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UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA

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FÁBIO SALVATTI

A PLAGIOCOMBINAÇÃO COMO ESTRATÉGIA DRAMATÚRGICA NA

CIBERCULTURA

(2)

A PLAGIOCOMBINAÇÃO COMO ESTRATÉGIA DRAMATÚRGICA

NA CIBERCULTURA

Dissertação apresentada como requisito

para a obtenção de grau de Mestre em

Teatro, Programa de Pós-Graduação em

Teatro (Mestrado) do Centro de Artes

da Universidade do Estado de Santa

Catarina,

Orientação: prof. Dr. Valmor Beltrame.

(3)
(4)
(5)

À CAPES,

Ao Programa de Pós-Graduação em Teatro da UDESC, seu corpo docente e

discente,

A meu orientador, prof. Valmor (Nini) Beltrame,

A minha mãe, Silvia Salvatti,

A meu pai, Antonio Aldo Salvatti,

A Isaías Masiero, Lourdes Masiero, Isaías Masiero Filho e Juliana Serra

Gomes da Silva,

À prof. Célia Arns de Miranda,

À prof. Margarida Gandara Rauen,

À prof. Eliane Lisbôa,

Ao prof. Mário Messagi Jr.,

A Marina Bazzo e família,

A Verônica McFarlin,

A Clarissa Buzetto,

Aos meus amigos, em especial a Marcelo Simon Wasem, Mariana Bazzo,

Fabro Steibel, Juliano Mezzomo e Alexandre Montenegro,

(6)
(7)

Resumo ... II

Abstract ... III

1. Introdução ...1

2. CTRL C – CTRL V ...15

2.1. Tlön como metáfora... 15

2.2. O Autor Ambidestro ... 19

2.3. Bits e Beats ... 28

2.4. Arrastões... 43

3. Einstein, Hamlet e Tom Zé na coxia ...51

3.1. Erre! ... 51

3.2. Hamlet com Febre ... 67

3.3. Quero ser José... 79

4. Conclusão ...92

Glossário ...99

Referências Bibliográficas ...104

Anexos...i

I. Entrevista com Fernando Kinas ...ii

II. Entrevista com Felipe Hirsch...viii

III. Entrevista com Adriano Esturilho ...xiii

IV. R ... xx

V. Estou te escrevendo de um país distante ...xxxiv

VI. Arrastom...lvii

VII. Fotos R ...lxv

VIII. Fotos Estou te escrevendo de um país distante...lxvii

IX. Fotos Arrastom ...lxix

X. Programa R ...lxx

XI. Programa Estou te escrevendo de um país distante...lxxvii

(8)

RESUMO

A plagiocombinação, estratégia de produção artística através da

reconfiguração de obras preexistentes prefigurada pelo músico Tom Zé, vem sendo

cada vez mais freqüente na contemporaneidade. O advento da criação da rede mundial

de computadores, o grande volume de troca de informações que dele resulta e as novas

relações culturais que derivam desse ciberespaço estão diretamente associados a essa

freqüência. A recorrência da plagiocombinação e os novos desafios e possibilidades

propostos pela cibercultura aos artistas contemporâneos mostram a necessidade da

revisão do conceito de autoria e da legislação que lhe dá suporte. Ao pôr em crise esse

conceito, o artista-plagiocombinador está exercendo um ato político de profundas

implicações ideológicas.

O propósito deste trabalho é examinar o mecanismo da plagiocombinação e

seus vínculos com a cibercultura, sublinhando, sobretudo, o caráter ideológico da

opção por essa estratégia.

(9)

ABSTRACT

Plagi-combination, an artistic production strategy of reconfiguring existing

works prefigured by the musician Tom Zé, is becoming more and more frequent

contemporarily. The advent of the World Wide Web, as well as the great volume of

information exchanges produced by it and the new cultural relations that are created in

this cyberspace are directly connected to this frequence. The recurrent use of

plagi-combination and the new challenges and possibilities generated by cyberculture and

contemporary artists demonstrate the need of revising the concept of authorship and

the legislation that supports it. Jeopardizing this concept, the plagi-combining artist is

exercising a political act of deeply ideological implications.

The purpose of this thesis is to examine the plagi-combination mechanism

and its links to cyberculture, emphasizing over all the option for this strategy’s

ideological quality.

(10)

1. INTRODUÇÃO

`Twas brillig, and the slithy toves Did gyre and gimble in the wabe: All mimsy were the borogoves, And the mome raths outgrabe.

Lewis Carroll

Ao publicar o poema The Hunting of the Snark, Lewis Carrol, o criador de

Alice no País das Maravilhas, demonstrou um curioso recurso de criação de texto

literário. É o que ele próprio chamou de portmanteau word. A palavra portmanteau

designa um tipo de valise com dois compartimentos. Uma palavra-valise seria aquela

capaz de portar, em si, dois (ou mais) significados. Assim, Snark é um monstro

fantasiado por Carroll: ao mesmo tempo tubarão (shark) e serpente (snake).

Utilizando o mesmo recurso, Carroll inseriu em Alice Através do Espelho, de

1872, o poema Jabberwocky

1

(cuja primeira estrofe está na epígrafe deste fragmento),

que só é lido por Alice quando ela o coloca em frente a um espelho. A tradução (ou

trans-criação) de Augusto de Campos, cujo título é Jaguadarte, começa da seguinte

forma:

Era briluz. As lesmolisas touvas Roldavam e relviam nos gramilvos. Estavam mimsicais as pintalouvas, E os momirratos davam grilvos.2

1 O Jabberwocky tem rendido inúmeras discussões sobre poesia nonsense, teoria da

literatura, etc. Martin Gardner aponta algumas delas na nota sobre o poema na edição comentada de

Alice (CARROLL, 2002.)

2 Há um site com traduções do poema de Carrol para diversas línguas (espanhol, português,

(11)

Expressando o princípio de síntese, o portmanteau tem a característica de

reunir duas idéias no mesmo espaço-tempo. No entanto, o portmanteau

não é uma

criação da literatura. Esbarramos nele diariamente, no contato com a linguagem

dinâmica e fértil das ruas. Antes de Oswald de Andrade, de Guimarães Rosa, de

Haroldo de Campos aplicarem-no em suas obras, os cartórios já registravam

“Florisvaldo”, filho de Florisbela e de Osvaldo. A liberdade lúdica da língua em

movimento possibilita a criação de inúmeras palavras-valise, como o smog londrino,

misto de smoke (fumaça) e fog (neblina). (cf. LEMINSKI, 2001, p. 43).

Eis que aparecem dois portmanteaus já no título do meu trabalho.

“Plagiocombinação” e “cibercultura” acenam como pares de gêmeos xifópagos

carentes de dicionarização. Diferentemente das “engenhingonças” de Guimarães Rosa,

do “servissalário” de Haroldo de Campos ou mesmo dos “camibalistics” de Joyce, os

portmanteaus

que apresento não foram criados por superposição, mas sim por

justaposição. Discordo de Leminski, que restringe os portmanteaus exclusivamente à

superposição de palavras ou conceitos: “Duas palavras são projetadas uma dentro da

outra, produzindo uma terceira, nova totalidade, uma unidade poemática” (idem, p.

46). O próprio título de Jabberwocky é uma justaposição de jabber (tagarelar) e wocon

(fruto, rebento).

A autoria (ou melhor, o pioneirismo na utilização) dos termos

“plagiocombinação” e “cibercultura” são do músico baiano Tom Zé e do filósofo e

professor Pierre Lévy, respectivamente.

(12)

ganhasse o reconhecimento e o respeito que lhe eram devidos. Pierre Lévy, por sua

vez, nasceu na Tunísia, em 1956, e realizou seus estudos na França, doutorando-se em

Sociologia e em Ciências da Informação. Publicou uma dezena de livros, cujos temas

estão sempre ligados à cultura do mundo virtual e às novas tecnologias. Pierre Lévy

lecionou Hipermídia na Universidade de Paris VII. Atualmente, conduz a Cátedra de

Pesquisa na Universidade de Ottawa, no Canadá.

