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Mana vol.9 número1

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Academic year: 2018

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(1)

M e u p rim e iro con ta to in te le ctu a l com a re g iã o d o Uca ya li n a Am a zôn ia p e ru a n a , on d e m a is ta rd e vim a fa ze r tra b a lh o d e ca m p o, d e u -se p or m e io d o livro O A lto A m az on as, d o a rq u e ólog o n orte a m e rica n o Don a ld La th ra p , p u b lica d o e m 1970. Ele p rin cip ia com a se g u in te d e scriçã o d e u m fe -n ôm e -n o d e sa le -n ta d or, e m b ora corriq u e iro:

“ N o cu rso in fe rior d o Uca ya li, n a zon a orie n ta l d o Pe ru , e xiste u m a cid a d e

e m rá p id o cre scim e n to ch a m a d a J u a n cito. A m a ioria d os se u s h a b ita n te s

vive a in d a à b a se d e u m a a g ricu ltu ra d e ch a cra s, ca m p os a g rícola s p re p a ra

-d os p e lo siste m a -d a s q u e im a -d a s, e q u e se in te rn a m ce rca -d e u m q u ilôm e tro

n a se lva circu n d a n te . Du a s d a s m a is im p orta n te s cu ltu ra s d e re n d im e n to sã o

o ta b a co e o a rroz. N o q u e d iz re sp e ito a tra jos e costu m e s, o p ovo n ã o d ife re

se n sive lm e n te d os h a b ita n te s d a s d u a s g ra n d e s cid a d e s d o Pe ru orie n ta l,

Iq u itos e Pu ca llp a . C on sid e ra m -se re p re se n ta n te s típ icos d a cu ltu ra p e ru a n a

e ofe n d e r-se -ia m se lh e s ch a m á sse m os ín d ios. C on tu d o, h á u m a g e ra çã o, a

m a ior p a rte d os h a b ita n te s d e J u a n cito, ou se u s a n te p a ssa d os, e ra m cla

ssifca d os d e C ossifca m a s, d e sce n d e n te s d a g ra n d e n a çã o d e lín g u a tu p i q u e d om

i-n a va o cu rso p rii-n cip a l d o Alto Am a zoi-n a s i-n o m om e i-n to d o p rim e iro coi-n ta cto

com os Eu rop e u s. Alg u m a s m u lh e re s d e J u a n cito fa ze m a in d a ce râ m ica se

-g u n d o u m e stilo m u ito d e ca d e n te , q u e con stitu i a p e n a s u m té n u e re fle xo d a

com p le xa tra d içã o ce râ m ica d os se u s a n te p a ssa d os; e , e m ca so d e d oe n ça , é

con su lta d o u m xa m a n ista , q u e con se rvou os con h e cim e n tos re lig iosos e m é

-d icos -d os C oca m a s. A -d e sp e ito -d e ste s ve stíg ios -d a a n tig a cu ltu ra , ou ta lve z

p or ca u sa d e le s, os h a b ita n te s d e J u a n cito sã o a in d a m e n os tole ra n te s p a ra

c o m se u s v iz in h o s ín d io s d o q u e o s c id a d ã o s p e r u a n o s c o m u n s” (La t h r a p

1970:17 [tra d . p ortu g u e sa 1975:17]).

Bu sca n d o u m te rm o a b re via d o p a ra d e scre ve r e ssa situ a çã o, La th ra p cu n h a a ssim a e xp re ssã o “ e x-C oca m a ” .

“EX-COCAMA”: IDEN TIDADES

EM TRAN SFORMAÇÃO N A

AMAZÔN IA PERUAN A*

(2)

O fe n ôm e n o “ e x-C oca m a ” e coa ou tra s ta n ta s h istória s fa m ilia re s e m tod a a Am a zôn ia e , d e fa to, n a s Am é rica s d e m od o g e ra l: e sta m os d ia n te d e m a is u m ca so d e a cu ltu ra çã o e a b a n d on o d e id e n tid a d e é tn ica . C om o ta l, a situ a çã o d e scrita p or La th ra p é p a ra m im in sta n ta n e a m e n te re con h e cíve l, m a s e sse re cocon h e cim e con to m e é ta m b é m icon te le ctu a lm e con te icon -q u ie ta n te , u m a ve z -q u e con ce itos com o “ a cu ltu ra çã o” e “ id e n tid a d e é tn ica ” n ã o fa ze m p a rte d e m in h a ica ixa d e fe rra m e n ta s in te le ctu a is e n q u a n -to a n trop ólog o socia l. Esse s con ce i-tos d e riva m d a a n trop olog ia cu ltu ra l g e rm â n ica e d e se u s d e sce n d e n te s n os Esta d os Un id os e n o Bra sil. As p ri-m e ira s d e scriçõe s d e p ovos in d íg e n a s a ri-m a zôn icos fora ri-m p rod u zid a s p or a n trop ólog os cu ltu ra is; foi a p e n a s a p a rtir d a ob ra d e C la u d e Lé vi-Stra u ss q u e os a n trop ólog os socia is vie ra m re a lm e n te a in te re ssa r-se p e la á re a , o q u e os fe z orie n ta r su a s p e sq u isa s se g u n d o a s p re ocu p a çõe s d o m e sm o Lé vi-Stra u ss. N e ssa m e d id a , n ã o se d e tive ra m sob re o tip o d e p rob le m a coloca d o p e la a cu ltu ra çã o, p e la s id e n tid a d e s é tn ica s a b a n d on a d a s e p or fe n ôm e n os com o o “ e x-C oca m a ”1.

A ra zã o p e la q u a l os a n trop ólog os socia is e vita ra m o e stu d o d os p vos “ a cu ltu ra d os” d a Am a zôn ia é , in d u b ita ve lm e n te , d e ord e m m e tod o-lóg ica . O s a n trop ólog os socia is e stã o volta d os p a ra a b u sca , a d e scriçã o e a a n á lise d e siste m a s coe re n te s d e re la çõe s socia is, e p rova ve lm e n te m a n-tive ra m -se d ista n te s d e fe n ôm e n os com o o “ e x-C oca m a ” p or re ce io d e q u e se u e stu d o n ã o fosse ca p a z d e e xtra ir ta l coe rê n cia ou , n o m ín im o, d e q u e a com p le xid a d e d o siste m a coe re n te e n con tra d o d e sa fia sse a s e stra té g ia s a n a lítica s d isp on íve is. O s a n trop ólog os cu ltu ra is, tod a via , stra b a -lh a n d o com d ife re n te s m é tod os e p ostu la d os, tive ra m b e m m e n os d ificu l-d a l-d e s p a ra lil-d a r com ta is fe n ôm e n os, m ostra n l-d o-se , a o con trá rios l-d e se u s cole g a s, ca p a ze s d e tom á -los com o ob je to d e in ve stig a çã o. De ssa m a n e i-ra , p rod u zii-ra m d e scriçõe s e tn og rá fica s im p orta n te s q u e , com o p rocu ro a q u i d e m on stra r, p od e m se r re lid a s d o p on to d e vista d a a n trop olog ia scia l. O ob je tivo é e ste n d e r o fu lcro e o a lca n ce d a s a n á lise s socioa n trop o-lóg ica s d os p ovos in d íg e n a s a m a zôn icos a u m te rritório e tn og rá fico e x-p lora d o x-p ion e ira m e n te x-p e la a n trox-p olog ia cu ltu ra l.

(3)

os C oca m a se ch a m a m a si m e sm os é u m p rob le m a d e n om in a çã o, e la se p re sta a o tip o d e a n á lise e stru tu ra lista d os siste m a s on om á sticos in a u g u -ra d o p or Lé vi-St-ra u ss e m O Pe n sam e n to S e lv ag e m (1966 [1962]).

A Amazônia peruana

A Am a zôn ia p e ru a n a com p re e n d e 37% d o te rritório d o Pe ru , a b rig a n d o u m a p op u la çã o d e p ou co m a is d e u m m ilh ã o d e p e ssoa s, la rg a m e n te con -ce n tra d a n a s d u a s cid a d e s p rin cip a is, Iq u itos, n o rio Am a zon a s, e Pu ca ll-p a , n o Uca ya li. De sd e m e a d os d o sé cu lo XIX, e ssa re g iã o te m sid o e con o-m ica o-m e n te d oo-m in a d a p e lo se tor coo-m e rcia l d o e xtra tiviso-m o o-m e rca n til (e x-p orta çã o d e x-p rod u tos x-p rim á rios e im x-p orta çã o d e b e n s m a n u fa tu ra d os). Es-te se tor com e rcia l é com p le m e n ta d o p or u m se tor d e su b sistê n cia , d o q u a l a m a ior p a rte d a p op u la çã o loca l p ob re d e p e n d e n a m a ior p a rte d o te m -p o. O se tor com e rcia l ca ra cte riza -se -p or d ra m á ticos ciclos d e e x-p a n sã o e re tra çã o: e m se u p ico, a fa se d e e xp a n sã o a b sorve q u a se tod a a m ã od e -ob ra loca l e a p rod u çã o p a ra a su b sistê n cia p ra tica m e n te ce ssa ; n a s fa se s d e re tra çã o, a m a ior p a rte d e ssa m ã o-d e -ob ra é a b sorvid a p e lo se tor d e su b sistê n cia . N a á re a , h á m u ito p ou ca a tivid a d e in d u stria l e , p orta n to, n a d a se m e lh a n te a u m p role ta ria d o u rb a n o — a té re ce n te m e n te , ta m-p ou co e xistia a lg o q u e m-p u d e sse se r d e scrito com o u m ca m m-p e sin a to (ve r Sa n -Rom a n 1975, Re g a n 1993, Sa n toG ra n e ro e Ba rcla y 2000, p a ra d e s-criçõe s m a is d e ta lh a d a s d a re g iã o).

