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Arqueomarxismo: uma apresentação

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Academic year: 2021

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Arqueomarxismo:

uma

apresentação

[A editora Alameda publicará no início de 2013 o livro

Arqueomarxismo: comentários sobre o pensamento socialista, de

Alvaro Bianchi. O blog CONVERGÊNCIA antecipa o lançamento e publica aqui a apresentação dessa obra.]

Alvaro Bianchi

Não quero deixar lugar a dúvidas: este livro, reunindo comentários a respeito do arqueomarxismo, é, de ponta a ponta, uma provocação. Os textos que têm nele lugar foram escritos algumas vezes com objetivos polêmicos explícitos e outras com a intenção de tornar públicas algumas ideias longamente elaboradas. Mas foram sempre provocações, procuravam mais ofender do que defender.

Ofender a quem? Certamente a um pensamento conservador falsamente ilustrado, que teima em desembainhar sua torta espada para atacar o espectro que o assombra. (Como se espadas pudessem enfrentar espectros!) Pois não é paradoxal que esse pensamento conservador o qual afirma que o marxismo é uma forma de arcaísmo e ainda mais uma forma derrotada pela história, viva organizando suas cruzadas na tentativa de vencê-lo mais uma vez? Mas também ofender certo marxismo que se converteu em ideologia de Estado ou que pretende sê-lo e para tal está sempre em busca de um novo guia genial, de um grande timoneiro, de um farol do socialismo.

Para que fique ainda mais claro esse caráter provocativo iniciarei definindo os termos que organizam este livro. Primeiro a noção de comentário. Seguindo livremente algumas ideias de Walter Benjamin quero distinguir um comentário de uma enquete. Uma enquete tem por objetivo escrutinar um objeto e emitir a respeito dele um juízo de fato ou mesmo de valor.

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Quando assume como objeto um pensamento político-social o escrutinador ideal comporta-se como o físico ideal diante de uma teoria: analisa sua consistência lógica, submete-a a testes, procura validá-la ou invalidá-la. Obviamente as técnicas de ambos são muito diferentes assim como os resultados que podem almejar. Mas é uma atitude típica que quero aqui destacar. O que caracteriza o comportamento do escrutinador é uma atitude ao mesmo tempo distante e desconfiada perante seu objeto.

Essa atitude na qual se sustenta a crítica já produziu grandes obras. Karl Marx fez um profundo exercício de enquete em Die heilige Familie oder Kritik der kritischen Kritik (A sagrada família, ou crítica da crítica crítica) esquadrinhando criticamente a filosofia alemã de sua época e principalmente a obra de Bruno Bauer. E retornou a esse gênero em Misère de la philosophie (Miséria da filosofia), uma avaliação implacável da obra de Joseph Proudhon Système des contradictions économiques ou Philosophie de la misere (Sistema de contradições econômicas ou Filosofia da miséria). Tais obras caracterizavam-se por um propósito negativo previamente anunciado. Foi contra Bauer e Proudhon que Marx escreveu. Seu distanciamento era o resultado de seu antagonismo.

Essa atitude crítica-negativa nem sempre foi assumida pelos escrutinadores. Sabe-se que muitas vezes o distanciamento e a desconfiança não passam de um programa, uma meta, um desejo. Mas frequentemente não são, senão, uma farsa. Um fingido distanciamento e uma simulada desconfiança são as máscaras às quais ao avaliador recorre para ocultar seus desejos, suas preferências, seus preconceitos, seu partido. O fato da enquete do pensamento político-social assumir uma forma similar àquela das ciências naturais torna a farsa mais fácil de ser executada e seu resultado mais plausível. O distanciamento transfigura-se, assim, em exterioridade e a desconfiança em repulsa; uma exterioridade e uma repulsa que se apresentam como o resultado de um empenho autodefinido como

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científico e não como algo que sempre esteve pressuposto.

