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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE (UERN)

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Academic year: 2022

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PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS (PPGL) MESTRADO ACADÊMICO EM LETRAS

AMANDA MIKAELLY NOBRE DE SOUZA

PROCESSOS REFERENCIAIS E ORIENTAÇÃO ARGUMENTATIVA EM REDAÇÕES NOTA MIL DO ENEM

PAU DOS FERROS – RN 2021

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PROCESSOS REFERENCIAIS E ORIENTAÇÃO ARGUMENTATIVA EM REDAÇÕES NOTA MIL DO ENEM

Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Letras (PPGL), da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Campus Avançado de Pau dos Ferros (CAPF), como requisito para a obtenção do título de Mestre em Letras, na área de concentração Estudos do Discurso e do Texto. Linha de Pesquisa: Texto e construção de sentidos.

Orientadora: Profa. Dra. Lidiane de Morais Diógenes Bezerra.

PAU DOS FERROS – RN 2021

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como requisito parcial necessário à obtenção do grau de Mestre em Letras, outorgado pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).

Dissertação defendida e aprovada em 25 de maio de 2021.

BANCA EXAMINADORA:

___________________________________________________________________________

Profa. Dra. Lidiane de Morais Diógenes Bezerra Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN)

(Presidente)

___________________________________________________________________________

Prof. Dr. Ananias Agostinho da Silva

Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) (Examinador Externo)

___________________________________________________________________________

Profa. Dra. Maria Eliete de Queiroz

Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) (Examinadora Interna)

___________________________________________________________________________

Prof. Dr. Alexandro Teixeira Gomes

Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) (Suplente Externo)

___________________________________________________________________________

Prof. Dra. Edmar Peixoto de Lima

Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) (Suplente Interna)

PAU DOS FERROS – RN 2021

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Aos meus pais, com todo amor (dedico).

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Encerrando uma nova travessia, na certeza de que não caminhamos sozinhos, agradeço:

A DEUS, por ter governado e iluminado o meu caminho até chegar aqui, pela fé, pela confiança, por permitir a realização de mais uma promessa, pela sua presença contínua em minha vida e, principalmente, pela VIDA. Obrigada, Pai, por tudo!

Aos meus pais, Adalgiza Nobre e Francisco de Souza, a quem dedico mais uma conquista, pela educação, pelo exemplo de luta, pelos conselhos, pelos cuidados e pelo amor que, abaixo de Deus, ninguém pode dar. Muito do que sou, hoje, devo a vocês!

Aos meus irmãos, Márcio, Marcelo, Anny e Halison, pelo amor, pelo carinho, pela torcida, por serem família. De modo mais especial, à minha irmã Cidinha, por compreender minha correria acadêmica, torcer pelo meu sucesso e acreditar no meu potencial.

À minha tia, Conceição Nobre, pelas palavras de estima e incentivo, por ser inspiração, pelo acervo bibliográfico fornecido, pelo amor, por existir.

À minha orientadora, Profa. Lidiane de Morais, pelo exemplo de profissionalismo, pela competência nas orientações e pelo crescimento acadêmico proporcionado. Findo mais uma etapa da minha vida profissional realizada, em grande parte, pela parceria construída.

Às professoras Eliete de Queiroz e Socorro Maia, pelas ricas contribuições trazidas à presente pesquisa, mediante avaliação ainda no exame de qualificação.

Aos professores Ananias Agostinho e Eliete de Queiroz, pela disponibilidade em compor a banca examinadora desta dissertação e pelas contribuições que garantirão o aprimoramento da pesquisa.

A todos os Professores do PPGL, pelo compromisso com a formação acadêmica e profissional dos seus discentes, pela qualidade de ensino ofertada, que possibilita a ampliação dos conhecimentos necessários para fazer pesquisa, para uma prática exitosa, além de promover uma visão analítica acerca do trabalho docente. Tenho, em mim, parte de cada um de vocês.

À secretária do Programa, pela assistência dada mediante serviços prestados com compromisso e dedicação.

Aos colegas e amigos dos cursos de Mestrado e Doutorado, pelos diálogos e conhecimentos compartilhados nas diversas atividades acadêmicas e pelos momentos de risos vivenciados ao longo do curso.

À CAPES, pela concessão da bolsa de estudo, possibilitando uma significativa dedicação à pesquisa e ao curso.

À Secretaria Municipal de Educação de Encanto/RN, na pessoa de Leandro Roberto, por confiar no meu comprometimento com o ensino, ao convocar para assumir a docência durante o ano de 2019, oportunidade que contribuiu ricamente para minha formação profissional e possibilitou custear os investimentos com o curso de Mestrado.

Ao primo, José Juvêncio (Zezinho), por confiar no meu potencial antes da entrada no curso, pela força e torcida durante a caminhada e pelos diálogos acadêmicos realizados.

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Às sobrinhas, Rayssa, Larissa e Melina, e ao sobrinho Kauan, pelo dom de me acalmar e me fazer sorrir nos dias difíceis e de muita correria.

Às minhas meninas, Gerizilda (Gê) e Daliane, pela amizade, pelo conforto nos dias difíceis, pela parceria nas atividades e discussões acadêmicas, por serem presentes, tornando a travessia mais leve. Gratidão por ter vocês!

Ao meu amor, João Edicarlos, pela compreensão, companheirismo, torcida e muito apoio durante todo o percurso realizado até aqui, por acreditar nesta conquista muito mais do que eu mesma. Obrigada por toda disposição em me ajudar, por cuidar tão bem de mim, pelo ombro amigo, pelas demonstrações de afeto, carinho, amor e VIDA.

Compartilho essa conquista com cada um de vocês!

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A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

Mário Quintana

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comunicativo(s) e que são orientados argumentativamente para esse fim, entendemos, conforme Koch e Elias (2018), que todo texto é argumentativo. Partindo desse pressuposto e da possibilidade de análise nos mais diversos gêneros textuais, objetivamos investigar a atuação de processos referenciais no desenvolvimento da orientação argumentativa de redações nota mil de candidatos do ENEM, de modo a, especificamente: i) identificar os processos referenciais empregados; ii) descrever o modo de manifestação dos processos referenciais empregados nesses textos como estratégias de orientação argumentativa; e iii) analisar a relação existente entre os processos referenciais e a orientação argumentativa desses textos. Nosso corpus de análise é constituído de 8 redações nota mil do ENEM publicadas na forma de uma cartilha, por Lucas Felpi, ano de 2018. A seleção desses textos deu-se mediante a maior recorrência de processos referenciais e a similaridade quanto ao viés argumentativo de discussão. As categorias de análise, por sua vez, foram delimitadas a partir do trabalho quantitativo, no qual observamos o número de ocorrências de cada processo, de modo a constatar os mais recorrentes, a saber: introdução referencial, anáfora direta e anáfora indireta.

Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa descritiva e interpretativista, de natureza exploratória, caráter documental, tipo qualitativa, cujo método de abordagem é dedutivo. Para tanto, os estudos de Apothéloz (2003), Cavalcante (2011; 2012; 2016), Cavalcante, Custódio Filho e Brito (2014), Cavalcante et alli (2020), Guimarães (2009), Ilari (2005), Koch (2004;

2005; 2011), Koch e Elias (2016; 2018), Marcuschi (2005; 2008), Milner (2003), Mondada;

Dubois (2003), Silva (2013), dentre outros, dão suporte teórico-metodológico à pesquisa. À vista disso, como resultados, a pesquisa reforça o que a literatura apresenta, que os processos referenciais sinalizam o(s) ponto(s) de vista do locutor, apresentando e direcionando o interlocutor para o projeto argumentativo desenvolvido ao longo do texto. Além disso, destacamos que a apresentação e a retomada de entidades na tessitura textual, em razão da subjetividade e da lexicalização utilizada, são responsáveis pela orientação argumentativa do texto, e decorrem, pois, das escolhas intencionais feitas pelo locutor, que visa conquistar a adesão do leitor sobre o que é dito. Conclui-se, portanto, que os processos referenciais efetivam a orientação argumentativa inerente ao gênero redação do ENEM que, em sua própria organização textual, revela um movimento argumentativo. A construção das redes referenciais, mediante introdução e retomada anafórica de referentes, é outro recurso importante na visualização da orientação argumentativa do texto, pois é reveladora de pontos de vista, os quais o candidato usa para gerenciar a argumentação do seu texto, da construção e defesa da tese à conclusão das ideias. Logo, acreditamos que esta pesquisa traz contribuições importantes à Linguística Textual, à medida que explora e amplia os postulados teórico-metodológicos da ciência, e ao ensino de Língua Portuguesa, no sentido de embasar teórica e metodologicamente o trabalho do professor, em sala de aula, quer seja no campo das atividades de leitura e compreensão de textos, quer seja no campo da produção textual. A contribuição é ainda mais específica aos professores dos cursos de redação, que devem, a partir do exercício de análise realizado, conscientizar os discentes da importância das escolhas linguísticas, dadas as funções textual-discursivas que cumprem na orientação argumentativa dos textos.

