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ROCESSO DEE NVELHECIMENTO EM

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Academic year: 2018

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EFLEXÕES

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OBRE O

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ROCESSO DE

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NVELHECIMENTO EM

H

OMOSSEXUAIS

M

ASCULINOS

MESTRADO EM GERONTOLOGIA

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R

EFLEXÕES

S

OBRE O

P

ROCESSO DE

E

NVELHECIMENTO EM

H

OMOSSEXUAIS

M

ASCULINOS

Dissertação apresentada à Banca Exa-minadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Gerontologia, sob a orientação da Profª. Drª. Ruth Gelehrter da Costa Lopes.

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BANCA EXAMINADORA

____________________________________________

____________________________________________

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(5)

Às minhas avós falecidas, Shizuko e Hatsuko, das quais sinto muitas saudades, modelos de esforço, dedicação, segurança, respeito e amor. Aos meus queridos pais, Kazuo e Yoko, ao meu marido Edson, aos meus irmãos Lívio e Alberto, à minha cunhada Maria e aos pequenos sobrinhos Kiki e Jun Jun, os quais, que juntamente com meus tesouros, meus filhos Enzo e a pequena Hannah ( aguardada para breve), me acompanharam com muito amor, trazendo brilho, alegrias, dando força e me incentivando em toda essa trajetória do pensar e na superação de mudanças que permearam estes últimos anos de minha vida.

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• Aos queridos participantes da pesquisa, sem os quais não poderíamos realizá-la, por

terem se disposto tão prontamente, com interesse e carinho, a vivenciar, a pensar e

consentir que suas vidas tão pessoais pudessem fazer parte desta reflexão de

conhecimento e aprendizagem..

• Aos amados pais, Kazuo e Yoko, que sempre estiveram presentes, incentivando,

respeitando, apoiando, trocando saberes, dando afeto e continência em todos os

momentos de minha vida, garantindo que nos sentíssemos confiantes e determinados

a buscar nossos objetivos e realizações, sem deixar de reforçar a importância da

humanização. Dupla incrível da minha vida. Obrigada seria insuficiente para lhes

expressar meus sentimentos e meus agradecimentos.

• Ao amado esposo Edson, que tem sido companheiro, amante, amigo e pai

extraordinário. Com amor, paciência, maturidade, experiência, tornou-se, nos vários

momentos de nosso convívio, um incentivo, demonstrando que, com determinação,

somos capazes de realizar nossos planos, além de envolver minha vida com alegria,

segurança e tranqüilidade.

• Aos queridos irmãos Lívio e Alberto, os quais participaram de minha vida em todos

os momentos, dos mais angustiantes aos mais alegres, meu reconhecimento pelas

conversas em que trocamos experiências, algumas vezes até doloridas, mas divididas

e compartilhadas. Por estarem sempre presentes em minha vida, manifesto aqui a

minha satisfação por ter nascido sua irmã. À minha cunhada Maria, que tem sido

cada vez mais companheira e amiga nesta minha caminhada, posso afirmar que é

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de orelha” para não me dispersar, obrigada por entender as mudanças que ocorreram

em minha vida e nunca me negar seu apoio.

• Às queridas professoras, que fizeram parte da banca da qualificação: Regina Célia

Gorodscy, que sempre me incentivou e me inspirou profissional e pessoalmente,

quero lhe agradecer por acreditar em mim e me dar oportunidades, pela imensa

generosidade com que acolhe, compartilha e vivencia cada conquista, fazendo as

pessoas com quem convive sentirem-se capazes; Beltrina Corte, que só conheci

naquela ocasião mas que trouxe, com carinho, idéias, discussões, experiências, e

acolheu meu tema com muita atenção.

• À professora Maria Helena Amaral Muniz de Carvalho, minha revisora, que desde o

início de minhas inquietações tem, com muito amor, compartilhado o meu texto, o

meu tema, a minha vida, e com paciência participou dos momentos mais decisivos

de todo o processo do trabalho.

• Aos queridos filhos, frutos da união com o Edson, que sempre estiveram presentes

em todo o andamento da pesquisa. Enzo, que nasceu no início das leituras, e Hannah,

que nascerá próxima à finalização do mestrado. Pequenos, que mostram a cada dia o

encanto da descoberta e do desenvolvimento humano. E, acima de tudo, o carinho, o

amor. Aos queridos sobrinhos, que também nasceram durante o processo, Kiki e Jun

Jun, que trazem alegria incondicional.

• Às minhas queridas e tão sempre presentes amigas, Sila, Fernanda, Carolina e Nadjane, que com muito saber, amizade, carinho, compreensão, apoio, incentivo,

troca de experiências e vivências, participaram e me fizeram sentir querida e

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O presente estudo pretende analisar e refletir sobre o processo de envelhecimento nos

homossexuais masculinos. Em vista da preocupação no que diz respeito ao aumento

demográfico de idosos, e já percebendo uma busca do governo e da sociedade em relação à

qualidade de vida dessa parcela da população, há um movimento social de estudos e

programas direcionados para essa faixa etária, constituídos de relatos, discussões e leituras

que envolvem a temática. Muitos estudos referem-se a homens e mulheres heterossexuais e

procuram entender os significados e sentimentos do corpo que envelhece, os vínculos

afetivos nesta fase da vida e as expectativas em relação ao envelhecimento. Por outro lado,

convém ressaltar que o envelhecimento pressupõe também, no mundo ocidental, uma

vivência de tabus e preconceitos. Atualmente, os homossexuais, aos poucos, “estão saindo

do armário”, com base em sua coragem ao enfrentar, ao aceitar-se, e pela ousadia em se

assumir perante a sociedade, por meio de manifestos, “paradas”, leis. Exigem o direito à

liberdade e à dignidade, por terem sido por muito tempo discriminados e excluídos.

Compreender seu envelhecimento dentro das diferenças que a identidade sexual traz para a

sua vida, entendendo sua afetividade, a escolha da profissão, é buscar um envelhecimento

melhor. Este estudo é uma pesquisa realizada com 12 sujeitos entre 18 e 46 anos, que se

dispuseram a participar após divulgação e encaminhamento das perguntas e respostas para

pessoas conhecidas, via e-mail. Todos os dados foram colhidos em duas semanas. Por

intermédio dos resultados da pesquisa, procuramos perceber os significados e sentimentos

em relação ao envelhecimento do homossexual masculino, material que propiciará conhecer

o assunto para possíveis interpretações, estudos e trabalhos preventivos futuros.

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This study intends to analyse and reflect the aging process among masculine homossexuals.

Regarding the concern about the demographic increase of aged people, and realizing already

the search from the government and society for quality of life of this group of the population,

there is a social movement of studies and directioned programs for this individuals,

constituted by reports, discussions and literature involving this theme. Many of them refer to

heterossexual men and women and try to understand the meanings and feelings of an aging

body, the affective emotional ties in this phase of life and the expectations about the aging

process. In the other hand, it is important to stress that the aging process also supposes to

cope with taboos and prejudices in the western world. Nowadays one can observe that the

homossexuals are slowly “coming out”, based in their courage, by confronting, by accepting

themselves and by the ousady in assuming such position in the society through manifests,

“parades”, laws, where they demand the right for freedom and dignity, once they have been

for a long time discriminated and excluded. Understanding the aging process within the

differences that the sexual identity brings to their lives, undestanding the affectivity, the

choices of profession, is to search a better aging. This study is a research made with twelve

males among eighteen and fourty-six years old, that agreeded to take part of after a

divulgation of the questions and answers to well-known people, via e-mail. Data were

collected within two weeks. Through the results of this research, one tried to realize the

meanings and feelings in relation to aging process of homossexual men, a material that will

propitiate to know about the subject for possible interpretations, studies and preventive

works in the future.

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Introdução ... 11

Capítulo 1 A Homossexualidade na História ... 15

1.1. Homossexualismo ... 42

1.2. Antropologia e relações familiares ... 44

1.3. Orientação sexual ... 49

1.4. Novas redes familiares ... 51

1.5. Da descoberta à velhice ... 54

1.6. Mitos e crenças em relação aos homossexuais ... 57

1.7. O corpo desejante, a sedução ... 60

1.8. O preconceito ... 64

1.9. Privilégios heterossexuais, direitos pela orientação sexual ... 65

Capítulo 2 O Envelhecimento ... 69

Capítulo 3 Metodologia de Pesquisa ... 83

3.1. Fontes de pesquisa ... 84

(11)

4.1. Identificação dos participantes ... 91

4.2. Dados relativos às respostas subjetivas em relação ao envelhecimento ... 95

4.3. A análise do material ... 99

Considerações Finais ... 115

Referências Bibliográficas ... 123

(12)

T

rabalhar com questões que envolvem o envelhecimento fez parte de minha vida desde cedo. Algumas vezes me surpreendia questionando esse assunto e indagações me vinham à mente, porém, logo a resposta se evidenciava e me parecia muito clara. O que me conduziu foi a simplicidade da magia, do poder estar vivo, aliada também à educação, aos valores e, principalmente, à influência da cultura japonesa da qual descendo como a terceira geração.

