rev bras reumatol.2017;57(5):487–490
w w w . r e u m a t o l o g i a . c o m . b r
REVISTA
BRASILEIRA
DE
REUMATOLOGIA
Relato
de
caso
Melhoria
na
microangiopatia
capilar
periungueal
após
terapia
imunossupressora
em
uma
crianc¸a
com
dermatomiosite
juvenil
clinicamente
amiopática
Improvement
of
nailfold
capillary
microangiopathy
after
immunosuppressant
therapy
in
a
child
with
clinically
amyopathic
juvenile
dermatomyositis
Lúcia
Maria
Arruda
Campos
a,∗,
Adriana
M.E.
Sallum
a,
Cintia
Z.
Camargo
b,
Luís
Eduardo
C.
Andrade
be
Cristiane
Kayser
baUniversidadedeSãoPaulo(USP),FaculdadedeMedicina,UnidadedeReumatologiaPediátrica,HospitaldasClínicas,Institutoda
Crianc¸a,SãoPaulo,SP,Brasil
bUniversidadeFederaldeSãoPaulo(Unifesp),DepartamentodeReumatologia,SãoPaulo,SP,Brasil
informações
sobre
o
artigo
Históricodoartigo:
Recebidoem30denovembrode
2014
Aceitoem15demarçode2016
On-lineem18deabrilde2016
Introduc¸ão
A dermatomiosite juvenil (DMJ) é uma doenc¸a rara que
pertenceaogrupodasmiopatiasinflamatóriasidiopáticas.1
A dermatomiositeclinicamente amiopática (DMCA) é uma
entidadeaindamaisraranapediatria,comapenas75casos
descritosnaliteratura.2OspacientescomDMCAmanifestam
envolvimentomuscularleveouausenteeasmanifestac¸ões
cutâneas são indistinguíveis daquelas observadas na DM
clássica.3,4
∗ Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](L.M.Campos).
A vasculopatia inflamatória sistêmica é uma
carac-terística importante da DMJ que afeta especialmente a
microcirculac¸ão.5 A capilaroscopia periungueal (CPU) éum
método não invasivo que possibilita a visualizac¸ão direta
doscapilaresdaspregas ungueais.6 Adiminuic¸ãona
quan-tidadedecapilares(desvascularizac¸ão)associadaacapilares
dilatadoseramificac¸ãodasalc¸ascapilareséoachadomais
característicoobservadonaDMJ.7Alémdisso,váriosestudos
têmdescritoumaassociac¸ãoentreasanormalidadesnaCPU
eagravidadeeatividadenaDMJ.8Atéopresentemomento,
as anormalidades na CPU não foram sistematicamente
http://dx.doi.org/10.1016/j.rbr.2016.03.003
0482-5004/©2016ElsevierEditoraLtda.Este ´eumartigoOpenAccesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/
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rev bras reumatol.2017;57(5):487–490Tabela1–Avaliac¸ãocapilaroscópicasequencialfeitadejunhode2008aoutubrode2013emumapaciente comdermatomiositejuvenilclinicamenteamiopática
Parâmetroscapilaroscópicos(valormédioparaos10dígitos)
Alc¸ascapilares ramificadas
Alc¸ascapilares dilatadasa
Megacapilaresb Númerodealc¸as
capilares/mm
Pontuac¸ão avascularc
Junho/2008 0,2 3,6 0,1 5,2 2,0
Fevereiro/2009 0,0 2,1 0,0 5,7 1,8
Novembro/2009 0,1 1,6 0,0 5,7 1,7
Dezembro/2010 0,4 0,5 0,0 8,2 0,2
Novembro/2011 0,0 0,2 0,0 8,7 0,1
Novembro/2012 0,0 0,0 0,0 9,6 0,0
Outubro/2013 0,0 0,0 0,0 9,7 0,0
a Astrêspartesdaalc¸acapilardevemestaralargadasemquatrovezes.
b Astrêspartesdaalc¸acapilardevemestaralargadasemdezvezes.
c Aáreaavascularédefinidacomoaausênciadeumaoumaisalc¸ascapilaressucessivas;grau0(nenhumaáreaavascular);grau1(umaou
duasáreasavascularesdiscretas);grau2(maisdeduasáreasavascularesdiscretas);grau3(áreasavascularesextensasecoalescentes).
estudadas na DMCA. Descrevemos aqui o caso de uma
crianc¸adequatroanoscomdiagnósticodeDMCAjuvenilcom
importantesalterac¸õesnaCPU,cujarespostaaotratamento
foiseguidaporumamelhorasignificativanasanormalidades
capilaroscópicas.
