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Mana vol.3 número1

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Academic year: 2018

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(1)

N o rom a n ce Te n d a d os M ilag re s, d e J org e Am a d o (1971), Pe d ro Arca n jo, e tn óg ra fo form a d o n a s ru a s d a Ba h ia , e stá tom a n d o se u ca fé d a m a n h ã , com in h a m e e cu scu z d e ta p ioca , q u a n d o se d e p a ra com u m a m oça d e olh os a zu is e ca b e los d ou ra d os, Kirsi, q u e a ca b a va d e d e sce r d e u m n a vio ca rg u e iro su e co. A sire n e d o n a vio toca , ch a m a n d o su a p a ssa g e ira e xtra -via d a , e e n tã o p a rte , se m e la ; Arca n jo lh e d iz q u e se fize re m ju n tos u m filh o h om e m , e le se rá o m a is in te lig e n te e o m a is cora joso q u e ja m a is e xistiu : u m re i d a Esca n d in á via ou u m p re sid e n te d o Bra sil. Se a cria n ça fosse m e n in a , n e n h u m a ou tra a ig u a la ria , e m g ra ciosid a d e e b e le za .

N ã o e n con tra m os n o livro m u ita coisa m a is a re sp e ito d a m oça , Kirsi q u e , se is m e se s d e p ois, p a rte e m ou tro n a vio. C e rta m e n te n ã o p a ssa d e coin cid ê n cia q u e , a n os a p ós a p u b lica çã o d o rom a n ce d e J org e Am a d o, h ou ve sse d e fa to u m a ra in h a d a Su é cia d e orig e m b ra sile ira . M a s, a re s-p e ito d e Pe d r o Arca n jo, som os in for m a d os d e q u e e le s-p a ssou se u s s-p ri-m e iros a n os via ja n d o e q u e e ra u ri-m filh o d e Exu , trick ste r ri-m ítico e se n h or d a s e n cru zilh a d a s. O e n con tro in e sp e ra d o e n tre Kirsi e Pe d ro Arca n jo é u m e n con tro d e p e ssoa s ta n to q u a n to d e ra ça s, con tin e n te s e cu ltu ra s.

“ N a s vizin h a n ça s d o Pe lou rin h o” , a ssim com e ça Te n d a d os M ilag re s, “ n o cora çã o d a Ba h ia , o m u n d o in te iro e n sin a e a p re n d e [...]” . Ta lve z se ja p re ciso, a q u i, u m a ce rta ca u te la , p orq u e o rom a n ce ta m b é m fa z u m d ive r-tid o e n ã o m e n os d e va sta d or re tra to d e ou tro e n con tro, o d o sa b e r loca l com a via ja n te te oria a ca d ê m ica in te rn a cion a l. É b e m ve rd a d e , p oré m , q u e , n a Ba h ia d e J org e Am a d o, os a n trop ólog os p a re ce m d e scob rir m u ito d o q u e h oje a n d a m p rocu ra n d o, ta n to n a vid a q u a n to n a e tn og ra fia .2

N os ú ltim os te m p os, e m ve z d e b u sca rm os a con forta d ora in tim id a -d e -d a vi-d a p rovin cia n a , te m os -d e b a ti-d o a -d istâ n cia cu ltu ra l q u e se p a ra n a vio e te rra firm e , e a s m a n e ira s d e a tra ve ssá -la . Flu xo, m ob ilid a d e , re com b in a çã o e e m e rg ê n cia torn a ra m -se te m a s fa voritos à m e d id a q u e a g lob a liza çã o e a tra n sn a cion a lid a d e p a ssa ra m a for n e ce r os con te xtos

FLUXOS, FRON TEIRAS, HÍBRIDOS:

PALAVRAS-CHAVE DA AN TROPOLOGIA

TRAN SN ACION AL

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p a ra n ossa re fle xã o sob re a cu ltu ra . H oje p rocu ra m os loca is p a ra te sta r n ossa s te oria s on d e p e lo m e n os a lg u n s d os se u s h a b ita n te s sã o criou los, cosm op olita s ou cy b org s, on d e a s com u n id a d e s sã o d iá sp ora s e a s fron -te ira s n a re a lid a d e n ã o im ob iliza m m a s, cu riosa m e n -te , sã o a tra ve ssa d a s. Fre q ü e n te m e n te é n a s r e g iõe s fron te iriça s q u e a s coisa s a con te ce m , e h ib rid e z e cola g e m sã o a lg u m a s d e n ossa s e xp r e ssõe s p re fe rid a s p or id e n tifica r q u a lid a d e s n a s p e ssoa s e e m su a s p rod u çõe s.

M a s a í n os p e rg u n ta m os, o q u e h á d e re a lm e n te n ovo e m tu d o isso? N ã o q u e ro e n tra r a q u i n a d iscu ssã o se a g lob a liza çã o é e m si u m a coisa re ce n te ou n ã o. É cla ro q u e os a n tig os g re g os tin h a m id é ia s p róp ria s a re sp e ito d e u m e cú m e n o q u e ia d e sd e o Atlâ n tico e u rop e u a té o d ista n te Le ste Asiá tico, e a n oçã o d e u m m u n d o ca d a ve z m a is in te rlig a d o te m -n os p e rse g u id o d e sd e o i-n fa -n te Dom H e -n riq u e , o N a ve g a d or, a té M a rs-h a ll M cLu rs-h a n , e ou tros. Só q u e n e m se m p re se tra ta d a m e sm a g lob a li-za çã o; é p re ciso, a n te s d e m a is n a d a , p e riod izá -la3.

Este a rtig o se ocu p a m a is im e d ia ta m e n te com o lu g a r d a g lob a liza -çã o n a h istória d a s id é ia s a n trop ológ ica s. Em su a a u la in a u g u ra l n a Un i-ve rsid a d e d e C a m b rid g e , n ã o fa z m u ito te m p o, M a rilyn Stra th e r n (1995:24) ob se rvou q u e , a o a p roxim a r-se u m n ovo fin d e siè cle , “ à s ve ze s p a re ce m os e sta r m a is p e rto d o in ício d o sé cu lo d o q u e d e su a m e ta d e ” ; q u e r d ize r, os a n trop ólog os tê m volta d o à s q u e stõe s d a cu ltu ra m a te ria l e d a te cn olog ia e , à g u isa d e u m in te re sse n a g lob a liza çã o, ta m b é m re to-m a ra to-m e to-m ce rta to-m e d id a o te to-m a d a d ifu sã o.

A d e scon tin u id a d e d os te m a s d e in te re sse ta lve z se ja m a is ve rd a -d e ira n o ca so -d a te cn olog ia . Q u a n to à s in te rcon e xõe s cu ltu ra is n o e sp a ço e à a tu a l re org a n iza çã o d a d ive rsid a d e cu ltu ra l n o m u n d o, é p ossíve l q u e e la s n ã o te n h a m , d e fa to, re ce b id o m u ita a te n çã o p or p a rte d a corre n te m a joritá ria d a d iscip lin a q u e te n d e a d e scre ve r a s cu ltu ra s com o e stá ve is ou lim ita d a s; e m b ora e u a cre d ite se r p ossíve l a rg u m e n ta r q u e e sse s fa tos n u n ca e stive ra m d e tod o a u se n te s d a s p r e ocu p a çõe s d a a n tr op olog ia , m e sm o q u e te n h a m a p a re cid o sob os m a is va ria d os d isfa rce s con ce itu a is.

(3)

m a lin ow sk ia n os, te n d o d e rrota d o os d ifu sion ista s n a b a ta lh a a ca d ê m ica , p la n e ja ra m se m m u ito e n tu sia sm o su a s p róp ria s e stra té g ia s p a ra o e stu -d o -d o “ con ta to cu ltu ra l”4. As te oria s d a m od e rn iza çã o e d a d e p e n d ê n cia , la n ça d a s p ou co d e p ois d o p ós-g u e rra , n ã o p a re cia m m u ito a p rop ria d a s a os q u e se in te re ssa va m p e la cu ltu ra e su a s va ria çõe s, a ssim com o ta m -b é m n ã o o e ra a te oria d o siste m a m u n d ia l d a d é ca d a d e 70, a in d a q u e re p re se n ta sse m u m ce rto e stím u lo p a ra os q u e se in clin a va m n a d ire çã o d e u m a a n trop olog ia d a in te rcon e xã o d e cu ltu ra s. E, e n tã o, n ova m e n te , p or volta d a ú ltim a d é ca d a , a g lob a liza çã o e a tra n sn a cion a liza çã o torn a -ra m -se u m n ovo foco d e p e sq u isa s.

A m a n e ira com o h oje fa la m os sob r e a cu ltu ra e m flu xo, sob r e a s re g iõe s on d e a s cu ltu ra s se e n con tra m e d os a g e n te s e p rod u tos d a m istu -ra cu ltu -ra l é , e m ce r tos a sp e ctos, d ife r e n te a té d a a n tr op olog ia d e d e z a n os a trá s. M a s ta lve z p ossa m os a in d a ou vir a q u i os e cos d a h istória d e tip o stotip g o, on off, d a s a n tig a s a n trotip olog ia s d a in te rcon e xã o, tip a rcia lm e n -te d e svin cu la d a s e n tr e si a o lon g o d o -te m p o. A lin g u a g e m m u tá ve l d a a n trop olog ia ta lve z re ve le u m p ou co d o q u e n os sob rou n a m e m ória , u m p ou co d o q u e ficou q u a se e sq u e cid o, u m p ou co d o q u e foi re in ve n ta d o.

Pa sse m os e n tã o d a Te n d a d os M ilag re s p a ra u m ou tro livro. C e rca d e vin te a n os a trá s, o in g lê s Ra ym on d Willia m s (1976), te órico lite rá rio e crítico cu ltu ra l, p u b licou u m p e q u e n o livro ch a m a d o Ke y w ord s, q u e tra zia o su b títu lo d e A Vocab u lary of Cu ltu re an d S ocie ty . Ali, Willia m s e xa -m in a va p ou co -m a is d e ce -m con ce itos ce n tra is d o d iscu rso d o sé cu lo XX, com tod a a su a com p le xid a d e a cu m u la d a h istorica m e n te . É cu rioso n ota r q u e h á d u a s d é ca d a s a p a la vra “ g lob a liza çã o” n ã o con sta va d a lista d a s p a la vra s-ch a ve . En tre a s e scolh a s fe ita s p or Willia m s, ta lve z p ossa m se r e n con tra d os te rm os a p roxim a d os, com o “ civiliza çã o” , “ im p e ria lism o” , “ h u m a n id a d e ” , “ m íd ia ” e “ tra d içã o” . M a s tive sse Willia m s sob re vivid o p a ra re ve r se u livro h oje e ce rta m e n te te ria p e n sa d o q u e “ g lob a liza çã o” d e ve ria fa ze r p a rte d e su a lista .

