DIREITOS HUMANOS,
NEOLIBERALISMO
E RELIGIÃO*
Jung Mo Sung**
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* Recebido em: 13.11.2019. Aprovado em: 18.11.2019.
** Doutor em Teologia. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião (UMESP). E-mail: [email protected]
Resumo: Há uma mudança fundamental na sociedade contemporânea em relação aos
direitos humanos: a noção de direitos fundamentais de todos os seres humanos deixou de ser um pressuposto da civilização moderna e passou a ser luta polí-tica entre os seus defensores e os que negam a existência desses direitos, espe-cialmente os direitos sociais. Nesse contexto, o objetivo desse artigo é propor algumas reflexões sobre os fundamentos teológico-religiosos da discussão dos direitos humanos e a política neoliberal. Para isso, o texto está divido em três partes: a) o fim do consenso em torno dos Direitos Humanos; b) a concepção neoliberal da não existência, ou a ilusão dos DHs; c) o Papa Francisco e a no-ção de direitos sagrados.
Palavras-chave: Direitos Humanos. Direitos Sociais. Neoliberalismo. Papa Francisco.
Teologia e Economia.
E
m março de 2018, a vereadora carioca Marielle Franco (PSOL), uma líder na defesa dos negros, dos homossexuais, das mulheres e dos moradores de comuni-dades carentes, foi assassinada com treze balas que atingiram o carro, juntamen-te com o seu motorista. A morjuntamen-te deles foi objeto de muita discussão e se tornou parte das campanhas eleitorais e do debate político de 2018. Uns exigindo a pu-nição dos assassinos, outros criticando-a por ser uma defensora dos “bandidos” e defender os direitos humanos.Já há muitos anos se popularizou a ideia de que “bandido bom é bandido morto”, am-plificada por meio de programas policiais na televisão e nos rádios. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Fórum Brasil de Segurança Pública (FBSP), a pedido do Datafolha e divulgada por meios de comunicação em 2016, a maioria dos brasileiros (57%) concorda com a afirmação de que “bandido bom é bandido morto”. O índice de concordância sobe para 62% em municípios com menos de 50 mil habitantes. Porém, há algo novo, que se tornou mais patente na última eleição: os defensores dos direitos humanos, que antes eram acusados de defenderem mais os bandidos do que os “bons cidadãos”, passa-ram a ser vistos como inimigos da sociedade por não só defenderem os “ban-didos”, mas os “negros, homossexuais e os pobres moradores de comunidades carentes”.
É claro que a maioria da população não assume claramente que os negros, homossexu-ais e pobres são todos bandidos, mas essa pesquisa e a eleição mostram que há uma divisão na sociedade em como lidar com os chamados direitos humanos. Essa divisão não ocorre só no Brasil, mas também em quase todas as partes do mundo, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.
Simplificando, podemos dizer que o mundo se divide em dois grupos: os que defendem que os direitos humanos – explicitados na Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) proclamado pelo ONU em 1948 – são de valor fundamen-tal para a civilização humana e os que defendem que a DUDH, em especial os chamados direitos sociais, são inimigos da civilização e do progresso.
Em outras palavras, o tema dos direitos humanos se tornou um dos temas centrais da discussão política e social no mundo de hoje. Por isso, o objetivo da minha apresentação neste Congresso é propor algumas reflexões sobre os funda-mentos teológico-religiosos da discussão dos direitos humanos e a política neoliberal. Para isso, vou dividir o texto em três partes: a) o fim do consenso em torno dos Direitos Humanos (DHs); b) a concepção neoliberal da não existência, ou a ilusão dos DHs; c) o Papa Francisco e a noção de direitos sagrados.
O FIM DO CONSENSO EM TORNO DOS DIREITOS HUMANOS
Antes de continuarmos a reflexão, eu quero deixar claro a minha posição teórica e po-lítica: acredito e defendo a dignidade fundamental de todas as pessoas e, por isso, a validade e a necessidade dos direitos humanos. Ao mesmo tempo, as-sim como muitos, eu também defendo a importância do pluralismo cultural e religioso. O que significa que esse pluralismo implica também reconhecer que não há mais verdades absolutas aceitas por todos sobre os direitos humanos universais de todas as pessoas.