Relato
de
caso
Emjunhode2008,umameninadequatroanosfoiatendida
comqueixadequatromesesdedurac¸ãode eritemamalar,
fotossensibilidadeelesõeseritematosassobreasarticulac¸ões
interfalangeanasproximais,oscotovelosejoelhos,sem
quei-xasrelativasàperdadeforc¸amuscularoudor.Oresultado
doManualMuscle Test(MMT)9 foide80/80, apontuac¸ãono
ChildhoodMyositisAssessmentScale(CMAS)9 foide48/52,
o DiseaseActivity Score(DAS) muscularfoi de 2/11 eo DAS
cutâneo foi de 6/9.10 Os exames laboratoriais mostraram
hemoglobina de 13,6g/L, hematócrito de 38,5%, leucócitos
de 21.000/mm3 (76% de neutrófilos, 16% linfócitos),
pla-quetasde 289.000/mm3,velocidadede hemossedimentac¸ão
(VHS)de 23 mm/1a
hora, proteína C-reativa (PCR)
indetec-tável,aldolase20,8UI/G(normal<7,6),creatinoquinase(CK)
130UI/L(normal<204),lactatodesidrogenase(DHL)575UI/G
(normal<480),aspartatoaminotransferase(AST)29UI/G
(nor-mal<34),alaninaaminotransferase(ALT)14UI/L(normal<44)
eanticorpo antinuclear positivo (1/640, padrãohomogêneo
pontilhadofino).Realizadacapilaroscopiaemtodososdedos
dasduasmãoscomummicroscópioestereoscópico
(Olym-pusSZ40)emampliac¸ãode10×a16×sobepi-iluminac¸ãoa
45graus,queanalisouaquantidadedecapilares/mm,
capi-laresdilatados,gigantes eramificadoseescoreavascular.11
Acapilaroscopiamostrouumpadrãodeesclerodermia(SD)
commicroangiopatiagrave,caracterizadapordiminuic¸ãona
quantidadedealc¸ascapilarescomáreasavasculares
inten-sas,poucaramificac¸ãoealc¸ascapilaresdilatadasfrequentes
(tabela1;fig.1).UmavezqueoscritériosdeBohanePeter
nãoforampreenchidos,12estabeleceu-seodiagnósticodeDM
clinicamenteamiopática(DMCA).3Introduziu-seentãoo
tra-tamentocomprednisolona(0,5mg/kg/dia),hidroxicloroquina
(5mg/kg/dia)efotoprotec¸ão.
Depoisdequatromeses,adoenc¸adapacientepermanecia
ativa.Aressonânciamagnética (RMN)muscular eabiópsia
muscular eram normais. Não foi feita eletromiografia. A
dose de hidroxicloroquina foi aumentada e foram
acres-centados metotrexato (0,5mg/kg/semana), ácido fólico e
tacrolimustópico,commelhoriaparcialdossintomas,oque
possibilitouareduc¸ãogradualdadosedeprednisolona.Em
julho de2009,apacientecomec¸ouaqueixar-sedefadigae
foram observadasnovas pápulasdeGottroneelevac¸ãonos
Figura1–Capilaroscopiaperiunguealdejunhode2008 mostraapresenc¸adecapilaresdilatadoseramificados (flechas)(fig.1A)eáreasavasculares(fig.1B)(flechas)no segundoequartodígitosdamãoesquerda,
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Figura2–Capilaroscopiaperiunguealdeoutubrode2013 mostraumpadrãonormal,comumnúmeronormalde capilares/mm,ausênciadeáreasdilatadasou
megacapilareserevascularizac¸ãodeáreasavascularesno segundoequartodígitosdamãoesquerda,
respectivamente(ampliac¸ãode15×)(fig.2AeB).
níveisséricosde DHL (666UI/L).As doses deprednisolona
emetotrexato foram aumentadas e foi introduzida
talido-mida(50mg/dia), com respostasatisfatória.Emoutubro de
2009,a paciente foi considerada em remissão clínica,com
MMT80/80,CMAS48/52,DASmuscular1/11,DAScutâneo0/9,
VHSePCRnormais,aldolase 8,7UI/L,CK64 UI/L,DHL524
UI/L,AST22UI/LeALT18UI/L.Acapilaroscopiaapresentou
ligeira melhora. Nesse momento, a hidroxicloroquina foi
interrompida, seguida pela retirada do tacrolimus tópico
(fevereirode2010),prednisolona(abrilde2010),metotrexato
(dezembrode2010)etalidomida(julhode2011).
Emsuaúltimaconsulta(outubrode2013),apaciente
per-maneciaemremissão,apresentavaMMT80/80,CMAS51/52,
DAS muscular 0/11,DAS cutâneo 0/9,VHS e PCRnormais,
aldolase5,1UI/L, CK115 UI/L,DHL400UI/L, AST20UI/L e
ALT14UI/L.Acapilaroscopiaeranormal,mostravamelhora
significativanamicroangiopatia,quantidadenormalde
capi-lares/mm, ausência de áreas avasculares e nenhuma alc¸a
capilarramificadaoudilatada(tabela1;fig.2).
Discussão
Esteéoprimeirorelatodapresenc¸ademicroangiopatia
peri-féricaavaliadapelaCPUemumacrianc¸acomDMCA,seguida
deumamelhoraprogressivaesignificativadasalterac¸õesna
CPUapósotratamentoimunossupressor.