Tal qual um portmanteau, este trabalho tem a intenção de contemplar dois

conceitos (o do tropicalista de Irará e o do filósofo afro-parisiense) para pensar uma

determinada estratégia de produção dramatúrgica na contemporaneidade.

É importante precisar aqui o que estou entendendo por estratégia e como ela

se diferencia de procedimento. Concebo estratégia como uma tática. É um

planejamento, uma organização para atingir determinado fim, como podemos supor

quando falamos em estratégia no futebol ou na guerra. Por isso não é meramente

técnica, mas a aplicação de vários meios disponíveis para a obtenção de resultados.

Esses meios são os procedimentos. Assim, uma estratégia engloba procedimentos. No

entanto, aquela é diferente da soma de todos estes. Uma estratégia

revela as

implicações éticas que levaram a sua escolha, ela está necessariamente contaminada de

ideologia. Portanto, uma estratégia

artística deve estar sustentada por

posicionamentos éticos, ideológicos, logo, políticos.

Para restringir o campo de pesquisa e precisar a estratégia artística sobre a

qual versa esse trabalho, trato de definir operacionalmente o termo plagiocombinação:

A plagiocombinação é uma estratégia de construção de um objeto estético na qual se

reconfiguram fragmentos de obras preexistentes. A plagiocombinação contempla uma

série de procedimentos de edição, como a colagem, a paródia, a citação, a paráfrase, a

montagem, a alusão, o pastiche, a bricolagem, a sobreposição, e outros, de forma que,

como estratégia, não pode se encerrar num conjunto de passos (numa receita) a se

adotar, mas sim, assume o aspecto de um mapa caótico e indeterminado.

(13)

dramatúrgico e espetacular

3

a partir da apropriação de diversas fontes preexistentes no

recorte cultural e temporal específico da cibercultura. A hipótese com a qual trabalho é

a de que a plagiocombinação já não pode mais ser vista como uma atitude

contraventora, mas como uma estratégia criativa legítima da produção artística na

cibercultura. Os problemas decorrentes dessa hipótese dizem respeito à postura do

artista frente à plagiocombinação nas suas implicações ideológicas. O artista estará

sempre em embate com as noções de propriedade e de autoria. Sua orientação

ideológica e política balizará a relação com a estratégia de plagiocombinação.

Esse objeto aponta para diversos caminhos, muitos dos quais não vão ser

percorridos nesse trabalho, ou vão apenas assessorar a discussão do recorte específico

desta pesquisa. O primeiro deles é a discussão a respeito de mimesis que tem origens

na filosofia clássica e é, segundo Gerd Borheim, “o principal pilar em todo o

desenvolvimento da estética no Ocidente” (1992, p. 341). O debate a respeito da

imitação é fundamental para o estudo da filosofia da arte e é o fulcro de textos

basilares da teoria teatral, como a Poética de Aristóteles ou os Diálogos, de Platão. No

entanto, ainda que reconheça sua importância, me permito não contemplá-los como

marco teórico devido ao foco da pesquisa.

Outro rumo que não será privilegiado será a discussão psicanalítica da

formação da identidade individual, levantada por autores da envergadura de Freud e de

Lacan. A história do ocidente constituiu um “sujeito” e esse mesmo “sujeito” sofreu

uma dissolução. Essa trajetória tem nuanças históricas, filosóficas e psicanalíticas.

Sem dúvidas, essas nuanças dialogam com o conceito de autoria. Sobre esse ponto, me

interessa a perspectiva que Barthes lança em “A Morte do Autor” e que Foucault

trabalha em “O que é um autor?”, que fazem uma reflexão sobre o indivíduo criador.

3 Para Patrice Pavis, “texto espetacular” é “a relação de todos os sistemas significantes

(14)

Ambos do final da década de 60, os ensaios patenteiam a opinião de que a construção

da “noção de autor constitui o momento forte da individualização na história das

idéias” (FOUCAULT, 1992. p. 33). Da mesma forma, Michel Schneider aborda a

problemática da identidade em seu “Ladrões de palavras”, que aborda o plágio de uma

maneira mais direta do que os demais autores. Schneider dedica seu estudo a

estabelecer o histórico da estrutura que relega o plágio, “o mais freqüente dos

procedimentos de escritura e, ao mesmo tempo, a pior das ações do escritor” (1990, p.

50), a uma condição marginal.

Do ponto de vista da pesquisa teatral brasileira, tanto a professora Catarina

Sant’anna quanto a professora Ruth Röhl apontam suas reflexões para a

intertextualidade, conceito desenvolvido por Júlia Kristeva no fim dos anos 60. As

raízes desse conceito estão nos estudos que o russo Mikhail Bakhtin desenvolveu no

campo da lingüística nos anos 20, principalmente a polifonia e o dialogismo, que

exploram a apropriação do discurso de outrem não como uma mudez daquele que se

apropria, mas como uma mediação com seu discurso interior. Identificam-se no

discurso as vozes que o compõem, e, desta maneira, aborda-se no próprio discurso o

seu caráter processual. “O narrador pode deliberadamente apagar as fronteiras do

discurso citado, a fim de colori-lo com as suas entonações, o seu humor, a sua ironia, o

seu ódio, com o seu encantamento ou o seu desprezo” (BAKHTIN, 1992, p. 150).

Dessa idéia bakhtiniana, Kristeva propõe a criação textual como um “mosaico de

citações” (RÖHL, 1997, p. 29), onde todo discurso é uma apropriação e transformação

de um discurso que o precede.

(15)

estrito e operacional, quando um autor, ao redigir o seu texto, não só é consciente do

uso que faz de outros textos, como também espera que o receptor entenda a relação

intertextual como intencional por parte dele e importante para a compreensão do texto”

(RÖHL, 1997, p. 32).

Os caminhos trilhados pela lingüística, de Bakhtin até os dias de hoje, para a

compreensão do fenômeno da construção de texto a partir de obras preexistentes, sem

dúvida trazem uma contribuição fundamental para o problema e despontam como uma

atraente linha de pesquisa. O objeto que pretendo estudar é muito próximo daquele

concebido por Broich. No entanto, não é pela trilha da lingüística que investigarei.

Assim, o presente trabalho não pretende ser uma revisão do conceito ou da

terminologia intertextualidade.

A reconfiguração técnica desencadeada pela cibercultura (que será

devidamente abordada adiante) conduz a uma nova relação com o conhecimento, com

a educação e com a informação. Essa nova relação enfrenta a anterior principalmente

no que diz respeito à propriedade do conhecimento, já que as informações estão, de

certo modo, “disponíveis” em rede

4

. Ou seja, a privatização da criação e da difusão por

autores e editores sofre um grande abalo na cibercultura. A legitimidade ética e

jurídica que o status de autor tinha até então era embasada num padrão de difusão

protegido legalmente, já que a informação tinha um suporte tangível. Quando o acesso

à informação passa a ser digital, e mais, virtual

5

, a garantia jurídica enfrenta novos

paradigmas. Os debates na área do direito autoral têm ganhado força. De um lado, os

detentores históricos da propriedade intelectual: editores, distribuidores, estúdios,

gravadoras, etc. De outro, o vislumbre de democratização da informação, percebido

por ativistas políticos e culturais principalmente nas novas tecnologias disponíveis

4 Ainda que essa disponibilidade seja relativa, um dos temas de embate das visões de Pierre

Lévy e do Critical Art Ensemble, conforme também apontado adiante.

5Digital é toda aquela informação que pode ser convertida em dígito. Virtual é aquilo que

(16)

atualmente. Essas tecnologias congregam não só o advento da internet, mas também o

barateamento dos equipamentos de rádio-difusão, que motiva diversas rádios

comunitárias (algumas recebendo a alcunha de “piratas”); de produção e edição de

imagens de qualidade satisfatória, com o vídeo digital; de gravação de música digital,

os famigerados gravadores de CD, que tanto assustam a indústria fonográfica; e até

mesmo o maior acesso a tecnologias pré-digitais de publicações como fanzines e

jornais alternativos.