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d e p a rte d o voca b u lá rio re ce n te q u e ire i e xa m in a r, e ssa s n oçõe s sã o m e ta -fórica s, d e ce rto m od o p rovisória s, ta lve z u m p ou co im p re cisa s ou a m b í-g u a s, e p or isso m e sm o su je ita s a con te sta çõe s. Ta is p a la vra s ch a m a m a a te n çã o q u a n d o e xa m in a m os com n ovos olh os o m u n d o q u e n os ce rca , p orq u e p a re ce m p rop orcion a r u m a p e rce p çã o im e d ia ta d e a lg u m a q u a li-d a li-d e e sse n cia l li-d o q u e q u e r q u e se e ste ja tra ta n li-d o. É p ossíve l q u e a s m e tá fora s n ã o te n h a m m u ito a ve r com u m “ p on to d e vista n a tivo” (e m b o-ra a lg u n s n a tivos p ossa m g osta r d e la s q u a n d o a s e n con to-ra m , ou tros n ã o). Acim a d e tu d o, e la s fa la m à n ossa p róp ria e xp e riê n cia a n te rior, torn a n -d o-a u m in stru m e n ta l con ce itu a l p r ovisório. M a s ta lve z p r e cise m os ir a lé m d e la s, re fin a n d o se u s a rg u m e n tos im p lícitos e id e n tifica n d o su a s a m b ig ü id a d e s. Le m b ro-m e d o clá ssico e n sa io d e G re g ory Ba te son (1972: 73 e ss.) sob re com o p e n sa r os m a te ria is e tn ológ icos, n o q u a l e le d izia q u e , d u ra n te u m a p rim e ira fa se d e re fle xã o a ce rca d os Ia tm u l d a N ova G u in é , p a re ce ra -lh e ú til con tra sta r, d e m od o a in d a b a sta n te g rosse iro, socie d a d e s e stru tu ra d a s com o g e la tin a s ou a n ê m on a s d o m a r e socie d a -d e s e stru tu ra -d a s com o m in h oca s ou la g osta s. A p a rtir -d e ssa in tu içã o, e le p ôd e p a ssa r p a ra for m u la çõe s in te le ctu a lm e n te m a is d om e stica d a s. É p ossíve l q u e , e m n ossa re fle xã o a ce rca d a g lob a liza çã o, a in d a e ste ja m os n u m a fa se d e p a la vra s u m ta n to in d om a d a s.

Flu xos, lim ite s, h íb rid os, é d isso q u e ire m os tra ta r, te ce n d o com e n tá rios sob re os lu g a re s q u e e sse s te rm os ocu p a ra m n o p a ssa d o, ou ocu -p a m n o -p re se n te , e m n ossos ca m b ia n te s h á b ita ts d e sig n ifica d os, à s ve ze s n a h istória d a a n trop olog ia , ou tra s ve ze s e m u m a p a isa g e m con ce itu a l in te rd iscip lin a r. M a s e ssa s trê s p a la vra s tê m com o vizin h os p róxim os ou tros con ce itos d e n a tu re za sim ila r q u e ta lve z m e re ça m u m b re ve com e n -tá rio.

Fluxos

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N ã o h á d ú vid a d e q u e a im p ortâ n cia a ssu m id a p e la s vá ria s a ce p çõe s d e flu xo n a a n trop olog ia in sp ira -se n os u sos con ve rg e n te s ve rifica d os e m ou tra s á re a s d a s ciê n cia s socia is. Q u a n d o, e m 1988, a p a r e ce u a n ova re vista Pu b lic Cu ltu re , in te rd iscip lin a r m a s te n d o n a a n trop olog ia , ta lve z, o se u ce n tro d e g ra vid a d e , se u s e d itore s p od ia m d e cla ra r q u e d e se ja va m “ cria r u m fóru m in te le ctu a l p a ra a in te ra çã o d a q u e le s q u e lid a va m com flu xos cu ltu ra is g lob a is” . E q u a n d o u m d e sse s in te re ssa d os, Arju n Ap p a -d u ra i, p rop ôs q u e se olh a sse p a ra a “ e con om ia cu ltu ra l g lob a l” com o e n volve n d o a s cin co d im e n sõe s d e e th n oscap e s, m e d iascap e s, te ch n os-cap e s, fin an sos-cap e s e id e osos-cap e s* — p od e -se te r u m a id é ia d os p a ra le los com form u la çõe s m a is a m p la s ta is com o a s d e La sh e Ur ry (Ap p a d u ra i 1990; ve r, ta m b é m , Ap p a d u ra i 1995). “ Flu xo” , com o vá ria s ou tra s p a la vra sch a ve e xa m in a d a s n e ste a r tig o, a p on ta , p or ta n to, p a ra u m a m a -croa n trop olog ia , u m p on to d e vista b a sta n te a b ra n g e n te d a coe rê n cia (re la tiva ) e d a d in â m ica d e e n tid a d e s socia is e te rritoria is m a iore s d o q u e a q u e la s con ve n cion a lm e n te a b ord a d a s p e la d iscip lin a .

Pod e se r q u e a a n trop olog ia d o p a ssa d o n ã o te n h a fe ito u m u so m u i-to siste m á tico d a n oçã o d e flu xo, m a s isso n ã o q u e r d ize r q u e se tra te d e u m a n ovid a d e d os ú ltim os a n os6. Ve ja m os d u a s cita çõe s d e Alfre d Kroe b e r, u m a fig u ra a n ce stra l q u e n ã o te m ia p e n sa r a cu ltu ra e m g ra n d e e sca -la . Kroe b e r ce n su rou Sp e n g le r p or n e g lig e n cia r “ o in te rflu xo d e m a te ria l cu ltu ra l e n tr e civiliza çõe s” (Kr oe b e r 1952:154). E a cr e sce n tou q u e se d e ve ria e xa m in a r a s civiliza çõe s “ n ã o com o ob je tos e stá ticos, m a s com o p roce ssos lim ita d os d e flu xo n o te m p o” (Kroe b e r 1952:404).

A ra zã o p e la q u a l ju sta p on h o e ssa s d u a s cita çõe s d e Kroe b e r é q u e e la s d e m on stra m com o a n oçã o d e flu xo p od e r e a lm e n te se r u sa d a d e d u a s m a n e ira s. A p rim e ira p a re ce m a is a fin a d a com o u so corre n te , re fe -rin d o-se a o d e sloca m e n to d e u m a coisa n o te m p o, d e u m lu g a r p a ra ou tro, u m a re d istrib u içã o te rritoria l. Isso d e fa to p a re ce se r u m a form a d e re in -trod u zir a id é ia d e d ifu sã o, se m a n e ce ssid a d e d e re corre r a e ste te rm o a p a re n te m e n te fora d e m od a . A se g u n d a é e sse n cia lm e n te te m p ora l, se m im p lica çõe s e sp a cia is n e ce ssá ria s7.

Esse d u p lo se n tid o a in d a e stá m u ito p r e se n te e n tre n ós. An os a trá s, q u a n d o e u ta m b é m re se rve i a o con ce ito d e flu xo u m e sp a ço sig n ifica tivo e m m e u livro Cu ltu ral Com p le x ity (1992), e sta va b a sica m e n te in te re ssa -d o n a -d im e n sã o te m p ora l, n u m a com p re e n sã o -d a cu ltu ra com o p roce sso. Q u e ria e n fa tiza r q u e a p e n a s p or e sta re m e m con sta n te m ovim e n to, se n

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d o se m p re re cria d os, é q u e os sig n ifica d os e a s for m a s sig n ifica tiva s p od ia m torn a rse d u ra d ou ros. Le va r o p roce sso a sé rio q u e r d ize r ta m -b é m m a n te r a s p e ssoa s n e sse q u a d ro. E, p a ra m a n te r a cu ltu ra e m m ovi-m e n to, a s p e ssoa s, e n q u a n to a tor e s e re d e s d e a tor e s, tê ovi-m d e in ve n ta r cu ltu ra , re fle tir sob re e la , fa ze r e xp e riê n cia s com e la , re cord á la (ou a rm a -ze n á -la d e a lg u m a ou tra m a n e ira ), d iscu ti-la e tra n sm iti-la .

Essa m e sm a ê n fa se p roce ssu a l e ra o q u e J oh a n n e s Fa b ia n (1978:329) tin h a e m m e n te q u a n d o e scre ve u , jocosa m e n te , sob re “ u m a liq u id a çã o, lite ra lm e n te fa la n d o, d o con ce ito d e cu ltu ra ” — é ve r d a d e q u e , m a is re ce n te m e n te , a lg u n s a n trop ólog os p e n sa ra m e m liq u id a r o con ce ito d e cu ltu ra n u m se n tid o m u ito d ife r e n te (ve r, p . e x., Ab u -Lu g h od 1991 e In g old 1993). E Fre d rik Ba rth (1984:8082), e la b ora n d o u m a in te rp re ta -çã o d o p lu ra lism o cu ltu ra l n u m a cid a d e d e O m a n , ta m b é m se ocu p ou d e u m a in te rp re ta çã o d a cu ltu ra e m te rm os p roce ssu a is, a com p a n h a n d o a visã o d e Fir th d e q u e a cu ltu ra é a lg o q u e a s p e ssoa s “ h e r d a m , u sa m , tra n sform a m , a d icion a m e tra n sm ite m ” . Ba rth ta m b é m ch a m ou a a te n -çã o p a ra con ce p çõe s d e tra d içõe s coe xiste n te s n a ob ra d e Re d fie ld e M a r-riott. Ta is con ce itos, d izia e le , “ d e ve ria m se r vir p a ra a ce n tu a r ta n to a s p rop rie d a d e s d e se p a ra b ilid a d e q u a n to a s d e in te rp e n e tra çã o q u e se in si-n u a m si-n a s im a g e si-n s d e corre si-n te s ou cu rsos d e á g u a d e si-n tro d e u m rio: visí-ve is, ca p a ze s d e tra n sp orta r ob je tos e cria r re d e m oin h os, m a s d e n itid e z a p e n a s re la tiva e e fê m e ra s e m su a u n id a d e ” .

Ba rth ta m b é m tra tou d o sig n ifica d o e sp a cia l d o flu xo, ob se r va n d o q u e a se p a ra b ilid a d e , a coe rê n cia e os con te ú d os d e co-tra d içõe s ta n to p od e ria m se r e xp lora d os e m su a d istrib u içã o g e og rá fica q u a n to e m su a org a n iza çã o socia l, h istória e p e rsp e ctiva s. N a m e d id a e m q u e e u p ró -p rio d e d iq u e i o ú ltim o ca -p ítu lo d e Cu ltu ral Com -p le x ity a o e xa m e d o n ovo in te re sse n a in te rcon e xã o cu ltu ra l g lob a l, ta m b é m a d ote i e m p a rte u m a con ce p çã o d os flu xos com o p rod u zid os n o e sp a ço — e m ce rto m om e n to re fe ri-m e a u m im a g in á rio “ flu xog ra m a cu ltu ra l g lob a l” (H a n n e r z 1992: 221).