Palavras-chave: Referenciação. Processos referenciais. Orientação argumentativa. Redação.

ENEM.

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Considering that the texts are produced to fulfill a certain communicative purpose and that they are oriented argumentatively for that purpose, according to Koch and Elias (2018), we understand every text is argumentative. From this assumption and from the possibility of analysis in the most diverse textual genres, we aim to investigate the performance of referential processes in the development of the argumentative orientation of ENEM candidates essays who obtained the maximum score, in order to specifically: i) identify the referential processes employed; ii) describe the mode of manifestation of the referential processes used in these texts as argumentative orientation strategies; and iii) to analyze the relationship between the referential processes and the argumentative orientation of these texts. Our analysis corpus consists of 8 essays which obtained the maximum score of ENEM published in the form of a booklet, by Lucas Felpi, 2018 year. The selection of these texts took place due to the greater recurrence of referential processes and the similarity regarding the argumentative bias of discussion. The analysis categories were delimited from the quantitative work, in which we observe the number of occurrences of each process, in order to verify the most recurring ones, namely: referential introduction, direct anaphor and indirect anaphor. Methodologically, it is a descriptive and interpretive research, of exploratory nature, documentary character, qualitative type, whose method of approach is deductive. Therefore, the studies of Apothéloz (2003), Cavalcante (2011; 2012; 2016), Cavalcante, Custódio Filho and Brito (2014), Cavalcante et alli (2020), Guimarães (2009), Ilari (2005), Koch (2004; 2005; 2011), Koch and Elias (2016; 2018), Marcuschi (2005; 2008), Milner (2003), Mondada; Dubois (2003), Silva (2013), among others, provide theoretical and methodological support to the research. As results, the research reinforces what the literature presents, that is, the referential processes signal the speaker point of view, presenting and directing the interlocutor to the argumentative project developed throughout the text. In addition, we highlight that the presentation and resumption of entities in the textual structure, due to the subjectivity and lexicalization used, are responsible for the argumentative orientation of the text, and result from the intentional choices made by the producer, which aim to win the speaker adhesion on what is said. It is concluded, therefore, the referential processes effect the argumentative orientation inherent to the ENEM essay genre, which, in its own textual organization, reveals an argumentative movement. The construction of referential networks, through the introduction and anaphoric resumption of referents, is another important resource in visualizing the argumentative orientation of the text, as it reveals points of view, which the candidate uses to manage the argumentation of his text, from the construction and defense of the thesis to the conclusion of ideas. Thus, we believe that this research brings important contributions to Textual Linguistics, as it explores and expands the theoretical-methodological postulates of science, and to the teaching of Portuguese Language, in the sense of theoretically and methodologically supporting the work of the teacher, in the classroom, whether in the field of reading and text comprehension activities, or in the field of textual production. The contribution is even more specific to the teachers of the essays courses, who should, from the analysis exercise carried out, make students aware of the importance of linguistic choices, given the textual-discursive functions they fulfill in the argumentative orientation of the texts.

Keywords: Referencing. Referential processes. Argumentative orientation. Essay. ENEM.

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1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS ... 11

2 LINGUÍSTICA TEXTUAL: PERCURSO TEÓRICO E ESTUDOS SOBRE O TEXTO ... 20

2.1 ORIGEM E OBJETO DE ESTUDO ... 20

2.2 ESTATUTO DO TEXTO NA ATUALIDADE: PRINCIPAIS CONCEITOS... 23

2.3 A ARGUMENTAÇÃO SOB A ÓTICA DA LINGUÍSTICA TEXTUAL ... 29

3 REFERENCIAÇÃO: PROCESSO TEXTUAL-DISCURSIVO DE CONSTRUÇÃO DE SENTIDOS ... 36

3.1 PERCURSO TEÓRICO: DA REFERÊNCIA À REFERENCIAÇÃO ... 36

3.2 REFERENCIAÇÃO: FENÔMENO DE (RE)CONSTRUÇÃO DOS OBJETOS DE DISCURSO ... 39

3.3 PROCESSOS REFERENCIAIS ... 42

3.3.1 Introdução referencial: um “novo” olhar ... 44

3.3.2 Anáfora: correferencialidade e não-correferencialidade ... 48

3.4 OS EFEITOS ARGUMENTATIVOS DOS PROCESSOS REFERENCIAIS ... 53

4 FUNDAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS ... 59

4.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA ... 59

4.2 CONSTITUIÇÃO DO CORPUS E TRATAMENTO DOS DADOS ... 62

4.3 CATEGORIAS E PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE ... 65

4.4 GÊNERO REDAÇÃO DO ENEM: BREVE ABORDAGEM SOBRE O TEXTO DISSERTATIVO-ARGUMENTATIVO ... 70

5 REFERENCIAÇÃO E ORIENTAÇÃO ARGUMENTATIVA NO CORPUS DE ANÁLISE ... 77

5.1 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ... 123

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 127

REFERÊNCIAS ... 131

ANEXOS ... 136

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1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS

O homem faz uso da linguagem como ferramenta de comunicação que só dispõe de sentido quando há interação entre os parceiros – locutor e interlocutor. Decerto, pesquisar acerca dos fenômenos da linguagem significa investigar a configuração do processo comunicativo de interação.

Nessa perspectiva, o campo de estudos da Linguística Textual, com investigações voltadas para o entendimento do processo de produção e compreensão de textos, respaldado na abordagem interacional de base sociocognitiva, partilha a ideia de texto como uma atividade que envolve fatores linguísticos e extralinguísticos, processos mentais e fatores socioculturais, na relação entre os sujeitos da enunciação numa determinada situação comunicativa de interação.

Assim, dentre as perspectivas de análise nos estudos do texto, elegemos para esta pesquisa a referenciação, pauta teórico-metodológica de análise da Linguística Textual que é entendida como um processo coletivo, fruto da negociação entre os sujeitos da enunciação, locutor e interlocutor, e se modifica no desenvolver do discurso. Dito de outro modo, o fenômeno da referenciação consiste numa atividade discursiva, uma vez que os referentes são construídos e reconstruídos no discurso, através do processo de interação, isto é, diz respeito às diversas formas de introduzir, retomar, ativar, desativar e recategorizar um referente à medida que o discurso se desenvolve (CAVALCANTE; CUSTÓDIO FILHO; BRITO, 2014). Nessa perspectiva, os referentes dizem respeito às coisas do mundo real, são nomeados no e pelo texto e se relacionam ao contexto de uso, às percepções individuais de mundo e aos propósitos comunicativos do produtor em relação ao(s) interlocutor(es).

