o
EXPERIMENTO DE TOBIKI: ALGUMAS REFLEXÕES
SOBRE A DIDÁTICA MAGNA DA PROSPERIDADE
AmoVogel* Marco Antonio da Silva Mello**
1. A didática magna da prosperidade: considerações críticas sobre
a
pedagogia da mudança social dirigida; 2. Plano de estudos antropológicos básicos paraa
elaboração de pro-gramas de avaliação de impacto ambiental; 3. Planos de or-ganização sociale
formas associativas; 4. Conhecimento na-turalístico.1. A didática magna da prosperidade: considerações criticas sobre a pedagogia da mudança social dirigida
"Certa vez um macaco e um peixe foram colhidos por uma grande enchente. O ma-caco, ágil e experimentado, teve a boa sorte de trepar em uma árvore e salvar-se. Olhando lá embaixo as águas turbulentas, viu o peixe debatendo-se contra a corrente rápida; movido por um desejo humanitário de ajudar um companheiro menos afortuna-do, estendeu a mão e tirou o peixe da água. Com surpresa para o macaco, o peixe
não ficou muito agradecido."
Com esta história, George M. Foster abre um livro cuja tradução brasileira teve como tftulo As culturas tradicionais e o impacto da tecnologia (Foster, .1964). O autor retoma,
assim, uma fábula oriental que Don Adams tinha usado antes dele (Adams, 1969, p. 22), para "ilustrar as armadilhas insuspeitadas que aguardavam o técnico mal orienta-do que exerce o seu otrcio em outra sociedade que não a sua" (Foster, 1964, p. 13). Nessas condições tenderá, freqüentemente, a tomar decisões tão desastrosas quan-to aquela ditada pelas intenções filantrópicas do macaco da fábula coreana.
Curiosamente, o tllulo da edição brasileira restitui, de modo sub-reptrcio, toda a con-cepção que Foster, seguindo a antropologia cultural americana do pós-guerra,
procu-• Doutorando no Museu Nacional da UFRJ; professor no Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFF, no Departamento de Antropologia Social da UFF e no Programa Flacso-Brasil .
•• Doutorando em antropologia pela USP; professor no Departamento de Ciências Sociais da UFRJ, no Departamento de Antropologia Social da UFF e no Programa Flacso-Brasil.
rava criticar e relativizar: Nessa época, os EUA tinham desencadeado, nos mais di-versos parses de sua esfera de influência, um sem-número de projetos de mudança dirigida. Com eles pretendiam gerar um efeito multiplicador dos padrões de desenvol-vimento a serem atingidos por essas nações no seu processo de arrancada para a modernidade.
Esse take-off, como ficou conhecido em virtude das teorias de Rostow, implicava trans-formações de amplo espectro. Em primeiro lugar, tratava-se de integrar economias de subsistência, baseadas em praças de mercado locais (ou no máximo regionais) dife-renciadas, a um sistema mundial de mercado. Essa integração significava, por sua vez, o investimento maciço na difusão e na implementação de novas tecnologias. Estas, no entanto, só podiam ser aplicadas dentro de contextos administrativos marcados pelos parâmetros de racionalidade que o processo de institutional building traz consigo. A administração da massa dos investimentos mobilizados exigia estrutu-ras burocráticas capazes de combinar o controle dos recursos com a necessária agi-lidade na sua aplicação. Era preciso implantar novos padrões de eficiência e eficácia. O modelo de tomada de decisões tinha de satisfazer o requisito da adequação ótima de meios escassos a fins alternativos.
O aparato institucional em condições de realizar essa tarefa, no entanto, fundamenta-va-se em alguns pressupostos. A sociedade receptora da nova ordem sócio-econô-mica que se desejava universalizar tinha de estar apta a compreender o projeto mo-dernizador. Para tanto, era necessário que fosse (ou que se tornasse, no mais curto prazo possrvel) letrada, cosmopolita e individualista.
Tinha de ser letrada para ter acesso aos próprios recursos que se destinavam ao seu desenvolvimento, pois estes s6 podiam ser adquiridos e gerenciados por intermédio de um complexo conjunto de práticas escriturárias. Tinha de ser cosmopolita, pois devia estar convencida das vantag9ns e, portanto, da urgência de sua incorporação ao mercado internacional. Devia acreditar não só na relação de conversão dos valo-res que lhe cabiam produzir, com relação aos demais valovalo-res, produzidos por outros homens, em outros pontos do mercado, como também desejar o incremento de sua própria produção para trocá-Ia de modo a adquirir os bens que faltavam
à
realização do seu conforto e bem estar.Tinha, finalmente, de tornar-se individualista. Isto significa que devia habituar-se a en-trar no grande jogo das trocas, a nível planetário, desenvolvendo nos seus membros a disposição competitiva capaz de fazer deles agentes dos contratos sociais. Pois so-mente nessa qualidade poderiam incorrer, por livre escolha (e assumindo os riscos decorrentes), em todo tipo de formas associativas para, mediante estratégias de
cál-• N. do A. O trtulo original da obra é Tradiliona/ cu/lures and lhe impact af lechna/agica/ change, cuja tradução mais adequada seria As culturas tradicionais e o impacto da mudança tecnológica.
culo adequadas, maximizar os seus beneffcios. A ficção do mecanismo auto-regulado a que damos o nome de mercado supõe, nesse sentido, o estilhaçamento das estrutu-ras culturais e sociais consagradas pelo modo de vida tradicional, de vez que são percebidas como impeditivas da ordem e da lógica do mercado. Rompidos os grilhões corporativos do parentesco, da paróquia, da guilda e das demais associações con-suetudinárias, deve reinar soberana uma nova categoria de homens livres, autônomos e iguais. Estes serão, por fim, capazes de se relacionar uns com os outros, resolven-do a equação resolven-dos valores das mercaresolven-dorias trocadas por intermédio resolven-do dinheiro, equi-valente universal e, supostamente, sistema de comunicação não sujeito às barreiras
culturais (cross-cultural). A ficção do mercado tem, pois, como seu correlato ne-cessário, a ficção de uma humanidade genérica, onde todos os indivíduos são parcei-ros equivalentes no jogo das mercadorias, em que prevalece a racionalidade neutra de um código transcultural capaz de instaurar a perfeita transparência das relações e instituições sociais.
Todas essas ficções, no entanto, pret>supõem o que Weber, em A Ética Protestante
e o Espfrito do Capitalismo (1977), designou pela expressão "desencantamento do
mundo" (Entzauberung). O termo se refere, precisamente, à laicização das relações econômicas, desembutidas das redes institucionais e do arcabouço de padrões éticos estabelecido pela tradição pré-moderna. Graças a esse "desencantamento", a eco-nomia aparece como domínio autônomo e fundador das relações sociais. As regras e a racionalidade próprias desse domínio não só tornam possível a acumulação de bens, mas tendem mesmo a impor essa acumulação como uma necessidade, ex-cluindo da nova ordem social os que se recusam a praticá-Ia.
O afã do lucro e a justificação da usura convertem em mercadorias a terra, o pão, o trabalho e todas as demais coisas necessárias à realização de uma vida condigna. Tudo passa a fazer parte de um imenso circuito de trocas, no qual os homens se de-frontam, uns com os outros, por meio de relações diádicas estabelecidas através das coisas que trocam ou possuem. Com esse "moinho satânico", na feliz expressão de Polanyi (1980), inaugura-se, portanto, uma sociedade igualitária. E com ela surge e floresce a ideologia econômica moderna, dominada pela razão prática e utilitária, que desconhece e/ou desqualifica a razão cultural, dando margem à gênese desse homo
aequalis, operador e habitáculo da modernidade industrial (Dumont, 1977).