O reconhecimento do pluralismo cultural e religioso como algo positivo na evolução da civilização humana nos leva ao desafio de reconhecer também o direito daque-les que não aceitam a noção moderna de direitos humanos, ou a noção cristã de que Deus, na criação, deu a todos os seres humanos os direitos fundamentais. Pelo menos, é preciso reconhecer que, com a crise e a crítica da razão moderna Ocidental levadas ao extremo pela razão pós-moderna, os pilares dos funda-mentos racionais ou religiosos dos direitos humanos estão rompidos.
Entre os que defendem a noção dos direitos humanos de todas as pessoas, é comum en-contramos uma concepção essencialista do ser humano e seus direitos. Como diz Manfredo de Oliveira (2010, p. 213):
Enquanto pessoa, o ser humano é portador de direitos inalienáveis, que são vinculados essencialmente à essência da pessoa e, enquanto tais, devem ser con-siderados como naturais, isto é, enquanto exigência da essência concreta do ser humano em sua sociedade.
Não importa se essa noção de direitos naturais é ou era fundada na visão cristã de Deus criador ou da filosofia moderna, o mais importante é que esse argumento foi considerado por muitos como irrefutável. O que mais se discutia era que, na medida em que o ser humano é essencialmente um ser histórico, haveria ne-cessidade de criar ou reconhecer os novos direitos a serem sempre efetivados. Porém, com a crítica da razão moderna, em especial o carácter cultural de toda noção de “essência humana” e, portanto, dos seus direitos e deveres, ressaltado pelo pensamento pós-moderno, não se pôde mais pressupor o fundamento abso-luto dos direitos humanos. É interessante notar que muitos dos pensadores e militantes sociais que assumiram a crítica da razão moderna como sendo uma razão eurocêntrica patriarcal – como por exemplo, os pós-modernos de es-querda, as feministas, os pós-coloniais e os descolonais – tinham e têm como objetivo ampliar e aprofundar os direitos humanos. Porém, com a perda da noção de essência humana ou da natureza humana, perdeu-se também o cará-ter natural dos direitos humanos. Ora, se não se pode justificar racionalmente os fundamentos dos direitos humanos, tendo assumido o carácter histórico e cultural de todas civilizações, também da DUDH da ONU ou de qualquer declaração ou constituição. Com isso, surgiu a necessidade de justificá-los ou defendê-los.
Norberto Bobbio (1992, p. 24) percebeu claramente, no final do século XX, que
[...] o problema fundamental em relação aos direitos do homem, hoje, não é tanto o de justificá-los, mas o de protegê-los. Trata-se de um problema não filo-sófico, mas político.
É inegável que existe uma crise dos fundamentos. Deve-se reconhecê-la, mas não tentar superá-la buscando outro fundamento absoluto para servir como substituto para o que se perdeu. Nossa tarefa, hoje, é muito mais modesta, em-bora também mais difícil.
Ele reconhece um ‘paradoxo’: não se pode fundamentar racionalmente a DUDH – já que a noção de natureza ou de Deus não são mais suficientes –, mas, ao mesmo tempo, essa declaração é necessária para manter e/ou promover a civilização humana livre e democrática. Como manter e ampliar os direitos humanos para todas as pessoas e povos ao mesmo tempo em que se reconhece que não é possível fundamentá-los racionalmente? A solução possível seria a criação ou fortalecimento de um consenso geral.
Em outras palavras, o desafio hoje seria proteger os direitos humanos por meio de au-mentar o consenso amplo e geral. Daí a importância da educação dos direitos humanos e crescimento da cultura de direitos humanos em todo o mundo, incluindo aqui o papel das religiões.
Vale a pena neste momento analisarmos uma afirmação de Bobbio (1992, p. 24): “De-ve-se recordar que o mais forte argumento adotado pelos reacionários de todos os países contra os direitos do homem, particularmente contra os direitos so-ciais, não é a sua falta de fundamento, mas a sua inexequibilidade”.
Em primeiro lugar, Bobbio aponta que os “reacionários de todos os países contra os direitos humanos” tinham perdido a luta cultural e não tinham argumentos políticos e/ou racionais para negar os direitos humanos. Diante disso, o argu-mento principal era a inexequibilidade da garantia dos direitos humanos, em especial contra os direitos sociais. Isso não significa que eles tenham perdido definitivamente a luta cultural contra os direitos humanos. E a história recente mostra que eles conseguiram ou estão tentando reverter a situação.
