Unidade 2
Da relação de consumo
Caroline Teixeira Barbosa
Direito do
Consumidor
Gerente Editorial
CRISTIANE SILVEIRA CESAR DE OLIVEIRA Projeto Gráfico
TIAGO DA ROCHA Autora
CAROLINE TEIXEIRA BARBOSA
A AUTORA
Caroline Teixeira Barbosa
Olá. Meu nome é Caroline Teixeira Barbosa. Sou formada em Direito e Mestre em ciências jurídico-políticas, com uma experiência técnico- profissional na área de Direito do Trabalho e Direito Civil de mais de quatro anos. Antes de iniciar a vida profissional como advogada, já havia atuado como estagiária em alguns órgãos como a Procuradoria Geral do Município, Procon Municipal e Defensoria Pública do Estado da Paraíba, oportunidade nas quais obtive uma bagagem significativa de experiência.
Na advocacia passei pelo escritório David Diniz (ADD), responsável por engrandecer ainda mais minha paixão pela profissão. Sou apaixonada pelo que faço, motivo pelo qual busquei no Mestrado aprimorar meus conhecimentos para que assim pudesse compartilhar com outras pessoas.
A interação com o outro sempre me fascinou, seja como advogada ou dentro da sala de aula. Poder transmitir experiências àqueles que estão iniciando suas profissões torna-se um desafio ainda mais cativante quando se trata de uma Editora sempre empenhada em oferecer o seu melhor para os alunos, como é o caso da Editora Telesapiens. Assim, fui convidada a integrar seu elenco de autores independentes e me sinto feliz e lisonjeada em poder colaborar e ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo!
ICONOGRÁFICOS
Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que:
INTRODUÇÃO:
para o início do desenvolvimento de uma nova compe- tência;
DEFINIÇÃO:
houver necessidade de se apresentar um novo conceito;
NOTA:
quando forem necessários obser- vações ou comple- mentações para o seu conhecimento;
IMPORTANTE:
as observações escritas tiveram que ser priorizadas para você;
EXPLICANDO MELHOR:
algo precisa ser melhor explicado ou detalhado;
VOCÊ SABIA?
curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias;
SAIBA MAIS:
textos, referências bibliográficas e links para aprofundamen- to do seu conheci- mento;
REFLITA:
se houver a neces- sidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou dis- cutido sobre;
ACESSE:
se for preciso aces- sar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast;
RESUMINDO:
quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últi- mas abordagens;
ATIVIDADES:
quando alguma atividade de au- toaprendizagem for aplicada;
TESTANDO:
quando o desen- volvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas;
SUMÁRIO
Princípios básicos da relação de consumo ... 12
A importância da interpretação da norma à luz dos princípios ... 12
Da vulnerabilidade do consumidor ... 15
Demais princípios presentes no CDC ... 19
Direitos básicos do consumidor ... 21
Principais direitos ... 21
Outros direitos importantes ...24
Alguns deveres do consumidor ...28
Deveres básicos do fornecedor ... 31
Principais deveres do fornecedor ... 31
Outros deveres importantes ...34
Alguns direitos do fornecedor ... 38
A responsabilidade no CDC ... 41
A responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor ... 41
Situações de responsabilidade civil adotadas pelo CDC ...44
Exclusão da responsabilidade ... 49
DA RELAÇÃO DE CONSUMO
UNIDADE
02
INTRODUÇÃO
Você sabe dizer quais são os princípios enformadores da relação jurídica de consumo? Quais os principais princípios que servem de base para o Código de Defesa do Consumidor? E quais os principais direitos e deveres do consumidor bem como do fornecedor? De que maneira ocorre a responsabilidade em nosso Código de Defesa do Consumidor?
Para compreender um pouco mais acerca de questões tão importantes como as citadas, iremos nos debruçar de maneira mais profunda em alguns dos principais princípios enformadores que regem a relação de consumo e norteiam todo o nosso Código de Defesa do Consumidor. Ainda iremos analisar alguns direitos e deveres básicos inerentes tanto à figura do consumidor como do fornecedor, como forma de melhor entender o que dispõe a legislação sobre essa matéria. Por fim, iremos analisar como ocorre a responsabilidade no Código de Defesa do Consumidor, e como esta responsabilidade vem consagrada na legislação e de que maneira ela é colocada em prática. E então? Pronto para se aprofundar um pouco mais nessas questões? Vamos juntos nessa!
OBJETIVOS
Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 2 – Da relação de consumo.
Nosso objetivo é auxiliar você no atingimento dos seguintes objetivos de aprendizagem até o término desta etapa de estudos:
1. Apontar os princípios básicos da relação de consumo.
2. Conhecer quais os direitos básicos do consumidor.
3. Analisar quais os deveres básicos do fornecedor.
4. Avaliar de que maneira se dá a responsabilidade no Código de Defesa do Consumidor.
Então? Preparado para dedicar-se aos estudos e entender um pouco sobre a relação jurídica de consumo? Ao trabalho! Estaremos juntos nessa missão em compreender os princípios norteadores, estudar direitos e deveres básicos dos consumidores e fornecedores, bem como entender como ocorre a responsabilização no Código de Defesa do Consumidor.
Será divertido! Contamos com você!
Princípios básicos da relação de consumo
OBJETIVO
Ao término deste capítulo você será capaz de entender a importância da interpretação da norma à luz dos princípios, e de que maneira os princípios auxiliam quando da aplicação e interpretação de uma norma jurídica. Ainda será possível entender a importância da vulnerabilidade do consumidor como base para o princípio que norteia todo o Código de Defesa do Consumidor: o princípio da vulnerabilidade. Por fim, analisaremos alguns outros princípios específicos que estão previstos no CDC como forma de compreender um pouco mais a importância ao respeito e à garantia destes princípios. E então? Motivado para conhecer um pouco mais sobre os princípios básicos da relação de consumo?
Vamos lá. Avante!
A importância da interpretação da norma à luz dos princípios
Entender a importância dos princípios vai muito além de sua compreensão, tão somente para uma relação de consumo, por exemplo.
Compreender a importância dos princípios implica em analisar seu papel dentro do nosso ordenamento jurídico e qual o diferencial que tal aplicação implica quando da aplicação de determinada norma.
Ora, já sabemos que o direito busca regular a relação em sociedade, sociedade esta que está sempre em constante transformação e evolução, pois se baseia nos fatos sociais que vão ocorrendo com o passar do tempo para manter-se vivo. Assim, os fatos sociais de hoje não são os mesmos de dez anos ou vinte anos atrás, motivo pelo qual o direito precisa acompanhar tais transformações no intuito de realmente poder ser eficaz e justo.
Contudo, não é minimamente possível que o direito consiga regular todos os fatos sociais de uma sociedade. São infinitos fatos sociais que, para além de da quantidade enorme, estão sempre em mutação, evoluindo e se transformando. Assim, não é possível prever todos os fatos sociais e regular todos de uma maneira geral. Entretanto, o direito busca englobar o máximo de situações possíveis como forma de que quando preciso, consiga regular e atender as necessidades dos indivíduos em determinada situação concreta.
Por isso, o legislador quando da criação de uma determinada lei, por exemplo, não consegue abarcar e idealizar tudo o que possa vir acontecer na sociedade, justamente pelo fato de que, como dito anteriormente, é impossível prever todos os fatos sociais que podem acontecer. E, como forma de preencher essas lacunas que são deixadas pelas leis, por não conseguirem abarcar todos os fatos sociais, o direito acaba indo buscar em outras fontes uma forma de preencher tais lacunas.