O esforço e a dedicação também foram valores fortalecidos pela origem imigrante. O convívio desde pequena com minhas avós traze à minha memória alegria e gratidão e só posso me sentir honrada por tê-las conhecido. Das diversas conversas que tive com minha avó materna uma causou-me estranheza. Perguntou-me: Será que vou viver para poder ver o seu casamento? Eu tinha dez anos. Não compreendia exatamente a intensidade do questionamento. Sentia que a temporalidade era diferente, mas tínhamos tanto em comum que achava que continuaríamos assim por muito e muito tempo. Não passava em minha mente que poderia não tê-la presente nos meus momentos mais importantes da vida. A convivência com adultos fazia com que compreendesse o sentido do que falavam, diferenciando-me de outras crianças.

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Lembro-me de que em alguns momentos havia muito preconceito entre as crianças, em decorrência da cor da pele, tipo físico ou mesmo pelos comportamentos. Indagava por que tal distinção. Analisando as questões, fui construindo amizades com uma parcela dos excluídos, com quem convivo até os dias atuais.

A oportunidade de ter cursado Artes Plásticas e Psicologia me propiciou conhecer mais o humano. A minha formação educacional e o interesse pessoal sempre estiveram ligados às questões do ser humano, e as escolhas profissionais me levaram ao convívio com homossexuais. Para mim, nunca foi mera curiosidade, mas tornou-se um compartilhar do mundo dos excluídos. Fui conhecendo essa comunidade por meio de pessoas íntimas e me familiarizando com o meio de alguns homossexuais masculinos por contato em ambientes noturnos e tentando apreender o olhar que têm sobre a vida.

Na monografia de conclusão do curso em Psicologia, procurei estudar três gerações de mulheres, das quais a primeira geração é aquela com a qual mais me identifico, talvez por ter convivido bastante com a minha avó materna. Terminado o curso, a oportunidade da especialização por meio do concurso público foi riquíssima.

Entrar em contato com as questões relativas ao envelhecimento e com as possíveis transformações proporcionadas por essa fase da vida levou-me a procurar recursos para lidar com este momento de angústias, de dúvidas, mas, acima de tudo, de reflexões.

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Todos os questionamentos referentes ao envelhecimento sempre estiveram presentes em minha trajetória, ao lado das indagações a respeito da homosse- xualidade, pelo motivo já exposto. O interesse pela pesquisa da relação entre a homossexualidade e o envelhecimento surgiu da vivência e escuta de momentos de vida e situações que tenho presenciado entre eles.

Convém lembrar que o indivíduo, na fase do envelhecimento, passa por um

processo na qual as estruturas psíquicas se constituem no início da vida e o acompanham durante toda a existência. Assim, envelhecemos como a experiência de cada um de nós é vivenciada e elaborada anteriormente. Acontecimentos atuais são integrados às experiências anteriores, o que dá um sentido único a cada vivência. As práticas homossexuais existem em toda parte e desde sempre. Mas, até que a sexologia lhe colocasse um rótulo, a homossexualidade era apenas uma parte difusa do sentimento de identidade.

Em virtude de o envelhecimento e a homossexualidade serem dois temas presentes, mas tão invisíveis, e serem para a pesquisadora de extrema importância, tive a oportunidade de uni-los e pesquisar o assunto no mestrado em Gerontologia.

Os textos estudados nas disciplinas do mestrado se referiam ao enve- lhecimento em geral e tratavam mulheres e homens em uma determinação heterossexual. Por isso, suscitaram várias dúvidas, que nos conduziram, por meio do estudo da homossexualidade e do envelhecimento, a fazer uma escuta do que realmente pode se observar, na vivência destes homossexuais masculinos. Refletir sobre sua identidade sexual e o seu envelhecimento muitas vezes pode ser sofrido, mas, ao mesmo tempo, determinar e colocar o não-dito em palavras pode ser um instrumento de grande valia, como transformação.

Neste estudo pretendo, por meio da fala dos homossexuais masculinos entrevistados, refletir sobre o seu processo de envelhecimento. O estudo comporta os seguintes capítulos:

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novas redes familiares, da descoberta à velhice, mitos e crenças em relação aos homossexuais, o corpo desejante, o preconceito e os privilégios heterossexuais, e direitos pela orientação sexual.

CAPÍTULO 2 – O ENVELHECIMENTO – O envelhecimento sob o ponto de vista de alguns autores, o envelhecer e a história, o envelhecimento do corpo, o envelhecer atualmente.

CAPÍTULO 3 – METODOLOGIA DE PESQUISA – Fonte de pesquisa, instrumento de coleta de dados, pesquisa qualitativa.

CAPÍTULO 4 – DADOS COLETADOS – Identificação dos sujeitos do

estudo, dados relativos às respostas subjetivas em relação ao envelhecimento e análise do material.

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A

H

OMOSSEXUALIDADE NA

H

ISTÓRIA

H

istoricamente os homossexuais sempre existiram, e a homossexualidade, conforme a época, a cultura e os valores sociais, é considerada desde algo sagrado até tenebroso. Como exemplo, pode-se constatar por meio de pesquisas históricas que, em épocas de autoritarismo ou em regimes ditatoriais, a homossexualidade foi malvista, enquanto nos sistemas liberais e democráticos foi mais bem aceita.

Colin Spencer afirma, em seu prefácio, sobre a atividade homossexual:

A atividade homossexual através da história pode ser dividida em cinco

categorias. A primeira são as relações em que há uma grande diferença de

idade, entre um homem e um menino ou uma mulher e uma menina.

Também representa uma espécie de iniciação ou proteção, um rito de

passagem para o jovem na sua jornada em direção ao mundo adulto. Na

segunda, temos as relações em que ocorre uma inversão de roupas, com

um poderoso elemento travestismo, até uma mudança completa nos

papéis sociais. O terceiro caso envolve um casal com idade e posição

social iguais. O quarto, um casal desigual que rompe as barreiras de raça.

Os dois últimos tipos têm alguma coisa a ver com o aspecto protetor ou

de iniciação do primeiro exemplo. (1996:13)

(17)

[..]

... a homossexualidade não deveria ser explicada, ela apenas existe. O que precisa ser investigado é a opinião que as várias sociedades sempre tiveram sobre ela.

Os animais agem sob impulso sexual, ou seja, pelo egoísmo, que assegura a espécie; alguns machos se reproduzem, enquanto outros, que não foram escolhidos, podem nem se reproduzir. A fêmea no cio procura o macho. Mas fora destes momentos observa-se que os machos agem de forma homossexual, exibicionista e masturbatória, pois são dispensados. A sexualidade é influenciada , conforme Colin Spencer, pela tradição, cultura, economia, propriedade da terra, número de mulheres em idade de procriar, princípios éticos, identificação social e semiótica, a estrutura político-cultural de uma sociedade. Já na pré-história sabe-se que conforme os machos constroem os mitos de sua criação acabam por determinar, localizar as mulheres no meio, reconhecendo até onde é aceito o comportamento homossexual.

Todos os mitos tinham como propósito a ascensão e o reconhecimento do poder dos machos. Isso, então, dizia respeito ao macho adulto o seu sêmen, seu cérebro e sua medula espinhal, com significados de coragem, força e habilidades guerreiras eram consumidos como forma de transmissão. Adquirir as qualidades era dar continuidade à espécie.

Por causa da analogia entre sangue e esperma, é provável que o ritual dos Kikuyo, da África, tenha função similar, o sangue e o esperma como fontes simbólicas. Os mais velhos da tribo asseguram o papel de “machos nutridores”. Em ambos os rituais, subentende-se que, sugando o leite da mãe, o menino se feminiliza, e bebendo os líquidos masculinos ele se viriliza.

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exercidas as mais fortes pressões sociais sobre os meninos, para que eles se conformem com seu papel.

O rito das flautas permite a transferência para os celibatários da ligação que os meninos tinham com as mães. Nesse sistema fantasioso faz-se associação entre a experiência do seio da mãe e a experiência no pênis do iniciador. A flauta é considerada um meio de defesa contra a angústia da perda materna.