Dele se exige que esteja animado pela paixão do trabalho, que Karl Marx definia, nos
Manuscritos de 44, como sendo a sua função vital. Dele se espera que utilize, sem
tréguas, a sua inventiva de tool-making animal para gerar tecnologias capazes de ampliar sempre mais o imenso arsenal de mercadorias que a reprodução da economia de mercado exige, Dele se acredita que poderá, finalmente, realizar a sua vocação de amo e senhor da natureza, da qual, até o momento, tinha sido apenas sócio e
parcei-ro,
Os objetivos que devem nortear as suas ações são claros, consistindo na obtenção do maior prazer (leia-se: benetrcios materiais, i.e, incremento do consumo) com o me-nor esforço (leia-se: dispêndio mínimo de tempo e energia por unidade produzida), pa-ra retomar uma conhecida formulação de Jeremy Bentham. Essa fórmula, no entanto, exige uma nova solução para o problema da divisão do trabalho e da alocação racio-nal dos recursos disponíveis. E com essa exigência surge a questão do planejamen-to, condição sine qua do progresso.
"A melhor forma para uma determinada função - eis o progresso. Desde sempre, progredir foi obter mais com menos. Maximizar os fins em função dos meios. E Adam Smith provou com brilhantismo (e equívocos perdoáveis para a época) que a divisão e a especialização das partes de um todo tornavam possível obter dele um rendimento exponencial.
As metáforas do maquinismo são recorrentes. A máquina surge como a obra-prima da racionalidade. Um conglomerado de especializações funcionais que divide e hie-rarquiza tarefas. A forma de cada peça foi concebida e executada para a função que lhe cabe preencher na engrenagem.
O discurso racionalista é uma curiosa mistura de cientificismo e naturalismo. O argu-mento filosófico, nas suas linhas gerais, desenvolve-se mais ou menos da seguinte maneira: as ciências, toda ciência, não passam de um conhecimento da racionalidade imanente
à
natureza; mas a Razão e a Natureza, nesse argumento, são concebidas de acordo com os cânones da mecânica clássica.O Renascimento e a Filosofia da Ilustração consagraram a metáfora do Arquiteto do Universo para se contraporem
à
concepção tersta da ordem providencial, com seus rompantes e acessos de temperamento. Em vez dessa determinação por uma vonta-de cambiante, propunham uma nova versão da orvonta-dem do mundo. Tudo existe graças a um discurso originário e fundador. Ele é que estabelece a ordem das coisas. Cria, nomeia e legisla. As leis outorgadasà
criação passaram a regê-Ia, independente da vontade criadora. Distinguir e separar as funções; inventar e designar-lhes os espa-ços apropriados; combinar corretamente as peças para que funcionem com o mrnimo de atrito possrvel- isto é planejar" (Vogel & Mello, 1981, p. 134).Planejar equivale, pois, nessa perspectiva, a instaurar uma nova visão de mundo.
Es-ta
pretende transformar, em tudo e por tudo, a antiga. Propõe novos arranjos dos es-paços e novas formas de escandir o tempo. A cidade industrial substitui o burgo, da mesma forma que no lugar do bucolismo aldeão surge a fazenda mecanizada. Não é mais o campanário da paróquia que regula as horas do quotidiano. Este passa a ser regido pelo tempo fabril. E todas essas transformações modificam radicalmente a morfologia dos grupos sociais, que passam a cultivar novos formatos institucionais e novas regras de afiliação. Não moram mais nas mesmas casas, nem usam as roupasde outrora. Não se alimentam como antigamente, nem reproduzem as velhas formas da sociabilidade. Suas pautas de consumo sofrem alterações sensíveis, na medida em que cedem à sedução dos valores novos que lhes são propostos. Essa adesão à modernidade impõe a elaboração e a incorporação de novas orientações cognitivas que, por sua vez, modificam, em profundidade, não s6 as relações entre os grupos sociais, mas também o vfnculo e a interação destes com a natureza. Nessa visão, o mundo fechado, precário, de baixa produtividade e reduzidas expectativas de vida, exposto, na sua fragilidade, às epidemias, fomes e intempéries, imerso na ignorância, assombrado e molestado por agentes sobrenaturais, cede lugar ao universo infinito das trocas em expansão, ao vigor e à velocidade dos novos aparatos produtivos, à solidez das estruturas racionais, ao conhecimento certo e seguro das leis naturais, à previsibilidade, à saúde e à afluência.
Tudo isso reflete um otimismo profundo e uma inabalável confiança no futuro radioso que a iminência dessas conquistas permitia ver por antecipação. A punição que se podia vislumbrar, entretanto, parecia impor o exorcismo decidido e radical daquilo que se desejava deixar para trás. Na sua oposição ao campo, a cidade constitufa o pólo fecundo de todas essas transformações. Certas cidades, em particular, podiam ser li-das como signos desse processo. Manchester, por exemplo, corporificava, no seu tempo, todas as qualidades do titânico experimento da modernidade. Por isso adqui-riu, nos exerclcios prospectivos de Marx, um caráter emblemático que a opunha à ve-lha Birmingham. A primeira estava destinada a florescer e perdurar. A última fadada ao marasmo e à obsolescência, pelo que da velha ordem teimosamente conservava em si.
Mas o meio-dia não cumpriu as promessas da aurora. No decorrer do século do impé-rio e da indústria foi a orgulhosa Manchester que soçobrou na letargia, enquanto a an-tiquada Birmingham soube conservar, pelas décadas afora, uma vitalidade à qual não foram estranhas as "valuable impracticalities" que caracterizavam a sua economia e vida urbana (cf. Jacobs, 1974).
Este pequeno excurso histórico, com seu caráter de exemplo, aconselharia, por si s6, uma certa cautela diante da representação do processo de mudança que delineamos acima. A imagem esboçada corresponde, sobretudo, a um desfgnio de sujeição da realidade ao desejo. Trata-se na verdade da convicção de que esta era a maneira pe-la qual as coisas tinham acontecido em determinados casos paradigmáticos. Essa crença era tão fortemente partilhada que acabou por gerar um modelo de desenvolvi-mento, do qual se admitia o caráter universal. Dado que todos os homens são iguais, o que se aplica a uns pode aplicar-se, também, a todos os outros. Todas as barreiras lhe seriam franqueadas, todas as fronteiras permeáveis. Nesse sentido, o modelo ti-nha condições de assumir uma dimensão normativa e nortear uma tarefa pedagógica, verdadeira didática magna da prosperidade.
Os grandes projetos de intervenção, recuperação, ajuda ou cooperação, articulados pelas agências de desenvolvimento, foram tributários dessa concepção. Pretendiam não só intervir, recuperar, ajudar e cooperar. Além disso, e sobretudo, visavam pro-mover e conduzir um imenso programa de modernização. Leia-se: de mudança social dirigida. O relativo fracasso de tais projetos, no entanto, não permitiu que se alimen-tassem ilusões. Os maus resultados dos diversos experimentos não podiam ser im-putados apenas
à
suposta inépcia ou despreparo das sociedades sobre as quais in-cidiam, sintomaticamente denominadas receptoras. Não podiam ser atribuídos, tam-pouco, a uma eventual incompetência dos seus agentes. Afastados esses dois tipos de fatores, restava a questão de fundo.Mediante uma inspeção detalhada dos programas, analisando os seus projetos (e subprojetos), considerando os objetivos pretendidos, examinando as atividades-meio em relação com as metas a serem atingidas, confrontando as estratégias (e as tare-fas em que se desdobram) com os resultados obtidos, talvez fosse possível retraçar o método para rastrear o erro.
