OS PRONOMES: UMA CLASSE DE PALAVRAS LÉXICO- GRAMATICAIS EM RETROSPECTIVA

Texto

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OS PRONOMES: UMA CLASSE DE PALAVRAS

LÉXICO-GRAMATICAIS EM RETROSPECTIVA

MESTRADO - LÍNGUA PORTUGUESA

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OS PRONOMES: UMA CLASSE DE PALAVRAS

LÉXICO-GRAMATICAIS EM RETROSPECTIVA

Dissertação apresentada ao Programa de

Estudos Pós-Graduados em Língua

Portuguesa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em Língua Portuguesa, sob a orientação da Profª. Drª. Jeni Silva Turazza.

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À Professora Jeni Silva Turazza que com paciência e dedicação ensinou-me a ver o mundo com outros olhos, olhos de pesquisador, de ser humano, e que me fez ressignifazer-me por meio deste trabalho e com o seu exemplo de garra, força e competência.

À Secretaria da Educação do Estado de São Paulo que possibilitou que esta pesquisa fosse realizada com a concessão da Bolsa Mestrado.

Aos alunos, professores e funcionários da FATEC – Carapicuíba que acompanharam e puderam compreender com paciência e respeito os meus momentos de desilusão, tristeza e ansiedade. Obrigado pela compreensão e amizade.

A Valéria Quiroga pela amizade e revisão do trabalho.

Aos amigos, que acompanharam o “processo” e que, mesmo de longe, deram os mais sinceros votos de confiança e força. Obrigado pela força em especial a Paulo Henrique de Oliveira, fiel e verdadeiro amigo de infância e da vida adulta, ao casal Elton e Elaine Neri, com quem dividia as minhas descobertas e angústias de pesquisa, a Gesse Inácio, companheiro, amigo sincero a quem agradeço a paciência e o apoio nos momentos difíceis e à minha querida irmã Tina, que sempre acreditou e apostou nos meus sonhos.

À Albaniza Martins e Gisele Motta, amigas e confidentes, obrigado pela paciência e por não desistirem da nossa amizade, mesmo com a “exclusão social” com que me deparei durante o mestrado.

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A Dissertação está situada na Linha de Pesquisa História e Descrição da Língua Portuguesa/Programa de Estudos Pós-Graduados em Língua Portuguesa-PUCSP e focaliza, por uma perspectiva historiográfica, a classe dos pronomes como objeto da investigação, orientada pelo pressuposto segundo o qual a relação entre estrutura e função lingüística é indissociável: havendo variação de estrutura, haverá variação de função. Tomou-se por ponto de partida a história da lingüística, cujos fundamentos se fizeram suporte para a construção da gramática greco-latina, estendendo-os até a atual contemporaneidade, pois o objetivo geral estava voltado para a compreensão de exposições ou descrições que facultassem compreender o pronome como classe léxico-gramatical, ou seja, quanto sua estruturação e funcionamento. Para mensurar esse objetivo geral, estabeleceram-se três objetivos específicos perspectivizando os pronomes, em diferentes fases de construção da Gramática Tradicional Contemporânea, que se fez Normativa em razão da criação de um modelo de política lingüística, instituída pelo Estado grego. O primeiro objetivo se voltou para o tratamento dado aos pronomes pela Gramática da Palavra; o segundo pela Gramática da Frase e o terceiro pela Gramática Descritiva ou Científica. Os resultados apresentados no Capítulo I orientaram o desenvolvimento dos Capítulos II e III: a não dissociação entre as unidades do léxico e suas relações, de caráter morfossintático-semântico, ser a matriz por meio da quais os pronomes devem ser descritos, pois as línguas assim se qualificam. Assim, os pronomes são palavras vazias, elementos gramaticais, cujos conteúdos advêm da relação anafórica que eles estabelecem com o nome que substituem. Essa relação substitutiva precisa ser focalizada por aquela estabelecida entre o nome e o verbo; pois é dela que emerge o conteúdo das formas pronominais como amálgama que, ao substituir o nome na sua relação com o verbo, enlaça o conteúdo de ambos – proposição concebida por Apolônio Díscolo – para quem o pronome era uma paranonímia - sinonímia e uma semiose. Comprova-se que esse pressuposto-retomado na contemporaneidade pela Análise do Discurso, cujos fundamentos estão circunscritos à teoria da enunciação -perderam-se nas descrições gramaticais, embora a Gramática Normativa tenha sido continuamente recontextualizada. Por esse movimento ela se mantém tradicional na inovação dos avanços científicos no campo da linguagem. Decorrência desse processo de reinterpretação do passado pelo presente, ela estende a descrição centrada na palavra para a frase, tendo por ancoragem investigações dos filósofos medievais e a sistematização taxionômica dos pronomes substantivos e dos adjetivos. Contudo, os únicos gramáticos que focalizam os pronomes pela suas funções dêiticas e anafóricas são Evanildo Bechara - Gramática Normativa - e Lucién Tesniére - Gramática Dependencial ou Funcional, possibilitando assegurar serem eles as matrizes dos processos de coesão textual: a voz de Apolônio nos tempos modernos, o diálogo que faculta reconhecer o velho no novo.