A apropriação e manipulação da propriedade intelectual digitalizada

demandam uma forçosa revisão de paradigma do Direito Autoral:

À situação artesanal do autor que isoladamente cria e individualmente autoriza esta ou aquela utilização sucede a cultura de massas, em que os produtos são lançados para difusores e consumidores anônimos, sem hipótese nenhuma de se processar a autorização individual e prévia que as leis pressupõem. Toda estrutura do Direito do Autor está hoje obsoleta (ASCENSÃO, 1997, p. 7).

Nesse contexto, a abordagem jurídica é outro caminho cheio de meandros

suculentos para o estudo da plagiocombinação. No entanto, o foco desta pesquisa não

se dará nos termos da lei. Sempre que a Lei de Direitos Autorais

6

ou o histórico dos

direitos autorais forem evocados, será de forma acessória, com vistas à discussão da

lógica que fez com que os direitos autorais fossem criados e se perpetuassem, mas não

a da legislação em si.

A trajetória desta pesquisa se iniciou quando tive contato pela primeira vez

com o termo “plagiocombinação”, enquanto dirigia o núcleo de teatro-velocidade da

Companhia EmCômodo Teatral, em Curitiba, em 2000. A acepção de reciclo das

idéias, da reconfiguração e recontextualização de fontes já aparecia desde antes na

minha obra artística, e encontrava em Tom Zé o conceito anárquico de que precisava

para batizá-la. Assim, em dezembro daquele ano, dirigi “Zero”, minha primeira

6 A legislação que será usada de maneira instrumental é a Lei 9610, de 19 de fevereiro de

1998, que regulamenta os direitos autorais no Brasil e The Digital Millennium Copyright Act

(17)

plagiocombinação assim chamada. Desde então, venho privilegiando esse conceito na

minha criação como diretor e dramaturgo. Como espectador, já assistira a duas peças

que me interessaram profundamente e que foram compostas através de uma estratégia

na qual reconheço similaridades com a plagiocombinação. Foram elas “R”, com

direção de Fernando Kinas, e “Estou te escrevendo de um país distante”, com direção

de Felipe Hirsch.

“R” aproveitava a teoria da relatividade de Einstein como fio condutor para

um espetáculo preocupado em discutir política, ciência e arte. Fernando Kinas, diretor

de teatro nascido em Joinville em 1966, tinha recentemente voltado de seu mestrado na

Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris, quando estreou “R” em Curitiba, em abril

de 1997. Como diretor, montou “Valsa Número Seis”, de Nelson Rodrigues (1996);

“Um Artista da Fome”, baseado no conto homônimo de Franz Kafka (1998); “Carta

Aberta”, a partir do texto de Dennis Guénoun

7

(1998); “Tudo o que você sabe está

errado”, em que compilava Descartes, Augusto dos Anjos, Büchner, Shakespeare e

outros autores (2000); “Fragmento B³”, com textos de Samuel Beckett e de Edward

Bond (2001), espetáculo em que tive a oportunidade de fazer a assistência de direção;

e “O Muro de Berlim nunca existiu”, texto de Luis Vidal Giorgi

8

(2003). Atualmente

Fernando dá aulas na FAAP, em São Paulo, e presta consultoria teatral ao Consulado

da França.

“Estou te escrevendo de um país distante” revisitava diversos Hamlets

escritos no século XX (o de Antônio Abujamra, o de Heiner Muller, o de Tom

Stoppard) e compunha o que era chamado de “Hamlet com febre”, subtítulo do

espetáculo. O diretor, Felipe Hirsch, nascido no Rio de Janeiro, em 1972, e radicado

em Curitiba, foi responsável pela organização do texto do espetáculo. Felipe tem uma

7 Francês, Denis Guénoun é filósofo, músico, ator, diretor, dramaturgo e professor de teatro

na Universidade de Strasbourg e Paris III. Entre 1987 e 1990, Guénoun dirigiu o Centro Dramático Nacional de Reims e o Sindicato Nacional dos Diretores de Estabelecimentos de Ação Cultural.

8 Luis Vidal Giorgi é uruguaio, nascido em 1955. Cursou a Escola de Artes Dramáticas do

(18)

carreira muito premiada e aclamada pela crítica teatral. À frente da Sutil Companhia

de Teatro há dez anos, tem dezesseis espetáculos no currículo, incluindo “A Vida É

Cheia de Som e Fúria” (2000), baseado em Nick Hornby, com o qual ganhou o Prêmio

Shell de Direção; e “Os Solitários” (2002), com texto de Nick Silver, indicado para o

mesmo prêmio. “Estou te escrevendo de um país distante” (1997) deu visibilidade ao

trabalho da Companhia e recebeu diversos prêmios Poty Lazarotto, concedidos pela

classe teatral paranaense. Entre eles, melhor texto, direção e espetáculo.

O projeto de pesquisa sobre o tema da plagiocombinação contempla “R”,

“Estou te escrevendo de um país distante” e ainda um terceiro espetáculo, “Arrastom”,

com direção de Adriano Esturilho, que versa justamente sobre a estratégia

plagiocombinatória ao se debruçar sobre a obra do tropicalista Tom Zé. Adriano é

curitibano, nascido em 1978, e cursa Letras na Universidade Federal do Paraná.

“Temos que procurar” (2000), “Arrastom” (2001) e “Criânsia” (2004) foram as peças

que dirigiu no Grupo Processo em parceria com a Companhia Palavração, da UFPR.

Todas as peças tinham texto coletivo compilado por ele. Foi ator no espetáculo “Agidi”

(2001), com texto e direção de Hugo Mengarelli, e assistente de direção em “A

Exceção e a Regra” (2003), com texto de Brecht e direção de Hugo Mengarelli.

A escolha dos três espetáculos para a composição do corpo de análise se deu

pela relevância e impacto que tiveram na recente cena teatral curitibana (todos

estrearam naquela cidade), pela estratégia comum de construção de texto (ainda que

cada um guardasse sua peculiaridade), pela “subversão” que os três espetáculos

representavam ao teatro “convencional” e pela emergência profissional dos jovens

dramaturgos/diretores abordados.

(19)

pesquisa. O eixo em que me detive é o da motivação ideológica que levou cada um

dos dramaturgos/diretores a adotar a estratégia de plagiocombinação.

Por

motivação ideológica entendo as posturas ideológicas que estão

expressas tanto nas obras quanto na fala dos dramaturgos/diretores selecionados, os

valores e visões de mundo que eles pretenderam imprimir no palco. Isso foi o que

balizou a escolha das categorias para a análise de cada um dos espetáculos. Em cada

um deles uma categoria se revelou indispensável para a pesquisa: em “R”, a revolução;

em “Estou te escrevendo de um país distante”, a memória; e em “Arrastom”, a

iconoclastia.

Buscando explicitar essa motivação ideológica, outro procedimento de

pesquisa adotado foi a gravação de entrevistas com Fernando Kinas, Felipe Hirsch e

Adriano Esturilho, com um roteiro previamente definido. Ainda fizeram parte do

corpo de análise as matérias veiculadas na mídia local sobre os espetáculos, bem como

os programas das peças. Gravações em vídeo dos espetáculos também foram

analisadas para confrontar o texto usado no espetáculo daquele usado como ponto de

partida.

O marco teórico da pesquisa reúne diversos autores, e uma gama variada de

discussões, que vão desde teoria da comunicação e filosofia da linguagem, passando

por ativismo cultural até chegar à teoria teatral.

Uma das discussões contempladas pela primeira parte do trabalho é a

dimensão tecnológica que condiciona a contemporaneidade. Em Piérre Levy eu

encontrei o conceito preciso para descrever esse contexto, que é o termo-título do seu

livro “Cibercultura”. A gama de reflexões levynianas incluem a autoral, caracterizando

a criação estética no atual contexto como um sampleamento

9

de fragmentos culturais.

