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Relatório de estágio de mestrado no Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais

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Relatório de Estágio apresentado para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais, com área

de especialização em Estudos Europeus realizado sob a orientação científica de Professora Carla Leão e Professor Doutor Miguel Santos Neves

(2)

O Homem continua a ser carrasco do próprio Homem, mas ao virar da esquina ilude-o com um sorriso e uma aparência elegante.

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Desencontro

Desirmandade, irmãos! Margens do mesmo rio,

Mas sem ponte. É como se a unidade

Dum bifronte Se perdesse, E a mais sedenta face

Recusasse Beber na mesma fonte Onde a outra bebesse.

Sois a noite da vida, e eu sou a madrugada. Onde começa a luz, começa a dimensão

Da minha humanidade.

Vejo o sol, mostro o sol a quem é cego, E nego,

Que o tenebroso seja a claridade.

Podeis o que não posso: Entender como lobos A parábola dos vimes…

Mas é vosso Também O pesadelo Dos crimes.

Meu, é o destino de vos acordar… (…)

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O meu profundo agradecimento

A toda a equipa do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI)

À Mestre Carla Leão e Professora Doutora Isabel Baltazar

Ao Professor Doutor Miguel Santos Neves e Mestre Cláudia Pedra

A todos os meus Professores de sempre

À minha família

E ao Mestre João Veiga Esteves e à Doutora Bárbara Soares

Pela capacidade de me terem envolvido na sua sabedoria e experiência e me terem conduzido na vida e para a vida!

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RELATÓRIO DE ESTÁGIO NO

INSTITUTO DE ESTUDOS ESTRATÉGICOS E INTERNACIONAIS

Marta Carvalhinho dos Santos Rosa

Resumo

Numa conjuntura de globalização intensifica-se o fenómeno migratório com os seus vários contornos potenciadores de comportamentos desviantes, assim em termos de aprendizagem, o objecto de investigação deste Relatório é o crime do tráfico de seres humanos. No entanto, partindo da constatação que este delito tem vindo a atingir grandes proporções, devido à simplificação da deslocação das pessoas, deparamo-nos com diversas vítimas desta desumanidade, bem como algumas rotas existentes.

Neste contexto colocámos como questão orientadora “Qual a verdadeira dimensão do crime de tráfico de seres humanos na sociedade?”.

Neste sentido estudámos os fenómenos migração e globalização, na sua extensão geral e a nível europeu e português, uma vez que estes fenómenos serviram como agravante ao tráfico de seres humanos. Concordantemente analisamos o fenómeno de tráfico de seres humanos em toda a sua proporção a nível mundial, europeu e nacional.

Este relatório pretende contribuir para o conhecimento do tráfico nas realidades nacional e europeia, tendo como base o estágio realizado no Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais e subsequente pesquisa da autora. O presente relatório por outro lado, descreve também, todas as tarefas executadas no período de estágio e acrescendo ainda a caracterização da respectiva instituição acolhedora.

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INTERNSHIP REPORT

INSTITUTE FOR STRATEGIC AND INTERNATIONAL STUDIES

Marta Carvalhinho dos Santos Rosa

Abstract

In the present globalized context, migratory flows are growing, along with their inherent potential for deviating behaviours, thus setting the foundations for the research goal of this Report, the traffic of human beings. This crime has been proving more and more serious, in line with the ever increasing travel possibilities and this lead us to an extended array of victims and of the routes for their gloomy fate.

All this adds to this Report´s guiding question: “What is the real dimension of the human being´s traffic crime in our society?”

Both the migration and the globalization phenomena, in their overall, European and Portuguese dimensions, were analyzed as potentiating factors for human traffic, the size of which was also a key goal for this project.

This Report aims to contribute for a better awareness of the national and European realities in the matter, taking as a starting point the results of the author´s work as a trainee at the Institute for Strategic and International Studies (ISIS) in Lisbon and also her subsequent research work. The Report also includes a detailed description of the author´s tasks during her training period at the ISIS and of the Institute itself.

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ÍNDICE

Introdução ... 1-4 Contextualização ... 5-6 Capítulo I: Migração e Globalização ... 7-9 I. 1. Migrações na Europa ... 9-13 I. 2. Migrações em Portugal ... 13-14 Capítulo II: Conceito do Tráfico de Seres Humanos ... 15-17 II. 1. As vítimas de Tráfico de Seres Humanos ... 18-21 II. 2. Tráfico de Seres Humanos no Mundo. ... 21-22 II. 3. A União Europeia e o Tráfico de Seres Humanos ... 22-25

II. 4. Portugal e o Tráfico de Seres Humanos ... 26

Capítulo III: Contexto do estágio ... 27

III. 1. Caracterização do IEEI ... 28-29 III. 2. Metodologia. ... 29-30 III. 3. Objectivos do projecto e descrição das funções desempenhadas no âmbito do estágio ... 31-33 III. 3.1 Participação numa reunião de parceria a 14 de Julho de 2011 ... 34-35 III. 3.2 Formação e enquadramento sobre o tráfico de seres humanos ... 35

III. 3.3 Elaboração do workshop III Sines, realizado a 27 de Abril de 2011 ... 35

III. 3.4 Sites/ links de pesquisa diários ... 36

III. 3.5 Site do IEEI sobre Tráfico de Seres Humanos ... 37

III. 3.6 Base de dados do projecto ... 37-40 III. 3.7 Relatório sobre as Rotas de Tráfico de Seres Humanos, a partir da base de dados do IEEI ... 40 III. 3.8 Relatório de Tráfico de crianças ... 40-41

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III. 3.9 Leituras sobre tráfico de seres humanos no mundo e em Portugal ... 41 III. 3.10 Conferência “International Conference Gender, Violence(s) and Social Change” ... 41-42 III. 3.11 Rotas do Observatório do Tráfico de Seres Humanos ... 42 III. 3.12 Levantamento das rotas do IEEI e do OTSH ... 42 III. 3.13 Auditoria do projecto ... 42-43 III. 3.14 Gráficos sobre as Rotas da Base de Dados ... 43 III. 3.15 Workshop IV Castelo Branco ... 43-44 III. 3.16 Relatório sobre a reunião de parceria ... 44-45 III. 3.17 Legislação sobre o Tráfico de Seres Humanos ... 45 IV. 1. Comentários finais ... 46-48 Conclusão ... 49-54 Bibliografia ... 55-58 Anexos ... 59 Anexo 1 - Relatório da reunião de parceria ... 60-66 Anexo 2 - Relatório do workshop de Sines ... 67-73 Anexo 3 - Site do IEEI ... 74-76 Anexo 4 - Base de dados ... 77-79 Anexo 5 - Relatório do tráfico de menores ... 80-92 Anexo 6 - Certificado de participação ... 93-94 Anexo 7 - Listagens para a auditoria ... 95-104 Anexo 8 - Relatório do workshop de Castelo Branco ... 105-111 Ver anexo 9 – Relatório da reunião de parceria ... 112-116

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho consubstancia a última etapa concreta do Mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais, com área de especificação em Estudos Europeus e tratando concretamente o tráfico de seres humanos.

A escolha desta temática foi motivada pela intrínseca europeização da nossa cidadania e pelo conhecimento explícito da realidade que nos cerca, no caso da presença mais ou menos camuflada de cidadãs de Leste, ou brasileiras, ou ainda africanas e até asiáticas, em bares e casas de alterne. Apesar dos desdobrados cuidados de quem está por detrás deste negócio, acabam sempre por transparecer informações que, em muitos casos, não passam de ilações, perfeitamente ao alcance de qualquer elementar raciocínio aliado ao bom senso: essas pessoas dificilmente teriam vindo para Portugal em busca de um emprego dito normal, para depois acabarem por aceitar as condições degradantes em que vivem. Pelo menos, persistem as dúvidas e basta a existência destas para logo se traçar um percurso de pesquisa e averiguação, para tranquilizar a avidez intelectual pela verdade. E esta é fruto de uma construção que é tanto mais aliciante, quanto mais consciência se tem da necessidade de a conseguir. E porque não usufruir da possibilidade de um estágio para poder averiguar um pouco melhor o que tão velado se mostra?

