEP: 20139-900 Telefone: 55-21-277-6987 Fax: 55-21-220-1397 E-mail: [email protected] Resumo

Este trabalho discute a importância da privatização, da reforma do aparato regulatório, e

do desenvolvimento de novas fontes de financiamento para a expansão da infra-estrutura no

Brasil.

Conclui-se que, apesar dos avanços obtidos nos últimos anos, as tansformações observadas nesse setor ainda estão muito aquém do que o país necessita para que as carências de

infra-estrutura deixem de ser um grande limitante à retomada do crescimento acelerado. Em especial, é

preciso dar maior transparência à reforma regulatória, enfatizar o papel da competição na

regulação desses setores e envidar maiores esforços no desenvolvimento de instituições que

(3)

INFRA-ESTRUTURA,

CRESCIMENTO E A REFORMA DO ESTADO1

Armando Castelar Pinheiro 2

1 -- Introdução

O Plano Real foi, sem dúvida, o acontecimento de maior relevo no cenário econômico

nacional na década de 90.

Seu sucesso não se restringiu à redução da inflação. O Real viabilizou

Um d° P?

Per Cap'ta de l2'I% em 1993"96- em contraposição a uma

oueda de 7,8% em 1981-92, uma substantiva redução da

pobreza, com 13 milhões de pessoas cruzando a linha de pobreza entre 1993 e 1995;

e a multiplicação do volume de investimento direto estrangeiro no pais, que em 1996 atingiu o recorde de US$ 9,2 bilhões.

Esses avanços não resultaram apenas da perícia no manejo dos instrumentos da política

macroeconômica.

Também decisivas foram as reformas estruturais iniciadas na década

passada como a

pnvatizaçao, a abertura comercial e a desregulamentação. A

redução da intervenção do Estado na atividade economica, ainda em andamento, tem levado também a um substantivo

aumento de

produtividade e estimulado uma distribuição mais equitativa da atividade

industrial entre as regiões do

país.

A despeito desses resultados, o Brasil

ainda não foi capaz de retornar a uma trajetória de rápido crescimento, nos moldes do

que se registra no Leste Asiático, ou mesmo no Chile. De tato a experiencia dos dois últimos anos evidenciou

que o país se encontra frente ao difícil desafio de conciliar o crescimento

com a estabilidade de preços e o equilíbrio das contas externas ™ia'0r_empecllho continua

sendo a recuperação da taxa de investimento, em particular a reabilitaçao e expansão da infra-estrutura.

^

maioria dos analistas concorda

que o Brasil não retomará o crescimento econômico sustentado enquanto o investimento

em infra-estrutura não se elevar. Inclusive, a estabilidade dos preços pode depender em

grande parte do crescimento da formação de capital em transportes elecomunicaçoes e energia elétrica, entre outros. Como colocado no Plano Plurianual de

stimentos (PPA), documento

preparado pelo executivo e aprovado em 1995

pelo Congresso acionai, A manutençao da estabilidade não requer apenas uma gestão competente da política

economica de curto

prazo. E necessário criar condições

para maiores investimentos e para o aumento da competitividade dos bens

e serviços

produzidos internamente." O documento prossegue enfatizando

que "A

competitividade de

produtos brasileiros dependerá (...) de um substancial aumento dos investimentos em infra-estrutura,..."

O objetivo deste ensaio é discutir algumas (mas não todas as)

medidas necessárias para aumentar a formaçao de capital em infra-estrutura no

país, um passo essencial para permitir a retomada do crescimento acelerado. Na próxima seção se discute o

que ocorreu nos últimos anos

1

Trabalho elaborado

para o Centro de Estudos de Reforma de Estado da EPGE-FGV Estado (EPGHF&V)31"611'0

EC°nÔmÍC° "" BNDES

(4)

com a formação de capital social básico ao Brasil. Nas

quatro seções seguintes se analisa a importância da

privatização, do estabelecimento de um marco regulatório apropriado e de avanços nos setores financeiros e de seguros

para se atingir o objetivo de aumentar a oferta e a qualidade dos serviços de infra-estrutura no

país. Uma última seção conclui o trabalho.

2 - O Investimento em Infra-Estrutura

A infra-estrutura

proporciona serviços preciosos, freqüentemente insubstituíveis, a firmas e consumidores.3 Sistemas de telecomunicação

que funcionam adequadamente poupam tempo e dinheiro e facilitam as transações comerciais. Cortes freqüentes no fornecimento de energia

interrompem a produção e obrigam as firmas a investir na geração

própria de energia elétrica, diminuindo a produtividade e aumentando os custos. Instalações

portuárias obsoletas aumentam o custo de bens importados e diminuem a competitividade das exportações, reduzindo os benefícios para o país do comércio exterior. A conservação adequada de estradas e ferrovias reduz o tempo necessário

para o transporte de bens e pessoas, evita acidentes e aumenta a vida útil do equipamento de transporte. De forma

geral, "a

formação de capital de infra-estrutura

pelo setor público tem um impacto significativo sobre o desempenho e a

produtividade do setor privado."4 No Brasil, a condição da infra-estrutura é muito ruim, e continua a deteriorar, dada a

ausência

quase completa de manutenção. As estradas estão esburacadas, muito do maquinário

ferroviário está canibalizado, as telecomunicações registram elevada

demanda reprimida e apresentam um

péssimo serviço, o risco de colapso ameaça o fornecimento de eletricidade, enquanto os portos continuam a oferecer um dos serviços mais caros e de pior

qualidade do mundo. Neste sentido, a infra-estrutura ainda não se recuperou dos efeitos da "década

perdida" de 1981-92,

que teve como uma de suas

piores conseqüências a drástica redução da taxa de investimento,

que, a preços constantes de 1980, caiu de 23,3% do PIB nos anos setenta para 18,3% nos oitenta e apenas 14% do PIB em 1992. O investimento

público, em particular, foi significativamente afetado, saindo de uma média anual de 7,4% do PIB em 1980-82

para 5,5% do PIB em 1991-93. A formação de capital em infra-estrutura, sob responsabilidade

quase exclusiva do setor

público, foi drasticamente reduzida. Os investimentos em energia elétrica,

que em 1980 somavam U$ 4,6 bilhões, caíram

para um décimo deste valor em 1993. No setor de transportes o declínio foi ainda mais marcante. Mesmo em telecomunicações, o crescimento nos

gastos não acompanhou o do PEB.