Em segundo lugar, é importante distinguirmos aqui as categorias de direitos humanos que fazem parte da DUDH. Sem entramos em muitos detalhes, podemos dis-tinguir três tipos de direitos: direitos civis, direitos políticos e direitos sociais. O primeiro é dos direitos civis, um direito de tipo negativo, que protege as pessoas diante da usurpação e da violência do Estado, como a sua liberdade, sua vida, sua propriedade; é o direito de não ser torturado, não ser preso sem o devido processo jurídico, etc. O segundo é um direito positivo que garante a participação política e nos processos de formação da vontade política. A de-mocracia política seria o sistema político-social que garante esses direitos uni-versais. O terceiro é de direitos sociais, um tipo de direito positivo que garante a cada pessoa uma parte equitativa na distribuição dos bens materiais neces-sários a uma vida digna. A expressão social desses direitos seria a democracia social (não confundir aqui com a noção de partido político, a
socialdemocra-cia). De uma forma geral, todos os países modernos aceitam os direitos civis e políticos, excluindo as situações de exceção – como guerras ou ditaduras. Como afirma Bobbio, o que se destaca contra os direitos sociais “não é a sua falta de fundamento, mas a sua inexequibilidade”.
Frente às demandas dos direitos sociais para todas as pessoas e todos os povos, incluin-do os países incluin-do Terceiro Munincluin-do, o argumento contra esses direitos era o da inexequibilidade e não da sua inexistência. É claro que havia alguns grupos que negavam radicalmente a existência desses direitos, mas politicamente tais grupos não eram significativos.
O argumento da não factibilidade da realização desses direitos para todos foi contra-posto pelos defensores dos direitos sociais universais por meio do mito do progresso ou do mito do desenvolvimento social. Isto é, o desenvolvimento econômico produzido pelo capitalismo mundial, ou pelo comunismo, levaria todos os povos a realizar desses direitos sociais para todos. Na verdade, os dois lados tinham razão e também o erro. Os dois lados estavam de acordo com a ideia de que o desenvolvimento econômico levaria a um aumento cons-tante do nível de consumo e de bem-estar social. Os “pessimistas” perceberam que não haveria recursos materiais e os orçamentos possíveis para permitir a todas as pessoas um aumento constante no consumo. Por isso, reconheciam teoricamente os direitos sociais de todos, mas negavam a alguns setores esses direitos em nome da não-factibilidade.
Por outro lado, os defensores do direito universal dos direitos sociais se dividiram em duas partes. A parte dominante continuou o caminho do mito do desenvolvi-mento econômico capitalista e do avanço tecnológico contínuo. O outro gru-po continuou o caminho dos direitos universais, mas criticou a identificação do desenvolvimento quantitativo econômico com o aumento da qualidade de vida. Em nome dos direitos sociais de todas as pessoas, defenderam a redução do consumo material dos países ricos. Com isso, o tema da ecologia passou a fazer parte da luta político-social e de direitos humanos no mundo.
Essa luta em torno de um novo consenso frente aos direitos humanos – a luta entre os defensores do mito do desenvolvimento e os do mito da Mãe-Terra, ou Gaia – não teve um resultado final. Surge no cenário mundial um novo ator social com um discurso radical: o neoliberalismo.
O NEOLIBERALISMO E A NÃO EXISTÊNCIA DOS DIREITOS SOCIAIS
Ao mesmo tempo em que Norberto Bobbio e outros alertavam para a importância da luta cultural em favor dos direitos humanos, Margareth Thatcher surgiu no cenário global como primeira ministra do Reino Unido em 1979, e como uma das novas estrelas a brilhar no novo cenário econômico-político-cultural após
o fim da paridade entre dólar e ouro (1971) e a crise do petróleo. Em uma en-trevista dada ao jornal Sunday Times, em 1981, Thatcher disse:
O que me tem irritado no direcionamento da política nos últimos 30 anos é que sempre tem sido em direção à sociedade coletivista. Pessoas esqueceram da so-ciedade de indivíduos. [...] não é que eu tenha estabelecido políticas econômicas, é que eu estabeleci, na verdade, uma mudança na abordagem, e a mudança na economia é um meio de mudar essa abordagem. Se você muda a abordagem, você, na verdade, está querendo mudar o coração e a alma da nação. ‘Economia é o método; o objetivo é mudar o coração e a alma’ (THATCHER, 1981, grifo meu). No que se refere ao nosso tema, Thatcher deixa claro que o objetivo dela não é simples-mente participar da luta sobre a factibilidade ou não dos direitos sociais, mas sim mudar completamente o rumo da discussão ou mudar as regras do jogo. Como diz claramente, o que ela deseja modificar é a direção da sociedade, da coletiva para a “sociedade de indivíduos”, isto é, da sociedade fundada em direitos sociais para uma sociedade fundada somente em direitos individuais. Ela tem clareza que para isso não basta mudar a racionalidade e o método de uma economia, é preciso “mudar o coração e a alma da nação”, e do mundo. Em outras palavras, Thatcher e os defensores do projeto neoliberal de uma nova
civili-zação querem mudar completamente a situação que analisamos na seção ante-rior sobre os fundamentos e as defesas em favor do consenso sobre os direitos humanos, em especial os direitos sociais. Eles querem uma nova racionalida-de, nova sensibilidade social (ou de insensibilidade social) e nova concepção de ser humano.