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The Dissertation is within the History Research Line and Description of the Portuguese Language/Post-Graduation Studies Program in Portuguese Language-PUCSP and focuses, by means of a historiography perspective, on the class of pronouns as object of the investigation, guided by the presupposition according to which the relationship between structure and linguistic function is inseparable: if there is a variation in the structure, then there is a variation in the function. The history of linguistics was the beginning point, whose grounds were the support for the building of the Greek and Latin grammar, extending them up to the current times, as the general purpose was aimed at the understanding of exposures or descriptions that enabled the understanding of the pronoun as a lexical and grammatical class, that is, in regards to its structure and functioning. In order to measure this general purpose, three specific objectives were established in view of the pronouns, in different stages of the building of the Traditional Contemporaneous Grammar, which became Normative in view of the creation of a model of linguistic policy, instituted by the Greek Estate. The first purpose focused on the treatment given to the pronouns by the Grammar of the Word; the second, by the Grammar of the Sentence, and the third, by the Descriptive or Scientific Grammar. The results presented in Chapter I guided the development of Chapters II and III: the non-dissociation between the units of the lexicon and its relationships, of morphosyntatic-semantic character, is the matrix by means of which the pronouns should be described, as the languages are classified in that manner. In this way, the pronouns are empty words, grammatical elements, whose contents come from the anaphoric relationship that they establish with the name they replace. This substitutive relationship needs to be seen by that one established between the name and the verb; as the content of the pronominal forms emerges from that relationship as an amalgam, which, by replacing the name in its relationship with the verb, binds the content of both of them - proposition conceived by Apolônio Díscolo – for whom the pronoun was a paranonímia – synonymy and a semiosis. It is evidenced that this presupposition – contemporaneously retaken by the Speech Analysis, whose grounds are circumscribed to the theory of the enunciation – got lost in the grammatical descriptions, although the Normative Grammar has been continuously re-contextualized. By means of this movement it continues being traditional in the innovation of the scientific advancements in the language field. Resulting from this process of reinterpretation of the past by the present, it extends the description centered in the word to the sentence, grounded on investigations of medieval philosophers and the taxonomic systematization of the substantive pronouns and the adjectives. However, the only grammars who focus on the pronouns because of their deictic and anaphoric functions are Evanildo Bechara – Normative Grammar – and Lucién Tesniére – Dependency Grammar or Functional, enabling the assurance that these are the matrixes of the textual cohesion process: the voice of Apolônio in the modern times, the dialogue that allows the recognition of whatis old in what is new.

