SURDEZ ASSOCIADA À IDADE: RESULTADOS PRELIM INARES
Joana Chora1, Tiago M at os1, Pat ricia Arguello2, Graça Fialho1, Helena Caria1,2
1Grupo de Surdez, Biosyst ems & Int egrat ive Sciences Inst it ut e (BioISI), Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
2Escola Superior de Saúde do Inst it ut o Polit écnico de Set úbal
joanachora@gm ail.com ; t iagodanielm at os@gm ail.com; pat [email protected] ; m [email protected] ; [email protected]
Palavras-chave: Surdez associada à idade; presbiacúsia, suscept ibilidade genét ica para a presbiacusia.
Resumo
A presbiacúsia ou perda audit iva relacionada com a idade (ARHL) é a alt eração sensorial m ais com um nos idosos, afect ando m ilhões de pessoas no m undo e cont ribuindo para o seu isolament o social e um a consequent e diminuição da qualidade de vida. A ARHL est á associada a um am plo espect ro de causas am bient ais e genét icas, e a consequências de caráct er
cognit ivo e psicossocial. A suscept ibilidade genét ica relaciona-se com o fact o de exist irem genes associados com a predisposição para a perda audit iva em função da idade, sendo est es genes im port ant es ao nível do m et abolism o oxidat ivo ou do genom a m it ocondrial, por exem plo. A suscept ibilidade genét ica associada à ARHL im plica que est a condição não seja considerada com o inevit ável, m as sim considerada com o um a doença com plexa, com possível t rat am ent o e prevenção. A população idosa vai cont inuar a aum ent ar em t odo o m undo, em consequência do aum ent o da esperança m édia de vida, sendo pois necessário pensar na saúde audit iva com o um aspect o vit al para a qualidade de vida do cidadão idoso, daí a im port ância dos est udos na área da ARHL. O objet ivo geral dest e est udo é a ident ificação de fat ores epidemiológicos e et iológicos associados à presbiacúsia num a am ost ra de indivíduos idosos da população Port uguesa. O recrut am ent o de volunt ários t em cont ado com o apoio da rede EnvelheSeres e várias out ras inst it uições, m as o predom ínio da colaboração de inst it uições do dist rit o de Set úbal, pela im plant ação da ESS/ IPS, t em sido im port ant e. Os result ados
prelim inares serão discut idos na perspect iva da saúde audit iva em Port ugal, com enfoque na am ost ra de Set úbal, sendo que na globalidade espera-se cont ribuir para um a m elhor
abordagem clínica e um a m elhor prevenção da perda audit iva, prom ovendo um a cult ura de saúde audit iva nos idosos com vist a a garant ir um a m elhor qualidade de vida e inclusão do cidadão idoso na sociedade por redução do seu isolam ent o e efeit os adversos daí result ant es.
Enquadramento Teórico
Figura 1: Dificuldades auditivas report adas na população port uguesa. As barras laranja represent am a população, as barras azuis represent am a população com queixas de perda auditiva. Adapt ado de w ww . ine.pt.
O processo fisiológico do envelhecim ent o é um a realidade que acom panha t odos os individuos ao longo do seu ciclo de vida. Há um conjunt o de alt erações a nível celular que nat uralm ent e t êm expressão ao nível dos órgãos e sist em as, e port ant o de t odo o organism o, conduzindo às m udanças observáveis e facilm ent e ident ificáveis associadas ao envelhecim ent o (Liu & Yan, 2007). São várias as teorias que procuram explicar est as alt erações ao nível celular m as as cent radas no m odelo biom édico consideram com o im port ant es o efeit o lesivo provocado pelas espécies reat ivas de oxigénio (ROS) e as prot eínas envolvidas na neut ralização dos efeit os oxidant es dest as m oléculas, bem com o os genes que as codificam , com o por exem plo os genes m it ocondriais.