É
essa a convicção que leva George M. Foster, emT raditiona/ cu/fures and fhe impact of techn%gica/ change (1962) e App/ied
anthropo-/ogy (1969), a colocar, para os técnicos das mais variadas formações, os problemas decorrentes de adesão cega e inadvertida
à
concepção do desenvolvimento e da mu-dança tecnológica independente da consideração dos contextos sociais e culturais, seja dos "receptores", seja dos "doadores" que se defrontam quando da implemen-tação de tais programas.Além de Foster, muitos outros tentaram colocar em perspectiva esses pontos de vista conflitantes, que as descontinuidades culturais e o desenvolvimento econômico reuni-ram (Lévi-Strauss, 1976, capo XVII). Os progreuni-ramas de desenvolvimento chegareuni-ram mesmo a se impor como uma área temática da reflexão sociológica. Constituíram, nesse sentido, uma presença obrigatória nas discussões e debates da sociologia do desenvolvimento, da antropologia da ação, da antropologia aplicada, da antropologia econômica, da antropologia urgente e, mais recentemente, da antropologia ecológica. Muitos organismos de fomento, nacionais e internacionais, têm dedicado ao assunto esforços e recursos, visando desenvolver metodologias e agentes com preparo ade-quado para atuarem na implantação, avaliação e acompanhamento de grandes pro-gramas de intervenção.
Embora decidido a rever e refazer as trajetórias dos vários programas de desenvol-vimento e mudança tecnológica, com o firme propósito de descobrir onde haviam fa-lhado, George M. Foster continuava, no entanto, a alimentar a convicção de que mu-dar, para modernizar, era desejável. Todo o seu esforço estava, portanto, voltado pa-ra uma tentativa de regenepa-ração dos processos de tpa-ransferência de tecnologias, nos mais diversos domínios e para as mais distintas situações, sociedades e contextos culturais. Essa tentativa não se explica por um eventual espírito de filantropia ou pela irrupção súbita da preocupação com o destino dos down there. Resulta antes da
ne-cessidade de maximizar as ações dos projetos de desenvolvimento, financiados por agências de seu país, aplicando-lhes os mesmos critérios de racionalidade, eficiência e eficácia que estes pretendiam instaurar nas áreas-objeto de suas intervenções. A imensa quantidade de recursos humanos, financeiros e técnicos não apresentava as contrapartidas positivas esperadas pelo espírito que tinha presidido à sua mobili-zação. Por toda parte os fracassos se acumulavam. As "resistências à mudança" vi-nham num crescendo inquietante. Com elas se difundia, rapidamente, uma visão des-favorável do pessoal encarregado da execução dos projetos. O descrédito que atingia os programas, no entanto, acabava contaminando de forma irremediável a imagem do governo que os promovia. Os preconceitos, os estereótipos e os etnocentrismos se acirravam, de parte a parte, contribuindo, ainda mais, para reforçar a assimetria des-sas relações de dominação, no sentido que Max Weber confere ao termo (1964, parte I, cap.III).
Os conflitos aumentavam, pois, justo lá onde supostamente estavam sendo desenvol-vidas práticas harmoniosas de cooperação e, portanto, dispositivos seguros para ga-rantir a adesão das comunidades locais ao processo de arrancada para o desenvol-vimento.
Tais fatos eram mais graves, ainda, quando situados no contexto político internacional marcado pela Guerra Fria. O Departamento de Estado norte-americano tinha, pois, razões de sobra para se preocupar com as vicissitudes de programas cujo caráter profilático, com relação à emergência de regimes alinhados com o bloco socialista, era indispensável. As medidas preventivas, no entanto, revelavam-se inócuas. E estava claro que os insucessos acumulados não podiam mais ser atribuídos, apenas, à "mentalidade atrasada", ao "despreparo", à "desconfiança" ou à "má-vontade" dos renitentes beneficiários do progresso. Em vez de continuar buscando no outro a cul-pabilidade pelas expectativas frustradas, talvez fosse mais produtivo considerar a hipótese de que se estava, nesses casos, diante de um desencontro de percepções e concepções, um autêntico diálogo de surdos em que cada qual se mostra impermeá-vel às razões do outro.
Esse tipo de dissonância cognitiva pode, muito bem, ser ilustrado pela história do co-nhecido romance da Vern Sneider The teahause af the august moon, que deu o argu-mento e o título a uma peça de grande sucesso na Broadway, posteriormente levada ao cinema.
A ação se desenvolve numa aldeia de Okinawa, por volta de 1945. O capitão Fisby, do Destacamento C. 147 do Governo Militar dos Estados Unidos, havia sido designa-do por seu superior, o Coronel Wainright Purdy
111,
para tomar conta da aldeia de To-biki, seguindo uma praxe estabelecida para a administração dos territórios conquista-dos. Nessa qualidade, estava encarregado de executar um plano de recuperação, envolvendo casas modernas, escolas, organizações progressistas, ligas derança e atividades lucrativas. Com esse plano, a Srê Purdy, presidente da Liga Femi-nina de Ação Democrática, acreditava não só beneficiar os moradores de Tobiki, co-mo também granjear para seu marido as divisas do generalato. O plano
a,
como era conhecida essa menina dos olhos do Coronel, ia mal, no entanto. O Capitão Fisby, bem intencionado e ingênuo, contando com a assessoria de Sakini, um jovem aldeão, e cercado pelo inesperado carinho e solicitude de duas geishas - Primeira Flor e Flor de Lótus - começa a agir de modo estranho. Ao invés de construir uma escola mo-derna, em forma de pentágono (!), como rezava o planoa,
passa a dedicar-se entu-siasticamente à construção de uma casa de chá. Ao invés de canais de drenagem e irrigação, supervisiona o trabalho dos aldeãos na edificação de um dique destinado a conter um lago onde pudesse florescer o lótus. No lugar das ligas de temperança,fa-vorece a instalação de um alambique capaz de aprovisionar as forças de ocupação com aguardente de razoável qualidade e boas perspectivas de lucro. Enquanto isso, a liga feminina local, encabeçada pela Srta. Higa Jiga e seguindo o exemplo de Primeira Flor e Flor de Lótus, deflagra uma campanha pela importação de quimonos de seda e leques perfumados, artigos fundamentais na milenar tecnologia de sedução oriental. Esses fatos, em tudo e por tudo inusitados, sugeriram ao Cel. Purdy 111 medidas de caráter urgente e emergencial. Tudo levava a crer que o Sr. Fisby necessitava de acompanhamento médico-psiquiátrico urgente. Nesse contexto chega
à
aldeia o Dr. McLean, imediatamente cooptado para esse curioso empreendimento, ao qual se as-sociou, vindo a ser um dos seus mais inventivos colaboradores, com experimentos de agricultura ecológica. Com o tempo vai adotando, juntamente com seu suposto paciente, a indumentária e a etiqueta locais. Começa a compreender então as razões de Fisby, e através delas alcançar não só a lógica como também a validade das pre-missas culturais em que estava assentado o modo de vida da pacata Tobiki.Essa história exemplar foi relatada porque, a partir dela, podem ser esboçadas algu-mas reflexões, e estas vão permitir que o argumento desenvolvido até aqui cumpra a sua função de discussão preliminar das questões de fundo, que devem orientar qual-quer aproximação atual dos grandes projetos de mudança social dirigida.
Em primeiro lugar, cabe destacar o caráter francamente ficcional da narrativa sobre A casa de chá do luar de agosto. A história tem entre as suas virtudes não só a clareza e a simplicidade do seu enredo, mas também, e talvez sobretudo, a forma com que esse enredo foi realizado na literatura, no teatro e no cinema. A versão cinematográfi-ca segue o gênero da comédia. Com isso, o tema do encontro, e dos desencontros, de duas culturas recebe um tratamento surpreendentemente feliz. Com efeito, os es-tudos recentes da estética cognitiva tornaram a chamar a atenção para o humor como forma e recurso de conhecimento (Brown, 1977). O argumento do riso (Munro, 1964) propicia uma espécie de distanciamento que, sem reduzir a estranheza dos fatos e si-tuações, parece desarmar os espíritos dessa disposição de rejeitar agressivamente tudo aquilo que não lhes é familiar. Além disso, como o humor não se apnca
partícipe dos contextos bizarros nos quais se encontra envolvido. O riso é a ex-pressão de um artifício básico de estranhamento, como provam não só as formas po-pulares da representação, mas toda a dramaturgia, dos clássicos ao teatro moderno. As peripécias bem humoradas do famoso plano B, graças a esse recurso, e sem pre-juízo das formas de empatia, facilitam uma apreensão reflexiva e crítica dos proble-mas que os planos de intervenção propõem sem despertar os fantasproble-mas, as desi-lusões e as tensões tão difíceis de exorcizar nos contextos reais. Fora das telas, o que aconteceu, na maioria dos casos, foi muito diferente, assumindo com freqüência dimensões verdadeiramente trágicas. Quase nunca as comunidades locais consegui-ram convencer os agentes da mudança a levarem em conta os seus pontos de vista. Nem os técnicos conseguem compreender a maneira, muitas vezes pouco ortodoxa, que os "nativos" têm de se apropriar dos projetos de mudança. E isto porque não conseguem alcançar o viés da leitura que os atores locais fazem das propostas que querem lhes impor.