Por outro lado, é inegável que se revela à partida motivante pensarmos que vamos realizar um estágio do curso que acabámos de concluir, porque ele será a verdadeira finalização desse curso, seguindo-se-lhe depois a vida prática e o trabalho activo… Enfim, são formas de pensar em moldes tradicionais, que vão cada vez mais caindo em desuso, em virtude das circunstâncias novas e diferentes que a complexidade da vida nos vai criando.

No nosso caso, começámos também por esses pensamentos, mas em breve a realidade nos provou que, embora de facto um estágio seja um passo de ultimação, ele depressa se transforma numa etapa de iniciação de uma fase muito mais apetecível e bela, cheia de inusitadas novidades e inesperados desafios. Constatámo-lo, quando começámos a entrosar-nos nas tarefas inerentes à especificidade do assunto a tratar, tendo-nos deparado com um admirável mundo novo de solicitações, sugestões, trabalho

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e múltiplas ocupações para as quais quase parece não haver tempo suficiente para lhes dispensar a atenção e os cuidados que merecem.

Após esta agradável surpresa em si e percorrida essa etapa, importava então realizar o relatório da mesma, que apresentamos imediatamente de seguida.

Tratou-se de um período compreendido entre 4 de Setembro de 2011 e 29 de Fevereiro de 2012, preenchido com descobertas e desafios no Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Lisboa, que pronta e carinhosamente nos acolheu, sob proposta da senhora Professora Doutora Isabel Baltazar, sempre zelosa pelo sucesso consequente dos seus ensinamentos, o que em si representa, efectivamente, uma escola de valores para a vida. A Mestre Carla Leão também representou um total acompanhamento, estando sempre disponível para nós durante todo o percurso de estágio e efectivação do presente relatório, zelando ininterruptamente pelo nosso sucesso e do estágio.

Integrados num grupo de trabalho que nos orientou desde o primeiro instante, depressa descobrimos que por detrás de cada tarefa estava um mundo de acontecimentos em catadupa, aos quais não podíamos dar a atenção que pareciam exigir, sob pena de descuidarmos a prioridade inicial que nos tinha acabado de conduzir até aí.

Nesta conformidade, como forma de dar ao trabalho do estágio realizado a necessária organização em termos de sistematização final, elaborámos o presente relatório, que é uma descrição sucinta do pequeno-grande mundo que se nos abriu. Aqui, no âmbito deste trabalho, cabem apenas os breves e concisos resumos das tarefas mais importantes e notórias, em termos de realização. Não cabem, porque tal é verdadeiramente indizível, a surpresa e o entusiasmo sentidos, e diríamos até, o fascínio por verificarmos que há sempre muito mais para além do que os acontecimentos mostram e, na maior parte das vezes, é essa parte escondida que assume o maior relevo, especialmente quando se trata de uma matéria tão bem encoberta por quem a comanda e regula como é o tráfico de seres humanos.

Assim, dividimos este trabalho em quatro capítulos, de acordo com a natural estrutura intelectual que subjaz ao percurso realizado e que mostra um processo lógico e adequado, em termos conceptuais e pragmáticos:

 O primeiro capítulo apresenta o Estado da Arte, em que procedemos à contextualização do estágio, mencionando igualmente a instituição onde decorreu,

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para passarmos a apresentar algumas considerações pertinentes, já de ordem prática e realista, sobre migrações na Europa e em Portugal; logo após, referimos o tráfico de seres humanos, as suas principais vítimas e a presença de muitas destas em Portugal também, quer apenas com carácter local, quer chegadas após a viagem de regiões afastadas, em alguns casos, seguindo rotas que servem os propósitos de quem as usa como uma espécie de objectos ou animais de requintada estimação, com o único objectivo de delas extrair o maior lucro possível;

 O segundo capítulo contextualiza o estágio, fazendo uma breve apresentação do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais, local da sua realização, para além de focar o modo como este estágio aconteceu naquela Organização Não Governamental (ONG);

 No capítulo terceiro, foca-se a metodologia utilizada, acentuando-se que se seguiu o conjunto de indicações sempre zelosamente fornecidas pelo grupo de elementos que desde o primeiro instante nos acolheu, tendo traçado o esquema conceptual que presidiria a este estágio;

 O capítulo quarto, finalmente, apresenta as tarefas realizadas, mencionando a estratégia seguida nessa realização, como forma de demonstrar concretamente o que foi feito ao longo dos seis meses. Na parte final deste capítulo, estão inseridas algumas notas, como comentário geral, integrando também sugestões pessoais, surgidas pelo contacto com esta realidade e após muita pesquisa efectuada previamente, como meio para podermos compreender melhor o assunto e termos uma melhor opinião sobre o mesmo.

Seguidamente, apresentamos uma conclusão, com vários aspectos ditados pela própria realidade e que, logicamente, nos sugeriu um conjunto de opiniões que fomos construindo ao longo deste tempo. Assim, não pudemos deixar de tomar posição num assunto que muito nos agradou tratar, mostrando a forma como nos entrosámos nele e como exercemos a nossa cidadania. Dar a nossa opinião e ajuizarmos sobre o mundo que nos envolve é um modo de restituirmos à sociedade a quota-parte da ajuda e da herança cultural que recebemos. O mundo e a sociedade são um palco de completa interacção, porque ninguém pode arrogar-se viver isolado.

Nesta conformidade, aqui deixamos o nosso trabalho que retracta o mais fielmente possível o percurso feito, a nível das tarefas concretas, referindo igualmente

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aspectos psicológicos que são complementares e, evidentemente, tão importantes como os primeiros, não podendo deixar de acentuar a desilusão sentida pelo facto de, em pleno século XXI, o homem ainda continuar a ser tão ignóbil para os seus semelhantes, revelando a sua dualidade, simultaneamente capaz do bem e do mal!

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CONTEXTUALIZAÇÃO

A senda sócio-política contemporânea revela-nos que é urgente “chamar a atenção para a necessidade de reorganizar o sistema político internacional (…) que nasce a partir de um sentimento de urgência face aos problemas de guerra e paz internacional, chamando a atenção para a especificidade dos problemas internacionais, com o objectivo de melhorar o mundo e contribuir para que no futuro se evitem catástrofes como a Grande Guerra”.1

A par das grandes áreas e problemas que afligem a sociedade, como a eventual emergência de guerras, há outras que, embora muito mais modestas na sua amplitude física, não o são, contudo, na sua dimensão social. É o caso do tráfico de seres humanos em diversas rotas que podem ser não só afro ou amero-europeias, mas também intra-europeias.

Trata-se de um fenómeno da maior gravidade, cuja ocorrência grandes organizações internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) procuram impedir e que as Ciências Políticas e as Relações Internacionais estudam. Obviamente que a União Europeia (UE) não podia deixar de criminalizar este tráfico e apostar na sua prevenção, intensificando a colaboração entre as autoridades policiais e judiciais dos vinte e sete estados membros, por exemplo, através do Grupo de Peritos Sobre o Tráfico de Seres Humanos (GRETA).

É neste contexto que os Estudos Europeus se revelam de uma primordial importância, pois, sendo uma área de especialização que estuda a Europa no seu todo, ultrapassam a vertente política, para terem também uma visão simultaneamente ampla, mas igualmente pormenorizada sobre múltiplos aspectos sociais e civilizacionais, sempre com o grande objectivo da promoção da paz, dos valores ético-sociais e do completo bem-estar da sociedade. Paralelamente, as Relações Internacionais estão implícitas, pela sua especificidade e pela sua natural essência pois o tráfico, seja material, seja humano, faz-se entre países ou continentes, pelo que é necessário manter

1 CRAVINHO, João Gomes, Visões do Mundo – As Relações Internacionais e o Mundo Contemporâneo,

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ligações estratégicas entre países, para obter melhores resultados, numa acção conjunta, com plena e total cooperação.