E é aí que entra a importância dos princípios. Os princípios vão ajudar em uma interpretação sistemática do nosso ordenamento jurídico, de maneira que o ordenamento jurídico coexista em harmonia com outras fontes. Inclusive, Luiz Felipe Silveira expõe o seguinte sobre a importância da interpretação sistemática para o nosso ordenamento jurídico:
Busca-se integrar sob interpretação dentro do sistema jurídico a que pertence e dele extrair conclusão compatível com o conjunto do ordenamento naquele ramo do direito preceito de sob interpretação utilizada. É método de interpretação mais valioso que a simples interpretação literal. (SILVEIRA, 2008, s.p.)
EXPLICANDO MELHOR
Pela interpretação sistemática, podemos entender que é justamente o tipo de interpretação que permite que o ordenamento jurídico exista em harmonia com outras fontes do Direito, a exemplo de outras normas jurídicas e dos princípios, por exemplo. Assim, quando da interpretação de uma lei, muitas vezes essa lei não necessariamente se enquadra de maneira completa ao fato social em questão, sendo necessário recorrer a outras fontes do direito para interpretação de determinada norma. Os princípios são extremamente importantes nesse aspecto e, por este motivo, precisam ser levados em consideração quando da aplicação de determinada norma jurídica.
Em outras palavras, os princípios vão nos ajudar a interpretar melhor uma norma jurídica, ter um conceito prévio acerca do que se deseja extrair da norma jurídica e, assim, interpretá-la como deve ser. Sobre a importância dessa interpretação, Heidegger expõe o seguinte:
A interpretação de algo como algo funda-se, essencialmente, numa posição prévia, visão prévia e concepção prévia. A interpretação nunca é a apreensão de um dado preliminar, isenta de pressuposições. Se a concreção da interpretação, no sentido da interpretação textual exata, se compraz em se basear nisso que ‘está’ no texto, aquilo que, de imediato, apresenta como estando no texto nada mais é do que a opinião prévia, indiscutida e supostamente evidente, do intérprete. Em todo princípio de interpretação, ela se apresenta como sendo aquilo que a interpretação necessariamente já ‘põe’, ou seja, que é preliminarmente dado na posição prévia, visão prévia e concepção prévia. (HEIDEGGER, 1988, s.p.)
Desta forma, segundo Gadamer (1997), o ser humano interpreta a norma através de uma fusão de três horizontes: compreensão, interpretação e aplicação. Ainda, Luis Roberto Barroso (2011), defende que a interpretação jurídica consiste justamente na atividade de atribuir sentido a textos ou outros elementos normativos (como princípios implícitos, costumes), notadamente para o fim de solucionar problemas.
Por este motivo, resta claro que nos dias atuais os princípios têm atuado como importantes instrumentos quando da interpretação de uma norma jurídica, na medida em que estas não conseguem solucionar todos os problemas, fazendo com que se recorram com mais frequência aos princípios como forma de intervir quando da interpretação e aplicação da norma jurídica a determinado caso concreto.
Assim, os princípios ampliam e aperfeiçoam nosso ordenamento jurídico, pois em muitas situações apenas a norma jurídica em si não é suficiente e nem tão pouco satisfatória para o caso concreto. Recorrer aos princípios não só tem sido recorrente como é reconhecido pelo Estado, posto que tais princípios possuem carga valorativa reconhecida por nosso Estado e pela sociedade, servindo de base para a compreensão das normas jurídicas. Assim, seja para a legislação consumerista ou para qualquer outro tipo de legislação, a interpretação das normas à luz dos princípios é de suma importância.
Da vulnerabilidade do consumidor
Revisando: Nesta mesma linha de raciocínio, pudemos ver na unidade anterior, ainda que de maneira introdutória, a questão do direito do consumidor como norma principiológica. Vimos que o Código de Defesa do Consumidor foi instituído pela Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990, dispondo sobre a proteção do consumidor no intuito de que pudesse ser efetivado direitos e garantias inerentes à figura do consumidor. Assim, as normas de direito do consumidor são de ordem pública e de interesse social, como forma de tentar garantir um maior equilíbrio na relação jurídica de consumo. E é justamente na busca por esse equilíbrio que iremos nos aprofundar agora, na medida em que se baseia, sobretudo, no fato de que o consumidor é a parte mais vulnerável da relação e, por
este motivo, merece proteção, sendo o princípio da vulnerabilidade do consumidor o princípio que norteia atualmente o nosso Código de Defesa do Consumidor.
Assim, sendo os princípios instrumentos importantes que sustentam esse sistema de proteção do consumidor justamente por ser o consumidor a parte mais vulnerável da relação, tais princípios desempenham papel fundamental, fazendo com que o Código de Defesa do Consumidor possa se adequar de forma mais concreta e eficaz aos casos concretos.
Relativamente a vulnerabilidade do consumidor, tal princípio vem previsto no Artigo 4°, inciso I, do Código de Defesa do Consumidor.
Vejamos:
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:
I - reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo;
(Grifo nosso). (BRASIL, 1990)
Dessa forma, o princípio da vulnerabilidade do consumidor é o ponto inicial da legislação consumerista, pois busca justamente nortear os conflitos existentes entre consumidores e fornecedores em virtude do desequilíbrio nesse tipo de relação jurídica de consumo. Ora, como também já visto na unidade anterior, o consumidor é a parte mais fraca da relação, por isso a importância de destacar em nosso Código de Defesa do Consumidor esse reconhecimento do consumidor como parte mais vulnerável no mercado. Sobre a importância do princípio da vulnerabilidade como alicerce fundamental para o nosso CDC, esclarece Antônio Herman V. e Benjamin, ao apresentar o livro de Moraes, o seguinte:
O princípio da vulnerabilidade representa a peça fundamental no mosaico jurídico que denominamos Direito do Consumidor.
É lícito até dizer que a vulnerabilidade é o ponto de partida de toda a Teoria Geral dessa nova disciplina jurídica (...) A compreensão do princípio, assim, é pressuposto para o correto conhecimento do Direito do consumidor e para a aplicação da lei, de qualquer lei, que se ponha a salvaguardar o consumidor.
(MORAES, 1999, p. 10)
Nesse aspecto, o reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor não apenas ajuda no equilíbrio da relação entre consumidores e fornecedores, como também na facilitação da defesa do consumidor. E essa vulnerabilidade pode vir mascarada de diversas formas, a exemplo da vulnerabilidade técnica, vulnerabilidade jurídica e vulnerabilidade econômica e social.
Da vulnerabilidade técnica, entende-se que o consumidor é a parte mais vulnerável da relação de consumo pois não detém os conhecimentos técnicos e específicos sobre os produtos e/ou serviços que estão sendo ofertados e que este está adquirindo, ficando sujeito tão somente às informações que são prestadas pelos fornecedores no mercado. Ou seja, o consumidor se vale da confiança no fornecedor de que aquele produto não irá causar nenhum malefício, por exemplo, ou que não venha a colocar em perigo a vida do consumidor, na medida em que este não possui os conhecimentos das propriedades desse determinado produto/serviço.
Assim, essa vulnerabilidade técnica deixa o consumidor em desvantagem em relação ao fornecedor, sendo necessário um maior equilíbrio.