No entanto, a descrição da cibercultura como o “universal sem totalidade”, o momento

em que os homens se disporiam à criação de uma “inteligência coletiva” carece de

perspectiva crítica. Por isso, recorri a dois importantes coletivos de ativismo cultural

(20)

contemporâneos. O grupo Critical Art Ensemble

10

é um coletivo de cinco artistas de

diversas áreas dedicado à exploração das intersecções entre arte, tecnologia, política

radical e teoria crítica. Mantém projetos de Mídia Tática e de Biotecnologia. Já Luther

Blissett

11

, é um coletivo surgido na Itália em 1994, mas que logo se espalhou por todo

o mundo. Suas principais ações são “trotes de mídia” e performances de resistência

político-cultural. Recorri também aos conceitos de web

e de contra-net do lendário

filósofo Hakim Bey

12

, codinome do filósofo norte-americano Peter Lamborn Wilson.

Bey é famoso pelo desenvolvimento do conceito de TAZ (Zonas Autônomas

Temporárias), que seriam experiências subversivas isoladas impossíveis de serem

incorporadas pelo sistema. Bey nutre uma grande mítica em torno de sua figura: não

dá entrevistas, não se deixa ser fotografado, planta falsas biografias na rede.

Todos eles são de alguma maneira derivados do pensamento situacionista

13

e

recolocam em foco o conceito situ de detournement, “um método que consiste em

tomar as coisas dos inimigos para montar uma outra coisa, que ajude a combater o

inimigo. (...) Cada elemento da cultura passada pode ser reinventado ou fragmentado”

(INTERNACIONAL SITUACIONISTA, 2002, p.16). Posto assim, o detournement

revela seu lado subversivo. Isso está explícito tanto na idéia de “recombinação”, que é

a atualização do Critical Art Ensemble à discussão da autoria, quanto na “liquefação”,

a partir da qual o mesmo grupo faz uma severa crítica à cibercultura e seu projeto

neo-iluminista. Luther Blissett aproveita a reputação corsária dos situacionistas para criar

um personagem (ele próprio) condividual, de voz múltipla e nome único, onde o

paradigma do indivíduo criador se esvai. O conceito de “condivíduo” está entendido

10http://www.critical-art.net/.

11www.lutherblissett.net

12 Um bom texto introdutório sobre o filósofo pode ser encontrado em http://fraudeorg.

terra.com.br/sociedade.php?Tid=570

13 A Internacional Situacionista foi um grupo de esquerda radical fundado em 1957. Seu

(21)

conforme Luther Blissett o propõe (cf. BLISSETT, 2001). Em linhas gerais, pode-se

dizer que se trata de uma individualidade compartilhada livremente e de comum

acordo por vários indivíduos, formando um coletivo. As decorrências éticas desta

proposta estão examinadas no fragmento “Tlön como metáfora”, abaixo. Blissett usa a

mídia da cibercultura contra ela própria, minando as estruturas de legitimação de seu

poder

14

. Os artigos da seção “Recombinação” do site

www.rizoma.net

(em especial os

de Karen Eliot, Pablo Ortellano e Wu Ming), bem como o texto de Richard Barbrook

sobre cibercomunismo, que integram a linkografia

15

desse trabalho, também fornecem

subsídios críticos para o pensamento da cibercultura e da plagiocombinação.

A abordagem que Ruth Röhl faz da intertextualidade como categoria de

estudo da obra de Heiner Müller, os conceitos de collage e de hibridização

desenvolvidos por Renato Cohen em “Performance como linguagem” e “Work in

progress na cena contemporânea” respectivamente, e a análise que Carlos Gardin faz

sobre o teatro antropofágico de Oswald de Andrade são as referências mais próximas

ao meu trabalho na pesquisa teatral brasileira.

Ruth Röhl aponta a feição própria do recurso da intertextualidade na

pós-modernidade e considera a recorrência do procedimento no texto de Müller como

fundamental para a compreensão de sua obra. O diretor e dramaturgo alemão, que não

escondia de ninguém as suas apropriações de obras preexistentes, “criticava o critério

de originalidade exatamente por sua vinculação ideológica com a propriedade”

(RÖHL, 1997. p. 34). A produção dramatúrgica contaminada pela visceralidade

mülleriana (como “Estou te escrevendo de um país distante”, para o qual

“Hamlet-máquina” é fonte de plagiocombinação) carrega o fenômeno abordado por Ruth como

elemento criativo.

14 Para maiores informações sobre Blissett, consultar SALVATTI, Fabio. “Eu sou ele

assim como você é ele assim como você sou eu e nós somos todos juntos – elementos performáticos e subversivos em Luther Blissett”. em http://www.wumingfoundation.com/italiano/rassegna/ Salvatti_lb.html

(22)

A justaposição de imagens oriundas de fontes diversas, característica da

performance art, à qual Renato Cohen atribui o conceito de collage, é próxima à

plagiocombinação por proceder de maneira muito parecida tecnicamente, mas,

sobretudo, por guardar o mesmo espírito lúdico em relação ao material cultural

(ab)usado para a construção artística. O mesmo acontece com a hibridização, que

prevê uma “fusão de textualidades” (COHEN, 1998. p. 28) em que tanto um fluxo

dionisíaco, lúdico, libertário, quanto uma lapidação criteriosa, apolínea, estão

presentes. A pesquisa de Cohen é marco teórico indispensável para a análise de

“Arrastom”.

Gardin traz a contribuição fundamental da análise das estratégias criativas no

modernismo brasileiro. A antropofagia, em especial a produção teatral de Oswald de

Andrade, recorria em expedientes paródicos. E essa paródia é entendida como “canto

paralelo tradutor de uma nova ordem: a história enquanto construção/desconstrução”

(1995, p. 68).

A discussão sobre sobre paródia e sua implicação ideológica também está

apoiada em “Paródia, Paráfrase & Cia”, do poeta e professor Affonso Romano

Sant’Anna. Ele distingue graduações de interferência nos textos que servem de matriz

para uma obra filial qualquer. Paráfrase,

estilização,

paródia e apropriação seriam,

em ordem crescente, o nível de distorção que um artista poderia impor ao reconfigurar

a obra alheia.

Para examinar o caráter político e insurrecional da estratégia de

plagiocombinação na escritura dramatúrgica, foi necessária a contemplação da teoria

teatral de Bertold Brecht. Mais do que um marco teórico, Brecht atua nessa pesquisa

como parâmetro de engajamento dos plagiocombinadores, é um “espectro que ronda”

(plagiocombinando Marx) a análise dos espetáculos. Do autor alemão utilizo

sobretudo “Pequeno Organon

para o teatro”, publicado em “Teatro Dialético”.

Também um diálogo entre Brecht e M. Winds, publicado em “Teatro e Vanguarda”.

(23)

conceito de aura e a possibilidade que ele aponta de uma compreensão histórica

afastada da diacronia e mais próxima da sincronia. Também aproveito trechos em que

ele escreve sobre as relações de autoria e cópia.

Por fim, vários escritores de literatura deram suporte a esse trabalho.

Especialmente, estão aqui contemplados de forma alegórica Lewis Carroll (na epígrafe

desta introdução) e Jorge Luís Borges (cujo conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” serve

de metáfora para iniciar a discussão sobre autoria). E Tom Zé, responsável pela faísca

que desencadeou essa pesquisa, também é um sólido marco teórico por alimentar em

suas músicas, performances, entrevistas, encartes de cds e no livro auto-biográfico

“Tropicalista Lenta Luta” a minha vontade de me perder no universo da

plagiocombinação.

A primeira parte desse trabalho, “CTRL+C, CTRL+V” apresenta fragmentos

hipertextuais que intencionam associar o histórico da criação da figura do autor, a

cibercultura e a estratégia plagiocombinatória. A segunda parte, “Einstein, Hamlet e

Tom Zé na coxia” busca aplicar o estudo da primeira parte para o contexto específico

da produção dramatúrgica e reconhecer pontos tangentes nos espetáculos selecionados

como corpo de análise. Após a “Conclusão” deste trabalho, está incluído um Glossário

em que defino alguns dos termos técnicos relacionados com computação e com o

mundo digital e que são usados no corpo do texto da dissertação.