Tendo o Mestrado os Estudos Europeus como área de especialização, desde logo se revelou especialmente interessante estudar a Europa e particularmente a UE no que se refere ao tráfico, visto que ele é aí particularmente abundante, sendo criminalizado pela União, que protege os grupos mais vulneráveis sujeitos a tal crime, as mulheres e os menores, apostando na sua prevenção.

Após terminada a contextualização torna-se importante descrever o cenário potencializador e em que decorre o tráfico de seres humanos.

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Capítulo I: Migração e Globalização

A década de oitenta, na segunda metade do século XX, trouxe o final da guerra fria e, com ele, uma nova era na vida sócio-política mundial, nomeadamente na Europa. Fenómenos de libertação, como a queda do muro de Berlim e a Perestroika ajudaram a criar um ambiente de maior tranquilidade e estabilidade, mais esperança e progresso, pelo que se assistiu à ocorrência de migrações internacionais, providenciando capital humano imprescindível ao crescimento económico e ao preenchimento do mercado de trabalho, como refere Maria João Guia (2008).2

Tal acontecimento, que indubitavelmente concorreu para o aprofundamento das ligações económico-políticas, e passou também a fazer parte da globalização (Cravinho, 2008)3, trouxe consigo, a par do estreitamento do planeta, a dicotomia imigração/segurança, nomeadamente na Europa comunitária (Rodrigues, 2010)4, visto que a mobilidade das populações está também ligada a outros tipos de fluxos transfronteiriços que mostram a precariedade das pessoas, envolvidas frequentemente em imigração ilegal, múltipla exploração e tráfico.5

Assim, assistimos a uma panóplia de avanços e de descobertas tecnológicas que permitiram o conhecido vanguardismo das tecnologias da comunicação, com o acesso à Internet e às redes sociais, às comunicações telefónicas a custo zero, à liberalização dos mercados internacionais, à constante mobilidade do capital por via electrónica e à homogeneização de culturas, comportamentos e padrões de vida. Porém, e seria absurda a existência apenas de aspectos positivos, verificam-se igualmente novas percepções de insegurança, para além de outros vectores.6

Tendo a UE o maior respeito por valores como a liberdade, dignidade, democracia e igualdade, não podia senão estar empenhada num combate sem tréguas, a

2

GUIA, Maria João, Imigração e Criminalidade - Caleidoscópio de imigrantes Reclusos, Almedina, 2008

3 CRAVINHO, João Gomes, Visões do Mundo – As Relações Internacionais e o Mundo Contemporâneo,

Imprensa de Ciências Sociais, 2008

4

RODRIGUES, Teresa Ferreira, Dinâmicas migratórias e riscos de segurança em Portugal, IDN, Novembro de 2010, Lisboa

5 RODRIGUES, Teresa Ferreira, Dinâmicas migratórias e riscos de segurança em Portugal, IDN,

Novembro de 2010, Lisboa

6 RODRIGUES, Teresa Ferreira, Dinâmicas migratórias e riscos de segurança em Portugal, IDN,

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uma realidade que atropela brutalmente estes valores, não só nos seus vinte e sete membros, mas nas áreas limítrofes, estendendo esse apoio até a outros continentes.

É justo e adequado que recordemos a constituição da UE: os seis fundadores, datando de 1952, ou seja, Alemanha, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos; depois, os três países que se lhes juntaram em 1973, Dinamarca, Irlanda e Reino Unido; a Grécia, que se juntou em 1981 e cinco anos mais tarde, em 1986, os países ibéricos, Espanha e Portugal. Áustria, Finlândia e Suécia viriam a unir-se ao bloco em 1995. Em 2004, houve um grande grupo que foi admitido no seio deste já tão alargado conjunto. Foram alguns países do leste europeu e outros que entretanto tinham igualmente formulado o seu pedido de adesão – Chipre, Eslováquia, Eslovénia, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Malta, Polónia e República Checa. Finalmente, em 2007, aderiram a Bulgária e a Roménia.

Todos estes Estados-Membros têm a manifesta obrigação política de respeitar a paz, a segurança, o desenvolvimento sustentável do planeta, bem como a solidariedade e o respeito mútuo entre os povos, o comércio livre e equitativo, a erradicação da pobreza, a protecção dos direitos humanos, especialmente os direitos das crianças, seres mais frágeis e inocentes que não devem pagar pelos erros dos adultos. Respeitar escrupulosamente o direito internacional, obedecendo aos princípios da Carta das Nações Unidas, é outra distinta obrigação valorativa da UE.

Até à entrada em vigor do Tratado de Lisboa, existiam três pilares instituídos pelo Tratado de Maastricht, realizado em 1992: a área comunitária, a política externa e de segurança comum e a cooperação policial e judicial em matéria penal.

O Tratado de Lisboa vem eliminar esta disposição em pilares, mantendo a política externa e de segurança comum, à qual continua a aplicar-se o método intergovernamental. Por outro lado, ainda que as questões relativas à segurança e aos assuntos internos sejam do âmbito da comunidade, existem algumas, particularmente as que estão associadas a assuntos penais, em que cada Estado-Membro tem poderes importantes, no que concerne a determinados procedimentos particulares.

Ao longo da sua vida e da sua história, a UE tem feito progressos assinaláveis, que passaram pela criação de um mercado único, tendo sido abolidas as fronteiras nacionais (Acordo Schengen). Tal facto teve imediatas vantagens económico-sociais na livre circulação das pessoas, mercadorias e serviços, mas por outro lado, essa

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liberalização arrastou consigo alguma desvantagem, criando mais insegurança, visto que os criminosos souberam aproveitar as circunstâncias criadas, embora os Tratados de Maastricht (1992) e de Amesterdão (1997) tenham alargado a cooperação em matérias policiais e judiciais.

Foi exactamente como fruto dessa colaboração que foi criado um Sistema de Informação de Schengen, consistindo numa base de dados que permite a troca de informação entre os Estados-Membros e a EUROPOL, polícia que actua contra o crime transfronteiriço. Contudo, a criminalidade continua em grande escala e com requinte estratégico, manifestando-se através do terrorismo e crime organizado, tráfico de droga e seres humanos, branqueamento de capitais, falsificação e inovadoras formas de crimes financeiros. De todos estes, é o tráfico de seres humanos que se reveste da mais monstruosa carga de desumanidade, pelo tratamento de pessoas como se fossem objectos, vis mercadorias ao serviço de interesses económico-financeiros de uma minoria tremendamente exploradora, tópico que será oportunamente desenvolvido no presente relatório.

Sendo as migrações o factor impulsionador e a Europa o território em foco, passamos a descrever esta realidade de forma mais objectiva, embora de forma sumária.

I.1. Migrações na Europa

A estrutura populacional do continente europeu configura um caso particular, com 32% do total da imigração internacional e devendo 6% do seu crescimento demográfico às migrações, esperando-se que a sua população continue a aumentar até 2025. Sendo os imigrantes os grandes protagonistas neste futuro desenho da Europa, e havendo novos e diferentes perfis de população estrangeira, revela-se urgente desenvolver estratégias que potenciem os efeitos positivos da migração e minimizem os seus eventuais efeitos negativos.7 É que o século XXI será o século do envelhecimento demográfico, particularmente problemático para as sociedades que revelarem inépcia na recriação de novos equilíbrios inter-geracionais, pelo que o continente europeu,

7

RODRIGUES, Teresa Ferreira, Dinâmicas migratórias e riscos de segurança em Portugal, IDN, Novembro de 2010, Lisboa

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figurando entre as regiões mais atractivas e apetecíveis do planeta, ficará necessariamente dependente das migrações.8

De facto, desde o Acordo Schengen em 1985, abrindo as fronteiras internas entre os países que o assinaram, até aos nossos dias, tem-se assistido ao aumento da insegurança, devido à ausência de controlos fronteiriços, o que origina simplificação da actuação no âmbito criminal. Essa liberalização começou por existir entre França, Alemanha, Bélgica, Luxemburgo e Países Baixos, mas mais estados vieram a aderir a este acordo, como a Itália, em 1990, Espanha e Portugal no ano seguinte, Grécia logo após e a Áustria em 1995. O conjunto de países nórdicos, compreendendo a Dinamarca, Finlândia Suécia Islândia e Noruega em 1996 e o Reino Unido também se lhe juntou em 2000, seguido da Irlanda dois anos depois. Em 2007 houve um grupo alargado de países que também vieram a integrar o espaço Schengen. Foram eles a República Checa, Estónia, Letónia, Lituânia, Hungria, Malta, Polónia, Eslovénia e Eslováquia. Imediatamente no ano seguinte e até de certa forma surpreendentemente, aderiram a Suíça e o Liechtenstein.