Essas reações desconcertantes, diante das quais os técnicos tendem a ficar deso-rientados e desanimados, são na verdade formas positivas de adesão. Não fossem as dificuldades e, porque não dizer, as resistências dos próprios agentes, seria possível reconhecer nelas o caráter não-passivo das comunidades locais em face das transformações. E é justamente essa não-passividade que vai ser desqualificada pelos programas de intervenção. Para estes, ela não passa de uma atitude negativa, de um obstáculo, de uma inconveniente, insidiosa e obstinada disposição para des-truir toda e qualquer previsibilidade, racionalidade e eficiência de planos cuidadosa-mente elaborados.
Nessa perspectiva, o comportamento dos atores locais chega a ser percebido como uma tentativa surda e maliciosa de confundir os encarregados da implementação das estratégias concebidas pela logrstica dos gabinetes. Essemalingénie.astucioso.re-fratário e impermeável a qualquer força argumentativa da razão prática, revela-se ca-paz de operações táticas inusitadas e, por isso mesmo, difrceis de serem reconheci-das a tempo de evitar o fracasso. Os planejadores e agentes o conhecem e temem sob a denominação técnica de "resistência
à
mudança".A "resistência à mudança" não passa, entretanto, de uma maneira de atribuir ao outro problemas que são inerentes ao próprio planejamento e, portanto, à sociedade do pla-nejador, mais do que às insuficiências e ardis das comunidades onde os programas devem ser implementados. Neste sentido, os obstáculos não se encontram, apenas, no comportamento dos "beneficiários", mas também, e sobretudo, na visão estereoti-pada que deles têm, comumente, os encarregados da formulação e execução dos projetos de mudança.
Os integrantes das populações-objeto são, em geral, representados como sendo "ig-norantes", "indolentes", "de moral incongruente", "incoerentes pelo caráter",
mente desarmônicos", faltos de "inclinação para o comércio ou a indústria" (embora de "viva inteligência e sagacidade de espírito"). "Volúveis", às vezes, "algo fatalistas", vivem imersos num "emaranhado confuso de superstições e crendices" que afetam o seu discernimento das coisas.
No que se refere aos seus padrões de interação, costumam ser vistos como popu-lações marcadas pelo "insolidarismo" resultante de uma virtual.incapacidade para as formas associativas e o trabalho cooperativo. Para isso concorreria não só o isola-mento em que se encontram, como também o caráter transiente e deambulatório dos seus assentamentos. Destiturdos de um propósito definido, vagam sem eira nem bei-ra. Apequenados pela natureza luxuriante, revelam diante desta um conformismo re-signado, do qual resultaria, em última análise, a estagnação do seu modo de vida. O ócio e a preguiça que lhes costumam ser atribuídos não passariam, portanto, de sig-nos exteriores do seu caráter degenerativo, alternativamente atribuído aos determi-nismos do meio ambiente, da miscigenação disgênica ou do abandono a que foram re-legados pelo poder público.
"Imprevidentes" e "imediatistas", movidos por um egorsmo infantil e primevo, vivem da mão para a boca. A pobreza de suas artes de subsistência constitui um conjunto de técnicas empíricas ("rudimentares"), frutos da aplicação assistemática do princrpio de ensaio e erro. Com essas limitações são levados a uma atividade marcadamente pre-datória (caça, coleta e agricultura de queimada e derrubada), que não lhes faculta a produção de excedentes, condenando-os à precariedade da "auto-subsistência". São, portanto, incapazes da logicidade necessária ao mais elementar dos planejamentos. Privados de tal racionalidade, não formulam esquemas adequados de alocação e/ou realocação diferencial de recursos escassos para fins alternativos!
Esse Naturmensch, consagrado por inúmeros tratadistas da ciência econômica e da sociologia, como Bücher (1907) e Vierkandt (1896), devotado à prática de uma "eco-nomia natural", não passa, entretanto, de uma caricatura. Esta, que já constitui um
grave reducionismo, aplicada aos chamados povos primitivos (Naturv6/ker, por
opo-sição aos Ku/turv6/ker), provocou efeitos os mais funestos ao ser estendida, em bloco ou parcialmente, aos grupos tradicionais ou a determinados segmentos dos países subdesenvolvidos, terceiromundistas ou, por força de eufemismo, países em desen-volvimento.
Concepções desse tipo revelaram-se, com o correr do tempo, insustentáveis. Na própria expressão "economia natural" o adjetivo está em flagrante contradição com o substantivo que pretende qualificar. Apesar disso, no entanto, as tipologias que cons-tituíram o paradigma das teorias do desenvolvimento assumiram, em maior ou menor grau, de modo explícito ou sub-reptício, essa visão estereotipada. A tal ponto, que ela tendeu a se transformar num elemento do senso comum das concepções e das
o
discurso dominante, nesse âmbito, faz da economia a arena onde se vai travar o combate racionalà
escassez. Essa valorização da economia como ciência (e como espaço) da alocação optimal de recursos faz aparecer a noção de economizing, ver-dadeiro libelo em favor da satisfação a mais econômica possrvel das necessidades humanas residuais - básicas ou derivadas (cf. Pareto, 1917; Malinowski, 1944 e 1945).Esse tipo de reducionismo economicista traz importantes conseqüências para a ma-neira de formular programas de desenvolvimento e mudança social. A ênfase na pro-priedade privada como melhor forma de apropriação de recursos tende a privilegiar um processo decisório hierárquico e uma forma de mobilização e coordenação dos fa-tores de produção que permite avaliar, com a necessária agilidade, a relação custo-beneffcio, básica no cálculo econômico. Isto significa, ao mesmo tempo, preterir todas e quaisquer formas coletivas de tomada de decisões. A empresa autogerida e a coo-perativa agrícola, por exemplo, são vistas como ineficientes e não-competitivas. Con-sidera-se que, ao "desperdiçarem" o tempo discutindo estratégias alternativas, entra-vam o giro do capital, diferindo sua lucratividade e inflacionando seus custos.
A formulação desse argumento repousa na unidimensionalização da sociedade pelo mercado. Este é tomado como o sistema de mediação, por excelência, entre as uni-dades produtivas. Sua qualidade varia na proporção direta de sua escala. Quanto mais amplo, melhor cumpre sua função. E esta consiste, essencialmente, na sua
ca-pacidade de traduzir a satisfação das necessidades (wants) no espaço monetário, expressando-se através de um equivalente universal. Assim, o trabalho vai ser valori-zado como dispositivo de produção (ou transferência) de rendimentos cuja natureza é exclusivamente financeira, e não múltipla, não sendo intercambiáveis, portanto, pro-dução e consumo. A intervenção do Estado, com os seus mecanismos de centrali-zação das decisões, só se faz necessária quando entra em colapso o trrptico "pro-priedade privada, empresa hierárquica e mercado".