A perda audit iva em função da idade, ou presbiacusia, é a alt eração sensorial m ais com um em idosos pois abrange cerca de 1/ 3 dos indivíduos com m ais de 65 anos de idade (OM S, 2014). É t am bém cham ada de surdez social pois conduz a um isolam ent o progressivo do idoso, que m uit as vezes ent ra em quadros de isolam ent o profundo e m esm o de depressão, por não ouvir enão conseguir int eragir com o m undo que o rodeia, mais do que devido a problem as
neurológicos ou sit uações de dem ência. Consequent em ent e, em t erm os sociais, há um a dim inuição da qualidade de vida dos indivíduos dificult ando a sua inclusão na sociedade. A presbiacúsia m anifest a-se com o um a surdez bilat eral, progressiva e predom inant e nas alt as frequências. Relat ivam ent e à sua et iologia classifica-se com o um a condição m ult ifact orial podendo ser devida a causas am bient ais e/ ou genét icas (Fischel-Ghodsian et al., 1997, van Eyken et al., 2007).
Qualquer t ipo de perda audit iva é avaliada clinicam ente por um audiogram a onde as
int ensidades necessárias para que sons com det erm inadas frequências (habit ualm ent e ent re os 125 e os 8000 Hz) sejam ouvidos pelo indivíduo t est ado, são regist adas em décibeis (dB) e com paradas com os respect ivos valores padrão. A conversação e os sons m ais com uns que nos rodeiam no quot idiano (Figura 2) quando observados num audiogram a localizam-se
cham a a “ banana da fala” . Qualquer perda audit iva que abranja as frequências dest a região do audiogram a vai t er um im pact o na conversação e por t ant o vai lim it ar a int egração social do indivíduo no m eio circundant e devido à desconexão do diálogo t endo efeit os direct os na dim inuição da qualidade de vida, conform e já referido. Sons em it idos a int ensidades m uit o elevadas podem ult rapassar os níveis de segurança fisiológica, especialment e se forem prolongados no t em po, por danificarem as nossas células ciliadas, as quais não se regeneram.
Figura 2: Esquem a de audiogram a com indicação dos equipam ent os que em it em sons caract eríst icos no quot idiano com a represent ação das respet ivas frequências e intensidades em que são ouvidos. Est á t am bém represent ada a “ banana da fala” na zona a am arelo e est ão indicadas as frequências de alguns dos fonem as m ais usados. Adapt ado de ht t p:/ / list eningandspokenlanguage.org/ SpeechBanana/ A exposição durant e m uit o t em po a sons de int ensidade elevada pode ser lesiva para as células do ouvido. O ouvido hum ano divide-se em t rês com part im ent os: o ouvido ext erno, onde se localiza o canal audit ivo, o ouvido m édio, que am plifica at ravés da cadeia de ossículos os sons capt ados pelo ouvido ext erno, e o ouvido int erno onde se localiza um a est rut ura em form a de concha helicoidal, a cóclea, no int erior da qual est á o Órgão de Cort i onde se localizam as células ciliadas responsáveis pela recepção m ecânica da energia dos vários sons recebidos do ext erior e consequent e libert ação de neurot ransm issores, os quais vão est im ular o nervo audit ivo e, por consequência, o cent ro audit ivo do córt ex cerebral.
As células ciliadas, ext ernas e int ernas, do Órgão de Cort i, possuem est ereocílios cuja deflecção em consequência dos est ímulos mecânicos originados pelos sons são cruciais para a audição normal. Os est erocílios sofrem degeneração em função da idade e do excesso de ruído (int ensidade e t empo) a que sejam submet idos. Exist em pequenas diferenças nas prot eínas expressas em cada indivíduo, e é por isso provável que est a degeneração das células ciliadas seja parcialment e dependent e das formas das
genes e alt erações genét icas a est e t ipo de perda audit iva o que faz com que a presbiacúsia possa ser uma sit uação t rat avél ou m esmo evit avél caso a
suscept ibilidade genét ica seja ident ificada precocem ent e em indivíduos que evit em com port am ent os de exposição lesiva a ruído por exem plo.