(4)

Os “ex-Cocama”

N o q u e se se g u e , e m p re g o o te rm o “ C oca m a ” e m d ois se n tid os: p a ra m e re fe rir d ire ta m e n te a os C oca m a p rop ria m e n te d itos, La G ra n C oca m a , e com o u m rótu lo g e ra l p a ra a com b in a çã o “ G ra n d e C oca m a ” e “ Pe q u e n a C oca m a ”*, os C oca m illa . Pe ço d e scu lp a s p e la con fu sã o q u e isso p ossa ca u

-sa r. A d ivisã o é a n tig a , e m b ora os d ois p ovos p a re ça m te r sid o se m p re virtu a lm e n te id ê n ticos n a lín g u a e costu m e s.

O s C oca m illa ou “ Pe q u e n a C oca m a ” e stã o con ce n tra d os e m u m a á re a d os va le s d o M a ra ñ on , e sp e cia lm e n te n o b a ixo H u a lla g a . O s C oca -m a d istrib u e -m -se a o lon g o d os rios M a ra ñ on , Uca ya li e A-m a zon a s, n e ste ú ltim o ca so e sp a lh a n d ose rio a b a ixo a té o Bra sil. M u itos vive m e m cid a -d e s -d a re g iã o, in clu in -d o ci-d a -d e s g ra n -d e s com o Pu ca llp a e Iq u itos, e m e s-m o Be lé s-m d o Pa rá , n a foz d o As-m a zon a s. É d ifícil e stis-m a r a p op u la çã o d os C oca m a n o Pe ru , p or ra zõe s q u e log o fica rã o e vid e n te s: n o ce n so d e 1996, m a is d e 10 m il p e ssoa s d e cla ra ra m -se C oca m a ou C oca m illa (Bra ck Eg g s/ d ), m a s é p rová ve l, com o se ve rá , q u e e ste n ú m e ro re p re se n te a p e n a s u m a fra çã o re d u zid a d a p op u la çã o, q u e ve m se e xp a n d in d o ra p id a m e n te (m a is d e 50% te m m e n os d e 15 a n os). E a ssim te m sid o d e sd e o in ício d o sé cu lo XX, q u a n d o o p a d re a g ostin ia n o Esp in osa os e stim ou ta m b é m e m 10 m il (Esp in osa 1935). O fa to d e u m cre scim e n to rá p id o e con sta n te e sta r a ssocia d o a u m a p op u la çã o e stá ve l in d ica q u e b oa p a rte d os C oca m a se e n con tra , d e fa to, “ d e s-a p a re ce n d o” .

C ite i a cim a a s p a la vra s d e La th ra p sob re o p ovo d e J u a n cito, m a s a su a n ã o é u m a voz isola d a . Se u a lu n o Pe te r Roe , p or e xe m p lo, d iscu tin d o a situ a çã o n o La g o Ya rin a coch a , u m su b ú rb io d a cid a d e d e Pu ca llp a , a fir-m a : “ O s e x-C oca fir-m a re cé fir-m -e u rop e iza d os, cofir-m o ca fir-m p on e se s d e sa n g u e m istu ra d o, e stã o a m p lia n d o se u s d om ín ios fu n d iá rios e m n om e d a civili-za çã o con tra os a in d a visive lm e n te ín d ios Sh ip ib o-C on ib o” (Roe 1982:81). An th on y Stock s (1981), a u tor d e u m a im p orta n te e tn og ra fia sob re a com u n id a d e coca m illa d e Ach u a l Tip ish ca , n ã o u sa o te rm o “ e xC oca -m a ” . Tod a via , o títu lo q u e d e u a se u e stu d o, Los N ativ os In v isib le s, in d ica q u e o m e sm o p rob le m a , ou u m p rob le m a p a ra le lo, é o ob je to d e su a s p re o-cu p a çõe s. Em u m a rtig o g e ra l sob re os p ovos tu p i d a Am a zôn ia p e ru a n a — os O m a g u a , C oca m a e C oca m illa — e le e scre ve u o se g u in te :

(5)

“ É d ifícil sa b e r a té q u e p on to os p ovos tu p i m a n tive ra m u m con ju n to d e

cos-tu m e s d istin tivos. O s re la tos va ria m e a in te rp re ta çã o m a is p rová ve l é a d e

q u e a e xte n sã o e m q u e ta is costu m e s fora m m a n tid os va ria g ra n d e m e n te a o

lo n g o d a v a s t a r e g iã o o n d e h o je s e e n c o n t r a m o s p o v o s t u p i. O s C o c a m a ,

n a s á re a s m a is u rb a n iza d a s com o Pu ca llp a , Iq u itos e Re q u e n a , n ã o se con

si-d e ra m m a is in si-d íg e n a s e m n e n h u m se n tisi-d o, e tra tá -los si-d e C oca m a ou a e le s

a ssim se re fe rir se ria u m in su lto. Em con tra ste , o p ovo in d íg e n a C oca m illa ,

q u e vive h á m u ito te m p o p róxim o à s m issõe s ca tólica s n os rios H u a lla g a e

M a ra ñ on , m a n te ve u m se n tim e n to d e fin id o d e ‘e tn icid a d e ’, e fre q ü e n te m e n

-te ou ve m -se os h om e n s coca m illa d istin g u in d o-se d os ‘b ra n cos’. Isto ocorre

a d e sp e ito d a a p a re n te sim ila rid a d e e n tre o m od o d e vid a d os C oca m illa e o

d os ou tros rib e irin h os” (Stock s 1977:60).

Stock s n ã o fa la e m “ e x-C oca m a ” , m a s a u tilid a d e d e ste te rm o p od e se r a p re cia d a e m fa ce d a in coe rê n cia d e sta se n te n ça : “ O s C oca m a , n a s á re a s m a is u rb a n iza d a s com o Pu ca llp a , Iq u itos e Re q u e n a , n ã o se con si-d e ra m m a is in si-d íg e n a s e m n e n h u m se n tisi-d o, e tra tá -los si-d e C oca m a ou a e le s a ssim se re fe rir se ria u m in su lto” . N ã o se ria ta lve z e sta p róp ria fra se , com su a a firm a çã o se g u id a d e u m a n e g a çã o, u m in su lto a m u itos d os h a -b ita n te s d e Pu ca llp a , Iq u itos e Re q u e n a ? E o q u e p od e ria sig n ifica r, a fin a l, d e ixa r d e con sid e ra r-se in d íg e n a ?

Ag ü e ro, a u tor d e u m e stu d o a re sp e ito d o e n volvim e n to d os C oca m a n a H e rm a n d a d d e la C ru z, u m m ovim e n to m ile n a rista fu n d a d o p e lo b ra -sile iro Fra n cisco d a C ru z, e scre ve :

“ O s Tu p iC oca m a , p or m e d o ou ve rg on h a , n ã o m a is se con sid e ra m in d íg e

-n a s, m a s sim ‘p e ru a -n os’. Existe , se m d ú vid a , d e vid o à su a e xp e riê -n cia h

istó-rica d e con ta to com os b ra n cos/ m e stiços, con sid e ra d a a d ve rsa e n e g a tiva ,

u m a e sp é cie d e e n cob rim e n to d e su a p róp ria id e n tid a d e . Por ca u sa d isso, te n

-ta ra m a com od a r-se a o m od o d e vid a d a q u e le s q u e ch a m a m ‘os p e ru a n os’”

(Ag ü e ro 1994:70).

A p osiçã o d e Ag ü e ro é ta m b é m a lg o p a ra d oxa l: com o d ize r q u e os C oca m a se a com od a m a o m od o d e vid a d a q u e le s q u e ch a m a m “ os p e ru a -n os” q u a -n d o o a u tor m ostra q u e é p re cisa m e -n te a ssim q u e e le s ch a m a m a si m e sm os?

(6)

“ O s C oca m a te n ta m , d e vá ria s m a n e ira s, livra r-se d e sse tip o d e tra ta m e n to.

Ve ste m -se com o os ou tros, vã o à e scola , con sid e ra m -se g e n te d e sa n g u e m

is-tu ra d o ou rib e irin h os, n ã o fa la m su a lín g u a d ia n te d e e stra n h os e , à s ve ze s,

m u d a m d e sob re n om e . Em g e ra l, os C oca m a te n ta m a p re se n ta r-se com o os

m ilh a re s d e m e st iz os d a Am a zôn ia p e ru a n a q u e tê m a n ce stra is in d íg e n a s,

m a s sofre m p or ca u sa d e se u s sob re n om e s. Um in form a n te a firm a : ‘O s q u e

tê m sob re n om e s e stra n g e iros h u m ilh a m a q u e le s d e n ós q u e tê m sob re n o

-m e s p e ru a n os’” (Re g a n 1993:111).