A atitude assumida no conjunto de textos que compõem este livro não é a do escrutinador e sim a do comentador. Um comentário não tem as mesmas preocupações da avaliação. Não está interessado em analisar a consistência lógica de uma obra ou submetê-la a testes. Nem gasta seu tempo em validá-la ou invalidá-la. E sequer tem a obrigação de emitir juízos de fato ou de valor. O comentário parte do pressuposto de que a obra em questão já passou por tudo isso e sobreviveu às provas às quais foi submetida. O que se encontra diante dos olhos de um comentador é uma obra que resistiu ao tempo e que, por isso, não precisa mais ser avaliada ou submetida a um escrutínio crítico-negativo. O comentário, diz Benjamin, “difere da avaliação na medida em que se preocupa apenas com a beleza e o conteúdo positivo do texto.” (Benjamin, 2005, v. 4, p. 215). A atenção à “beleza e ao conteúdo positivo do texto” não extingue o caráter crítico do comentário. Comentar um texto não implica em uma atitude condescendente com ele ou com seu autor. Também não elimina as exigências de rigor e sobriedade próprias de uma atitude crítica. O comentário distingue-se fundamentalmente da avaliação na medida em que parte de um prejulgamento a respeito da relevância da obra e do autor em questão. Que horror! Uma prenoção! Pior ainda, um preconceito! Não é justamente disso o que um cientista, nos ensinou Durkheim, deveria se afastar? Mas quantas vezes o próprio Durkheim não expressou seus preconceitos para com o marxismo e o socialismo? É esta a diferença: o comentador não necessita tomar partido e sim reconhecer previamente o valor daquilo que assume como objeto, mas ele pode tomar partido. O comentador é um crítico sem culpas.

O próprio Benjamin nos deu um exemplo de comentário: aquele no qual tratando da obra poética de Bertold Brecht apresenta o conceito – Kommentare zu Gedichten von Brecht. Seu ponto de partida foi o reconhecimento do caráter clássico dos poemas de Brecht. A situação desse comentário era para Benjamin

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altamente “dialética”, uma vez que se tratava de tomar nas mãos uma coleção atual de poemas (há pouco publicados) e dar-lhe o tratamento de um texto clássico. Quem lê com desconfiança as críticas dos suplementos culturais da imprensa quotidiana que repetidamente anunciam um “novo clássico” para esquecê-lo na semana seguinte sabe quão arriscada foi a aposta de Benjamin. Mas sua aposta se confirmou: Brecht ainda hoje é lido e não deixará de sê-lo.

O fato de considerar os poemas de Brecht clássicos e de empenhar-se em mostrar sua “beleza e o conteúdo positivo do texto” não impediram Benjamin de criticar asperamente o poeta. A lírica de Brecht era contemporânea e desafiava as autoridades existentes e era isso que atraía o crítico. Ela também tinha um conteúdo político que se expressava poeticamente e era isso o que fazia o crítico tomar seu partido. Isso não impedia a Benjamin de perceber os limites dessa poesia e, particularmente, que condenasse a atitude do poeta perante o stalinismo e sua polícia política, a GPU (cf. p. ex. Benjamin, 2005, v. 4, p. 159). É essa modalidade de crítica anunciada por Benjamin que se quer aqui seguir.

Agora a noção de arqueomarxismo. Para alguns a palavra deve imediatamente trazer à mente algo muito antigo ou há muito deixado para trás. Para outros a lembrança dos exercícios de arqueologia dos saberes de Michel Foucault podem vir à memória. O que pretendo destacar com esse conceito não é nem uma nem outra coisa. O prefixo arqueo- deriva da palavra grega arkhé (ἀρχή) que quer dizer o princípio, o início do mundo, aquilo que começa e o que constantemente determina a marcha. O princípio, o início do marxismo deve ser evidentemente a obra de Karl Marx, mas não pode ser ele próprio, o qual, segundo narrou seu amigo Friedrich Engels, teria dito a Paul Lafargue que não era marxista: “Ce qu’il y a de certain c’est que moi, je ne suis pas Marxiste” (MECW, v. 46, p. 356).

Os marxistas vieram depois de Marx. Trabalharam a partir das pistas deixadas por suas obras, consolidaram ideias nelas

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presentes, abriram novos continentes para a pesquisa e a prática política. O marxismo, como movimento teórico e político necessitou, em seu próprio princípio, da intervenção de intelectuais e militantes socialistas que lhe deram forma e o converteram em uma força material, determinando desse modo sua própria evolução. As ideias desses homens e mulheres é o que se denomina de arqueomarxismo.