O impacto da falta de manutenção, expansão e modernização da infra-estrutura sobre a

atividade econômica e o bem-estar social tem sido considerável. Somente 79% dos lares brasileiros são servidos

pela rede elétrica, contra 87% na Argentina, e somente 78% e 64% da

população urbana têm acesso à água tratada e saneamento básico, respectivamente. O Brasil

possui um total de 704 km de estradas

pavimentadas por milhão de habitantes, contra 14172 km/milhão de habitantes nos EUA, e 63 telefones

por 1000 pessoas, um terço a menos do que na Argentina.5

2

Para uma discussão mais detalhada desta questão ver Bonelli e Pinheiro (1994), de onde alguns pontos da

discussão a seguir foram retirados. A

esse respeito, ver Berndt e Hansson

(1991) e Israel (1992). Ver

(5)

Na sua condição atual, a insuficiência

de infra-estrutura constitui uma barreira importante ao crescimento econômico. Uma ilustração clara desse

problema são os brownouts observados em varias localidades da região Sudeste e o risco cada vez

maior de um racionamento de energia eletrica. Nenhum fenômeno isolado

poderia ser mais prejudicial

para a economia do país. A eletricidade é um insumo vital

para a indústria e muitas outras atividades econômicas. A falta de um fornecimento confiável de energia elétrica cerceia a

produção, afasta investimentos e reduz a competitividade das empresas brasileiras nos mercados doméstico e externo.

Em graus variáveis, o mesmo se

pode dizer da oferta de telecomunicações, estradas, ferrovias

e outros serviços públicos. A falta de capital social básico se torna ainda mais

grave no contexto de uma economia integrada aos fluxos internacionais

de comércio e investimento, como é hoje a brasileira.6 Além disso, sem recuperar a infra-estrutura não será

possível resgatar a enorme dívida social acumulada ao longo dos anos.

A carência de infra-estrutura não é um

problema apenas no Brasil. Em todos os países em desenvolvimento este setor é

percebido como em estado de

"crise",

no sentido de

que a carência de oferta e a deterioração na

qualidade dos serviços estão interferindo seriamente com o sucesso em atingir as metas de desenvolvimento. O Banco Mundial estima

que a quantidade de investimento em infra-estrutura necessária nos anos 90 no Leste Asiático se eleve a US$ 1,5

trilhão. Para a América Latina, as estimativas

do Banco são de necessidades médias anuais de 60 bilhões de dólares

para o mesmo período.

Para o Brasil as estimativas são da mesma ordem de grandeza. Por exemplo, o PPA que trabalha com uma taxa média de crescimento anual do PIB

pouco abaixo de 5% a.a., prevê a necessidade de investimentos em infra-estrutura em 1996-99 de R$ 95,7 bilhões (em valores de

abril de 1995), sendo R$ 13,4 bilhões em transportes, R$ 38,6 bilhões em energia e R$ 33 7

bilhões em telecomunicações, e R$ 10,0

bilhões

para saneamento. Na média um total de investimentos

pouco acima de R$ 23,9 bilhões (de abril de 1995), ou 26 bilhões de dólares ao

Um conta simples

permite ilustrar empiricamente a importância dos investimentos em ínrra-estrutura

para a retomada do crescimento sustentado no Brasil. Em 1995 o Brasil investiu a

preços constantes de 1980, 16,6% do PIB, o suficiente

para um crescimento a médio

prazo dè cerca de 4% a.a. Para o

país crescer 5% a.a. precisaria investir cerca de 20% do PIB, o

que em 1995 teria exigido

que o investimento agregado do país tivesse sido R$ 25,9 bilhões mais elevado

(cerca de US$ 28,2 bilhões mais alto).7 Vale dizer, dados os baixos níveis de investimento em

capital social básico no

país ao longo dos últimos anos (Ferreira, 1995), se o Brasil fosse capaz de cumprir as metas de investimento em infra-estrutura colocados no PPA, isto

por si só já colocaria o

pais proximo a uma trajetória de crescimento do PIB de 5% a.a.

abertura da economia e um importante estímulo

para que um país expanda e melhore as condições de sua infra-estrutura, na medida em

que esta é um importante componente de sua competitividade.

Assim, ao contrário do que usualmente se

pensa, a abertura comercial também tem importantes efeitos sobre a eficiência dos serviços públicos Fara uma interessante digressão a esse respeito ver Ergas (1994).

7

Supondo o mesmo preço relativo dos bens de investimento vis a vis os preços de todos os bens e serviços

(6)

As metas de investimento em infra-estrutura

para os próximos anos são ambiciosas e dificilmente serão atingidas sem mudanças no quadro institucional

que prevaleceu nos últimos anos e que, em última instância, levou à deterioração do capital social básico do país apontada

acima. Três

problemas em particular se colocam: como elevar a

participação do setor privado na provisão de serviços públicos, como estimular novos e significativas investimentos, e como

garantir fontes de financiamento

para esses investimentos que não o setor público? Estas três

questões são discutidas a seguir.

3 « Privatização

A

privatização tem sido

percebida por inúmeros países, desenvolvidos e em desenvolvimento, como a solução para a

"crise"

por que passam seus setores de infra-estrutura. De acordo com algumas estimativas recentes, no período 1984-95 foram

privatizadas 547 empresas de infra-estrutura, em 86 países, totalizando receitas de 357 bilhões de dólares. Além

disso, encontram-se em andamento em 82 países cerca de 600 projetos

privados greenfield em infra-estrutura, abrangendo recursos superiores a 300 bilhões de dólares. Os

países em desenvolvimento, em

particular, têm recorrido à privatização da infra-estrutura como um meio de suprir sua carência de capital nessa área, respondendo

por metade das privatizações e 70% dos novos investimentos.8

A

privatização pode contribuir para o aumento da oferta de serviços de infra-estrutura de quatro formas diferentes:

Redução dos custos de investimento. Um fato

pouco conhecido é que no Brasil a taxa de investimento a

preços correntes é superior àquela a

preços constantes de 1980 utilizada na discussão acima. De fato, em 1995 ela foi de 19,2% do PIB. A diferença entre as duas taxas

reflete o fato de que os bens de investimento estão 15,7% mais caros que os demais bens da

economia, relativamente ao observado em 1980. Esta diferença,

que chegou a 39,4% em 1990, tem caído desde 1993 em função da abertura comercial, da

privatização e da queda da inflação. A privatização é uma política chave para reduzir ainda mais esses preços. De fato,

já se observa nas privatizações de empresas e obras essa redução dos custos do investimento.

^ Aument0 da produtividade do capital e dos novos investimentos em infra-estrutura:

Os portos brasileiros são um bom exemplo de

que é possível elevar substancialmente a oferta de serviços de infra-estrutura apenas com aumentos

de eficiência e pequenos investimentos. Estimativas do

Banco Mundial indicam

que a economia que pode ser realizada com uma gestão mais eficiente da infra-estrutura

pode chegar (na média dos países em desenvolvimento) a 1% do PIB ao ano.