Já com relação à vulnerabilidade jurídica, o consumidor possui mais dificuldade em pleitear seus direitos junto à esfera judicial ou administrativa, seja pela falta de conhecimentos jurídicos quando o consumidor sequer tem noção de quais são os seus direitos perante o fornecedor quando da compra de determinado produto ou serviço, por exemplo, seja pelo fato de que na grande maioria das vezes o fornecedor detém um poder econômico muito maior que o permite buscar um advogado ainda mais qualificado para se defender na esfera judicial ou administrativa.
Por fim, da vulnerabilidade econômica e social, é justamente o fato de que os fornecedores são, na sua grande maioria, detentores de maior poder econômico, fazendo com que o consumidor fique à mercê das condições impostas pelos fornecedores sem que haja um equilíbrio nessas relações. O grande exemplo que podemos citar são os contratos de adesão, que iremos tratar de maneira mais aprofundada em unidade própria, na medida em que nos contratos de adesão não há espaço para negociação por parte do consumidor, ficando a mercê de condições gerais que são impostas pelos fornecedores. Assim, é necessária uma proteção maior ao consumidor em virtude desse desequilíbrio na relação e vulnerabilidade econômica e social.
IMPORTANTE
É importante destacar que vulnerabilidade difere de hipossuficiência. São institutos distintos, na medida em que, como observado, a vulnerabilidade é uma característica inerente a todo consumidor, como bem dispõe o Artigo 4°, inciso I, do nosso Código de Defesa do Consumidor, enquanto que a hipossuficiência não é presumida como a vulnerabilidade. A hipossuficiência deverá ser analisada em cada caso concreto, para realmente se auferir se a pessoa em questão não é autossuficiente economicamente para pleitear seus direitos judicialmente falando. Ou seja, dependerá da análise feita pelo juiz e, portanto, esses dois termos, apesar de sinônimos, não podem ser confundidos.
Restou claro, assim, que a vulnerabilidade do consumidor é o princípio base para o nosso Código consumerista, sendo a espinha dorsal da proteção ao consumidor e que serve de base para todos os demais princípios, como veremos no próximo tópico de maneira mais detalhada.
Demais princípios presentes no CDC
Dando continuidade na análise dos demais princípios presentes no Código de Defesa do Consumidor, temos o princípio da hipossuficiência, que foi pincelado de maneira introdutória no tópico anterior. Por este princípio, podemos caracterizar o consumidor como hipossuficiente quando ele não tem condições financeiras e/ou econômicas de arcar com as despesas e custas no campo processual, quando é preciso brigar judicialmente pelos seus direitos, por exemplo. Nesse caso, o consumidor pode obter a gratuidade da justiça, caso o juiz, depois de analisado o caso concreto, verifique que realmente há essa hipossuficiência. Essa hipossuficiência é garantida e reconhecida no Artigo 6° do Código do Consumidor como um dos seus direitos básicos:
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
[...]
VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências; (BRASIL, 1990, grifo nosso)
Temos ainda o princípio da intervenção estatal, considerando que é dever do Estado promover a defesa do consumidor, tanto com a elaboração de normas que garantam o interesse coletivo, como também na prestação jurisdicional de maneira efetiva e positiva para os consumidores. Dessa forma, o Estado pode promover essa defesa por iniciativa direta, por incentivos na criação de associações que representem os consumidores, com maneiras de garantir que os produtos e serviços postos no mercado de consumo obedeçam aos padrões de qualidade e segurança exigidos por lei, entre outros.
Outro princípio igualmente importante se refere ao princípio da boa- fé objetiva. Esse princípio vem disciplinado no artigo 4°, inciso III, do Código de Defesa do Consumidor e estabelece que quando da elaboração do
contrato de consumo haja o máximo respeito entre os negociantes com base no princípio da boa-fé, garantindo o justo equilíbrio entre as partes, de maneira que as partes ajam baseadas em deveres de conduta éticos, a exemplo do respeito, lealdade, honestidade e razoabilidade.
Por fim, e não menos importante, podemos citar o princípio da informação e da transparência, ambos previstos no Código de Defesa do Consumidor. Pelo princípio da informação, tanto o fornecedor possui o dever de informar o consumidor como o consumidor possui o direito de ser informado. Dessa forma, quando o consumidor adquire determinado produto, por exemplo, ele precisa ser bem informado sobre todas as informações deste produto, bem como todas essas informações devem, igualmente, serem acessíveis a pessoas com algum tipo de deficiência.
Ainda, tanto o fornecedor como o consumidor devem agir com transparência, de maneira que a relação de consumo ocorra de forma clara e leal.
RESUMINDO
E então? Conseguiu aprender tudo sobre os princípios básicos da relação de consumo? Só para garantir, vamos recapitular alguns pontos importantes. Vimos como é importante e necessário interpretar as normas à luz dos princípios, na medida em que as normas jurídicas não são suficientes para abarcar todos os fatos sociais, se valendo de outras fontes do direito para preencher tais lacunas. E os princípios são instrumentos necessários no preenchimento destas lacunas, servindo de base para toda e qualquer aplicação de uma norma jurídica. Ainda, estudamos como a vulnerabilidade do consumidor dá luz ao princípio que norteia todo o Código de Defesa do Consumidor: o princípio da vulnerabilidade do consumidor. Foi possível entender de que maneira se dá essa vulnerabilidade e algumas das formas pelas quais essa vulnerabilidade pode se apresentar. Por fim, analisamos alguns princípios específicos presentes em nosso Código como forma de melhor compreender a importância de que tais princípios sejam garantidos e respeitados. Preparado para continuar aprendendo um pouco mais sobre os direitos básicos do consumidor? Vamos juntos!
Direitos básicos do consumidor
OBJETIVO
Ao término deste capítulo você será capaz de entender os principais direitos inerentes a figura do consumidor e que são garantidos pelo Código de Defesa do Consumidor.
É de suma importância a apresentação pormenorizada destes direitos na medida em que muitos acabam passando despercebidos, fazendo com que o consumidor seja lesado. Por fim, apresentamos ainda alguns deveres do consumidor como forma de garantir que a relação de consumo possa ocorrer de maneira justa e equilibrada.
Motivado para conhecer um pouco mais dos principais direitos e de alguns deveres do consumidor? Estamos juntos nessa. Vamos lá!
Principais direitos
Passaremos agora para a análise dos principais direitos inerentes ao consumidor e legalmente previstos no Código de Defesa do Consumidor.
São direitos básicos que estão previstos e que são de suma importância, nomeadamente porque o Código de Defesa do Consumidor busca justamente proteger o consumidor quando da relação jurídica de consumo e, para tal, precisa estabelecer direitos para que os consumidores possam se valer de tais direitos quando se sentirem prejudicados e/ou desrespeitados.
Vamos começar tratando do direito a proteção da vida e da saúde.
De acordo com o Artigo 6°, inciso I, do CDC, constitui-se como direito básico do consumidor “I - a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados por práticas no fornecimento de produtos e serviços considerados perigosos ou nocivos; [...]”. Assim, fica vedado ao fornecedor vender qualquer tipo de produto que possa atentar contra a vida ou a saúde do consumidor, de maneira que qualquer produto ou serviço
colocado no mercado de consumo não apresente qualquer risco ou perigo nesse aspecto.
VOCÊ SABIA?