(24)

2. CTRL C – CTRL V

2.1. TLÖN COMO METÁFORA

Tudo o que não é meu me pertence.

Oswald de Andrade

Cego, em seu labirinto de espelhos, o autor argentino Jorge Luís Borges

brindou a história da literatura com a maestria com que conduzia seus leitores ao

assombro (inspirado pelos metafísicos de Tlön, que não buscavam a verdade ou a

verossimilhança, mas sim o assombro). Equilibrista na tênue fronteira que separa o

real do ficcional, Borges usava de elementos absolutamente verossímeis, mas falsos,

para pregar seus pequenos trotes-contos que o consagraram como um dos maiores

nomes da literatura fantástica. Este é o tom de “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, escrito em

1940 e complementado em 1947, que abre a coletânea Ficções. O conto é, segundo

Borges, uma escritura de notas sobre um livro imaginário, uma vez que ele

considerava um “desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de

explanar em quinhentas páginas uma idéia cuja exposição oral cabe em poucos

minutos. Melhor procedimento é simular que estes livros já existem e apresentar um

resumo, um comentário” (BORGES, 1975. p. 09).

(25)

suas línguas, com seus imperadores e seus mares, com seus minerais e seus pássaros e

seus peixes, com sua álgebra e seu fogo, com sua controvérsia teológica e metafísica”

(1975, p. 16). A concretude de Tlön está somente na literatura, o labirinto do

minotáurico Borges.

Tlön é um mundo aparentemente caótico, uma “irresponsável licença da

imaginação”, mas cujo regimento e aplicações das leis físicas e sociais foram

cuidadosamente formulados. A linguagem e as instituições de Tlön são idealistas. “O

mundo para eles não é um concurso de objetos no espaço; é uma série heterogênea de

atos independentes” (1975, p. 18). A concepção de universo como ato sucessivo no

tempo caracteriza todos os paradigmas tlönianos, como o fato de sua cultura clássica

abranger uma disciplina única, a psicologia; ou a inviabilidade de se constituir ciência

pela impossibilidade epistemológica dos tlönianos unirem um fato com outro e

instaurar qualquer rudimentar processo de classificação. Para os tlönianos, “um

sistema não é outra coisa que a subordinação de todos os aspectos do universo a

qualquer um deles” (1975, p. 21). A identidade em Tlön é eminentemente coletiva, o

sujeito do conhecimento é uno e eterno.

Esse assombro borgiano (vale lembrar que a metáfora de Tlön, como um

mundo ideal, em que o regimento da vida se pautava por lógica utópica, que as

relações se davam de maneira poética, foi concebida em plena Segunda Guerra

Mundial) é abordado por Luther Blissett no segundo capítulo do seu livro Mind

Invaders, intitulado “Rota para o país Tlön”. Isso porque Tlön parece apontar

idiossincrasias pertinentes ao projeto de Blissett de criação de um mito (de um

“coletivo”), da voz de um herói, capaz de ser apropriado por quem desejar, “uma

‘reputação’ entendida como obra aberta, ‘remanipulável’ constantemente, baseada no

maior número possível de ‘retoques’ e intervenções subjetivas” (2001. p.17).

(26)

segundo Roberto Bui, um dos idealizadores do projeto

16

. Luther Blissett não tinha

existência material, era apenas uma idéia, uma assinatura coletiva, um mito. Um ser

intangível vagando pelas entranhas da mídia.

Luther Blissett foi responsável por vários atos de resistência político-cultural

por todo o mundo, em especial na Itália, a partir do seu nascimento, em 1994.

Qualquer ato que lhe fosse atribuído passava a compor e desenvolver a sua reputação.

Os mais notáveis foram alguns “trotes de mídia” (media pranks), organizados por

integrantes do projeto. Entre eles, por exemplo, a denúncia de atividades satanistas na

cidade de Viterbo, que aterrorizou a população local. Uma fita de vídeo clandestina foi

exibida na televisão local, mostrando uma missa negra com gritos femininos. A

imprensa ficou em polvorosa, a cobertura dos telejornais foi massiva. Uma semana

depois, chegou à imprensa uma nova fita. Nesta havia a versão integral do mesmo

ritual: uma missa negra com figuras encapuzadas ao redor de uma fogueira. Só que,

desta vez, quando a câmera se aproximava, os satanistas tiravam os capuzes e

começavam a dançar uma tarantela e mostrar um cartaz de Luther Blissett. Tudo

desvendado. Desde a primeira denúncia aos jornais, tudo fora forjado por Blissett.

A idéia de um condivíduo

17

, “vários corpos em um mesmo Eu” (BLISSETT,

2001. p. 115), que assume atos que os próprios ativistas chamam de “guerrilha

psíquica” (para dar um exemplo mais próximo, Luther Blissett desafiou a reitoria da

Universidade Federal de Santa Catarina a decidir um impasse burocrático entre os

estudantes e os administradores da universidade numa partida de futebol) funciona

16 Ver a entrevista que realizei com Roberto Bui, um dos idealizadores do projeto Luther

Blissett e atualmente integrante do coletivo de ativistas culturais Wu Ming, em

http://www.casthalia.com.br/casthaliamagazine/ casthaliamagazine4.htm

17 Como Vitoriamario, comunidade anarquista no litoral do Paraná

(27)

como uma severa crítica ao conceito de “indivíduo”. Essa acepção encontra eco em

Tlön, onde um pensador afirmava que “há só um sujeito, que esse sujeito indivisível é

cada um dos seres do universo (...). X é Y e é Z.” (BORGES, 1975. p. 23). Isso faz

com que os conceitos de autoria e de plágio não existam em Tlön. Como na canção

dos Beatles, “eu sou ele, assim como você é ele, assim como você sou eu e nós somos

todos juntos”. Todas as obras são de um só autor, intemporal e anônimo. “Todos os

homens que repetem uma linha de Shakespeare são William Shakespeare” (1975,

p.23).

(28)

2.2. O AUTOR AMBIDESTRO

A violação dos direitos autorais é meu crime favorito.

Luther Blissett

Michel Schneider dedica um extenso livro a uma importante discussão

paralela e indissociável à de Borges. Com título emblemático, Ladrões de palavras

fornece um histórico do plágio apontando o momento em que este deixou de ser

necessidade para ser uma infâmia: “Remonta ao começo do século XIX, por volta de

1810-1830, a passagem do ‘plágio’ em sentido amplo, prática difundida (comunidade

de temas, obrigatoriedade de formas, legado da tradição), ao plágio em sentido estrito

(roubo de um texto): o plagiário aparece na cena literária” (1990, p.42).

Cronologicamente, a acepção de plágio no seu sentido moderno (já que ele aparece

como termo na Antigüidade Clássica, a palavra vem do grego, plágios, “trapaceiro”)

coincide com a ascensão da burguesia ao poder, com as Revoluções Francesa e

Industrial, e com a hegemonia dos valores estéticos burgueses com o Romantismo. Era

coerente que uma classe que não tinha a secularidade da aristocracia não fixasse nos

“modelos canônicos” (vale dizer no seu passado de classe) o valor estético

preponderante. Ao invés, há a sobrevalorização do indivíduo criador, do gênio, do

original, do autêntico, do Autor maiúsculo, criador de uma Arte também maiúscula.

Essa valorização revela uma implicação ideológica bastante clara: a propriedade (o

capital, os meios de produção) é a tônica se comparada à tradição (feudal,

aristocrática). Em oposição, além de dois modos de produção econômicos, dois

paradigmas estéticos divergentes. É a ruptura definitiva que inaugura a modernidade.