No Egito, o código ético permitia o incesto irmão e irmã, mas pais e filhos não eram aceitos. O sexo era considerado necessário algo vital para a vida, como se alimentar a relação anal passiva de um homem mais velho era considerada perda da masculinidade.

Um dos mais antigos relatos da Antigüidade em relação à homossexualidade é a ficção Epopéia de Guilgamesh, de 2000 a.C., na Babilônia. O rei de Uruc, Guilgamesh, se apaixona por Enkidu, constituindo-se, entre os dois homens viris um relacionamento, considerado prova de virilidade e honrado pelos deuses. Enkidu fora apresentado ao soberano por uma prostituta, com a intenção de que as orgias no templo tivessem um fim. Não imaginava o rei o quanto o amava, ao tomá-lo por companheiro. Por ocasião da morte de Enkidu, Guilgamesh chorou aos deuses sua dor e, desolado, estendeu um véu de noiva sobre o corpo inerte. Conforme descrito por Amílcar Torrão Filho:

Ouvi-me, grandes de Uruc,

Choro por Enkidu, meu amigo,

Amargamente me lamentando, como mulher enlutada

Choro por meu irmão

Ó Enkidu, meu irmão,

Foste o machado a meu lado,

A força de minha mão, a espada em meu cinturão

[...]

E os moços, teus irmãos,

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Vão, cabelos longos, chorando.

O que é esse sono que te possui agora?

Estás perdido no escuro e não podes ouvir-me.

(2000:19)

Conforme o mesmo autor (apud Hardman), as leis hititas, herdeiras do Código de Hamurabi, não apresentavam proibição ao comportamento homossexual: “se um escravo paga o preço do dote a um jovem livre e leva-o para viver em sua casa como marido, ninguém poderá resgatá-lo”. A questão sexual era secundária perante a garantia de direitos patrimoniais e de status entre homens livres e escravos. (2000:22)

Na Antigüidade, entre os mais ricos, o casamento se fundamentava nos interesses políticos e econômicos entre as famílias como forma de manter o patrimônio e dar-lhes continuidade. Para os pobres, refletia a sobrevivência, pois era uma pessoa a mais para trabalhar. Essas faces mostram claramente as relações homossexuais, pois as heterossexuais eram negócios e continuidade, a partir da procriação.

Podemos exemplificar ainda, citando os gregos, amantes da beleza, que tomavam os deuses como modelos masculinos sensuais; idolatravam as esculturas que representavam atletas, homens fortes, com músculos delineados. A mulher, por sua vez, devia ter aparência de uma boa parideira e era considerada inferior. O jovem era um menino, um aprendiz, e o amante velho um mestre, o modelo. A relação entre os dois se revestia de um ritual sagrado. Portanto, buscavam o amor no semelhante.

O termo pederastia se originou nessa época, significando a relação de um homem mais velho com um mais novo, ou mesmo entre homens da mesma idade que mantinham relações duradouras e estáveis.

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Em Creta, a prostituição masculina era praticada e tinha o estatuto de poder. Os que não tinham amante, aquele que não foi objeto de desejo e sedução de outro, carregava consigo o sentimento de vergonha. Com o consentimento da família, e da estrutura social, o menino era escolhido por um adulto e levado às florestas e montanhas, onde aprendia a caçar, a sobreviver. Era também o início da vida adulta por meio através do amor recebido por este adulto a partir da iniciação sexual pela penetração anal.

O primeiro casal homossexual da Grécia de que se tem notícia data de 409 a.C., ocasião em que o rei tebano Laio, pai de Édipo, teria raptado o jovem Crísipo. Em contrapartida, Jocasta, infeliz por causa do episódio, casa-se com o assassino de Laio, o próprio filho Édipo.

Do mesmo modo, o mito de Zeus, que teve sua origem na cidade cretense, mostra a pederastia e a homossexualidade. Ganimedes, encantado por um jovem, se transforma em águia e o rapta, levando-o ao Olimpo para viver como copeiro dos Deuses. Como os prostitutos da terra, o copeiro que servia à mesa dos Deuses também poderia servi-los de outra forma.

Outro deus mencionado com vida homossexual é Hércules, dono de força física e espírito cívico. Apesar de ter tido várias mulheres, também homens foram amantes, demonstrando-lhes fidelidade.

Apolo, deus da beleza e da juventude, teve várias relações com seus amantes, sendo o espartano Jacinto o mais lembrado. Após sua morte, instituíram-se os jogos espartanos e a festa chamada Jacinta.

Sobre a relação da política e a homossexualidade, Amílcar descreve:

A Grécia antiga é conhecida por nós hoje em dia não só por suas estátuas

nuas e templos com longas colunas, pela instituição da democracia, o

governo do demos, ou do povo, como pelo chamado amor grego, ou amor

(21)

e feminina. O que poucos sabem é o quanto estes dois aspectos da

história da antigüidade grega estão intimamente relacionados.

(2000:33)

Ao falarmos em democracia grega, temos de nos lembrar de Sólon, quem codificou as leis de Atenas, trazendo aquele regime à civilização. Dedicou-se ao comércio e era um reconhecido poeta, que louvava o amor aos jovens (640-558 a.C.), parte da estrutura social. O mestre ensinava aos amados como lidar com a sociedade e a governar a vida, não deixando que o prazer a superasse ou nela interferisse. Considerava o amor homossexual superior ao amor heterossexual. Platão, por Colin Spencer ( 1996:45) resume a posição das mulheres em suas Leis no discurso contra Nearea: “ Temos cortesãs para nosso prazer, concubinas para o serviço pessoal diário e esposas para nos dar filhos e cuidar fielmente de nossa casa.” Reforça que o amor dos rapazes é um meio de adquirir sabedoria.

Eis o que nos relata em um dos poemas:

Aquele que tem muito ouro e dinheiro, campos muito vastos, cavalos,

mulas, não é mais rico que aquele que tem justamente tudo o que lhe é

preciso para ser bem nutrido, bem calçado e bem vestido, que é amado

por alguns jovens rapazes ou algumas jovens mulheres, e que está ainda

na idade de entregar-se aos prazeres de sua sociedade; eis aí a verdadeira

riqueza, os outros bens são supérfluos, ninguém lhes resiste nos Infernos,

e com presentes ninguém fica preservado da morte, nem das doenças nem

da velhice (Amílcar, p. 34)

O governo tirano das cidades gregas foi descrito por Plutarco (46 ou 49-125?d.C.) como o motivo dos movimentos homossexuais. Casais de homossexuais, por não aceitarem o poder altivo, se mobilizavam em busca de um regime mais democrático. Eram aceitos e bem vistos pelo povo grego. Os amantes que viviam juntos, no século IV a.C., quando faleciam, eram enterrados juntos.

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Meu Bátilo! O bem que estamos

Nesta sombra deleitosa!

Como esta árvore é viçosa!

Como alastra os flóreos ramos,

Que aura embala a suspirar!

Ouve a fonte, que murmura

Não distante deste abrigo!

Com tal céu, com tal verdura

Com tal paz, com tal amigo,

Quanto é doce o repousar!

(Tradução de Antonio Feliciano de Castilho)

Em Creta e para os gregos, a homossexualidade não só era aceita, mas enobrecedora socialmente. Regulava a natalidade, pois os legisladores separavam os homens das mulheres, estimulando que os homens ficassem juntos até nos momentos de refeição, tendo para servi-los apenas homens. O costume foi chamado de Andréia. Nesta época, os mais desejados não eram os meninos mais belos, mas os mais talentosos e inteligentes. Colin Spencer (1996: 71) acrescenta que, se o homem queria afeição, respeito e fidelidade, então escolhia uma esposa. Mas se desejava paixão sexual, angústia e ardor romântico, escolhia um jovem, prática aceitável socialmente.

As refeições, instauradas por Sólon, também foram encontradas em Esparta, sob o legislador Licurgo (século IX a.C.), chamadas de sissitia (do grego sissitia,

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Exemplo de um militar que se dedicou ao amor homossexual e se destacou é o macedônio, Alexandre o Grande (356-323 a.C.). Amou seu braço direito Hefestião e o eunuco Bágoas. Conta-se que Alexandre e Hefestião eram unidos por um forte amor e se tornaram amigos inseparáveis. Quando o amante morreu, na campanha da Índia, o poderoso macedônio, desesperado, sofrendo a perda, não comeu e bebeu por três dias.

A pederastia, o amor entre o amado e o amante, entre o mestre e o discípulo, era bem aceita na Grécia Antiga, considerada uma educação, um meio de transmissão e passagem de valores aristocráticos entre gerações.