^ Cobrança de tarifas mais eficientes do ponto de vista social: Uma

política inteligente de fixação de preços não apenas ajuda a financiar a operação dos serviços de infra-estrutura como

ainda estimula seu uso eficiente

pelos agentes econômicos. Um bom exemplo é a cobrança de

pedágio em estradas e a redução dos subsídios cruzados entre ligações interurbanas/internacionais e locais,

que levarão a uma utilização mais eficiente desses serviços. A cobrança de tarifas é fundamental também para o financiamento dos investimentos; essas, segundo estimativas do

8

(7)

Banco Mundial,

poderiam gerar receitas suficientes para financiar até 60% dos investimentos em infra-estrutura de

que necessitam os países em desenvolvimento.

Ainda

que a privatização venha a contribuir nesse

processo, muito ainda tem de ser feito a nível de setor

público e no debate econômico e político sobre este assunto

para que se obtenham as transformações necessárias nessa área. O Estado deu reiteradas

provas, no passado, de sua inabilidade na fixação eficiente de

preços para os serviços de infra-estrutura, freqüentemente dando

prioridade a objetivos de política macroeconômica ou utilizando-os na

perseguição de políticas sociais que ex-post mostraram-se totalmente inadequadas. Como bem

postulado por Winston

(1991:114), no contexto da infra-estrutura de transporte:9

"Surpreendentemente,

a crença de muitos economistas de

que os gastos públicos em infra-estrutura devem ser substancialmente aumentados não se baseia em princípios de

eficiente

fixação de preços e investimentos. Ao invés,

parece ser baseada em observações pessoais ou na suspeita de que a sociedade tende a investir insuficientemente em

infra-estrutura,

que esta é considerada um bem público. Ambas as perspectivas impediram

que muitos economistas e políticos se convencessem das vantagens, supreendentemente

grandes, e realizáveis, de uma fixação de preços e investimento eficientes.(...) Estas

vantagens aparecem

porque aeroportos e estradas são caracterizados

por sistemas de preço que não refletem o custo econômico e por decisões inadequadas durante a sua

concepção,

que resultaram num custo mais elevado de uso. (...) Uma política eficiente de infra-estrutura

pode ainda complementar os efeitos benéficos trazidos

pela desregulamentação dos transportes

para a concorrência e para a operação das firmas, bem como aplacar as

fontes primárias da atual insatisfação com a desregulamentação."

[4] O setor

privado é hoje um melhor risco de crédito que o setor público. A

participação privada tem viabilizado operações de financiamento

que não ocorreriam de outra forma,

pois as normas do Banco Central, da política econômica e da

própria gerência do risco bancário muitas vezes impedem o financiamento a entidades

públicas. Além disso, a cobrança de tarifas

pelo setor privado gera receitas que podem ser utilizadas como

garantias em financiamentos para o setor. Um bom exemplo de como a privatização atua por essas 4 vias é a reabilitação e operação de estradas como a Rodovia Presidente Dutra e a Rio-Juiz de Fora. A

privatização das rodovias viabilizou a cobrança de pedágio, após investimentos iniciais de reabilitação,

que além de estimularem um uso mais

judicioso dessas vias permitiram a tomada de empréstimos

pelas novas concessionárias, os quais serão usados para aprofundar o processo de reabilitação e expandir a

capacidade de tráfego a um custo econômico certamente inferior ao que se observaria se essas

obras estivessem sob responsabilidade do DNER.

4 -- Reforma Regulatória

Para

que a privatização exerça todo seu impacto sobre a oferta e a

qualidade dos serviços de infra-estrutura é necessário

que ela seja sustentada por um marco regulatório adequado. Isto é particularmente importante no caso de

projetos greenfield. Para isto, uma profunda reforma

9

(8)

regulatona,

ja em andamento, deverá ser leyada a cabo, tornando o aparato regulatório

no Brasil mais adaptado às mudanças observadas nos últimos anos na tecnologia, no tamanho e na estrutura do mercado e na propriedade das empresas. Em especial, é fundamental implementar uma

regulação

que evite os problemas

que levaram à estatização dos setores de infra-estrutura na

primeira metade deste século.

Ao emendar o Capítulo da Ordem Econômica,

aprovar leis regulando os setores de infra-estrutura e criar novas agências regulatórias, o

governo, como em

qualquer reforma regulatória levado a termo em outros

países, tem se orientado por quatro objetivos: [ 1 ] Maximizar as eficiências técnica e alocativa

na produção e comercialização desses serviços,

problema dificultado

pela presença de monopólios naturais (cada vez em menor número) e importantes assimetrias de informação. Os instrumentos de

que o Estado dispõe para este fim estão agrupados no

que se convencionou chamar regulação de detalhe. Esta inclui

itens como as regras de fixação e correção^ de tarifas

(qual o nível inicial, como e quando corrigir,

que índice usar

para incorporar a inflação, regular

por taxas de retorno ou price caps, e no caso deste último laze-lo individualmente

por produto ou para uma cesta de serviços); estrutura e grau de verticalizaçao do setor (desmembrar ou não as estatais

e em

quantas firmas, facilitar ou não a entrada de outros concorrentes em cada segmento do mercado, etc.); e regras de interconexão

com as firmas detentoras de monopólios naturais

que, em dependendo do grau de verticalização permitido, podem ou não ser concorrentes dos novos entrantes.

^

A^ender às

prioridades sociais. Além da eficiência técnica e

produtiva, a regulação de detalhe deve buscar o que se convencionou chamar de eficiência

distributiva,

que consiste em ponderar diferentemente o excedente do consumidor e o lucro das empresas nos cálculos de bem estar

subjacentes as definições

regulatórias

(privilegiando aquele em detrimento deste). Essas prioridades sociais muitas vezes se estendem à atribuição de diferentes

pesos também aos interesses de diferentes consumidores, como é o caso de telefonia e eletricidade rurais, por

exemplo. Este objetivo usualmente tem enorme

peso na definição da regulação de detalhe e tem inibido em muitos casos a instituição de políticas tarifárias mais eficientes do ponto de vista

técnico e alocativo, explicando em grande medida a opção

por tarifas uniformes e pouco sensíveis aos custos de fornecimento.10

Dar transparência ao aparato regulatório. Um dos

principais objetivos da reforma regulatória nos setores de infra-estrutura deve ser obter a separação das atividades de comercialização

regulaçao e desenho da

política setorial, que hoje se superpõem sem

qualquer transparência è grande conflito de interesses. As atividades comerciais devem ficar sob a responsabilidade das

empresas a serem

privatizadas. A regulação será definida em lei e administrada

por uma agência regulatona com algum

grau de autonomia em relação ao

governo, como ocorre hoje com o Cade. O desenho da política setorial deverá ser uma atribuição do ministério setorial. O grau de

independencia da agência regulatória irá refletir o

quanto a regulação será influenciada pela

10

Para uma crítica à inclusão de objetivos sociais no desenho do aparato regulatório ver Foster

(9)

J. stimular 0 investimento. Elevar a formação

de capital em infra-estrutura é um dos

principais objetivos de qualquer reforma regulatória no setor. Para isto é necessário

que a regulação de detalhe seja definida de forma a dar uma trajetória de rentabilidade

para esse investimento condizente com os nacos associados a cada

projeto. Além disso, é necessário atuar também sobre a chamada a regulação básica,

que inclue:

Os limites

da agencia reguladora na fixação da regulação de detalhe. Por exemplo,

pode o orgao regulador alterar as regras de fixação de tarifas ou impedir uma empresa de atuar no setor?