O re la to d e Re g a n ofe re ce -n os u m a p ista d o q u e p od e ria su b ja ze r à re ticê n cia d os C oca m a a a d m itir-se a b e rta m e n te C oca m a , ou p e lo m e n os à su a re cu sa e m id e n tifica r-se com o in d íg e n a s. Pod e m os im a g in a r q u e a id e n tid a d e in d íg e n a con stitu a u m tip o d e id e n tid a d e d e b a ixo statu s ou m e sm o p ote n cia lm e n te p e rig oso n a Am a zôn ia p e ru a n a , e , p orta n to, q u e a q u e le s com p ossib ilid a d e d e e sca p a r d e la te n te m fa zê -lo. O m od e lo a q u i se ria o d o “p assin g ” [p a ssa r p or], a titu d e p or m e io d a q u a l, n os Esta d os Un id os, n e g ros com a a p a rê n cia d e b ra n cos n e g a m su a s id e n tid a d e s n e g ra s e com p orta m se com o se fosse m b ra n cos. Pod e se r sig n ifica tivo o fa -to d e q u e a m a ior p a rte d os a u -tore s q u e tra ta ra m d e sse a sp e c-to n o ca so d os C oca m a fosse m e le s m e sm os n orte -a m e rica n os.

O p rob le m a a q u i é sa b e r p or q u e m os C oca m a e sta ria m te n ta n d o “ p a ssa r-se ” . Re g a n n ota q u e e le s “ te n ta m a p re se n ta r-se com o os m ilh a re s d e m e stiz os d a Am a zôn ia p e ru a n a q u e tê m a n ce stra is in d íg e n a s” . M a s q u e m sã o e sse s m ilh a re s d e ou tros m e stiços? C om o n ota m Sa n tosG ra n e -ro e Ba rcla y (2000) e m se u im p orta n te e stu d o re ce n te d a re g iã o, o con ce i-to d e u m a p op u la çã o rib e irin h a d e sa n g u e m istu ra d o d a ta d o sé cu lo XX, e com e çou a se r a m p la m e n te re con h e cid o a p e n a s a p ós os a n os 40. C om o d iscu tire i m a is d e ta lh a d a m e n te n a con clu sã o d e ste a rtig o, o p e ríod o d o p óg u e rra ca ra cte rizou -se p or p rofu n d a s tra n sform a çõe s n a re g iã o, tran s-form a çõe s q u e a b a rca ra m ta m b é m os e sq u e m a s d e cla ssifica çã o.

Isso sig n ifica se r in te ira m e n te p ossíve l q u e os C oca m a ou “ e xC oca -m a ” n ã o e ste ja -m b u sca n d o tra n sita r d e u -m a id e n tid a d e e sta b e le cid a p a ra ou tra id e n tid a d e e sta b e le cid a , con form e o m od e lo d o p assin g n orte a m e -rica n o. Em lu g a r d isso, a d e se sp e cifica çã o d os C oca m a e sta ria ocorre n d o p re cisa m e n te n o m e sm o con te xto e m q u e e m e rg e u m a n ova e sp e cifica -çã o — a d e ca m p on e se s rib e irin h os d e sa n g u e m istu ra d o. É m e sm o p ossíve l q u e e ssa n ova g e n te se ja os C oca m a , e q u e o con ce ito d e “ e xC oca -m a ” re g istre si-m p le s-m e n te se u n o-m e e -m -m u ta çã o.

(7)

os sob re n om e s. Dizia o in form a n te : “ O s q u e tê m sob re n om e s e stra n g e iros h u m ilh a m a q u e le s d e n ós q u e tê m sob re n om e s p e ru a n os” . É, p orta n to, p a ra o sig n ifica d o d os sob re n om e s, e stra n g e iros ou p e ru a n os, q u e a g ora m e volto.

Onomást ica Cocama

A im p ortâ n cia d os sob re n om e s con stitu i u m te m a d e sta ca d o n a e tn og ra fia d isp on íve l. N os va le s d o Am a zon a s, M a ra ñ on e Uca ya li, fa z-se u m a d is-tin çã o e n tre ap e llid os h u m ild e s [“ sob re n om e s h u m ild e s” ] e ap e llid os al-tos [“ sob re n om e s e le va d os” ] ou ap e llid os d e v iracoch a [“ sob re n om e s d e b ra n co” ] (Stock s 1981:140-141; ve r, ta m b é m , G ow 1991 e C h ib n ik 1994). C om o se d á e m tod o o m u n d o h isp â n ico, a s p e ssoa s sã o id e n tifica d a s p or u m p re n om e p e ssoa l, p e lo sob re n om e d o p a i d o p a i e p e lo sob re n om e d o p a i d a m ã e . Assim , os h om e n s tra n sm ite m se u s sob re n om e s p a te rn os con -tin u a m e n te a tra vé s d a s g e ra çõe s, e n q u a n to a s m u lh e re s tra n sm ite m os se u s a p e n a s p or u m a g e ra çã o. A tra n sm issã o m a te rn a d e sob re n om e s p a -te rn os cod ifica , p orta n to, a in d ivid u a lid a d e d e g ru p os d e g e rm a n os. Alé m d isso, os sob re n om e s con stitu e m u m siste m a g lob a l p a ra a id e n tifica çã o d e u m a p e ssoa e m re la çã o a q u a lq u e r ou tra .

O q u e sig n ifica m e fe tiva m e n te os sob re n om e s p a ra os C oca m a ? Uso a q u i com o m od e lo o e stu d o d e Stock s re fe re n te a os C oca m illa d e Ach u a l Tip ish ca3. Este a u tor m ostra q u e , n e sta loca lid a d e , os sob re n om e s sã o ín

-d ice s -d a q u ilo q u e os C oca m illa ch a m a m san g re s, “ sa n g u e s” . O sa n g u e é tra n sm itid o d e u m h om e m p a ra se u s filh os e é m a rca d o p e la tra n sm issã o d e sob re n om e s. Esse s g ru p os d e sa n g u e a ssim n om e a d os e sta b e le ce m os lim ite s d o in ce sto e sã o, d e fa to, g ru p os d e d e sce n d ê n cia p a trilin e a r e xóg a m os, lixóg a d os p or u m id e a l d e ca sa m e n to e n tre p rim os cru za d os b ila te -ra is. Está cla ro q u e o q u e os C oca m illa e n te n d e m p or “ sa n g u e ” n ã o é a su b stâ n cia b iog e n é tica im a g in a d a p or e u rop e u s e n orte -a m e rica n os, m a s a n te s u m a su b stâ n cia corp ora l tra n sm itid a , ju n ta m e n te com o n om e cor-re sp on d e n te , p e lo h om e m a se u s filh os. A lóg ica d o siste m a d e n om in a çã o su g e re q u e a m u lh e r ta m b é m tra n sm ite o sa n g u e p a te rn o, m a s a p e n a s p or u m a g e ra çã o: a e tn og ra fia d isp on íve l é , in fe lizm e n te , sile n ciosa sob re e ste p on to.

(8)

-lia d a Silva , q u e d iz sob re Re q u e n a , su a cid a d e n a ta l: “ Te m p e ssoa s d e sa n g u e m istu ra d o e C oca m a . M a is n in g u é m . Ele s se d ã o b e m . Sã o se p a -ra d os, p oré m , p or se u s sob re n om e s. N ã o é a m e sm a coisa se r ch a m a d o Da Silva e se r ch a m a d o M a n u ya m a ” (Re g a n 1993:112).

M a n u ya m a é u m n om e d istin tiva m e n te coca m a , e n q u a n to Da Silva é u m n om e d istin tiva m e n te b ra sile iro — e “ b ra sile iro” n a Am a zôn ia p e -ru a n a te n d e a sig n ifica r a lto statu s. Da p e rsp e ctiva coca m illa — q u a se ce rta m e n te p a rtilh a d a p or Rosa Arce lia —, sob re n om e s com o Da Silva cod ifica m a tra n sm issã o d e sa n g u e b ra sile iro d e a lto statu s, e n q u a n to M a n u ya m a cod ifica ria a tra n sm issã o d e sa n g u e coca m a , d e b a ixo statu s. Esse sa n g u e tra n sm itid o se ria ta m b é m a ssocia d o a tra ços corp ora is; u m ra p a z in clu íd o n o e stu d o d e Re g a n a firm ou : “ Sob re a re la çã o e n tre a s d ife re n te s cla sse s socia is, h á m u ita s ve ze s u m d e sp re zo su til d a p a rte d a -q u e le s -q u e se a ch a m m e lh ore s -q u e os ou tros p or-q u e sã o d e sa n g u e m istu ra d o, ou u m p ou co b ra n cos, com olh os cla ros, e q u e re m m a n d a r e m istu -d o” (Re g a n 1993: 110-111).