Alguns autores afirmam que como a estética do belo era valorizada, a chamada ética erótica, os jovens com o corpo mais desenvolvido, eram mais visualizados, se fossem nobres e tivessem nascido livres. Porém, outros mencionam que esta estética não condizia com o movimento sexual dos gregos.

Os romanos não praticavam a pederastia como os gregos. Embora houvesse a prostituição masculina, apresentava-se agora com uma nova conotação: a de poder aceitar dinheiro em troca de favores sexuais, considerados cortesia e não um ato vergonhoso. Mantinham sexo livre entre o sexo masculino e o feminino. Mas, somente se fossem com os homens livres, cidadãos livres, que dariam continuidade aos filhos saudáveis, o importante era o status da pessoa. O homem livre tinha que ser sempre o ativo, o dominador da relação, pois moralmente não se aceitava ser o passivo, principalmente porque a relação era com um ser inferior, ou seja, o escravo. O dominador ativo proporcionava prazer. Nos falos encontrava-se escrito “ Hic

habitat felicitas” (aqui mora a felicidade).

(24)

Os romanos descreviam que as relações, inclusive entre os jovens livres, provocavam o ciúme, motivado pelo “coração partido”, sentir-se abandonado. Mas contrariamente aos gregos, que o expunham de forma elevada e espiritual, os romanos o erotizavam, como se verifica em versos do poeta Catulo (87-54 a.C.):

Eu e meu jovenzinho, Aurélio, nos colocamos

em tuas mãos. Peço-te com pudor um favor:

se alguma vez hás desejado de todo coração

manter algo casto e inocente

conserva o pudor do meu jovenzinho,

não digo de toda a gente; nada temo dos

que no fórum vão de um lado

para outro ocupados em seus assuntos;

a quem temo é a ti e a teu membro

que aponta aos jovens, bons ou maus,

Meta-o por onde e como gostes,

quanto queiras e quando tenhas ocasião;

só excetuo a este, creio, com pudor.

Mas se tua má cabeça ou tua louca paixão

Levarem-te, criminoso, ao grande delito

de atentar a minha pessoa com enganos,

que desgraça e má sorte a tua:

com as pernas separadas e o cu aberto

Entrarão-te (sic) rabanetes e berinjelas!

(Da versão de António Ramírez de Verger)

A homossexualidade era tão vivenciada pelos romanos que, entre os quinze imperadores de Roma, somente um deles, Cláudio, não se envolveu com esse prazer. Nero, o incendiário, mudou de identidade sexual e se relacionava como ativo e passivo. Mandou castrar o eunuco Esporo e o vestia com roupas femininas e com véu de noiva. Permitia até que ele participasse de atos oficiais e o tratava com as honras de imperatriz.

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bela a nudez, mas os romanos a classificavam como um ato bárbaro. Tinham medo do erotismo causado pela nudez. A este amor celta entre homens, Colin Spencer cita Diodoro Sículo, que descreve:

Os homens são muito mais atraídos por seu próprio sexo; eles se deitam

sobre peles de animais e se divertem, com um amante de cada lado. O

incrível é que não têm o menor cuidado por sua dignidade pessoal ou

auto-respeito; oferecem-se aos outros homens sem nenhuma cerimônia.

Além do mais, isso não é considerado desprezível ou uma inferioridade;

ao contrário, se um deles é rejeitado por outro a quem se ofereceu, fica

ofendido. (1996:91)

Ainda sobre os celtas, Políbio, historiador grego, escreve:

Eles tomaram posição, em frente a todo o exército, nus, a não ser pelas

armas (...) os movimentos dos guerreiros nus à frente das fileiras era um

espetáculo terrível. Eram todos homens de um físico esplêndido e no

começo da vida, e os integrantes das companhias estavam ricamente

adornados com colares e braceletes de ouro. A simples visão deles era

suficiente para causar medo entre os romanos. (1996:92)

Já na Idade Média, a comunidade cristã, tentando diferenciar-se dos pagãos, instituiu a castidade, a virgindade, o não-adultério, o não-incesto, ou seja, a monogamia, como forma de fortalecer os valores comunitários e manter a continuidade da descendência de forma legítima. A repressão à minoria, ao homossexualismo e ao judaísmo, se iniciou com as invasões bárbaras e a decadência dos meios urbanos, nos quais já se instaurara a subcultura homossexual. No Antigo Testamento, em Gênesis, conta-se sobre os filhos de Noé. Após o dilúvio, parece ser o momento em que encontramos a homofobia.

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Podemos citar a data de 390 como a da primeira condenação com castigos corporais sofridos por um homem que vendia homens para se prostituírem.

Em 521, o Imperador Constantino condenou dois bispos por seduzir homens mais moços, e Gibbons escreve:

Uma morte dolorosa lhes foi imposta, pela amputação do instrumento de pecado e pela inserção de finos palitos nos poros e tubos da mais fina sensibilidade. E Justiniano defendeu a justiçada execução, uma vez que criminosos deveriam perder as mãos, tendo eles sido condenados por sacrilégio. Nesse estado de dêstraça e agonia, os dois bispos (...) foram arrastados pelas ruas de Constantinopla, enquanto seus irmãos eram advertidos aos gritos para que observassem a terrível lição e não poluíssem a santidade de seu caráter. Talvez os prelados fossem inocentes. Uma sentença de morte e infâmia era muitas vezes fundamentada com A mais leve e suspeita afirmação de uma criança ou de um servo (...) e a pederastia se tornou o crime daqueles a quem não se podia imputar nenhum crime. Colin Spencer (1996: 84)

Em 533, o Imperador Justiniano institui a lei contra os homossexuais, com pena de morte, fogueira e castração, com a intenção de perseguir os inimigos e tirar-lhes o dinheiro. Ainda instituiu uma outra lei anti-homossexuais, após a peste bubônica. Na Espanha, em 589, a pena era a castração, e os homossexuais e judeus eram os bodes expiatórios das tensões sociais.

Em 966, em Roma, os homossexuais eram punidos com o estrangulamento e com a morte nas fogueiras. As regras passaram a dar novas formas à sociedade na qual o conservadorismo e a respeitabilidade predominavam. Isso incluía um status ao homem por meio da repressão dos desejos e emoções, ou seja, saber se comportar lhe daria dignidade.

(27)

Conforme Amílcar Torrão Filho:

Difundiu-se no mundo cristão o mito de que homossexuais molestavam

crianças, numa confusão, talvez deliberada, da pederastia, prática

educativa socialmente aceita na Antigüidade, e do abandono de crianças

que eram vendidas como escravas e prostituídas. Esta confusão entre

pederastia e pedofilia, o abuso sexual de crianças, diga-se de passagem,

chega aos nossos dias com força sempre renovada. (2000;96)

Na Idade Média, mesmo assim, praticava-se a homossexualidade. O sexo anal, de homem com homem, e homem com mulher, era considerado um mal menor pela religião, que no início castigava com penitências e depois com a fogueira. Iniciou-se aí o romance de cavalaria, principalmente na França. Podem ser mencionados Tristão e Isolda, A morte do rei Artur, O cavaleiro da charrete, nos quais já se verifica a sedução entre os cavaleiros e os senhores e deles como intermediadores para relacionamentos de outro homem com uma mulher. Os versos eram escritos em latim, muitas vezes por clérigos, com a intenção de esconder a autoria.

Ainda assim encontramos, entre os soberanos, histórias de relacionamentos homossexuais, como a do rei britânico Ricardo Coração de Leão (1157-1199), considerado o Rei das Cruzadas. Casado e com filhos, tinha como companheiro e amante Felipe II, rei da França. O reinado de Ricardo está ligado ao mito de Robin Hood, que perdera suas terras para o irmão de Ricardo, o rei João Sem Terra, mas que fora reconhecido e ganhara uma honraria de Ricardo, tornando-se o Conde de Huntingdon.

(28)

Nos séculos XIII e XIV, nos Estados Absolutistas controlados pelo rei e pelos religiosos, na época das Cruzadas, com o decréscimo da população, motivado pela fome e pela peste, fortaleceram-se a repressão, a segregação, a continência e a perseguição contra os homossexuais, bruxas e hereges, proibindo atos como a sodomia, masturbação, culpados pelas crises sociais e políticas e interferiam nas relações de procriação. A visão da sociedade em relação à identidade sexual, na metade do século XIV, sofreu uma mudança radical. A Igreja e o Estado em busca de um ideal heterossexual, não admitiam a bissexualidade. A mulher, para garantir a prole, tinha que ser virgem, casando-se aos 10 – 13 anos. O marido teria que garantir um lar, tendo em torno de 30 anos.

São Tomás de Aquino (1128-1274) condenou a homossexualidade como o pecado contra a natureza, sustentando que era antinatural. Justificava-se afirmando que nenhum animal é homossexual.