Q u a is sã o e n tã o os tip os d e q u e stõe s im p lica d a s n a n oçã o d e flu xos d e cu ltu ra s? De sta co a q u i d ois p rob le m a s. Q u a n to à d im e n sã o e sp a cia l, e xa m in e m os p or u m m om e n to o m e n cion a d o flu xog ra m a . Um a sp e cto fu n d a m e n ta l d os flu xos é q u e e le s tê m d ir e çõe s. N o ca so d os flu xos d e cu ltu ra s, é ce rto q u e o q u e se g a n h a n u m lu g a r n ã o n e ce ssa ria m e n te se p e rd e n a orig e m . M a s h á u m a re org a n iza çã o d a cu ltu ra n o e sp a ço.

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ce n tro-p e rife ria , n a op in iã o d a m a ioria d os a n a lista s p oste riore s. H oje , n u m ce n á rio g lob a l d e flu xos, u m a p osiçã o d e p re p on d e râ n cia e q u iva -le n te corre sp on d e ria , d e m od o fig u ra d o, a u m a com b in a çã o e n tre N ova York , H ollyw ood e a se d e d o Ba n co M u n d ia l. Da í é q u e p od e m se orig i-n a r os flu xos. E se e le s se e xp a i-n d e m p or tod a p a rte , a u i-n iform id a d e cu l-tu ra l g lob a l p od e rá se r su a con se q ü ê n cia fin a l.

É cla ro q u e já h á a lg u m te m p o e ssa s im a g e n s d e ce n tros d om in a n te s d e sp e rta m p ou ca s sim p a tia s e n tre os a n trop ólog os. O g ru p o d e a ca -d ê m icos a m e rica n os (Broom , Sie g e l, Vog t e Wa tson 1954), q u e se re u n iu e m 1953 n o “ Se m in á rio d e Ve rã o sob re Acu ltu ra çã o” d o Socia l Scie n ce Re se a rch C ou n cil, ob se rvou q u e os a n trop ólog os, m ovid os “ p or u m se n ti-m e n to d e ju stiça e in d ig n a çã o ti-m ora l” , se ti-m p re se d e le ita ra ti-m e ti-m d e sco-b rir p rova s d a in flu ê n cia cu ltu ra l d os m a is fra cos sosco-b r e os m a is forte s. O títu lo d e u m livr o d a ta d o d e 1937, Th e S av ag e H its Back , e scrito p e lo e tn ólog o a le m ã o J u liu s Lip s, d á a e n te n d e r q u e a s orig e n s d e ssa p re ocu -p a çã o tã o a n tig a n a d isci-p lin a vê m d e m a is lon g e a in d a . M a is ou m e n os n a m e sm a é p oca , o livro clá ssico d e Ra lp h Lin ton (1936:326-327), fa la d e “ u m a m e rica n o ce m p or ce n to” . Acom p a n h a n d o a rotin a m a tin a l d e “ u m cid a d ã o a m e rica n o b e m e sta b e le cid o” , ch e g a se à con clu sã o d e q u e q u a -se n e n h u m d os ob je tos q u e e le u sa é r e a lm e n te d e orig e m a m e rica n a , e n q u a n to in ve n çã o cu ltu ra l; tra ta -se d e coisa s d a Ín d ia , d a Ale m a n h a , d a C h in a , d o O rie n te Próxim o e d e ou tros lu g a re s. Poré m , a o tom a r con h e cim e n to d os p rob le cim a s e stra n g e iros a tra vé s d a le itu ra d e se u jorn a l cim a tu -tin o, o p e rson a g e m d á g ra ça s “ a u m a d ivin d a d e h e b ra ica , n u m id iom a in d o-e u rop e u , p e lo fa to d e se r ce m p or ce n to a m e rica n o” .

Dé ca d a s m a is ta rd e , o te m a a in d a é fa cilm e n te re con h e cíve l. Te n d e m os a p re sta r m u ita a te n çã o n ã o só à m a n ip u la çã o a tiva d e flu xos cu ltu -ra is p or p a rte d os re ce p tore s, m a s ta m b é m à m u ltice n t-ra lid a d e , a os flu xos e n tre cru za d os e a os con tra flu xos. Q u a n d o le io Te n d a d os M ilag re s d e J org e Am a d o, fico fa scin a d o com su a m a n e ira d e re tra ta r a con tín u a in flu ê n -cia d a s a n tig a s corre n te s cu ltu ra is d a África O cid e n ta l, a tra vé s d o Atlâ n ti-co Su l, sob re a cu ltu ra p op u la r d a Ba h ia . H oje o te m a re a p a re ce ti-com re s-son â n cia s m a is ou m e n os p ós-m od e rn ista s e m ou tra s d iscip lin a s n a s q u a is p re d om in a a con ce p çã o d e q u e o m u n d o te n d e p a ra a d e sce n tra liza çã o (cf. La sh e Urry 1994:4). N u m a ótica se m e lh a n te , Ap p a d u ra i (1990:6) ch e-g a a o p on to d e a re-g u m e n ta r q u e a n ova ore-g a n iza çã o e-g lob a l d a cu ltu ra n ã o p od e se r e n te n d id a n os te rm os d os m od e los ce n tro-p e rife ria e xiste n te s, m e sm o d a q u e le s q u e a d m ite m m ú ltip los ce n tros e p e rife ria s.

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-rior d e q u e o e q u ilíb rio e n tr e flu xos é d e sig u a l (H a n n e r z 1991:107) — a p re se n ta com o e vid ê n cia con trá ria u m a va rie d a d e d e in stâ n cia s d e con -tra flu xos. Em visita a Lon d re s, e la d e scob re e xóticos b ric-à-b rac n a fe ira d e C a m d e n e a ssiste a u m a e xp osiçã o d e a rtista s a frica n os con te m p orâ -n e os; d e volta a O slo, d e scob re g ru p os d e e -n co-n tro te ra p ê u ticos q u e se b a se ia m n a s té cn ica s m a la ia s d e in te rp re ta çã o d e son h os8. Isso n ã o m e su rp re e n d e — os e xe m p los d e con tra flu xos já e stã o se torn a n d o u m ta n to ou q u a n to p re visíve is —, m a s con sid e r o q u e n ossa cr e d ib ilid a d e com o com e n ta rista s d a vid a h u m a n a con te m p orâ n e a p od e se r p re ju d ica d a se n ã o m a n tive rm os u m ce rto se n so d e m e d id a d a s coisa s. Alg u m a s re d e s d e a ssim e tria s d e flu xo d u ra n te o ú ltim o sé cu lo p a re ce m -m e in e g á ve is, p or e xe m p lo, n a d isse m in a çã o d e a lg u m a s h a b ilid a d e s fu n d a m e n ta is e form a s in stitu cion a is ce n tra is q u e d e n om in a m os cole tiva m e n te com o m od e rn id a d e ; é o ca so d e ce rtos tip os d e e d u ca çã o b á sica e su p e rior d e orig e m ocid e n ta l, p rá tica s a d m in istra tiva s ou b iom e d icin a (m e sm o q u a n -d o a -d ota -d a s -d e form a n ã o e xa ta m e n te ig u a l a o orig in a l).

É ve rd a d e q u e a h istória a cu m u la cor re n te s d e flu xo cu ltu ra l e m p a d rõe s ca m b ia n te s. Esse com p le xo d e a ssim e tria s tom ou form a sé cu los a trá s n a Eu rop a , e , te n d o-se a ce le ra d o n e ste sé cu lo, ta m b é m criou p or si m e sm o a lg u m a s d a s con d içõe s p a ra os p oste riore s con tra flu xos e flu xos e n tre cru za d os n o e sp a ço q u e h oje n os p a re ce m tã o a d m irá ve is. Du vid o, p oré m , q u e te n h a m os ch e g a d o a o p on to e m q u e se ja com p le ta m e n te im p ossíve l d istin g u ir os ce n tros d a s p e rife ria s.

Q u a n to a o ou tr o tip o d e q u e stõe s r e la tiva s a os flu xos, g osta ria d e volta r a o te m a d o te m p o e d o p roce sso. De sd e q u e com e ce i a re fle tir a q u i e m te rm os d e flu xo, ocorre u -m e , à m e d id a q u e e xa m in a va a s va ria çõe s n a org a n iza çã o d a cu ltu ra , q u e e sse te rm o fu n cion a va b e m com o m e tá fo-ra g e fo-ra d ofo-ra , n o se n tid o d e su scita r d e sd ob fo-ra m e n tos. N ã o se tfo-ra ta a p e n a s d e q u e a id é ia d e flu xo se op õe a o p e n sa m e n to e stá tico; e la in sin u a , a lé m d o m a is, a p ossib ilid a d e d e p e n sa r ta n to e m rios ca u d a losos q u a n to e m e stre itos ria ch os, ta n to e m corre n te za s isola d a s q u a n to e m con flu ê n cia s, “ re d e m oin h os” (com o d iz Ba rth a cim a ), a té m e sm o va za m e n tos e viscosi-d a viscosi-d e s n o flu xo viscosi-d e sig n ifica viscosi-d os.

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tra n q ü ilos d e m a is. C e rta m e n te n ã o se d e ve in te rp re tá -la com o u m a q u e s-tã o d e sim p le s tra n sp osiçã o, sim p le s tra n sm issã o d e form a s ta n g íve is ca r-re g a d a s d e sig n ifica d os in trín se cos. Ela d e ve se r vista com o orig in a n d o u m a sé rie in fin ita d e d e sloca m e n tos n o te m p o, à s ve ze s a lte ra n d o ta m b é m o e sp a ço, e n tre form a s e xte rn a s a ce ssíve is a os se n tid os, in te rp r e ta -çõe s e , e n tã o, form a s e xte rn a s n ova m e n te ; u m a se q ü ê n cia in in te rru p ta ca rre g a d a d e in ce rte za s, q u e d á m a rg e m a e rros d e com p re e n sã o e p e r-d a s, ta n to q u a n to a in ova çõe s. O q u e a m e tá fora r-d o flu xo n os p r op õe é a ta re fa d e p rob le m a tiza r a cu ltu ra e m te rm os p roce ssu a is, n ã o a p e rm is-sã o p a ra d e sp rob le m a tizá -la , a b stra in d o su a s com p lica çõe s.