As restrições

a mudanças nas leis e normas

que definem os poderes do órgão regulador. Por exemplo, basta um decreto

presidencial ou é necessária a aprovação do Congresso para reduzir ou ampliar os

poderes da agência reguladora?

Que instituições

existem

para garantir que esses limites sejam efetivamente respeitados, e a

quem recorrer para dirimir divergências quanto à interpretação das leis e normas da regulação?

A experiência internacional mostra

que pouco adianta implantar uma regulação de detalhe bem desenhada e impor limites à interferência do governo na regulação dos setores de

infra-estrutura se nao ha instituições

que façam com que esses limites e regras sejam de fato respeitados. Sem essa segurança as empresas se sentirão

pouco estimuladas a fazer elevados investimentos.

Para isto, um Judiciário eficiente e independente é fundamental.11 Obviamente estes objetivos estão

presentes em todos os países, mas a importância atribuída a cada um deles tende a variar consideravelmente de um caso

para outro. Nos países desenvolvidos,

que tem uma boa distribuição de renda e onde

já se atingiu o serviço universal para a maior parte dos serviços

públicos, a preocupação maior está em se obter as eficiências alocativa, técnica e distnbutiva,

entendida essa como o esforço de transferir

para os consumidores uma

parcela significativa dos

ganhos auferidos com o progresso técnico e o aumento de produtividade. Nos

países em desenvolvimento,

por outro lado, uma grande parcela da população ainda nao tem acesso aos serviços de água, esgoto, telecomunicações, eletricidade etc

Assim o objetivo maior é estimular o investimento,

de forma a atender à demanda reprimida e permitir o acesso dos mais

pobres aos serviços públicos mais básicos.

A

privatizaçao e o estabelecimento

do marco regulatório necessitam ser complementados por uma ativa e abrangente

política pró-competição para atenuar duas importantes vantagens competitivas

que terão as atuais estatais (antes e após a sua venda).

, 1Pnme;iro' qualquer incumbente leva vantagem sobre novos entrantes por já ser conhecido do

publico, ja ter uma larga base de clientes (imediatamente após o

fim do monopólio, todos os c lentes) e ou ser verticalizada ou

já ter um modus operandi de interconexão

plenamente desenvolvido com clientes e fornecedores. Por exemplo, é óbvio

que por já estar operando com as teles estaduais, a Embratel terá vantagens em relação a novos competidores no mercado de

11

(10)

longa distância.12 E importante

perceber que o

"jogo"

começa com os clientes utilizando a (ex-) estatal, e que há custos em trocar de fornecedor (nas telecomunicações,

por exemplo, se não houver

portabilidade dos números de telefone a troca de operadora implicará em custos adicionais para o usuário que podem inibir muitas trocas.)

Uma outra e menos óbvia vantagem das empresas incumbentes é o fato de

que os funcionários e dirigentes das agências regulatórias

que estão sendo criadas devem ser por muitos anos recrutrados entre empregados, ativos ou aposentados, dessas empresas. Dado o forte traço

corporativo

que caracteriza o funcionamento dessas companhias, é de se esperar

que as estatais sendo

privatizadas gozem de tratamento favorecido

pelo órgão regulador.13 Este último

problema contribui

para tornar ainda mais complexa a decisão sobre o grau de independência e a amplitude da discrição regulatória

que deve ser concedida a essas agências. Isto porque o risco de captura,

que já é alto dada a

grande disparidade de tamanho das empresas, com os setores sendo pelo menos inicialmente dominados

por uma única fornecedora, atinge níveis

preocupantes em função deste vinculo entre funcionários de empresas e reguladores.14

Por outro lado, a independência da agência reguladora é fundamental

para reduzir a incerteza associada ao ambiente regulatório, e

permitir a efetiva separação entre as atividades de desenho da política setorial e regulação. A solução

para esse impasse parece passar por agências independentes mas com reduzida amplitude regulatória, com as regras

sendo definidas de forma bastante detalhada na lei e se

permitindo muito pouca flexibilidade aos reguladores, a exemplo do que acontece no setor de telecomunicações no Chile

ou, de forma ainda mais radical, na Nova

Não obstante, a recuperação dos níveis de investimento em infra-estrutura

não requer apenas a privatização da operação comercial e a definição de um marco regulatório

que dê rentabilidade e reduza o risco associado à operação de projetos de infra-estrutura. Para se

viabilizar

projetos greenfield é preciso também que se atraiam novos tipos de investidores e se desenvolvam instrumentos financeiros compatíveis com

as características desses investimentos. Esta

questão é tratada a seguir.

5 — O Financiamento

Como em outros

países latino-americanos, durante a primeira metade deste século a maior

parte do capital em infra-estrutura no Brasil

pertencia a companhias estrangeiras. A má

qualidade da regulação resultou na estatização dessas companhias. Desde então, e como em outros

países, a infra-estrutura entrou

para a esfera de responsabilidade do setor público, sendo financiada asicamente com verbas orçamentárias. Grande

parte do surto de investimento das décadas de 50 e 60, por exemplo, foi bancada com empréstimos tomados

pelo Estado junto a instituições multilaterais de crédito. Durante a década de 70, com a expansão do crédito bancário aos

Na° obstante» dada a reputação ruim de que goza a maior parte das empresas de telefonia no Brasil, essa

vantagem sera

parcialmente mitigada pelo appeal dos novos entrantes, em especial se forem firmas conhecidas e de boa reputação internacional.

13

No caso do

petróleo, por exemplo, esses privilégios vêm sendo inclusive inscritos no texto da lei A esse respeito, ver Firschtak (1996).

(11)

governos de países em desenvolvimento,.

grandes projetos de infra-estrutura também foram financiados com esses recursos.