Testemunhos do passado, freios do desenvolvimento, entraves
à
formação de de-manda eà
rapidez de circulação, com suas perigosas racionalidades diferenciadas, as estruturas tradicionais devem, juntamente com seus processos de criação coletiva (cooperação, mutualismo, autogestão, sOlidarismo, etc.), ser o mais rapidamente possrvel ultrapassadas. Para a abordagem normativa delineada, essas coisas não são senão obstáculos no caminho do progresso.Estas são apenas algumas das dimensões do paradigma dominante nas análises do desenvolvimento econômico. Constituem, na realidade, uma caricatura expressiva do conjunto das teorias econômicas da modernização. A teoria histórica de Rostow (1964) ou a teoria sociológica de Leibenstein (1975), ao trabalharem com recortes por perrodos históricos mais ou menos avançados, no primeiro caso, e por
tos mais ou menos avançados, no segundo, permanecem dentro dessa mesma pro-blemática. A relativização do reducionismo economicista tem nas análises de Lewis (1954) e de Fei e Ranis (1969) o seu primeiro marco. A tentativa de ruptura com a ló-gica do paradigma dominante, que procuravam criticar, produziu uma alteração ra-zoavelmente bem-sucedida no curso da discussão sobre o processo modernizador, embora continuasse prisioneira da visão dualista com o seu historicismo estreito. Não se fala mais abertamente de "parses atrasados", mas a modernidade continua sendo um valor mais alto em face das sociedades tradicionais. O modelo de Lewis procura atenuar o fosso que separa o desenvolvimento do subdesenvolvimento através de uma visão reconhecida nesse contexto como estruturalista. Para ela, os setores tra-dicional e moderno de uma economia são complementares. Fornecer um quadro des-critivo das relações entre ambos passa a ser mais importante do que a visão normati-va, cuja tendência era a de prejulgar as opções sociais e econômicas de um país em desenvolvimento.
A essa tentativa seguiu-se outra, que privilegiava o caráter estrutural das respostas aos esHmulos desenvolvimentistas. Como as estruturas sobre as quais deve incidir a mudança não são iguais umas às outras, as soluções adotadas para a modernização não são intercambiáveis.
O
desenvolvimento não é, no caso, entendido como um fator de civilização que possa ser distriburdo de forma regular por todo um pars. Existirão, ao invés, certos pontos vocacionais estratégicos a partir dos quais o processo se de-flagraria. Esta é a geopolítica dos pólos de desenvolvimento, tão cara à maioria dos nossos planejadores. Ao insistirem no modelo de crescimento dos parses desenvolvi-dos, sublinhando, uma vez mais, a problemática da escassez como elemento axial da ação mOdernizadora, acabam por reiterar uma "visão em túnel" do progresso.A metáfora do túnel para o progresso tem, no entanto, implicações que não podem ser levianamente ignorada(;. Induz, por exemplo, a crença reconfortante no "reto cami-nho" capaz de transpor barreiras e obstáculos, encurtando, ao máximo, a distância que separa duas provrncias: a pobreza encardida do subdesenvolvimento e a lumino-sa afluência da modernidade. A outra implicação deslumino-sa imagem revela, entretanto, o seu lado problemático: a travessia de um túnel implica, sempre, perder de vista a pró-pria natureza do obstáculo. Com isso, ficam eliminados todos os signos da paisagem que tem de ser percorrida para se chegar à terra da promissão.
A metáfora do "túnel" tem como seu correlato a noção de ·vazio". Acreditar nessa espécie de varadouro para o progresso equivale, pois, em maior ou menor grau, a fa-zer de conta que tudo aquilo que está ao longo desse caminho simplesmente não existe. A adesão a esse estranho método de não ver as coisas conduz à ficção do "vazio tecnológico", que descarta todo o repertório de recursos da sociedade tradicio-nal. E, com ele, todo o conhecimento naturalrstico no qual se funda o arsenal técnico corporificado nas estratégias de produção e reprodução dos distintos grupos sociais. De modo análogo, conduz à ficção do "vazio do poder", alimentando a ilusão de que
a inexistência dos modernos métodos de tomada de decisões, alocação e adminIs-tração de recursos e regulagem de conflitos significa a ausência de atores políticos e procedimentos de gestão racional nas sociedades e/ou grupos tradicionais.
Talvez seja este um dos mais graves problemas enfrentados pelos programas de tervenção. Ao não tratarem como sujeitos políticos aqueles cuja ação é capaz de in-fluir sobre a sua trajetória, são levados a contabilizar uma série de efeitos não-deseja-dos que, com freqüência, superam em muito aqueles alinhanão-deseja-dos com os objetivos pre-tendidos. Essa agenda negativa é, pois, uma conseqüência não tanto das eventuais 'falhas na execução dos planos, mas do desconhecimento, deliberado ou inadvertido, das estruturas tradicionais. Estas não devem ser vistas, apenas, como receptoras passivas de modernização, mas como agentes, de fato e de direito, das decisões que encaminham os beneffcios da modernidade. Considerá-Ias dessa perspectiva leva à conclusão de que o processo de desenvolvimento não se dá jamais em linha reta. Ao contrário, tenderá a sofrer, necessariamente, uma série de refrações. A própria idéia da existência de um método (i.e, "reto caminho") resulta de uma ilusão que foi (ou é) a da linearidade da marcha dos países desenvolvidos, na sua escalada para a "so-ciedade industrial". As modulações, que é como verdadeiramente deveriam ser cha-mados os "obstáculos", resultam da própria absorção e interpretação do processo de mudança. Portanto, têm muito mais a ver com os comportamentos, instituições e es-truturas da sociedade tradicional do que com a penúria e/ou alocação irracional de re-cursos. Assim, afluilo que costuma ser visto como "resistência à mudança" e lido como desígnio de bloquear, pura e simplesmente, qualquer inovação, deveria ser, an-tes, compreendido como o modo culturalmente diferenciado de formular demandas e acolher ou incorporar propostas.
Dadas essas premissas, fica mais fácil compreender as razões que levaram alguns teóricos do desenvolvimento, entre eles G. Myrdal (1975), a enfatizar o papel econô-mico do que os economistas se acostumaram a chamar de "fatores não-econômi-cos". Se estes, no entanto, não pOdem mais ser tratados (e desqualificados) como simples "variáveis exógenas", tornar-se-á necessário relativizar alguns dos postu-lados fundamentais do paradigma dominante. Antes de tudo, não é mais possível des-vincular produção e consumo. Produzir é consumir, e vice-versa. Ambas as coisas dependem, por sua vez, das pautas culturais que imperam em cada contexto
empíri-co. Não existe, portanto, um optimum econômico desvinculado de um optimum social (Godelier, 1965). Este último ultrapassava, sempre, o racionalismo econômico stricto
sensu que o postulado da escassez impôs às teorias formalistas. O quadro substan-tivo das economias emprricas não admite, portanto, que as noções de eficiência e eficácia sejam definidas como variáveis independentes do contexto, a não ser como artitrcio analrtico (Kula, 1968).
O
princfpio do mercado auto-regulado como guia ou fonte do desenvolvimento e do acesso ao bem-estar sofre, dessa perspectiva, uma relativização radical. Para asticas de inspiração marxista, por exemplo (Amin, 1972; Frank, 1972; Emmanuel, 1975; etc.), a capitalização dos parses em desenvolvimento (principal indicador do seu maior ou menor acesso à modernidade) não obedece às previsões da teoria unidi-mensional do mercado. Ao invés de elemento capaz de favorecer a promoção social dos indivrduos e das nações, o mercado passa a representar o domrnio privilegiado de expressão de relações sociais assimétricas e a melhor garantia de sua reprodução. Nos mercados nacionais, bem como no espaço ampliado das trocas internacionais, não existe igualdade efetiva entre os parceiros do jogo econômico. Por isso o merca-do não proporciona a disseminação eqüitativa merca-do bem-estar. Ao contrário, tende a aumentar a riqueza de certos grupos e/ou parses na proporção direta em que perpe-tua e aprofunda a pobreza de outros. Nessas circunstâncias, fica evidente que as polrticas de auxnio ao desenvolvimento, nacionais ou internacionais (e não obstante as boas intenções que possam animá-Ias), correm, sempre, o risco de se converte-rem em formas, mais ou menos sutis, de gestão das desigualdades.