Limit es (margens, f ront eiras, praias)

As id é ia s q u e te n h o se torn a rã o m a is cla ra s à m e d id a q u e e u a va n ce n a a n á lise d e m in h a se g u n d a p a la vra -ch a ve . Se “ flu xo” su g e re u m a e sp é cie d e con tin u id a d e e p a ssa g e m , “ lim ite s” tê m a ve r com d e scon tin u id a d e s e ob stá cu los. En te n d o p or lim ite u m a lin h a cla ra d e d e m a rca çã o, e m re la çã o à q u a l u m a coisa ou e stá d e n tro ou e stá fora . M a s d e q u ê , e xa ta m e n -te ? C i-te m os n ova m e n -te Ba rth . Form u la r o p lu ra lism o cu ltu ra l e m -te rm os d e corre n te s sim u ltâ n e a s, con form e m e n cion e i a cim a , foi u m a re a çã o crí-tica a u m a te n d ê n cia q u e e le h a via ob se rva d o n a a n trop olog ia d e re p or o d e b a te sob re o p lu ra lism o cu ltu ra l e m te rm os d e e tn icid a d e ; e isso Ba rth (1984:80) con sid e rou “ u m a a b d ica çã o forja d a p e lo d e se sp e ro” .

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Pe n so q u e os tra b a lh os d e Ba rth d a d é ca d a d e 60 con trib u íra m m u i-to p a ra n os le va r a p e n sa r n os lim ite s com o a lg o atrav é s d o q u e se d ã o os con ta tos e in te ra çõe s; e le s p od e m te r u m im p a cto n a form a e n a e xte n sã o d e sse s con ta tos, m a s n ã o con tê m d e n tro d e su a s fron te ira s isola d os n a tu -ra is [n atu -ral isolate s]. E a d istin çã o e n tre o socia l e o cu ltu -ra l foi fe ita d e m od o a p e rm itir q u e a re la çã o e n tre a m b os p u d e sse se r p rob le m a tiza d a .

É ú til com p a ra r a visã o d e Ba rth com a form u la çã o, d a ta d a d e q u in ze a n os a n te s, d os te óricos d a a cu ltu ra çã o n o se m in á rio d o Socia l Scie n ce Re se a rch C ou n cil (Broom , Sie g e l, Vog t e Wa tson 1954:974 e ss.). A a cu l-tu ra çã o, e scre ve ra m e le s, “ p od e se r d e fin id a com o a m u d a n ça cu ll-tu ra l d e se n ca d e a d a p e la com b in a çã o d e d ois ou m a is siste m a s cu ltu ra is a u tô -n om os” ; e “ a u -n id a d e d e a -n á lise -n os e stu d os d e a cu ltu ra çã o é [...] q u a lq u e r cu ltu ra d a d a n a m e d id a e m lq u e se a rticu la com u m a socie d a d e e sp e cífica ” . Por m e io d e ssa s form u la çõe s, a d istin çã o e n tre o socia l e o cu ltu -ra l torn ou -se n a m a ioria d a s ve ze s im p e rce p tíve l. Q u a n d o os te óricos d a a cu ltu ra çã o se volta ra m p a ra os “ m e ca n ism os d e m a n u te n çã o d e lim i-te s” , d e fin ira m -n os com o “ a s té cn ica s e id e olog ia s p or m e io d a s q u a is u m siste m a lim ita su a p a r ticip a çã o n a cu ltu ra a u m g r u p o cla ra m e n te re con h e cid o” . De fa to, e le s p a re ce m a ce ita r a visã o q u e Ba rth viria a for-m u la r for-m a is ta rd e d os lifor-m ite s cofor-m o a lg o q u e ca n a liza a p a rticip a çã o e for-m re la çõe s socia is. M a s a d iscu ssã o sob re os siste m a s cu ltu ra is d a d é ca d a d e 50 tra n sform ou os lim ite s d e g ru p o e m lim ite s d e cu ltu ra s se m q u e n in -g u é m te n h a p re sta d o m u ita a te n çã o n isso.

Essa h istória p od e e sta r-se re p e tin d o a g ora . À m e d id a q u e o con ce i-to d e cu ltu ra ve m se p op u la riza n d o e m círcu los ca d a ve z m a is a m p los, re ssu rg e u m a forte te n d ê n cia p a ra foca liza r a a te n çã o n a cu ltu ra u n ica -m e n te co-m o u -m -m a rca d or d e g ru p os. N a “ p olítica d e id e n tid a d e ” , n os d e b a te s sob re o m u lticu ltu ra lism o, e m m u itos con te xtos d e “ e stu d os cu l-tu ra is” , o te rm o te m se torn a d o b a sica m e n te u m fu n d a m e n to p a ra a form a çã o e a form ob iliza çã o d e g ru p os, g e ra lform e n te iform p lica n d o p e rte n ciform e n -tos a trib u íd os. O u , p or ou tr o la d o, se tra n sfor m a n u m in str u m e n to d e e xclu sã o socia l p or p a rte d a s m a ioria s d om in a n te s. Pod e se r q u e h a ja u m a p re ocu p a çã o com a a u ton om ia d a cu ltu ra e a d e fe sa d a h e ra n ça cu ltu ra l p or si m e sm a s, e m b ora com fr e q ü ê n cia e ssa r e tórica d a cu ltu ra e ste ja e stre ita m e n te a ssocia d a ta n to a o p od e r q u a n to a os re cu rsos m a te ria is.

(11)

p rod u tos. Poré m , n ã o e sta m os d ia n te a p e n a s d e u m a e con om ia d e sig n os n e sse ca so, m a s ta m b é m — se é q u e os d ois te rm os p od e m se r se p a ra d os — d e u m a in te n sa p olítica d e sig n os, d e u m a p olítica d a cu ltu ra10. N osso in te re sse n a cu ltu ra , p oré m , n ã o p re cisa fica r re strito à s d istrib u içõe s d e sig n ifica d os e form a s sig n ifica tiva s e m b le m á tica s q u e im p lica m n ítid a s d istin çõe s e n tre g ru p os. N e ste p on to se coloca a q u e stã o d e sa b e r e m q u e ou tros te rm os se ria p ossíve l p e n sa r a re sp e ito d os lim ite s d a cu ltu ra .

Volte m os à n ossa m in ia tu ra e tn og rá fica d a Te n d a d os M ilag re s. Pri-m e ira Pri-m e n te , J org e APri-m a d o d e scre ve Pe d ro Arca n jo e Kirsi g e sticu la n d o e n tre si e te n ta n d o a d ivin h a r o q u e ca d a u m e stá d ize n d o e m su a s r e s-p e ctiva s lín g u a s. As-p e sa r d isso, e le s s-p a re ce m se e n te n d e r m u ito b e m . E, e n q u a n to Kirsi p e rm a n e ce u n a Ba h ia , e la te ria a p re n d id o com su ce sso a lg u m a s d e su a s d a n ça s. Q u e m sa b e se , a o ir e m b ora , e la n ã o e ra m a is com p e te n te n o lu n d u d o q u e e m p ortu g u ê s.

Pod e -se a r g u m e n ta r q u e , se o flu xo cu ltu ra l e sta cion ou d e a lg u m m od o e m a lg u m lu g a r, on d e e xiste u m a d e scon tin u id a d e n a d istrib u içã o d e sig n ifica d os e / ou for m a s sig n ifica tiva s e n tr e in d ivíd u os e r e la çõe s socia is, e n tã o id e n tifica m os u m lim ite cu ltu ra l. M a s on d e e sta ria e ste lim i-te n o ca so d e Kirsi e Pe d ro Arca n jo? Às ve ze s, o lim ii-te é visíve l, ou tra s ve ze s n ã o. É m e lh or e n te n d ê lo com o u m zig u e za g u e ou u m a lin h a p on -tilh a d a . Ta lve z se ja n e ste p on to q u e d e ve ría m os a b a n d on a r e ssa m e tá fo-ra e sp e cífica . Em con tfo-ra p a r tid a , p od e ría m os r e fle tir sob re q u a is sã o a s u n id a d e s q u e n os p e rm ite m d isce rn ir d e scon tin u id a d e s, ta n to n a d im e n -sã o socia l q u a n to n a cu ltu ra l.

Ve ja m os u m p ou co d e h istória , n ova m e n te . Em 1954, os te óricos d a a cu ltu ra çã o d o se m in á rio d o SSRC op u se ra m -se fron ta lm e n te a con stru ir o con ce ito d e cu ltu ra e m q u a lq u e r ou tro n íve l q u e n ã o fosse “ a m p la m e n te in clu sivo” , com o a “ socie d a d e ” ; d e ou tr o m od o, a d ve rtia m e le s, o a n a -lista fica ria lim ita d o a tra ta r d e cu ltu ra s tã o p a r ticu la riza d a s q u a n to a s d a s fa m ília s e a té m e sm o d os in d ivíd u os (Broom , Sie g e l, Vog t e Wa tson 1954:974). Vin te a n os a n te s, com e n ta n d o u m a p rim e ira d e cla ra çã o d e p rin cíp ios d a p e sq u isa sob r e a cu ltu ra çã o, fe ita p or Re d fie ld , Lin ton e H e rsk ovits (1936), G re g ory Ba te son (1972:61 e ss.) a ssu m ira u m a p osiçã o m a is fle xíve l. Ba te son le m b rou q u e a id é ia d e “ con ta to cu ltu ra l” p od e ria se r e ste n d id a d e m a n e ira fe cu n d a a os con ta tos, p . e x., e n tre se xos, e n tre ve lh os e jove n s, e n tre a ristocra cia e p le b e ; p od e ria a té in clu ir “ os p roce s-sos p e los q u a is u m a cria n ça é m old a d a e tre in a d a p a ra a d a p ta r-se à cu l-tu ra e m q u e n a sce u ” .

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-g re -g a r a s u n id a d e s n a d im e n sã o cu ltu ra l; p osicion a va -se a ssim a o la d o d os d iscíp u los d e M a lin ow sk i e con tra a fra g m e n ta çã o e m “ tra ços” q u e , p e lo m e n os os p rim e iros te óricos a m e rica n os d a a cu ltu ra çã o p a re cia m te r h e rd a d o d o d ifu sion ism o.

Por e n q u a n to, te n d o a n ã o a ce ita r se m e xa m e a s g ra n d e s u n id a d e s, se ja n a d im e n sã o socia l, se ja n a d im e n sã o cu ltu ra l; é p re ciso d e sa g re g á la s p rim e iro a n te s d e re tom a r (p ossive lm e n te ) form u la çõe s d e m a ior e sca -la . N e ssa e ta p a d e g lob a liza çã o d o fin a l d o sé cu lo XX, m u ita s p e ssoa s tê m ca d a ve z m a is e xp e riê n cia ta n to d os flu xos d e form a s cu ltu ra is q u e costu m a va m se loca liza r e m ou tros lu g a re s q u a n to d a q u e le s q u e a cre d i-ta m p e rte n ce r à su a p róp ria loca lid a d e . E, a lé m d isso, a lg u m a s corre n te s d e cu ltu ra sã o d ificilm e n te id e n tificá ve is com o p e rte n ce n te s a q u a lq u e r lu g a r e sp e cífico. N a m e d id a e m q u e sã o e n re d a d a s n e ssa s d ive rsifica d a s corre n te s d e cu ltu ra p re se n te s e m se u s h á b ita ts, a s p e ssoa s, com o se re s cu ltu ra is, p rova ve lm e n te e stã o se n d o m old a d a s, e m od e la m a si m e sm a s, p or p e cu lia rid a d e s d e su a b iog ra fia , g osto e cu ltivo d e ta le n tos. As id e n -tid a d e s a trib u íd a s a o g ru p o n ã o p re cisa m m a is se r tod o-p od e rosa s.