A organização do discurso na materialidade linguística é realizada considerando a finalidade do enunciador em relação ao ato de comunicar, que, na forma de texto, pode ser constituído por sequências descritivas, narrativas, expositivas, argumentativas e/ou injuntivas que arregimentam planos de textos variados. À vista disso, consideramos que há diferentes modos de organização da argumentatividade de um texto, é que não falamos em textos argumentativos e textos não argumentativos, pelo contrário, defendemos haver textos com argumentação direta e textos com argumentação indireta, referindo-se, portanto, a graus de argumentatividade (CAVALCANTE et alli, 2020). Logo, entendemos que a sequência argumentativa, predominante no gênero redação, por exemplo, expressa de modo mais explícito e articulado a construção de um dizer persuasivo, exigindo, na verdade, que o produtor conduza o leitor a partilhar de uma ideia – a sua.

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A partir desse entendimento e em diálogo com o que a literatura postula, a exemplo de Cavalcante (2011) e Marcuschi (2005), entendemos que os processos referenciais cumprem, na unidade discursiva, funções de natureza eminentemente argumentativa, isso porque tais processos consistem, na verdade, em escolhas em função de um querer dizer, as quais revelam a subjetividade do locutor, de modo a auxiliar na orientação argumentativa e na construção de sentidos dos textos. É certo, pois, que esta pesquisa se fundamenta no princípio de que todo enunciado é dotado de intenções comunicativas e que a argumentação é inerente ao texto.

Nesse sentido, partimos da hipótese de que há uma relação entre referenciação e argumentação, especialmente em textos constituídos por sequências argumentativas que são produzidos para cumprir o propósito comunicativo de convencer e persuadir o interlocutor acerca de uma tese, pois os processos referenciais, de introdução, retomada e remissão de referentes no texto consistem em estratégias que permitem ao leitor desvelar e validar sua opinião sobre uma dada realidade.

À vista dessas considerações, intencionamos, nesta pesquisa, discutir a respeito da interface entre esses fenômenos, à medida que investigamos o emprego dos processos referenciais em redações nota mil do ENEM e a atuação de tais processos no desenvolvimento da orientação argumentativa desses textos.

O interesse por essa temática surgiu, inicialmente, a partir da participação, como ouvinte, em uma pesquisa do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação Científica (PIBIC), vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), sobre o processo de referenciação em trabalhos monográficos, bem como da atuação como voluntária na pesquisa PIBIC/CNPq intitulada “A construção de referentes no discurso jornalístico: uma análise do processo de recategorização em notícias de portais online”, ambas coordenadas pela professora Lidiane de Morais Diógenes Bezerra, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Campus de Pau dos Ferros (CAPF).

A partir disso, o interesse foi progredindo e estudar a configuração dos processos de referenciação em editoriais produzidos por alunos do ensino médio foi o objetivo do nosso Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), o que evidencia o interesse em desenvolver mais uma pesquisa sobre esta temática. A referida monografia, orientada pela professora supracitada, sob o título “A referenciação em produções textuais no ensino médio: uma análise da (re)construção dos objetos de discurso no gênero editorial”, revelou que os alunos fazem uso recorrente de anáforas por repetição total e por pronominalização e uso limitado de anáforas por expressão definida.

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Recorte da pesquisa supracitada, o artigo “Um estudo sobre a recategorização em produções textuais de alunos do Ensino Médio” (SOUZA; BEZERRA, 2021) é uma publicação que, em seus resultados, reforça a tese de que a coerência se constrói por meio de relações referenciais, à medida que as anáforas operam acréscimos e confirmações aos referentes apresentados na tessitura textual, revelando uma reconstrução dos referentes.

Além da relação com a experiência acadêmica, a inquietação enquanto profissional docente é outro fator que motivou o interesse nessa investigação: estudar, com profundidade, um gênero cujo domínio de escrita é uma exigência a todos os discentes que objetivam cursar o ensino superior gratuito. Em razão da sua expressiva relevância, há, também, uma cobrança acerca do domínio da competência textual predominante neste gênero: a argumentação, da qual também tratamos. À vista disso, dada a importância do trabalho de análise de redações, a fim de melhor compreender seus aspectos e estruturas, justificamos a escolha pelo corpus redações nota mil do ENEM, tidas como modelo protótipo a ser reproduzido.

De modo a relacionar a nossa pesquisa com o que já tem sido investigado a respeito, destacamos, brevemente, algumas referências de estudos realizados no campo da referenciação.

Trata-se, pois, de apontar para o que é representativo na área, e de mencionar trabalhos desenvolvidos: teses e dissertações. Longe de expor um panorama minucioso, indicamos, a seguir, algumas produções que a literatura detém sobre a área em questão.

No tocante aos livros, damos destaque à obra Referenciação (CAVALCANTE;

RODRIGUES; CIULLA, 2003), que reúne trabalhos de pesquisadores especialistas na área.

Oriunda da França, a obra é uma tradução de textos cruciais para os estudos acerca da referenciação. De semelhante importância, agora em âmbito nacional, apontamos as seguintes obras: Referenciação e discurso (KOCH; MORATO; BENTES, 2005), que trata da referenciação como evidência da relação entre a tríade linguagem, práticas discursivas e realidade; Referenciação: teoria e prática (CAVALCANTE; LIMA, 2013), com discussões ampliadas sobre a construção de referentes, propondo novas visões teórico-metodológicas acerca do fenômeno; e Coerência, referenciação e ensino (CAVALCANTE; CUSTÓDIO FILHO; BRITO, 2014), que, enfatizando a abordagem textual-discursiva, apresenta discussões teóricas e propostas de atividades relativas ao ensino de leitura e produção de textos.

A respeito das teses e dissertações, realizamos um levantamento de pesquisas desenvolvidas na área, no banco de dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), especificamente da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD). A partir do descritor “Referenciação”, de modo a refinar a busca, optamos pelos trabalhos que compõem o repositório das instituições que apresentam um maior número de

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pesquisas desenvolvidas na área, sendo elas: Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). A eleição por esse critério dar-se-á em razão de acreditarmos que, por apresentarem números significativos de trabalhos na área, nessas instituições encontram-se consolidados importantes grupos de pesquisa em Linguística Textual, que desenvolvem continuamente estudos sobre a referenciação.

Obedecendo a uma ordem linear na apresentação das pesquisas existentes em relação à temática, quanto à publicação em cada programa, destacamos as pesquisas: Argumentação e processo referencial anafórico no anúncio publicitário de cosmético (SÁ, 2014), tese que constata a contribuição direta dos processos referenciais anafóricos na condução argumentativa do gênero anúncio, no sentido de persuadir os leitores à compra do produto, e Processos referenciais por nome próprio como estratégias argumentativas (SOARES, 2018), dissertação que mostrou como o apelo a nomes próprios, na introdução e na retomada anafórica, colabora para a orientação argumentativa do texto, à medida que influencia os modos de ver e sentir do interlocutor, pela UFC; Progressão referencial entre textos na cobertura jornalística contínua (MENEGALDO, 2016), dissertação que evidencia a importância da progressão textual na promoção de um efeito de identidade referencial para os objetos de discurso e na compreensão da mensagem abordada nos textos de cobertura jornalística, e Jornadas referenciais: a construção de um objeto de discurso em editoriais da Folha de S. Paulo durante manifestações de Junho de 2013 (XAVIER, 2018), dissertação que trata da correlação entre as estratégias de referenciação e os valores de campos sociais, quanto à compreensão da relação entre os elementos textuais e os elementos sociais dos textos, pela UNICAMP; Estratégias de referenciação em textos da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro (SILVA, 2012), dissertação que mostra como as estratégias de construção dos referentes auxiliam na produção de um texto com olhar crítico sobre o tema proposto, e Processos de referenciação e orientação argumentativa: uma proposta de análise em redações do Saresp (SOUZA, 2013), tese que demonstrou a atuação dos processos dêiticos e anafóricos como argumentos e como conclusão para argumentos em artigos de opinião produzidos por alunos da 3º série do Ensino Médio, pela PUC-SP.

