W e blogu e s com o m e io pr iv ile gia do pa r a o e x e r cício
do om bu dsm a n e m Jor n a lism o de ciê n cia
Filipa M . Ribe ir o
Jor nalist a e Mest r anda em Com unicação e Educação de Ciência na Univ ersidade de Aveir o, Por t ugal.
Em ail: filipa.r ibeir o@gm ail.com
Re su m o
O conceit o act ual de w eblogue poder á ser ex pandido ao se especializar e inovar as funções que desem penha. Ser vir com o m eios e supor t e par a o exer cício do om budsm an é um a das for m as de o conseguir . A nossa pr opost a é que est a figur a se r enov e t am bém no âm bit o do Jor nalism o de Ciência. Um a das for m as de for t alecer o j or nalism o na esfer a pública é at r av és não de um escr ut ínio ar bit r ár io, m as de um m odelo de aut ocr ít ica e de aut o- r egulação da act ividade j or nalíst ica feit a em par alelo com os cont r ibut os das par t es int er essadas que, no caso do j or nalism o de ciência, são: j or nalist as, cient ist as, públicos e agent es de decisão. A j unção do w eblogue com a figur a do om budsm an m elhor a, por um lado, est e m ecanism o de aut o- r egulação do j or nalism o e, por out r o, incr em ent a o pot encial dos w eblogues par a t or nar m ais t r anspar ent e e út il a act iv idade j or nalíst ica na cober t ur a e com unicação da cult ur a cient ífica. A nossa pesquisa não encont r ou nenhum caso de um om budsm an em j or nalism o de ciência, pelo que a nossa int enção é apr esent ar um a abor dagem à aut o- cr ít ica no j or nalism o de ciência que t ir e o m elhor pr oveit o das novas t endências com unicat iv as e t ecnológicas, apr esent ando o w eblogue com o m ais um a fer r am ent a ao dispor do om budsm an par a desm ist ificar as suas funções e par a enfat izar o seu papel com o gest or do conhecim ent o.
I . D os w e blogu e s e dos v a lor e s
“ Mor e and m or e j our nalist s ar e r ealizing t hat blogging can help
t hem increase t heir t r anspar ency – and t heir cr edibilit y - w it h t heir
audience. They’r e opening t heir eyes t o a fact .” Jay Rosen
Os w eblogues j á não são apenas páginas ou diár ios pessoais.
Na ver dade, o adj ect ivo «pessoal» nunca t er á sido o m ais adequado
par a car act er izar um for m at o que sem pr e se sit uou no pont o
int er m édio ent r e o âm bit o subj ect ivo e o t er r eno público ( Mor t ensen
e Walker , 2002) . Ant es de t udo, o w eblogue ser á sem pr e um pr odut o
de selecção e r eflexão hum anas ( Blood, 2002) , sendo isso que faz
dele um conceit o em const ant e dilat ação.
Nos w eblogues, quando se fala das m ensagens veiculadas,
fala-se, essencialm ent e, em significação, o que, por si só, per m it e ir além
de qualquer t ipo de dualism o, j á que se pr ova assim que qualquer
um a aut o- consciência, int egra, em cada m om ent o um fluxo const ant e
de infor m ações e per cepções. No w eblogue, esse agent e com unicant e
t r ansfor m a essas infor m ações e per cepções num a m em ór ia do vivido
e num subst r at o par a a t om a de decisões pessoais e colect ivas, se for
caso disso. Muit os defendem que essas per cepções, com valor ização
afect iva e em ocional, que são m em or izadas e que, quando evocadas,
influenciam as nossas decisões, sendo os pr im eir os de t odos os
valor es individuais ( Ser r ão, 2006) .
