APELAÇÃO SEM REVISÃO Nº 455.776-0/3 – SUMARÉ Apelante: Instituto Nacional do Seguro Social
Apelado: José Caetano Aredes
DOENÇA PROFISSIONAL OU DO TRABALHO. ESQUIZOFRENIA. Comprovados o nexo etiológico e a redução ou perda total da capacidade para o trabalho, o Segurado deve receber o benefício de prestação continuada, que no caso é a aposentadoria por invalidez acidentária.
APOSENTADORIA POR INVALIDEZ. ACRÉSCIMO DE 25%.
Obreiro que necessita no dia-a-dia de auxílio para higienizar-se, fazer a barba, alimentar-se e para a prática de outras necessidades de sobrevivência. Deferimento.
Voto nº 3.050
Visto.
JOSÉ CAETANO AREDES ingressou com Ação de Prestações por Acidente do Trabalho contra o INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL, qualificação e caracteres das partes nos autos, alegando que devido as condições agressivas do ambiente de trabalho tornou-se portador da doença mental classificada como 300.4 + 298.0 do CID.
Encartado o laudo firmado pelo Perito Judicial e vencida a instrução, houve entrega da prestação jurisdicional, sendo o INSS condenando aos pagamentos da aposentadoria por invalidez com acréscimo de 25%, pecúlio, abono anual, juros e correção monetária, além das custas e dos honorários de Advogado de 20% sobre o valor
das prestações vencidas e mais um ano das vincendas, e do Perito igual a 4,81 UFESP, devidos ao IMESC.
O INSS recorreu. Persegue a reforma da decisão enfatizando que o “... nexo causal entre o infortúnio e a atividade laboral é uma presunção (...). Disso decorre, que a prova pericial é contrária à concessão do benefício ...” (Folhas 192/193). Questiona também o valor dos
honorários de Advogado, subsidiando-se na Súmula 111, do Egrégio Superior Tribunal de Justiça.
O Recorrido não apresentou contra-razões.
A PROMOTORIA DE JUSTIÇA deixou de manifestar-se com base no Ato 32/94 – PGJ-CGMP, de 15/9/94, mas a PROCURADORIA DE JUSTIÇA requereu novo exame pericial e concluiu pela improcedência da ação.
Satisfeita a diligência e atendidas as formalidades, retornaram os autos, manifestando-se a Procuradoria de Justiça pela reforma parcial da sentença, apenas para redução dos honorários de Advogado.
É o relatório, adotado no mais o da r. sentença.
A perícia concluiu tratar-se de Segurado portador de
“Transtorno Psicótico Devido a uma Condição Médica Geral” ou F06.2 Com Delírios/ F06.0 Com Alucinações) conforme codificado na CID10.(Folha 284).
As características essenciais do Transtorno Psicótico devido a uma Condição Médica Geral são alucinações ou delírios proeminentes, que decorrem, presumivelmente, dos efeitos fisiológicos diretos de uma condição médica geral.
As alucinações podem ocorrer em qualquer modalidade sensorial (visual, olfativa, gustativa, tátil ou auditiva). Alguns fatores etiológicos provocam fenômenos alucinatórios específicos.
As alucinações podem variar de simples e não-estruturadas até as altamente complexas e organizadas, dependendo dos fatores etiológicos, do ambiente, da natureza e do foco da agressão ao sistema nervoso central, e da resposta reativa ao prejuízo. Os delírios podem expressar variedades de temas, incluindo os somáticos, os grandiosos e os religiosos e, com freqüência maior, os persecutórios.
Concluiu o Experto Oficial:
“Pela observação durante o exame, confrontando pelos relatos e o colhimento das peças dos autos, conclui-se que o periciando apresente distúrbio mental que se instalou em personalidade pré-mórbida (provavelmente não teria manifestado ou tal ocorreria na senectude, já como produção de esclerose cerebral ou Mal de Alzheimer) a doença, caso não se expusesse a estímulos deletérios, como inalação de substãncias tóxicas, altos níveis de ruído, bem como o fator choque cultural, havido por proceder de pequena cidade do interior de Minas), acarretando incapacidade funcional total e definitiva. ...”(Folha 286).
O Parecer Psicológico tem a seguinte Discussão:
“Segundo a análise do processo e a entrevista psicológica, o examinando apresenta-se com intenso embotamento afetivo.
Evidencia distúrbios produtivos (delírios, alucinações) bem como atitude persecutória.
Observa-se que o quadro clínico apresentado, não é compatível à distúrbio conflitivo emocional, portanto, descarta-se a hipótese de neurose ocupacional.
O quadro clínico é compatível com esquizofrenia paranóide, porém com início muito tardio, 38 anos.
Portanto, concluimos que o diagnóstico diferencial deve ser feito com psicose orgânica tumor?, encefalite? ou até intoxicação? -para o qual sugerimos avaliação neurológica, com exames específicos (tomografia, ressonância magnética). ...”(Folha 289).
Vê-se, então, que o Segurado, portador de esquizofrenia paranóide, necessita no dia-a-dia de auxílio para higienizar-se, fazer a barba, alimentar-se e para a prática de outras necessidades de sobrevivência.
Esquizofrenia é a psicose em que o doente perde o contato com a realidade e vive num mundo imaginário que para si próprio criou. Substitui a antiga denominação de demência precoce.