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INTRODUCÃO ... 11

CAPÍTULO I OS PRONOMES PESSOAIS PELAS MATRIZES DA HISTÓRIA DA GRAMÁTICA TRADICIONAL CONTEMPORÂNEA 1.1 Preliminares ... 18

1.2 A Gramática da Palavra e da Frase no mundo greco-latino... 22

1.2.1 O Lógus e a Lexis: uma distinção necessária ... 23

1.2.2 A Gramática e a Prescrição da Norma Padrão: distinção necessária ... 24

1.2.3 Os pronomes pelos gramáticos gregos ... 29

1.2.3.1 Os pronomes segundo Apolônio... 33

1.2.4 Os pronomes pelos Gramáticos latinos ... 35

1.3 Matrizes para a construção de Gramáticas Nacionais ... 40

1.3.1 A gramática no Renascimento: matrizes da gramática da Língua Portuguesa ... 44

1.3.2 Os pronomes pela gramática da Língua Portuguesa ... 45

1.4 Algumas considerações finais ... 50

CAPÍTULO II OS PRONOMES PESSOAIS PELA GRAMÁTICA DA FRASE DA LÍNGUA PORTUGUESA 2.1 Preliminares ... 51

2.2 Os pronomes pela Gramática de Jerônimo Soares Barbosa ... 53

2.3 Os estudos gramaticais nos séculos XIX e XX ... 60

2.3.1 Algumas concepções gramaticais do século XIX: os pronomes pela gramática de Júlio Ribeiro ... 62

2.4 As Gramáticas e os Parâmetros da Nomenclatura Gramatical (NGB) .... 66

2.4.1 Os pronomes por Carlos Eduardo Pereira – parâmetros Pré NGB 68 2.4.2 Os pronomes por Evanildo Bechara – parâmetros Pós - NGB .... 75

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CONTEMPORÂNEA.

3.1 Preliminares ... 82

3.2 O contexto de produção dos estudos estruturalistas ... 84

3.3 O estruturalismo e suas vertentes ... 89

3.3.1 A vertente Européia do Estruturalismo ... 89

3.3.2 A vertente Estadunidense do Estruturalismo ... 91

3.4 Os pronomes no contexto da Gramática GerativaTransformacional ... 95

3.4.1 A Gramática Dependencial ou Funcional ... 114

3.4.1.1 Os pronomes pela perspectiva da Gramática Dependencial ... 127

3.4.2 Os pronomes e as palavras plenas ... 130

3.5 As relações Anafóricas e as relações Dêiticas ... 142

3.6 Algumas considerações finais ... 146

CONCLUSÃO ... 148

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surgem homens decididos a falar, ler e escrever por elas e não para elas”

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INTRODUÇÃO

Esta Dissertação está vinculada à linha de Pesquisa História e Descrição da Língua Portuguesa, cujo propósito é descrever o idioma brasileiro numa dupla perspectiva: quanto à sua estrutura e/ou quanto ao seu funcionamento, estejam ambas configuradas ou não por uma perspectiva historiográfica ou histórica.

Assume-se, no espaço ocupado por esta investigação, uma perspectiva historiográfica, na medida em que ela poderá facultar ao pesquisador dirigir o olhar para o já visto/ já dito e ver novamente para apreender o que se julga novo. Essa apreensão decorre do que se percebe e se apreende como ruptura naquilo que se repete. Por conseguinte, compreende-se a historiografia como locus de intervenção que se expressa nas práticas discursivas dos historiadores, cuja finalidade é a reinterpretação da história para além dos limites das ações de caráter institucional: aquelas que regem a vida pública e cobram movimentos de ressemantização, inerentes aos processos de reinterpretação. (FREITAS, 2005).

O objeto que se busca reinterpretar, tema desta Dissertação, são os chamados pronomes pessoais que, concebidos por Aristóteles como uma das partes do discurso, são descritos por nossos gramáticos como uma classe de palavras variáveis, ao lado dos nomes e dos verbos. Definidos como palavras que substituem os nomes, esses pronomes mantêm apenas parcialmente, em relação ao nome, certo grau de equivalência. No que se refere às pessoas do discurso tem-se: eu, tu, (você) nós, vós, (vocês). Observa-se, contudo, no que se refere à flexão de número gramatical, o fato de o morfe –s (marca de plural, em português), inscrever o valor de pluralidade apenas em: ele eles; ela elas; você vocês. No caso da primeira pessoa e da segunda pessoa, o processo de flexão de número se faz por meio de vocábulos distintos, em: eu nós e tu vós, enquanto a de gênero fica obliterada porque destituída do sinal de flexão mórfica, exceção feita a ele ela. Assim, marca-se o gênero como masculino apenas na dimensão do sintagma pelo uso de determinantes: “o eu”, “o tu”, “o nós”, “o vós”, “o ele”, “o ela”; contudo, esse uso altera a classe gramatical de pronome para substantivo.