Com a crise da dívida externa e a crise fiscal

que seguiu a esta essas fontes de recursos secaram. Nada indica

que isso vá mudar nos

próximos anos. Pelo contrário, a necessidade de servir a divida

pública deve limitar a disponibilidade de recursos fiscais

para investimento ampliando o gap entre a demanda e a oferta

por serviços de infra-estrutura. Conforme aumenta esse déficit de serviços cresce também a necessidade de buscar recursos

junto ao setor privado.

A forma mais comum de financiamento

privado para projetos de infra-estrutura é o project finance", isto é, o financiamento arranjado especialmente

para um projeto particular.15 O objetivo

principal de um

"project

finance" é viabilizar o crédito

para um projeto que seja inteiramente "non recourse"

para seus executores, isto é,

que não dê, ou limite fortemente, o direito de regresso dos credores contra outros ativos dos proprietários ou concessionários

responsáveis

pelo projeto. Para isso, normalmente o

"project

finance" é associado à criação de uma companhia com

propósito específico (uma

"Special

Purpose Company", ou SPC). Os credores tem como única, ou pelo menos principal,

garantia de seus empréstimos o fluxo de receitas e os ativos da SPC.

Há três fatores

que dificultam um project finance em infra-estrutura:

[ ^ Os retornos relativamente baixos,

que resultam dos empreendimentos serem capital intensivos e se situarem em setores com

preços regulados, com poucas possibilidades de um upside. Como com outros investimentos

privados, os acionistas em

projetos de infra-estrutura exigem um retorno compatível com os riscos envolvidos. Sirtaine (1994) estima

que seja possível atrair capital de risco

privado para investimentos em utilidades públicas se estes oferecerem um retorno sobre o patrimônio liquido de

pelo menos 17%. Um

projeto com retorno abaixo deste nível mínimo dificilmente seria capaz de atrair recursos

privados, a menos que tivesse um risco muito abaixo do usual. O

"project

finance"

procura resolver esse

problema com uma elevada participaçao de empréstimos no financiamento, usualmente na faixa de 80 a 85% do investimento total,

permitindo alavancar o retorno sobre o capital dos acionistas: "This

explains why the share of equity in thefinancing of a BOT ">

project remains small: besides the wish from

sponsors to limit their commitment into the project, the small share of equity is also due to the fact that for private sector investors to meet required equity

returns, it is necessary to leverage the financing and to maximize the tenor of the debt "

(Sirtaine, 1994, p. 18).

[2] A cláusula de non-recourse limita o risco dos acionistas,

mas torna essencial a garantia de um fluxo estável de receitas, suficiente

para cobrir os custos operacionais e servir as dívidas da SPC. De fato, em projetos BOT esse é o risco mais crítico do ponto de vista dos credores, e muitas

vezes se requer

que o próprio governo garanta um mínimo de receitas.

15 A

discussão a seguir é

parcialmente baseada em Sirtaine (1994). 16 Build,

(12)

[3] Empreendimentos BOT em infra-estrutura apresentam riscos elevados, que

precisam ser adequadamente cobertos. Os dois

principais, menos relevantes em projetos tradicionais, são o risco de construção e o risco

político. O risco de construção inclui o risco de

que o projeto não seja executado no prazo

previsto, que os custos de construção excedam o previsto ou de

que a a planta física não seja construída como

planejado. A fase de construção é aquela de maior risco pois usualmente projetos inacabados não têm valor de mercado (e.g. uma estrada

semi-construída). Além disso, nessa fase não há geração de receitas, de forma

que ao aumento de custos se soma a perda de receitas. Já o risco político inclui risco de greves; instabilidade do

regime

político; expropriação; mudanças na visão do governo sobre BOTs; mudanças no aparato

regulatório

que afetem negativamente o

projeto; impostos mais altos; restrições às exportações dos bens

produzidos; e restrições à importação de insumos. Enquanto o risco de construção acaba com a conclusão do

projeto, o risco político se estende por toda a sua vida útil. A efetiva utilização do "project finance"

para viabilizar o financiamento de novos

projetos de infra-estrutura no Brasil

passa pela capacidade do

país atrair novos investidores e de desenvolver instrumentos financeiros adequados

para essas operações. Vejamos esses pontos um de cada vez.

5.1 -- Os novos

participantes

Os principais candidatos a investir em novos empreendimentos

em infra-estrutura são os investidores estrangeiros e os fundos de pensão. Outros

potenciais investidores são as empresas encarregadas de implementar o projeto, os fornecedores de equipamentos,

grandes clientes grandes fornecedores de insumos, e os

governos locais." Quanto ao capital estrangeiro, o início da privatizaçao do setor elétrico, de ferrovias e de telecomunicações

(CRT) tem ilustrado o interesse desses investidores na infra-estrutura brasileira, respondendo

por parcelas significativas das receitas da

privatização nesses setores. Os fundos de pensão brasileiros, também, têm estado atentos as

possibilidades que se abrem nessa área. Essas são instituições detentoras de grande volume de recursos, e que têm um perfil ideal

para financiar investimentos em infra-estrutura, pois tem baixo risco de liquidez e desembolsos

previsíveis e a longo prazo. Contudo e não obstante o interesse tanto dos estrangeiros como dos fundos de pensão, seu maior envolvimento em novos

projetos de infra-estrutura tem esbarrado até aqui na maior atratividade dos

juros altos, na ainda curta história de estabilidade macroeconômica e na ausência de

um marco regulatório bem definido.18

A cnaçao de fundos mútuos de infra-estrutura é outra forma

de alavancar recursos e diminuir os riscos em investimentos

privados nessa área. Os investidores comprariam cotas de um fundo,

que por sua vez investiria em diferentes

projetos, seja com aporte de capital ou emprestimos. Os fundos poderiam se especializar em um setor ou compor uma carteira com

projetos em diferentes setores. Os fundos de

privatização, que têm crescido em número e tamanho conforme o PND avança na área de infra-estrutura, são um sinal

de que há boas possibilidades por essa via. Ainda assim, dificilmente os investidores aplicarão nesses fundos se

17 A

participação dos governos locais, porém, deveria ser tal que pudesse ser liquidada uma vez completa a fase de construção do projeto e este entrando em operação comercial.

18 Pinheiro

(1994) discute a possibilidade de participação dos fundos de pensão no financiamento de projetos de

(13)

os projetos em si não forem

devidamente cobertos de

garantias para os diversos riscos. Note-se, também,

que o financiamento através de fundos mútuos, com ampla

participação de investidores nacionais, reduziria o risco

político do empreendimento.

Ainda

que não seja exatamente um novo participante, o Estado deverá voltar a investir mais significativamente

em infra-estrutura com o avanço das reformas administrativa e tributária que devem liberar recursos para obras e outras aplicações de capital.