Os genes que t êm vindo a ser est udados com o event ualm ent e associados à presbiacúsia são genes associados a form as de surdez não-sindróm ica – genes KCNQ4, GJB2 e GJB6, DFNA2, DFNA5, DFNA8 and DFNA12 (van Eyken et al., 2006; van Beeck et al., 2012). Tam bém os haplogrupos de ADN m it ocondrial U e K na população Aust raliana (M anw aring et al. 2007) foram associados a presbicúsia, assim com o o foram out ros genes do m et abolism o oxidat ivo t al com o o gene NAT2, em concret o o haplót ipo NAT2* 6A, na população Europeia (van Eyken et al., 2007, Angeli et al., 2012,). Est udos de associação do genom a envolvendo cent ros de diferent es países permit iram associar significat ivament e o SNP rs11928865 (alelo T) no gene GRM 7 a presbiacúsia (Friedm an et al., 2009; New m an et al., 2012).
As m it ocôndrias são organit os responsáveis pela produção de ATP nas nossas células e est ão envolvidas na produção de ROS. O genom a m it ocondrial apenas é t ransm it ido at ravés da linhagem m at erna, o que perm it e seguir a sua t ransm issão desde um ancest ral com um (Raule et al., 2007), pela ident ificação de variant es que se acum ulam com o passar do t em po, sendo que cert os conjunt os de variant es definem grupos de ADM m t , os haplogrupos, t odos eles derivados de um ancest ral com um . O ADNm t é ext rem am ent e suscept ível a m ut ações, por est ar expost o a grandes concent rações de radicais livres gerados pela cadeia respirat ória e por não exist irem nas m it ocôndrias enzim as que o prot ejam de lesões. Algum as dest as m ut ações t êm sido descrit as com o t endo um papel im port ant e no envelhecim ent o (Fischel-Ghodsian et al., 1997). Percebe-se assim a associação at rás referida, num a população aust raliana, ent re os haplogrupos U e K e a presbiacúsia (Fischel-Ghodsian et al., 1997; Angeli et al., 2012).
O gene NAT2 localiza-se no crom ossom a 8p22 e codifica para a enzim a NAT2 que é um a N-acet ilt ransferase que act ua na det oxificação de subst âncias exógenas at ravés da reação quím ica designada com o N-acet ilação ou O-acet ilação, sendo t am bém im port ant e na defesa cont ra ROS e para o balanço do est ado oxidat ivo da célula em geral. As populações são m uit o het erogéneas no que diz respeit o ao genót ipo de NAT2 que podem apresent ar. Enquant o algum as variant es nest e gene result am em enzim as com baixas t axas de acet ilação levando à redução dos m ecanism os de det oxificação, out ras originam enzim as com alt as t axas de
act ividade. Consequent em ent e, os diferent es genót ipos do gene NAT2 est ão associados a t ipos diferent es de fenót ipos: rápido e lent o (van Eyken et al., 2007; Sabbagh et al., 2008).
No present e art igo apresent am os os result ados preliminares obt idos no est udo dos
haplogrupos do ADN m it ocondrial e do gene NAT2 num a am ost ra da população port uguesa recolhida m aiorit ariam ent e em lares ou cent ros de dia do dist rit o de Set ubal.
Objectivo e M etodologia
O present e est udo é part e de um project o financiado pela FCT (PTDC/ NEU-BEN/ 1192/ 2012) cujo object ivo geral é ident ificar fact ores epidem iológicos e et iológicos associados à
presbiacúsia num a am ost ra de idosos Port ugueses (n
≈ 1000) visando contribuir para o melhor
aconselham ent o e para a m elhor abordagem t erapêut ica e de prevenção da surdez nest a faixa et ária. A am ost ra em est udo é caract erizada segundo quat ro abordagens: (i) análiseaudiológica; (ii) análise clínica e hist ória fam iliar; (iii) análise genét ica; (iv) aplicação de um quest ionário, const ruído no âm bit o do project o, para avaliação do im pact o da surdez na qualidade de vida.
de 1000 idosos no t ot al. O quest ionário sobre a hist ória clínica foi t am bém const ruído no âm bit o do present e project o.
Resultados Preliminares e Discussão
Os result ados aqui apresent ados referem-se apenas a um a sub-am ost ra de 286 indivíduos com m ais de 65 anos (Tabela 1) dos quais 124 (43,4%) colhidos em Set úbal, correspondendo a um a dist ribuição geográfica de t odo o País, est ando as m ulheres m ais represent adas do que os hom ens, o que reflect e a dem ografia do País, e apresent ando uma m édia de idades próxim a dos 77 anos em am bos os sexos.