Vê-se como é insuficiente a recorrente exigência do retorno a Marx. Pois não há sentido em voltar a ele mais uma vez sem levar em conta as conquistas intelectuais e políticas que tiveram lugar após sua morte. A roda não precisa ser reinventada. Grandes inovações teóricas foram aí promovidas sobre um número variado de objetos. Particularmente no âmbito da crítica da política e da economia política o arqueomarxismo fez contribuições decisivas. Vladimir Lenin, Leon Trotsky, Rosa Luxemburg, Nicolai Bukharin e Antonio Gramsci formularam ideias importantes nessas áreas do conhecimento. Mas também foram relevantes as inovações registradas no âmbito da filosofia, particularmente por Karl Korsh e György Lukács, e da estética e da historiografia, pela obra de Walter Benjamin. Essas inovações permanecem até agora um marco. Hoje se pode afirmar um conhecimento mais aprofundado da obra de Marx. Alguns contemporâneos contribuíram até mesmo de modo decisivo para o desenvolvimento de pontos importantes da teoria econômica, social e política do marxismo. Mas quantos continuarão a ser lidos dentro de cinquenta anos ou mais, como os arqueomarxistas têm sido?

Os autores que são comentados neste livro foram muitas vezes identificados com um “marxismo clássico”. Com a noção de arqueomarxismo pretendo também afastar-me de um conceito de “clássico” que não consegue se livrar de uma carga fortemente conservadora, nem do compromisso com a ordem e a tradição.2 O compromisso dos autores comentados neste livro é, entretanto, outro: é um compromisso com a revolução social. Quando Lenin em Que fazer? afirmou que sem teoria revolucionária não

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existiria movimento revolucionário não estava se referindo exclusivamente a uma teoria para a revolução. Era o suficientemente cônscio do caráter inovador de seu empreendimento para não reconhecer o conteúdo transgressor de sua teoria.

A força do pensamento arqueomarxista está justamente em seu caráter transgressor. Lenin desafiou os pais do marxismo russo com sua teoria do partido; Trotsky estarreceu seus contemporâneos quando afirmou que era possível dar saltos no tempo histórico; Gramsci horrorizou a todos com sua batalha contra o economicismo; Benjamin espantou seus amigos quando decidiu explodir o continuum do tempo. O compromisso com a r e v o l u ç ã o i m p l i c a v a q u e s u a s p r ó p r i a s i d e i a s e r a m revolucionárias e subversoras de uma ordem teórica. Elas era anticlássicas. Toda tentativa de elevar esse pensamento à condição de clássico correspondeu a uma operação com vistas de retirar-lhes todo caráter de transgressão.

Quantas vezes, sisudos e bem comportados acadêmicos não anunciaram que Marx era um clássico, assim como Hegel e Nietzsche, Weber e Durkheim, Adam Smith e David Ricardo. Ao lado de tal ilustre companhia o barbudo de Trier poderia frequentar as aulas de filosofia, sociologia e economia das universidades como uma relíquia do passado, um exemplo de como se pensava antigamente. De fato, nas histórias canônicas dessas disciplinas lá está um bem comportado Marx, imobilizado ao lado de outros tantos, sem poder agitar os braços ao falar como soia fazer, sem poder pensar como de seu feitio, sem provocar como costumava. E quantas vezes o pensamento marxista não teve o mesmo destino, quantas vezes não foi citado para ser enquadrado e imobilizado ao lado de outros imortais do passado.

O que caracteriza o arqueomarxismo, entretanto, não é sua imortalidade, sua antiguidade ou o fato de ser ultrapassado e sim, justamente, o fato deste não pertencer exclusivamente ao pretérito, de não ter sido superado, de ter muito a nos dizer,

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de tratar de modo inovador e instigante problemas que são ainda os problemas do mundo contemporâneo. O lugar de uma relíquia é no passado ou em um presente artificialmente construído com vistas a simular o pretérito. O lugar do arqueomarxismo é no presente. Ele só faz sentido na medida em que puder continuamente provocar.

Referências bibliográficas

BENJAMIN, Walter. Selected writings. Cambridge, MA: Belknap, 2005, 4v.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Collected works. Nova York: International Publisher, 1976ss. (Citado como MECW).