O s flu xos cu ltu ra is a tra vé s d a s d istâ n cia s e stã o se torn a n d o ta m b é m ca d a ve z m a is p olim or fos. Le m b re m os n ova m e n te d e Pe d r o Arca n jo e Kirsi, g e sticu la n d o e n tre si, u m d e scon h e ce n d o a lín g u a d o ou tro, e d e Kirsi a p re n d e n d o a s d a n ça s d a Ba h ia . À m e d id a q u e a cu ltu ra se m ove p or e n tre corre n te s m a is e sp e cífica s, com o o flu xo m ig ra tório, o flu xo d e m e rca d oria s e o flu xo d a m íd ia , ou com b in a çõe s e n tre e ste s, in trod u z tod a u m a g a m a d e m od a lid a d e s p e rce p tiva s e com u n ica tiva s q u e p rova ve l-m e n te d ife re l-m l-m u ito n a l-m a n e ira d e fixa r se u s p róp rios lil-m ite s; ou se ja , e m su a s d istrib u içõe s d e scon tín u a s e n tre p e ssoa s e p e la s re la çõe s. Em p a rte , e la s im p õe m lín g u a s e stra n g e ira s, ou a lg o p a re cid o, n o se n tid o d e q u e a m e ra e xp osiçã o n ã o é o m e sm o q u e com p re e n d e r, va loriza r ou q u a l-q u e r ou tro tip o d e a p ro p r ia ç ã o . M a s, e m ou tros ca so s, u m g e sto , u m a m ú sica , u m a form a , q u e r se ja m tra n sm itid os p or m e ios e le trôn icos a tra-vé s d e sa té lite s d e com u n ica çã o, q u e r tra zid os p or u m e stra n g e iro q u e d e se m b a rca n o lu g a r, p od e ria m se r im e d ia ta m e n te com p re e n d id os, d e m od o q u e u m a d ist r ib u iç ã o é m o d ific a d a e u m lim ite é t ra n sc e n d id o, com ra p id e z e fa cilid a d e . Tom a n d o e m p re sta d o u m a e xp re ssã o d e Da n Sp e rb e r (1985), d ife re n te s “ e p id e m iolog ia s” p a re ce m e sta r e n volvid a s n isso, o q u e te n d e ria a d issolve r a s “ cu ltu ra s” com o u n id a d e s d e d istri-b u içã o.

(13)

su ficie n te m e n te p lu ra lista p a ra le va r e m con ta a s va ria çõe s n a form a cu l-tu ra l e m q u e stã o. E, n e sse ca so — re torn a n d o a u m a p re ocu p a çã o q u e já m a n ife ste i a n te s —, n ã o p a re ce se r n e ce ssá rio e n te n d e r o flu xo cu ltu ra l n o e sp a ço (a rig or, n o te m p o e n o e sp a ço, sim u lta n e a m e n te ), n e m su a s d e scon tin u id a d e s, com o p rofu n d a m e n te d ife re n te s d o flu xo m a is loca li-za d o n o te m p o.

O q u e q u e r q u e se te n h a a p re n d id o a ce rca d a a q u isiçã o d e cu ltu ra e m lin h a s m a is g e ra is, n a s d im e n sõe s cog n itiva , m otiva cion a l, situ a cio-n a l, icio-n stitu ciocio-n a l e ou tra s, p od e ria a p lica r-se a o e stu d o d a m ig ra çã o d e sig n ifica d os e form a s sig n ifica tiva s a lon g a d istâ n cia , n a m e d id a e m q u e se com p re e n d e a d ifu sã o com o u m a m e ra q u e stã o d e a q u isiçã o cu ltu ra l re org a n iza d a e sp a cia lm e n te . N ã o q u e e sse tip o d e com p r e e n sã o d o p ro-ce sso cu ltu ra l e ste ja p le n a m e n te d e se n volvid o ou q u e n ã o te n h a su a s p róp ria s con trové rsia s, m e sm os n os con te xtos loca is con ve n cion a lm e n te m a is d e lim ita d os11. M a s isso n ã o e ra fá cil d e e n te n d e r p a ra os a n tig os d i-fu sion ista s d e se te n ta , oite n ta ou ce m a n os a trá s, e m p e n h a d os e m re con stru çõe s h istórica s q u e só ca p ta va m os ve stíg ios e n ig m á ticos d e m ig ra -çõe s cu ltu ra is d o p a ssa d o.

Q u a n to a o te m a d os lim ite s, e d os flu xos q u e os m od e la m ou d issol-ve m , ca b e a cre sce n ta r u m ou tro com e n tá rio. Pa ra os a n tig os d ifu sion ista s, a s cu ltu ra s e ra m , com o d isse u m d e le s, “ fe iista s d e re ista lh os e re m e n -d os” (Low ie 1920:441). Pd e se r q u e , n e sta é p oca -d e e sp a n tosa s ju sta p o-siçõe s, e ste ja m os n ova m e n te n os a p roxim a n d o d e sse m od o d e p e n sa r, só q u e com u m a m e lh or com p re e n sã o d a m a n e ira e d o se n tid o e xa to e m q u e ch e g a ra m a se r o q u e sã o. O ra , p od e rse ia p e n sa r q u e e xa m in a r a d ifu -sã o, se ja com o p roce sso, se ja e m su a s con se q ü ê n cia s, n ã o p a ssa d e u m ob scu ro jog o a ca d ê m ico, a in d a q u e n ossa ca p a cid a d e d e jog a r te n h a m e -lh ora d o. N ã o fa z a m e n or d ife re n ça q u e o e sp a g u e te te n h a vin d o d a C h in a p a ra a Itá lia , ou q u e os p ija m a s d o h om e m “ ce m p or ce in to a m e rica n o” d e Lin ton te n h a m se orig in a d o d a Ín d ia . O q u e im p or ta , n e sse a rg u -m e n to, sã o a s in te rp re ta çõe s loca is, os e sq u e -m a s loca is d e sig n ifica çã o.

(14)

l-tu ra l; n u m p e ríod o ca ra cte riza d o p or u m a g ra n d e d ose d e xe n ofob ia e lu ta p e lo fe ch a m e n to cu ltu ra l, u m a visã o m a is d ista n cia d a q u e ch a m a va a a te n çã o p a ra o p e rm a n e n te flu xo e re org a n iza çã o d o in ve n tá rio cu ltu -ra l d e tod a a h u m a n id a d e , p a -ra com u n id a d e s e n tr e cru za d a s e p a -ra a m a n e ira com o n os e sq u e ce m os d e tu d o isso, n ã o d e ve te r sid o a p e n a s u m a b rin ca d e ira e sca p ista e in con se q ü e n te . Assim com o ta m b é m n ã o o é n e ce ssa ria m e n te h oje12.

De q u a lq u e r m a n e ira , é p ossíve l ve rifica r a lg u m a s d a s d ificu ld a d e s con tid a s n a n oçã o d e lim ite , u m a lin h a n ítid a m a is ou m e n os con tín u a d e d e m a rca çã o, q u a n d o a a p lica m os à s e vid ê n cia s d a d ive rsid a d e cu ltu ra l, p rin cip a lm e n te n o p re se n te . Essa s d ificu ld a d e s ta lve z e ste ja m con trib u in -d o p a ra torn a r te rm os a lte rn a tivos p a ra -d e scon tin u i-d a -d e m e n os a tra e n te s p a ra o m a p e a m e n to cu ltu ra l, te rm os e ste s q u e n ã o p od e m se r ig n ora d os n e ste a rtig o. C om p on d o u m p e q u e n o con ju n to d e m e tá fora s g e og rá fica s, “ lim ite ” p a re ce com b in a r com “ fron te ira ” e com “ zon a fron te iriça ” [Bord e rlan [Bord ]. M a s e sse s ú ltim os te rm os n ã o im p lica m lin h a s n íti[Bord a s e sim re -g iõe s, n a s q u a is u m a coisa -g ra d u a lm e n te se tra n sform a e m ou tra , on d e h á in d istin çã o, a m b ig ü id a d e e in ce rte za13.

Em p rim e iro lu g a r, d ire i a lg u m a s p a la vra s sob re o con ce ito d e fron -te ira . O h istoria d or a m e rica n o Fr e d e rick J a ck son Tu rn e r (1961[1893]) e m p re e n d e u ce m a n os a trá s u m m od e sto tra b a lh o a ca d ê m ico, b a sica -m e n te sob re a A-m é rica d o N orte , -m a s q u e te ve d u ra n te a lg u -m te -m p o u -m a lca n ce tra n sn a cion a l e com p a ra tivo (ve r, p . e x., Le yb u r n 1935; H ofs-ta d te r e Lip se t 1968; H e n n e ssy 1978; Ve lh o 1979). Pa ra e le , a fron te ira e m e xp a n sã o tin h a sid o u m a re g iã o d e op ortu n id a d e s — te rra s se lva g e n s q u e se tra n sform a ra m e m te rra s livre s, on d e os p ion e iros e ra m in d e p e n -d e n te s m a s ta m b é m p o-d ia m se u n ir, lib e ra -d os -d os e n tra ve s -d a s tra -d içõe s e d a s d e sig u a ld a d e s q u e h a via m d e ixa d o p a ra trá s, se m a ca rg a d e u m a h e ra n ça :

“ A fron te ira é a lin h a d e m a is rá p id a e e fica z a m e rica n iza çã o. A te r ra se lva

-g e m d om in a o colon iza d or. Ela o re ce b e com o u m e u rop e u , n o m od o d e ve

s-tir, n o m od o d e tra b a lh a r, n a s fe rra m e n ta s, n os m od os d e via ja r, n o m od o d e

p e n sa r. Ela o a rra n ca d o va g ã o d e tre m e coloca -o n a ca n oa d e b é tu la . De

s-p oja -o d e su a s ve ste s d a civiliza çã o e ve ste -lh e a ca m isa e o m oca ssim d e

ca ça d or” (Tu rn e r 1961[1893]:39).

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ci-d o e o O e ste e m m u ci-d a n ça . N ã o h á ci-d ú vici-d a ci-d e q u e , ci-d e sci-d e Tu rn e r a té a N ova Fron te ira d e J oh n F. Ke n n e d y, n os a n os 60, a id é ia d e fron te ira te m tid o u m a con ota çã o m u ito p ositiva n a cu ltu ra a m e rica n a , a p on ta n d o p a ra o fu tu ro, su g e rin d o u m a m b ie n te d e p rog re sso e d e op ortu n id a d e s q u e se re s h u m a n os a b n e g a d os e a p tos p od e ria m forja r p a ra si m e sm os.