No que diz respeito às pesquisas desenvolvidas sobre a referenciação no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL), mencionamos o número de 04 dissertações, a saber: Os processos referenciais na construção dos sentidos do texto: um estudo da seção de “análise dos dados” do gênero acadêmico monografia (ALMEIDA, 2018), que, em seus resultados, revela que os processos referenciais conferem harmonia e dinamismo aos textos analisados,

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considerando a recuperação, transformação e introdução de forma indireta dos objetos de discurso para a construção dos sentidos textuais; Os processos referenciais na construção da argumentação textual: um estudo do gênero artigo de opinião (ALMEIDA, 2019), que atesta a contribuição dos processos referenciais para a dinâmica argumentativa do texto, à medida que refletem o caráter argumentativo das escolhas feitas e dos sentidos que são negociados discursivamente; A progressão referencial no texto acadêmico: um estudo da seção

“considerações finais” do gênero dissertação (ASSIS, 2019), que trata os referentes como construções contextuais que direcionam os sentidos do texto, de acordo com as intenções do produtor; e, mais recentemente, Funções discursivas de expressões nominais referenciais: uma análise em exortação apostólica do Papa Francisco (PINTO, 2020), estudo que conclui que tais processos referenciais auxiliam na manutenção e na introdução de tópicos discursivos, promovendo o encadeamento das ideias, a orientação argumentativa e, por conseguinte, a progressão textual. As referidas pesquisas têm a orientação da professora Lidiane de Morais Diógenes Bezerra, autora do estudo Referenciação anafórica: as anáforas não-correferenciais no livro didático de língua portuguesa (DIÓGENES, 2006), que aponta a anáfora indireta como a mais empregada no corpus da pesquisa, cujas ocorrências, em sua maioria, não apresentam determinantes, aparecendo sob a forma de artigos definidos e indefinidos.

Ainda com relação às pesquisas desenvolvidas no programa, agora no âmbito do gênero redação, destacamos o trabalho de dissertação Do argumento à premiação: um estudo acerca das redações premiadas do programa COOPERJOVEM (SOUSA, 2014), que se ancora nos estudos da Nova Retórica com Perelman e Tyteca, única pesquisa do programa que tem como corpus de estudo o gênero redação. Daí a relevância da presente pesquisa, que, no tocante aos trabalhos publicados no programa, versa sobre um corpus de análise pouco difundido e ainda não investigado no que tange ao Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e à área da referenciação.

Em suma, esse levantamento evidencia a posição de destaque que o estudo dos processos referenciais vem ocupando na atualidade em Linguística Textual, levando-nos a confirmar que há muitas pesquisas realizadas na área. No entanto, ainda são poucos os estudos que tratam da referenciação em interface com a argumentação, especialmente em se tratando do gênero redação de ENEM, pois, de acordo com o levantamento realizado pela Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD), de acesso disponível no portal da CAPES, não encontramos

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pesquisas que tenham como corpus de análise este gênero em específico1. Decorre disso a evidente necessidade de ampliar as discussões a esse respeito, no sentido de somar aos estudos já publicados, e o caráter aparentemente inovador da presente pesquisa em relação ao corpus:

Redações nota mil do ENEM, o que a diferencia das demais.

À vista disso, considerando que o campo de estudos em questão é sempre inesgotável, o que nos permite investigá-lo nos mais diversos gêneros textuais, intencionamos, neste trabalho, investigar a atuação de processos referenciais no desenvolvimento da orientação argumentativa do gênero redação do ENEM.

Isto posto, torna-se oportuna a apresentação das questões que nortearam esta pesquisa, acerca do nosso critério teórico-metodológico de análise, referenciação, e do corpus de análise, redações nota mil de candidatos do ENEM. Sobre isso, o presente estudo tem como questão central: de que forma os processos referenciais atuam no desenvolvimento da orientação argumentativa de redações nota mil de candidatos do ENEM? Em consonância desta, pretendemos responder às demais questões de pesquisa, que são, na verdade, desdobramentos da questão central:

 Que processos referenciais são empregados em redações nota mil de candidatos do ENEM?

 Qual o modo de manifestação dos processos referenciais empregados nesses textos como estratégias de orientação argumentativa?

 Qual a relação existente entre os processos referenciais e a orientação argumentativa de redações nota mil de candidatos do ENEM?

Para responder a essas questões, objetivamos, de modo geral, investigar a atuação de processos referenciais no desenvolvimento da orientação argumentativa de redações nota mil de candidatos do ENEM. De modo mais específico, pretendemos:

 Identificar os processos referenciais empregados em redações nota mil de candidatos do ENEM;

 Descrever o modo de manifestação dos processos referenciais empregados nesses textos como estratégias de orientação argumentativa;

 Analisar a relação existente entre os processos referenciais e a orientação argumentativa de redações nota mil de candidatos do ENEM.

1 Embora não tenhamos intencionado citar, não podemos ignorar a significativa quantidade de artigos publicados em periódicos a respeito da interface referenciação e argumentação, a exemplo de Plano de Texto e Estratégias Linguísticas e Argumentativas: análise de redação nota 1000 do ENEM 2011 (OLIVEIRA; CABRAL, 2016).

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Para tanto, os estudos de Amossy (2011; 2018), Apothéloz (2003), Cavalcante (2011;

2012; 2016), Cavalcante et alli (2020), Guimarães (2009), Ilari (2005), Koch (2004; 2011), Koch e Elias (2016; 2018), Marcuschi (2005; 2008), Milner (2003), Mondada e Dubois (2003), dentre outros, norteiam os princípios teórico-metodológicos acerca dos processos referenciais, bem como da sua relação com as práticas argumentativas que propomos apresentar nesta pesquisa.

No tocante ao tratamento metodológico dispensado aos dados, caracterizamos a pesquisa como sendo: i) qualitativa, tem como foco a compreensão abrangente e significativa do fenômeno em estudo; ii) descritiva, uma vez que descreve as ocorrências referenciais observadas e identificadas no corpus, no que se refere à (re)construção dos objetos de discurso;

iii) interpretativista, pois a orientação metodológica utilizada na compreensão do fenômeno em análise segue o viés subjetivo do pesquisador, e o olhar versa sobre uma atividade de interpretação acerca dos dados; e iv) documental, visto que o seu corpus, redações do ENEM, é um material de domínio público: a cartilha intitulada “Redações a mil” (2018). Além disso, a pesquisa adota o método dedutivo, por partir de um caso geral (critério teórico-metodológico de análise) para um caso específico (corpus de análise), ou seja, deduzimos que, no corpus supracitado, seria encontrada uma regularidade significativa referente ao emprego de processos referenciais, antes mesmo do trabalho de pré-análise: primeira leitura dos textos.

O corpus de pesquisa é constituído de oito redações nota mil de candidatos do ENEM, ano 2018, textos do tipo dissertativo-argumentativo que possuem uma tese definida e os propósitos convencer e persuadir o leitor à adesão. A análise desses textos, por sua vez, é resultado de um olhar descritivo e interpretativista dos dados, sendo as categorias delimitadas a partir de um trabalho quantitativo, no qual objetivamos observar o número de ocorrências de cada processo, de modo a constatar os mais recorrentes, a saber: introdução referencial, anáfora direta e anáfora indireta.

No que se refere à sua relevância, ressaltamos que esta pesquisa não se direciona apenas ao contexto escolar, mas perpassa todo o âmbito social, uma vez que, para a elaboração e compreensão dos textos, o estudo sobre o fenômeno da referenciação constitui-se como um fundamento primário, em razão de orientar os sujeitos da enunciação na construção dos sentidos.

Do ponto de vista teórico-metodológico, acreditamos ser possível, com esta pesquisa, clarificar e ampliar ainda mais a teoria em estudo, especialmente no que diz respeito a pontos ainda pouco discutidos, que é o caso da introdução referencial, categoria de análise que motivou, em parte, o desenvolvimento desta pesquisa, que, além de analisar a atuação dos

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processos referenciais no desenvolvimento da orientação argumentativa dos textos, volta-se para a face recategorizadora das introduções referenciais. Logo, acreditamos que esta pesquisa traz contribuições importantes à Linguística Textual, à medida que explora e amplia os postulados teórico-metodológicos da ciência.