Em 1415, a Igreja e o Estado caçaram os homossexuais nas cidades italianas Veneza e Florença, mas poucos passaram pelas leis da castração (1325) ou condenados à morte (1365). Para os ativos (80% com menos de 30 anos) e para os passivos (90% entre 13 e 20 anos) adotaram-se penas de multa ou castigos corporais. Aqueles que haviam praticado a homossexualidade, anteriormente (1408) punidos com a mutilação, a morte e o exílio, eram obrigados a pagar multas, pois consideravam-se mais graves as relações sexuais entre cristãos e judeus.

Os valores estéticos da Antigüidade e a volta do discurso homossexual aparecerão novamente na época do Renascimento. É o caso do filósofo Montaigne, que dizia que o amor físico se tornava amizade, e esse amor poderia chegar ao espírito além da alma em uma união única.

Como descreve Montaigne no ensaio Da amizade:

A amizade é superior às relações entre pais e filhos, pelas relações de

deveres recíprocos que há entre eles, impedindo uma maior intimidade, e

(29)

saciedade deste extingue o desejo; quanto ao casamento, ele é apenas um

negócio. A amizade, ao contrário, cresce com o desejo que dela temos.”

(Amílcar, 2000:125)

Outros artistas demonstraram seu amor pela beleza masculina, como Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Caravaggio, Shakespeare e Giovanni Antonio Bazzi. (Amílcar, 2000:124).

A mais conhecida vítima do Renascimento em Florença foi Leonardo da Vinci (1425-1519). Como mestre, vinham muitos rapazes lhe fazer a corte, e muitos discípulos passaram por ele. Com 24 anos, por uma acusação de sodomia foi julgado e condenado à prisão por dois meses. Dentre todos, se encantou particularmente por Giácomo Caprotti. Aproximou-se posteriormente, em 1506 ou 1507, de Francisco Melzi, a quem deixou grande parte de seu testamento. Em seus trabalhos, evitava pintar homens nus, mas focava-se nas mulheres etéreas.

Miguel Ângelo foi a outra vítima. Manteve relações sexuais com mulheres e homens. Entre eles, o mais conhecido foi o romano Tomás Cavalieri, como pode-se perceber no soneto escrito pelo artista.

Tu sabes que sei, senhor meu, que tu sabes

Que venho para fruir-te mais de perto

E sabes que sei que tu bem sabes quem sou:

Por que tanto retardas nosso abraço?

Se verdadeira é a esperança que me dás

Se verdadeiro é o desejo que me entregas

Que se rompa o muro entre nós levantado

Pois dupla força tem o grito sufocado.

Se amo mais em ti, senhor meu caro,

O que tudo mais amas, não te zangues

(30)

O que no teu belo rosto desejo e aprendo

Mal foi entendido por outros homens

Quem quiser saber convém antes morrer.

(Tradução de Nilson Moulin)

Miguel Ângelo representava, nas pinturas, mulheres que pareciam halterofilistas. Os homens, como Davi, eram considerados homoeróticos, sedutores.

Shakespeare utiliza trocadilhos para escrever sonetos e poemas aos belos jovens. Realça que onde existe paixão sexual inevitavelmente aparece o ciúme.

Em 1545-1563, o Concílio de Trento colocou normas que existem até os nossos dias: o celibato dos padres, o casamento, a castidade aos solteiros e a perseguição aos homossexuais.

No século XVI, várias pessoas se revoltaram. Com Martinho Lutero, organizaram a reforma protestante em oposição à reforma católica.

A contra-reforma fez com que se buscasse, nas terras novas descobertas, um modo de manter a moral religiosa. Mas descobriram que naqueles lugares, na América ou mesmo no Oriente, a homossexualidade existia com outro significado. Na China, por exemplo, em 1609, o ato sexual entre homens era normal, sem culpa ou vergonha. Não existia lei que o proibisse. Esses homens muitas vezes eram instruídos na arte da música, do canto e da dança. Tinham uma percepção que não era a da moral social, religiosa ou científica.

(31)

No Japão, onde os monges budistas se satisfaziam sexualmente os novos pupilos encaminhados pelos pais aos templos, e o homossexualismo era popular também entre samurais e a burguesia, recebendo o nome de “shudo”. Eram movidos pelo amor, boa vontade e lealdade. A vida dos samurais era envolta em aparências.

Na Inglaterra, na metade do século XVII, com o protestantismo de Lutero, Calvino e Zwingli, se instalou pela aristocracia uma nova ética do trabalho, de orgulho do lar e da família, da moralidade, da oração. O diferente era condenado e

executado rapidamente. A homofobia. A homossexualidade era vista como crime.

No final do século XVII, houve a mudança do feudalismo para uma sociedade mais mercantilista, os papéis sexuais foram redefinidos, e a autodisciplina e o trabalho árduo foram valorizados na busca de riqueza e posição. Por isso, o homem se torna competitivo, surge o desejo pela ascensão social. Não cabem, portanto, trocas de afetos, intimidade entre eles. Com a valorização da família e as condutas de atitude e moral, houve um aumento populacional de 4,9 milhões, em 1680, para 11,5 milhões em 1820. Entre 1791 e 1831, houve um crescimento de 72%, de 7,7 milhões para 13,28 milhões, maior taxa da Europa Ocidental. O casamento por amor dá lugar ao casamento por interesse e conveniência, como descreve Colin Spencer ( 1996:183).

As navegações em busca do Novo Mundo fizeram surgir os piratas e os bucaneiros do Caribe, nos séculos XVI e XVII, acompanhados somente por homens em suas viagens, por tempos intermináveis, também se satisfaziam do prazer sexual masculino, muitas vezes com os criados. Podemos mencionar o caso do pirata Edmund Cook e Bartolomeu Sharp, em 1682.

Com a descoberta das novas terras, verificou-se também a prática sexual da sodomia entre os índios. Prática descrita como perfeita e imperfeita. A perfeita é acompanhada da ejaculação no então chamado “vaso traseiro”, enquanto a imperfeita e menos grave era fora dele.

(32)

No século XVIII, com a valorização da família, foi instalada a divisão de gêneros em dois sexos biológicos, homem e mulher, e dois gêneros, masculino e feminino.

Colin Spencer (1996: 203), acrescenta sobre a teoria da sexualidade na primeira metade do século XVIII:

A primeira foi a passagem da crença em dois gêneros e três sexos para a

idéia de três gêneros e dois sexos. A segunda foi o completo

desaparecimento da idéia de que homens e jovens podiam ter sexo sem

comprometer a masculinidade (em algumas sociedades, na verdade, essa

masculinidade ficava mais valorizada), substituída pelo conceito de veado

adulto, caracterizado como uma espécie de prostituto masculino.

“Hermafrodita” veio designar um homem efeminado que desejava com

outro homem e não mais tinha qualquer referência a uma condição

biológica.

[...]

A lei de sodomia nunca incluía mulheres, porque se acreditava que o sexo

era por definição penetrativo, sendo, pois, essencial um pênis.

[...]

No fim do século, havia apenas dois tipos de corpos - masculino e

feminino-, mas quatro gêneros: homens, mulheres, sodomitas e safistas.

Os dois primeiros eram aceitos e lícitos, os dois últimos inaceitáveis e

considerados pecaminosos, ainda que apenas o primeiro fosse ilegal e

sujeito a processo.

Porém, encontramos no século XVIII, com o Iluminismo e a teoria evolucionista de Erasmo Darwin, uma abertura ao prazer sexual, em que a sexualidade era considerada proporcionadora de felicidade e ordem. Mas essa liberdade sexual não dizia respeito à homossexualidade.

(33)

lembra que o objetivo de toda lei deve ser o máximo de felicidade para o máximo de pessoas”. No entanto, o iluminismo não teve força para o liberalismo da homossexualidade.

Enquanto a sodomia e o amor homossexual para os menos favorecidos economicamente eram motivo de perseguição, entre os jovens de classe média e alta eram considerados amor romântico. Na literatura, encontramos a ideologia da amizade. Na Europa, há o predomínio da sedução.

A sociedade industrial imprime novas características à família, a partir de meados do século XIX. Essa nova organização do trabalho dá origem, de fato, a uma separação radical dos sexos e seus papéis. Assiste-se à ampliação das responsabilidades maternas. À função nutritiva acrescentam-se a educação e, com freqüência, a instrução. A sociedade industrial, afastando pai e filho, corroeu o poder patriarcal. É o fim do patriarca todo - poderoso que dita a lei para a mulher e os filhos. Na burguesia de vanguarda, a imagem do pai amoroso tende a ser substituída pelo pai açoitador.