Sobre a oposição estética no campo da criação literária, fala Schneider:

(29)

serem imitados e apresentavam autores contentes de terem produzido coisas bem feitas. O leitor conheceu, então, tanto os clássicos quanto o autor, e a imitação é o prazer da meia-palavra, homenagem prestada à grandeza do modelo e, simultaneamente, ao talento do imitador. Os séculos XIX e XX defendem antes, sob a forma romântica ou realista, a idéia de uma literatura proveniente de si mesma ou da realidade, mas não da literatura anterior. Bastante esquemáticas, ambas as teorias poderiam ser associadas às suas antecessoras na Antigüidade. A imitação se enraizaria na retórica latina, ao passo que a inspiração estaria prefigurada em Platão, possessão entusiasta. As palavras-chave da primeira seriam: homem, ensino, forma; as da segunda: Deus, encontro, sopro. (1990. p. 44)

Junto com o estatuto do Autor (neste momento, proprietário, depois a relação

de propriedade intelectual se complexifica e não se dá de maneira tão direta assim)

vem a legislação que lhe dá suporte.

A história da proteção jurídica começou no século 15 na Itália, durante o Renascimento, quando o arquiteto-engenheiro Filippo Brunelleschi pôde registrar uma de suas invenções, obtendo proteção legal para a mesma. A Lei de Direitos Autorais britânica de 1710, que protege os autores e seus editores contra a pirataria literária, foi um modelo imitado em outros países, da França aos Estados Unidos (BURKE, 2003).

No início do século XIX, para garantir não só a proteção textual, surgem os

“direitos de exibição”, que restringiram as apresentações de peças teatrais e de

concertos musicais. Em seguida, a proteção legal de pinturas e fotografias foi

sancionada. Mais tarde, as gravações de cinema e de vídeo. As legislações nacionais

foram complementadas por acordos internacionais, como a “Convenção de Berna

(1886), a Convenção Universal de Direitos Autorais (Genebra, 1952) e a Convenção

de Estocolmo, que estabeleceu a Organização Mundial de Propriedade Intelectual

(1967)” (Idem).

(30)

transgressores. A Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em

1988, garante em seu artigo V que “aos autores pertence o direito exclusivo de

utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo

tempo que a lei fixar”. Em fevereiro de 1998, a lei de direitos autorais foi reelaborada

e atualizada (lei 9610), contemplando novos suportes de comunicação passíveis de

reclamação de autoria (como o vídeo e arquivos digitais, por exemplo).

Paralelamente ao desenvolvimento da legislação foram surgindo associações

de autores, com o intuito de fiscalizar o cumprimento da lei e arrecadar os recursos

financeiros garantidos por ela. No âmbito teatral brasileiro foi criada a SBAT

(Sociedade Brasileira de Autores Teatrais) em 1917. Ela é filiada à Confederação

Internacional das Sociedades de Autores e Compositores.

O plágio ganha um status bandido, criminoso. É, sob os olhos da lei, uma

contrafação. Ao longo deste estudo utilizo diversas acepções de plágio, de diversos

autores, e nem todos reúnem sob esse termo o mesmo conjunto de idéias. Há um vasto

espectro desde os que o consideram um crime, até os que o consideram um

procedimento de criação. Por isso, sempre que eu me referir a plágio como uma

infração à lei, usarei o termo contrafação.

A legislação fornece ao indivíduo moderno a garantia da inviolabilidade de

seus direitos. Sobretudo, garante ao indivíduo o direito à propriedade. O usufruto da

propriedade material é exclusivista, quem usa priva o outro do uso simultâneo. Já o

usufruto da propriedade intelectual não. Seu caráter intangível torna a sua proteção um

pouco vulnerável.

Se quando eu uso uma bicicleta, a outra pessoa é privada do seu uso (porque, a princípio, duas pessoas não podem usar a mesma bicicleta ao mesmo tempo - principalmente se vão para lugares diferentes), quando eu leio um poema, a coisa é diferente. Eu posso ler o poema ao mesmo tempo que o "dono" do poema e meu ato de ler não apenas não priva, como não atrapalha em nada a leitura dele (ORTELLANO, 2003).

(31)

ninguém a descartar uma memória, uma impressão sobre uma obra de arte. Não posso

excluir da cabeça de uma pessoa a melodia da canção que ela assobia.

De acordo com Pablo Ortellano, desde que os direitos autorais foram

instaurados, eles passaram a ser violados. Isso porque as pessoas desconfiam, quase

intuitivamente, que quem usufrui do bem comum que é a cultura não pode estar

roubando nada de ninguém. Assim é quando tocamos uma canção dos Beatles numa

roda de amigos. No entanto, o direito à propriedade se choca com essa ingênua

proposição. Um exemplo extremo é que a canção de “Parabéns pra você” tem direito

reservado para a Warner Company.

Historicamente, à legislação de Direitos Autorais se opôs o crime e também

a desobediência civil

18

. Nem sempre é possível (nem útil) delimitar uma fronteira que

separe uma coisa da outra (até porque a questão da autoria não parece de resolução tão

dicotômica ou estática quanto um simplismo “crime X desobediência civil”). Apesar

dessa ressalva, Ortellano propõe uma diferenciação instrumental:

A desobediência civil, como se sabe, é muito diferente do crime. O crime é uma violação clandestina da lei, feita às escondidas e com o entendimento de que a lei que se viola é legítima. A desobediência civil, por sua vez, é uma violação pública das leis motivada por seu caráter ilegítimo. A desobediência civil se faz abertamente e ela não reconhece que a lei que está sendo infringida seja justa. Desde que os direitos de propriedade intelectual foram instaurados, houve uma resistência aberta à sua aplicação no setor privado e comunitário (Idem).

A insurreição dessa desobediência civil é justamente sobre o registro das

obras e as restrições que dele decorrem. As “leis de copyright” sempre imprimem a

nota em que “todos os direitos estão reservados” (“all rights reserved”). E se, por um

pequeno trocadilho de língua inglesa, todos os direitos fossem invertidos (“all rights

reversed”)? Aí teríamos o copyleft, que Richard Stallman, um ex-programador do

laboratório de inteligência artificial do MIT

19

desenvolveu na década de 80. O nome

copyleft é mais um trocadilho de língua inglesa. Left

significa “esquerda” e Right,

18

A referência de Ortellano é o famoso ensaio do anarquista norte-americano Henry David Thoreau, “A Desobediência Civil”, publicado em português pela L&PM.

(32)

“direita”. Seria, então, um “esquerdo autoral”, ou os direitos autorais de esquerda.

Também,

left

é o passado de leave, “deixar”. Copyleft é, portanto, uma cópia

consentida, autorizada (com a autoridade/autoria cedida), de esquerda, antiproprietária.

O

copyleft

facilita o compartilhamento, como no lema do site rizoma.net, “o uso

substituindo a propriedade”. Em xeque o direito autoral, a propriedade intelectual, o

autêntico, o original, o gênio, o indivíduo.

Stallman se sentia restringido pelas leis de direitos autorais que o impediam

de aperfeiçoar os softwares que usava. Ele então começou a conceber um sistema

operacional chamado GNU, que depois seria mundialmente conhecido como Linux. A

característica do Linux é que ele é um software

livre, ou seja, é um software com

copyleft. Isso é bastante diferente da filosofia da empresa proprietária do sistema

operacional hegemônico do mercado de informática, a Microsoft © com seu Windows

™. Outra característica do Linux é que ele é um programa open source, ou seja, tem o

código aberto para que qualquer pessoa que esteja interessada possa desenvolvê-lo,

aprimorá-lo para as suas necessidades e devolvê-lo para a rede, numa iniciativa de

melhoria coletiva e voluntária.