Evidenciamos, ainda, a relevância deste trabalho, afirmando subsidiar, no âmbito da educação básica, teórica e metodologicamente, o trabalho do professor de língua portuguesa, especialmente do ensino médio, no tocante à mediação das aulas referentes à leitura, compreensão e produção de textos, além de estimular a sua análise como um processo. De modo particular, destacamos a possibilidade de aplicação da pesquisa na prática docente do professor dos cursos de redação, preparatórios para o ENEM, e demais exames que exijam o domínio da escrita do gênero e da competência textual da argumentação, no sentido de potencializar as aulas com a análise de redações nota mil, trabalho de suma importância no processo de compreensão do gênero em questão.

Logo, este estudo, além de somar aos trabalhos já desenvolvidos na área, pode, também, vir a contribuir para futuras pesquisas realizadas na academia, sobretudo no Grupo de Pesquisa em Produção e Ensino de Texto (GPET) – UERN, Campus de Pau dos Ferros, e, especialmente, para a linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL), da mesma instituição, à qual o estudo encontra-se vinculado: Texto e construção de sentidos.

De modo a elucidar a compreensão da discussão proposta, o plano de apresentação da pesquisa encontra-se organizado em seis capítulos: no primeiro, é realizada a delimitação do tema de estudo, levantamento dos trabalhos existentes na área, apresentação das questões e objetivos de pesquisa e, ainda, justificativa e relevância do estudo; no segundo, discutimos acerca da trajetória que constitui a Linguística Textual, dos conceitos de texto que embasam os estudos atuais da área e da argumentação, considerando as abordagens do texto e do discurso;

no terceiro, tratamos do fenômeno da referenciação, de forma a esclarecer seus conceitos, pressupostos, características e os processos de introdução referencial e anáfora, por correferencialidade e por não-correferencialidade, bem como do que a literatura postula sobre os efeitos argumentativos dos processos referenciais; no quarto, explanamos os passos metodológicos da pesquisa: métodos e procedimentos utilizados, constituição da amostra e tratamento dos dados, da seleção à análise, além de uma breve contextualização do gênero redação, corpus da pesquisa; no quinto, apresentamos a análise dos processos de introdução referencial e anáforas direta e indireta, intencionando investigar a atuação no desenvolvimento da orientação argumentativa de redações nota mil do ENEM; e, ao final, no sexto capítulo,

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tecemos considerações acerca do exercício de análise realizado, apontando os resultados prévios da pesquisa, suas contribuições e perspectivas de aplicação.

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2 LINGUÍSTICA TEXTUAL: PERCURSO TEÓRICO E ESTUDOS SOBRE O TEXTO

Este capítulo apresenta uma discussão acerca da filiação teórica que sustenta a pesquisa:

a Linguística Textual. Sobre esse campo de estudos, inicialmente, discorremos acerca da sua origem e desenvolvimento, que compreende a trajetória teórica percorrida, no que diz respeito ao tratamento teórico-metodológico do texto, bastante significativa para a evolução do referido objeto de estudo desse ramo da Linguística. Em seguida, abordamos os conceitos de texto que os estudos atuais da área apresentam, considerando-o a partir de uma visão social, interacional, dialógica e funcional. Ainda nesta seção, discutimos acerca das noções de cotexto, contexto e construção dos sentidos do texto. Em último plano, mas não menos pertinente, ponderamos acerca dos estudos sobre a argumentação, entendendo estar inscrita na textualidade do discurso, segundo a perspectiva teórica da Linguística Textual, que perpassa abordagens do texto e do discurso.

Para tanto, articulamos essa discussão com base nos postulados teóricos desenvolvidos por Adam (2011), Amossy (2018), Bentes (2001), Bentes, Ramos e Alves Filho (2010), Cavalcante (2016), Cavalcante e Custódio Filho (2010), Cavalcante et alli (2020), Fávero e Koch (2008), Gouvêa, Pauliukonis e Monnerat (2017), Guimarães (2009), Koch (2004; 2011), Koch e Elias (2016; 2018), Koch e Travaglia (1997), Marcuschi (2008; 2012), Santos, Riche e Teixeira (2015), entre outros.

2.1 ORIGEM E OBJETO DE ESTUDO

Desde a sua origem, até os dias atuais, a Linguística Textual (doravante LT) tem o texto como objeto de estudo, sendo sua trajetória voltada para as diferentes concepções, que consistem, na verdade, em um percurso evolutivo da noção de texto.

Conforme Fávero e Koch (2008), a Linguística Textual apresenta seus primeiros estudos em meados da década de 1960, na Europa, especificadamente na Alemanha, concebendo o texto como campo de investigação. Sua trajetória se constitui de três fases: i) fase da análise transfrástica; ii) fase das gramáticas de texto; iii) fase das teorias de texto (KOCH, 2004).

Na primeira fase, via-se o texto como uma frase complexa voltada para a sentença, na qual os fenômenos estudados se encontravam relacionados aos fatores da coesão, especialmente à correferência. Nesse momento, segundo Koch (2004, p. 5), o texto era entendido como “a unidade linguística mais alta, superior à sentença”, isto é, relacionado a critérios quantitativos, de extensão: o texto enquanto a junção de frases, enunciados e períodos.

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Na segunda fase, em razão da inconsistência semântica dos estudos interfrásticos, surge o interesse em refletir acerca dos fenômenos que não se explicavam através de uma gramática de enunciado, havendo, por influência das gramáticas gerativas, a necessidade de elaborar gramáticas textuais (FÁVERO; KOCH, 2008). Nesta fase, o texto é tido como um produto pronto e acabado, não admitindo a visão de texto como unidade multifacetada, como temos atualmente.

Já na terceira fase, com os avanços dos estudos, vemos que a concepção de texto se volta mais para uma visão qualitativa que quantitativa do objeto de análise, ou melhor, a atenção volta-se mais para a compreensão do processo complexo de interação social que é o texto, com interesse voltado para o contexto, tão caro à LT, do que para as questões quantitativas de extensão (palavras, frases e períodos, por exemplo). Essa visão corrobora com o postulado de Antunes (2010, p. 39, grifos da autora), para quem o texto é “qualquer passagem, de qualquer extensão, desde que constitua um todo unificado e cumpra uma determinada função comunicativa”. Outra concepção ainda mais coerente com as pesquisas em torno do texto é a seguinte: “uma atividade de interação que gera a produção de sentidos” (CAVALCANTE, CUSTÓDIO FILHO, 2010, p. 64).

Nesse momento, passa-se a enxergar a importância da pragmática para a construção de sentidos do texto, concebendo-o enquanto processo, bem como, conforme Koch (2004), o lugar de interação, o que implica considerar a perspectiva sociocognitiva da língua como indispensável na produção, funcionamento, recepção e interpretação da unidade discursiva.

Nesta terceira fase, portanto, ocorrem duas viradas: pragmática e cognitiva.

Acerca dessa trajetória, Koch (2004) sugere que entendamos a primeira e a segunda fase enquanto estudos interfrásticos da língua, predominando uma fundamentação de base gramatical, numa abordagem sintático-semântica, centrados na coesão – aqui entendida como a característica que legitima o texto como tal. A partir da terceira fase da LT, ou seja, do desenvolvimento das teorias de texto, ocorre as duas viradas: pragmática, por influência de teorias de base comunicativa, como a dos atos de fala e a teoria da atividade verbal; e cognitiva, por influência as ciências da cognição. Decerto, hoje temos uma abordagem sociocognitiva e interacionista, que relaciona cognição e cultura e parte de uma abordagem dialógica da linguagem, de modo que o texto é concebido enquanto resultado de processos mentais, em que os interlocutores (sujeitos da enunciação) detém de saberes que são ativados na atividade de interação para esta que seja efetivada.