Não é possível nesse momento aprofundar o tema da passagem do mito do desenvolvimento econômico das décadas de 1950 a 1980 – do paradigma keynesiano – para o mito teológico do “mercado livre” – do paradigma haykiano – (SUNG, 2018), mas vale a pena apontar que a outorga, em 1974, de prêmio Nobel de economia a Frederick von Hayek, considerado o “papa” do neoliberalismo, dá à economia neoliberal o caráter científico importante nas lutas político-econômicas e nas lutas culturais por um novo consenso social. Entretanto, os pressupostos fundamentais antropológico-teológicos do discurso
neo-liberal contra os direitos humanos estão presentes no pensamento de Ludwig von Mises, que foi mentor e professor de Hayek, e que hoje são divulgados por meio de inúmeros centros espalhados pelo mundo.
Para Mises, todos os que defendem os direitos sociais, e por isso lutam contra o capita-lismo, compartilham de uma ilusão: “A pior de todas essas ilusões (delusion) é a ideia de que a ‘natureza’ conferiu a cada indivíduo certos direitos [...] só pelo fato de terem nascido” (MISES, 2008, p. 80). Em outras palavras, para
os neoliberais, o conceito de direitos humanos, especialmente os direitos so-ciais, não existem. É ilusão. Todas as noções de direitos humanos ligados ao conceito de “essência humana” seriam simplesmente invenções sem sentido. Em uma linguagem simplificada e muito usada nas redes sociais de hoje, seria apenas uma “invenção do marxismo cultural”.
Toda a argumentação feita por defensores dos direitos humanos se funda em concepção de natureza humana, ou da essência humana, que teria dentro de si esses direi-tos fundamentais. Ela pressupõe a possibilidade de saber, pelo caminho da razão ou por meio de iluminação espiritual ou revelação, as características da natureza humana e deduzir esses direitos. Por exemplo, o direito de todos à comida existe porque é a condição necessária para a realização do seu direi-to de estar vivo. Dentro do paradigma da razão moderna, ninguém discutia a possibilidade humana de conhecer racionalmente a sua natureza. O debate era em torno de que tipo de teoria racional daria conta de explica-la, desenvolver os seus potenciais e indicar qual seria o caminho mais eficiente e correto para realizar a “vocação humana”.
Mises desloca a discussão do campo da razão para o campo da “ilusão”. Ele faz essa referência à Freud (1978, p. 108), que no seu clássico texto “O futuro de uma ilusão” discute a religião como ilusão:
O que é característico das ilusões é o fato de derivarem de desejos humanos. [...] Podemos [...] chamar uma crença de ilusão quando uma realização de de-sejo constitui fator proeminente em sua motivação e, assim procedendo, despre-zamos suas relações com a realidade, tal como a própria ilusão não dá valor à verificação.
Em outras palavras, a ilusão, – mito religioso ou mito do desenvolvimento – é uma crença firme e fixa não passível de argumentação racional ou de ser empirica-mente comprovada. Por isso, precisa ser criticada e destruída para acabar com esse mal. Não há como solucionar esse problema por meio do diálogo e da argumentação racional, pois aqueles que são dominados por essa ilusão – in-cluindo o Conselho Mundial de Igrejas, que ele cita explicitamente – não são capazes de diferenciar a realidade do “sonho” ou da utopia.
O problema do argumento de Mises, e de todos os neoliberais, é que esse pressuposto de que não há na natureza humana nenhum direito humano também não é cien-tífico. Isto é, também não é possível comprovar a não existência de direitos humanos na evolução da natureza humana. Isso porque a noção de ciência do mundo moderno e, também pós-moderno, está reduzido ao campo da razão instrumental que estuda a relação entre um fim e os meios para atingí-lo. Mes-mo na perspectiva da filosofia da ciência de Karl Popper, autor assumido por
Hayek, uma teoria pode ser assumida como científica se oferece a possibilida-de possibilida-de refutação, e se refutada, ser rejeitada.