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Pressupõe-se que, se descritos fora do uso, ou seja, numa perspectiva estrutural, os pronomes sejam palavras vazias; contudo, se essas mesmas estruturas forem focalizadas na dimensão do uso que delas se faz, elas são transmudadas em palavras plenas, ou seja, formas dotadas de conteúdos nocionais. Desta forma, é preciso considerá-los por todas essas perspectivas, sem excluir as suas funções e valores na dimensão discursiva, ainda que essa última perspectiva não seja objeto dessa investigação. Tem-se, para tanto, como ponto de partida, o pressuposto segundo o qual não há estrutura desprovida de função, ou vice-versa, de sorte a não se poderem estabelecer rupturas entre essas duas dimensões da língua, e mais, as estruturas pronominais precisam ser focalizadas como léxico-gramaticais para dessa forma garantir maior domínio em seu uso efetivo.

Entende-se que as estruturas sempre cumprem funções no espaço ocupado por interações humanas, em contextos sociais diversos. Por conseguinte, mudanças de modelos situacionais nesses contextos, ou dos próprios contextos sociais, fazem com que as estruturas deixem de exercer certas funções, perdendo o caráter funcional que as qualificavam até então. Esse fato exige a recontextualização de tais estruturas e esse processo implicará a criação de outras novas funções, sempre adequadas a esses novos contextos; assim, a adequação de estruturas a novas funções sempre terá por ancoragem a reinterpretação de velhas estruturas. Para Burke (1997) esse processo também pode ser designado por recontextualização. A recontextualização implica movimentos que, se por um lado, desgastam a tradição, por outro, mantêm-na viva, de sorte a se poder assegurar que velhas estruturas continuem a atender necessidades de diferentes grupos sociais humanos, integrantes de uma dada comunidade. Logo, “(...) as tradições são constantemente transformadas, reinterpretadas, ou reconstruídas – seja essa reconstrução consciente ou não – para se adaptarem a seus novos ambientes espaciais ou temporais”.(BURKE,1997. p. 13).

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em funcionamento. O fato de as gramáticas de uma dada língua terem a frase como o objeto mais complexo de descrição lingüística, acrescida da descrição por níveis, faz com que os pronomes não sejam focalizados quanto as suas funções anafóricas e dêiticas.

Reitera-se, portanto, que não se devem promover rupturas entre estrutura e função, para não correr o risco de se chegar a um estruturalismo a-histórico e formalista e, por isso, imune a mudanças históricas, ou a um funcionalismo que não coloca o problema das transformações. Desta feita, torna-se necessário compreender essa relação entre estrutura e função por uma perspectiva historiográfica inscrita em diferentes registros da formação da Gramática Tradicional Contemporânea e em teorias lingüísticas contemporâneas.

A compreensão desses registros poderá assegurar tratamento adequado à classe dos pronomes pessoais: objetivo geral desta Dissertação. Tal compreensão está consubstanciada nos seguintes objetivos específicos:

1. focalizar a classe dos pronomes, por meio de parâmetros capazes de facultarem a compreensão do contexto de formação da história da lingüística ocidental, tendo por marco inicial o tratamento a eles dispensado pelos gramáticos greco-latinos e estendendo-os até a formação das gramáticas da palavra da língua portuguesa;

2. manter o olhar historiográfico da história da lingüística para situar o tratamento dado aos pronomes, no fluxo de formação da gramática da frase da língua portuguesa, estendendo-o até a atual contemporaneidade;

3. focalizar os pronomes pelo ponto de vista da gramática científica ou estrutural, para verificar em que medida elas os descrevem como estrutura lingüística que se explicita por meio das funções que qualificam os pronomes como elementos que substituem o nome.