Nesta última fase, a LT passa a considerar uma nova abordagem, a chamada sociocognitivo-interacionista, que redefine a concepção de texto. Nisso, passou-se a discutir a

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relação entre cognição e cultura, adotando o termo sociocognição. Corroborando com essa ideia, Cavalcante e Custódio Filho (2010, p. 59) afirmam que “a perspectiva assumida pela LT, na atualidade, considera que cultura e processamento mental são duas instâncias constitutivamente interligadas”.

Por outro lado, Bentes (2001) postula que na verdade essas três fases se resumem a apenas duas: a teoria da frase, que se refere à identificação de textos e não-textos através do princípio da coerência, com estudos voltados para uma visão estruturalista da língua; e a teoria do texto, que é considerada uma fase de natureza interacional, por entender o texto enquanto um processo colaborativo entre enunciador e co-enunciadores para a construção de sentidos.

Nesta última fase, a autora reitera que a definição de texto deve levar em conta que esta é: i) uma atividade verbal que consiste na prática de ações, atos de fala; ii) uma atividade verbal consciente que é dotada de intencionalidade; e iii) uma atividade interacional, negociada entre locutor e interlocutor por meio de um processo de cooperação entre ambos.

Em resumo, sobre a evolução da noção de texto, a partir das fases pelas quais passou a LT, é interessante destacar que:

De uma concepção de texto como sistema autônomo passível de formulação por uma “gramática”, tributária da noção de que o texto seria a unidade linguística mais alta (em relação à frase, à palavra, ao morfema e ao fonema), passou-se à consideração de texto como unidade funcional nos processos comunicativos de uma sociedade concreta. (CAVALCANTE; CUSTÓDIO FILHO, 2010, p. 58).

Embora pouco produtivas para o presente momento, as ideias apresentadas nas fases iniciais da LT são válidas em razão de serem aceitas e defendidas na época e por deixarem lacunas que possibilitaram o surgimento dos estudos que atualmente temos na área. Por essa razão, discutimos a trajetória evolutiva da noção de texto, considerando pertinente discorrer acerca das três fases e não somente da última, uma vez que esta última fase é decorrente dos estudos que compõem as fases anteriores.

No entanto, além dessas fases, há autores que já sinalizam para uma outra (nova).

Intitulada como “momento atual”, segundo Bentes e Leite (2010), essa fase evidencia o quão promissor é o campo da LT ao exigir que sejam desenvolvidos novos conceitos e procedimentos teórico-analíticos que contemplem todos os modos de texto, por entender que as mídias sociais, no contexto da cultura digital, têm gerado novas formas de conceber esse objeto de estudo. Com Koch e Elias (2016), ao tratarem das perspectivas futuras da LT, entendemos que o trabalho

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com os textos digitais, as práticas hipertextuais e a multimodalidade, por exemplo, vêm agenciando esse novo caminho da LT2.

Em suma, argumentamos que o texto, nos estudos e pesquisas atuais, é tido como o resultado de nossas práticas sociais, consiste na interação entre a linguagem, os sujeitos da enunciação, com suas percepções individuais de mundo, e os aspectos sociais, históricos e culturais da situação comunicativa. Nessa perspectiva interacional e sociocognitiva, Koch e Elias (2016, p. 32) concebem o texto como “[...] uma realização que envolve sujeitos, seus objetivos e conhecimentos com propósito interacional”.

Em outras palavras, o texto deve ser concebido como um espaço de trocas comunicativas, um diálogo entre os parceiros da enunciação que acontece pelo fato de envolver questões contextuais, fundamentais para a construção de sentidos, que não são dados a priori, textualmente falando, e sim constituídos nas relações estabelecidas entre os sujeitos envolvidos no processo de interação.

Concordamos com Marcuschi (2012), ao tratar da definição geral provisória da Linguística Textual, que este campo da linguagem deve ser visto como o estudo dos atos de comunicação (leia-se texto) situados num complexo universo de ações humanas e que contribui para o ensino de língua, em razão de ativar no interlocutor saberes de ordem linguística e extralinguística, bem como por, principalmente, dar “o instrumental que o capacita para a compreensão de textos” (MARCUSCHI, 2012, p. 33).

Mediante proposições postas, entendemos que, desde o seu surgimento, a LT procura estabelecer um conceito para o que é texto, e o percurso teórico apresentado evidencia que tal proposição comporta grandes desafios. Acerca disso, discorremos, na seção seguinte, sobre as noções atuais de texto apresentadas por estudiosos da LT, que, em seus trabalhos, o consideram a partir uma visão social, cognitiva, interacional, dialógica e funcional da língua.

2.2 ESTATUTO DO TEXTO NA ATUALIDADE: PRINCIPAIS CONCEITOS

Longe de apresentar um panorama exaustivo, retratamos os principais conceitos de texto nos quais os estudos atuais em LT se respaldam, de modo a delimitar de onde parte a reflexão que propomos com esta pesquisa. Antes de tudo, é preciso considerar que qualquer ato de

2 A esse respeito, cabe mencionar, ainda, os trabalhos do Protexto (UFC), a exemplo do seguinte artigo: SOARES, M. S.; MARTINS, M. A. Um panorama sobre a Análise do Discurso Digital. Revista da ABRALIN, v. 19, n. 2, p. 1-5, 19 ago. 2020.

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comunicação e/ou interação ocorre por meio de um texto, seja ele verbal, imagético ou verbo- imagético. Essa assertiva, por si só, já justifica a pertinência dessas discussões.

Partindo desse pressuposto, postulamos que o texto é muito mais do que um conjunto de sentenças que envolve regras gramaticais, isto é, “uma sequência coerente de sentenças”

(MARCUSCHI, 2012, p. 22), que podem ou não ser longas. Considerar o contrário, no entanto, pode ser perigoso, pois, conforme coloca o autor, existem textos formados por apenas uma sentença, a exemplo de “Pare!”, que, quando presente no contexto situacional do trânsito, consiste numa informação injuntiva, dotada de sentido, intencionalidade e, consequentemente, de funcionalidade, constituindo-se como um texto.

É pertinente, sempre que se trabalha com texto, deixar claro que noção de língua se adota. Por língua, conforme Marcuschi (2008, p. 61), adota-se o seguinte conceito: “um conjunto de práticas sociais e cognitivas historicamente situadas”, assim como é o contexto em que se situam: imediato, tem como eixo central a comunicação, e amplo, refere-se às relações sociais, culturais e às experiências particulares dos sujeitos da enunciação. Desse modo, é preciso considerar o texto não apenas como prática de um gênero, mas nas relações com outros textos e gêneros. Assumindo uma visão bakhtiniana3, o texto é, pois, resultado do desdobramento de outro(s) texto(s) e provoca/motiva o desdobramento de tantos outros.

A esse respeito, uma outra definição é apresentada:

Na abordagem interacional de base sociocognitiva, o texto é uma realização que envolve sujeitos, seus objetivos e conhecimentos com propósito interacional. Considerando que esses sujeitos são situados sócio-histórica e culturalmente e que os conhecimentos que mobilizam são muitos e variados, é fácil supor que o texto “esconde” muito mais do que revela a sua materialidade linguística. (KOCH; ELIAS, 2016, p. 32).

Em outras palavras, dizemos que a superfície textual – cotexto – é a parte mínima do texto, estando a sua maior parte implícita no contexto, que envolve os aspectos sociais referentes à cultura, opiniões, crenças, ao lugar sócio-histórico e aos conhecimentos dos sujeitos da interação, que são mobilizados no entorno discursivo e parcialmente responsáveis pela construção dos sentidos do texto. Ademais, entender que o texto “esconde” muito mais do que revela a sua materialidade linguística significa, também, considerar que ele consiste em um

3 Sobre essa visão, consultar as seguintes referências:

BRAIT, B. (Org.). Bakhtin, dialogismo e polifonia. São Paulo: Contexto, 2009.

BRAIT, B. Bakhtin e a natureza constitutivamente dialógica da linguagem. In: BRAIT, B. (Org.). Bakhtin, dialogismo e construção de sentido. 2. ed. rev. Campinas/SP: Editora da UNICAMP, 2005, p. 87-98.