Emboranãohajaestudosquedescrevamanatureza
dinâ-mica das anormalidades microangiopáticas da CPU (alc¸as
capilaresdilatadas,megacapilareseáreasavasculares)esua
correlac¸ão com a atividade da doenc¸a em pacientes com
DMCA, conforme descrito no caso aqui apresentado, esse
aspectotemsidoobservadoemváriosestudosqueanalisam
aDMJclássica.7,8Acapilaroscopiafoiavaliadaem61crianc¸as
com DMJao longode 36meses.A melhorana quantidade
dealc¸ascapilares/mmesteveassociadaàatividadecutânea
menos intensa e curso monocíclico da doenc¸a. Por outro
lado,adoenc¸apolicíclicaesteveassociadaàmanutenc¸ãoda
atividadecutâneaealterac¸õescapilaroscópicaspersistentes.
Não houvecorrelac¸ãoentreaCPU ea atividadeda doenc¸a
muscular. Isso sugere que existam diferentes mecanismos
subjacentesàpatogênesedapeleedomúsculona
vasculopa-tiadaDMJ.13EmboraasanormalidadesnaCPUnãoestejam
incluídasnoscritérios declassificac¸ão da DMJ,12 elas
pare-cem refletir uma vasculopatia sistêmica e alguns autores
sugeremasuainclusãoentreoscritériosdeclassificac¸ãopara
aDMJ.14ComoaDMCApodeserconsideradapartedoespectro
daDMJ,pode-sesuporqueambasassituac¸õescompartilhem
opadrãodeCPU.
Nopresentecaso,apacientefoidiagnosticadacomDMCA,
maisespecificamenteumsubtipodenominado
dermatomio-sitejuvenilhipomiopática(DMH),queéadesignac¸ãoaplicada
aos pacientes com DM cutânea e sem evidências clínicas
de doenc¸a muscular (i. e., fraqueza), cujasevidências
sub-clínicasdemiositenaavaliac¸ãolaboratorial(p.ex.,enzimas
musculares),eletrofisiológicae/ouradiológicasão
encontra-dasduranteainvestigac¸ão.3,4 Naverdade,elaapresentouas
principaismanifestac¸õesdadoenc¸adepeleassociadasaum
ligeiro aumentonas enzimasmusculares (aldolasee DHL),
massemqueixasmuscularesnemfraqueza.Osescoresde
ati-vidademuscularforamconsideradoscomodentrodoslimites
normais.15Apequenadiminuic¸ãonoCMASobservadanessa
pacientenaapresentac¸ãodadoenc¸apodeseratribuídaasua
idadeprecoceeàfaltadecooperac¸ãonarealizac¸ãodealguns
dosexercíciosnecessários.Osresultadosnormaisde
resso-nânciamagnéticaebiópsiamuscularpodemserparcialmente
afetadospelousodecorticosteroidesemdosesbaixas,uma
vezqueessetratamentofoiiniciadoquatromesesantes
des-sestestes.
Em uma revisão que descreve 68 casos de DMCA
juve-nil,56%foramclassificadoscomoDMamiopática(ADM),18%
comoDMHe26%evoluíramparaDMJclássicaapósum
segui-mento médio de um ano e nove meses. No entanto, não
foi possível determinaros parâmetrosquepodempredizer
os casos de DMCA que se converterão na forma clássica
de DMJ. Acalcinose esteve presente emmenosde 5%dos
casos enenhuma crianc¸a apresentou vasculitecutânea ou
gastrointestinal,infartopulmonar,pneumoniteintersticialou
malignidade,oquesugereumbomprognósticoparaessa
vari-antedeDMJ.2
Amelhoropc¸ãoterapêuticanaDMCAaindaécontroversa,
uma vez que não existem estudos randomizados. Alguns
autoresargumentam queousoprecocede corticosteroides
eimunossupressorespodeprevenir aprogressãoparaDMJ.
490
rev bras reumatol.2017;57(5):487–490juvenil, os autores concluíram que apenas a fotoprotec¸ão,
medicamentos tópicos e hidroxicloroquina oral devem ser
usadosinicialmenteequeoscorticosteroideseaterapia
imu-nossupressoradevemserreservadosaoscasosrefratários.2,16
Apacienteaquidescritaapresentoumanifestac¸õescutâneas
gravesefoinecessárioousoconcomitantedefotoprotec¸ão,
terapiatópica,hidroxicloroquinaefármacos
imunossupres-sores. No entanto, a resoluc¸ão das anormalidades de pele
e capilaroscópicas foi mais claramente alcanc¸ada após a
introduc¸ãodetalidomida.Defato,aeficáciadatalidomidano
tratamentodeformasrefratáriasdeDMJ,bemcomodaDMCA,
foidescritapreviamente.17
Em decorrência das características dinâmicas das
alterac¸ões na CPU na DMJ em comparac¸ão com outras
doenc¸asreumáticasautoimunes,aCPUpareceseruma
ferra-mentaútilparaoseguimentoeacompanhamentodaresposta
aotratamentonessegrupodepacientes.EmboraaCPUnão
tenhasidosistematicamenteestudadanaDMCA,opresente
estudosugerequeaCPUtambémpodeserusadacomoum
convenienteparâmetrodeprognósticoemonitoramentodo
envolvimentodepelenessespacientes.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse
r
e
f
e
r
ê
n
c
i
a
s
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