Tod a via , com o n ote i a cim a , Re g a n ta m b é m a firm a q u e os C oca m a , à s ve ze s, p rocu ra m m u d a r d e sob re n om e . Esta a firm a çã o le va n ta u m p ro-b le m a -ch a ve : se os soro-b re n om e s cod ifica m a tra n sm issã o tra n sg e ra cion a l d e sa n g u e , e se o sa n g u e e stá a ssocia d o a ca ra cte rística s corp ora is im e -d ia ta m e n te visíve is, m u -d a r -d e sob re n om e p or si só n ã o va i a ju -d a r m u ito q u e m e ste ja p rocu ra n d o e lu d ir p re con ce itos d e sse tip o.

Re g a n n ã o a p re se n ta ca sos con cre tos d e m u d a n ça d e sob re n om e , a lé m d o se g u in te re la to d e J osé C h ota M a g ip o, d e O lla n ta :

“ Alg u m a s fa m ília s a cre d ita m q u e m u d a n d o o sob re n om e se fa rã o m e lh ore s.

Isso é o q u e a con te ce u com u m a fa m ília q u e se a ch a m u ito su p e rior, e le s fa

-la m q u e n ã o ca sa ria m com n in g u é m d a q u i, p orq u e se d ize m g e n te fin a , e e

s-tã o se m p re cria n d o p rob le m a s. Sã o con h e cid os com o m a u s e le m e n tos, e

vive m fa ze n d o fofoca sob re os vizin h os. Ele s sã o os ú n icos q u e p e n sa m q u e sa

-b e m d e tu d o, e se m n e m m e sm o re con h e ce r o so-b re n om e d e se u s p a is -b rig a m

o te m p o tod o, b rig a m e n tre irm ã os, com vizin h os e tc. Pe ssoa s p ob re s sã o se

m-p re tota lm e n te sim m-p le s. Pod e -se tra b a lh a r com e la s” (Re g a n 1993:111-112).

(9)

a firm a çõe s d e C h ota re d u n d a m n a a cu sa çã o d e q u e e ssa s p e ssoa s “ rou -b a ra m se u so-b re n om e ” (G ow 1991:256, n . 1). N ã o se e stá d ize n d o q u e os M a n u ya m a p od e m d e cid ir u m d ia torn a r-se Da Silva , m a s q u e os a u to-p rocla m a d os Da Silva ta lve z se ja m n a ve rd a d e M a n u ya m a m a sca ra d os. A m u d a n ça d e n om e con sistiria , p orta n to, e m u m a a cu sa çã o e n ã o e m u m p roce sso socia l.

Stock s, tod a via , a p re se n ta ca sos con cre tos d e m u d a n ça d e sob re n o-m e , e e ste s, va le n ota r, se re ve la o-m g e n e riza d os. Ele e scre ve :

“ […] m u ita s m e n in a s q u e p a rte m p a ra tra b a lh a r com o e m p re g a d a s d om é

sti-ca s e m sti-ca sa s d e b ra n cos ou m e stiços m u d a m d e sob re n om e q u a n d o sa e m d e

se u p rim e iro e m p re g o, p a ra d isfa rça r su a id e n tid a d e n a tiva ; p or e xe m p lo,

e m b ora o sob re n om e Pe re yra se ja h istorica m e n te b ra sile iro, e le é tã o forte

-m e n te a ssocia d o, n o con te xto loca l, a os C oca -m illa , q u e e -m u -m d e sse s ca sos

foi m u d a d o p a ra Pe re a ” (Stock s 1981:141).

Q u a l se ria a lóg ica d a m u d a n ça d e sob re n om e ? Q u e va n ta g e n s p o-d e ria m e sta r se n o-d o b u sca o-d a s?

Um a re sp osta ób via , visto q u e se tra ta d e jove n s m oça s solte ira s, se -ria o ca sa m e n to com a lg u é m com u m sob re n om e “ e le va d o” . À p rim e ira vista , con tu d o, p a re ce a lta m e n te im p rová ve l q u e e ssa s jove n s m oça s a cre-d ite m q u e m u cre-d a r cre-d e sob re n om e irá p or si só a lte ra r se u s tra ços corp ora is. Assim , a va n ta g e m d a m u d a n ça te m d e e sta r e m ou tro lu g a r. A d e sva n ta g e m d os sob re n om e s coca m illa n ã o p od e vir d e q u e e ste s cod ifiq u e m p u -b lica m e n te se u sa n g u e e a ssim se u s a tri-b u tos corp ora is visíve is, m a s ta l-ve z re sid a n o fa to d e q u e os sob re n om e s su g e re m a vig ê n cia d e re la çõe s socia is p ossive lm e n te in d e se já ve is p a ra se u s m a rid os p ote n cia is. Isto é , u m a m oça e x-Pe re yra -a g ora -Pe re a e stá a firm a n d o a b e rta m e n te q u e n ã o se rá e sp e ra d o d e se u m a rid o d e a lto statu s q u e e le m a n te n h a la ços d e a fin id a d e a tivos com g e n te coca m illa , la ços q u e , d a d a a con e xã o e n tre sob re n om e e cla sse , e n volve ria m u m flu xo d e re cu rsos forte m e n te u n id ire cion a l d o m a rid o p a ra se u s a fin s coca m illa . O q u e a s m oça s e stã o fa -ze n d o a o m u d a r d e sob re n om e n ã o é , su g iro, d isfa rça r su a s id e n tid a d e s, m a s sin a liza r q u e tê m a in te n çã o d e a b a n d on a r se u s la ços d e p a re n te sco. Su sp e ito q u e a lg o m u ito sim ila r e ste ja e m jog o n o ca so d e scrito p or J osé C h ota , d e O lla n ta .

(10)

i-n a d o com o a lvo d a a çã o socia l e se u s a trib u tos socia lm e i-n te p rod u zid os. C orp os a q u i sã o fe itos, n ã o d a d os, e u m a e tn og ra fia a p ós a ou tra te m m ostra d o com o os corp os sã o con stru íd os e ostra n sform a d os p or m e io d o com p a rtilh a m e n to d e su b stâ n cia s com o os a lim e n tos, a s p a la vra s e a s d oe n -ça s. M o-ça s q u e vive ra m com o d om é stica s e m ca sa s d e b ra n cos/ m e stiços te ria m re a lm e n te m od ifica d o se u s corp os p or m e io d o con ta to d iá rio e ín -tim o com b ra n cos/ m e stiços, p e lo m e n os a os se u s p róp rios olh os e a os d e se u s p a re n te s. A m u d a n ça d e sob re n om e re g istra ria n o p la n o on om á stico e sta m od ifica çã o.

Se m d ú vid a , ta l m u d a n ça d e n om e se ria p rova ve lm e n te vista com o ile g ítim a p e lo tip o d e b ra n co/ m e stiço q u e p od e p a g a r e m p re g a d os d o-m é sticos, p ois e ssa s p e ssoa s op e ra o-m coo-m visõe s forte o-m e n te in a tista s so-b re a ra ça e os a sp e ctos corp ora is visíve is. M e sm o e la s, p oré m , a ce ita ria m q u e a m u d a n ça d e n om e p or p a rte d a m oça sin a liza u m a fa lta d e von ta d e d e m a n te r m a ior con ta to com se u s p a re n te s, e se ria a ssim u m a in d ica çã o d e su a cre sce n te “ civiliza çã o” e a ce ita b ilid a d e com o e sp osa p ote n cia l p a -ra a “ g e n te fin a ” .

Esse s d a d os d a Am a zôn ia p e ru a n a se te n trion a l e voca m forte m e n te m in h a p róp ria e tn og ra fia d o Ba ixo Uru b a m b a , 800 k m a o su l. Ali, a p osse d e sob re n om e s e le va d os cod ifica o p e rte n cim e n to a u m a re d e a m p la m e n-te ra m ifica d a d e con fian z a, q u e d e fin e a circu la çã o a tu a l e o p ote n cia l d e cré d ito n o se tor com e rcia l d a e con om ia . A p osse d e sob re n om e s h u m il-d e s, p or ou tro la il-d o, coil-d ifica o p e rte n cim e n to à re il-d e p a ra le la il-d os p aisan os, “ com p a triota s” ou “ p a re n te s” , q u e d e fin e a circu la çã o d e com id a e tra b a -lh o n o se tor d e su b sistê n cia . A p ossib ilid a d e d e q u e e sse m e sm o tip o d e lóg ica op e re ta m b é m n o n orte é su g e rid a p or Rosa Lom a s Pa ca ya , d e Re -q u e n a , cita d a p or Re g a n :

“ H á u m ce rto d e sp re zo p or ca u sa d e sob re n om e s ou d in h e iro. Alg u m a s ve ze s,

a s p e ssoa s d e sob re n om e b a ixo, se sã o tra b a lh a d ore s q u a lifica d os, sã o m e lh

o-re s q u e a q u e la s com sob o-re n om e s e le va d os. H á u m d e sp o-re zo p e la g e n te d a s

trib os… O s p ob re s n ã o a ju d a m os ricos. Ele s n ã o se ju n ta m ” (Re g a n 1993:112).