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processamento mental que se constitui intersubjetivamente antes de tomar forma material, uma vez que sempre organizamos nossos atos de fala na mente antes de constituí-los enquanto materialidade linguística.

Com isso, e comparando-o a um iceberg, entendemos que o texto é muito mais do que aquilo que mostra ser, tem muito mais de implícito e de incompletude do que explicitamente nos mostra. Assim, é preciso considerar que as questões discursivas e interacionais (situacionais) são intrínsecas e constitutivas ao estudo do texto, já que este “só existe situado social, cultural e historicamente” (SANTOS; RICHE; TEIXIERA, 2015, p. 25). Considerando essas reflexões em torno do contexto, argumentamos que “[...] a produção textual se encontra imersa em uma realidade histórica e social e, ao mesmo tempo, a constitui e é por ela constituída” (BENTES; RAMOS; ALVES FILHO, 2010, p. 395), permitindo, pois, a compreensão dos efeitos de sentidos manifestados na tessitura textual e negociados colaborativamente entre os interlocutores.

A fim de deixar mais clara a posição que assumimos, tomamos texto e discurso como duas categorias da língua que, embora sejam distintas, imbricam-se entre si, de modo que uma não deve ser trabalhada sem considerar a outra. Por isso, adotamos a perspectiva texto/discurso, neste trabalho, fundamentados no pressuposto teórico de Cavalcante e Custódio Filho (2010), de que há um continuum entre ambos, isto é, o imbricamento entre as duas instâncias. Ademais, com Guimarães (2009), confirmamos esta articulação, argumentando que os discursos só existem quando expressos na materialidade textual e por meio de gêneros, isto é, só há discurso se houver texto.

No entanto, é importante destacar, conforme esclarecem Cavalcante et al (2016, p. 8), que “[...] não se trabalha mais a noção de texto como uma mera materialização do discurso”.

Isso porque o texto não é só cotexto; se assim fosse, não seria compreendido; texto é contexto, é a mobilização de conhecimentos diversos, de aspectos sociais e culturais emergentes das práticas discursivas.

Ao discutir acerca da ligação entre significado e significante, a partir dos postulados de Ferdinand de Saussure, Adam (2011, p. 32) compreende que “a definição do discurso como ligação entre conceitos revestidos de uma forma linguística deixa em aberto a questão da natureza e da extensão desses encadeamentos”. Dizemos, então, que texto e discurso, à medida que se sobrepõem, se inter-relacionam, especialmente na perspectiva de análise que esta pesquisa adota – não nos interessa apenas perceber o nível textual, mas, a partir dele, chegar ao nível discursivo.

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Assim, para trabalhar com o texto, é preciso contemplar a perspectiva do discurso. Logo, não se deve considerar texto e discurso enquanto categorias estanques, mas numa interface, isto é, enquanto faces que se complementam. Assim, com respaldo em Guimarães (2009, p. 127), entendemos “o texto como repertório do discurso, não existindo o sentido sem a forma que o materializa” (grifos da autora). O texto é, pois, intrínseco ao discurso, constitui-se de discurso(s), e este(s) se materializa(m) naquele. Logo, um é parte do outro.

Ainda sobre texto e discurso, conforme perspectiva com a qual nos alinhamos, Cavalcante e Custódio Filho (2010, p. 62) argumentam que:

Dessa forma, é cada vez mais frequente, em LT, desconsiderar as fronteiras muito bem delimitadas entre texto e discurso e investir no entendimento de que essas duas instâncias se imbricam e, por vezes, se confundem, sem que isso signifique a necessidade de que as disciplinas em torno das duas matérias estudem as mesmas coisas ou se juntem para formar uma única área de investigação. Os programas investigativos de cada uma garantem naturalmente as especificidades, de modo que o diálogo entre elas não implica perda de identidade, mas, sim, ganho explicativo e avanço teórico- metodológico.

Isto é, ao falar de texto, necessariamente fala-se de discurso, pois o texto está atrelado à enunciação discursiva, devendo-se deixar claro, no entanto, que texto não é a mesma coisa que discurso. Defendemos, então, o entendimento de que, embora se relacionem, essas noções metodologicamente se dissociam e, com isso, cada disciplina que trata do estudo do texto e do discurso tem suas especificidades, de modo que, ao se relacionarem, contribuem para com os estudos uma da outra.

Complementando a concepção de texto aqui discutida, Gouvêa, Pauliukonis e Monnerat (2017, p. 50) discutem-no enquanto “resultado de uma operação estratégica de comunicação, produzida por um enunciador e decodificada como tal por um leitor”, em três níveis: o referencial, que diz respeito ao conteúdo cotextual; o situacional, relacionado aos entornos sociais – o contexto –; e o pragmático, referente ao processo sociointerativo. Essa visão, portanto, reforça os argumentos em torno do conceito de texto, apresentados até aqui, e sugere que este possibilita a correlação entre o dito (cotexto) e o não-dito (contexto), embora muito do contexto está dito também, sobretudo em textos multissemióticos.

Em síntese, conforme Cavalcante e Custódio Filho (2010, p. 64), entendemos que:

A interpretação que o jogador de vôlei faz sobre os movimentos da equipe adversária na hora do saque (chamada pelo locutor televisivo de “leitura do

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jogo”); o conjunto de gestos que fazem parte da “conversa” entre o limpador de parabrisas e o motorista quando o carro para no semáforo; as considerações mentais sobre pobreza/religião/economia que um indivíduo faz quando vê um desabrigado na rua; os movimentos e tudo o mais envolvido no ato sexual...

Tudo pode ser considerado texto, porque nos chama a participar ativamente de uma interação para a qual devemos dar sentido(s).

Noutras palavras, os autores alargam o entendimento do texto, considerando as diferentes manifestações semióticas (o não-verbal) nas quais que esse objeto se expressa, mediante construção conjunta entre os sujeitos da enunciação, que decorre de um contexto social e cultural específico.

O texto assim definido traz à tona uma discussão acerca das noções de cotexto e contexto, de modo que é válido e pertinente distinguir e relacionar uma e outra. Conforme Koch e Elias (2016), por cotexto, entendemos que este se refere ao que é linguístico, ao que está posto na materialidade textual e é explícito aos nossos olhos, enquanto contexto diz respeito ao que é extralinguístico, aos conhecimentos de mundo, de ordem sociocultural, que são compartilhados na situação de interação. No entanto, numa visão atual a respeito dos estudos do texto, especialmente com Cavalcante et al (2019), é importante ressaltar que o cotexto abarca não somente elementos linguísticos, mas todas as formas explicitadas na superfície textual, o que pode incluir imagens, sons, ou até percepções táteis.

Nesse entendimento, o texto consiste em um instrumento de comunicação que, tanto para a produção quanto para a compreensão, necessita da ativação não apenas de conhecimentos ligados ao cotexto, mas também, e principalmente, do contexto sociocultural em que se insere.

Isso nos leva a entender que, para o processamento textual, o linguístico é necessário, mas não é suficiente, é preciso, pois, ir além. Logo, os dois se imbricam, pois, o cotexto atua como ponto de partida para o estabelecimento dos sentidos globais de um texto que, acionado a aspectos contextuais, externos à materialidade textual, permitem construir sentidos possíveis.

Considerar que o cotexto direciona o leitor ao contexto do entorno discursivo comprova que “os sentidos do texto/discurso organizam-se no jogo interno de dependências estruturais e nas relações com aquilo que está fora dele” (GUIMÃRES, 2009, p. 131), isto é, não estão prontos, estanques no texto, e sim construídos sociointerativamente por meio da participação ativa do interlocutor que, ao ativar os conhecimentos prévios armazenados na memória discursiva, estabelece as relações possíveis para essa construção, o que a literatura denomina de coerência.