Assim , t em os, hoj e, na sociedade de infor m ação que nos calhou
em sor t e, ser es, unidades e m odelos quase t odos socializados,
for m ando cada um deles um a m icr o- sociedade ( pro) cr iat iva que
cont a a hist ór ia da cult ur a, dos valor es e dos padr ões ét icos que
cat egor izam as nossas act ividades. “ Sendo est a a genealogia dos
valor es pessoais e sociais ( …) quant o m ais com unicação, quant o m ais
cir culação de infor m ação ent r e as pessoas, quant o m ais est as
t r ansfor m ar em a infor m ação em conhecim ent o, m ais r ica é a panóplia
de valor es pessoais par a usar nas decisões e m ais cor r ect a ser á a
com pr eensão da génese dos valor es sociais, da sua im por t ância par a
o equilíbr io ent r e dir eit os e dever es individuais e sociais e at é da sua
nat ur eza cont r at ualist a” ( Ser r ão, 2006) . No seguim ent o dist o, pode,
ent ão dizer - se que r eceber infor m ação e t r ansfor m á- la em
conhecim ent o é cr iar , num núm er o sem pr e cr escent e de cidadãos, a
consciência dos valor es sociais e de com o lidar com eles. Acr edit am os
que os w eblogues, enquant o fer r am ent as ( ou for m at o) da sociedade
de infor m ação act ual, podem aj udar nest a nova via, nest a
t r ansfor m ação do processo de aquisição dos valor es pessoais, do uso
da aut onom ia e da r ecepção crít ica dos valor es sociais e de
infor m ação.
Por out r o lado, par t ilham os aqui t am bém a ideia per filhada por
Dom inique Wolt on, segundo a qual a sociedade de infor m ação ao
infor m ação ser um a m ensagem , ou sej a, é algo individual. A
com unicação dessa infor m ação é que, pela sua nat ureza negocial,
or igina a dim ensão colect iva iner ent e ao conceit o de sociedade de
infor m ação.
Est e papel a ser desem penhado pelos w eblogues é
ext r em am ent e r elevant e par a a com unicação de ciência. Post o ist o,
t or na- se ainda im por t ant e quest ionar sobr e que r ecur sos est ão a ser
disponibilizados e que im plicações há a consider ar par a que a
com unicação de ciência se coadune com a possibilidade dos
leit or es/ usuár ios se engaj ar em efect iv am ent e com a ev olução do
conhecim ent o cient ífico.
Fer nando Cor r eia dist ingue o conceit o de m edia em : espaço de
infor m ação par a os j or nalist as, pr odut o par a os pat r ões, supor t e de
anúncios par a os publicit ários, inst r um ent o de lut a par a classes
dir igent es, espaço de par t icipação par a os cidadãos, espaço de
r eivindicação par a t rabalhador es, inst ância de visibilidade par a alguns
sect or es, e inst r um ent o de conhecim ent o par a a m aior par t e das
pessoas. Daqui é possível acoplar o conceit o de w eblogue às facet as
de espaço de infor m ação par a os j or nalist as, espaço de par t icipação
par a os cidadãos, espaço de r eivindicação e inst r um ent o de
conhecim ent o par a a m aior par t e das pessoas ( e ist o apesar de
par ecer ser j á um a t endência com pot encial de cr escim ent o que os
w eblogues ser ão cada vez m ais um supor t e par a publicidade, com o j á
acont ece em alguns casos) .
Além disso, por viver no espaço I nt er net , o w eblogue
const it uiu- se com o um valor - acção, ou sej a, a lógica da I nt er net é a
lógica da exigência ( Wolt on, 2005) e as convulsões que apor t ou ao
exer cício do j or nalism o est ão j á suficient em ent e docum ent adas em
lit er at ur a vast a, sendo que o w eblogue sur ge com o a fer r am ent a e a
ut ilidade par a apr oxim ar int r a e int er públicos em que o que se
Por fim , segundo Susan St r ange, qualquer pot ência est r ut ur al
deve r esponder a quat r o necessidades sociais de base: segur ança,
saber , pr odução, finança. Assim sendo, o fut ur o do w eblogue no
j or nalism o em ger al e no j or nalism o de ciência em par t icular não se
definir á t ant o pelo seu t er r it ór io, m as m ais pela sua capacidade de
agir sobr e os act or es t r ans e infrainfor m acionais que t r ocam dados e
r epr esent ações.
I I . D o om bu dsm a n
Nest a er a em que o j or nalism o digit al não é m ais um a
post ulação t eór ica e vai sendo cada vez m enos, ainda que a um r it m o
m uit o lent o, um a m er a t r ansposição de cont eúdos do papel para o
supor t e digit al, o om budsm an pode aj udar , ao desem penhar a sua
função, a m it igar aquilo a que Tim Por t er cham ou de âncor as cr ónicas
( est e adj ect ivo assum e, nest e cont ext o, um a conot ação pej or at iva)
no j or nalism o t r adicional, em que um a delas er a pr ecisam ent e a
inér cia, j á que, no dizer daquele aut or , os j or nalist as não são
pr ofissionais da m udança.