Em especial, o setor público devera continuar desempenhando um

papel fundamental em setores cujo retorno social é bem maior

que o privado, como água, saneamento, transporte urbano de massa, estradas viscinais, etc. ssim, e importante ter em mente

que nem todos os setores têm a capacidade de obter financiamento

privado e cobertura de custos com cobrança de tarifas como os de telecomunicações e energia elétrica.

, ....

Tl?S °Utr0S fatores devem ,evar a uma

participação ainda relevante do Estado na viabilização de projetos de infra-estrutura:

[1] A presença de externalidades

positivas, que justificam a intervenção do Estado

para garantir que o setor privado não invista abaixo do nível considerado socialmente ideal.

S^ntie volume de recursos envolvido, muito elevados vis a vis

o tamanho do mercado de capitai» brasileiro. Em muitos

projetos BOT os custos totais excedem a casa do 1 bilhão de fundos suficientes é um

grande desafio. Bancos de desenvolvimento como o DiNDbb devem ajudar a compor o financiamento

desses

projetos.

[3] Como ja colocado,

pelos elevados riscos envolvidos em novos

projetos de infra-estrutura. O contraste entre o grande interesse de investidores estrangeiros e fundos de

pensão na compra de ativos

ja em operaçao e a falta de interesse na execução ou financiamento de novos

projetos sugere

que o elevado risco associado à fase de construção é um obstáculo importante à maior

participaçao privada no financiamento, via ações ou crédito, de projetos BOT. Mesmo nos países desenvolvidos investidores do

mercado de capital não aplicam em um projeto até que sua

operaçao se inicie. O Túnel do Canal da Mancha é a única exceção relevante a esse padrão

ludo indica,

portanto, que se for possível atrair investidores de mercado ou investidores institucionais sera apenas nas fases finais do período de construção ou com o projeto

já em

5.2 — Os novos instrumentos

No Brasil, a concessão de empréstimos a concessionárias

de serviços

públicos requer o desenvolvimento de novos instrumentos

financeiros, bem como de novas formas de

garantia para os lindos investidos. Primeiro,

porque o tempo de maturação desses empréstimos será maior que C°m °S

qUaiS °S banC0S brasileiros' inclusive bancos de desenvolvimento como o BNDES

costumam trabalhar. Segundo, e talvez mais importante,

porque as instituições credoras compartilharao muito dos riscos de regulação envolvidos na prestação de serviços

públicos, os quais, em última instância, envolvem o comportamento do setor

público.

Mas a necessidade de criar instrumentos

que viabilizem o financiamento

privado de .jetos em infra-estrutura não é um desafio apenas brasileiro. Por exemplo, Sirtaine (1994,

(14)

36) conclui sua análise sobre a

possibilidade de se contar com capitais

privados para o financiamento de

grandes projetos de infra-estrutura na Ásia afirmando:

It will not be possible to finance ali BOT

projects through capital market sources before new financial instruments are created that solve the problem of finding

financing instruments with a suitable risk-return combination

for these too risky

projects. John Redwood (...) called on the financial sectors in industrialized countries to develop new

financial instruments to facilitate BOT infrastructure projects in these countries: "We need new

forms of risk-bearing instruments." This statement highlights

first, that the main problem remains the excessive riskiness of the

projects, and second, that financial instruments development is even more urgent in developing countries, where most of the

instruments available in developed countries have not been introduced yet."

Tanto a necessidade de

prover empréstimos com longas maturidades como as mudanças em termos de riscos

que vão se operando ao longo da vida útil do

projeto sugerem que a melhor forma de financiamento é através de títulos negociáveis no mercado de capitais, em lugar de

emprestimos bancários tradicionais. A maior liquidez destes instrumentos

permitirá que os investidores troquem de

posição quando julgarem conveniente, reduzindo com isso o custo desses empréstimos. Há,

porém, dois problemas com essa alternativa.

Primeiro, os bonds de países em desenvolvimento são usualmente emitidos a taxas

flutuantes e com maturidades relativamente curtas, normalmente menos

que 10 anos. No caso de projetos de infra-estrutura,

porém, é necessário emitir bonds com longa maturidade (pelo menos 15 anos), tanto

para elevar o retorno sobre o patrimônio líquido como

para distribuir a amortizaçao do

principal ao longo da vida útil do projeto. A longa maturidade desses bonds aumenta seu risco e reduz ainda mais sua atratividade

para os investidores potenciais. Há que se registrar,

porém, a recente melhoria das condições de crédito

para empresas privadas brasileiras, em termos do volume, das taxas e da maturidade dos créditos.

Segundo, instrumentos específicos de crédito necessitam

ser desenvolvidos

para a fase de implantação do

projeto, onde os riscos são particularmente elevados e não há

geração de receitas. Em

particular, seria excessivamente arriscado iniciar um

projeto sem a certeza de que há recursos disponíveis

para financiar toda a sua implantação. Assim, nesta fase, o uso de bonds ou mesmo de ações exigiria

que o total dos recursos fosse aportado de início.

Isto significaria

que os juros sobre esses títulos necessitariam ser

pagos antes mesmo que os recursos fossem utilizados e que o projeto já estivesse gerando receitas.

No atual contexto da economia brasileira, este último

problema sozinho poderia inviabilizar uma significativa

participação privada na infra-estrutura. A solução

para isso seria que o BNDES, juntamente com instituições multilaterais de crédito como o BID e o Banco

Mundial, concedessem empréstimos bancários

para a fase de implantação do projeto, com a entrada de outros credores

quando o projeto entrasse em operação. Um empréstimo do BNDES

permitiria ao mesmo tempo

garantir a disponibilidade de recursos

para a conclusão do

projeto e distribuir o desembolso de recursos conforme

(15)

de ura empréstimo há usualmente um

período de carência em que os

juros podem ser capitalizados, algo

que é difícil viabilizar com uma emissão de bonds.™

Uma forma de conciliar a concessão de empréstimos bancários para a fase de implantação com a rápida reciclagem desses recursos

uma vez concluída a obra seria a utilização do Título de Participaçao em Receita, TPR, idéia

que vem sendo discutida pelo BNDES há algum tempo. Os TPRs dao direito ao investidor de receber uma proporção da receita do

projeto, que seria depositada em conta específica

gerida por um trustee. Os TPRs podem ser uma forma de distribuir os riscos entre diversos tipos de investidores e, em

particular, de atrair os fundos de pensão e de investimento para essa atividade.