Muitos homens ficaram impedidos de exercer a paternidade, e muitos outros não se importaram com isso.

A força física e a honra foram substituídas pelo sucesso; o dinheiro e um trabalho valorizado justificavam o distanciamento do pai. Duas imagens do pai predominam nos Estados Unidos e, em menor grau, na Europa: o pai distante, inacessível, ou o pai desvirilizado e desprezado.

De fato, desde o final do século XIX, os anglo-saxões apresentavam em sua literatura longos queixumes dirigidos contra o pai. Pouquíssimos se recordam de ter estado em seus braços terem sido acariciados por ele, embora se lembrem muito bem de palmadas e punições.

(34)

Embora esses julgamentos tivessem provocado escândalos, não deixaram

marcas na consciência da nação nem uniram a atividade sexual a um

nome que invocasse um conjunto de características tão repugnantes,

como aconteceu com o julgamento de Oscar Wilde. A tragicidade residiu

no fato de que esse grande escritor, cuja obra variava de brilhante

sabedoria, incisiva percepção social à mais profunda angústia, foi julgado

e punido de acordo com a emenda Labouchère somente nove anos depois

da lei ter sido aprovada. Jamais esse desumano artigo de lei fizera uma

vítima tão proeminente.

[...]

Se Oscar Wilde, em vez de se entregar a brincadeiras sujas de indecente

familiaridade com meninos e homens, tivesse arruinado as vidas de meia

dúzia de garotas inocentes e simplórias, ou tivesse acabado com o lar de

um amigo corrompendo sua mulher, ninguém teria apontado um dedo

contra ele (...). um outro contraste (...) é o que existe entre a execração

universal acumulada contra Oscar Wilde e a tácita concordância desse

mesmo público com o mesmo tipo de vício em nossas escolas públicas.

Se todas as pessoas culpadas do crime de Oscar Wilde devessem ser

trancadas na prisão, haveria um surpreendente êxodo de Eton e Harrow,

Rugby e Winchester.

O mesmo autor continua:

Mas Wilde também nos deu um estereótipo que prevaleceu ao longo do

século XX ;

Os julgamentos ajudaram a produzir uma enorme mudança na percepção

do alcance da paixão pelo mesmo sexo. A essa altura, o completo e

vagamente desconcertante nexo entre efeminação, lazer, preguiça,

imoralidade, luxúria, despreocupação, decadência e esteticismo, que

recordava Wilde, de repente se transformou numa imagem brilhante

nítida. (1996:272)

(35)

A medicina adquiriu importância nesta exclusão homossexual, internando no hospício o que chamavam de doença mental. Dentre personalidades internadas, encontramos relatos de Adèle Hugo, filha do escritor Victor Hugo, e Camille Claudel.

Doutor Benkert (1869) criou o termo “homossexualidade” e pediuao ministro da Justiça a abolição da velha lei prussiana contra essa prática. Na mesma época, um antigo magistrado de Hanover, Heinrich Ulrichs, ele mesmo homossexual, analisou a homossexualidade sob o triplo ponto de vista do historiador, do médico e do filósofo. Define-a como “uma alma feminina caída sobre um corpo de homem. “Sem pretender, Ulrichs dirige a pederastia para o caminho escorregadio da patologia mental.

Havelock Ellis define o invertido como uma anomalia congênita e Hirschfeld fala de “sexo intermediário”.

Pouco a pouco, passa a ser visto como doente.

No século XIX, nada do que ele é, no total, escapa à sua sexualidade. O homossexual agora é uma espécie. A incorporação da homossexualidade ao campo da medicina deveria tê-la protegido dos julgamentos morais, porém isso não aconteceu.

Na Inglaterra, como na França, o homossexual ameaça a nação e a família. Ele também é considerado “um traidor da causa masculina”. Acusam os homossexuais de falta de grandeza de alma, de coragem e devoção, deplorando sua vaidade, indiscrições e tagarelices. Em suma, são “mulheres frustradas, homens incompletos”.

(36)

A identidade homossexual, tal como conhecemos, é, portanto, uma produção da classificação social, cujo principal objetivo eram a regulação e o controle. Nomear era aprisionar. O século XX não tirou o homossexual de sua prisão.

Em 1882, Magnan e Charcot os batizam de “invertidos sexuais” e os situam no quadro das “degenerescências”. O nascimento da homossexualidade patológica caminha lado a lado com o surgimento da “raça maldita”, nas palavras de Marcel Proust, e também com o advento da normalidade heterossexual.

A identidade sexual torna-se um destino. A sexualidade masculina “normal” provém de um “instinto” cujo objeto natural seria o outro sexo. Cria-se o conceito de heterossexualidade para descrever essa normalidade, que postulava uma diferença radical entre os sexos, ao mesmo tempo em que ligava de modo indissolúvel a identidade de gênero e a identidade sexual.

Dr. Karoly Maria Benkert escreve pela primeira vez sobre o termo “homossexual”:

Além do impulso sexual normal dos homens e mulheres, a Natureza, em

seu poder soberano, dotou alguns indivíduos masculinos e femininos, ao

nascer, de um impulso homossexual, deixando-os assim numa

dependência sexual que os torna física e psiquicamente incapazes –

mesmo com a melhor das intenções – de ereção normal. Esse impulso

cria antecipadamente um claro horror ao sexo oposto. (1996:274)

(37)

Fundamentos que chegaram à América em 1893, e que levaram a leis hediondas crimes como não-procriação, castração como cura para o desejo sexual, e nas mulheres a remoção dos ovários, como formas de controle social, dando grande poder aos médicos. Apoiada pela Igreja, se fortaleceu a declaração de que a homossexualidade seria uma doença, a mesma ciência da procriação seletiva utilizada pelos nazistas.

A perseguição da sociedade foi criando um grande mal aos homossexuais, como em um relato de um paciente de Chicago que teve seus testículos cortados:

Minha vileza é incontrolável e seria melhor eu desistir de tudo e morrer.

Me pergunto se os médicos sabem que depois da emasculação é possível

a um homem ter ereções, masturbar-se e manter a mesma paixão de antes.

Tenho vergonha de mim mesmo; me odeio; mas nada posso fazer. Não

tenho remédio, sou uma enorme, gorda e estúpida criatura, sem saúde

nem forças, e tenho nojo de mim. Não tenho o direito de viver e acho que

as pessoas tiveram razão em me maltratar e condenar.

(Colin Spencer, 1996: 278)

Há os que resistiram e recusaram essa rotulação médica, buscando na política, os direitos dos homossexuais. Tentando tirar o estigma e a efeminilização que se fazia sobre eles, como foi o caso de Walt Whitman, J. A. Symonds, Edward Carpenter e Havelock Ellis. Sobre o sentimento que percorria os homossexuais a partir dessas normas sociais escreve Colin Spencer:

A posição de uma pessoa jovem tão atormentada é realmente a de um

homem enterrado vivo e consciente, mas privado do sono. Ele é

condenado pela sua própria timidez e ignorância a uma repressão que

chega à morte. (1996: 179)

(38)

foi a inspiração para uma nova Sociedade, a Mattachine, em Los Angeles, em 1948, que teve sucesso.

Encontramos nos Estados Unidos uma política de discriminação até, entre os oficiais navais em Newport, Rhode Island, em 1919. O próprio governo enviou jovens para identificar na tropa homens que mantivessem relações sexuais com outro homem, mesmo que fosse com os incumbidos de os delatar.

Mas o que chamou mais a atenção na época foi o papel desempenhado pela Associação Cristã de Moços, ACM, de Newport, conhecida por realizar festas homossexuais, apresentações de drag queens, iniciação de homossexuais e onde havia lugares reservados para se introduzirem na sexualidade, que se chamavam gangue.

Na década de 20, ocorreu em Nova York, no Harlem, um movimento iniciado pelo homossexualismo em busca de igualdade para lésbicas e homossexuais brancos e negros. Reuniam-se nas esquinas, cafés, night clubs e salões privados. Este fato abalava a sociedade, pois lutar pelas leis mudaria o poder, e o estigma e a injustiça seriam alterados. Para combater esta luta apareceram novamente os termos pejorativos em relação aos homossexuais. A sociedade tentava inferiorizá-los, rotulando-os de “bêbados, drogados, exibicionistas sexuais, maliciosos e indecentes.”

No cinema, enquanto havia filmes europeus liberais, a vida dos artistas hollywoodianos percorria caminhos diferentes dos mostrados em seus filmes conservadores, como aconteceu com Rodolfo Valentino, Greta Garbo, Marlene Dietrich, Mel Ferrer, Rock Hudson, entre outros.