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a) leitura de obras que tratam da história da lingüística clássica para compreender os diferentes focos que, em diferentes tempos, facultaram aos estudiosos da linguagem construir e reconstruir gramáticas para descrever a estrutura e o funcionamento de palavras, atribuindo relevo àquelas designadas por pronomes. Tal procedimento deverá garantir a observação de diferentes tratamentos – definições, descrições, classificações – a que foi submetida essa classe de palavras, bem como a permanência dela nas gramáticas normativas contemporâneas que orientam o ensino da língua portuguesa ainda hoje. Tal leitura será circunscrita em dois tempos: o primeiro até o momento em que a gramática da língua portuguesa é formalizada pela perspectiva da gramática da palavra e o segundo, pela perspectiva da gramática da língua portuguesa na dimensão da frase.

b) leitura compreensiva de modelos teóricos da designada lingüística da língua ou estrutural para focalizar e compreender o tratamento dispensado aos pronomes pessoais pelo discurso científico moderno da primeira metade do século XX, aproximadamente. Nesse caso, buscar-se-á selecionar dentre os vários modelos desse paradigma aquele que representa avanços para o tratamento do objeto proposto como tema de estudo desta investigação; por conseguinte, tal abordagem será teórico-analítica, a fim de promover uma descrição lingüística sob o enfoque pronominal.

Por conseguinte, a Dissertação adquiriu a seguinte configuração formal, além da Introdução e Conclusão:

Capítulo I - Os pronomes pessoais pelas matrizes da história da gramática tradicional contemporânea – proceder-se-á a uma revisão dos estudos gramaticais tendo como marco aqueles advindos da Grécia Antiga até a formação das gramáticas da Língua Portuguesa, na dimensão da palavra, focalizando o tratamento dispensado aos pronomes.

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Capítulo III - Os pronomes pessoais pelo ponto de vista da Lingüística Contemporânea – focalizará o tratamento dispensado aos pronomes pelas matrizes fundadoras de gramáticas científicas, ou do sistema, por meio dos estudos lingüísticos da primeira metade do século XX, circunscritos aos estudos de Chomsky e Tesnière, buscando compreender em que medida eles facultam dispensar aos pronomes uma abordagem estrutural articulada aquela de caráter funcional, na dimensão frasal e transfrasal.

Tal organização explica-se por um procedimento teórico-analítico que, no corpo desta Dissertação, deverá propiciar o desenvolvimento do tema em questão, salientando-se o caráter historiográfico e exploratório por meio do qual este estudo se qualifica.

Faz-se necessário ressaltar que a pesquisa se justifica, ainda, em razão de o pesquisador exercer o papel de professor de língua materna, em escolas do Ensino Fundamental e Médio e, por essa razão, precisar ampliar conhecimentos sobre questões de ordem estrutural e funcional da língua portuguesa. Tal ampliação deverá implicar maior domínio do objeto que busca ensinar aos seus aprendizes, na medida em que sente necessidade de renovar sua prática de docência, por meio da releitura do passado acerca dos estudos gramaticais, para assim, compreender aqueles de que se faz uso na contemporaneidade. Tal resgate visa compreender que qualquer língua não reduz a sua descrição a questões de ordem gramatical, pois o léxico também é uma de suas dimensões e precisa ser considerado – aspecto este já elucidado nos primeiros estudos e que hoje foram ou estão sendo ignorados.

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Nessa acepção, é preciso compreender os pronomes pelo ponto de vista léxico-gramatical, o que justifica a revisão historiográfica proposta, visto que para os gregos a palavra era o ponto de partida, mas não o ponto de chegada dos estudos lingüísticos. Entretanto, os elementos léxico-gramaticais eram focalizados como meios, recursos por meio dos quais o homem representa, em língua, seus conhecimentos de mundo, designando-os, para poder comunicá-los a outrem. Logo, segundo essa perspectiva: representação, expressão e comunicação são funções fundadoras que qualificam a invenção e uso de uma dada língua. Exercer o uso proficiente de uma dada língua é condição necessária para desenvolver a competência de linguagem e participar de práticas discursivas que circulam numa dada formação sócio-cultural humana e, assim procedendo, exercer o papel de cidadão no espaço ocupado por uma nação. Dominar conhecimentos que facultem o uso proficiente das estruturas léxico-gramaticais, como recursos imprescindíveis para investir lingüisticamente os textos que se produz, é ser portador de “carta de cidadania”.