O que Mises faz é usar um argumento pseudocientífico para sua luta cultural-política contra os defensores dos direitos humanos, em especial os direitos sociais. Estou repetindo a expressão, “direitos humanos, em especial os direitos so-ciais”, para destacar que os neoliberais, pelo menos teoricamente, não têm problema contra os chamados direitos civis e políticos. Pois esses não levam necessariamente à intervenção do Estado no “livre mercado”. O problema é o tal dos direitos dos pobres. Os direitos civis das mulheres, dos negros e dos LGTB consumidores são defendidos pelo Estado neoliberal. Não porque eles acreditam nos direitos humanos deles, afinal eles não acreditam na noção de direitos fundamentais da sua natureza humana, mas sim porque eles são portadores de direitos de consumidores, direitos nascidos dos contratos do mercado.
Os setores conservadores e autoritários da sociedade, que estão se aliando com o setor neoliberal, é que se colocam contra os direitos humanos, em especial os direitos civis ligados à sexualidade, relações de gênero e família. Essa aliança neoliberal-conservadora entre os defensores do mercado livre, – isto é, livre das intervenções do Estado e da sociedade civil diante do mercado neoliberal, – e os defensores da família tradicional patriarcal se dá contra os chamados “comunistas”, todos os que defendem os direitos sociais e o Estado de Bem-Estar Social e as vítimas de relações sociais opressivas.
Nessa luta, os principais inimigos da humanidade são os pobres. Como disse Z. Bau-man (1998, p. 52):
Todo tipo de ordem social produz determinadas fantasias dos perigos que lhe ameaçam a identidade. Cada sociedade, porém, gera fantasias elaboradas se-gundo sua própria medida – sese-gundo a medida do tipo de ordem social que se esforça em ser. [...] A sociedade insegura da sobrevivência de sua ordem desen-volve mentalidade de uma fortaleza sitiada. Mas os inimigos que lhe sitiaram os muros são os seus próprios ‘demônios interiores’.
E os demônios interiores da sociedade de consumo e dos seus membros são os medos de serem excluídos do jogo, de se tornarem os consumidores falhos. Por isso,
Cada vez mais, ser pobre é encarado como um crime; empobrecer, como produto de predisposições ou intenções criminosas – abusos de álcool, jogos de azar, drogas, vadiagem e vagabundagem. Os pobres, longe de fazer jus a cuidado e assistência, merecem ódio e condenação – como a própria encarnação do peca-do (BAUMAN, 1998, p. 59).
Como vimos no início, mais da metade da população brasileira aceita que “bandido bom é bandido morto”; e cada vez mais, pobre é visto como um bandido ou como pecador, em potência ou ato. Logo, um bandido passível de ser morto. Em consequência, os defensores dos direitos humanos – frente à violência policial bruta e à violência social da pobreza e exclusão social – são também criminosos.
Essas questões nos mostram que estamos em um mundo bem diferente do que vimos em tempos recentes. Antes da vitória do neoliberalismo, no final do século XX, e da conversão neoliberal do coração e alma do mundo, a maioria das pessoas e dos grupos sociais acreditava que todos, por terem sido criados por Deus ou por causa de sua natureza humana, tinham direitos fundamentais à vida, à liberdade e à felicidade. Hoje, não mais. Vivemos em tempos de inver-são ética e de valores sociais.
Entre várias consequências sociais e éticas com a negação dos direitos humanos fun-damentais de todas as pessoas e povos, eu quero chamar atenção neste artigo para a inversão do conceito de “justiça social” em injustiça para com os ricos. Na medida em que não há a noção de leis da natureza, de imperativo ético ou de justiça divina que conceda a todas as pessoas o direito de acesso aos bens materiais necessários para uma vida digna, também não há critério para a dis-tribuição justa de bens materiais na sociedade e, portanto, para as políticas sociais em defesa dos pobres. Com isso, todos os programas sociais – desde os de Estado de Bem-Estar Social até os de Estado de assistência social – não passariam de um roubo contra os ricos.