A Segunda Guerra Mundial trouxe o preconceito contra os judeus, homossexuais e aos ciganos, qualificados pelas estrelas que usavam: amarela, rosa e marrom, respectivamente. Essa perseguição alemã levou ao extermínio de 50.000 homossexuais.

(39)

tamanho medo, não se revelavam. Antes trancados em lugares com grades, com o tempo passaram a ser internados em hospitais psiquiátricos. Em 1941, a lobotomia também foi o recurso encontrado para a mudança de identidade sexual. Em 1959, 100 homens de Nova York foram lobotomizados.

A polícia era encarregada de fornecer dados dos suspeitos de homossexualidade, que incluíam homens casados, e garantiam aos delatores ascensão na carreira. Houve aumento de condenações, de 800 para mais de 2500, de 1945 a 1955. Condenados, muitos cometiam suicídio, perdiam os cargos, faliam, execrados pela sociedade. A partir daí, passavam a ter um comportamento recluso e viviam constantemente com medo.

Ironia da história: a teoria freudiana da identificação do filho com o pai na relação edipiana surgiu no mesmo momento em que os pais urbanos deixaram em massa o teto familiar para trabalhar longe, e quando os ritos de separação da mãe começaram a se extinguir por toda parte. O filho do cavaleiro permanecia em casa sob a autoridade materna, portanto a família nuclear se reduziu a um dueto mãe/criança. (Badinter, 1992: 88).

Ernest Hemingway observa que uma mãe onipotente que não pára de castrar seus próximos e um pai obcecado pelo sentimento de incapacidade constroem a rapazes “mal ajustados.”

Badinter prossegue, afirmando que distante demais ou familiar demais, duro demais ou terno demais, o pai parece ter dificuldade para encontrar a distância adequada em relação ao filho. A imagem legendária do caubói, os personagens aventureiros, os Rambos e outros “exterminadores”, assim como os atores que os encarnam, tornaram-se pais substitutos e viris. Mas os melhores modelos de identificação para os meninos são os seus pares. (1992: 91).

(40)

da ausência de um pai modelo de virilidade, os jovens machos se unem com o outro, um pouco mais velho, um pouco mais forte ou um pouco mais desembaraçado, espécie de irmão mais velho, líder admirado e copiado, e cuja autoridade é reconhecida. (1992:93)

Os meninos da mesma idade eram reunidos numa patrulha, sob a responsabilidade de um homem adulto, que devia encorajar o espírito de equipe e a virilidade sob todas as formas, e não tolerar nada de “efeminado”. Provas, desafios, disciplina, rigor moral e, sobretudo, vida em comum longe de qualquer presença feminina formam a trama do escotismo. Os esportes que envolvem a competição, a agressão e a violência eram e continuam sendo, nos Estados Unidos, considerados a melhor iniciação à virilidade. Mostram publicamente seu desprezo pela dor, o controle do corpo, a força de seus golpes, a vontade de ganhar e esmagar os oponentes.

O sociólogo Mike Messner, citado por Badinter, dedicou vários artigos a esse assunto. Deixou clara a relação entre o aprendizado esportivo e a construção da masculinidade. “Dor e ferimentos fazem parte do jogo”. Para tornar-se capitão do seu time, foi “fanaticamente agressivo e impiedosamente competitivo”. Segundo essa ideologia, ensina-se ao menino que suportar a dor é corajoso e viril, “que a dor é boa e o prazer é mau” (1992:94).

Adiante, Messner adverte que tal concepção da masculinidade competitiva, hierárquica e agressiva não é propícia ao estabelecimento de amizades íntimas e duráveis com outros homens. Contudo, há um homoerotismo tanto mais forte quanto inconsciente nos esportes de equipe, que dão aos homens a oportunidade de se tocar e se agarrar sem serem suspeitos de intenções homossexuais. Prova disso são os jogadores de futebol ou rúgbi, que se pegam pelo pescoço ou cintura, se abraçam, se apalpam, trocam tapinhas afetuosos nas coxas, diante dos telespectadores, a todo momento e sem o menor embaraço.

(41)

outra forma, com um rapaz. Muitos “homossexuais” nunca se relacionaram sexualmente com outros rapazes na juventude e muitos “heterossexuais” se relacionaram. Conclui-se que cada pessoa é ao mesmo tempo homossexual e heterossexual, que é fora de propósito falar dos homossexuais como de uma minoria sexual. Não há mais razões para dizer que todas as pessoas são heterossexuais ou todas são homossexuais. (Badinter, 1992:109)

Na década de 60, o prazer passou a ser visto de outra maneira, e o sexo foi encarado como forma de prazer e não mais somente como meio de reprodução. Para divulgar os novos conceitos sobre o sexo, muitos livros foram publicados. Foi uma década de reivindicações, pois os jovens defendiam a liberdade sexual, a liberação do aborto, agiam contra os valores burgueses, os negros lutavam pelos seus direitos e países comunistas pela liberdade de expressão.

Em 1970, em Londres, criou-se a Frente de Libertação Gay, composta por artistas, estudantes, professores e sociólogos. Inspiraram-se no tumulto ocorrido no bar Stonewall Inn, em Greenwich Village, provocado pela polícia. Fingindo-se de vendedores de bebidas alcoólicas invadiram um bar gay. Pela primeira vez, após diversas batidas feitas pela polícia no local, humilhando e agredindo donos e freqüentadores, os homossexuais contra-atacaram por três dias, numa tentativa de eliminar as idéias preconcebidas que se faziam sobre eles.

A partir de movimentos semelhantes, se estabeleceu a Semana do Orgulho Gay, em 1970, e, em 1972, 2000 homens e mulheres se reuniram em Londres.

Tendo por referência os heterossexuais, os homossexuais, achando que não formariam família, acabaram trilhando caminho diferente. Por exemplo, tendo vários parceiros para se relacionarem sexualmente. Ao mesmo tempo, se defendiam da sociedade pelo anonimato, criando maneiras de serem aceitos, consentindo com o que o social determinava, rejeitando-se, culpando-se e se envergonhando.

(42)

jornal Gay News, que focava, sobretudo, as agressões homofóbicas e não a transformação da consciência homossexual.

Os homossexuais foram conquistando os espaços públicos. Passaram a freqüentar outros ambientes, como bares, livrarias, academias, e formarem círculos de convivência. Porém, nesses círculos específicos começou-se a formar a identificação de homossexuais com o “cowboy Marlboro”, fetiche do homem forte, de calça jeans, que marcava sua exposição física. O descaso com o corpo e o envelhecer era malvistos e indesejados. O sexo entre eles envolvia certa brutalidade, explicado como forma de autopunição.

Um dos ativistas, Michelangelo Signorille, escreve sobre a cultura homossexual, descrita por Amílcar Torrão Filho:

Esta cultura comercial do sexo, basicamente branca, urbana e de classe

média, transformou homens gordos, idosos, efeminados e aqueles que

não se adaptam às normas de beleza, em párias, pessoas sem lugar neste

grupo; este culto ao corpo, para Signorille, foi transformado em uma

espécie de religião, dos adoradores dos músculos, com seus templos

estabelecidos nas academias de ginástica, e as drogas (anabolizantes,

cocaína, ecstasy) são seus elixires místicos (1997: 75-76). Os feios e

gordos obviamente não são convidados a fazer parte deste culto ou serem

seus sacerdotes; podem no máximo adorar a distância seus deuses

musculosos e inacessíveis.

[..]

... não aceitam o sexo seguro.

(2000: 211)

(43)

Com o aparecimento da AIDS, na década de 80, os homossexuais dos grandes centros mudam seus hábitos, aderindo aos programas de exercícios físicos e alimentação. Os primeiros casos da doença surgiram entre a população “cowboy”, e muitos tiveram um fim fatal. Iniciou-se um outro movimento homossexual em busca de ajuda do governo, e o interesse de aparecerem e terem voz politicamente. O homossexual, por temer a doença, diminuiu a prática de relações sexuais intensas.

Conforme Colin Spencer (1996:362), os homossexuais do interior mantinham sua rede social e valorizavam muito a amizade que substituiria a família que não constituíram e também por não terem uma família convencional.

No Brasil, a homossexualidade foi vista não como identidade sexual, ou seja, ser homossexual, heterossexual ou bissexual, mas definida levando em conta quem é o ativo da relação.

1.1. Homossexualismo

Estima-se que de 10 a 15% da população é exclusivamente homossexual, sem levar em conta as pessoas predominante ou ocasionalmente homossexuais, além dos que não respondem de maneira honesta aos questionários relativos às preferências sexuais, afirma Rinna Riesenfeld (2002).