Cont udo, e na per spect iv a do j or nalism o de pr oxim idade que
deve ser t am bém o j or nalism o que se faz em supor t e digit al, a
I nt er net em ger al e os w eblogues em par t icular t êm em si iner ent e
um a for t e com ponent e da m udança. É “ necessár io que os j or nalist as,
cuj a pr ofissão os obr iga a est ar em sem pre act ualizados, saibam
apr oveit ar as pot encialidades que est e t ipo de publicações ofer ece.
Com o com plem ent o do t r abalho diár io par a um a det er m inada
em pr esa, um j or nalist a ou repór t er pode m ant er um w eblogue onde,
além de int er agir com os seus leit or es, poder á apr esent ar
por m enor es e per spect ivas sobr e os assunt os que est á a t r abalhar ou
j á publicou e que não podem ser not iciados no ór gão de com unicação
out r o lado, os w eblogues podem ser excelent es font es de infor m ação,
espaços par a cont act o com especialist as, inspir ador es de novas
est ór ias ou r epor t agens” . I st o disse Elisabet e Bar bosa em 2003 e, de
fact o, t ant o na blogosfer a nacional com o na int er nacional, aquele
pot encial da fer r am ent a w eblogue j á se concr et izou. Por t ant o, o
j or nalism o aliado ao w eblogue const it ui um m ét odo singular de
int er pr et ação do pr esent e social, est endendo t am bém as suas
pot encialidades par a or ganizar o cor pus colect ivo das pr ópr ias r edes
digit ais.
É nest e sent ido que se j ust ifica falar num a out r a car act er íst ica
j á conhecida da t r ibo j or nalíst ica, m as que só am iúde é desenvolvida
e cham ada par a pr im eir o plano – a aut ocr ít ica na profissão. Est a
car act er íst ica t em sido associada aos dom ínios da ét ica e da
deont ologia. Tem ficado pouco salient ada a dim ensão m or al que, no
nosso ent ender , é aquela em que a aut o- r egulação m ais se deve
apoiar . Com o explana Mar ia José Mat a, o que t em sobr essaído são as
ver t ent es da het ero- r egulação e da aut o- r egulação. Aquela aut or a,
apoiando- se nas concepções de Bor is Libois, e pensando
essencialm ent e na im pr ensa, equaciona as “ im plicações decor r ent es
da eficácia do om budsm an em função dos event uais «int er esses» do
j or nal na t ent at iva de se aut o- cr edibilizar j unt o do público, avaliar a
sua acção enquant o m ecanism o de aut o- r egulação e indagar sobr e a
viabilidade [ e validade] do diálogo que se pr opõe pat r ocinar ent r e o
j or nal e os leit or es” . Na sequência do pensam ent o de Lebois, a aut
o-r egulação no j oo-r nalism o suo-r ge essencialm ent e com o um a est o-r at égia
de aut o- cr edibilização que se pode at é t or nar ludibr iosa pela sua
ilegit im idade e ineficácia.
Com efeit o, Lebois t em est a opinião por que par t e de um
conceit o de aut o- r egulação que t em a sua “ or igem e o seu exer cício
na consciência individual do j or nalist a e debr uça- se,
José Mat a dist ingue um a r egulação de car áct er pr ivado,
cor r espondendo a um a aut o- r egulação alar gada, englobando as
for m as individual, pr ofissional e em pr esar ial de codificação; e um a
r egulação de car áct er público, cor r espondent e de um a het er
o-r egulação, int ego-r ando as foo-r m as de codificação o-r egulam ent ao-res,
adm inist rat ivas e j ur isdicionais” .
No seguim ent o dest e r aciocínio, ent endem os a aut o- r egulação
com o a for m a par a quest ionar com o será possível as v ant agens do
pr ot agonism o que os m edia t êm act ualm ent e e evit ar os seus
inconvenient es ( Aznar ,2005) . Apoiam os, por t ant o, a per spect iva de
Hugo Aznar sobr e a aut o- r egulação pela qual est a “ não t em com o
obj ect ivo pr ot eger a liber dade dos em pr esár ios da com unicação, m as
os valores e os bens int ernos da com unicação. As chaves da aut
o-r egulação não devem seo-r po-r ocuo-r adas na est o-r ut uo-r a em po-resao-r ial dos
m edia, devem ser pr ocur adas no pr ocesso social da com unicação, do
qual as em pr esas são apenas um a ent r e vár ias par t es” .