Uma recente pesquisa tem apontado para os riscos que alguns brinquedos de plástico podem causar na saúde infantil bem como no meio ambiente. A pesquisa foi encomendada pelo Programa Criança e Consumo, do Instituto Alana, e conduzida pelo Grupo de Estudos e Pesquisa em Química Verde, Sustentabilidade e Educação (GPQV)1, no qual apresentam dados que alertam para os prejuízos à saúde das crianças. De acordo com a pesquisa, atualmente 90% dos brinquedos fabricados no mundo são feitos de plástico. Contudo, nem todo tipo de plástico é adequado para a produção desses brinquedos, podendo em sua composição existirem substâncias que sejam tóxicas e nocivas à saúde das crianças, a exemplo do ftalato, substância química que amolece o plástico PVC – o mais usado na fabricação dos brinquedos. Nesse contexto, muitos brinquedos de plástico de baixo custo acabam apresentando substâncias que podem ser prejudiciais à vida e à saúde das crianças, o que nos traz a reflexão acerca da vulnerabilidade das crianças e, sobretudo, do consumidor quando consome esse tipo de produto sem necessariamente saber dos prejuízos decorrentes.
1
Como segundo direito básico do consumidor, podemos citar o direito à educação para o consumo. Vamos explicar melhor do que se trata. O Artigo 6°, inciso II, do CDC, dispõe que é direito básico do consumidor “II - a educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos e serviços, asseguradas a liberdade de escolha e a igualdade nas contratações; [...]”. Dessa forma, o fornecedor deve prestar todas as informações necessárias e adequadas acerca do produto ou serviço que
1 Notícia disponibilizada pelo Educando acerca do impacto na saúde infantil em decorrência dos brinquedos de plástico. Disponível em: http://www.educandotudomuda.
com.br/brinquedos-de-plastico-impacto-na-saude-infantil-e-no-meio-ambiente/
esteja sendo ofertado, de maneira que o consumidor tenha garantido a sua liberdade de escolha para que, quando da decisão de escolha acerca de determinado produto, por exemplo, saiba utilizá-lo de forma correta, com a adequada educação e divulgação sobre o consumo correto de sobretudo produto.
Exemplo: Para uma melhor visualização desse direito básico do consumidor, podemos citar como exemplo o indivíduo que se dirige a uma loja de óculos de sol na procura por um que, obrigatoriamente, tenha proteção UV. Nesse caso, o fornecedor não pode omitir ou mentir sobre as características desse produto, no intuito tão somente de conseguir a venda. Caso os óculos não tenham proteção UV, mas mesmo assim sejam vendidos como se tivessem, o consumidor tem o direito de não ter a compra finalizada ou até mesmo, caso já tenha sido finalizada, devolver tal produto.
Pegando um gancho no direito acima apresentado, temos também como direito básico do consumidor o direito à informação, que muito se assemelha com o direito à educação para o consumo. De acordo com o Artigo 6°, inciso III, do Código de Defesa do Consumidor, considera-se como sendo um direito básico do consumidor o seguinte:
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
[...]
III - a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, características, composição, qualidade, tributos incidentes e preço, bem como sobre os riscos que apresentem. (BRASIL, 1990)
Assim, o consumidor tem o direito de ter acesso a todas as informações que digam respeito ao produto ou serviço que esteja querendo adquirir, de maneira que o cliente só chegue a realizar a compra sabendo que tem as informações corretas, como forma de evitar que
venha a ser enganado. Tais informações precisam ser de fácil acesso do cliente, seja no próprio produto, ou em caso de os vendedores da loja saberem prontamente fornecer informações importantes e relevantes sobre determinado produto ou serviço.
Estabelece, ainda, o Artigo 6°, inciso IV, do Código de Defesa do Consumidor, que o consumidor tem como direito básico a “IV - a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços;”. Aqui o legislador buscou atribuir como direito básico do consumidor a proteção contra publicidade enganosa e abusiva que, mais uma vez, se relaciona com os demais princípios acima destacados. O consumidor, como já sabemos, é a parte mais frágil na relação de consumo e, por este motivo, não pode ser levado ao erro quando da compra de determinado produto em virtude de uma publicidade enganosa, por exemplo.
Exemplo: Vamos imaginar que determinado cliente se dirige a uma loja de cosméticos pois visualizou em uma propaganda pela TV que nesta loja havia um creme capaz de desaparecer com as estrias. A cliente então, acreditando ser correta tal publicidade, compra o produto na expectativa de que suas estrias sumam. Contudo, tal produto sequer passou por testes científicos que comprovassem a sua eficácia e, mesmo assim, foi colocado à venda. É direito dessa consumidora pleitear pela devolução do dinheiro pago, considerando que foi vítima de uma publicidade enganosa.
Conseguimos visualizar, portanto, alguns direitos básicos fundamentais do consumidor que precisam ser respeitados e garantidos, como forma de que este não seja prejudicado quando da existência de uma relação de consumo, garantindo uma relação equilibrada e justa.
Outros direitos importantes
Dando continuidade à análise de mais alguns direitos básicos inerentes à figura do consumidor, passaremos agora para a análise do direito à proteção contratual, previsto no Artigo 6°, inciso V, do Código de Defesa
do Consumidor, que estabelece como direito básico “V - a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas; [...]”. De acordo com esse direito, após realizada uma compra, o consumidor pode reavaliar cláusulas contratuais que estejam estabelecendo prestações desproporcionais (quando começam a cobrar valores exorbitantes e acima do que era devido, por exemplo), ou que, por fatos supervenientes tornaram-se excessivamente onerosas.
Dessa forma, quando da realização de um contrato, o Código de Defesa do Consumidor busca amparar o consumidor quando determinadas cláusulas não forem cumpridas ou, ainda que cumpridas, sejam excessivamente prejudiciais ao consumidor. Assim, o consumidor tem o direito de que tais cláusulas sejam anuladas ou modificadas por um juiz, a depender do caso concreto e da devida análise do contrato em comento.
Ainda, podemos citar também como um direito básico do consumidor a reparação de danos, previsto no Artigo 6°, inciso VI, que dispõe ser direito básico do consumidor “VI - a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e difusos;
[...]”. O consumidor tem direito a uma indenização por reparação de danos, sejam eles materiais ou morais. Assim, caso o consumidor tenha sido prejudicado em virtude da venda de determinado produto ou serviço, tem o direito de ser indenizado por tal prejuízo, inclusive por danos morais.
Exemplo: Um exemplo bastante discutido diz respeito ao fato de que quando um consumidor leva seu animal de estimação a determinado pet shop, e o animal é, de alguma maneira, lesionado. Vamos explicar melhor. Quando uma cliente leva seu cão ao pet shop para que seja realizada uma tosa e, ao chegar para buscá-lo, se depara com o animal machucado em virtude de um erro dos funcionários, por exemplo, essa consumidora tem o direito a uma indenização por danos materiais e até morais em virtude do dano que sofreu.
SAIBA MAIS
Inclusive, sobre o tema, a indenização por danos morais em virtude de acidente com animal de estimação dentro do ambiente do pet shop ainda é motivo de polêmicas.