M a s, n o se n tid o e ru d ito q u e Tu rn e r im p rim iu a o te rm o, a fron te ira ta m b é m re p re se n tou u m a d e te rm in a d a form a h istórica d e g lob a liza çã o: a e xp a n sã o e colon iza çã o e u rop é ia d e ou tra s re g iõe s d o m u n d o. De n tro d a Eu rop a , ob se rvou Tu rn e r, u m a fron te ira se ria “ u m a lin h a fortifica d a cor-ta n d o p op u la çõe s d e n sa s”14. N a Am é rica La tin a , n a Au strá lia e n a África d o Su l, a ssim com o n a Am é rica d o N orte , a fron te ira m a rca va o q u e tin h a im p ortâ n cia e o q u e n ã o tin h a ; a “ te rra se lva g e m ” . Se lá h ou ve sse in d í-g e n a s, e ste s ta m b é m , com o in te í-g ra n te s d o im a í-g in á rio d a fron te ira , e ra m se lva g e n s. A ve rd a d e é q u e , n a s p a la vra s d e Tu rn e r, “ a te rra se lva g e m d om in a o colon iza d or” . Ele é d e sp oja d o d e su a b a g a g e m su p é r flu a d e civiliza çã o. A fron te ira , n e ssa con ce p çã o, torn a -se p rim ord ia lm e n te u m a zon a e cológ ica m a is d o q u e u m a con flu ê n cia d e corre n te s cu ltu ra is.

Q u a n d o, com o in te le ctu a is, n os d e fron ta m os com a s “ fron te ira s d o con h e cim e n to” , é ta m b é m e sse se n tid o d e fron te ira p róxim a à “ te rra se va g e m ” q u e tom a con ta d e n ossa im a g in a çã o. De ste la d o, os ca m p os cu l-tiva d os; d o ou tro, o g ra n d e d e scon h e cid o. E o se n tid o d e “ te rra se lva g e m ” a in d a e stá p re se n te n a im a g in a çã o p op u la r, com o u m a id é ia d e fron te ira , só q u e d e sloca d a p a ra a vid a u rb a n a , p a ra a s ru a s e b e cos q u e p a re ce m fora d o a lca n ce d os ce n tros org a n iza d os d a socie d a d e . Em ou tra s p a la -vra s, é a fron te ira u rb a n a com o se lva u rb a n a . O s ou tros n e la e n con tra d os p od e m se r re a lm e n te a n im a is, e a le i d a se lva é a sob re vivê n cia d o m a is a p to. (O Pe lou rin h o, on d e m ora va Pe d ro Arca n jo e m Sa lva d or, p a re ce te r sid o, p or u m ce rto te m p o, u m a fron te ira u rb a n a d e sse tip o, a n te s d e se r re cu p e ra d o com o ce n tro h istórico e p on to d e a tra çã o tu rística .)

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[b e tw e e n e ss]), on d e p e q u e n os g ru p os d e p e ssoa s se e n con tra m p a ra for-m a r os p rin cíp ios d e u for-m a n ova socie d a d e , a p ós d e ixa re for-m os lu g a re s on d e vivia m p or ca u sa , p or e xe m p lo, d e d isp u ta s d e su ce ssã o, ou d e a cu sa çõe s d e fe itiça ria . Kop ytoff a firm a q u e , n a África , on d e vig ora o p a d rã o d e con sta n te troca d e p osiçõe s e n tre ce n tros e p e rife ria s, a s fron te ira s con tin u a ra m a re ssitin te tiza r cu ltu ra s, e m b ora a te tin d ê tin cia d om itin a tin te se ja cotin -se rva d ora , p rovoca n d o va ria çõe s d e te m a s d u rá ve is d e n tro d e u m ú n ico e cú m e n o.

Kop ytoff p a rte d a te se d e Tu rn e r a re sp e ito d a fron te ira e b u sca a p oio n a e tn og ra fia a frica n ista clá ssica , e m b ora su b ve rte n d o se u s p re ssu p ostos d e e sta b ilid a d e e a te m p ora lid a d e ; m a s su a ê n fa se n o e n con tro e n a m is-tu ra d e p ovos, n os te rritórios in te rsticia is, a p roxim a -o, a ssim com o Le a ch , d os cole g a s a n trop ólog os q u e , m a is re ce n te m e n te , b a se a n d ose e m con -te xtos e tn og rá ficos m e n os con ve n cion a is, tê m p re fe rid o fa la r e m zon a s fron te iriça s. Pa sse m os e n tã o a e sse s ú ltim os.

Alva re z J r. (1995:451), re ve n d o re ce n te m e n te a a n trop olog ia d a fron -te ira e n tre o M é xico e os Esta d os Un id os, ob se r vou q u e e ssa r e g iã o se torn ou “ o m od e lo p a ra o g ê n e ro d e e stu d os d e fron te ira e d a s zon a s fron -te iriça s e m tod o o m u n d o” , u m su rp r e e n d e n -te p a ra le lo com o statu s e xe m p la r d a fron te ira a m e rica n a . Um d os ob se r va d ore s d e ssa re g iã o é Re n a to Rosa ld o (1988), ou tro é M ich a e l Ke a rn e y (1991). É in te re ssa n te com p a rá -los p ois, e m b ora a n a lise m m a is ou m e n os a m e sm a re g iã o, p ro-p õe m ê n fa se s d istin ta s. A re g iã o e stu d a d a ro-p or Ke a rn e y é m a is a fron te ira “ p rop ria m e n te d ita ” , a fron te ira p olítica , e e m torn o d e la e xiste u m a á re a sotu rn a d e p re d a d ore s e vítim a s, q u a se u m a a tu a liza çã o d o im a g in á rio d a fron te ira com o a se lva d a s cid a d e s. C om o e ssa á re a n ã o e stá sob o con -trole d e n e n h u m d os la d os, n e la p r e d om in a m o te rror e a e va sã o. Se u s p e rson a g e n sch a ve sã o os “ coiote s” q u e fa cilita m a e n tra d a d e m ig ra n -te s ile g a is d o su l p a ra o n or-te . E Ke a rn e y n os fa z le m b ra r q u e El Coy o-te ta m b é m é , n a r e g iã o in d íg e n a d o M é xico e d a Am é rica d o N or te , “ u m trick ste r e xtre m a m e n te a m b íg u o e con tra d itório, e u m h e rói cu ltu ra l” .

(17)

oló-g ico, e p a ssa n d o d e Fre d e rick J a ck son Tu rn e r p a ra Victor Tu rn e r (p . e x., 1974), u m a á re a d e lim in a rid a d e .

M a is u m a ve z, a o q u e p a re ce , “ o se lva g e m re vid a ” ; e se n ã o se tra ta e xa ta m e n te d o se lva g e m , p e lo m e n os tra ta -se d e a lg u é m coloca d o n u m a p osiçã o b e m a fa sta d a d o ce n tro d om in a n te . De fa to, já n os e n con tra m os com e sse tip o d e fig u ra n u m a sé rie d e m e m orá ve is re tra tos e tn og rá ficos a o lon g o d o te m p o15. O m e stiz o d e Eric Wolf (1959:238-241), e m S on g s of th e S h ak in g Earth , te ve d e re je ita r p rop osita d a m e n te b oa p a rte d o q u e a h e ra n ça e sp a n h ola d e ixa ra n a Am é rica C e n tra l, p ois n o ritm o e rrá tico d e su a vid a “ su a s ch a n ce s d e sob re vivê n cia n ã o d e p e n d ia m n e m d o a cú m u lo d e b a g a g e m cu ltu ra l n e m d a a d e sã o à s n orm a s cu ltu ra is, m a s d a ca p a -cid a d e d e m u d a r, a d a p ta r-se , im p rovisa r” . Ele tin h a d e p a re ce r a o m e s-m o te s-m p o s-m a is e s-m e n os d o q u e e ra , e se r a o s-m e ss-m o te s-m p o s-m a is e s-m e n os d o q u e a p a re n ta va . A lin g u a g e m p od ia se torn a r u m a e stra té g ia e m q u e os se n tid os e xp lícitos ocu lta va m m e n sa g e n s im p lícita s, e e m q u e fa la r d u a s lín g u a s con tra d itória s e ra u m m e io d e con fu n d ir os n ã o in icia d os. E e le se d ive rtia com o jog o d a fa n ta sia p orq u e , e sta n d o à m a rg e m d a socie -d a -d e , ta m b é m se tin h a p osto à m a rg e m -d a re a li-d a -d e . O p e rson a g e m fa vo-rito d o m e stiz o, d iz Wolf, e ra o g ra n d e p a lh a ço C a n tin fla s, “ q u e , n u m a e te rn a su ce ssã o d e fa n ta sia s, d e svia -se e sp e rta m e n te d a s a rm a d ilh a s d a vid a , com p a ssa d a s cria tiva s e u m a fa la a m b íg u a e e n g ra ça d a , tra n sita n -d o com le ve za p e los corre -d ore s socia is” .

H á u m a ou tra m e tá fora p a ra a zon a d e con ta to q u e e u n ã o p osso ig n ora r a q u i. Em se u a d m irá ve l tra b a lh o sob re a e tn oh istória d a s ilh a s M a rq u e sa s, n a Polin é sia , De n in g (1980) for m u lou u m a im a g e m d a s “ ilh a s” cu ltu ra is e d a s “ p ra ia s” q u e se form a m a o se u re d or a tra vé s d e d e fin içõe s d e “ n ós” e “ e le s”16. Essa s p ra ia s n ã o se p a re ce m com a C op a -ca b a n a d e h oje , m a s com o litora l d e Pe d ro Álva re s C a b ra l ou d e J a m e s C ook ; a sse m e lh a m -se m a is a zon a s d e fr on te ira . Se ria ú til com p a ra r a d e scriçã o fe ita p or De n in g d os “ b e ach com b e rs” * — “ o q u e q u e r q u e fa ça m n a p ra ia , e le s tê m d e ca va r com a s p róp ria s m ã os u m n ovo m u n d o p a ra si m e sm os” — com o h om e m d a fron te ira d e Fre d e rick J a ck son Tu r-n e r. M a s h á u m a d ife re r-n ça r-n o fa to d e q u e De r-n ir-n g a d m ite q u e , a tra ve s-sa n d o a p ra ia , os b e ach com b e rs ch e g a va m n ã o a u m a “ te rra se lva g e m ” , m a s a “ ou tros m u n d os b e m e sta b e le cid os e a u to-su ficie n te s” .