A

financeirização

da

burocracia sindical no Brasil

Alvaro Bianchi e Ruy Braga

Desde a eleição de Lula da Silva, em 2002, a relação do sindicalismo brasileiro com o aparelho de Estado modificou-se radicalmente. Nunca é demais rememorar alguns fatos. Em primeiro lugar, a administração de Lula da Silva preencheu aproximadamente metade dos cargos superiores de direção e assessoramento – cerca de 1.300 vagas, no total – com sindicalistas que passaram a controlar um orçamento anual superior a R$ 200 bilhões. Além disso, posições estratégicas relativas aos fundos de pensão das empresas estatais foram ocupadas por dirigentes sindicais. Vários destes assumiram cargos de grande prestígio em companhias estatais – como, por exemplo, a Petrobrás e Furnas Centrais Elétricas –, além de integrarem o conselho administrativo do BNDES. O governo Lula

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promoveu, ainda, uma reforma sindical que oficializou as centrais sindicais brasileiras, aumentando o imposto sindical e transferindo anualmente cerca de R$ 100 milhões para estas organizações.

Tudo somado, o sindicalismo brasileiro elevou-se à condição de um ator estratégico no tocante ao investimento capitalista no p a í s . E s t a f u n ç ã o , n ã o t o t a l m e n t e i n é d i t a , m a s substancialmente distinta daquela encontrada no período anterior, estimulou Francisco de Oliveira a apresentar, ainda no início do primeiro governo de Lula da Silva, sua hipótese acerca do surgimento de uma “nova classe” social baseada na articulação da camada mais elevada de administradores de fundos de previdência complementar com a elite da burocracia sindical participante dos conselhos de administração desses mesmos fundos.

Na opinião de Oliveira, a aproximação entre “técnicos e economistas doublés de banqueiros” e “trabalhadores transformados em operadores de fundos de previdência” serviria para explicar as convergências programáticas entre o PT e o PSDB e compreender, em última instância, o aparente paradoxo de um início de mandato petista que, nitidamente subssumido ao domínio do capital financeiro, conservou o essencial da política econômica estruturada pelos tucanos em torno do regime de metas de inflação, do câmbio flutuante e do superávit primário nas contas públicas.[1]

Ao mesmo tempo em que Oliveira avançava a tese da “nova classe”, apresentamos a hipótese de que o vínculo orgânico “transformista” da alta burocracia sindical com os fundos de pensão poderia não ser suficiente para gerar uma “nova classe”, mas seguramente pavimentaria o caminho sem volta do “novo sindicalismo” na direção do regime de acumulação financeiro globalizado. Apostávamos que essa via liquidaria completamente qualquer possibilidade de retomada da defesa, por parte desta burocracia, dos interesses históricos das classes subalternas brasileiras. Chamamos esse processo de

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“financeirização da burocracia sindical”.[2]

Assim como várias análises críticas do governo do Partido dos Trabalhadores o problema da hipótese da “nova classe” era explicar como se chegou até esse ponto. Não foram poucos os analistas que acreditaram que a Carta ao Povo Brasileiro, na qual Lula da Silva garantia a segurança dos operadores financeiros, teria modificado de modo radical o curso seguido até então pelo PT e seu candidato. A tese de uma transformação abrupta e imprevista só poderia encontrar apoio na ingenuidade do analista ou na sua incapacidade de enxergar as óbvias mudanças que se processavam nesse partido. A hipótese da “financeirização da burocracia sindical” enfrentava esse problema e localizava sua origem em uma burocracia sindical presente no partido desde seus primeiros passos no ABC p a u l i s t a e q u e a o l o n g o d o s a n o s 1 9 9 0 a s s o c i o u - s e gradativamente ao capital financeiro. A trajetória do PT só surpreendeu quem não quis ver ou ouvir.

A história recente da burocracia do Sindicato dos Bancários de São Paulo é exemplar. Como muitas entidades filiadas à CUT, a dos bancários de São Paulo alinhou-se com a administração Lula da Silva, transformando-se em porta-voz do governo na categoria. Em todas as situações nas quais os trabalhadores enfrentaram o governo, a diretoria dessa entidade procurou colocar-se na condição de amortecedor do conflito social, papel desempenhado pelos tradicionais pelegos sindicais. No jornal e nas revistas do Sindicato a propaganda do governo dá o tom.[3] O “Sindicato cidadão” deu lugar ao “Sindicato chapa-branca”.