Contudo, em recente decisão da 18° Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), o pet shop foi condenado a indenizar a dona de um cãozinho no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) por danos morais, considerando que o animal sofreu um corte na região abdominal durante o serviço de tosa. Entre os vários argumentos utilizados pelo magistrado quando da tomada da sua decisão, está o fato de que, segundo ele, os animais de estimação hoje em dia são tratados como verdadeiros entes familiares e, por essa razão, a falha na prestação do serviço e consequente dano físico causado ao animal pode sim gerar um sofrimento para a dona do animal e, assim, configurar danos morais passíveis de indenização. A matéria completa com a respectiva movimentação processual pode ser acessado por meio do link a seguir: https://www.tjmg.jus.br/portal- tjmg/noticias/pet-shop-deve-indenizar-proprietaria-de- cao.htm#.X4joZtBKjos.
Para além dos direitos elencados até aqui, podemos citar ainda o direito de acesso à justiça, previsto no Artigo 6°, inciso VII, do CDC, dispondo ser direito básico do consumidor o seguinte:
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
[...]
VII - o acesso aos órgãos judiciários e administrativos com vistas à prevenção ou reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou difusos, assegurada a proteção Jurídica, administrativa e técnica aos necessitados.
(BRASIL, 1990)
O acesso à justiça garante que, quando o consumidor se sinta de alguma maneira lesado pelo fornecedor, seja em virtude de publicidade enganosa, algum dano causado ao cliente, falta de informação correta e completa sobre determinado produto ou qualquer outro inconveniente que não consiga ser resolvido com um acordo entre as partes, o consumidor tenha o direito de acionar a justiça para ver seus direitos garantidos e, de alguma maneira, ser ressarcido em virtude dos danos que porventura tenham ocorrido. Assim, pode o consumidor recorrer à justiça para que o juiz, a depender do caso concreto, determine ao fornecedor que cumpra e respeite com os direitos que são assegurados e inerentes a figura do consumidor.
O Artigo 6°, inciso VIII, do Código de Defesa do Consumidor, estabelece como outro direito básico o seguinte:
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
[...]
VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências. (BRASIL, 1990)
O direito à facilitação da defesa deve ser entendido levando em consideração que, em virtude da vulnerabilidade do consumidor, este encontra muitos empecilhos para comprovar algum dano que lhe tenha sido causado, de maneira que nesta facilitação é permitido, a depender do caso concreto, que seja invertido o ônus da prova. Assim, o consumidor fica mais protegido na medida em que quando da necessidade de busca por seus direitos de forma judicial, por exemplo, o processo judicial seja menos burocrático, mais rápido e justo para o consumidor.
Por fim, podemos citar ainda o direito à qualidade dos serviços públicos, previsto como direito básico do consumidor disposto no Artigo
6°, inciso X, que traz como direito “X - a adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral.” Dessa forma, o consumidor tem o direito de ser bem atendido por órgãos públicos ou empresas concessionárias desses serviços.
Apresentamos aqui alguns dos direitos básicos presentes no Artigo 6° do Código de Defesa do Consumidor, mas que não se esgotam apenas neste artigo, considerando que há outras regras em toda a legislação consumerista que também servem de base para nortear as condutas a serem tomadas pelo fornecedor como forma de garantir os direitos dos consumidores.
Alguns deveres do consumidor
Da mesma forma que o consumidor possui direitos básicos presentes no Código de Defesa do Consumidor, este mesmo consumidor também tem alguns deveres que precisam ser observados. É sabido que nossa legislação consumerista é muito bem vista justamente por ser uma das legislações mais avançadas e completas sobre o tema quando o assunto é a proteção do consumidor. Mas, para se ter direitos é preciso, também, cumprir deveres.
Assim, apesar de não existir um capítulo específico no Código de Defesa do Consumidor relativo aos deveres do consumidor, sabemos que toda relação comercial precisa ser baseada em princípios, como estudamos no tópico anterior, e tais princípios prezam por uma relação pautada na boa-fé de das partes envolvidas. Por este motivo, não há que se falar apenas em direitos por parte do consumidor, mas também em deveres deste mesmo consumidor.
Nesse contexto, o consumidor tem o dever de estar sempre se informando sobre as condições do mercado e sobre as condições dos produtos e serviços que estão sendo ofertados. Muitas vezes o ato de se informar sobre as condições do mercado e dos produtos/serviços faz com que diminuam as chances desse consumidor ser enganado ou ludibriado por algum fornecedor que porventura queira agir de má-fé. Estar atento a
estas situações permite que o consumidor esteja um passo à frente e não venha a ser enganado.
Da mesma maneira que o fornecedor não pode agir de maneira fraudulenta para com o consumidor, é dever também do consumidor resistir às práticas fraudulentas. Em algumas situações o fornecedor busca “facilitar” determinada venda, por exemplo, através de uma prática fraudulenta e o consumidor, mesmo sabendo disso, não resiste e no intuito de se beneficiar dessa prática de alguma forma, acaba concordando.
Assim, não basta apenas que o fornecedor evite tais práticas, mas, sobretudo, que o consumidor resista às práticas comerciais que sejam fraudulentas e contrárias à lei.
Ainda, quando da realização de algum contrato na relação de consumo, é dever do consumidor estar atento aos termos deste contrato que pretende assinar. Não adianta assinar sem sequer ler uma frase do que está sendo escrito e depois querer pleitear algum direito alegando falta de informação. As informações necessárias para a realização de um contrato precisam estar de maneira completa e correta neste contrato e, por este motivo, é imprescindível que o consumidor esteja atento aos termos estipulados dos contratos que pretende assinar.
De igual maneira, o consumidor tem o dever de preservar e recuperar o meio ambiente, utilizando de maneira consciente os produtos ofertados no mercado sem que estes mesmos produtos possam, futuramente, ser descartados de maneira errônea, por exemplo, vindo a prejudicar o meio ambiente. É um dever de todos, tanto do fornecedor como do consumidor, prezar por um meio ambiente de qualidade, preservando-o.
Para além destes deveres, é dever do consumidor também cumprir com o contrato que tenha assinado quando da relação jurídica de consumo. Após assinado, todos os termos ali estipulados devem ser cumpridos pelas partes envolvidas. Ainda, o consumidor deve se atentar aos prazos de validade ou de troca de determinado produto como forma de que não perca algum direito, caso pretenda trocar e por não ter se atentado ao prazo de troca, fique prejudicado. Em outras palavras, é dever do consumidor conhecer o Código de Defesa do Consumidor, pois só assim ele estará realmente amparado, considerando que terá
conhecimento dos seus direitos e, consequentemente, dos seus deveres no mercado de consumo.
RESUMINDO
E então? Conseguiu absorver tudo acerca dos direitos básicos do consumidor? Vamos recapitular algumas coisas só para termos certeza. Foi possível analisar alguns dos principais direitos inerentes à figura do consumidor e que são apresentados pelo Artigo 6° do nosso Código consumerista. São direitos consagrados na legislação do consumidor e que, por este motivo, precisam ser garantidos em toda e qualquer relação de consumo. Para além disso, vimos alguns deveres do consumidor, considerando que para se ter direitos, é preciso também ter deveres. São deveres básicos e que possuem o condão de garantir que a relação de consumo ocorra de maneira mais justa e equilibrada possível. Todos esses direitos básicos do consumidor e, consequentemente, deveres, rondam em volta da necessidade de conhecimento por parte do consumidor acerca do Código de Defesa do Consumidor.
Conhecer o Código permitirá ao consumidor saber todos os seus direitos e de que maneira as relações de consumo devem ocorrer. Por isso, é imprescindível tal conhecimento.