Em su m a , os ce n á rios d a s zon a s in te rsticia is p a re ce m ch e ios d e vid a , m a s n ã o com p le ta m e n te se g u ros. Se u m a p e ssoa é ca p a z d e sob re vive r e

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a té p rosp e ra r n e la s, isso se d e ve à su a p róp ria a g ilid a d e cu ltu ra l, ta lve z m e sm o a g ilid a d e física . Um a p a rte d isso, a ssim n os d ize m n ossos in té r-p re te s, r-p od e se r u m a q u e stã o d e “ d e cu ltu ra çã o” : d e sr-p oja r-se d e u m a sob re ca rg a d e cu ltu ra p a ra g a n h a r lib e r d a d e d e m ovim e n to. C on tu d o, “ d e cu ltu ra çã o” e m e xce sso tra z o risco d a d e su m a n id a d e , d e tor n a r-se u m a n im a l p e rig oso. A lib e r d a d e d a zon a fr on te iriça é e xp lora d a com m a is cria tivid a d e p or d e sloca m e n tos situ a cion a is e com b in a çõe s in ova d ora s, org a n iza n d o se u s re cu rsos d e n ova s m a n e ira s, fa ze n d o e xp e riê n -cia s. N a s zon a s fron te iriça s, h á e sp a ço p a ra a a çã o [ag e n cy ] n o m a n e jo d a cu ltu ra .

Híbridos e out ras palavras que expressam mist ura

Pod e m os a g ora tra ta r d e n ossa te rce ira p a la vra -ch a ve , n ã o se m a n te s vol-ta rm os, p or u m in svol-ta n t e , a a n o s a n t e rio re s. Exa m in e m os a s se g u in t e s fra se s:

“ É u m a se n sa çã o p e cu lia r, e ssa d u p la con sciê n cia , e sse se n tim e n to d e e sta

r-m os se r-m p re olh a n d o p a ra n ós r-m e sr-m os cor-m os olh os d os ou tros, d e r-m e d

ir-m os n ossa a lir-m a p e lo p a d rã o d e u ir-m ir-m u n d o q u e n os ob se r va coir-m p ie d a d e e

sorrid e n te d e sp re zo. Se n te se se m p re a p róp ria d u p licid a d e — u m a m e rica

-n o, u m -n e g ro; d u a s a lm a s, d ois p e -n sa m e -n tos, d ois co-n flitos i-n co-n ciliá ve is;

d ois id e a is e m lu ta n u m m e sm o corp o e scu ro, cu ja força ob stin a d a im p e d e

d e d ila ce ra r-se .”

(19)

“ M a rg e n s” , ob via m e n te , é u m a p a la vra q u e com b in a com o voca b u -lá rio d os lim ite s, fron te ira s e in te rstícios, e o h om e m m a rg in a l ta m b é m fa z p a rte d e u m a g e n e a log ia in te le ctu a l d a s in te rp re ta çõe s con te m p orâ -n e a s d a s re com b i-n a çõe s cu ltu ra is17. M a s a lg u m a coisa se p a ssou e n tre a q u e le te m p o e o n osso. C om p a re m os Du Bois e Pa rk à ob se rva çã o d e Sa l-m a n Ru sh d ie (1991:394), sob re u l-m a con h e cid a p a ssa g e l-m d o se u fa l-m oso e con trove rtid o rom a n ce :

“ O s Ve rsos S atân icos ce le b ra m a h ib rid e z, a im p u re za , a m istu ra , a tra n

sfor-m a çã o q u e p rovê sfor-m d e n ova s e in e sp e ra d a s cosfor-m b in a çõe s d e se re s h u sfor-m a n os,

cu ltu ra s, id é ia s, p olítica , film e s, ca n çõe s. C om p ra z-se n a m e stiça g e m e te m e

o a b solu tism o d o p u ro. M é lan g e , m isce lâ n e a , u m p ou co d isto e u m p ou co

d a q u ilo é a m a n e ira com o o n ov o in g re ssa n o m u n d o.”

H ou ve u m a m u d a n ça d e e th os, d o sile n cioso sofrim e n to ou d a com -p a ixã o -p a ra a a firm a çã o con fia n te e , a té m e sm o, a ce le b ra çã o. Im -p u re za e m istu ra ofe re ce m a g ora n ã o só u m a sa íd a p a ra a “ d u p licid a d e ” d e q u e fa la Du Bois, u m a p ossib ilid a d e d e re con cilia çã o, m a s é u m a fon te — ta l-ve z a m a is im p orta n te — d e u m a d e se já l-ve l re n ova çã o cu ltu ra l.

(20)

Se ja com o for, a q u i e sta m os a g ora , com h ib rid e z, cola g e m , m é lan g e , m isce lâ n e a , m on ta g e m , sin e rg ia , b ricola g e m , crioliza çã o, m e stiça g e m , m iscig e n a çã o, sin cre tism o, tra n scu ltu ra çã o, te rce ira s cu ltu ra s, e ou tros te rm os; u n s sã o u sa d os só d e p a ssa g e m , com o m e tá fora s sin té tica s, ou tros re cla m a m u m statu s a n a lítico m a ior, ou tros, a in d a , tê m u m a im p ortâ n cia a p e n a s re g ion a l ou te m á tica . N a m a ioria d a s ve ze s e le s p a r e ce m su g e rir u m a p re ocu p a çã o com form a cu ltu ra l, com p rod u tos cu ltu ra is (e fre q ü e n -te m e n -te os -te rm os se re fe re m a d om ín ios d e m a -te ria is cu ltu ra is b a sta n -te ta n g íve is, ta is com o a lin g u a g e m , a m ú sica , a a rte , o ritu a l ou a cu lin á -ria ); a lg u m a s p a la vra s p a re ce m , m a is d o q u e ou tra s, d ize r re sp e ito a p ro-ce sso.

(21)

Um a e xp re ssã o q u e te m ig u a lm e n te lon g ín q u a s orig e n s n a a n trop o-log ia é “ tra n scu ltu ra çã o” , te rm o cu n h a d o p e lo h istoria d or socia l cu b a n o Fe rn a n d o O rtiz e m se u livro Cu b an Cou n te rp oin t (1947). Bron isla w M a lin ow sk i, q u e colin h e ce u O rtiz e m H a va lin a , e m 1939, e scre ve u u m a ilin trod u -çã o (d a ta d a d e 1940) n a q u a l d izia q u e tin h a p rom e tid o a o a u tor “ a p ro-p ria r-se d a n ova e xro-p re ssã o ro-p a ra u so ro-p e ssoa l, con ce d e n d o-lh e o cré d ito p e la a u toria d o te rm o, e u tiliza n d o-o com con stâ n cia e le a ld a d e ” . N a op i-n iã o d e M a lii-n ow sk i, o te rm o e ra p re fe ríve l a a cu ltu ra çã o, q u e i-n ã o lh e soa-va b e m — “ p a re ce u m m isto d e solu ço com a rroto” —, e q u e lh e p a re cia su g e rir u m a m u d a n ça cu ltu ra l m a is u n ila te ra l. C on cord a va com O rtiz q u e tra n scu ltu ra çã o e ra u m siste m a d e tom a -lá -d á -cá , isto é , “ u m p roce sso a p a rtir d o q u a l d e corre u m a n ova re a lid a d e , tra n sform a d a e com p le xa , u m a re a lid a d e q u e n ã o é u m a g lom e ra d o m e câ n ico d e tra ços, n e m m e sm o u m m osa ico, m a s u m n ovo fe n ôm e n o, orig in a l e in d e p e n d e n te ” . Pa re ce d ifícil q u e , p e lo m e n os a lg u n s d os cole g a s a m e rica n os d e M a lin ow sk i e fe tiva -m e n te e n te n d e sse -m a cu ltu ra çã o d e -m od o -m u ito d ife re n te . Re ce n te -m e n te , “ tra n scu ltu ra çã o” p op u la rizou -se n ova m e n te g ra ça s a o u so q u e lh e d e u Pra tt (1992) e m se u e stu d o sob re a lite ra tu ra d e via g e m . N a é p oca p ós-colon ia l u m d os a tra tivos d e sse con ce ito ta lve z e ste ja n o fa to d e q u e e le é , e m si m e sm o, u m e xe m p lo d e con tra flu xo, d a p e rife ria p a ra o ce n tr o.

Ap e sa r d e orig e n s e ê n fa se s u m p ou co d ife re n te s, n ã o im p orta m u i-to q u a l d e sse s con ce ii-tos se e scolh e , m a s a q u e le q u e m a is m e ch a m ou a a te n çã o, e sp e cia lm e n te p or m in h a e xp e riê n cia d e ca m p o n a N ig é ria , foi o d e “ crioliza çã o” (H a n n e rz 1987; 1996:65 e ss.)19. Em b ora m e p a re ça q u e os d e m a is te rm os te n d a m a in d ica r m istu ra cu ltu ra l com o ta l, e a p e sa r d e “ crioliza çã o” m u ita s ve ze s ta m b é m se r e m p re g a d o d e ssa m a n e ira , con -sid e ro q u e e sse con ce ito p od e se r u tiliza d o d e m od o m a is p r e ciso e a o m e sm o te m p o m a is re strito.

(22)

p od e se r p e rfe ita m e n te a la rg a d a p a ra o â m b ito tra n sn a cion a l, ta m b é m ca ra cte riza d o p e la d e sig u a ld a d e d e p od e r, p re stíg io e re cu rsos m a te ria is. De n tro d e sse ra ciocín io, p a re ce -m e p ossíve l in te g ra r a a n á lise socia l e cu ltu ra l d e u m a form a q u e n ã o é cla ra m e n te su g e rid a p e los ou tros con -ce itos, e , d e sse m od o, a lca n ça r u m a visã o m a is m a croa n trop ológ ica21. Só q u e isso sig n ifica , m a is u m a ve z, torn a r m e n os g e n é rico o te rm o “ crioli-za çã o” , re la cion a n d o-o a u m tip o m a is e la b ora d o. (E su g e rin d o ta m b é m u m a p a isa g e m socia l b e m m a is e stru tu ra d a , n ã o ta n to u m a fron te ira ou u m a zon a fron te iriça .)

A id e n tifica çã o d e cu ltu ra s criou la s ch a m a a a te n çã o p a ra o fa to d e q u e a lg u m a s cu ltu ra s n ão sã o visive lm e n te tã o “ lim ita d a s” , “ p u ra s” , “ h om og ê n e a s” e “ a te m p ora is” q u a n to a tra d içã o a n trop ológ ica m u ita s ve ze s a s re tra ta ; e n a m e d id a e m q u e ta m b é m n e sse ca so h á u m a p ostu ra d e e xa lta çã o d a h ib rid e z, p od e -se p e n sa r q u e u m a p a rte d a vita lid a d e e cria tivid a d e d e ssa s cu ltu ra s te m orig e m e xa ta m e n te n a d in â m ica d a m is-tu ra (se b e m q u e a e xa lta çã o p ossa se r m od e ra d a p e lo re con h e cim e n to d e q u e a s cu ltu ra s ta m b é m sã o con str u íd a s e m torn o d e e stru tu ra s d e d e sig u a ld a d e ). Um a ob je çã o à s ve ze s le va n ta d a a o con ce ito d e “ crioliza -çã o” – ou tra s n oçõe s corre la ta s re ce b e m a m e sm a crítica — é a d e q u e a id e n tifica çã o d e cu ltu ra s criou la s, com o ca te g oria e sp e cífica , p od e ria sim -p le sm e n te fa ze r re a -p a re ce r u m e sse n cia lism o, su g e rin d o-se q u e a s cor-re n te s cu ltu ra is a r ticu la d a s a tra vé s d o p r oce sso d e crioliza çã o te n h a m sid o p u ra s, lim ita d a s e tu d o o m a is, a n te s d e se u e n con tro22.