Or a, desde a sua or igem ( na Suécia, em 1713 pr im eir o; de
for m a oficial em 1809 e, na im prensa, em 1967) , o om budsm an t em
est ado associado essencialm ent e a um a função de cont r olo ( ainda
que sem for ça j ur ídica) cent r alizado num a figur a. Essa é, a nosso ver ,
um a das pr incipais r azões par a as fr aquezas com que a função de
om budsm an se t em depar ado. Tal com o ident ificou Már io Mesquit a
com a pr opr iedade que a sua exper iência, com o pr ovedor do leit or no
Diár io de Not ícias, lhe pr opor cionou: “ A figur a do om budsm an não
per t ence aos nossos hábit os, nem à nossa cult ur a. A m inha
exper iência no Conselho de I m pr ensa j á m e t inha feit o com pr eender
que o conceit o de «m agist r at ur a da influência» se sit ua for a das
t r adições lusit anas. Os nossos com pat r iot as não apr eciam conselhos
ou r ecom endações. Obedecem a quem lhes gar ant e o aum ent o de
nest e caso, o t r abalho do pr ovedor dos leit or es? A aut oavaliação é
sem pr e um em pr eendim ent o suspeit o e ar r iscado” .
Par ece, assim , que a função do om budsm an não pode
depender , com o at é aqui t em acont ecido, unicam ent e da for ça da sua
coluna sem anal quando faz, per ant e leit or es e per ant e a em pr esa
j or nalíst ica, a cr ít ica do pr ópr io ór gão ao qual est á associado. At é
por que em j or nalism o, independent em ent e da sua m odalidade, um a
m esm a sit uação é j ulgada de for m a m uit o diver sa por cada agent e de
r egulação e ist o num cont ext o de um a sociedade que t alvez sej a
sem pr e de m or al st r anger s. Por t ant o, o espaço do om budsm an com o
um a sim ples m anifest ação do et hos do ór gão de com unicação é
insuficient e par a os desafios do j or nalism o em ger al e do j or nalism o
de ciência em par t icular .
“ Tr adit ionally in j our nalism , credibilit y m eans a st or y r ings t r ue.
I t ’s accur at e. I t ’s in cont ext . The r epor t ing and pr esent at ion ar e fair .
I n t he blogospher e, cr edibilit y m ay bor r ow from t hose values but is
likely also shaped by w hat t he indiv idual blogger – or gr oup of
blogger s- st ands for ” . I st o significa que os padr ões de et icização dos
cont eúdos no j or nalism o e na blogosfer a poder ão ser equivalent es,
m as as dim ensões ét icas são difer ent es. Recent em ent e, par a além da
r evisão das guidelines ét icas e deont ológicas, a cont r at ação de um
om budsm an foi um a das est r at égias usadas, nom eadam ent e pelo
New Yor k Tim es. Out r a est rat égia que est á a ser adopt ada são os
pr ópr ios j or nais est ar em a aplicar o for m at o de w eblogue par a o
exer cício das funções dos seus pr ovedor es do leit or , com o é o caso
r ecent e do Público, ainda que nest e caso, com o aler t ou j á Luís
Sant os, no seu w eblogue At r ium , não est ej am a ser apr oveit adas
t odas as pot encialidades da fer r am ent a w eblogue para a cor r ect a
or ganização dos cont r ibut os dados pelo pr ovedor do leit or .
Vim os, pois, que as funções de gest ão das cr ít icas e de cont r olo
om budsm an. “ A acção do om budsm an desenvolv e- se, t eor icam ent e,
no cam po das event uais cont r adições ent r e os pr incipais edit or iais do
j or nal e o que depois apar ece nas suas páginas, pr ocur ando
r est abelecer a sint onia do et hos inst it ucional com a audiência
( leit or es que lêem e par t icipam na pr ópr ia coluna) , e concedendo,
dessa for m a, um elevado gr au de cr edibilidade ao j or nal. Na
ident ificação dest a ét ica est r at égica com a sat isfação das
necessidades dos leit or es a quem o j or nal se dir ige r eside, de cer t o
m odo, a eficácia do om budsm an enquant o m ecanism o de aut
o-r egulação da act ividade j oo-r nalíst ica.