A cooperação entre os países e a coordenação policial e judicial não constituem garantia completa para a segurança dos cidadãos, pois há grupos altamente qualificados que se adaptam a todas as vantagens e desvantagens que a globalização vai proporcionando.9 Deste modo, devido à abertura de fronteiras e à ausência de fiscalização, o tráfico de pessoas acaba por se propagar facilmente, passando as vítimas por vários países, sem serem sequer detectadas e muito menos, sinalizadas. Daí que a investigação sobre esta temática seja urgente, pelo que o trabalho realizado pelo Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI) seja de louvar e assinalar, visto que contribui para o aprofundamento da questão e para um maior conhecimento da realidade, o que permite que se venha a poder combatê-la com mais proficuidade.

Tal é fundamental para o desenvolvimento sustentável, a melhoria da qualidade de vida e a estabilidade e percepção da segurança individual, sendo de assinalar o

Human Development Report de 200910 que, neste sentido, faz cinco propostas, cuja

8 RODRIGUES, Teresa Ferreira, Dinâmicas migratórias e riscos de segurança em Portugal, IDN,

Novembro de 2010, Lisboa

9

GUIA, Maria João, Imigração e Criminalidade - Caleidoscópio de imigrantes Reclusos, Almedina, 2008

10 Published for the United Nations Development Programme, 2009, Human Development Report 2009 -

Overcoming barriers: Human mobility and development. Disponível em:

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concretização entende necessária como garantia de um melhor futuro na articulação entre sociedades mais e menos ricas, emissoras e receptoras e que são as seguintes: 1. Liberalizar e simplificar canais regulares facilitadores da migração; 2. Garantir o respeito pelos migrantes, nas esferas da educação, saúde, protecção social e direitos laborais; 3. Reduzir os custos de trânsito; 4. Facilitar o processo de integração na sociedade de destino; 5. Repensar a imigração num contexto compreensivo de desenvolvimento.11

Sem dúvida que o papel da Europa e, dentro dela, da UE - zona especialmente atractiva – serão determinantes na prossecução desses propósitos.12

Avaliar o impacto migratório apresenta dificuldades notáveis, no que concerne, por exemplo, a estimativa da entrada e permanência não autorizadas, as quais têm sido significativas nos últimos anos, devido sobretudo aos cidadãos de Leste e dos países do Sul. É neste sentido que as migrações podem representar um risco para a soberania do Estado e da sociedade, visto que a segurança nacional continua a ser uma atribuição fundamental do Estado moderno, que deve assegurar a integridade do território, proteger a população e salvaguardar os interesses nacionais.13

Porém não é fácil assegurar tal protecção, como sabemos, devido à liberdade de circulação de pessoas e bens, assistindo-se já a novos cenários nas sociedades de acolhimento, em que as pessoas consideram muitas vezes os imigrantes potencial ameaça, devido ao seu estatuto ilegal, associando-os, por isso, ao terrorismo ou, de alguma maneira, ao crime organizado. Desconfiam deles e consideram-nos uma ameaça social à cultura, contestando frequentemente a concessão de direitos de cidadania, especialmente quando se trata de indivíduos de origem árabe. Compreendem-se estas manifestações algo xenofóbicas, se pensarmos nos ataques às torres gémeas em Nova Iorque, em Setembro de 2001, ou nas explosões ocorridas posteriormente em Madrid e Londres.14 Todos conhecemos muito bem os múltiplos documentários, reportagens e programas alusivos a tais catástrofes, pelo que deste modo, a comunicação social tem contribuído fortemente para a formação de um estado de espírito colectivo, uma cultura

11 RODRIGUES, Teresa Ferreira, Dinâmicas migratórias e riscos de segurança em Portugal, IDN,

Novembro de 2010, Lisboa

12 RODRIGUES, Teresa Ferreira, Dinâmicas migratórias e riscos de segurança em Portugal, IDN,

Novembro de 2010, Lisboa

13 RODRIGUES, Teresa Ferreira, Dinâmicas migratórias e riscos de segurança em Portugal, IDN,

Novembro de 2010, Lisboa

14

RODRIGUES, Teresa Ferreira, Dinâmicas migratórias e riscos de segurança em Portugal, IDN, Novembro de 2010, Lisboa

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de massas no que diz respeito a questões de segurança, que de repente se revelou da maior fragilidade, apesar dos esforços gigantescos dos países para a manterem. Se o mundo assistiu aterrorizado aos crimes do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque e todo o poderio policial e de vigilância locais se revelaram perfeitamente infrutíferos, então é lógico que as populações compreendam, um pouco por todo o lado, que é chegado o momento de serem elas, autonomamente, a tomarem em mãos a sua segurança, exercendo um maior e mais cerrado controlo de imigrantes, o que muitas vezes origina episódios em que os preconceitos falam mais alto. Afinal, é a resposta humana, lógica e óbvia, aos acontecimentos que infelizmente se vão somando contra a segurança das pessoas e dos países.

O gradual envelhecimento da Europa mostra que o século XXI será, sem dúvida, o século das migrações, tornadas desde logo uma das principais fontes de preocupação, pelo que as políticas de integração constituem um grande desafio nas próximas décadas. Foram previamente gizadas com a Declaração de Barcelona15, em 1995, e o Pacto Europeu sobre Imigração e Asilo16, assinado em Outubro de 2008, visando construir uma política de imigração comunitária baseada na migração legal, com acesso à integração social, justiça e segurança; controlo dos fluxos migratórios ilegais, assegurando o seu regresso aos respectivos países de origem, onde deverá haver ajuda para a melhoria das condições económico-sociais; construção de uma Europa de asilo; reforço do entendimento mútuo entre culturas e civilizações; luta contra discriminação social, racismo e xenofobia, bem como contra o terrorismo e a criminalidade.17

Exactamente neste âmbito de novos desafios transnacionais, surgiram respostas de cooperação internacional, dadas por organismos específicos - EUROPOL, EUROJUST e UNODC. Esta última, United Nations Office on Drugs and Crime, assinou em 2009 um acordo de cooperação com a Comissão Europeia sobre o tráfico de seres humanos e crime transnacional.18

Para além da acção destes organismos, há também a referir que a UE prevê medidas para melhorar a segurança interna através da cooperação em matéria de

15 Conselho da União Europeia, 1995, Barcelona declaration. Disponível em:

http://www.eeas.europa.eu/euromed/docs/bd_en.pdf (Consultado em: 15-03-2012)

16 Conselho da União Europeia, 2008, Pacto Europeu sobre a Imigração e o Asilo. Disponível em:

http://register.consilium.europa.eu/pdf/pt/08/st13/st13440.pt08.pdf (Consultado em: 15-03-2012)

17 RODRIGUES, Teresa Ferreira, Dinâmicas migratórias e riscos de segurança em Portugal, IDN,

Novembro de 2010, Lisboa

18

RODRIGUES, Teresa Ferreira, Dinâmicas migratórias e riscos de segurança em Portugal, IDN, Novembro de 2010, Lisboa

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aplicação da legislação, da gestão das fronteiras, da protecção civil e da gestão de catástrofes.19

Neste momento da redacção torna-se essencial perceber como se comporta Portugal neste contexto das migrações.