As crrticas, entretanto, não se limitaram a questionar os valores inerentes ao paradig-ma dominante, denunciando a ideologia da expansão a todo custo, o gigantismo da produção (a assim chamada "economia de escala") e a crença ingênua nos milagres operados pela sofisticação tecnológica. Além disso, mostraram que a própria
for-mação dos quadros técnico-cientrficos e as atividades de pesquisa estão cada vez mais voltadas para a valorização do sistema de mercado, incentivando a competição, a especialização exagerada de funções e a inrqua compreensão da ciência como es-tratégia de dominação, seja sobre a natureza, seja sobre as sociedades humanas elas mesmas.
No campo empírico, os programas, planos e projetos, implementados com base nes-se paradigma, revelaram-nes-se igualmente vulneráveis. Suas previsões não nes-se cumpri-ram, pois o subdesenvolvimento (ou o fenômeno que se busca designar com essa categoria) persiste. A desarticulação progressiva das formas do trabalho comunitário; o embotamento da criatividade, nos mais diversos contextos culturais, outrora cheios de vida; uma crescente agressão ao meio ambiente; e a elevação exponencial das taxas de pobreza, penúria e miséria absoluta, nos países do chamado Terceiro Mundo, são algumas das ameaças mais assustadoras que vieram no bojo de um pro-cesso marcado não só pelo otimismo, mas infelizmente também por arrogância e inadvertência.
Esse inquietante estado de coisas levou à reflexão e, no seu rastro, à crítica das pro-postas de desenvolvimento e à busca e elaboração de novas alternativas. As teorias crrticas não conseguiram, ainda, estabelecer um paradigma capaz de substituir, com vantagem, os avatares do individualismo economicista. Todas concordam, no entan-to, quanto à necessidade de repensar a própria noção de desenvolvimento. Esse re-pensar exige, entre outras coisas, que a idéia do desenvolvimento seja desvinculada de critérios exclusivamente econômicos, subordinando-a a valores não centrados no
mercado. Tais valores, no entanto, exigem a formulação e a implementação de novas propostas polrticas para o processo de desenvolvimento.
"Esses problemas levaram a Unesco, a partir do inrcio dos anos 70, a definir uma sé-rie de premissas para osé-rientar a reflexão sobre as grandes osé-rientações polrticas que deveriam nortear a questão do desenvolvimento. Três delas devem ser consideradas fundamentais. A primeira admite e afirma o aspecto fecundo da originalidade das cul-turas. A segunda atribui
à
desigualdade, entre indivrduos e entre nações (ou grupos sociais), o caráter de escândalo. A última dá por assentada a interdependência das sociedades e, a partir dar, dos problemas relacionados com o desenvolvimento delas" (Fausto & Vogel, 1987, p.7-8)Os princfpios definidos pela Unesco, para qualquer processo de desenvolvimento centrado no homem, são, portanto, três: 1. o caráter endógeno do processo (e o cum-primento da diretriz de eqüidade); 2. a integração dos diversos fatores; e 3. a
globafi-dade (isto é, a interdependência), não só em escala nacional, mas também planetária (Cao Trr, 1984, p. 13-19).
As noções de globalidade e integração não causam maiores dificuldades. São, de cer-to modo, evidentes por si mesmas. Quando se trata da endogeneidade, no entancer-to, as coisas se complicam. "Em primeiro lugar, trata-se da busca de caminhos originais, is-to é, de caminhos que respeitem os valores, os recursos e as potencialidades dos contextos para os quais são pensados e propostos. A realização desse requisito, por sua vez, exige uma participação ampliada dos grupos sociais e indivrduos que o de-senvolvimento pretende atingir e beneficiar" (Fausto & Vogel, 1987, p.9). Isto significa que o desenvolvimento endógeno pressupõe a cultura (nacional, regional ou local) como dispositivo fundamental para assegurar tanto a criatividade do processo quanto o apoio e a adesão das comunidades em que este deverá ocorrer.
A diretriz da endogeneidade é ainda mais importante se levarmos em conta o fato de que, como observa Lévi-Strauss, em Raça e história (1950), essas sociedades não optaram pelo desenvolvimento. Foram, ao contrário, envolvidas nesse processo
à
re-velia. O crescimento e a mudança que as atinge de maneira cada vez mais avassala-dora reservou-lhes o ditrcil papel de meros pacientes da mais radical de todas as transformações que a humanidade já sofreu desde a revolução neolrtica.Essa passividade, entretanto, não passa de uma ficção, muito cômoda quando se tra-ta de tomar decisões (sem consultra-tar quem de direito), mas de alto risco, quando se torna necessário executar essas decisões na prática. Em campo, o técnico com sua parafernália de planos, programas, projetos, planilhas, cronogramas e expedientes de desembolso encontra uma situação muito diversa, cheia de escolhas e armadilhas, que podem reservar-lhe as mais desagradáveis surpresas. Por esse motivo, parecem
oportunas algumas recomendações relativas a preparação dos técnicos e
à
sua ativi-dade no processo de implementação de projetos de mudança social dirigida.Os técnicos devem ter uma preparação prévia adequada para enfrentar as situações que vão encontrar no campo. Nesse sentido, seria útil:
a. um processo de familiarização com a problemática da área-programa, o que pode-ria ser feito através de seminários de palestras (ou painéis) em que fossem apresen-tadas e discutidas informações relevantes para a compreensão da sociedade e da cultura locais;
b. uma análise das questões envolvidas na implementação de projetos de mudança dirigida, no sentido de prevenir dois tipos característicos de reação diante dos proble-mas que surgem - o enrijecimento de posições preconcebidas (síndrome do planeja-mento autoritário) e a cooptação pelo ator local mais simpático (srndrome do populis-mo basista);
c. uma consciência clara de que não são sempre os grandes problemas que criam as barreiras mais difíceis de serem superadas: complicado é contornar a infinidade de pequenos mal-entendidos que pontuam o quotidiano das relações entre os técnicos e as comunidades-alvo;
d. uma precaução extrema no sentido de evitar a notória e raramente questionada di-cotomia entre o trabalho técnico e o trabalho social, que tende a estreitar perigosa-mente a eficiência de ambos, quando não os coloca em franco antagonismo;
e. uma noção muita clara de que nenhum programa de intervenção, por mais carente e desprovida que seja a população-alvo, opera em um vazio tecnológico ou político; f. finalmente, uma disposição a mais favorável possível de levar em conta as razões invocadas pela lógica do conhecimento local, buscando integrá-Ias ao processo de-cisório para eventuais revisões das estratégias a serem adotadas.
2. Plano de estudos antropológicos básicos para a elaboração de programas de avaliação de impacto ambiental
Os conhecimentos acumulados, ao longo dos últimos anos, graças às avaliações fei-tas com base em inúmeros projetos de mudança dirigida, não sofreram ainda a ne-cessária (e urgente) compilação e consolidação. Encontram-se em geral dispersos. Falta-lhes uma rede de técnicos capaz de assegurar uma adequada circulação, dis-cussão e troca de experiências. Mais que isto, os sociólogos, antropólogos, psiCÓlo-gos sociais, educadores e especialistas em economia e administração têm desfrutado de uma posição difícil no processo. No âmbito dos programas de ação e intervenção
costumam ser vistos com reservas, quando não com declarada impaciência. A postura tecnocrática acredita ter fundadas razões para desconfiar da utilidade desse tipo de profissional. Os antropológos, em particular, tendem a atrair o maior grau de rejeição, em virtude do seu estilo de abordagem. Suas ponderações relativizadoras são
enca-radas ora como formas tortuosas de obstar o desenvolvimento dos programas de mo-dernização, ora como especulações quiméricas sem possível aplicação ao nível da "realidade dos fatos". O diálogo do administrador e do antropólogo é dos mais compli-cados, porque aos olhos do primeiro as observações e ilações do trabalho etnográfico parecem demasiado envolvidas na dimensão microscópica do contexto local. No que, aliás, os profisisonais da antropologia não fazem mais do que seguir um princfpio bá-sico do seu ofício. Isto porque toda a experiência da disciplina, fundamentada no tra-balho de campo, revela que qualquer mudança colide menos com as grandes barrei-ras formais do que com a infinidade de dimensões, aparentemente insignificantes, que tecem o quotidiano de qualquer comunidade.