I I I - D o Om bu dsm a n n o j or n a lism o de ciê n cia
Já r efer im os que o om budsm an vocacionado par a o exer cício
das suas funções em r elação ao j or nalism o de ciência não pode
m ant er apenas um a função de gest or de cr ít icas, ou sej a, a sua
m issão não pode consist ir apenas em exam inar as r eclam ações,
dúvidas e sugest ões r espeit ant es ao cont eúdo j or nalíst ico, nem
apenas pr oceder à cr ít ica r egular do j or nal, bem com o da sua
or gânica com base nas r egr as ét icas e deont ológicas do j or nalism o.
Out r a difer ença em r elação ao m odelo act ual r eside no fact o de
o om budsm an t am bém não poder t er apenas um a int er venção a
post er ior i, m as ant es a pr ior i e dur ant e o pr ocesso de fabr icação da
infor m ação, pois assim com o o cient ist a, no decor r er da sua
act ividade de invest igação, se depar a com m uit os dilem as ét icos,
t am bém o j or nalist a de ciência se confr ont a com dúvidas ét icas,
m et odológicas, deont ológicas e processuais cuj a r esolução m ais
adequada nem sem pr e é possível obt er quando t em de se
desenvencilhar desse pr oblem a sozinho e sem aconselham ent o de
alguém com o devido dist anciam ent o da sit uação a ser t r at ada na
No fundo, a qualquer m odelo de om budsm an, m ais ou m enos
especializado, cabe o papel de, ut ilizando as for m as com unicat ivas
m ais adequadas, cr iar condições par a que
pessoas/ com unidades/ leit or es se r esponsabilizem pela cr iação de
m icr om undos. Os pr ofissionais de com unicação que sej am t am bém
educador es conseguir ão acopular - se com os seus leit ores de m odo a
aj udá- los a ident ificar os padr ões or ganizat ivos do m undo da ciência
e t ecnologia, j á que a dem ocr at ização do conhecim ent o cient ífico t em
sido um obj ect ivo de esfor ço de invest igador es, j or nalist as e out r os
com unicador es de ciência e, em cer t a m edida, do poder polít ico.
Nest e sent ido, o j or nalism o de ciência ( ou j or nalism o cient ífico) r eúne
em si um a função de inclusão social, de liber t ação, sobr et udo por que,
e de acor do com Wilson Bueno, o “ j or nalism o de ciência é, ant es de
t udo, um a const r ução, um novo discur so” ( Bueno, 2005) . “ O
Jor nalism o Cient ífico é um novo discur so, const ruído a par t ir de um a
vivência, um a per spect iva cr ít ica e, por isso, não se r esum e a um a
m er a t r adução ( …) O j or nalist a cient ífico não deve r epassar às suas
font es um a r esponsabilidade que é sua: const r uir um discur so cr ít ico,
com pr om et er - se com o int er esse público” . ” ( Bueno, 2005) . Assim , o
Jor nalism o de Ciência afir m a- se, globalm ent e, com o um com pr om isso
fir m ado com a sociedade, com o aliás, o j or nalism o em ger al.
Nos w eblogues, o dinam ism o pr ocessual de const r ução de
significações, quer em cont ext o pessoal, quer com unit ár io é de t al
m odo dinâm ico que apenas podem os dist inguir for m as
com unicacionais enquant o obser vador es ( ou aut o- obser vados) de um
act o com unicacional.
Nest e m eio int er com unicacional inint er r upt o, ger am - se padr ões
de significação que, não sendo os nossos ( ou os dos nossos leit or es) ,
podem os com pr eender se aceit ar m os que os nossos não
cor r espondem a um a ver dade pr ivilegiada not iciada do m undo, m as
aceit ação equivale a um a pedagogia da hum ildade ( e de r igor ) por
par t e do om budsm an que se m at er ializa num a at it ude de escut a,
par t ilha, em pat ia, exposição e apr endizagem . A par t ir daí t or na- se
possível const r uir pr oj ect os com uns de flexibilização de padr ões de
infor m ação cuj os aut or es são t am bém os pr ópr ios leit or es ( nos quais
se inser em os pr ópr ios cient ist as) .
