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Rev. Dent. Press Ortodon. Ortop. Facial vol.11 número1

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Academic year: 2018

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R Dental Press Ortodon Ortop Facial 14 Maringá, v. 11, n. 1, p. 14, jan./fev. 2006

O

Q U E H Á D E N O V O N A

O

D O N T O L O G I A

Avanços na compreensão do paladar

Jorge Faber*

* Doutor em Biologia - Morfologia, Laboratório de Microscopia Eletrônica da Universidade de Brasília, Mestre em Ortodontia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Clínica privada focada no atendimento de pacientes adultos.

Foi o processo de desenvolvimento da civilização que trouxe consigo a ascensão do preparo dos alimentos e a atenção ao paladar do nível rudimentar para o atual. A princípio, a função do paladar é permitir que animais obtenham informações valiosas a respeito da natureza e qualidade dos alimentos, evitando os que oferecem risco à vida e optando pelos calóricos e nutritivos. Mas a abun-dância de alimentos nas cidades de certas regiões do mun-do propiciou sofisticação no preparo mun-dos pratos, por ter deflagrado uma busca de sabores apetitosos, equilibrados e surpreendentes.

O progresso da culinária foi acompanhado pelo da curiosidade científica acerca dos mecanismos biológicos que envolvem os prazeres da mesa.

Percepção dos sabores

Mamíferos podem perceber e responder a um gran-de repertório gran-de entidagran-des químicas, incluindo açúcares, sais, ácidos, aminoácidos e ampla variedade de substâncias tóxicas amargas. É interessante notar que durante muito tempo pensou-se ser a língua setorizada quanto à percep-ção gustativa. Inclusive, testes neurológicos foram desen-volvidos baseados na falsa premissa que botões gustativos específicos para determinados sabores se concentravam em certas regiões da língua. A bem da verdade, eles estão dissi-pados aleatoriamente pelo dorso da língua e pelo palato, e se apresentam em menor número em outras regiões.

São as células dos botões gustativos as responsáveis por “perceber” os sabores. O doce, o amargo e o umami são percebidos por meio de receptores de membrana. Em con-trapartida, o salgado e o ácido dependem de canais iônicos especializados de Na+ e H+. Umami é o sabor - único - que certos aminoácidos apresentam.

Vários receptores já foram identificados, pertencendo às famílias de receptores acoplados à proteína G, uma pro-teína de membrana3. Eles, que também são proteínas,

rece-bem em sua denominação duas letras: TR. Elas identificam a função da molécula e são abreviaturas, no inglês, de taste receptor (receptor do sabor).

Essas estruturas iniciam sua ação, resumidamente, pela ligação de uma molécula, tal como a glicose. Ela promo-ve alteração conformacional do receptor, desencadeando a transdução do sinal pelo citoplasma. Nesse sistema, a ati-vação do receptor leva à liberação de íons de cálcio prove-niente de reservatórios internos à célula e estes sinalizam para terminações nervosas a percepção gustativa, sendo a mensagem interpretada como um sabor.

Mais de 30 receptores T2Rs já foram associados ao discernimento do sabor amargo. Essas estruturas podem

apresentar diferenças entre espécies - tal como homem e camundongo - e isso determina a disparidade de compor-tamento na seleção de alimentos com esse sabor2.

Por sua vez, receptores T1Rs respondem à maioria dos 20 aminoácidos básicos. Estes merecem destaque porque L-aminoácidos funcionam como tijolos na construção das proteínas, como precursores biosintéticos de muitas mo-léculas biologicamente relevantes, e como combustível metabólico. Entretanto, poucos aminoácidos, assim como o L-glutamato, possuem o sabor umami. Alguns são doces e outros neutros ou amargos3.

Os receptores para cada sabor são expressos, predo-minantemente, em um tipo celular. Isso quer dizer que há células especializadas na percepção dos diferentes sabores. Quando camundongos transgênicos são gerados com re-ceptores para amargo em células especializadas em doce, os animais passam a ter preferência por alimentos amar-gos, e o contrário também é verdadeiro2.

O impacto da temperatura na percepção dos

sabores

O aquecimento ou resfriamento de áreas da língua po-dem levar a sensações gustativas tanto na região anterior quanto posterior do órgão. A diminuição da temperatura evoca o sabor azedo, embora uma parcela menor de indiví-duos perceba também o salgado. Já o aumento é percebido, transitoriamente, como uma sensação de doçura1.

Recen-temente, foi demonstrado que essas sensações são frutos da estimulação direta de receptores ou de canais iônicos nas membranas celulares4. Isso significa, por exemplo, que

o consumo de um mesmo chocolate em diferentes tempe-raturas acarreta experiências gustativas distintas. Quanto mais quente estiver o chocolate, mais doce ele parecerá.

Em suma, a complexidade da percepção do paladar é ainda aumentada pela interação com a temperatura. Muito ainda há que se estudar antes de possuirmos res-postas para vários dos mecanismos moleculares do paladar. Antes disso, podemos também nos ater a questionamentos mais simples: qual a temperatura ideal para se apreciar um Vinho-do-Porto safrado?

1. CRUZ, A. GREEN, B. Thermal stimulation of taste. Nature, London, v. 403, no. 24, p. 889-892, Feb. 2000.

2. MUELLER, K. L. et al. The receptors and coding logic for bitter taste. Nature, London, v. 434, no. 10, p. 225- 229, Mar. 2005. 3. NELSON, G. et al. An amino-acid taste receptor. Nature, London,

v. 416, no. 14, p. 199-202, Mar. 2002.

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