(33)

avaliação ética do indivíduo sobre o copyright também tende a mudar. As cópias

domésticas dos bens culturais voltam a ser perfeitas, não há a necessidade da prensa e

dos editores continuarem centralizando sua reprodução e distribuição. Para Stallman, o

público quer exercer novamente a liberdade de cópia, enquanto os editores querem

manter e ampliar os direitos autorais. Frente a essa questão, ele não sugere a abolição

dos direitos autorais: “claramente, em vez de aumentar o poder do copyright, nós

temos que empurrá-lo de volta de modo a dar ao povo um certo domínio de liberdade

onde eles possam fazer uso dos benefícios da tecnologia digital, fazer uso das suas

redes de computadores. Mas, o quão longe nós devemos ir?” (STALLMAN, 2003).

Stallman se recusa a usar o termo “propriedade intelectual”, porque esse tratamento

poderia encorajar a generalização de que os assuntos de copyright devam ser tratados

como as patentes e as marcas registradas. Além disso, a palavra “propriedade” já

indicaria a idéia de que aquilo pertenceria a alguém.

Para ele, temos de dividir as obras passíveis de copyright em três grandes

grupos. O primeiro deles seria o de uso prático. Aí estariam reunidos os softwares, os

manuais, enciclopédias e dicionários. Segundo ele, as pessoas deveriam ter a

possibilidade de se apropriar e aprimorar esse tipo de informação. Em seguida, viria o

grupo dos registros, que são as memórias biográficas, o jornalismo, artigos científicos

e de opinião, etc. Qualquer alteração textual deste trabalho pode deturpar a visão

matricial, então, modificá-los não seria socialmente útil. A terceira categoria seria a

dos trabalhos estéticos, cujas possibilidades de alterações são as mais polêmicas, de

acordo com a opinião de Stallman. “Algumas das peças de Shakespeare utilizavam

uma história que foi copiada de outra peça. Se as leis atuais de copyright estivessem

em vigor naquela época, estas peças seriam ilegais. Portanto, é uma questão difícil

(sic) que nós devemos nos fazer quanto a publicar versões modificadas de um trabalho

estético ou artístico” (Idem).

(34)

Stallman começa a responder a questão quando se posiciona a favor da reprodução

livre (sem taxação) da primeira categoria de produção, a favor do recolhimento

financeiro de cópias exatas comerciais da segunda categoria e contra a taxação de

cópias exatas não comerciais dessa mesma categoria. Quanto ao terceiro grupo,

Stallman sugere um tipo alternativo de remuneração do autor, que seja direto e evite o

intermédio de editoras ou gravadoras.

O coletivo Wu Ming

20

, grupo de escritores italianos oriundos do Projeto

Luther Blissett interessado em questões anti-copyright e anti-globalização, tem opinião

parecida: não há problema em fazer download de qualquer um dos seus livros, desde

que não haja lucro financeiro do usuário sobre a obra. Caso contrário, só sob

negociação. Segundo Roberto Bui, membro do coletivo, o copyleft é um passo além do

“sem

copyright”. O “sem copyright” não garante que uma grande corporação (ou

mesmo um vendedor de cds piratas) parasite o trabalho e ganhe muito dinheiro. Ao

contrário, a nota sob o copyleft afirma que “a reprodução parcial ou total [da obra] e

sua difusão de forma eletrônica é consentida para propósitos não comerciais, desde

que esta nota seja preservada”. Ao copyright, restritivo, punitivo

21

, opõe-se o copyleft,

estimulativo, altruísta:

Isto significa que o copyleft, ao invés de ser um obstáculo para a reprodução, se torna uma garantia da reprodução. Porque é um direito inalienável. Significa ‘eu tenho o direito autoral sobre o texto e você não pode fazer nada para impedir que eu autorize outras pessoas a copiá-lo’. É um paradoxo, mas é um paradoxo muito fértil (BUI, R. in SANT’ANNA e SALVATTI, 2003).

20Wu Ming foi um dos grupos responsáveis pela organização dos protestos em Gênova, em

2001, durante reunião do G-8. Wu Ming é uma palavra chinesa que quer dizer “anônimo”. Mais informações em www.wumingfoundation.com .

21 A nota de copyright do programa utilizado pra fazer esse trabalho, por exemplo, ameaça:

(35)

Entre o advento dos direitos autorais e o dos “esquerdos autorais” há, no

entanto, uma grande fatia de tempo em que, ora um, ora outro, eram defendidos com

fervor, mesmo que seus nomes não fossem enunciados.

O grupo Critical Art Ensemble cita o exemplo de Baudelaire, que lutou

contra a propriedade nas barricadas de Paris, em 1848. Mesmo com uma atitude

niilista após o fracasso da revolução, “Baudelaire nunca conseguiu render-se

totalmente. O seu emprego do plágio como estratégia colonial invertida evoca

claramente a noção de que a propriedade é um roubo” (2001, p. 27). É possível, mas

não é o objetivo da presente discussão, colecionar exemplos das críticas ao direito

autoral e apologia ao plágio como método (como Flaubert, Lautréamont, a vanguarda

européia do início do século XX, o modernismo brasileiro da semana de 22, Borges, se

quisermos fazer uma ordem cronológica crescente; Pascal, Montaigne, Shakespeare,

Santo Inácio de Loyola, em ordem cronológica decrescente).

O que vale notar é que “o conflito entre anti-copyright e copyright expressa,

na sua forma mais imediata, a contradição fundamental do sistema capitalista: a que se

dá entre forças produtivas e relações de produção/propriedade” (WU MING, 2003). A

discussão sobre a autoria e seu mecanismo legal implica uma discussão basilar do

capitalismo. Nesse sentido, a “desobediência civil” de que Ortellano fala é sintoma de

uma compreensão avessa às relações tradicionais de propriedade. As manifestações

criativas que burlam o estatuto do copyright, como faz a plagiocombinação, são

contraventoras, subversivas, desobedientes, justamente porque são instrumentos de

resistência cultural. Mesmo quando o resultado estético não se pretende subversivo, a

própria técnica de confecção já o é:

Sem dúvida, nós não buscamos a criação de novas linguagens. Uma tal maneira de atuar está condenada ao fracasso e cai nas mãos do Capital (mediante o reforço dos mitos da "originalidade" e da "criatividade individual"). No lugar disso, nós nos propomos a reinventar a linguagem daqueles que nos controlam. (...)

(36)

(ELIOT, 2003).

A resistência cultural está entendida aqui como uma negação da hegemonia

da propriedade e do “projeto capitalista”. Corromper e erodir o estatuto dos direitos

autorais tem se demonstrado uma tática de confronto potencialmente subversiva. Em

especial quando as categorias capitalistas entram num paradigma novo, onde as

instituições de poder político e econômico deixam paulatinamente de ser sedentárias,

de depender de estruturas físicas, e passam a ser nômades, existindo também

virtualmente.

(37)

2.3. BITS E BEATS

A velocidade é um meio onde é preciso aprender a habitar.

Paul Virilio

Etimologicamente, a palavra “cibernética” deriva da palavra grega

kybernetiké, que é “a arte do piloto”. Os estudos relacionando a cibernética com a

comunicação humana começaram na década de 1940, com a publicação do trabalho do

matemático norte-americano Norbert Wiener, chamado “Cibernética ou regulação e

comunicação no animal e na máquina”. Wiener foi encarregado pelo governo

americano de pesquisar os problemas do controle de automação da direção de tiro das

baterias antiaéreas na Segunda Guerra Mundial. O dispositivo que ele desenvolveu

partia da premissa muito simples, através do qual os erros do sistema de controle, ou a

diferença entre os objetivos e os efeitos reais, serviam para realimentar o sistema de

informações. Esse sistema auto-regulador recebeu o nome de retroalimentador (ou

feedback). Junto com os estudos sobre teoria da informação, a cibernética contribuiu

para o desenvolvimento tecnológico da relação entre máquina e

humano-humano.

Em 1984 (data orwelliana, por coincidência [?]), a palavra “ciberespaço”

(neologismo derivado de “cibernética”) foi usada por William Gibson, em seu

romance de ficção científica Neuromante, para descrever o universo de redes digitais

que eram o novo ecossistema econômico e cultural da sociedade naquela narrativa.