(11)

Est rangeiros e t ribais

Pe lo q u e foi visto a té a q u i, p od e p a re ce r q u e , n e ssa re g iã o, o ca rá te r “ e le va d o” ou “ h u m ild e ” d e u m sob re n om e se ja a lg o a u toe vid e n te ; a situ a -çã o, n a ve rd a d e , é b e m m a is com p lica d a . Stock s ob se rva q u e a p a la vra “ coca m illa ” é u sa d a m u ito ra ra m e n te e m Ach u a l Tip ish ca , ocorre n d o a p e n a s e m d ois con te xtos. Um d e le s é q u a n d o se e stá re fe rin d o à lín g u a , com o e m “ lín g u a coca m illa ” , a q u a l, a liá s, con ta com m u ito p ou cos fa la n -te s. O ou tro con -te xto é q u a n d o se e stá fa la n d o d e sob re n om e s. Alg u n s so-b re n om e s sã o forte m e n te a ssocia d os a o fa to d e se se r C oca m illa , m a s is-to, cu riosa m e n te , in clu i sob re n om e s q u e sã o, a o m e sm o te m p o, d e fin id os com o “ e stra n g e iros” . Por e xe m p lo, u m h om e m b ra sile iro d e n om e Pe re y-ra ca sou -se , n o sé cu lo XIX, com u m a m u lh e r coca m illa , e m u itos d e se u s d e sce n d e n te s vive m h oje e m Ach u a l Tip ish ca , d e m od o q u e o sob re n om e Pe re yra p a ssou a se r, n a á re a d o b a ixo H u a lla g a , forte m e n te a ssocia d o com o p ovo coca m illa . Da m e sm a m a n e ira , o sob re n om e b a sco-e sp a n h ol O lórte g u i é ta m b é m con sid e ra d o coca m illa ; m a s, com o ob se rva Stock s, “ […] n e ste ca so, a id e n tifica çã o n ã o é com p le ta , e a m a ioria d os O lórte -g u is q u e costu m a va m vive r e m Tip ish ca q u a n d o b ra n cos-m e stiços vivia m a li m u d ou -se p a ra su a p róp ria C om u n id a d e , p a ra e vita r se r id e n tifica d a com o coca m illa ” (Stock s 1981:141).

Da d a a im p ortâ n cia d o con tra ste e n tre sob re n om e s “ h u m ild e s” e “ e le va d os” , e o fa to d e os sob re n om e s “ e le va d os” se re m e stra n g e iros e os “ h u m ild e s” , loca is, q u e tip o d e con ce itu a liza çã o d o p roce sso socia l p od e fa ze r d e u m sob re n om e “ e le va d o” u m sob re n om e “ h u m ild e ” ?

Ap ós ob se rva r q u e os C oca m illa a p e n a s m u ito ra ra m e n te se re fe re m a si m e sm os com o “ C oca m illa ” n a vid a cotid ia n a , Stock s re g istra a seg u in -te d iscu ssã o com d ois in form a n -te s:

“ Q u a n d o fa la m os sob re a orig e m d e sob re n om e s com o M a sh ig a sh i ou Esp e

-ra n za , [J osé ] d isse , ‘sim , M a sh ig a sh i é Ag u a ru n a . É u m a trib u , com o os C

o-ca m a . Existe m C oo-ca m a e Pe q u e n a C oo-ca m a . M e u sob re n om e , C u rita m a , p or

e xe m p lo, n ã o é C oca m illa , m a s C oca m a m e sm o. N ós C u rita m a s som os tod os

d a G ra n d e C oca m a . Efra in e Froilá n sã o a m b os La m ista s, m a s vive m a g ora

e xa ta m e n te com o os C oca m illa . Wilfre d o a q u i é p rop ria m e n te b ra sile iro. Se u

a vô […] ve io e o d e ixou a q u i, cre sce n d o com o u m a á rvore . Ele p la n tou a se

m e n t e e v e ja h o je , o q u e v o c ê e n c o n t r a ? U m a á r v o r e in t e ir a , c h e ia d e Pe

-re yra s’. Wilf-re d o a b riu u m cla ro sorriso e con firm ou q u e se u a vô ‘n os d e ixou

(12)

Stock s tra d u z “ trib u ” com o “ trib a l” , ou “ p ovo n a tivo re la tiva m e n te n ã oa cu ltu ra d o” (1981:163), e , a p ós a p a ssa g e m cita d a , p rosse g u e d iscu -tin d o a e xtre m a h ostilid a d e d os C oca m illa a q u a lq u e r su g e stã o d e q u e se -ria m u m a trib u com o os Ag u a ru n a . C om o com p re e n d e r e n tã o a d e cla ra çã o d e J osé C u rita m a d e q u e se u sob re n om e é coca m a e d e q u e os C oca -m a sã o trib u com o os Ag u a ru n a ?

As a firm a çõe s a p a re n te m e n te con tra d itória s d e J osé fa ze m se n tid o se d ife re n cia m os e n tre os C oca m a com o trib a is n o p a ssa d o e os C oca m illa com o trib a is n o p re se n te . Da m e sm a form a q u e Wilfre d o Pe re yra é “ p rop ria m e n te b ra sile iro” , m a s foi “ d e ixa d o a q u i com o C oca m illa ” , os C u rita -m a e ra -m orig in a ria -m e n te trib a is, -m a s n ã o o sã o -m a is. Discu ti isso a lh ure s, foca liza n d o a s n oçõe s coca m illa d e tra n sform a çã o n o te m p o (G ow 1993), m a s a q u i q u e ro a p on ta r p a ra u m a ou tra d im e n sã o. O s sob re n om e s cod i-fica m p roce ssos p e los q u a is p ovos se p a ra d os se re ú n e m p e lo ca sa m e n to p a ra form a r u m n ovo p ovo. H istorica m e n te , os p ovos trib a is, os Q u e ch u a La m ista s d o a lto H u a lla g a , os b ra sile iros e tc., ca sa ra m se e n tre si e fu n -d a ra m u m n ovo con ju n to -d e com u n i-d a -d e s e p ovos. To-d a via , o e sta -d o ori-g in á rio d e d ife re n cia çã o p re cisa se r m a n tid o com o u m tra ço p or m e io d os sob re n om e s, p ois sã o e ste s q u e p e rm ite m os ca sa m e n tos n o p re se n te , m e -d ia n te a -d ife re n cia çã o -d os “ sa n g u e s” .

Essa im a g e m é fa m ilia r a os e stu d iosos d a s socie d a d e s in d íg e n a s a m a zôn ica s d e sd e q u e foi p rim e iro e n u n cia d a p or J oa n n a O ve rin g . Ela a rg u m e n ta va q u e e ssa s socie d a d e s se ca ra cte riza va m p or u m a m istu ra su tilm e n te a d m in istra d a d e d ife re n ça s p e rig osa s, m a s fé rte is, e d e se m e -lh a n ça s se g u ra s, m a s e sté re is. Ao ca b o d e u m a com p a ra çã o e n tre a s so-cie d a d e s d a s G u ia n a s, d o Bra sil C e n tra l e d o N oroe ste Am a zôn ico, e la e s-cre ve u :

“ A socie d a d e só p od e e xistir e n q u a n to e xistir o con ta to e a m istu ra ce rta e n

-tre e n tid a d e s e força s q u e sã o d ife re n te s u m a s d a s ou tra s […] a e xistê n cia

so-cia l é a ssoso-cia d a ta n to à d ife re n ça com o a o p e rig o, e a e xistê n so-cia a ssoso-cia l, à

id e n tid a d e e se g u ra n ça ” (O ve rin g 1983-1984:333).

(13)

Isso p od e p e rm itir u m a in te rp re ta çã o m a is ca rid osa d a a çã o d os O lór-te g u is: ta lve z, in ca p a ze s d e vive r b e m com se u s co-re sid e n lór-te s e m Ach u a l Tip ish ca , e le s te n h a m p a rtid o p a ra fu n d a r su a p róp ria com u n id a d e . O s Pe -re yra s, p or su a ve z, com ta n tos d i-re itos q u a n to e le s d e -re ivin d ica r u m “ so-b re n om e e le va d o”, e sta va m sa tisfe itos e m se r “d e ixa d os com o C oca m illa ”, e fica ra m .

Parentes, afins e estrangeiros

A p e rsp e ctiva d os C oca m a sob re a d ife re n ça e a se m e lh a n ça e m e rg e m u i-to cla ra m e n te n o re la i-to d e u m in form a n te coca m a cita d o p or Re g a n . Al-fon so Am ia Ah u a n a ri, d e In d ia n a , n a rra n d o u m m ito sob re o d ilú vio, a o ch e g a r a o p on to e m q u e a b a lsa q u e le va os sob re vive n te s a lca n ça te rra firm e , e xp lica :

“ […] e n ós som os d a q u e la fa m ília . N ós n os torn a m os m u itos [a p a rtir] d e su a s

n ora s, se u s g e n ros, e n ã o a p e n a s d e u m só e m e sm o p a i, com o e sse s d e a n

-te s, q u e e ra m tod os a p e n a s p a re n -te s. De p ois, os e stra n g e iros d e ou tros p a íse s

ch e g a ra m p a ra se p a ra r e ssa fa m ília , e e le s in trod u zira m os sob re n om e s p a ra

n os d istin g u ir” (Re g a n 1993:111).