I.2. Migrações em Portugal

A História revela-nos uma situação muito curiosa em Portugal, relativamente à migração. É que, se no passado, o país foi um dos que, tradicionalmente, criou uma notável diáspora, o passado recente, após Abril de74 e a adesão à UE fizeram dele um espaço atraente e apetecível para povos em piores condições económico-sociais, pelo que passou de país de emigrantes para receptor de imigração sob o estatuto de turismo, ou residência de pleno direito, emprego, ou apenas a fruição calma da reforma, numa região amena e pacífica.20

Cumulativamente, as leis aqui vigentes sobre imigração remetem para a garantia dos direitos essenciais, como a inclusão de cidadãos de países terceiros, reunificação familiar e direito ao emprego, saúde e educação. Contudo, há também a preocupação de lutar contra a imigração ilegal, e tráfico de seres humanos, como o consignam a Lei da Nacionalidade (Decreto-lei nº 2/200621) e a Lei da Imigração (Decreto-lei nº 4/ 200722), o que de facto demonstra que tal assunto tem sido objecto de preocupação política.23

19

UE, 2012, Justiça e Assuntos Internos. Disponível em: http://europa.eu/pol/justice/index_pt.htm

(Consultado em: 15-03-2012)

20 RODRIGUES, Teresa Ferreira, Dinâmicas migratórias e riscos de segurança em Portugal, IDN,

Novembro de 2010, Lisboa

21 Diário da República, 2006, Lei orgânica n.º 2/2006 de 17 de Abril. Disponível em:

http://www.nacionalidade.sef.pt/docs/LO_2_2006.pdf (Consultado em: 18-03-2012)

22 22 Diário da República, 2007, Diário da República, 1.a série— Nº. 11— 16 de Janeiro de 2007.

Disponível em: http://www.dre.pt/pdf1s/2007/01/01100/03450356.pdf (Consultado em: 18-03-2012)

23

RODRIGUES, Teresa Ferreira, Dinâmicas migratórias e riscos de segurança em Portugal, IDN, Novembro de 2010, Lisboa

(22)

Em Portugal, verifica-se a existência de seis perfis diferenciados de estrangeiros e que são de origem europeia, dentro da UE, da mesma origem, mas fora da UE, e de origens norte e sul-americana, africana e asiática.24

Até a um passado recente, não se verificava a correlação imigração/criminalidade, o que tem vindo a modificar-se ultimamente. Na verdade, esta modificação começou logo após a adesão portuguesa ao espaço Schengen, mas é recentemente que a insegurança tem atingido proporções nunca vistas neste país dito, tradicionalmente, “de brandos costumes”. Tal também se verifica, em grande parte, devido às difíceis circunstâncias económicas que, acentuando a vulnerabilidade de alguns grupos, sobretudo em situação ilegal, motivam de alguma maneira a sua ligação a actividades criminosas, como os tráficos de armas e de seres humanos, produção e venda de documentos falsos e até branqueamento de capitais, o que toma gradualmente mais e maior complexidade, devido também à subtileza da forma de actuar, frequentemente ligada às mais avançadas tecnologias da informação.25

Nesta conformidade, é absolutamente necessário que as autoridades estejam particularmente atentas a tal panorama social, de modo a poderem ser evitados futuros comportamentos criminosos e a serem devidamente salvaguardadas a segurança e a tranquilidade dos indivíduos e das populações.

Por outro lado, verificamos actualmente a existência de uma multiculturalidade muito rica, que faz lembrar os tempos remotos da aculturação pelos quatro cantos do mundo, o que deu a Portugal a sua profunda e indestrutível feição humanista, com uma muito longa e entrosada experiência na inter-relação com todos os povos e culturas. Hoje, a realidade é díspar, mas decerto que tal experiência poderá revelar-se uma incontestável mais-valia na abordagem deste problema que hodiernamente se levanta.

Fazendo o ponto da situação, percepcionamos que vivemos num mundo, numa região e num país em que a mobilidade de pessoas está facilitada, desde logo porque necessitamos, a nível europeu e nacional, de população em idade activa para manter o cenário demográfico em situação controlada. Esta necessidade potencia comportamentos desviantes e de entre os quais ressalvamos o Tráfico de Seres Humanos, sobre o qual passaremos a lavrar.

24 RODRIGUES, Teresa Ferreira, Dinâmicas migratórias e riscos de segurança em Portugal, IDN,

Novembro de 2010, Lisboa

25

RODRIGUES, Teresa Ferreira, Dinâmicas migratórias e riscos de segurança em Portugal, IDN, Novembro de 2010, Lisboa

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Capítulo II: Conceito do Tráfico de Seres Humanos

O tráfico de seres humanos é uma violação muito grave dos Direitos Humanos e assume os contornos de uma forma de escravidão moderna. Trata-se da exploração de pessoas vulneráveis que são tratadas e vendidas como objectos, usadas para exploração sexual (79%), laboral ou forçada de alguma maneira. No entanto, é ainda possível apontar outras formas de tráfico, como para a mendicidade, o que é mais visível em menores, ou para a servidão doméstica, doação involuntária de órgãos, integração de exércitos de guerrilha - as chamadas crianças-soldados - e até para casamentos forçados. Na base desta enorme pirâmide de atropelos, estão as mulheres e as crianças, pela sua óbvia maior vulnerabilidade e fragilidade.26

Não é um fenómeno recente, pois a História refere-o, tanto em países ricos, como pobres, mas nunca com a gravidade e as dimensões que atingiu nos nossos dias, tendo até o Observatório de Tráfico de Seres Humanos referido que: “Tal tráfico é já considerada a terceira actividade ilegal mais rentável do mundo, ficando apenas atrás dos tráficos de armas e de drogas.”27

É infelizmente um negócio atraente inclusivamente para mulheres que funcionam também como angariadoras de pessoas a traficar, verificando-se que o mesmo país pode apresentar múltiplos perfis, isto é, ser país de origem, destino e trânsito das vítimas de tráfico, o que, aliás, se tem passado em Portugal.28

O documento elaborado pelo Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) Global report on Trafficking in persons 201129 permitiu actualmente, serem estudados em termos de tráfico 155 países, onde não se verifica a existência de legislação concernente a tal tipo de crimes, o que deveras dificulta a situação existente, pois muitas vezes, os traficantes estão ligados a outras actividades paralelas e

26 MONTGOMERY, Heather, SAS KROPIWNICKI, Zosa, EVANS, Roz, Trafficking women and

children, Overcoming the illegal sex trade, Refugee Studies Centre

27 OTSH, 2012, A terceira actividade ilegal mais lucrativa. Disponível em:

http://www.otsh.mai.gov.pt/?area=203&mid=000&sid=1&sid=000&cid=CNT4db952e61c427

(Consultado em: 15-03-2012)

28

UNGIFT, 2012, US Trafficking in Persons 2012 Annual Report. Disponível em:

http://www.ungift.org/knowledgehub/stories/june2012/un.gift-featured-in-us-trafficking-in-persons-2012-annual-report.html (Consultado em: 6-12-2011)

29 UNODC, 2011, Global Report on Trafficking in Persons. Disponível em:

http://www.unodc.org/unodc/en/human-trafficking/global-report-on-trafficking-in-persons.html

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igualmente ilícitas, acabando por ser presos por crimes de outra índole. Acresce que por medo, por coacção rígida ou qualquer forma de suborno, a maior parte das vítimas não apresenta queixa. Consequentemente, há ainda bastante dificuldade em caracterizar este crime, não existindo também muitos dados sobre tal realidade.

Por conseguinte, revela-se urgente a necessidade de harmonizar definições legais, procedimentos e cooperação aos níveis regional, nacional e internacional, sendo de salientar que em 2007, cerca de 40% dos países do mundo ainda não tinham registado uma única condenação por tráfico de seres humanos, também devido à inexistência de legislação consentânea. Algo de muito semelhante se passa em Portugal, onde se conhece, a nível de senso comum, que há uma quantidade crescente de gente vítima deste tráfico, mas que globalmente o esconde, como se confirma através da base de dados do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI).

Visto que a eclosão de tal fenómeno com as amplas dimensões que se conhecem é relativamente recente, só em 2000 surgiu documentação internacional visando maior eficácia no seu combate, embora date de 1904 a primeira convenção internacional proibindo o tráfico de pessoas e de 1947, a emissão de documentação concernente, pelas Nações Unidas.