Essa con clu sã o n ã o m e p a re ce in e vitá ve l. Re corre n d o n ova m e n te a u m p a ra le lo lin g ü ístico, e xiste u m a sé rie d e lín g u a s criou la s b a se a d a s n o in g lê s e sp a lh a d a s p e lo m u n d o, m a s n in g u é m le va ria a sé rio a a firm a çã o d e q u e o in g lê s é u m a lín g u a h istorica m e n te p u ra . (C on vé m r e cord a r o a n o d e 1066 e tu d o o q u e se se g u iu .) O q u e p r e cisa se r d ito é q u e , e m d e te rm in a d o p e ríod o, a lg u m a s cu ltu ra s sã o m a is criou la s d o q u e ou tra s, n a m e d id a e m q u e a s cor re n te s cu ltu ra is se e n con tra m e m con d içõe s e sp e cífica s e com re su lta d os m a is ou m e n os d ra m á ticos, se d istin g u e m h istorica m e n te d a s ou tra s, m e sm o q u e e la s p róp ria s te n h a m re su lta d o d e ou tra s con flu ê n cia s. Em u m m om e n to ou ou tro d a h istória , n ós ou n ossos a n te p a ssa d os p od e m os te r p a ssa d o p e la crioliza çã o, m a s n ã o e sta m os e n volvid os e te rn a m e n te n e sse p roce sso, n e m o fom os n e ce ssa ria m e n te n o m e sm o g ra u .

(23)

cu ltu ra s a froa m e rica n a s fize ra m a fu sã o d e d ivin d a d e s d e orig e m a frica -n a com os sa -n tos ca tólicos23. N os ú ltim os a n os p a re ce te r h a vid o u m a re tom a d a d o in te re sse n e ssa n oçã o, a ssocia d o a u tom in te re sse p e lo “ a n tisin cre tism o” . Em u m m u n d o e m q u e os a ca d ê m icos e stu d a m vid a s n ã oa ca -d ê m ica s e os n ã o-a ca -d ê m icos lê e m te xtos a ca -d ê m icos, lí-d e r e s e a -d e p tos d e a lg u m a s d a s fé s re lig iosa s e n volvid a s n o d e b a te n ã o e stã o m u ito sa tis-fe itos com u m a a b ord a g e m cie n tífica q u e p a re ce n e g a r a a u te n ticid a d e e a p u re za d e su a s cr e n ça s e p rá tica s (cf. Ste w a r t e Sh a w 1994; Pa lm ié 1995)24.

Conclusão: os mundos e o mundo

Isso n os le va a a lg u n s com e n tá rios con clu sivos. C om e ce i fa la n d o e m trê s p a la vra s-ch a ve d e u m a a n trop olog ia tra n sn a cion a l, m a s a ca b e i m e n cion a cion d o m u ita s ou tra s p a la vra s e xtra íd a s d o p a ssa d o e d o p re se cion te : a cu ltu -ra çã o, fron te i-ra , h om e m m a rg in a l, d ifu sã o... Este é u m voca b u lá rio q u e a b ra n g e tod o o sé cu lo XX e u m p ou co m a is, e q u e ta m b é m lig a con tin e n te s. Ao m e sm o te m p o, p oré m , é u m voca b u lá rio q u e coloca a g lob a liza -çã o com os p é s n o ch ã o e a ju d a a r e ve la r su a fa ce h u m a n a . Ele le va a p e n sa r q u e o m u n d o n ã o e stá se torn a n d o n e ce ssa ria m e n te ig u a l. H á lu ta , m a s ta m b é m h á jog o. O s trick ste rs p rosp e ra m n a s zon a s fron te iriça s.

N ós m e sm os p re cisa m os d e ssa s p a la vra s, e d e ou tra s m a is, m u ita s ve ze s d e n ova s p a la vra s, m a is p re cisa s, p a ra tra ça r o m a p a d a s m u d a n ça s e d e ve m os re cord a r a s ve lh a s p a la vra sch a ve , e com o fora m critica -d a s n o p a ssa -d o, p a ra sa b e r -d e on -d e vie m os e p a ra a va lia r a té on -d e fom os. M a s e ssa s p a la vra s n ã o sã o a p e n a s n ossa s; p a la vra s q u e só n ós con h e ce -m os. O -m u n d o d e h oje ta -m b é -m ve -m se torn a n d o ca d a ve z -m a is re fle xivo, o q u e q u e r d ize r q u e os le ig os, os “ n a tivos” , p re sta m a te n çã o n o q u e os e sp e cia lista s d ize m sob re e le s, e m u ita s ve ze s os re fu ta m .

(24)

Ulf H a n n e rz é p re sid e n te d a Associa çã o Eu rop é ia d e An trop ólog os Socia is [EASA] e d ire tor d o De p a rta m e n to d e An trop olog ia d a Un ive rsid a d e d e Esto-colm o. En tre se u s ú ltim os livros e stã o Cu ltu ral Com p le x ity. S tu d ie s in th e

S ocial O rg an iz ation of M e an in g , e Tran sn ation al Con n e x ion s. Cu ltu re , Pe o-p le , Place s.

Pre cisa m os p e rce b e r q u a is p a la vra s, id é ia s e in te re sse s sã o n ossos e q u a is sã o “ d e le s” . M a s n osso voca b u lá rio, ta m b é m n ã o h a b ita u m m u n d o isola d o. Se g u in d o os p a ssos d e Ra ym on d Willia m s e Pe d ro Arca n jo, a m -b os in te le ctu a is p ú -b licos à su a m a n e ira , n ã o é trivia l com p a rtilh a r n ossa s p róp ria s p a la vra s-ch a ve com os ou tros, e d iscu tir a s im p lica çõe s d e ta is p a la vra s com e sse s ou tros, e a q u e le s q u e fa ze m d o e stu d o d a cu ltu ra n u m m u n d o in te rlig a d o su a voca çã o p od e m a ju d a r a cria r u m a b e m in form a d a a n á lise p ú b lica d e sse m u n d o. Q u a n to a isso, h á m a is tra b a lh o p or fa ze r.

(25)

Not as

1 Um a ve rsã o p re lim in a r d e ste a rtig o foi a p re se n ta d a n u m a con fe rê n cia re a

-liza d a d u ra n te o XX En con tro d a Associa çã o Bra sile ira d e An trop olog ia e m Sa l-va d or, Ba h ia , 14-17 d e a b ril d e 1996. Ag ra d e ço à ABA p e lo con vite e p e la h osp i-ta lid a d e q u e m e p rop orcion a ra m . O a rtig o foi e la b ora d o p a ra o p roje to sob re “ Pro-ce ssos C u ltu ra is N a cion a is e Tra n sn a cion a is” , d e se n volvid o n o De p a rta m e n to d e An trop olog ia Socia l d a Un ive rsid a d e d e Estocolm o e n o De p a rta m e n to d e Etn o-log ia d a Un ive rsid a d e d e Lu n d , e fin a n cia d o p e lo Sw e d ish Re se a rh C ou n cil for th e H u m a n itie s a n d Socia l Scie n ce s.

2 É cla ro q u e e u n ã o sou o p rim e iro a n trop ólog o a b u sca r in sp ira çã o e m J

or-g e Am a d o. Ve r Da M a tta (1982).

3 Um a te n ta tiva im p orta n te n e sse se n tid o foi e la b ora d a p or Rob e rtson

(1992:57-60).

4 Em su a h istória d o e stu d o a n trop ológ ico d a p olítica , Vin ce n t (1990:125)

ob se rva q u e “ o q u e d istin g u ia os d ifu sion ista s, com o Rive rs, H oca rt, Wh e e le r, Pe rry e Elliot Sm ith , e ra su a in a p e lá ve l in sistê n cia e m q u e a a n tr op olog ia e stu -d a sse n ã o só p ovos p rim itivos ou se lva g e n s, m a s o m u n -d o in te iro, a n tig o e m o-d e r-n o, com su a com p le xid a d e h istórica ” . N a sé rie d e a rtig os sob re o cor-n ta to cu ltu ra l n a África q u e re su ltou d e se u tra b a lh o n a d é ca d a d e 30, n a Lon d on Sch ool of Econ om ics, M a liEcon ow sk i — o “ p re sid iEcon g g e Econ iu s” Econ a s p a la vra s d a org a Econ iza d ora d a cole -tâ n e a , Lu cy M a ir (1938:v) — ob se rvou q u e “ a a n trop olog ia , q u e costu m a va se r o e stu d o d os se re s e d a s coisa s le n ta s, g ra d u a is e a tra sa d a s, e n con tra se a g ora d ia n -te d a d ifícil ta re fa d e e xp lica r com o o ‘se lva g e m ’ se tor n a u m p a rticip a n -te a tivo d a civiliza çã o m od e rn a , com o os a frica n os e a siá ticos e stã o a ssu m in d o p osiçõe s d e p a rce ria com os e u rop e u s n a coop e ra çã o e n o con flito m u n d ia is” . Boa p a rte d os tra b a lh os a m e rica n os sob re a cu ltu ra çã o d e sse p e ríod o d istrib u e m -se e n tre d ois g ra n d e s m od e los con ce itu a is e te óricos: o d e Re d fie ld , Lin ton e H e rsk ovits (1936) e o d e Broom , Sie g e l, Vog t e Wa tson (1954). Um a a n tig a crítica (1935) p od e se r e n con tra d a e m Ba te son (1972:6 e ss.) e u m a crítica re ce n te e n con tra -se e m M u rp h y (1964).

5 Ve r ta m b é m , p or e xe m p lo, a im p orta n te n oçã o d e “ e sp a ço d e flu xos” d o

sociólog o u rb a n o M a n u e l C a ste lls (1989:126 e ss.), q u e se re fe re à m a n ip u la çã o d e in form a çõe s d e n tro e e n tre org a n iza çõe s d isp e rsa s. C zik sze n tm ih a lyi (p . e x., 1990) p op u la rizou n a m e sm a é p oca u m con ce ito d e flu xo m u ito d ife re n te , re fe rin -d o-se à e xp e riê n cia -d e a tivi-d a -d e s a lta m e n te re com p e n sa -d ora s. N a a n trop olog ia , Victor Tu rn e r (p . e x., 1982:55 e ss.) re m e te u e ssa in te rp re ta çã o d o flu xo à com m u n

i-tas e à lim in a rid a d e , a p roxim a n d o-se , p orta n to, d e a lg u n s d os te m a s tra ta d os n e

Referências

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