Este não é, entretanto, um caso de simples adesismo. É possível dizer que a cúpula dos bancários de São Paulo foi o principal meio de ligação da aliança afiançada por Lula da Silva entre a burocracia sindical petista e o capital financeiro. Na verdade, como previmos, o cimento desse pacto foram os setores da burocracia sindical que se transformaram em gestores dos fundos de pensão e dos fundos salariais. O

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Sindicato dos Bancários de São Paulo forneceu os quadros políticos para essa operação. Enquanto os sindicalistas egressos das fileiras dos metalúrgicos do ABC ocupavam-se da política trabalhista e Luiz Marinho tomava assento no Ministério do Trabalho, os bancários de São Paulo voavam em direção ao mercado financeiro.

Pontos importantes de nosso argumento foram corroborados pela pesquisa de Maria Chaves Jardim que revelou a existência do que chamou de “elite sindical de fundos de pensão”. Os principais expoentes dessa elite seriam Luiz Gushiken, Ricardo Berzoini e Adacir Reis. Segundo a pesquisadora, “os membros dessa ’elite’ são oriundos do setor bancário de São Paulo, e fazem parte do núcleo formulador das políticas do PT; passaram pela FGV/SP, são de origem social de classe média, do sexo masculino, considerados brancos e heterossexuais.”[4] A esta lista seria possível acrescentar o nome dos ex-sindicalistas Sérgio Rosa e Gilmar Carneiro, este último também egresso da FGV.

As pretensões dessa “nova elite” eram antigas. Gilmar Carneiro, presidente do sindicato entre 1988 e 1994, declarou quando ainda era diretor do Sindicato dos Bancários, que ao fim de seu mandato poderia ser diretor do Banco do Estado do Rio de Janeiro do qual havia sido funcionário. Seu sonho não foi realizado, mas, logo a seguir, Carneiro transformou-se em diretor de um dos braços financeiros do Sindicato, a Cooperativa de Crédito dos Bancários de São Paulo. Seu predecessor Luiz Gushiken, presidente de 1985 a 1987, foi mais longe. No começo dos anos 2000, Gushiken mantinha a empresa Gushiken & Associados, juntamente com Wanderley José de Freitas e Augusto Tadeu Ferrari. Com a vitória de Lula da Silva a companhia mudou de nome e passou a se chamar Globalprev Consultores Associados. O ex-bancário retirou-se da empresa e coincidentemente esta passou, logo a seguir, a fazer lucrativos contratos com os fundos de pensão.[5] Tornou-se, assim, eminência parda dos fundos de pensão estatais sendo

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decisivo para a indicação do comando do fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, a Previ, da Petrobras, a Petros, e da Caixa Econômica Federal, a Funcef.

O sucessor de Gushiken e Carneiro, Ricardo Berzoini, tem também sólidos laços com o sistema financeiro. Foi ele o promotor da reforma da previdência, que além de retirar direitos dos trabalhadores abriu o caminho para instituição da previdência complementar. Os fundos de pensão estatais e privados foram os grandes beneficiados por essa medida. Berzoini tem sido recompensado. Levantamento feito pelo jornal

Folha de S. Paulo em 2009 constatou que 43 diretores de fundos

de pensão tem vínculos com partidos políticos, a maioria deles com o PT. Desses diretores 56% fizeram doações financeiras a candidatos nas últimas quatro eleições e o então presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini, recebeu quase um terço delas.[6]

A conversão de dirigentes sindicais em gestores financeiros tem um caso exemplar: Sérgio Rosa. Este gestor começou sua carreira como funcionário do Banco do Brasil, integrando a diretoria do Sindicato dos Bancários de São Paulo na gestão de Luiz Gushiken. Em 1999, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, Rosa assumiu um cargo de diretor da Previ, representando os funcionários do banco. Com a posse de Lula da Silva, passou à posição de presidente da Previ, comandando o maior fundo de pensão da América Latina e o 25º do mundo em patrimônio. Após o final de seu mandato assumiu o comando da Brasilprev, a empresa de previdência aberta do Banco do Brasil. Em janeiro de 2011, aos 50 anos, Rosa aderiu ao “programa de desligamento de executivos” do BB e se aposentou.[7]

A financeirização da burocracia sindical é um processo que divide fundamentalmente a classe trabalhadora e enfraquece a defesa de seus interesses históricos. Na condição de gestores dos fundos de pensão, o compromisso principal deste grupo é com a liquidez e a rentabilidade de seus ativos. Muitos têm

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argumentado que os fundos teriam um papel importante na seleção de investimentos ecologicamente sustentáveis e geradores de empregos. Pura enganação.