Est e m odelo de act uação/ educação consider a que a dim ensão
infor m acional, sendo algo m uit o im por t ant e deve ser ent endida com o
um m eio que aqui t am bém é consider ado um a finalidade: a obt enção
de «com por t am ent os saudáveis» r elat ivam ent e à ciência. Daqui
decor r e que t em os o om budsm an com o um agent e de educação para
a ciência e t em os o w eblogue com o um for m at o/ fer r am ent a ( veículo
de um pr ogr am a) educat ivo que prom ove a ciência e a pr odução de
infor m ação sobr e ciência por int er m édio do j or nalism o. Podem os
ainda encont r ar o m odelo do em pow er m ent dos j or nalist as de
ciência, dos cient ist as e dos leit or es de acor do com o qual se
pr et ende dot ar os cidadãos de um a espécie de r acionalidade
ilum inist a que esclar ecer á valor es, cr enças e at it udes par a com a
ciência. Por sua vez, est a lucidez r acional ( ou being aw ar e of)
incr em ent ar á o poder individual e social por excelência, confer indo
aos int er locut or es que int er agem dent r o do w eblogue ( j or nalist as,
cient ist as, leit or es) um a m aior legit im idade enquant o agent es de
decisão no âm bit o da ciência. E essa legit im idade só exist e enquant o
exist e t r oca de conhecim ent o.
Num a sociedade de infor m ação, na qual é a pr ecisam ent e a
infor m ação e a t ecnologia que m odelam as nossas acções e os nossos
valor es –acção ( I lhar co, 2006) a gest ão do conhecim ent o t em hoj e
por int er m édio o pr essupost o de que “ conhecim ent o é poder ” - poder
par a ( r e) cr iar ligações com os client es ( no caso, leit or es) , poder par a
analisar e sint et izar infor m ação par a usá- la cor r ect am ent e em novas
colabor ador es da em pr esa o fácil acesso à infor m ação e per m it am a
sua aplicação quer na ident ificação de nov os int er esses públicos.
Afinal, t odas as definições de gest ão de conhecim ent o passam pela
necessidade de est im ular a cr iação de um clim a or ganizacional
pr opício à conver são do conhecim ent o individual em conhecim ent o
colect ivo de for m a a r esponder m ais eficazm ent e às solicit ações do
m er cado, ident ificando o seu valor r eal. Tem - se assim que o exer cício
do om budsm an em j or nalism o de ciência não im plica um a
especialização da função de om budsm an, m as ant es um a ex pansão
das funções, sendo que ele passa a ser m ais do que um gest or de
cr ít icas ao ór gão par a o qual t rabalha, par a ser um gest or de
conhecim ent o, sobr et udo de conhecim ent o cient ífico ( Not e- se que
adopt am os aqui a definição de j or nalism o de ciência pr opost a por
Wilson Bueno, segundo a qual Jor nalism o de Ciência abr ange a
cober t ur a de Ciência e Tecnologia de m aneir a ger al e não exclui, em
pr incípio, qualquer ár ea. Dest a for m a, a Ant r opologia, a Sociologia, a
Educação e a Com unicação, dent r e de m uit as out r as disciplinas
cient íficas r econhecidas, t am bém são obj ect o da cober t ur a de Ciência
e Tecnologia) . Por t ant o, em bor a o om budsm an em j or nalism o de
ciência m ant enha as funções que j á lhe são conhecidas ( “ r eceber ,
invest igar e dar r espost a às queixas do público) , pensam os que o
exer cício do om budsm an nest e r am o do j or nalism o const it ui um a
var iação e um m odelo da figur a e não t ant o um a especialização,
em bor a est a acont eça quant o aos assunt os que irá cobr ir . Est a
var iação da figur a do om budsm an v ai, em nosso ent ender , ao
encont r o quer do novo conceit o oper acional da ciência ( que a define
com o um a for m a de conhecim ent o que pode ser pr oblem át ica e,
com o t al, pensada e discut ida por t oda a sociedade) , quer do m ais
r ecent em ent e aceit e m odelo de com unicação de ciência – o m odelo
int er act ivo ( que se opôs ao m odelo de défice cognit ivo) , o qual se
cient ist as e público. Mais: o m odelo de act uação do om budsm an, no
w eblogue, em j or nalism o de ciência pot encia um a com unicação
dir ect a e plur idir eccional, j á que abar ca t am bém a t r ibo j or nalíst ica,
nas suas int r a- r elações dispar ando em vár ios sent idos. Confir m a- se
assim o t r abalho do om budsm an em j or nalism o de ciência com o um a
act ividade essencialm ent e polifónica e dialógica, e não apenas nos
sent idos ( linguíst ico e filosófico) j á av ançados por Mik hail Bak ht in.