Efectivamente, em Novembro de 2000, surgiram, emitidos pelas Nações Unidas, o Protocolo Adicional Relativo à Prevenção, à Repressão e à Punição do Tráfico de pessoas, especialmente mulheres e crianças30, bem como o Protocolo Adicional contra o Tráfico Ilícito de Migrantes por via Terrestre, Marítima e Aérea31. São instrumentos internacionais que verdadeiramente tratam de questões de tráfico em todas as suas dimensões.32

Foi nessa mesma data que surgiu igualmente a Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional - Convenção de Palermo33, que entraria em vigor em Dezembro de 2003, com o mesmo objectivo e sendo absolutamente explícita

30 APAV, 2000, Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra a Criminalidade

Organizada Transnacional relativo à Prevenção, à Repressão e à Punição do Tráfico de Pessoas, em especial de Mulheres e Crianças. Disponível em:

http://apav.pt/apav_v2/images/pdf/protocolotraficopt.pdf (Consultado em: 18-03-2012)

31 Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, 1999, Protocolo Adicional contra o Tráfico Ilícito de Migrantes

por via Terrestre, Marítima e Aérea. Disponível em:

http://www.nao-estas-a-venda.sef.pt/docs/protocolo_trafico_ilicito_migrantes.pdf (Consultado em: 15-03-2012)

32 IEEI, Projecto Direitos Humanos, segurança e migrações

33 UNODC, 2001, Convención de las Naciones Unidas contra la Delincuencia Organizada

Transnacional. Disponível em: http://www.unodc.org/pdf/crime/a_res_55/res5525s.pdf (Consultado em: 18-03-2012)

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na definição e identificação de tal crime que abrange o “recrutamento, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça, uso da força, ou outras formas de coacção, ao rapto (sequestro e rapto privado), à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou de vulnerabilidade ou à entrega e aceitação de pagamentos e benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tem autoridade sobre outra para fins de exploração. A exploração deve incluir, pelo menos, a exploração da prostituição de outrem ou outras formas de exploração sexual, o trabalho ou serviços forçados, escravatura ou práticas similares à escravatura, a servidão ou extracção de órgãos.”34

Bastante mais recentemente, foi elaborado um documento pelo Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC), o Global Report on Trafficking in

Persons 201135, vindo acentuar a situação de carência legislativa específica em cada um dos 155 países estudados, o que é um dos principais obstáculos na luta contra tal crime, salientando ainda o esforço que as autoridades competentes têm vindo a desenvolver.

O UNODC pretende, sobretudo, alcançar cinco objectivos: analisar a questão do tráfico de pessoas nesses cento e cinquenta e cinco países; verificar como é que em cada um desses países se processa a assistência prestada às vítimas de tráfico de seres humanos, contemplando igualmente as questões policiais e judiciais; verificar também o número de condenações por este crime nos países que aderiram ao Protocolo das Nações Unidas de Prevenção, Supressão e Punição do Tráfico de Pessoas, especialmente Mulheres e Crianças36; apurar relativamente à sensibilização existente para este tipo de crime e, finalmente, verificar qual é o género mais afectado por este crime e o tipo de tráfico mais comum.37

Há, assim, como facilmente se conclui, real sensibilização para a compreensão de tal situação tão profundamente lesiva dos Direitos Humanos.

34 Portal da Segurança, 2011, Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra a

Criminalidade Organizada Transnacional relativo à Prevenção, à Repressão e à Punição do Tráfico de Pessoas, em especial de Mulheres e Crianças. Disponível em:

http://www.portalseguranca.gov.pt/images/biblioteca/traficohumanos/protocolo.pdf (Consultado em: 06-02-2012)

35

UNODC, 2011, Global Report on Trafficking in Persons. Disponível em:

http://www.unodc.org/unodc/en/human-trafficking/global-report-on-trafficking-in-persons.html

(Consultado em: 6-12-2011)

36 Portal da Segurança, 2011, Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra a

Criminalidade Organizada Transnacional relativo à Prevenção, à Repressão e à Punição do Tráfico de Pessoas, em especial de Mulheres e Crianças. Disponível em:

http://www.portalseguranca.gov.pt/images/biblioteca/traficohumanos/protocolo.pdf (Consultado em: 06-02-2012)

37

UNODC, 2011, Global Report on Trafficking in Persons. http://www.unodc.org/unodc/en/human-trafficking/global-report-on-trafficking-in-persons.html (Consultado em: 6-12-2011)

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II.1. As vítimas de Tráfico de Seres Humanos

As vítimas deste tipo de tráfico são normalmente oriundas de países com fracas condições sócio-económicas, como regiões da Europa de Leste (Albânia, Bulgária, Hungria, Kosovo, Polónia, República Checa, Roménia, Ucrânia), África (Angola, Costa do; Marfim, Gana, Marrocos, Nigéria, São Tomé e Príncipe, Senegal e Togo), Ásia (Filipinas, Nepal e Tailândia) e América Latina (Brasil, Colômbia Equador, República Dominicana e Venezuela). Maioritariamente, apresentam fraca escolaridade, embora se verifiquem excepções, pois são conhecidas vítimas com boa formação académica que, tendo partido à procura de melhores condições de vida, se vêem de repente enredadas nestas teias de que não conseguem fugir. Tal acontece sobretudo com jovens de Leste ou da Península Ibérica.38

Este tráfico apresenta geralmente três tipos de fluxo, desde o interno/doméstico que acontece no país oriundo, até ao trans-regional ou trans-continental, que tanto pode ser entre continentes, como Ásia – Europa ou África – Europa, como entre regiões delimitadas no mesmo continente – América do Norte e Central, Europa de Leste e Central ou Ocidental… Além destes, ainda se pode assinalar o fluxo chamado de intra-regional, que tal como o próprio nome indica, se realiza entre países diferentes da mesma região.

As rotas observadas no período de estágio constam nos anexos (anexo 6 – Relatório sobre as rotas da base de dados do IEEI). Através delas, é possível obter uma ideia mais precisa do tipo de viagens a que estas pessoas são sujeitas, estando presentes alguns dos países supra-citados.

Para travar um combate eficaz a tal tipo de tráfico, é necessário que todos os países, especialmente os mais afectados por ele, desenvolvam e partilhem conhecimentos, num contínuo intercâmbio de dados e numa perfeita cooperação, já que é extremamente difícil provar crimes desta natureza, visto que a prova é, em regra, testemunhal e não física. Os Estados-membros da ONU reconhecem esta necessidade, quando, no artigo 28º da Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional afirmam: “Os Estados-membros deverão considerar o desenvolvimento e

38

GUIA, Maria João, Imigração e Criminalidade - Caleidoscópio de imigrantes Reclusos, Almedina, 2008

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a partilha de conhecimentos e da análise das actividades criminosas organizadas como uma necessidade essencial, fazendo circular esses dados e dando-lhes o devido tratamento, através de organizações internacionais e regionais. Para o efeito, definições, normas e metodologias deverão ser desenvolvidas e aplicadas, conforme o caso.” Por seu lado, os traficantes sabem bem aproveitar as debilidades existentes para

as fazerem render a seu favor, tecendo constantemente uma teia de complexidade crescente com que as autoridades competentes se defrontam, numa luta sem tréguas e que, muitas vezes, parece inclinar-se a favor dos criminosos, tão subtil é este crime e tão refinadamente requintadas e modernas são as estratégias usadas!