Tabela 1. Caract erização da am ostra já analisada quant o à idade e ao sexo.
A avaliação clínica e audiológica engloba o quadro clínico geral, a m edicação habit ual e respet iva(s) causa(s), inform ação sobre a exist ência de doença dos ouvidos, realização de ot oscopia e t am bém de um audiogram a ent re 125 Hz – 8000Hz.
O primeiro result ado obt ido, embora não t endo sido esperado, foi inegavelment e import ant e, e corresponde à observação em cerca de 18,2% (38/ 209) dos idosos avaliados de oclusão t ot al ou quase t ot al por cerúmen. Ist o significa que est es idosos
apresent am uma elevada perda audit iva devida ao fact o de t erem o canal audit ivo
t ot alm ent e ou quase t ot alm ent e obst ruído por cera já solidificada que form a um ‘rolhão’, o qual im pede a passagem das ondas sonoras. Consequent em ent e, não é possível realizar a ot oscopia nem a avaliação audiológica dest es indivíduos da am ost ra. A perda audit iva causada pela obst rucção do canal audit ivo por cerúm en é um a sit uação t rat ável e evit ável, difícil de aceit ar no present e século.
Relat ivam ent e ao gene NAT2, os result ados obt idos perm it em englobar os indivíduos da am ost ra em dois fenót ipos (Tabela 2) consoant e as alt erações nucleot ídicas encont radas (dados não apresent ados nest e art igo). Os result ados obt idos at é agora est ão de acordo com o esperado para a população Europeia (Figura 3), na qual se verifica um equilíbrio m uit o grande na dist ribuição geográfica dos fenót ipos de rápida e de lent a acet ilação. O m esm o não se observa no cont inent e am ericano, no asiát ico e m esm o no sul de África. Est as diferenças genét icas explicam -se por diferent es caract eríst icas das populações est abilizadas à m edida que o Hom em foi evoluindo.
Figura 3: Dist ribuição m undial dos fenótipos associados aos diferent es genótipos do gene NAT2. Os sect ores a branco represent am fenót ipos de lent a acet ilação e os sect ores a negro representam fenót ipos de rápida acetilação. Adapt ado de Sabbagh et al. 2008.
No present e art igo apresent am-se t ambém os result ados prelim inares obt idos no est udo dos haplogrupos do ADN mit ocondrial (Tabela 4). Est udos filogenét icos
permit iram const ruir uma árvore filogenét ica dos haplogrupos, onde se dem onst ra um a
dist ribuição específica por regiões, est ando a raíz da ár vore localizada em África.
A dist ribuição m undial dos haplogrupos (Figura 4) m ost ra que a origem ou raíz est á em África, e que os haplogrupos m ais frequent es na Europa são H, U, K, J, T, V, X, I e W (Raule et al. 2007). Os result ados obt idos na am ost ra em est udo m ost ram com o m ais frequent e o
haplogrupo H, o que est á de acordo com o esperado para a população Europeia. O haplogrupo M é o m enos com um na nossa am ost ra. O fact o de t er m os observado t am bém o haplogrupo L, caract eríst ico de África, deve est ar relacionado com as nossas relações seculares com as ex-colónias Port uguesas. O segundo haplogrupo m ais com um é o haplogrupo U que já foi nout r os est udos associado com a presbiacúsia; nest es result ados preliminares não é ainda possível t irar conclusões sobre essa relação.
No present e art igo apresent ám os o est udo da suscept ibilidade genét ica à surdez associada à idade que t em sido desenvolvido no âm bit o de um project o financiado pela FCT. Os result ados obt idos at é agora são ainda prelim inares no que diz respeit o à relação ent re a presbiacúsia e as alt erações genét icas que podem cont ribuir para essa condição. No ent ant o, há um a conclusão, inesperada, que podem os de im ediado ret irar e que provavelm ent e apont a para um im port ant e problem a de saúde pública t ot alm ent e t rat avél e evit ável. Consist e no fact o de 18,2% da nossa am ost ra apresentar perda audit iva condicionant e da sua at ividade quot idiana devido a oclusão t ot al ou quase t ot al do canal audit ivo por cerúm en nos dois ouvidos.
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