Em resumo, os programas sociais e políticos de retribuição de renda não passam de roubo ou injustiça para com os ricos. Além disso, Hayek sintetiza a inversão da noção de justiça social, ou da injustiça dos valores morais da tradição cristã:
[...] o evangelho da ‘justiça social’ visa sentimentos muito mais sórdidos: a aversão aos que estãoem condições melhores, ou simplesmente a inveja, essa mais antissocial e nociva de todas as paixões. Essa animosidade para com a grande fortuna, que considera um ‘escândalo’ que alguns desfrutem da riqueza enquanto outros têm necessidades básicas insatisfeitas, e esconde sob o nome de justiça o que nada tem a ver com ela (HAYEK, 1985, p. 120).
Essa inversão da noção de justiça é acompanhada também por uma inversão da noção de espiritualidade ou de mística. Como disse Thatcher, não basta a conver-são da economia, é preciso mudar a “alma”. Entre muitas citações sobre essa conversão defendida por pensadores neoliberais, quero citar um economista que foi fundamental na época da ditadura militar no Brasil. O ministro da eco-nomia Roberto Campos (1985, p. 54, grifo meu) escreveu: “A modernização
pressupõe uma mística cruel do desempenho e do culto da eficiência”.
Eles reconhecem que as políticas neoliberais são cruéis, mas creem, têm fé, que o mer-cado exige a maximização da eficiência econômica calculada em termos de lucro. Mas, como a espécie humana tem um instinto natural contra a crueldade para com os seus próximos, eles defendem uma nova mística, a “boa-nova” da mística cruel do mercado livre.
Em resumo, como Thatcher diz com honestidade: “Economia é o método; o objetivo é mudar o coração e a alma”
O PAPA FRANCISCO E OS DIREITOS SAGRADOS
Diante do que apresentamos, fica claro que não basta “provarmos” racionalmente, à moda do iluminismo, a validade dos direitos humanos e deduzir daí as polí-ticas econômicas e sociais necessárias para a “justiça social”. É no campo da luta política, social e cultural que está sendo jogado o futuro do novo consenso social em torno do reconhecimento ou não da dignidade fundamental de todos os seres humanos, que justifica os direitos humanos e as políticas sociais de-correntes.
Nessa luta, em que a razão moderna com os seus argumentos iluministas perdeu força, os fundamentos dos discursos dos grupos em disputa estão baseados no que Hinkelammert chamou de razão mítica: “Os mitos elaboram marcos categoriais de um pensamento frente à contingência do mundo, isto é, frente aos juízos vida/ morte. Não são categorias da racionalidade instrumental que tem como centro o princípio de causalidade e os juízos meio-fim” (HINKELAMMERT, 2008, p. 55). Mais do que isso, ele afirma que “sociedades e seres humanos se autorrefle-xionam por meio de e através de suas formas divinas” (p. 19).
Contrapondo ao mito-teológico neoliberal, proponho algumas reflexões a partir de um discurso do Papa Francisco, que é hoje, com certeza, uma das figuras públicas mais importantes na luta pelos direitos humanos.
No encontro com participantes do Encontro Mundial de Movimentos Populares, em 28 de outubro de 2014, em Roma, o Papa fez uma afirmação sobre os direitos dos pobres que apresenta uma clara oposição ao pensamento neoliberal. Para ele, esse encontro era um grande sinal para a Igreja Católica e o mundo porque eles colocaram “na presença de Deus, da Igreja, dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada. Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela!” Após colocar a perspectiva e o contexto bem concreto da vida dos que lutam e sofrem as injustiças, o Papa afirmou: “o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados” (PAPA FRANCISCO, 2014).
pobres. Em um mundo em que os direitos humanos são considerados por muitos como coisas de criminosos ou do diabo, o Papa vai além da defesa dos direitos humanos civis e políticos das pessoas de “bem” e diz que, por amor pelos pobres, o Evangelho anuncia que “terra, teto e trabalho” são seus direitos sagrados. Essa afirmação de direitos sociais dos pobres como direitos sagrados é realmente estra-nha no mundo de hoje. Por isso é que o próprio Papa (2014) reconhece com ironia: “É estranho, mas, se eu falo disso para alguns, significa que o papa é comunista”. O que significa “direitos sagrados”? Sem entrarmos em discussão sobre o conceito de
“sagrado”, podemos dizer que direitos sagrados são direitos que se opõem a direitos profanos, isto é, esses direitos que fazem parte da vida cotidiana e da estrutura do funcionamento ordinário do sistema social. Os direitos sa-grados seriam aqueles que estão separados da vida “profana”, isto é, direitos extraordinários que estão fora, acima da ordem social cotidiana. Na vida so-cial, há sempre conflitos entre direitos que isoladamente são aceitos por todos, mas podem entrar conflitos em situações particulares. Por exemplo, o direito à propriedade dos comerciantes de só entregar comida em troca de pagamento considerado “justo” e o direito de todos à comer; ou o conflito entre o direito de trabalhar a terra para alimentar a sua família e o direito de propriedade de um latifundiário. Em situações reais e conflitantes, é preciso estabelecer um critério para discernir entre qual direito deve ser defendido e preservado e o qual deve ser relativizado e suspenso. Em última instância, serão os “direitos sagrados” que irão estabelecer a hierarquia dos direitos.