Efectivamente, apesar dos grandes esforços que têm sido colectivamente desenvolvidos, há ainda alguns aspectos que urge corrigir, de forma a providenciar melhor apoio às vítimas que têm a coragem de delatar a situação. Nesta conformidade, não se compreende como é que estas ainda continuam a ser levadas para o mesmo local, que primitivamente estava destinado a mudar frequentemente, mas que continua o mesmo, talvez pelas vicissitudes da situação e pelas dificuldades decerto ocorridas em processos tão vulneráveis. Acresce que tal instituição é bem conhecida dos criminosos, pelo que aí, as vítimas ficam sujeitas à acção penalizadora daqueles. Evidentemente que o medo de represálias contra si próprias e as suas famílias impede a maioria das vítimas de falar, sujeitando-se assim penosa e servilmente a um cativeiro miserável, à constante humilhação e vulnerabilidade, em virtude de serem desprovidas dos seus documentos. Além disso, são transportadas para diferentes locais, nunca permanecendo mais de seis meses em cada um, de modo que não possam criar laços ou aprender a falar a língua. Convém não esquecer que são elos de um negócio muito rentável que os exploradores sabem bem gerir, mudando frequentemente as “funcionárias” de bares de alterne, para continuar ou aumentar, se possível, os já tão elevados níveis de rentabilidade. No entanto, se as vítimas forem crianças, mudam-nas de local com muito maior frequência, especialmente quando se trata de bebés para adopção, que chegam a mudar de residência de três em três dias. Deste modo, é óbvio que o controlo policial se torna incomensuravelmente mais difícil, pois estas redes são requintadas na sua metodologia, prevendo tudo, ou quase tudo e sabendo muito bem adaptar-se à crescente complexificação da vida, dos estilos de vida, dos avanços tecnológicos, da segurança e do policiamento e patrulhamento.

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São uma espécie de piratas multifacetados dos tempos modernos e as vítimas do seu crime são geralmente traficadas como turistas e enganadas com falsas promessas de trabalho bem remunerado, como manequins, dançarinas ou baby-sitters, ou então trabalhadoras da restauração ou da limpeza em hotéis. Quantas vezes também, são vendidas por familiares ou amigos, ou até enganadas pelo próprio angariador/explorador que as seduz e se faz passar por seu namorado, para logo após as convencer a acompanhá-lo para o estrangeiro. É o conhecido caso do lover boy, como refere o coordenador nacional do Plano de Combate ao Tráfico de Seres Humanos.39

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, o tráfico de seres humanos tem vindo a aumentar, especialmente para exploração sexual. O escritório das Nações Unidas sobre Droga e Crime (ONUDC) acrescenta que este crime vitima cerca de 2,4 milhões de pessoas anualmente e como mercado, tem como lucro anual mais de 32 milhões de dólares.40

Normalmente, as diferentes fases de tráfico de seres humanos incluem: o recrutamento; a viagem, transporte e rotas; e os países de destino, no caso do tráfico internacional.

Segundo o Departamento de Estado dos EUA, cerca de 50% das vítimas do tráfico de seres humanos têm menos de dezoito anos, o que acentua ainda mais, se tal é possível, a monstruosidade deste crime. Dados da UNICEF estimam que cerca de 1,2 milhões de crianças sejam traficadas por ano como fonte de trabalho barato e/ou para exploração sexual. É particularmente doloroso, por exemplo, associar a este tráfico, com o terrível cortejo de consequências tão aviltantes que temos vindo a referir e que são, aliás, sobejamente conhecidas do senso comum, os frequentes desaparecimentos misteriosos de crianças e jovens que vemos anunciados nos mass media, chorados e incansavelmente procurados por familiares, amigos e polícia e que nunca mais aparecem, como se fosse possível a sua sublimação, tanto mais que a sociedade actual dispões de tantos e tão sofisticados meios de busca e análise!... Afinal, que lhes teria acontecido? Muito provavelmente, muitos deles sobrevivem nos antros sórdidos deste negócio de milhões, servindo de “máquinas-humanas-geradoras-de-lucros-milionários”!

39

Jornal I, 2010, Tráfico de pessoas: 80% das vítimas são vendidas pela família. Disponível em:

http://www1.ionline.pt/interior/index.php?p=news-print&idNota=55999 (Consultado em: 15-03-2012)

40 ONU, 2012, 2,4 milhões de pessoas são vítimas do tráfico de seres humanos, afirma UNODC.

Disponível em: http://www.onu.org.br/24-milhoes-de-pessoas-sao-vitimas-do-trafico-de-seres-humanos-afirma-unodc/ (Consultado em: 16-04-2012)

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Sem dúvida que a incerteza que se instala é a melhor motivação para continuar a procurá-los e a lutar contra tal rede e os seus tão bem organizados e maquiavélicos meandros…

III.2. Tráfico de Seres Humanos no mundo

Apesar de todos os países manifestarem muito boa vontade em colaborar no sentido de promover uma forte e sólida oposição ao tráfico de seres humanos, é claro que, em termos práticos, fica sempre a impressão de que se permanece deveras aquém do que seria desejável, pelo que, de um modo geral, todos os países do mundo beneficiariam se houvesse mais transparência na partilha dos dados e na tramitação processual do combate ao tráfico que reduz a objectos tantas pessoas fragilizadas e tantas vezes vítimas de quem julgavam amigos e protectores.

Verifica-se ainda alguma desconexão e falta de sistematização, por exemplo, na própria recolha dos dados, e sem dúvida que todos os Estados-membros da U.E. e até das Nações Unidas beneficiariam grandemente, se houvesse uma real melhoria na abordagem do problema do tráfico de pessoas e um maior conhecimento sistémico, o que se revelaria inestimável na elaboração de intervenções específicas em determinados âmbitos e localizações físicas de prevaricações graves a nível deste problema internacional. A tal propósito, o trabalho do Gabinete das Nações Unidas para as Drogas e o Crime Organizado poderia constituir ajuda e exemplo em termos metodológicos, apresentando estratégias práticas: quadro legislativo e administrativo; resposta da justiça; serviços da vítima e dados sobre os mercados que absorvem as vítimas de tráfico e dados sobre a população em situação de risco nos países de origem.

Decerto que os mecanismos para captar estes dados não precisam de ser sofisticados ou particularmente caros, pelo que parece que, no fundo, se trata de um caso de vontade política, para tornar mais activamente exequíveis as já existentes ligações entre tantos departamentos internacionais, também aos níveis policial e judicial. É bem certo que o momento que atravessamos é particularmente difícil, pela gravidade da crise sócio-económica entretanto instalada, a qual exige intervenções prioritárias em determinados sectores. No entanto, este também constitui um problema social da maior gravidade, com tendência para aumentar, o que acontecerá

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inevitavelmente com maior rapidez, se entretanto os criminosos se aperceberem do mais ligeiro abrandamento no combate que tem vindo a ser travado nesta área. Assim, por exemplo, a questão do tráfico, que tem progressivamente vindo a ser inserida na agenda política internacional, não pode deixar de merecer continuidade de tratamento a esse nível.

Infelizmente, é sobejamente conhecida a situação de aumento de vítimas deste tráfico, provenientes logicamente de países com carências a nível sócio-económico, pelo que parece igualmente óbvia a necessidade de uma intervenção mais profícua, pronta e pragmática nesses países, de modo a prestar uma ajuda deveras substancial que possa evitar um tão grande fluxo de vítimas traficadas.

II.3. A União Europeia e o Tráfico de Seres Humanos

Pautando-se a UE por valores de irrepreensível importância ética, é perfeitamente compreensível que também a luta contra todas as formas de migração irregular, onde se inclui o tráfico de seres humanos, seja central às suas políticas. De facto, a bandeira da União é a protecção inequívoca do direito internacional e dos direitos humanos, afirmando que: ”… o tráfico de seres humanos constitui uma grave violação dos direitos humanos fundamentais e da dignidade humana e implica práticas cruéis, como a exploração e manipulação de pessoas vulneráveis, bem como a utilização de violência, ameaças, servidão por dívidas e coacção.”41

Ao analisar o tráfico de pessoas na Europa, pode esta ser dividida em várias partes. Em primeiro lugar, duas zonas ou sub-regiões, o centro e o sul da Europa oriental, que serve principalmente como uma sub-região de origem e trânsito. Há depois a Europa ocidental, que constitui uma zona privilegiada para recepção das pessoas traficadas em todo o mundo, visto que se trata de uma região rica, de elevada densidade populacional, de grandes possibilidades económico-financeiras e de alguma tradição também na busca de lazer e de prazeres, tantas vezes menos consentâneos com a ética social! Já os tempos da colonização o demonstraram, como a História profusamente

41 Jornal Oficial das Comunidades Europeias, Decisão-Quadro do Conselho de 19 de Julho de 2002

relativa à luta contra o tráfico de seres humanos. Disponível em: http://eur-lex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.do?uri=OJ:L:2002:203:0001:0004:PT:PDF (Consultado em: 17-04-2012)

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ilustra. Verifica-se também que a maioria das vítimas de tráfico é proveniente dos países da Europa de Leste, tendo como destino a Europa ocidental. De facto, países como Albânia, Bielorrússia, Bulgária, Lituânia, Moldávia, Roménia, Federação Russa e Ucrânia são indicados como os principais países de origem das vítimas para a exploração sexual no ocidente europeu, nomeadamente Áustria, França, Alemanha, Bélgica, Grécia, Itália, Países Baixos, Espanha e Grã-Bretanha.