Os fundos de pensão brasileiros têm atuado como uma linha estratégica do processo de fusões e aquisições de empresas no país e, consequentemente, estão financiando o processo de oligopolização econômica com efeitos sobre a intensificação dos ritmos de trabalho, o enfraquecimento do poder de negociação dos trabalhadores e o enxugamento dos setores administrativos. Isso sem mencionar sua crescente participação em projetos de infraestrutura, como a usina de Belo Monte, uma das principais fontes de preocupação dos ambientalistas brasileiros.[8]

Tendo em vista a natureza semiperiférica de sua estrutura econômica, o Brasil apresenta importantes dificuldades relativas ao investimento de capital. A taxa de poupança privada é historicamente baixa e a solução para o investimento depende fundamentalmente do Estado. Os fundos de pensão atuam nesta linha, buscando equacionar a relativa carência de capital para investimentos. O curioso é que, no período atual, a poupança do trabalhador, administrada por burocratas sindicais oriundos do novo sindicalismo, está sendo usada para financiar o aumento da exploração do trabalho e da degradação ambiental.

Notas:

[1] Francisco de Oliveira. Critica a razão dualista: o ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p 147.

[2] Alvaro Bianchi; Ruy Ruy. Brazil: The Lula Government and Financial Globalization. Social Forces, Chapel Hill, v. 83, n.4, p. 1745-1762, 2005.

[3] O site do Sindicato dos Bancários de São Paulo parece uma peça de campanha eleitoral. Em 2011 podia se ler nele: “A estabilidade econômica, com crescimento médio de 3,6% da

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economia a cada ano desde 2002 e a criação, no mesmo período, de 10,8 milhões de novos postos de trabalho no mercado formal, reforçaram o poder dos trabalhadores e deram base para a política de valorização do salário mínimo e da correção da tabela do IR, entre outros avanços importantes garantidos durante os oito anos do governo Lula.”

[4] Maria Chaves Jardim. “Nova” elite no Brasil? Sindicalistas e ex-sindicalistas no mercado financeiro. Sociedade e Estado. Brasília, v. 24, n. 2, 2009.

[5] Ronaldo França. Ação entre amigos. Veja, n. 1912, 6 jul. 2005 e Fundos de pensão contratam antigos sócios de Gushiken. Folha de S. Paulo, 3 jul. 2005, Primeiro Caderno, p. 12. Há indícios de que a influência de Gushiken não diminuiu após sua saída do governo. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo: da “lista dos dez maiores fundos de pensão de estatais brasileiras, seis estão sob comando do PT e a maioria deles ainda é dirigida por apadrinhados dos ex-ministros petistas José Dirceu e Luiz Gushiken, que deixaram o governo há quase quatro anos, em meio ao escândalo do mensalão.” (Dirceu e Gushiken ainda dão as cartas nos fundos. O Estado de S. Paulo, 4 mar. 2009.)

[6] Ranier Bragon. PT tem diretores em 7 dos 10 maiores fundos. Folha de S. Paulo, 8 mar. 2009.

[7] Um relato minucioso da trajetória de Rosa pode ser lido em Consuelo Dieguez. Sérgio Rosa e o mundo dos fundos. Revista Piauí, São Paulo, n. 35 agosto de 2009.

[8] Aliás, o silêncio da CUT a respeito das greves operárias nas obras do PAC, especialmente em Jirau, sem mencionar sua completa inação após o anúncio da empresa Camargo Corrêa de demitir 4.000 trabalhadores, poucas horas depois de um acordo coletivo com a mesma empresa ter sido celebrado pela central, obviamente não são produtos de sua súbita inexperiência à mesa de negociação. Muito ao contrário: a iminência de grandes

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eventos como a Copa do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas do Rio, em 2016, aumenta exponencialmente a demanda por investimentos em infraestrutura que dependem fundamentalmente do capital estatal e dos fundos salariais. Desde que não hajam atrasos nas obras, o que implica, naturalmente, a “pacificação” dos canteiros e a supressão de movimentos grevistas, trata-se de l u c r o l í q u i d o e c e r t o p a r a a b u r o c r a c i a s i n d i c a l financeirizada. Ainda que às custas da crescente degradação das condições de trabalho nos canteiros de obras.

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