O Papa Francisco, em nome do amor aos pobres no Evangelho e da Doutrina Social da Igreja Católica, diz que é direito sagrado dos pobres ter as condições materiais necessários para a sua vida. Ele defende os direitos humanos dos pobres, isto é, os seus direitos sociais. Mas, como vimos acima, a fundamentação última dos direitos humanos no mundo moderno entrou em crise. Por isso, sem entrar em discussão filosófica sobre a essência ou a natureza do ser humano e os seus direitos, o Papa resgata e revaloriza um argumento teológico que está na ori-gem da concepção moderna dos direitos humanos: o amor de Deus por toda a humanidade, o que inclui o amor aos pobres.
A noção de Deus que ama a humanidade está implicitamente articulada com a sua defesa dos direitos humanos, em especial dos direitos sociais dos pobres. Ele fundamenta os direitos humanos na sua noção de Deus e, ao mesmo tempo, apresenta-o como Deus que ama a todos os seres humanos, sem distinção entre raça, gênero ou classe social. Nesse sentido, não poderia justificar os direitos humanos sem a noção de Deus, ao mesmo tempo, não poderia anunciar ao Deus da tradição bíblica sem a defesa dos direitos humanos, especialmente dos pobres e das vítimas das relações de opressão e dominação.
Mises e outros neoliberais. Em primeiro lugar, porque os neoliberais não re-duzem os seus discursos ao campo da ciência econômicas, mas assumem que querem uma nova civilização, com uma nova cultura centrada em um “novo coração e uma nova alma”. Em segundo lugar, o fato de não aceitarem a noção de direitos humanos não significa que eles não tenham também a sua noção de direitos sagrados. Pois, todos têm a necessidade de um critério absoluto ou sagrado como parte da lógica de todos os sistemas que se organizam e querem reproduzir. A diferença é que para os neoliberais, os direitos sagrados são os do contrato e da propriedade no interior do mercado.
Se para o Papa os direitos humanos nascem de Deus que ama a humanidade e dá a todas as pessoas a dignidade humana e, por isso, a vida humana está acima da lógica do mercado e da acumulação e riqueza; para Mises e outros neoli-berais, os direitos nascem do contrato nas relações do livre mercado e, por isso, os direitos do mercado estão acima da vida dos pobres, que não são consumidores.
É por essa oposição profunda entre duas concepções de vida e do mundo que o Papa Francisco faz a sua crítica teológica à idolatria do dinheiro – a divinização do dinheiro – e, ao mesmo tempo, defende radicalmente os direitos humanos em nome de Deus.
Nessa mesma direção, José Comblin (1985), nos lembra que as civilizações antigas sempre impuseram na prática o direito do mais forte. Do mesmo modo, no nosso tempo, com a retomada do darwinismo social neoliberal, ao vencedor são atribuídos todos os direitos, e ao vencido nada. E se a razão humana mo-derna não logra justificar os direitos humanos, de onde vem ou poderia vir esse direito dos vencidos? A questão nesse conflito entre os direitos dos vencedores e os direitos dos vencidos; o que está em jogo não são os direitos humanos no sentido abstrato e universal. Pois os vencedores defendem os seus direitos sem precisar usar os argumentos dos direitos humanos. Quem precisa dos ar-gumentos dos direitos humanos são os vencidos. Aos vencedores basta negar a existência desses fundamentos.
Frente a esse problema, reconhecendo os limites da razão moderna e das ciências natu-rais do nosso tempo, Comblin (1985, p. 36) propõe um argumento teológico: “Algo mais forte que as leis biológicas, que as leis das nações, algo mais forte que as guerras – só pode ser Deus, Deus é o autor de tal direito e que é tão poucas vezes reconhecido na prática por todos os poderosos do mundo”. Em outras palavras, a noção de direitos humanos e de dignidade humana funda-mental de todas as pessoas não está fundada na biologia, na evolução, na força ou na razão europeia, mas em Deus. E esse direito é revelado por Deus, na tradição bíblica, através do clamor dos pobres.
implícita importante ao clamor dos pobres: “na presença de Deus, da Igreja, dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada. Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela!” A “realidade muitas vezes silencia-da”, mas pela qual os pobres lutam, é a expressão do clamor.