Colin Spencer ( 1996: 11) afirma que a palavra “ homossexualidade” apareceu pela primeira vez em inglês na década de 1890, usada por Charles Gilbert Chaddock, tradutor de Psychopathia Sexualis, de R. Von Krafft-Ebing. O termo aparecera originalmente em alemão, em 1869, num panfleto anônimo.

(44)

da sua categoria, utilizam o termo “gay”. Mas conclui que o termo homossexual é o mais adequado para ser utilizado de forma geral. (2002:117-118)

O autor ainda se refere ao que entende por “homossexualidade”: “... a condição humana de um ser pessoal que no nível da sexualidade se caracteriza pela peculiaridade de sentir-se constitutivamente instalado na forma de expressão exclusiva na qual o partenaire é do mesmo sexo”. (2002:119)

Ainda de acordo com o autor, podemos perceber as características da homossexualidade:

• é o sentido global, uma condição antropológica, um ser humano

com condição e destino humanizável e humanizante.

• peculiaridade antropológica que tem sua manifestação no nível da

sexualidade a partir da realidade multivetorial e plurivalente.

• a atração pelo outro do mesmo sexo.

• aquele que quer se realizar como homossexual.

• a condição homossexual pela busca da realização pessoal.

• delimitação da “homossexualidade” como não desviante.

• não é traço patológico, nem doença somática ou psíquica

Complementando as observações, verifica-se a compreensão antropológica que Marciano Vidal optou para definir a homossexualidade:

• a homossexualidade não é “doença” e nem “variante” da sexualidade. Também não é uma espécie de gênero, confirmado

pelos dados biológicos e socioculturais. E sim, o comportamento

sexual como um impulso fundamentalmente neutro que a

aprendizagem social modula. A sexualidade não é um gênero com

duas espécies e com dois extremos heterossexuais e homossexuais.

• entende-se a homossexualidade como a condição sexual de uma

pessoa que se deteve no processo de diferenciação, portanto não vive

a partir da diferença homem/mulher (heterossexualidade), mas, da

(45)

Imber-Black faz uma breve explicação da origem da palavra “homossexual” :

A palavra “homossexual” apareceu pela primeira vez no tratado de John

Addington Symond, de 1891, A Problem of Moder Ethics (Persky,

1989). Seu oposto, “ heterossexual”, apareceu pela primeira vez dez anos

depois, em 1901... Para muitas pessoas, a palavra “homossexualidade”

enuncia uma visão da escolha sexual embutida em contexto de

irresponsabilidade, imoralidade e, ocasionalmente, crime. Entretanto, a

maioria de nós, tanto gays quanto heterossexuais (ou, pessoas

convencionais), temos sido enganados pelo termo homossexual. Nós nos

orientamos para a genitalização da experiência humana. Como o título

deste capítulo sugere (com base nas palavras de Oscar Wilde, durante seu

julgamento por ser gay, na virada do século, na Irlanda), a

homossexualidade realmente tem mais a ver com a afiliação amorosa do

indivíduo do que com a simples paixão genital. (1994:224)

1.2. Antropologia e relações familiares

Abordar a temática do homossexualismo nos remete a análises calcadas no exame das relações familiares.

No poema A paternidade e o masculino, a procriação, de Vinícius de Moraes, citado no livro Sobre a Identidade Masculina, de Badinter (1992), há o papel do pai e suas implicações em relação ao filho. Paternidade que o nascimento de um filho mobiliza no pai, e na mãe, revivências de seu próprio nascimento.

O FILHO QUE EU QUERO TER

Vinícius de Moraes

É comum a gente sonhar Eu sei

(46)

Pois eu também dei de sonhar Num sonho lindo de morrer

Vejo um berço E nele, eu me debruçar Com o pranto a me correr E assim chorando acalentar

O filho que eu quero ter

Quando a vida enfim Me quiser levar Pelo tanto que me deu Sentir-lhe a barba a me roçar

No derradeiro beijo seu

Ao sentir também sua mão vedar Meu olhar dos olhos seus Ouvir sua voz a me embalar

Num acalanto de adeus

Dorme meu pai sem cuidado Dorme que é o entardecer Teu filho sonha acordado Com o filho que ele quer ter

Badinter (1992) descreve o sonho, o desejo de ser pai.

Ainda acrescenta:

A introjeção paterna é a que será transmitida através das gerações como

um elo na cadeia da vida. Para o homem, o vínculo com o pai não vai

servir nesse momento. Mas os vínculos com outros homens se baseiam

no vínculo com o pais. E, na grande maioria das vezes, o vínculo com o

(47)

Esse pai “sumia” ou ficava com a família, mas não ensinava coisas positivas sobre como ser um homem perante o mundo, deixando, no máximo, o estereótipo do “macho” como herança. Os vínculos com outros homens tendem a se tornar superficiais ou até ameaçadores.

Conforme Badinter:

A diferença entre os sexos é extremamente variável de uma sociedade a

outra. Fortemente marcada ou apenas perceptível para o observador

estrangeiro hoje, em nossas sociedades, às vezes é difícil distinguir um

rapaz e uma moça, tardia (Taiti) ou precoce (nas sociedades ocidentais,

antes da década de 1900, por exemplo) a diferenciação sexual é um dado

universal. (1992:62)

[...] As resistências também são psicológicas e, desta forma, não

aleatórias. A necessidade de se diferenciar do outro sexo não é resultado

de aprendizagem, mas uma necessidade arcaica. A criança aprende a

classificar pessoas e objetos em dois grupo : um parecido com ela; o

outro, oposto. Outro dado comum na primeira infância é a tendência a

definir o Ser pelo Fazer. As perguntas: o que é um homem? O que é uma

mulher? A criança responde enunciando papéis e funções, em geral

estereotipados e oposicionais. É por isso que a crítica à teoria dos papéis

sexuais nos Estados Unidos, legítima no que se concerne ao homem ou à

mulher adultos, deve ser atenuada em relação às crianças. Se é bastante

normal ensinar as mesmas coisas às crianças dos dois sexos, é também

muito necessário deixar a cada uma a possibilidade de exprimir sua

distinção e sua posição. ( 1998:63)

Os adolescentes ainda trocam balbucios, conversa “jogada fora”, a respeito do que é ser homem. Com a maturidade, o homem se distancia dos primeiros amigos e entra na competitividade, moldada no vínculo com o próprio pai.

(48)

o contraste entre o papel masculino tradicional, que implica fortes laços

emocionais entre homens (cuja intimidade é limitada pelas formas

ritualizadas), e o papel masculino moderno, no qual as relações afetivas

entre homens são fracas e freqüentemente ausentes. Uma das razões

dessas diferenças de atitudes reside provavelmente no fato de os jovens

dos tempos modernos não terem mais um iniciador, e seu pai não pôde

preencher esta função. Os pais, homófobos, temem os contatos muito

estreitos com seus filhos. (1998:72).

O homem pára de trocar intimidade com outros homens em relação a suas dúvidas, medos e inseguranças quando “passa para a vida adulta”. O jovem se distancia do pai e de outros homens, não confiando mais neles.

Os homens adultos ficam homofóbicos, receando ironias homossexuais ao se abrirem emocionalmente com seus pares ou frente ao risco de incitações, em situação de grupo. A idéia de que quantidade é igual a qualidade associa o número de vezes que faz sexo ou ao número de mulheres que conquista. O desejo de conquista se torna sinônimo de poder, empurrando-o para uma perigosa solidão.

Os homens adultos ficam com medo da homossexualidade e da homofobia, de se abrir emocionalmente, com medo de que grupos incitem ou gerem ironias homossexuais. Ensinou-se ao homem que quantidade é igual a qualidade. Daí, o desejo de ter poder é associado ao número de vezes que faz sexo, ou ao número de mulheres que conquista. Fica preso à conquista do poder, e o poder é uma perigosa solidão.

Socialmente, para muitos homens tornar-se adulto é envelhecer e envelhecer significa impotência sexual. Essa crença faz com que se torne genericamente impotente para a vida, doente e deprimido, pois a dificuldade do adulto com os velhos é a que sente com o próprio pai. Logo, acreditar no aprendizado e na mutação da vida os faria velhos mais felizes e saudáveis.

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Tabela 1 – Faixa etária
Tabela 3 – Etnia  Número de  pessoas  Sujeito Etnia  9  A, B, C, E, F, H, J, K e L  Brancos  1 I Mulato  2  D e G  Não responderam
Tabela 5 – Em que cidade reside
Tabela 6 – Ocupação  Número de  pessoas  Sujeito Ocupação  1 A  Estudante  1  B  Administrador de empresa  1  C  Técnico em informática e bailarino
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Referências

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