Premonitório de um conjunto de eventos que só tomaria forma clara aproximadamente

dez anos depois, Gibson ofereceu um conceito que foi recuperado por Pierre Lévy para

o estreitamento da noção de cibercultura:

(38)

de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço (LEVY, 1999. p. 17).

Como a cibercultura está intimamente ligada a um implemento técnico, a

interconexão mundial dos computadores, ela pode ser extremamente delimitada

cronologicamente. Estamos falando do princípio dos anos 1990. Este limite claro na

curva do tempo e a precisão dos termos da sua enunciação justificam a escolha da

cibercultura de Pierre Lévy tanto como recorte temporal quanto como recorte

conceitual da presente pesquisa. Ainda que, conforme veremos aqui, ao texto de Lévy

sejam necessárias ressalvas, principalmente ideológicas, a operacionalidade que o

conceito oferece auxilia o desenvolvimento da pesquisa.

A

cibercultura não está exclusivamente nos adventos tecnológicos, na

microeletrônica, nos chips. Está também nas estruturas mentais que a possibilidade de

conexão mundial de computadores proporciona. Ainda que não se possa perder de

vista o horizonte tecnológico que origina o conceito, a cibercultura diz respeito

também à nova natureza das relações sociais, políticas e econômicas.

Mesmo que Lévy já conceba a cibercultura como um conjunto de relações

que extrapolam a simples conexão dos computadores à internet, é necessário que se

sublinhe esse ponto. Neste trabalho a cibercultura não está entendida como sinônimo

de

on-line. Antes, me interessa na idéia de cibercultura a possibilidade de criação de

uma estrutura de pensamento e de relacionamento em rede, em que cada “nó” desta

rede seja um emissor e receptor, rompendo hierarquias de comunicação.

(39)

Nossa web não depende de nenhuma tecnologia de computação para existir. O boca-a-boca, os correios, a rede marginal de zines, as “árvores telefônicas” e coisas do gênero são suficientes para se construir uma rede de informação. A chave não é o tipo ou o nível da tecnologia envolvida, mas a abertura e a horizontalidade da estrutura. (...) Acredito que a net oficial jamais conseguirá conter a web ou a contra-net – a pirataria de dados, as transmissões não autorizadas e o fluxo livre de informações não podem ser detidos (BEY, 2001, p. 34).

A cibercultura será entendida, portanto, ao longo desse trabalho, a partir

dessa visão ampliada, extrapolando a computação ou o on-line. Muito mais do que

isso, busco na cibercultura a rede de informações horizontal e não hierárquica

advogada por Bey, em que as relações sociais podem assumir características

anti-proprietárias, em função da implementação tecnológica.

Há dois elementos técnicos que se conjugam na cibercultura e que indicam

um rompimento paradigmático com o período histórico anterior. O primeiro deles é a

possibilidade de digitalização das informações. Digitalizar uma informação consiste

em traduzi-la em números. Textos, imagens, sons, podem virar dados, isto é, dígitos, e

podem ser armazenados em unidades de codificação elementar chamadas bits

22

. A

segunda é a possibilidade de transmissão telemática desses dados de maneira muito

veloz. A revolução técnica que a conjunção desses dois elementos representa

condiciona (e não determina, como bem frisa Lévy) parte das relações sociais do

nosso tempo. Dizer isso é o mesmo que dizer que esses adventos técnicos abrem

determinadas possibilidades culturais inéditas.

Dois exemplos da revolução causada pelo primeiro elemento. Na década de

1980 era pouco provável que um pesquisador no Brasil organizasse o texto de seu

relatório de pesquisa em um documento digital (em softwares de edição de texto, como

é o caso do Microsoft Word, hoje, talvez, o instrumento mais comum para a redação

de textos). Ou seja, todo o trabalho hipertextual que é intrínseco à pesquisa

(deslocamento de idéias ao longo do texto, inclusões e exclusões de parágrafos, etc)

precisava ser feito por via analógica (na saudosa máquina de escrever), o que fazia

(40)

com que o processo de correção e revisão se tornasse extremamente penoso. Na

cibercultura, citações de textos publicados em sites podem ser recolhidas por um breve

comando, sendo desnecessária inclusive a digitação do trecho selecionado. Posso

“arrastar” um parágrafo de uma página a outra e dispor de uma maior fluidez, de uma

estrutura de criação de textos retroalimentativa (ou cibernética).

É sabido que o suporte técnico do cinema é extremamente dispendioso. O

material envolvido (desde as câmeras até a película) e as etapas do processo (revelação

da película, edição, etc) são caros o suficiente para tornar o cinema uma arte acessível

a poucos realizadores. O vídeo digital oferece um suporte que demonstra

características bem distintas das do cinema convencional. Descartando as

especificidades estéticas de cada suporte, se considerarmos a digitalização da imagem

em movimento de uma maneira estrita, veremos no vídeo digital um barateamento e

uma democratização da produção da sétima arte.

O segundo elemento técnico pode ser examinado pelos mesmos exemplos.

Um relatório de pesquisa pré-digital precisa ser carregado em seu suporte físico, o

papel. O envio desse trabalho para qualquer destino estará condicionado à competência

dos serviços postais. Quem quiser obter uma cópia poderá utilizar o serviço de

reprodução por fotocópia, cujo produto sempre terá qualidade gráfica inferior em

relação ao material matricial. A dissertação digital pode ser enviada telematicamente,

no serviço de correio eletrônico (e-mail) ou por publicação na World Wide Web (em

um

site, por exemplo). A recepção pelo destinatário é praticamente instantânea,

independente da localização geográfica. Várias cópias podem ser enviadas para

diversos destinos, bastando acrescentar mais endereços eletrônicos. Todas elas têm a

qualidade exata do arquivo que lhes deu origem. Isso agiliza a disseminação dos

resultados da pesquisa, facilita a socialização dos conhecimentos produzidos.

(41)

faça uma quantidade de cópias capaz de atender a demanda. Essas cópias sofrem

perdas de qualidade, assim como na reprografia. Além disso, as cópias sofrem

deterioração com o tempo. As cópias de vídeo digital podem ser enviadas num suporte

físico. Esse suporte pode ser qualquer veículo de armazenamento de dados digitais

(disquetes, cds, dvds, fitas de dv, hds, etc). No entanto, a transmissão telemática

permite que ele possa prescindir do suporte físico. Ele pode ser recebido como dado

pelo próprio computador que comanda o projetor da sala de cinema. Como a imagem

está digitalizada, sua qualidade é sempre a mesma, livre de intempéries físicas.

Obviamente, a tecnologia digital também tem restrições e limitações, de

ordens bem diversas das do suporte físico. A primeira delas, evidente, é o acesso ao

equipamento. A tecnologia de produção (e de reprodução, de atualização) do

conhecimento digital ainda é dispendiosa, pouco democrática, em especial se

considerarmos a realidade de países com um abismo social como o Brasil. Há um

apartheid tecnológico, soa quase irresponsável falar em revolução digital num país em

que 30 milhões de pessoas estão abaixo da linha da miséria.

Outra limitação são as “intempéries digitais”. São os vírus, os hackeamentos,

os

bugs

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que deixam a informação digital também vulnerável a degradações, ainda

que essa vulnerabilidade seja bastante diferente daquela da informação física.

A idéia de digitalização está intimamente ligada à idéia de virtualização. É

uma falaciosa a oposição lugar-comum entre virtual e real, como se algo virtual fosse

irreal, distante da realidade e da tangibilidade. Virtual, filosoficamente, é aquilo que

existe em potência. Assim, virtualidade é algo que se diferencia de atualidade, e ambos

são modos da realidade. O digital, portanto, é virtual porque é inacessível como tal ao

ser humano. Só tomamos consciência da informação se ela for atualizada. Isso quer

dizer que uma seqüência de zeros e uns não parece, para nós, a foto de uma montanha.

Só com o software capaz de decodificá-lo é que o arquivo digital nos parece

atualizado. A operação feita pelo computador é, portanto, eternamente um caminho de

Referências

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