A convivência dos cientistas sociais, em especial dos antropólogos, com os peritos técnicos (engenheiros, arquitetos, urbanistas, médicos, enfermeiros, agrônomos, zoo-tecnistas, etc.) tem revelado, também, o quanto as bases da comunicação entre eles são estreitas. São estes, no entanto, os profissionais que vivem o dia-a-dia dos
pro-blemas no campo. A maior parte desses propro-blemas surge por causa do desconheci-mento de certas filigranas, em absoluto desprezrveis, na operação das estruturas e códigos sociais das populações-alvo. Os equrvocos e mal-entendidos resultantes po-dem variar da dimensão branda, traduzida pela sua comicidade, até as tonalidades mais sombrias e dramáticas dos conflitos mais ou menos declarados. Em qualquet. hipótese, têm encerrado lições e descobertas de inestimável valor para uma compre-ensão mais atenta e refinada das situações sociais provocadas pela mudança. O maior problema, no entanto, consiste em convencer o zootecnista que seu cliente, no projeto de melhoramento da produção de aves para abate, não é a galinha! Qual-quer ação técnica exercida sobre um setor limitado do mundo sofre invariavelmente a
mediação das expectativas, projetos, propósitos e interpretações de todos os atores sociais implicados, direta ou indiretamente, no programa de intervenção. O agrimen-sor, com seu teodolito, vê pontos no espaço, curvas de níveis, cotas, cortes de terre-no, linhas e limites. O agrônomo observa a composição do solo, seu ph, sua fertilida-de, sua vocação para o cultivo. O gerente da carteira de crédito agrícola calcula e es-tima as possibilidades de retorno (e, portanto, garantia) do financiamento solicitado, fazendo estimativas sobre a safra. O agente do Incra olha para a terra e pensa em termos de módulos. O agricultor, no entanto, sabe que nela estão inscritos os seus di-reitos consuetudinários, investidos os seus esforços e conhecimentos, consolidadas suas lealdades familiares e políticas, traçados os limites dos seus desafetos, enterra-dos os seus mortos e enraizadas as suas lembranças. O que vê, portanto, é um in-trincado sistema de relações que envolvem as dimensões do parentesco, da proprie-dade, dos direitos herdados, das redes de trocas e dos circuitos de obrigações, das afiliações políticas e religiosas, das formas de reciprocidade e cooperação.
Todas essas coisas, por sua vez, dependem da estrutura, composição e evolução de seu grupo doméstico.
É
ele que lhe propõe os meios e a perspectiva de apreensão e apropriação do universo social, garantindo não só a reprodução Hsica e social do gru-po, como também o fundo comum de representações que conferem significação às suas ações e discursos e dão sentidoà
sua existência, legitimando-a. Essa existên-cia, por outro lado, é pautada por determinações negativas e positivas que resultam da modulação rftmica das variações sazonais. Todo esse movimento que anima o ecossistema, e que é preciso conhecer para operar, com relativa previsibilidade, nas artes da subsistência, é fonte ainda para o exerdcio da observação especulativa de-sinteressada (Lévi-Strauss, 1962), base de toda invenção e criatividade.Para lidar adequadamente com a densidade desse complexo sistema de relações e significados é necessário proceder analiticamente para, ao final, restituí-lo de modo pleno e compreensivo em sua totalidade. Com esse objetivo, propomos o desenvol-vimento dos estudos básicos em cinco dimensões ou frentes de investigação: 1) um censo antropológico; 2) uma análise das redes (network-analysis) de relações sociais e trocas; 3) um estudo da estrutura, composição e evolução dos grupos domésticos; 4) um levantamento articulado dos planos de organização social e das formas asso-ciativas; 5) e, por fim, um inventário exaustivo do conhecimento naturalístico desen-volvido a nível local.
2.1 Censo antropológico
A operação do recenseamento antropológico servirá de levantamento preliminar do universo da pesquisa (survey) e a função de estabelecer os contatos da equipe com a comunidade-alvo do projeto. O censo antropológico deverá, ainda, proporcionar a escolha e o delineamento das estratégias de pesquisa para os demais estudos. Fi-nalmente, esse censo deverá acrescentar
à
dimensão numérica e quantitativa do re-censeamento demográfico uma apreensão sensível, focalizada e qualificada dos da-dos sociais.2.2 Análise das redes de relações
A análise das redes de relações sociais tem se. demonstrado muito útil no levanta-mento dos padrões de interação entre os distintos grupos de uma determinada área, região ou localidade. Permitem detectar o entrelaçamento de grupos; os modos de transmissão das informações; a distribuição e a hierarquização dos papéis sociais; as personalidades públicas vocacionais; os fluxos e as freqüências das trocas sociais e econômicas (grupos afinit~rios, praças de mercado, mediadores e intermédia rios); os processos de alocação de responsabilidade; os mecanismos de resolução de confli-tos; os sistemas de aliança e ajuda mútua; as relações de proximidade e distância social; os grupos de vizinhança (neighbourhood), as facções e cliques; os agentes potenciais de mudança ou conservação social.
As informações resultantes dessa perspectiva devem ser sistematizadas em relatório sob diversas formas, incluindo diagramas, sociogramas e outros dispositivos de re-presentação grá.fica (tabelas, curvas). Com base nesse tipo de dados, devem ser defini-dos os casos de estudo para a próxima etapa da pesquisa Essa escolha será. orientada, ainda, de acordo com os elementos qualificados do censo antropológico. Acrescen-tamos que esses últimos devem incluir croquis das diversas unidades recenseadas, bem como do seu entorno (caminhos, portos, áreas de pesca e extrativismo, pontos de aguada, etc.).
2.3 Estrutura, composição e evolução dos grupos domésticos
Mediante a análise, detalhada, de um elenco de casos selecionados, com base nas etapas precedentes, esse estudo pode delinear não só as variantes estruturais dos grupos domésticos, mas, além disso, as caracterrsticas do ciclo de seu desenvolvi-mento. Para tanto, será necessário inventariar os padrões de assentamento; as gras de residência; os sistemas de atitudes; as formas da autoridade doméstica; a re-presentação e a distribuição dos papéis familiares; a diferenciação de posição e
sta-tus sociais; os modos de socialização; o trabalho familiar (a diferenciação e a espe-cialização das tarefas, por sexo e idade; alocação do tempo e dos espaços corres-pondentes; alocação, realocação e redistribuição dos recursos; a estrutura de tomada de decisões, por unidade de produção, etc.); pautas de consumo e regras da comen-salidade e da hospitalidade.
A casa e os demais elementos da habitação devem receber um tratamento meticulo-so, assinalando-se não só os espaços, mas também as atividades e os valores que lhes correspondem. Devem ser mapeadas as áreas femininas e masculinas, as esfe-ras do público e do privado, seus modos de apropriação com as respectivas etiquetas que orientam o intercurso social no âmbito doméstico, e para além dele. Será ne-cessário, ainda, registrar os modos de escansão do tempo. Esse registro permitirá uma compreensão dos ritmos da vida quotidiana, com as diferenciações que lhes são impostas, quer pelos ciclos mais longos da sazonalidade, quer pelas determinações da cultura local.
3. Planos de organização social e fonnas associativas
A organização social dos grupos a serem pesquisados deverá ser descrita e compre-endida a partir da identificação dos diversos planos ou dimensões implicados na ope-ração das relações sociais. O conjunto das práticas sociais, verificadas no trabalho de campo, constitui modos legitimados de desempenho que se articulam com base em diferentes dispositivos institucionais, com suas respectivas regras de afiliação. Cada um desses dispositivos deverá ser identificado e descrito, permitindo uma apre-ensão dos padrões de interação que mantêm entre si. Serão levadas em conta, nessa análise, as formas associativas institucionalizadas da vida religiosa, polrtica e econô-mica, bem como os seus planos de intersecção.