A h istória é u m p ou co críp tica , e Re g a n n ã o p u b lica o te xto com p le -to d e ssa ve rsã o4, m a s a im p lica çã o p a re ce se r d e q u e , a n te s d o d ilú vio, a s

p e ssoa s se ca sa va m e n tre p a re n te s p róxim os, filh os d e u m m e sm o p a i, e d e q u e a p ós o d ilú vio, a ve rd a d e ira a fin id a d e p a ssou a vig ora r, d e m od o q u e os C oca m a con te m p orâ n e os d e sce n d e m d a m u ltip licid a d e d a s a lia n -ça s d os sob re vive n te s.

Essa n a rra tiva p a re ce ria , à p rim e ira vista , con tra d itória com a q u e s-tã o d os “ sob re n om e s h u m ild e s” . Pois e sse p rob le m a , d e ce rto, n ã o é q u e e sse s sob re n om e s, com o M a n u ya m a , tê m u m a orig e m loca l a u toe vid e n te ? Q u e se n tid o fa z d ize r q u e “ os e stra n g e iros d e ou tros p a íse s” trou xe -ra m sob re n om e s coca m a p a -ra o p ovo coca m a ? Pod e r-se -ia , con ce b ive l-m e n te , a rg u l-m e n ta r q u e o n a rra d or e ste ja se re fe rin d o (e ta lve z l-m e sl-m o re sistin d o) à b e m con h e cid a im p osiçã o d a ord e m colon ia l sob re o ca os in d íg e n a a m a zôn ico. Ta lve z, m a s a h istória se g u e u m a lóg ica socia l d istin tiva m e n te a m e rín d ia : n om e s, m e sm o q u a n d o se re fe re m a d ife re n ça s a u -tócton e s, vê m d e ou tra s g e n te s.

(14)

ch a m a a “ a fin id a d e p ote n cia l” . Ele n ota q u e a a fin id a d e re a l é con siste n-te m e n n-te a p a g a d a n e sse s sisn-te m a s, se n d o a ssocia d a à con sa n g ü in id a d e : a o lon g o d o te m p o, a fin s re a is sã o con sa n g ü in iza d os. N e sse s siste m a s, o lu g a r d a a fin id a d e com o a lte rid a d e é m a is p le n a m e n te m a rca d o p e lo a fim p ote n cia l, a q u e le s com q u e m n ã o se troca m côn ju g e s, m a s a n te s h ip ósta -se s d e côn ju g e s:

“ O ve rd a d e iro a fim é a q u e le com q u e m n ã o se troca m m u lh e re s, m a s ou tra s

coisa s: m ortos e ritos, n om e s e b e n s, a lm a s e ca b e ça s. O a fim e fe tivo é su a

ve rsã o e n fra q u e cid a , im p u ra e loca l, con ta m in a d a re a l ou virtu a lm e n te p e la

con sa n g u in id a d e : o a fim p ote n cia l é o a fim g lob a l, clá ssico e p rototíp ico”

(Vi-ve iros d e C a stro 1993:179).

O q u e d iz o m ito coca m a ? “ De p ois os e stra n g e iros d e ou tros p a íse s ch e g a ra m p a ra se p a ra r e ssa fa m ília , e e le s in trod u zira m os sob re n om e s p a ra n os d istin g u ir.” O u se ja , d e p ois q u e a s re la çõe s d e a fin id a d e su ce d e -ra m à s re la çõe s in ce stu osa s, vie -ra m com e la s os a fin s p ote n cia is q u e n ã o d ã o e sp osa s, m a s sob re n om e s. Esse s n om e s m a rca m o fa to d a a fin id a d e re a l e m se u a sp e cto n ã o in ce stu oso, e g a ra n te m su a re a lid a d e a tra vé s d a re fe rê n cia a o a fim p ote n cia l p or e xce lê n cia , o e stra n g e iro.

De ve e sta r cla ro, a e sta a ltu ra , q u e os C oca m a n ã o e stã o op e ra n d o com u m m od e lo d e a çã o socia l b a se a d o n o con tra ste e n tre o b iog e n é tico e o cu ltu ra l — e m lu g a r d isso, o con tra ste ch a ve a q u i re m e te à d ife re n -cia çã o orig in á ria e n tre trib u e e stran je ro. Um a vid a p rop ria m e n te socia l é con stitu íd a p e la m istu ra se g u ra d e ssa s d ife re n ça s p e rig osa s. M a s m istu ra n ã o q u e r d ize r a p a g a m e n to d a s d ife re n ça s, p ois e sta s p re cisa m se r m a nti-d a s n a s b ornti-d a s nti-d o siste m a p a ra g e ra r su a con tín u a nti-d in â m ica .

Esta a n á lise e xp lica o q u e sig n ifica se r “ e x-C oca m a ” . “ Ex-C oca m a ” sã o a q u e le s q u e tê m sob re n om e s coca m a , m a s n ã o sã o C oca m a n o se n ti-d o ti-d e p ovo trib a l. O s C oca m a trib a is e xistia m n o p a ssa ti-d o, e sã o os a nce s-tra is d os C oca m a con te m p orâ n e os. Situ a d a e n tre p ovo trib a l e e ss-tra n g e i-ros, e ssa g e n te d e h oje n ã o é n e m u m a coisa n e m ou tra .

(15)

“ Está , a liá s, fora d e d ú vid a , d e sd e a d e scob e rta d a s An tilh a s, h a b ita d a s n o

sé cu lo XVIp or in d íg e n a s k a rib , cu ja s m u lh e re s a te sta va m a in d a , p e la su a

lín g u a e sp e cia l, su a s orig e n s a ru á k , q u e p roce ssos d e a ssim ila çã o e d issim

i-la çã o socia is n ã o sã o in com p a tíve is com o fu n cion a m e n to d a s socie d a d e s

ce n tro e su l-a m e rica n a s. […] M a s, com o n o ca so d a s re la çõe s e n tre a g u e rra

e o com é rcio, os m e ca n ism os con cre tos d e ssa s a rticu la çõe s fica ra m p or m u

i-to te m p o d e sp e rce b id os” (Lé vi-Stra u ss 1976:338).

O fa to d e os C oca m a con te m p orâ n e os u sa re m te rm os com o “ e stra n g e iros” e “ trib a is” p a ra g e ra r su a s re la çõe s socia is re fle te a p e n a s a con -tin g ê n cia h istórica d e q u e e sse s te rm os e stã o à m ã o n o a m b ie n te socia l on d e , p re se n te m e n te , e le s se e n con tra m .

N ã o h á e sp a ço a q u i p a ra u m a d iscu ssã o e xte n sa d a h istória coca m a , m a s e xiste m e vid ê n cia s su g e stiva s d e q u e o fe n ôm e n o “ e x-C oca m a ” é b a sta n te a n tig o. Em 1845, Pa u l M a rcoy visitou os C oca m a . M a rcoy e ra u m e xce le n te ob se rva d or, e a tra vé s d e se u s olh os e n xe rg a m os os C oca -m a , d e fin itiva -m e n te , e -m se u tod o e sp le n d or a n ce stra l. Ele e scre ve u :

“ Disse m os q u e tod os os in d ivíd u os d a ra ça coca m a , h á m u ito b a tiza d os e

b a sta n te cristã os, m u d a ra m se u s tra je s a o m e sm o te m p o q u e su a s cre n ça s,

ve stin d o ca lça s e ca m isa s e u rop é ia s. Alé m d isso, n a d a re sta d os a n tig os

costu m e s d e ssa n a çã o, e se u s a costu a is re p re se n ta n te s a p a g a ra m tã o e xte n sa m e n

-te su a m e m ória q u e m e é im p ossíve l ob -te r, d e sse s costu m e s, q u a lq u e r n

o-çã o. A lín g u a d e se u s p a is é a ú n ica e vid ê n cia d o p a ssa d o q u e os C oca m a

con se rva ra m , e e ssa lín g u a , já a lte ra d a p e lo con ta to d iá rio com os b ra sile iros

a le ste e os p e ru a n os a oe ste , e stá a m e a ça d a d e d e sa p a re ce r com o tu d o o

m a is” (M a rcoy 1869, II:230).

C e rca d e 120 a n os se p a ra m a s ob se rva çõe s d e M a rcoy d a q u e la s d e La th ra p , e isso é , p a ra q u a se tod os os p a d rõe s, u m te m p o b a sta n te lon g o. De on d e p roce d e e ssa n otá ve l con tin u id a d e n a re a çã o d os ob se rva d ore s d os C oca m a ?

(16)

-n a ? O s Tu p i-n a m b á m ovia m -se m u itíssim o, m a s -n i-n g u é m ja m a is a ve -n tou a p ossib ilid a d e d e q u e te ria m se d e sloca d o p a ra tã o lon g e .