Para ser reconhecida como doença do trabalho é necessário que as provas, em especial a pericial, mostrem o nexo causal e, naturalmente, não a possibilidade de se verificar. As condições excepcionais de trabalho podem se manifestar como fator agravante da doença ou, mesmo em doente instável ou tendencioso a moléstias psíquicas, podem transformar esses indivíduos em desequilibrados.
A patologia da esquizofrenia tem numerosos aspectos. Pode decorrer de ação conjunta de causas parciais e somáticas, sobre a base de uma constituição herdada, podendo a doença eclodir-se ou agravar-se em razão do trabalho que for executado. Como causas parciais incluem-se razões familiar e social, estudo do caráter e da personalidade e o seu desenvolvimento diferenciado nos diversos indivíduos.
personalidade. O esquizofrênico tem linguagem e comportamento confusos, cheios de frases e atos que não têm quaisquer sentidos. É incapaz de concentrar-se em determinada idéia ou em um fio de idéias. É o esquizofrênico hábil para gritar repentinamente não bebo, quando nenhuma bebida está lhe sendo oferecida. É daqueles que pode passar o dia enxugando o ambiente com um rolo imaginário.
Paranóia é a psicose caracterizada pelo conceito exagerado de si mesmo e idéias de perseguição, reivindicação e grandeza, que progressivamente se desenvolvem e sem alucinações.
Apresenta comportamento inteiramente ilógico, pois sofre delírios de grandeza, de perseguição ou de erotismo. Apresenta sintomas clássicos de loucura, ouve vozes que não existem e vê pessoas que não estão perto dele.
O paranóico tem delírios fortes. Pode achar que é Napoleão ou outra pessoa histórica e, então, pessoa importante. Pode ser retraído e violento. Quando violento ataca com ímpeto homicida qualquer pessoa estranha.
Em ergasiotiquerologia1 é sempre bom ter em conta que cada caso deve ser apreciado em suas circunstâncias particulares, de sorte que o objetivo é aferir a incapacidade para o trabalho, em razão do acidente ou da doença, porque a lei agasalha a teoria da concausa, prescindindo do nexo causal direto e exclusivo entre o dano e o trabalho para a configuração do acidente ou da doença profissional ou do trabalho.
Pode-se definir concausa como sendo o elemento que concorre com outro, formando o nexo entre a ação e o resultado, entre o acidente e/ou doença profissional ou do trabalho e o trabalho
exercído pelo empregado.
O nexo etiológico está definido pela vistoria realizada no local de trabalho, não obstante a cautela do Perito Judicial ao desejar nova análise clínica médica, haja vista a sua afirmativa:
“Após realizar a Perícia, e buscar outras informações pertinentes aos fatos, posso concluir que o Requerente, Sr. José Caetano Afredes, durante o período em que desenvolveu suas atividades na empresa Electrocast Ind. Com. Ltda., labutou em ambiente insalubre, estando exposto a agentes químicos tóxicos, e alto nível de ruído ...”(Folha 320).
Comprovados o nexo etiológico e a redução ou perda total da capacidade para o trabalho, o Segurado deve receber o benefício de prestação continuada, que no caso é a aposentadoria por invalidez acidentária, acrescida de 25% em razão da necessidade de constante auxílio de terceiro.
“A constatação de moléstia neuro-psiquiátrica de etiologia de sinistro com evolução à esquizofrenia paranóica leva ao reconhecimento da incapacidade total e permanente, autorizadora da concessão da aposentadoria2”.
“A circunstância de a esquizofrenia portar etiologia múltipla não autoriza abandonar contribuição do ambiente agressivo, no sentido da exacerbação do quadro psicótico, a ponto de conduzir o obreiro à incapacidade e de, conseqüentemente, propiciar reconhecimento do nexo causal3”.
O Autor (Apelado) tem dois Advogados constituídos
(Folha 06): Marilene Oliveira Zanelli, que não praticou nenhum ato no
processo, e Abel Gonçalves Neto, que limitou-se a distribuir a ação em 30.06.89 (Folha 02), e protocolar petição pedindo a designação de
vem por acaso', 'acidental' + -log(o)- + -ia.]. S.f. Infortunística. 2 - JTA (RT) 130/272.
audiência em 19.02.90 (Folha 69). Depois, a única manifestação do Autor
através de Advogado foi na audiência, em 27.07.93 (Folha 150). À ela
compareceu o Advogado Valtair Cunha que, por não providenciar a juntada do respectivo substabelecimento, teve o único ato praticado decretado inexistente(Folha 158).
Por isso, tem razão o INSS quando sustenta que os honorários de Advogado “... foram aplicados de forma exagerada e ilegal ...” (Folha 193). O processo só progrediu por impulso oficial e/ou
requerimentos do Requerido (Apelante) e do Ministério Público. A verba, suficiente para remunerar os atos praticados pelos Patronos, fica reduzida para 2% (sem correção) sobre as parcelas vencidas até a sentença.
Determina-se a remessa de cópias de folhas 02/06, 60 vº, 61, 65, 65 vº, 66, 69, 130, 130 vº, 150, 150 vº, 156, 158, 158 vº, 183, 185, 186/189, 191, 194 vº, 313, 313 vº, 340, 552 e 552 vº, e deste Acórdão, à Ordem dos Advogados do Brasil para as providências que entender cabíveis, diante do que dispõe o art. 34, inc. XI, da Lei nº 8.906/94.
Em face ao exposto, dá-se parcial provimento ao recurso apenas para adaptar os honorários de Advogado.
IRINEU PEDROTTI Relator