Os TPRs

poderiam ser emitidos ou no início do

projeto ou como forma de pagamento parcial pelos créditos bancários concedidos

para sua implantação. Para isso, porém, seria necessário criar um mercado

que lhes desse liquidez, o que passa pelo desenvolvimento de fundos mutuos de infra-estrutura e um maior interesse dos fundos

de pensão nesses títulos. Também se deveria

permitir que os investidores estrangeiros aplicassem nesses

papéis, tendo em vista que o mercado doméstico é

pequeno em relação à dimensão dos

projetos de que o país necessita. 5.3 - Reformas no setor de seguros

O investimento em infra-estrutura, como observado acima, envolve um grande conjunto

de riscos. No

passado, exatamente por que o Estado era o único disposto a assumir esses riscos, o setor publico acabou monopolizando os investimentos nessa área. A

conseqüência foi que, com a crise fiscal, o país se viu

privado de serviços

públicos com a oferta e a qualidade de que se necessitava. Uma forma alternativa de lidar com esses riscos, como acontece

em outros países, e desenvolvendo instrumentos adequados de seguros,

permitindo um maior fluxo de investimentos

privados para o setor. De fato, a experiência internacional mostra que a

participação privada em infra-estrutura é muito intensiva em serviços sofisticados de seguros.

inda

que alguns tipos de seguros em

project finance sejam caros e difíceis de achar, eles são um componente importante do pacote de financiamento.

O setor de seguros no Brasil

passa por grandes transformações, com o fim do monopólio o resseguro do IRB e a entrada de

grandes empresas estrangeiras, como no caso da associação da Aetna com a Sul América.

A maior abertura do setor deverá contribuir

para baixar os prêmios e aumentar a sofisticação e a

qualidade dos produtos oferecidos. Esse

processo se completará com a continuaçao da reforma regulatória do setor, não apenas com o aumento da competição, mas

também com o fim de algumas superposições

de responsabilidade entre o IRB e a Susep.

Em tese os\ bonds

poderiam ser emitidos e negociados conforme os recursos necessários

para o projeto se fizessem necessários. Mas nesse caso ha

pouca flexibilidade (não seria possível atrasar o lançamento dos títulos). Além disso uma estrategia como essa levanta

problemas sérios quanto à senioridade das dividas assumidas em diferentes emissões. A

possibilidade de reinvestir os fundos arrecadados com uma única emissão também é improvável, pois exigiria um match

perfeito com as necessidades de recursos do projeto, entre outros problemas.

Ver Sirtaine (1994, Anexo 1) para uma descrição dos principais riscos em projetos de infra-estrutura e uma

(16)

6 — Observações Finais

A recuperação dos investimentos em infra-estrutura constitui um dos maiores

desafios a serem enfrentados

pelo Brasil nos

próximos anos. Ciente deste fato, o

governo lançou em 1995 um programa de investimentos em energia elétrica, transportes, telecomunicações

e saneamento que preve aplicações de capital de 26 bilhões de dólares

por ano em 1996-99. A significância desses valores

pode ser aquilatada pelas estimativas do Banco Mundial de que a América Latina como um todo necessite de investimentos

anuais de 60 bilhões de dólares nessa área e os países do Leste Asiático

(inclusive China) outros US$ 150 bilhões.

Este ensaio discutiu algumas reformas

que se julga necessárias para que a meta de elevar o investimento em infra-estrutura no

país seja atingida. Essencialmente, se analisou

os efeitos de privatizar o estoque de capital existente e o

que é preciso fazer para estimular a iniciativa privada a empreender novos

projetos nesse setor. Em particular, se argumentou

que dificilmente se atingira o objetivo de melhorar a infra-estrutura do Brasil sem o estabelecimento de um aparato regulatório

que de rentabilidade e

proteja o investimento e o desenvolvimento de instrumentos financeiros

que permitam atrair novas fontes de financiamento.

Os últimos anos registraram avanços da privatização de serviços

públicos, tanto a nível tederal como estadual, emendas constitucionais extinguindo os monopólios

públicos e um grande influxo de investimento direto estrangeiro

no país,

passos importantes na direção das metas propostas. Apesar disso, ainda há muito a fazer. Menos talvez na

privatização, que deverá entrar mais fortemente nos setores elétrico e de telecomunicações uma vez

concluída a venda da Companhia Vale do Rio Doce. Mas, no

que tange ao desenvolvimento de um aparato regulatório moderno e a cnaçao de instrumentos financeiros adequados

para projetos greenfield em infra-estrutura, o

progresso tem sido certamente menos notável.

Em certo sentido, o país

permanece nessas duas áreas

prisioneiro dos vícios do passado. o que tange a regulaçao, mantêm-se na

prática uma visão de domínio do mercado

pelas estatais com

poucos estímulos à competição.

Além disso, as reformas em andamento

poderiam avançai mais com relaçao ao estabelecimento de um aparato regulatório transparente,

que distribua c aramente as responsabilidades,

dando sinais objetivos de quais as metas de cada instituição sem o

que e impossível avaliar o seu desempenho. Um exemplo desta falta de transparência

reside na ideia de

que cabe as agências regulatórias "planejar" seu setor.

Da mesma forma, superestima-se a importancia da regulaçao de detalhe

vis a vis o desenvolvimento

de uma boa regulação básica repetindo-se o erro do passado de dar pouca importância ao

papel das instituições, com à suposição implícita de

que o Estado será capaz de encontrar soluções

pontuais para os problemas

que surjam no futuro. F

As duas variáveis críticas nesse

processo são a natureza da agência regulatória e o mandato

que lhe sera atribuído

pela lei. Por um lado, é importante

que o regulador possa agir com independencia em relaçao ao

governo, de forma a poder defender o interesse de longo prazo da sociedade Por outro lado, é fundamental evitar a captura

da agência

pelas empresas, uma possibilidade bastante concreta no atual contexto da economia brasileira, como se argumentou no texto. Neste sentido, a melhor forma de atender aos dois

objetivos é com o estabelecimento de agencias independentes, mas com um

mandato

que lhes dê muito

(17)

inscrevendo-se no texto da lei regras bastanie rígidas, a exemplo do

que ocorre, por exemplo, no Chile A política regulatória deve ser

pautada também pela simplicidade, evitando-se procedimentos complexos

que tornem as agências vulneráveis a assimetrias de informação e ao

poder de barganha das concessionárias

(dado pela essencialidade de seus serviços).21

Além dos motivos analisados no texto, há uma terceira razão

para uma opção como esta: a tendencia a que essas agências tentem se

perpetuar, mantendo o status quo, em lugar de estimular a competição, até o ponto mesmo em que elas não se tornem mais necessárias. Aqui vale

reproduzir a advertência de Stephen Littlechild:

[C]ompetition is indisputably the most effective means «

perhaps ultimately the only effective means — of

protecting consumers against monopoly

power. Regulation is essentially a means of

preventing the worst excesses of monopoly; it is not a substitute for competition. It

is a means of 'holding the fort' until competition arrives."