G re g Urb a n (1996) p rop ôs, re ce n te m e n te , u m a in trig a n te solu çã o p a ra e sse p rob le m a , su g e rin d o q u e a lín g u a coca m a q u e com e çou a d e -sa p a re ce r e n tre os sé cu los XIXe X Xjá n ã o se ria a lín g u a coca m a orig i-n a l, m a s sim , e fe tiva m e i-n te , o tu p ii-n a m b á . Ele a rg u m e i-n ta q u e , i-n o fii-n a l d o sé cu lo XVIe com e ço d o XVII, os C oca m a te ria m a d ota d o o tu p in a m b á co-m o lín g u a d e coco-m é rcio, d e co-m od o q u e o coca co-m a con stitu iria , p orta n to, o p rim e iro d ia le to d a Lín g u a G e ra l, a lín g u a fra n ca d a Am a zôn ia b ra sile ira b a se a d a n o tu p in a m b á . N o ca so coca m a , e ssa lín g u a d e com é rcio a ca b ou p re va le ce n d o e torn ou -se u m a lín g u a m a te rn a . A h ip óte se d e Urb a n é in-te ira m e n in-te ra zoá ve l e , se corre ta , su g e re q u e o fe n ôm e n o e x-C oca m a , co-m o u co-m p roce sso d e tra n sforco-m a çã o d o fico-m d o sé cu lo XX, con siste e m u m ti-p o d e ti-p roce sso socia l já e xti-p e rim e n ta d o ti-p e los a n ce stra is re m otos d e se u s a tu a is p rota g on ista s.

Peruanos

La th ra p d izia , d os C oca m a d e J u a n cito, q u e e le s “ con sid e ra m se re p re se n ta n te s típ icos d a cu ltu ra p e ru a n a e ofe n d e rse ia m se lh e s ch a m á sse m os ín d ios” (1970:17). N ã o p osso im a g in a r n in g u é m n a Am a zôn ia p e rua -n a d ize -n d o a lg o com o “ som os típ icos re p re se -n ta -n te s d a cu ltu ra p e ru a -n a ” . Posso, con tu d o, con ce b e r o se g u in te ce n á rio: d ia n te d e u m a n trop ólog o a m e rica n o q u e lh e s p e rg u n ta se sã o in d íg e n a s, o p ovo d e J u a n cito o n e g a -ria , e se e n tã o p e rg u n ta d os q u e m sã o (“ ¿Q u é cla se d e g e n te son Ud s., e n-ton ce s?” ), re sp on d e ria m m u ito p ossive lm e n te , “ som os p e ru a n os, n o m á s” . Ta l a firm a çã o te m , n o con te xto, u m a ob vie d a d e p ra g m á tica . Visto q u e , com o m ostre i, a id e n tid a d e d e “ e stra n g e iro” te m a lta sa liê n cia socia l p a ra os C oca m a , a e stra n e id a d e d e La th ra p os te ria in te re ssa d o, e se você n a sce u e foi cria d o n o Uca ya li, n ã o é d e su rp re e n d e r q u e se ch a m e d e “ p e -ru a n o” Se , a d e m a is, você n ã o q u e r se ve r ofe n d id o p or n ova s p e rg u n ta s q u a n to a se é in d íg e n a ou n ã o, você p od e b e m re sp on d e r q u e é “ a p e n a s p e ru a n o” .

(17)

(SIL). N o fin a l d a d é ca d a d e 40, o Esta d o p e ru a n o, p or com p lica d a s ra zõe s g e op olítica s, e n tre g ou e fe tiva m e n te o con trole d e q u a se tod os os a sp e ctos d e su a s re la çõe s com os p ovos in d íg e n a s a m a zôn icos a e ssa org a n iza -çã o. O SIL, e m troca d a p e rm issã o p a ra tra b a lh a r com a Bíb lia e tra d u zi-la p a ra tod a s a s lín g u a s in d íg e n a s d a á re a , con cord ou e m e n ca rre g a r-se d e e d u ca r os in d íg e n a s e , p rin cip a lm e n te , d e e d u cá los com o cid a d ã os p e -ru a n os (ve r Stoll 1982).

O SILtin h a su a p róp ria a g e n d a , a sa b e r, a tra d u çã o d a Bíb lia p a ra to-d a s a s lín g u a s h u m a n a s con h e cito-d a s, e com p re e n to-d ia e ssa e stra n h a m issã o e m te rm os a fe ta d os p e la a n trop olog ia cu ltu ra l a m e rica n a : u m a lín g u a d istin ta im p lica va u m p ovo d istin to com u m a cu ltu ra d istin ta . Sh e ll e Wise ofe re ce m a ssim a se g u in te d e fin içã o: “ […] o te rm o ‘g ru p o id iom á tico’ re -fe re -se a u m g ru p o é tn ico cu ja lín g u a se d istin g u e d a s d e m a is: a ) p orq u e n ã o é com p re e n síve l p a ra os fa la n te s d e ou tra s lín g u a s; b ) p orq u e se u sis-te m a fon ológ ico d e m a n d a u m a lfa b e to d istin to” (1971:9).

O s C oca m a a p re se n ta va m u m p rob le m a p a ra o SIL, visto q u e p ou ca s p e ssoa s, e xce to os m a is ve lh os, n ã o-a lfa b e tiza d os, fa la va m a lín g u a . Foi d e cid id o q u e n ã o va lia a p e n a tra d u zir a Bíb lia p a ra e le s. O s C oca m a , d e su a p a rte , ta m p ou co tin h a m in te re sse n a e d u ca çã o b ilín g ü e5. C on se q ü e n

te m e n te , n a s con d içõe s p olítica s d os a n os 50 e 60, e m b ora e stive sse m e n -tre os m a is n u m e rosos g ru p os in d íg e n a s d a re g iã o, os C oca m a n ã o tin h a m se u statu s d e in d íg e n a s re con h e cid o p e lo SILe , p orta n to, p e lo Esta d o p e -ru a n o.

N ã o é a b solu ta m e n te m in h a in te n çã o, e n tre ta n to, su g e rir q u e o SIL ou a n a çã o p e ru a n a se ja m ca p a ze s d e “ in te rp e la r” os C oca m a com o “ e xC oca m a ” , p a ra u sa r a s ca te g oria s a lth u sse ria n a s q u e p a re ce m in con scie n -te m e n -te su b ja ce n -te s a ta n ta s d iscu ssõe s su p osta m e n -te fou ca u ltia n a s d a id e n tid a d e e m a n trop olog ia . Em lu g a r d isso, a cre d ito q u e os te rm os e re -la çõe s im p lica d os e m ta is in te rp e -la çõe s in stitu cion a is se cru za m se m p re , n e ce ssa ria m e n te , com os te rm os e re la çõe s q u e se u s a lvos con sid e ra m sig n ifica tivos e m su a s p róp ria s vid a s. N o ca so p re se n te , in te rp e la çõe s in s-titu cion a is p e lo SILou p e lo Esta d o cru za ra m se d e cisiva m e n te com a s ca -te g oria s coca m a d e m a n e ira s q u e n ã o h a via m sid o p re vista s p or a q u e la s a g ê n cia s.

(18)

a os olh os coca m a . Tod a te n ta tiva p or p a rte d o Esta d o p e ru a n o, ou p or a ntrop ólog os e m ission á rios, d e fa ze r os C oca m a re a firm a re m su a id e n tid a -d e in -d íg e n a -d e se m b ocou e m u m -d iá log o -d e su r-d os. An trop ólog os e m is-sion á rios in te rp re ta ra m a re cu sa coca m a d a id e n tid a d e in d íg e n a com o te n ta tiva s d e m á -fé d e p assin g , e n q u a n to os C oca m a , p or su a ve z, d e -ve m te r e scu ta d o ta is su g e stõe s com o a firm a çõe s d e q u e e le s e ra m “ tri-b a is” e d e q u e , p orta n to, tod a su a h istória d e con stru çã o com u n itá ria n ã o te ria , d e fa to, ocorrid o (ve r Stock s 1981 e a d iscu ssã o d o ca so coca m illa e m G ow 1993).

N e ssa n ova b a ta lh a e m torn o d e id e n tid a d e s, os C oca m a p a re ce m , tod a via , te r a g ora tom a d o a ofe n siva . C on sta n te m e n te p re ssion a d os p a ra se a u tod e fin ire m , e m u ito re lu ta n te s e m se torn a re m u m “ p ovo trib a l/ in -d íg e n a ” e e sq u e ce r a ssim su a h istória , e le s a p ossa ra m -se -d e u m n ovo n o-m e , “ p e ru a n os” . C oo-m o vio-m os, n oo-m e s tê o-m su a io-m p ortâ n cia n a Ao-m a zôn ia p e ru a n a , e a s re la çõe s socia is n a re g iã o p od e m se r ca ra cte riza d a s com o d e u m a g u e rra on om á stica e n d ê m ica , n a q u a l sob re n om e s p e rd e m p e so con form e su a s con ota çõe s d e “ e stra n e id a d e ” se vê e m con ta m in a d a s p or ou tra s d e orig e m a u tócton e . O s b ra n cos m a n tê m a “ e le va çã o” d e se u so-b re n om e a firm a n d o a p u re za d e su a “ e stra n e id a d e ” . Isto, é cla ro, os e x-p õe à a cu sa çã o d e q u e sã o, d e fa to, b a sica m e n te “ e stra n g e iros” , n o n ovo e p e rig oso se n tid o d e “ n ã o re a lm e n te p e ru a n os” . Pois se r “ n ã o re a lm e n -te p e ru a n o” con sis-te e m u m a p osiçã o d e scon fortá ve l e m u m p e ríod o d e cre sce n te n a cion a liza çã o d o cotid ia n o n a Am a zôn ia p e ru a n a d o fim d e sé cu lo XX.