E então? Pronto para continuarmos? Avancemos juntos!
Deveres básicos do fornecedor
OBJETIVO
Ao término deste capítulo você será capaz de entender a importância da interpretação da norma à luz dos princípios, e de que maneira os princípios auxiliam quando da aplicação e interpretação de uma norma jurídica. Ainda será possível entender a importância da vulnerabilidade do consumidor como base para o princípio que norteia todo o Código de Defesa do Consumidor: o princípio da vulnerabilidade. Por fim, analisaremos alguns outros princípios específicos que estão previstos no CDC como forma de compreender um pouco mais a importância ao respeito e à garantia destes princípios. E então? Motivado para conhecer um pouco mais sobre os princípios básicos da relação de consumo?
Vamos lá. Avante!
Principais deveres do fornecedor
É importante que o consumidor esteja atento aos principais deveres do fornecedor como forma de conseguir tornar eficaz os direitos básicos do consumidor. Isso porque, os deveres do fornecedor andam de mãos dadas com os direitos do consumidor. Entender os deveres permitirá conhecer ainda melhor quais os principais direitos do consumidor que estão em jogo.
Quando falamos na compreensão dos deveres do fornecedor, devemos levar em consideração que a importância deste tema não é apenas para o fornecedor em si, como forma de que este consiga atuar em conformidade com a lei, mas também como forma de que o consumidor consiga estar ciente do que pode ou não cobrar do fornecedor, no intuito de que possíveis problemas possam ser evitados e as duas partes não saiam prejudicadas.
Assim, o fornecedor precisa estar atento a estes deveres, pois cada fornecedor tem uma marca a zelar no mercado de consumo e não pretende associá-la, por exemplo, a problemas envolvendo consumidores, reclamações junto ao Procon, ou até mesmo problemas entre seus próprios funcionários. Os direitos e deveres não podem ser esquecidos e precisam ser conhecidos de maneira completa, só assim será possível evitar complicações e garantir uma relação consumerista justa e adequada.
Vamos começar tratando de alguns deveres básicos vislumbrados no dia a dia e que muitas vezes acabam passando despercebidos. A começar pelo fato de que produtos com defeitos podem ser trocados mesmo em promoção. É comum que a maioria dos estabelecimentos comerciais apresente a informação de que os produtos em promoção não podem ser trocados, induzindo o consumidor a erro na medida em que eles procuram deixar claro que estão informando com antecedência dessa impossibilidade de troca para posteriormente não alegarem que não sabiam de tal informação. Entretanto, mesmo que as lojas tragam nas suas notas de compra, ou até mesmo em avisos estampados dentro do ambiente comercial, o fornecedor tem o dever de realizar a troca do produto, mesmo que este produto esteja em promoção. É o que está previsto no Artigo 26° do Código de Defesa do Consumidor:
Art. 26. O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação caduca em:
I - trinta dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos não duráveis;
II - noventa dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos duráveis.
§ 1° Inicia-se a contagem do prazo decadencial a partir da entrega efetiva do produto ou do término da execução dos serviços. (BRASIL, 1990)
Dessa forma, caso o produto apresente algum vício ou defeito, é garantido ao consumidor o direito de troca, considerando que é dever do fornecedor tornar possível essa troca em até trinta dias para produtos não duráveis e em até noventa dias para produtos duráveis.
Outro dever do fornecedor diz respeito a forma de apresentação dos seus produtos e serviços. Essa apresentação deve ser de maneira correta, clara e precisa o suficiente para que não restem dúvidas ao consumidor do produto ou serviço que está pretendendo adquirir. Precisam ser informações completas sobre as características do produto, orientações que sejam importantes para o uso e conservação deste, e informações sobre as formas corretas de sua utilização. Essas informações precisam indicar se há algum tipo de perigo ou risco à saúde ou à segurança dos consumidores, bem como informações que digam respeito ao preço, ao prazo de validade, à qualidade, à garantia e à origem, garantindo, assim, uma oferta segura desse produto ou serviço, como bem dispõe o Artigo 31° do Código de Defesa do Consumidor:
SEÇÃO II Da Oferta
Art. 31. A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas, claras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, qualidades, quantidade, composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores.
Parágrafo único. As informações de que trata este artigo, nos produtos refrigerados oferecidos ao consumidor, serão gravadas de forma indelével. (BRASIL, 1990)
NOTA
O parágrafo único do artigo acima transcrito diz que as informações prestadas pelo fornecedor quando da apresentação de seus produtos e serviços devem ser gravadas de forma indelével. Importante destacar que gravar tais informações de maneira indelével nos remete ao fato de que devem ser gravadas de forma a não serem apagadas, que não se possa destruir2. Assim, as informações precisam ser permanentes, sem que possam ser apagadas.
2
Na continuidade dos deveres do fornecedor, este deve entregar Nota Fiscal (NF) ao consumidor, nota fiscal esta que deve conter a descrição de maneira detalhada do produto que foi vendido ou serviço que foi prestado. Ainda, quando da realização de contrato comercial, este deve conter discriminadamente informações relevantes sobre o objeto desse contrato, estabelecendo valor de venda, formas de pagamento, possíveis multas, juros ou correções monetárias caso existam. Não deve restar dúvidas no contrato da forma como a relação comercial está sendo estabelecida, tanto como uma maneira de fornecer uma garantia para o fornecedor de que está entregando o produto em perfeito estado, como também de fornecer garantias ao consumidor do produto ou serviço que ele está adquirindo.
Outros deveres importantes
Depois de apresentados alguns dos principais deveres do fornecedor, há ainda outros deveres que são igualmente importantes e que serão tratados a partir de agora. É dever do fornecedor não comercializar produtos que estejam com defeitos ou deteriorados, sem origem, ou com data de validade vencida, por exemplo. Os produtos e serviços fornecidos precisam estar aptos para o uso, sendo dever do fornecedor garantir a qualidade dos produtos e as corretas informações sobre tal.
2 Significado da expressão indelével. Disponível em: https://www.dicio.com.br/indelevel/
Um outro dever do fornecedor consiste no fato de que este deva colocar os preços em todos os produtos e serviços que estão sendo oferecidos de maneira adequada, permitindo que essa informação esteja exposta de maneira clara, precisa e legível para os consumidores. A Lei nº 10.962, de 11 de outubro de 2004, que dispõe sobre a oferta e as formas de afixação de preços e produtos e serviços para o consumidor, trata de maneira clara dessa questão, assegurando o seguinte:
Art. 1º Esta Lei regula as condições de oferta e afixação de preços de bens e serviços para o consumidor.
Art. 2º São admitidas as seguintes formas de afixação de preços em vendas a varejo para o consumidor:
I – no comércio em geral, por meio de etiquetas ou similares afixados diretamente nos bens expostos à venda, e em vitrines, mediante divulgação do preço à vista em caracteres legíveis;
II – em autosserviços, supermercados, hipermercados, mercearias ou estabelecimentos comerciais onde o consumidor tenha acesso direto ao produto, sem intervenção do comerciante, mediante a impressão ou afixação do preço do produto na embalagem, ou a afixação de código referencial, ou ainda, com a afixação de código de barras.
III - no comércio eletrônico, mediante divulgação ostensiva do preço à vista, junto à imagem do produto ou descrição do serviço, em caracteres facilmente legíveis com tamanho de fonte não inferior a doze.