Esse estudo é fundamental por várias razões. Os modos de articulação dos planos de organização social poderão servir, por exemplo, para definir as fronteiras e limites da comunidade, não necessariamente coincidentes com a circunscrição territorial defi-nida pelo projeto (cf. Geertz, 1959). Poderão servir, ainda, para compreender as for-mas nativas da ajuda mútua e do trabalho cooperativo, com suas estratégias de con-vocação, adesão e retribuição. Podem, finalmente, indicar as principais linhas de cli-vagem da sociedade local, delineando os processos relevantes de concorrência, competição, convergência, disputa e administração dos conflitos. Todas essas coisas são fundamentais para levar a efeito um projeto que implica: a) deslocamento e reas-sentamento; b) recrutamento, seleção e capacitação; c) novos formatos de asso-ciação e cooperação; d) novos padrões de assentamento e vizinhança (agrovilas, p. ex.); e) exposição da comunidade local e recursos de consumo, comunicação e gestão que nada têm a ver com o seu modo de vida tradicional.
4. Conhecimento naturalístico
A paisagem da área-programa não deve ser compreendida, apenas, da perspectiva que costuma orientar os técnicos e especialistas, por mais sofisticadas que possam ser as suas abordagens e por mais justificados que sejam os recortes analíticos por eles estabelecidos. A divisão do conhecimento entre botânicos, zoólogos, biólogos, limnologistas, pedólogos, hidrologistas, meteorologistas, ecologistas, geógrafos, geó-logos e outros peritos técnicos e legitima uma distribuição diferenciada de competên-cias e, com ela, determinadas relações de poder. Essas relações de poder excluem e desqualificam o discurso do saber naturalfstico local. Tal exclusão. por sua vez, tende a consagrar uma departamentalização técnico-burocrática do conhecimento sobre o meio ambiente.
As implicações desse especialismo, às vezes exacerbado, para os programas de preservação ambiental são múltiplas. Os diversos ângulos da abordagem não são, como exigiria a moderna concepção dos ecossistemas, complementares. Revelam-se, ao contrário, concorrentes, competitivos e contraditórios. À diferença delas, o co-nhecimento naturalfstico local tem, cada vez mais, revelado uma surpreendente capa-cidade de perceber de modo contextualizado os elementos constitutivos do seu
habi-tat.
Este é apreendido e sistematizado, em geral, a partir de um código que explora a lógica das qualidades sensfveis para enquadrar o meio ambiente através de sua classificação. Daí resulta um ponto de vista que condiciona uma visão específica do ecossistema, diferente daquela que tem o perito técnico, em qualquer uma de suas versões. São muitos os exemplos que demonstram as vantagens, para a ciência, de levar em consideração os critérios por meio dos quais esse ponto de vista nativo constrói, articula e opera o seu corpo de saberes, dos quais nem todos são meramen-te utilitários. É exatamente o seu caráter freqüentemente especulativo e experimenta-dor que pode fornecer à ciência valiosas pistas para o aprofundamento das suas ob-servações. E, por vezes, alguma solução engenhosa para outros problemas oudile-mas que o cientista enfrenta. Nesse campo existe, pois, uma excelente oportunidade para uma colaboração frutífera e a melhor ocasião para uma democratização do co-nhecimento no sentido mais pleno da palavra.
o
estudo básico do conhecimento naturalístico deve dedicar-se ao levantamento me-ticuloso do léxico e da gramática ambientais que os grupos nativos detêm e praticam. Devem ser registrados todos os entes classificados, os critérios que presidem a essa classificação e as relações sistêmicas entre esses diversos entes ou entre os diver-sos subconjuntos que as classificações estabelecem no seio desse universo. Será igualmente observada a forma pela qual as taxonomias nativas se reproduzem so-cialmente, identificando os portadores legítimos desse conhecimento naturalfstico, bem como descrevendo as oportunidades em que sua transmissão é empreendida. Devem ser levadas em conta, ainda, as estratégias de apropriação do meio ambiente que esse saber naturalfstico orienta. Esses dados podem ser integrados num relatório compreensivo do ecossistema, incorporando as representações nativas para uma subseqüente comparação com as visões dos peritos técnicos. O quadro dos dois modos de apreensão do ambiente que dar resulta permitirá localizar possrveis pontos de comutação entre eles.Referências bibliográficas
Adams, Don. The monkey and the fish: cultural pit falls of an educational advisor.
In-ternational Development Review, 2(2):22-
4,
1969.Amin, Samir. L'accumulation à /'échelle mondiale. Paris, Maspêro, 1972. Bastide, Roger. Anthropologie appliquée. Paris, Payot, 1971.
Brown, Richard P. A paetic for sociology: towards a logic of discovery for the human sciences. London/New York, Cambridge University Press, 1977.
Bücher, Carl.lndustrial evolution. New York, H. Holt, 1907.
Cao Tri, Huyín. L'approche socio-culturelle, comunicative et participative de I'adminis-tratiton publique. In: Administration participative et développement endogime. Paris, Unesco,lnstitut International des Sciences Administratives, s.d.
--o
Le concept du dêveloppement endogene et centré sur I'homme. In: Clés paurune stratégie nouvelle du développement. Paris, Unesco, 1984.
Dumont, Louis. Homo aequalis - genese et épanouissement de /'ideólogie
économi-que. Paris, Gallimard, 1977.
Emmanuel, A. L 'échange inégal. Paris, Maspéro, 1975.
Fausto, A. & Vogel, A. Desenvolvimento endógeno, administração participativa e de-mocratização da cultura. Rio de Janeiro, Unesco/Flacso, xerogr. 1987.
Fei, J.C. H. & Ranis, G. The development of the labour surplus economy, theory and
policy. Homewood, /11., R.D.lrwin, 1969.
Foster, George M. As culturas tradicionais e o impacto da tecnologia. Rio de Janeiro, Fundo de Cultura, 1964.
Frank, A.G. Le développement du sous-développement. Paris, Maspéro, 1972. Godelier, M. Objet et méthode de /'anthropologie économiCj!.Je in rationalité et
irrationa-lité en economie. Paris, Maspéro, 1966.
Jacobs, Jane. La economía de las ciudades. Madrid, Penrnsula, 1974.
Kula, Witold. On the typology of economic systems. In: The social sciences - pro-blems and orientations. Mouton, Unesco, 1968.
Leibenstein, H. Beyond economic mano Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1975.
--o
O pensamento selvagem. São Paulo, Difel, 1962.Lévi-Strauss, Claude. Antropologia estrutural 11. TB., Rio de Janeiro, 1976.
--o
Raça e história. In: Lévi-Strauss. Cultural, Abril, São Paulo, 1980.Lewis, A. Economic development with unlimited suplies of labour. Manchester, The Manchester School of Economic and Social Studies, 1954. v. 22, n. 2.
Malinowski, B. A scientific theory of culture and other essays. Chapel Hill, New Caro-lina, 1944.
- - o The dynamics of culture change. New Haven/London, 1945.
Munro, H. L. The argument of laughter. London, Hattaway, 1964.
Myrdal, G. Against the stream, criticaI essays on economics. New York, Vintage Books, 1975 ..
Pareto, Vilfredo. Traité de sociologie générale. Paris, Payot, 1917. 2v.
Polaniy, Karl. A grande transformação - as origens da nossa época. Rio de Janeiro, Campus, 1980.
Rostow, W.W. Les étapes de la croissance économique. Paris, Seuil, 1964. Vierkandt, Alfred. Naturvó/ker und ku/turvó/ker. Leipzig, 1896.
Vogel, Arno & Mello, Marco Antonio da Silva. Quando a rua vira casa. Rio de Janeiro, Ibam Finep, 1981.
Weber, Max. Economía