Assim, a compreensão de um texto envolve regras de interpretação pragmática, de modo que a coerência não se estabelece sem considerar a interação e os fatores de ordem externa ao

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texto: crenças, valores, percepções individuais de mundo e etc. Isso implica dizer, portanto, que

“a coerência não é uma propriedade textual que possa ser localizada ou apontada no texto”

(KOCH; ELIAS, 2016, p. 35, grifo das autoras). Com essa visão, defendemos a tese de que a coerência deve ser vista como um processo que leva em conta o que é posto linguisticamente, as intenções e os objetivos comunicativos do locutor com o texto, bem como uma série de fatores pragmáticos e discursivos inerentes à construção de sentidos. Tais conhecimentos são acionados sempre durante a interação e variam de acordo com cada situação comunicativa.

Concordando com Cavalcante et al (2016, p. 9), “o texto, num par correlato com o discurso, é uma unidade comunicativa completa e complexa, cuja coerência se negocia na interação e está incrustada em relações sociais contextualizadas”. Essa visão atesta uma outra: a de que a coerência é construída e não dada a priori no texto.

A partir desse viés, acreditamos que a coerência de um texto depende do conhecimento enciclopédico e das experiências do leitor que o recepciona, bem como, e principalmente, do contexto em que se encontra situado. Acerca disso, Sautchuk (2003, p. 50) acrescenta que “[...]

teóricos da produção escrita postulam que não existem textos incoerentes, uma vez que o sentido de qualquer texto estaria sempre na dependência de que se construa um contexto adequado para que esse sentido se manifeste”, tanto por parte do produtor, que deixa pistas intencionando ser compreendido, quanto por parte do interlocutor que se esforça para processar, por meio de inferências, os sentidos e as intenções expressas. Koch e Travaglia (1997, p. 11) defendem e ilustram essa premissa com o seguinte exemplo:

(1) A galinha estava grávida.

Em (1), conforme postulado pelos autores, temos um texto que, em um contexto de representação das coisas do mundo vistas pelo viés do “real”, do que é literal, seria incoerente.

Mas, pelo viés do que é mágico, fantasioso, já não seria; tudo depende do mundo onde se produz o texto. E, mais ainda, quando recepcionado por um leitor que considera “galinha” como referente à figura de uma mulher, – termo de natureza pejorativa que faz alusão às mulheres que se relacionam com muitos homens e/ou não têm um relacionamento fixo – esse texto é, também, dotado de sentido.

Com este exemplo, argumentamos que a coerência não é um elemento próprio da superfície textual, mas também da situação comunicativa, isto é, os sentidos de um texto só são construídos, eficazmente, quando de forma situada. Considerar o contrário anula o papel do interlocutor no jogo da linguagem e tudo de extralinguístico que fora discutido até aqui. Essa

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mesma reflexão é feita pelos autores, para quem “o texto será incoerente se seu produtor não souber adequá-lo à situação, levando em conta intenção comunicativa, objetos, destinatário, regras socioculturais, outros elementos da situação, uso dos recursos linguísticos, etc. Caso contrário, será coerente” (KOCH; TRAVAGLIA, 1997, p. 50).

Com efeito, essa visão nos leva a reconhecer que o sentido de um texto não é único, absoluto, uma vez que o autor não o controla, isto é, não consegue garantir ao leitor a compreensão do(s) sentido(s) que objetivou expor. Teoricamente, o fato de o leitor colocar muito de si para compreendê-lo, especialmente sua maneira individual de visualizar o mundo, justifica a pluralidade de leituras possíveis em um determinado texto, mas não toda e qualquer interpretação, como frisa Guimarães (2009).

Ainda a esse respeito, é interessante destacar o seguinte:

Sempre que produzimos algum enunciado, desejamos que ele seja compreendido, mas nunca exercemos total controle sobre o entendimento que esse enunciado possa vir a ter. Isto se deve à própria natureza da linguagem, que não é transparente nem funciona como uma fotografia ou xerox da realidade.(MARCUSCHI, 2008, p. 231).

Isso porque a construção dos sentidos de um texto envolve, para além da conexão entre suas partes, conhecimentos de mundo, bagagem sociocognitiva e as práticas comunicativas do interlocutor, que se diferem entre um e outro, evidentemente. À vista disso, entender que os textos se conectam a conhecimentos diversos possibilita-nos considerar os princípios da textualidade, ou fatores de contextualização, como intitulam Koch e Travaglia (1997), que legitimam o texto como tal, sendo eles: coesão, coerência, aceitabilidade, informatividade, situacionalidade, intertextualidade e intencionalidade4.

Finalizamos a discussão em torno do texto e seus sentidos, nos estudos contemporâneos da LT, com a visão de Bentes, Ramos e Alves Filho (2010): o texto é uma atividade interacional, composto por elementos socioculturais, no qual o interlocutor, que o recepciona, cumpre a função de sujeito envolvido na enunciação, negociando junto ao locutor seus sentidos. Em síntese, o texto é uma atividade verbal de natureza social e interativa.

Para a discussão que propomos neste capítulo, também é nossa intenção delimitar o respaldo teórico que a pesquisa adota acerca da argumentação, em Linguística Textual,

4 De modo a não se alongar na discussão, optamos por apenas citar esses princípios que podem melhor ser vistos em Coerência textual, de Koch e Travaglia (1997), Introdução à linguística textual: trajetória e grandes temas, de Koch (2004) e Produção textual, análise de gêneros e compreensão, de Marcuschi (2008).

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considerando que há estudos sob diferentes perspectivas a esse respeito. Fazemos isto no tópico a seguir.

2.3 A ARGUMENTAÇÃO SOB A ÓTICA DA LINGUÍSTICA TEXTUAL

A Linguística Textual estabelece interfaces com outras correntes teóricas, a exemplo dos estudos sobre as teorias argumentativas, pressupondo que a argumentação está inscrita na textualidade, ou melhor dizendo, nível textual, conforme Cavalcante et alli (2020). A partir dessa relação, a LT apresenta discussões e critérios de análise que contribuem para a compreensão e o trato teórico-metodológico do processo complexo de interação social que é o texto, no sentido de ampliar seus conceitos, bem como para o aprimoramento dos estudos em torno da construção de sentidos que, inevitavelmente, envolve toda a discussão em torno deste objeto de investigação.

Nesta pesquisa, assumimos o pressuposto de que, do ponto de vista retórico, todo texto é argumentativo, ainda que em maior ou menor grau, como discutiremos no decorrer desta seção. Esta tese se fundamenta em Amossy (2018), que defende uma concepção mais ampla de argumentação, entendida não somente como a tentativa de adesão a uma tese, mas também de agir sobre o outro, modificando-o, orientando-o e até reforçando uma percepção das coisas de determinada maneira. Com base nisso, e com Cavalcante (2016), Cavalcante et alli (2020), Koch (2011) e Koch e Elias (2018), especialmente, reconhecemos que todo texto é orientado argumentativamente, uma vez que, ao fazer uso de textos, o sujeito terá sempre a pretensão de atingir o interlocutor, seja através da narração, descrição, explicação etc. Logo, a intenção é sempre influenciar o outro em relação a um projeto de dizer, isso todo texto é capaz de fazer.

Acerca dessa tese, utilizamos como exemplo o texto “Secretaria”5, acima de uma porta, que assumindo a função de identificar o local onde se cumpre um expediente administrativo de determinada entidade, é produzido com a finalidade de influenciar o outro, possibilitar de alguma forma uma ação no outro, ainda que seja meramente orientar. Esse é o caso, para dar um exemplo bem simples, de que a argumentação é inerente a qualquer ato de fala, pois

“convida o outro a compartilhar modos de pensar, de ver, de sentir” (AMOSSY, 2018, p. 12), o que, conforme dito anteriormente, quanto às intenções, independe do tipo de texto que se produz.

5 Exemplo apresentado pela Profa. Mônica Magalhães Cavalcante no I Simpósio Nacional de Línguas Literaturas e Ensino (SINALLEN), evento realizado pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), campus Pau dos Ferros, nos dias 03, 04 e 05 de dezembro de 2019.

Referências

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