Parágrafo único. Nos casos de utilização de código referencial ou de barras, o comerciante deverá expor, de forma clara e legível, junto aos itens expostos, informação relativa ao preço à vista do produto, suas características e código. (BRASIL, 2004)
Inclusive, sobre esse dever, é comum acontecer de constar na etiqueta de determinado produto um valor e, chegando no caixa, consta valor diverso. Muitos consumidores acabam não se atentando para este fato e acabam levando um produto por um preço superior pelo qual havia sido ofertado. A mesma Lei acima destacada dispõe em seu Artigo 5° que
“No caso de divergência de preços para o mesmo produto entre os sistemas de informação de preços utilizados pelo estabelecimento, o consumidor pagará o menor dentre eles.”. Assim, nesses casos, o fornecedor deverá revender o produto ou serviço pelo menor preço.
Exemplo: No início deste ano um valor errado em etiquetas de caderno quase vira caso de polícia. O fato aconteceu em Uberaba, quando uma consumidora comprou 90 cadernos e, só depois, se apercebeu que haviam duas etiquetas de preço, uma pelo valor de R$ 1,78 e a outra de R$ 8,90. Após notar os valores diversos, a consumidora pagou pelo valor mais baixo, contudo o gerente do estabelecimento acionou a Polícia Militar alegando que a consumidora em questão havia praticado um roubo. A consumidora não havia cometido delito algum justamente pelo que explicamos anteriormente. Se o fornecedor oferta um produto por determinado valor e no caixa aparece um valor superior, ele precisa cumprir o valor da oferta, considerando que quando o preço está errado o fornecedor tem que arcar com esse ônus. Para ler o caso completo acerca deste exemplo, acesse o seguinte link: https://jmonline.com.br/
novo/?noticias,2,CIDADE,191245.
Dando seguimento aos deveres do fornecedor, é preciso estar atento para o fato de que quando da comercialização e oferta de produtos que estejam perto do vencimento do seu prazo de validade, deverá haver uma placa informativa acerca dessa informação. Assim, o consumidor precisa que essa informação esteja ao seu alcance de maneira simples, de maneira que não induza o consumidor a erro, considerando que este pode comprar uma quantidade elevada de determinado produto sem ser devidamente informado que este produto está com o vencimento do seu prazo de validade muito próximo, prejudicando, assim, tal consumidor.
SAIBA MAIS
Um importante e necessário questionamento diz respeito à questão do prazo de validade dos medicamentos. Em informativo do Migalhas n° 4.9593, o assunto trouxe à tona a situação do prazo de validade dos medicamentos, enfatizando que além de ser necessário seguir as mesmas condições impostas pelo Código de Defesa do Consumidor, é necessário também observar a força normativa fixada pela ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Assim, a farmácia somente poderia vender medicamentos que estivessem próximos do vencimento do prazo de validade se o consumidor puder concluir o tratamento antes dessa data, conforme disposto no informativo.
3
Inclusive, para melhor visualização acerca desse tema, o Artigo 51, parágrafo 2° da RDC n° 44, de 17 de agosto de 20094, apresenta o seguinte:
Art. 51. A política da empresa em relação aos produtos com o prazo de validade próximo ao vencimento deve estar clara a todos os funcionários e descrita no Procedimento Operacional Padrão (POP) e prevista no Manual de Boas Práticas Farmacêuticas do estabelecimento.
§1º O usuário deve ser alertado quando for dispensado produto com prazo de validade próximo ao seu vencimento.
§2º É vedado dispensar medicamentos cuja posologia para o tratamento não possa ser concluída no prazo de validade.
(ANVISA, 2009)
3 A questão do prazo de validade dos produtos em geral e dos medicamentos. Disponível em: https://migalhas.uol.com.br/coluna/abc-do-cdc/311295/a-questao-do-prazo-de- validade-dos-produtos-em-geral-e-dos-medicamentos
4 Dispõe sobre boas práticas farmacêuticas para o controle sanitário do funcionamento, da dispensação e da comercialização de produtos e da prestação de serviços
farmacêuticos em farmácias e drogarias. Disponível em: https://www20.anvisa.gov.br/
segurancadopaciente/index.php/legislacao/item/rdc-44-2009
Para além disso, o fornecedor deve apresentar nos seus estabelecimentos comerciais e de prestação de serviço um exemplar do Código de Defesa do Consumidor, bem como o número do Disque Denúncia. É o que estabelece a Lei nº 12.291, de 20 de julho de 20105, ao apresentar que
Art. 1o São os estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços obrigados a manter, em local visível e de fácil acesso ao público, 1 (um) exemplar do Código de Defesa do Consumidor. (BRASIL, 2010)
Como outro dever do fornecedor, é importante destacar que não existe valor mínimo para pagamento com cartão. Assim, o estabelecimento comercial que adotar como forma de pagamento cartão de crédito ou débito, por exemplo, não pode fixar um valor mínimo para pagamento no cartão, nem tão pouco estipular um valor diferenciado quando o pagamento é feito com dinheiro ou com cartão de crédito em parcela única. Assim, cobranças ou taxas para o consumidor que comprar determinado produto com o cartão de crédito são consideradas abusivas.
Como foi possível observar, há inúmeros deveres do fornecedor que muitas vezes estão previstos em outras legislações específicas e que complementam os deveres já presentes no Código de Defesa do Consumidor, devendo todas essas legislações serem observadas em harmonia.
Alguns direitos do fornecedor
Analisaremos agora alguns dos direitos inerentes ao fornecedor, considerando que muitos são os deveres, mas, sobretudo, há também direitos que merecem ser destacados. Apesar do Código de Defesa
5 Lei que torna obrigatória a manutenção de exemplar do Código de Defesa do Consumidor nos estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12291.htm
do Consumidor visar, primordialmente, defender os direitos dos consumidores, há de se ressaltar que os fornecedores também possuem alguns direitos que precisam ser cumpridos e respeitados.
Nesse contexto, podemos destacar como direito do fornecedor o fato deste ter a oportunidade em sanar o vício de determinado produto no prazo de 30 dias. Vamos analisar o que dispõe o Artigo 18, parágrafo primeiro, do Código de Defesa do Consumidor para podermos compreender um pouco melhor acerca desse direito:
Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade, com a indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou mensagem publicitária, respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas.
§ 1° Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:
I - a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições de uso;
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas e danos;
III - o abatimento proporcional do preço.
(). (BRASIL, 1990, grifo nosso)
Da leitura do artigo acima transcrito, entende-se como direito do fornecedor o fato de que o mesmo tenha a oportunidade de sanar o vício do produto antes que o consumidor exija, de maneira imediata, a troca do produto ou a devolução do valor pago, por exemplo. Só então, após
passado os 30 dias e em caso de descumprimento, o consumidor poderá exigir alternativamente e à sua escolha uma das opções previstas no artigo em comento.
Assim, caso o produto apresente algum vício, se referido vício não comprometer a qualidade ou a característica do produto, diminuindo- lhe o valor, ou quando não se tratar de produto essencial como prevê a norma, o fornecedor tem esse direito de, após notificado do vício, tentar resolvê-lo no prazo de 30 dias.
Observa-se, portanto, que apesar do nosso Código de Defesa do Consumidor buscar garantir e defender inúmeros direitos do consumidor, há também de ser observado alguns direitos que possui o fornecedor, no intuito de que seja preservada uma relação jurídica de consumo equilibrada e justa para ambas as partes.