Tem os, pois, um out r o subst r at o que sust ent a o w eblogue com o m eio
par a o exer cício do om budsm an assent e no fact o de possibilit ar um a
conver sação, ou r elação dialógica, pr ivilegiada ent r e cient ist as e
j or nalist as de ciência. Àquele exer cício ligam - se um a gr ande
especificidade de papéis sociais, lógicas e m odos de funcionam ent o,
de discur sos e de for m at os de com unicação. Not e- se que o w eblogue,
enquant o veículo do exer cício do om budsm an em j or nalism o de
ciência, r eúne em si os seguint es segm ent os dialógicos: j or nalist as vs
j or nalist as; cient ist as vs j or nalist as; j or nalist as vs
leit or es/ ut ilizador es; cient ist as vs leit or es/ ut ilizador es; or ganizações
vs cient ist as vs j or nalist as. Est e m odelo com unicacional
m ult idir eccional congr ega em si um a est r at égia de aut o- cr edibilização
que m at er izaliza pr ecisam ent e a t ent at iva j unt o dos m edia de se
“ aut o- cr edibilizar j unt o do público, avaliar a sua acção enquant o
m ecanism o de aut o- r egulação e indagar sobre a viabilidade do
diálogo que se pr opõe pat r ocinar ent r e o j or nal e os leit or es” ( Mat a,
2002) .
É t am bém nest e sent ido que j ulgam os que o w eblogue se
apr esent a com o um m eio pr ivilegiado par a pot enciar o om budsm an
com o um m ecanism o de aut o- r egulação que pr om ove a par t icipação
do público no pr ocesso da com unicação social. O om budsm an, t al
com o o w eblogue, é essencialm ent e dir eccionado par a o público, m ais
do que par a a audiência ( est a é passiva dent r o da dist inção que
definição de público de Daniel Bougnoux – “ o público são pequenos
gr upos que se afir m am e que se ident ificam com cer t os pr odut os
m ediát icos, r econhecendo- se ent r e eles” ) .
No esfor ço conj unt o que é a com unicação de ciência, é j á
r ecom endado o uso de w eblogues com o aj uda e com plem ent o às
publicações com peer - r eview . Por isso, num est ágio post er ior ,
gar ant ir a cr iação de um a com unidade online, m oder ada por um a
figur a de pr ovedor cr edível, é cont r ibuir para a consolidação do
conceit o de open science. A ciência deve ser pensada e discut ida por
t oda a com unidade at r avés do pleno uso de fer r am ent as j á
disponíveis, com o os w eblogues.
Regr a ger al, a divulgação cient ífica na I nt er net pr ivilegia os
segm ent os m ais fav or ecidos da população e sendo que os públicos de
ciência car act er izam - se por ser em t r ansver sais, os w eblogues,
enquant o m eio conver gent e das nar r at ivas discur sivas do j or nalism o
de ciência, am pliam o espaço de divulgação de Ciência & Tecnologia e
assegur am a plur alidade j á gar ant ida pela I nt er net .
O w eblogue congr ega em si t r ês gr andes pr om ot or es nos
pr ocessos de gest ão do conhecim ent o: t ecnologia, gest ão e
or ganização ( sendo est a últ im a o gr ande desafio par a o exer cício do
om budsm an pelas alt er ações que irá exigir e pelo com pr om isso da
gest ão no sent ido de obt enção de um a est r at égia abr angent e) . Um
efeit o lat er al dest a nova car act er íst ica que pode cont r ibuir par a o
dir eccionam ent o do cr escim ent o da blogosfer a.
Por fim , pensam os que a união ent r e o w eblogue e o exer cício
do om budsm an em j or nalism o de ciência vem ainda favor ecer a
pr ópr ia figur a do om budsm an, ao dar - lhe ar gum ent os par a cont r ar iar
aquelas que são consider adas as suas m aior es desvant agens,
apont adas pelos cr ít icos da exist ência do om budsm an.