[Littlechild (1983, p. 7), como citado em Ergas (1994, p. 207)]

Da mesma forma, trabalha-se, equivocadamente a meu ver,

com a suposição de

que o capital estrangeiro e outros investidores importantes como os fundos de

pensão terão por projetos greenfield de infra-estrutura o mesmo apetite demonstrado

pela compra de estatais. Este raciocínio ignora

que em novos projetos há riscos muito maiores,

para os quais é necessário criar instrumentos

que mitiguem a exposição dos investidores. Na ausência de avanços mais significativos nesse campo, corre-se o risco de perpetuar a exclusividade dos bancos públicos e

instituições multilaterais como o BID e o Banco Mundial (que exigem o aval do Tesouro para

grandes emprestimos) no financiamento da infra-estrutura. Enquanto maiores

progressos não orem feitos nessa área, apenas um lado da equação, o do

investimento, de fato será

privatizado, enquanto o outro, o do financiamento,

permanecerá majoritariamente sob responsabilidade do setor publico.22

Há um último

ponto que cabe registrar, que é o da dominância absoluta do setor de infra-estrutura

pela visão de engenharia,

privilegiando a execução de obras, em lugar do uso mais eficiente dos recursos existentes, esta também uma herança do período estatal. A análise das

mudanças ocorridas nas empresas

privatizadas mostrou

que uma das maiores transformações foi cultural, saindo-se de uma

percepção de que

"fazemos

o que há de tecnologicamente mais moderno, o cliente se quiser

que venha comprá-lo",

para outra que inicia o processo decisório pela identificação das necessidades dos clientes." Ainda que nas atividades operacionais esta

transformaçao va se dar naturalmente com a

privatização, também o desenho da

política setorial e da regulaçao

(em menor escala)

precisam dar maior atenção às engenharias econômica e financeira e aos aspectos comerciais dos setores de infra-estrutura.

21

Este ponto e lembrado por Ergas (1994,

p. 207), que cita como exemplos práticos dessa política "price-cap regulation, auctions of scarce resources (such as radio frequencies), reverse burden-of-proof

obligations (on firms suspected of

predatory pricing), and last-offer arbitration for interconnect price." Esses problemas não são, obviamente, independentes.

Na

prática, o financiamento público funciona como uma garantia do governo aos investidores privados, em parte desempenhando o papel do mercado segurador e de um aparato regulatório eficiente e bem estabelecido.

(18)

Assim, uma avaliação

preliminar e impressionística das reformas em andamento no setor de infra-estrutura leva à conclusão de

que ainda que grandes avanços tenham sido feitos, alguns inimagináveis há alguns anos, muito ainda resta

por fazer. Em suma, é preciso dar mais transparência e clareza de objetivos à reforma do aparato regulatório e envidar mais esforços na pnvatizaçao do financiamento dos novos investimentos nessa área. Acima de tudo, é necessária uma mudança mais dramática de

percepções sobre o problema da infra-estrutura do que parece ter tido lugar até aqui no Brasil.

(19)

Referências

Bemdt, E. R. e B. Hansson, Measuring the contribution of public infrastructure capital in

Sweden, NBER Working Paper, No. 3842, 1991,

Bonelli, R. e A. C. Pinheiro, O papel da poupança compulsória no financiamento do

desenvolvimento, Revista do BNDES, No. 1, junho de 1994.

Braudel Papers, Instituto Fernando Braudel, No. 17, 1997. Ergas, H., Comment on

"Appropriate

regulatory technology", Proceedings of the World Bank

Annual Conference on Development Economics 1993.

Ferreira,^ P. C., Investimento Público e infra-estrutura no Brasil. Artigo apresentado na

conferência "Restrições Macroeconômicas

para a Transformação Produtiva com Equidade no Brasil," CEPAL/IPEA, Brasília, 6-7 de abriol, 1995.

Foster, C. D., Privatization,

public ownership and the regulation of natural monopoly, Blackwell Publishers, 1992.

Frischtak, C., Os novos modelos institucionais

para os setores de infra-estrutura, VII Fórum Nacional, Instituto Nacional de Altos Estudos, maio de 1996.

Gracioso, A., Fosfértil: os mil dias decisivos. T.A. Queiroz, Editor, LTDA, São Paulo, 1996. Israel, A., Issues for infrastructure management in the 1990s, World Bank Discussion Paper No

171, 1992. F

' "

Littlechild, S., Regulation of British Telecommunications

profitability, London, Her Maiesty's Stationery Office, 1983.

Pinheiro, A. C., Os fundos de

pensão e o financiamento do desenvolvimento: o papel do BNDES Revista do BNDES, No. 2, 1994.

Pinheiro, A. C., O setor

privado na infra-estrutura brasileira, Revista do BNDES, No. 5, 1996 (a).

Pinheiro, A. C., Judicial system

performance and economic development, Ensaios BNDES, No. 2, outubro de 1996 (b).

Sirtaine, S., Financing infrastructure in Asian developing countries: attracting Asian capital

market investors in BOT schemes, Suntory-Toyota International Centre for Economics and

Related Disciplines, London School of Economics, Working Paper 52, janeiro 1994. Winston, C., Efficient transportation infrastructure

policy, Journal of Economic Perspectives v 5, No. 1,1991.

Referências

Documentos relacionados

a) Sorteio Padrão: 1.000 (mil) vezes o valor da última mensalidade paga, do 1º mês ao 36º mês de vigência, no(s) mês(es) de ocorrência da modalidade. b) Sorteio Dobrado: 2.000

Após a colheita, normalmente é necessário aguar- dar alguns dias, cerca de 10 a 15 dias dependendo da cultivar e das condições meteorológicas, para que a pele dos tubérculos continue

indústrias extrativa e de transformação na Classificação Nacional das Atividades Econômicas – CNAE/IBGE, quanto a seu Potencial Poluidor segundo o critério para fins

”Macabro de levantar”. Edgard Allan Poe. Desde hace unos años, las conversaciones con emojis han ganado protago- nismo hasta convertirse en esenciales para nosotros. Solo

A abertura de inscrições para o Processo Seletivo de provas e títulos para contratação e/ou formação de cadastro de reserva para PROFESSORES DE ENSINO SUPERIOR

quem criou a página na Internet; que não há prova de que o “Rodeio das Gordas” aconteceu; que não incentivou a prática do “Rodeio”; que não houve qualquer

Câmara dos Santos.. A pesquisa deste casal é divulgada no mundo a partir da publicação do primeiro artigo que tratava da teoria pelo Van Hiele na França, pois até então a teoria

Este livro é resultado de uma pesquisa sobre a formação profis- sional do jogador 2 de futebol no Sport Club Internacional, no qual. foi adotada em 1997 a perspectiva da