Os pobres clamam, mesmo sem ter a clareza das causas das dores e injustiças que ex-pressam, porque o seu corpo em necessidade clama por sua vida e dignidade. Mas, esse grito sufocado, sua palavra destruída, não é suficiente. É preciso que algo novo aconteça para que a verdade seja descoberta, ou seja revelada, e o caminho da libertação inicie. E, em nossa tradição Ocidental, a noção de Deus tem um lugar fundamental. Surge na história um Deus que ouve o clamor dos escravos. Geralmente, nós partimos do pressuposto de que Deus ouviu o cla-mor do seu povo, mas não levamos a sério o fato de que, antes de ser conside-rado ou nomeado como “povo” de Deus, esse povo era um grupo de escravos, considerados “não-pessoas”.
Isso significa que é o clamor de um grupo de indivíduos escravos, ainda não-pessoas, que não tem direito de ter direitos, o clamor de alguém que ainda não é ouvido por ninguém importante e, portanto, não conta. É Deus, Iahweh, que ao ouvir esse clamor dos escravos constitui, cria esse grupo como povo, o seu povo. É impor-tante notar que no início do diálogo com Moisés, Deus diz “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor por causa dos seus opresso-res” (Ex 3,7); mas, após a promessa da libertação e da nova terra, Deus disse: “Agora, o grito dos israelitas chegou até a mim, e também vejo a opressão com que os egípcios os estão oprimindo” (Ex 3,9). É como se os escravos tivessem despertado Deus para que visse a situação de opressão; como se o clamor dos es-cravos fosse parte fundamental do processo de revelação de Iahweh na história. Nesse sentido, não há como compreender a revelação de Deus na história sem ao
mes-mo tempo compreender a dignidade fundamental de todas as pessoas e seus direitos humanos. Assim como não é possível lutar pelos direitos humanos de modo eficaz no mundo atual sem fazer a crítica dos mitos teológicos neolibe-rais – especialmente a idolatria do dinheiro e do mercado livre – e a construção de novos mitos teológico-humanistas centrados no clamor das vítimas.
O clamor dos pobres e das vítimas de relações opressivas confere dignidade e direitos a todas as pessoas que foram privadas dos seus direitos. Essa é a “boa-nova” que rompe contra a cultura neoliberal-conservadora do nosso tempo.
PALAVRAS FINAIS
Para o Papa Francisco os direitos sociais dos pobres são direitos dados por Deus, para que eles possam viver como seres humanos em condições sociais dignas. Para Mises, Hayek e outros neoliberais, não há direitos humanos, mas somente
direitos de proprietários e consumidores. Pois, para eles, nada de justo pode nascer fora do “mercado livre”.
O nosso mundo globalizado está se dividindo em dois grandes blocos em conflito. O principal conflito do mundo hoje não é entre os religiosos e os ateus, ou en-tre os cristãos e islâmicos, ou mesmo enen-tre os capitalistas e os comunistas (que quase não existem mais), ou entre os defensores da família tradicional e os que aceitam famílias não tradicionais. Mas sim o conflito entre os que defendem ou negam os direitos fundamentais de todos os seres humanos.
Se os argumentos apresentados neste texto têm algum sentido, penso que é em torno da emergência dessa nova civilização neoliberal, com a sua negação dos direitos humanos, que a nossa discussão sobre a religião e a política deve ser priori-zada.
HUMAN RIGTHS, NEOLIBERALISM AND RELIGION
Abstract: There is a fundamental change in contemporary society in relation to human
rights: the notion of fundamental rights of all human beings ceased to be a presupposition of modern civilization and became a political struggle between its defenders and those who deny the existence of these rights, especially social rights. In this context, the purpose of this article is to propose some reflections on the theological-religious foundations of the discussion of human rights and neoliberal politics. For this, the text is divided in three parts: a) the end of the consensus on Human Rights; b) the neoliberal conception of non-existence, or the illusion of human rights; c) Pope Francis and the notion of sacred rights.
Keywords: Human Rights. Social Rights. Neoliberalism. Pope Francisco Theology
and Economics.
Referências
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