RESUMINDO
E então? Conseguiu aprender tudo sobre os deveres e alguns direitos do fornecedor? Vamos recapitular um pouco.
Identificar os deveres do fornecedor implica em, mais uma vez, conhecer o Código de Defesa do Consumidor, pois os deveres do fornecedor estão intimamente ligados com os direitos do consumidor já consagrados em nosso Código de Defesa do Consumidor. Inclusive, com relação aos deveres do fornecedor, foi possível observar que muitos deles não necessariamente estão tão somente previstos no CDC, mas em outras legislações esparsas que tratam da matéria e complementam o nosso Código consumerista. Vimos ainda que da mesma forma que muitos são os deveres do fornecedor, devemos estar atentos que o Código também estabelece alguns direitos, na busca de que a relação de consumo ocorra de maneira justa e equilibrada para ambas as partes. Preparado para continuar aprendendo um pouco mais a responsabilidade no nosso Código de Defesa do Consumidor? Vamos juntos nessa!
A responsabilidade no CDC
OBJETIVO
Ao término deste capítulo você será capaz de compreender um pouco mais acerca do instituto da responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor, entendendo o que se conceitua como responsabilidade civil, de que maneira ela pode ocorrer e como essa responsabilidade vem expressa na legislação consumerista. Iremos visualizar as modalidades de responsabilização, sendo elas por vício no produto ou serviço e responsabilização pelo fato do produto ou serviço. Por fim, serão apresentadas algumas hipóteses de excludente de responsabilização igualmente previstas no Código de Defesa do Consumidor. E então? Preparados para entender um pouquinho mais sobre a responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor? Vamos juntos!
A responsabilidade civil no Código de Defesa do Consumidor
Para adentrarmos um pouco mais a respeito da responsabilidade Civil no Código de Defesa do Consumidor, será fundamental voltarmos um pouquinho em alguns conceitos importantes que já foram estudados por nós a respeito dos elementos fundamentais que caracterizam uma relação de consumo, bem como a respeito do próprio conceito de responsabilidade civil.
Assim, é necessário compreender que quando falamos em responsabilidade civil estamos pressupondo que houve um dano causado a terceiros, em virtude da violação de algum direito e que, por este motivo, precisa ser reparado. Então, considerando o dano causado, a responsabilidade civil possui o condão de reparar tal dano para, assim, ser possível restituir o equilíbrio entre as partes envolvidas na relação. Nessa
perspectiva, nas palavras de Maria Helena Diniz (2009), responsabilidade civil pode ser definida como sendo:
(...) a aplicação de medidas que obriguem uma pessoa a reparar dano moral ou patrimonial causado a terceiros, em razão de ato por ela mesmo praticado, por pessoa por quem ela responde, por alguma coisa a ela pertencente ou de simples imposição legal. (DINIZ, 2009, p. 34)
Dessa forma, a responsabilidade civil irá atuar como forma de garantir que o direito daquele que foi prejudicado em virtude de algum dano causado possa, finalmente, ter esse dano reparado. Trazendo especificamente para a seara do Direito do Consumidor, havendo o nexo de causalidade existente entre o consumidor, o produto e/ou serviço e o dano, a legislação consumerista apresenta as situações de responsabilidade civil, como veremos adiante.
Revisando: Dessa forma, voltando um pouco no conceito de consumidor, temos que, de acordo com o Art. 2° do CDC é “[...] é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final.” Assim, nossa legislação consumerista adotou a teoria finalista – ou também conhecida como teoria subjetiva – para determinar que consumidor é aquele que adquire um produto ou serviço como destinatário final fático e econômico. Quando falamos em destinatário final fático, estamos fazendo referência aquele tipo de consumidor que é o último na cadeia de consumo, ou seja, não está adquirindo determinado produto para passar adiante, mas para o seu próprio consumo. Já quando nos referimos a uma destinação final econômica, são as situações pelas quais os consumidores não estão adquirindo produtos ou serviços com a finalidade de lucro. É bem verdade que essa teoria finalista não é absoluta, pois existem situações que o conceito de consumidor precisa ser ampliado, a fim de não ocorrerem injustiças, a exemplo das pequenas empresas ou empresários individuais que, apesar de obterem determinado produto com a finalidade de lucro, não perdem seu caráter de vulnerabilidade e,
inclusive, muitas vezes são hipossuficientes relativamente ao fornecedor.
Por isso, a depender do caso concreto, poderá haver uma ampliação desse conceito de consumidor, não podendo ser a teoria finalista considerada de maneira absoluta.
É importante relembrarmos e delinearmos com clareza esse conceito de consumidor bem como o de fornecedor para que seja de mais fácil compreensão o estudo da responsabilização no nosso Código de Defesa do Consumidor. Isso porque, depois de muito bem identificado e delineado tais conceitos, poderemos entender o tipo de responsabilidade civil adotada pelo Código consumerista.
Nesse contexto, a responsabilidade civil adotada pelo Código de Defesa do Consumidor é objetiva, em outras palavras, independe de culpa ou dolo. Assim, o nosso Código de Defesa do Consumidor prevê quatro situações de responsabilidade civil, quais sejam: responsabilidade pelo vício do produto, responsabilidade pelo fato do produto, responsabilidade pelo vício do serviço, responsabilidade pelo fato do serviço. Iremos nos aprofundar em cada uma delas no próximo tópico.
Convém ressaltar que há exceções para essa regra adotada pelo CDC de responsabilidade objetiva, considerando que os profissionais liberais que prestam serviço, de acordo com o Artigo 14° do Código, só responderão mediante prova de culpa, ou seja, mediante a aplicação de uma responsabilidade subjetiva. Vejamos:
Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.
[...]
§ 4° A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante a verificação de culpa. (BRASIL, 1990, grifo nosso)
Assim, iremos agora destrinchar um pouco mais a respeito de cada situação de responsabilidade civil adotada pelo nosso Código do Consumidor.
Situações de responsabilidade civil adotadas pelo CDC
Para compreender melhor as situações de responsabilidade civil adotadas pelo nosso Código de Defesa do Consumidor, é imprescindível que façamos a diferenciação do que se entende por fato e vício do produto ou serviço, considerando que todas as situações de responsabilidade civil acabam girando em torno da responsabilidade pelo vício do produto ou serviço, e da responsabilidade pelo fato do produto ou serviço.
EXPLICANDO MELHOR
Assim, quando falamos em vício do produto ou serviço, esse vício fica restrito a este determinado produto ou serviço, sem ocasionar problemas para outras coisas, por exemplo. Não há, aqui, prejuízos colaterais. Podemos citar como exemplo quando uma lâmpada para de funcionar, considerando que neste caso em específico apenas o produto teve problema, não ocasionando prejuízos colaterais. Já quando nos referimos ao fato do produto ou serviço, estamos aqui diante de um problema que ultrapassou esse determinado produto ou serviço. Temos, nesse caso, prejuízos colaterais. Como exemplo, podemos citar determinado eletrodoméstico que, em virtude de um problema, ao ser ligado queima e, em virtude disto, causa um incêndio na casa, resultando em prejuízos não apenas materiais em virtude do incêndio, como porventura danos estéticos, caso o consumidor venha a ser queimado em decorrência do incêndio.