Em pr im eir o lugar , o om budsm an deixa de ser aquela pessoa
um a coluna na w eb com as cr ít icas, defesas ou explicações sobr e
opções edit or iais do ór gão par a o qual t r abalha, par a ser um a
pr esença m ais assídua que ao invés de sim plesm ent e cr it icar os seus
colegas na r edacção acom panha o seu t r abalho, expõe as dificuldades
com que est es se depar ar am , denuncia vicissit udes no pr ocesso de
obt enção da infor m ação sobr e ciência, dialoga com cient ist as com o
for m a de cor r igir event uais falhas t écnicas nos ar t igos dos j or nalist as,
enfim deixa de ser o j uiz de uns e o m andat ár io de out r os par a ser o
facilit ador , um colabor ador , um int er m ediár io que or a auxilia os
j or nalist as, or a explica aos leit or es, or a int er age com os cient ist as
par a que a com unicação de ciência r esult e no m elhor pr odut o
possível. Consegue assim , e ainda m ais, evit ar conflit os m aior es,
confer ir m aior t r anspar ência à im agem da em pr esa que r epr esent a e
at enuar , se não m esm o elim inar , os ainda exist ent es azedum es ent r e
cient ist as e j or nalist as. Afinal, “ conver sat ion has alw ays been cr ucial
t o science, especially given t he im por t ance of scient ific consensus.
How ever , t he public conver sat ion of science gener ally has happened
in cont r olled, im per sonal, indir ect , and even defensive w ays – m or e
like scient ist s ar e t alking at each ot her ( or w it h t he m edia or public) .
Recent ly t he conver sat ion of science has gr ow n m or e var ied, vit al,
and open t hr ough e- m ail list s and online for um s” ( Gahr an, 2005) .
At r avés do w eblog, o r esult ado do t r abalho do om budsm an
opt im iza pr ocessos ( na pr odução de infor m ação sobr e ciência) ; t or
na-se t r anspor t ável o que confer e ao saber que t r ansm it e um r egist o de
fácil acesso; ganha pela com par t ilhabilidade, pois a par t ilha num
espaço só de exper iências ent re duas classes de pr ofissionais
essenciais na nossa sociedade de infor m ação não só validar á os
r esult ados do t r abalho desenvolvido, com o r efor çar á as com pet ências
de cada um dos elem ent os desenvolvidos; t or na- se conhecim ent o
explícit o, ou sej a, passa a exist ir fisicam ent e num supor t e acessível,
dent r o e for a da or ganização, t r ansm it indo com unicação de ciência de
um a for m a ét ica na sua for m a m ais t angível.
O w eblogue é, no nosso, ent ender um r ecur so est r at égico no
pr ocesso de com unicação de ciência feit a por j or nalist as em
int er acção com o seu público ( act ivo) , no qual se inclui a com unidade
cient ífica. Just ifica- se, por t ant o, que se r eúnam as pot encialidades do
inst r um ent o w eblogue par a apr oxim ar a alar gar as ar enas em que se
m ovem j or nalist as, cient ist as e saber es.
Concluindo, num a er a de m udanças aceler adas e de inovações
per m anent es, t or na- se cada vez m ais im por t ant e que os m edia
adopt em m ecanism os de aut o- r egulação de car áct er per m anent e que
encar em a aut ocr ít ica com o um exer cício cont ínuo e com cr it ér ios
aplicados. Devem , pois, fazê- lo adapt ando- se às possibilidades que
as t ecnologias oferecem , com o é o caso do w eblogue, par a que
or ganizações e colabor ador es exer cit em essas novas fer r am ent as que
consubst anciem o Conhecim ent o com o um act ivo incont or nável que
é. Tam bém a t ipologia dos w eblogues é definida pelo seu fim
com unicat ivo: divulgação, m ilit ância, alt er nat iva, especialização.
Est as são car act eríst icas com uns ao exer cício do j or nalism o de
ciência. E o j or nalism o de ciência, enquant o um a const r ução e um
novo discur so, pela com plexidade de quest ões que envolve na sua
pr át ica t em necessidade de um m eio de cont r olo, de obser vação e de
r eflexão que se cent r e sobr et udo no pr est ígio do conhecim ent o
cient ífico, na excelência da pr át ica do j or nalism o de ciência e na
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