Tem-se verificado que as autoridades europeias têm feito um grande esforço de enfatização da luta contra tais crimes, apoiando todas as iniciativas nesse sentido e estando sempre ao lado de todas as atitudes assumidas pelos diversos países no sentido da promoção de tal combate, ainda que os mesmos não sejam membros da própria UE.

Daí que preste o seu auxílio, por exemplo, à Albânia, que aposta na prevenção e na disponibilização de informação preventiva; ou à Bósnia Herzegovina, Bulgária, Croácia, Macedónia, Moldávia ou Roménia, que se dispõem igualmente a combater este gravíssimo atropelo aos direitos humanos. Estes são dados do Estudo da Avaliação do I Plano Nacional Contra o Tráfico de Seres Humanos, realizado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra42. De um modo geral, os países supra citados ficam aquém das metas previamente estabelecidas para tal combate, especialmente devido a factores de ordem económico-financeira, o que os força, em muitos casos, a não ultrapassarem a fase da sensibilização. Efectivamente, é já uma boa contribuição na luta contra tal tráfico deplorável, mas é evidente que são absolutamente necessárias medidas mais sólidas e substanciais, no sentido da erradicação do fenómeno.

Por outro lado, as autoridades comunitárias têm demonstrado a sua capacidade de adaptação aos diversos perfis civilizacionais europeus, actuando em consonância com os mesmos, sempre com o objectivo final de promover um combate eficaz à praga social que o tráfico de seres humanos representa. É neste sentido que respeitam a proibição da prostituição na Suécia, embora tal legislação tenha de certo modo dificultado a investigação ao tráfico. Porém, as autoridades suecas consideram que enquanto a prostituição durar, não há igualdade de géneros. Respeitam igualmente a regulamentação dessa mesma actividade como profissional na Holanda, por ser assim possível compreender melhor se as mulheres, ou algumas, estão na prostituição

42 Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, 2010, I Plano Nacional Contra o Tráfico de

Seres Humanos. Disponível em:

http://195.23.38.178/cig/portalcig/bo/documentos/Relatorio_interno_IPNCTSH.pdf (Consultado em: 17-08-2011)

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voluntariamente ou forçadas, o que poderá levar indirectamente à detecção do tráfico. Pretende-se aí tornar este negócio transparente, com uma constante actualização dos perfis das vítimas e dos criminosos e muita sensibilização através dos mass media. É interessante analisar o caso da Noruega, que sendo um país que praticamente não regista vítimas deste tipo de crimes, devido à sua cultura colectiva e ao elevado sentido ético-social do seu povo, desenvolveu já um plano de prevenção para vir a combater com o máximo de eficácia o tráfico de mulheres e crianças que eventualmente vier ali a verificar-se.

A UE mantém-se igualmente atenta aos esforços envidados pelas autoridades italianas e espanholas, no sentido de combate a este mesmo tráfico. Assim, em Itália, existe uma área com especial enfoque preventivo, começando a debelar a exclusão social, o que, por si, é já particularmente significativo e consequente a nível do tráfico de seres humanos. Aposta-se aí no combate aos traficantes e exploradores, tendo sido simultaneamente criado um plano de protecção às vitimas de tal crime.

Em Espanha, existe também um plano de protecção que se centra na prevenção, educação e formação, bem como na assistência às vítimas, pugnando-se sempre pela maior eficácia na cooperação e colaboração no combate ao tráfico

É justo que se saliente que os esforços das autoridades europeias não são de agora, se bem que actualmente se façam notar com muito maior evidência, pela sua constância, pelas somas dispendidas e pela profusa divulgação mediática que, só por si, constitui um elemento muito forte na dissuasão de eventuais criminosos, temendo os trâmites a que serão sujeitos, caso venham a ser identificados por tão poderoso arsenal logístico, direccionado especificamente ao tráfico de seres humanos. Com efeito, na UE verificou-se uma maior preocupação no combate ao tráfico de pessoas a partir da década de 90, com a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, que proíbe o tráfico de seres humanos no seu artigo 5º.43 Também o Tratado da União Europeia44, na Decisão-quadro do Conselho de 19 de Julho de 2002 relativa à luta contra o tráfico de seres humanos, menciona a necessidade da aprovação de legislação contra este tipo de tráfico, incluindo definições, incriminações e sanções comuns, ou seja, medidas legislativas que se centrem sobre a divergência das abordagens jurídicas nos

43 EUR-LEX, 2007, Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia. Disponível em:

http://eur-lex.europa.eu/pt/treaties/dat/32007X1214/htm/C2007303PT.01000101.htm (Consultado em: 17-04-2012)

44

EUR-LEX, 2007, Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia. Disponível em: http://eur-lex.europa.eu/pt/treaties/dat/32007X1214/htm/C2007303PT.01000101.htm (Consultado em: 17-04-2012)

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membros e contribuam para o desenvolvimento de uma cooperação internacional eficiente no domínio policial e judiciário contra o tráfico de seres humanos.45 Mais tarde, em Abril de 2004, a Directiva 2004/81/CE concedeu título de residência aos nacionais de países estrangeiros vítimas do tráfico e nesse mesmo ano, foi publicado um conjunto de recomendações elaborado pelo Grupo de Peritos sobre o Tráfico de Seres Humanos. Depois, em 2005, realizou-se a Convenção do Conselho da Europa relativa ao Tráfico de Seres Humanos, visando o seu combate e todos os esforços na sua prevenção.

Existe, como já foi oportunamente referida, a cooperação entre a EUROJUST e a EUROPOL, numa tentativa de maior eficácia na detecção e pesada penalização de traficantes.46 E convém salientar que os números começam a ser eloquentes, pelo maior volume de detenções e identificações de casos, no que também é relevante a consciencialização da população, que deverá estar particularmente atenta a este fenómeno, convicta de que a sua acção pode igualmente ser muito importante, por exemplo, a nível da identificação de casos, o que sem dúvida, constitui uma preciosa ajuda às autoridades competentes.

Tratando-se de um crime muito difícil de identificar, em virtude da ausência de provas físicas, revestindo-se as testemunhais da fragilidade que bem conhecemos, da grande sofisticação estratégica e do elevadíssimo lucro que envolve, é de esperar que continue, tentando por todos os meios iludir o policiamento e até a opinião pública.

Todavia, como cidadãos europeus, abertos aos outros numa mundivisão alargada, mas perfeitamente zelosos da nossa segurança individual e social, como nacionais de um determinado país comunitário, decerto que nos sentimos de certa forma orgulhosos pelo facto de a UE ser uma forte aliada de todos os governos europeus, bem como forte colaboradora com todas as instituições mundiais de combate à corrupção, no sentido de incentivar e apoiar de todas as formas, quaisquer iniciativas visando a prevenção, educação e formação no combate ao tráfico, bem como a assistência e protecção das vítimas e a cooperação e coordenação em todas as atitudes processuais desse mesmo combate.

45

EUROJUST (Unidade Europeia de Cooperação Judiciária) – Pretende melhorar a estruturação das investigações e das condutas penais entre as autoridades aptas da União Europeia no panorama do combate à criminalidade transnacional e organizada. [email protected]

46

EUROPOL (Serviço Europeu de Polícia) – Analisa a informação e os dados sobre a actividade criminal, zelando pela prevenção do crime internacional na Europa. [email protected]

Referências

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