N a m e d id a e m q u e cre sce a p re ocu p a çã o d o Esta d o e m fa ze r d e se u s cid a d ã os a m a zôn icos b on s p e ru a n os, a b re se p a ra a s p e ssoa s d e “ sob re -n om e h u m ild e ” a p ossib ilid a d e d e u m -n ovo rou n d n a b a ta lh a on om á sti-ca , re con fig u ra n d o se u s “ sob re n om e s h u m ild e s” com o n om e s p e ru a n os, e a ssim a si m e sm os com o se n d o os ve rd a d e iros p e ru a n os. N a s p a la vra s d e u m in form a n te d e Re g a n : “ O s q u e tê m sob re n om e s e stra n g e iros h u -m ilh a -m a q u e le s d e n ós q u e tê m sob re n om e s p e ru a n os” . É u m a rg u m e n to a stu to, q u e os d e te n tore s d e sob re n om e s e le va d os te ria m g ra n d e d ificu l-d a l-d e e m re fu ta r, d a d a a im p ortâ n cia q u e con fe re m a su a s orig e n s e stra n -g e ira s. Aq u i, o q u e u m d ia foi u m n om e “ e stra n g e iro” , a sa b e r, “ p e ru a -n o” , é tom a d o com o u m a d e te rm i-n a çã o d o Eu p e rfe ita m e -n te e vid e -n te ... O s “ e xC oca m a ” e stã o, a ssim , e m via d e a p rop ria rse d a m a is im p orta n -te p osiçã o id e n titá ria d a re g iã o6.

(19)

-Pe te r G ow é p rofe ssor d e a n trop olog ia n a Un ive rsity of St. An d re w s, Escócia . É a u tor d e O f M ix e d Blood : Kin sh ip an d H istory in Pe ru v ian A m az on ia (1991) e A n A m az on ian M y th an d its H istory (2001).

d a s com os d a d os a rq u e ológ icos p a ra re ve la r con tin u id a d e s e p roce ssos cu ltu ra is u n iform e s n a re g iã o a o lon g o d e vá rios m ilh a re s d e a n os. Sob a a p a rê n cia d e a cu ltu ra çã o, a rg u m e n tou La th ra p , os “ e x-C oca m a ” d a va m con tin u id a d e a u m a lu ta d e m ilê n ios p or te rra a g ricu ltá ve l. Se n ã o e stou ce rto q u a n to a o con te ú d o e sp e cífico d a a n á lise d e La th ra p , con cord o com se u e scop o. O fe n ôm e n o “ e xC oca m a ” , e a a ssu n çã o d e ssa n ova id e n tid a -d e -d e “ a p e n a s p e ru a n os” , corre sp on -d e a u m p roce sso con tín u o e u n ifor-m e d e tra n sforifor-m a çã o d o O u tro n o Eu q u e d a ta , n a Aifor-m a zôn ia p e ru a n a , d e p e lo m e n os q u in h e n tos a n os, e é m u ito p rova ve lm e n te b e m m a is a n tig o.

Re ce b id o e m 15 d e se te m b ro d e 2002

Ap rova d o e m 15 d e n ove m b ro d e 2002

(20)

Not as

* M in h a re in te rp re ta çã o d os m a te ria is d iscu tid os n e ste a rtig o te ria sid o im-p ossíve l se m o tra b a lh o d os vá rios e tn óg ra fos d os C oca m a ; a d ívid a q u e g u a rd o p a ra com e le s é cla ra , m e sm o a li on d e m in h a a n á lise d ife re d a s su a s. Ag ra d e ço ta m b é m a Ed u a rd o Vive iros d e C a stro, Ed w a rd Sim p son , Fe rn a n d o Sa n tosG ra n e ro, C a rlos Fa u sto e a os p a rticip a n te s d o Frid a y M orn in g Se m in a r d o De p a rta -m e n to d e An trop olog ia d a Lon d on Sch ool of Econ o-m ics p or se u s co-m e n tá rios a ve rsõe s a n te riore s d e ste a rtig o.

1 À e xce çã o d e G ow (1991) e Ta ylor (1999).

2 O p re se n te a rtig o e ste n d e a a n á lise d a s socie d a d e s a m a zôn ica s com o

sis-te m a s h istorica m e n sis-te tra n sform a cion a is, d e se n volvid a e m m a ior d e ta lh e e m G ow (2001).

3 Ach u a l Tip ish ca é u m a com u n id a d e b a sta n te a típ ica p a ra os p a d rõe s C

oca m a / C ooca m illa , e xclu in d o re sid e n te s p e rm a n e n te s n ã ocooca m illa e se n d o la rg a -m e n te e n d óg a -m a .

4 Re g a n p u b licou u m a ou tra ve rsã o q u e n ã o se re fe re a e ste e p isód io (1993:

124-125).

5 A e tn og ra fia d e Stock s su g e re u m a ou tra p ossíve l d im e n sã o d a re sistê n cia

a o p roje to d o SIL, q u a n d o e le ob se rva q u e a lín g u a coca m illa é a ssocia d a a ca n tos e a çã o xa m â n icos (1981:143).

6 De vo e n fa tiza r q u e e sta a n á lise se b a se ia e m d a d os e tn og rá ficos cole ta d os

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Resumo

Este a rtig o a n a lisa a “ a cu ltu ra çã o” , u m con ce ito d e riva d o d a a n trop olog ia cu l-tu ra l, d o p on to d e vista d a a n trop olog ia socia l. O te rm o “ e x-C oca m a ” foi cu n h a d o p or a n trop ólog os cu ltu ra is p a ra d e n ota r a su p osta p e rd a ou re cu sa d a id e n tid a d e in d íg e n a p e los C oca m a d a Am a zôn ia p e ru a n a , q u e p a re ce ria m a ssim re p re se n ta r u m ca so clá ssico d e “a cu ltu ra -çã o” . Arg u m e n to, tod a via , q u e e ste ca so a p a re n te m e n te clá ssico é m e lh or com-p re e n d id o com o m a is u m e xe m com-p lo d a sociológ ica in d íg e n a a m a zôn ica , p ois re volve e m torn o d os te m a s d a se m e -lh a n ça e d a d ife re n ça , d a a fin id a d e p ote n cia l e d os p roce ssos on om á sticos e n con tra d os e m ou tra s socie d a d e s in d íg e -n a s d a re g iã o. Essa co-n ti-n u id a d e d e e s-tru tu ra n o se io d e u m a tra n sform a çã o ra d ica l le va n ta p ois q u e stõe s sob re a n a -tu re za d a h istória a m a zôn ica q u e fora m ob scu re cid a s p e lo con ce ito d e a cu ltu ra -çã o.

Palavras-chave C o ca m a , e x-C oca m a , Am a zôn ia , Acu ltu ra çã o, An á lise Socia l

Abst ract

Th e a rticle a n a lyse s ‘a ccu ltu ra tion ’, a con ce p t d e rivin g from cu ltu ra l a n th ro-p olog y, from a socia l a n th roro-p olog ica l p e rsp e ctive . Th e te rm ‘e x-C oca m a ’ w a s coin e d b y cu ltu ra l a n th rop olog ists to d e n ote th e su p p ose d loss or re fu sa l of a n in d ig e n ou s id e n tity b y th e C oca m a p e op le of Pe ru via n Am a zon ia . Th e se p e op le th e re fore se e m to re p re se n t a cla ssic ca se of ‘a ccu ltu ra tion ’. Th e a rticle a rg u e s, h ow e ve r, th a t th is a p p a r -e n tly cla ssica l -e xa m p l-e of a ccu ltu ra tion is b e tte r u n d e rstood a s ye t a n oth e r e x-a m p le of x-a n in d ig e n ou s Am x-a zon ix-a n so-ciolog ic, for it is m a d e ou t of cla ssica l th e m e s of sa m e n e ss a n d d iffe re n ce , p o-te n tia l a ffin ity a n d on om a stic p roce sse s a s oth e r in d ig e n ou s Am a zon ia n soci-e tisoci-e s. Th is con tin u ity of stru ctu rsoci-e w ith in ra d ica l tra n sform a tion th e re fore ra ise s q u e stion s a b ou t th e n a tu re of Am a zon -ia n h istory, q u e stion s th a t h a ve sim p ly b e e n ob scu re d b y th e ve ry con ce p t of a ccu ltu ra tion .

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