Esse processo de formalização lingüística exige amplo domínio de recursos léxico-gramaticais: aqueles que integram o repertório cultural de um povo ou nação. Investir lingüisticamente um texto-processo para transmudá-lo em texto-produto, implica seleção e combinação adequadas de recursos léxico-gramaticais para a elaboração do plano da expressão: fundamento da comunicação proficiente. Assim, as práticas comunicativas explicam-se, de modo geral, como um conjunto de normas e estratégias de interação social orientadas pela negociação de bens culturais, explicitados como significados em situações concretas de uso. É na dimensão do uso que são indexados a tais significados sentidos de modelos de contextos situacionais: aqueles que apontam para um dado lugar do espaço cognitivo, onde devem ser processados como novas/outras informações.

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não lingüísticos pelos lingüísticos. Também não se busca propor a eliminação de vários recursos explicativos que garantem a descrição do sistema lingüístico do português, pois o que se busca são conhecimentos capazes de facultar ao professor de língua materna a revisão de sua prática de docência fundada na reflexão crítica do objeto que busca ensinar. Logo, a pesquisa não visa a contrapor, por exemplo, uma psicopedagogia aplicada à pedagogia tradicional – aquela da transmissão ou de inculcação. Também não se objetiva propor um caminho fundado na lingüística aplicada, pois se entende não ser possível aplicar modelos lingüísticos em sala de aula, sem que eles sejam transpostos adequadamente para modelos de situação de ensino-aprendizagem. Sabe-se que o modelo de contexto de produção do discurso científico não tem uma relação de equivalência unívoca com o contexto de produção do discurso pedagógico, de modo que esse deslocamento exige recontextualizações. Por conseguinte, o professor se lança no mundo da pesquisa para descobrir conhecimentos que lhe facultem rever criticamente sua prática de docência.

Entende-se, como Bronckart (1985), ser necessário propor uma nova didática para o ensino de línguas. Tal didática implica voltar a fazer uso do pedagógico em primeiro plano e, para tanto, deve-se tomar o discurso científico como ponto de partida. Desconhecer esse discurso e suas matrizes culturais, suas origens é acumular novos modelos teóricos desvinculados da tradição com o passado, o que leva a propostas de novos programas, métodos e procedimentos “novidadeiros” de ensino, desvinculados da realidade vivenciada no tempo presente, cujo sustentáculo é o passado.

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CAPÍTULO I

OS PRONOMES PESSOAIS PELAS MATRIZES DA HISTÓRIA DA

GRAMÁTICA TRADICIONAL CONTEMPORÂNEA.

1.1 Preliminares

A compreensão das questões lingüísticas não só foi como ainda é uma preocupação constante para os estudiosos dessa área, visto ser a linguagem o marco capaz de responder pela transmudação do animal homem em ser humano, conforme afirma Gusdorf (1977). Vasta e variada é, portanto, a bibliografia com que se depara o pesquisador que elege a linguagem como objeto de suas investigações. Descobre que a complexidade das questões lingüísticas se inscreve nos registros de inúmeras teorias e escolas, cujos propósitos são descrever e/ou explicitar os modelos de estruturação e funcionamento da linguagem, por meio dos estudos de língua. É nessa acepção que, parafraseando Ferdinand Saussure, pode-se considerar que o objeto de estudo da lingüística é uma construção de um ou vários pontos de vista, por meio dos quais a língua é apreendida pelos teóricos da linguagem. Tal construção depende, por sua vez, da posição assumida pelos pesquisadores, o que lhes faculta elaborar perspectivas para seus olhares e, assim sendo, toda mudança de posição acarretará, necessariamente, mudança de olhar e/ou de foco: razão de ser dessa variedade teórica e metodológica.

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1ª) aquela que se ocupa da relação entre linguagem e pensamento, voltada para a compreensão dos processos que facultam aos homens representar, em língua, conhecimentos de mundo, por meio de textos coesos e coerentes. Essa vertente tem como ponto de partida a relação não unívoca entre as palavras e as “coisas no mundo” e está fundamentada nos princípios da analogia e da anomalia. Esses estudos foram recontextualizados pela lexicologia, razão porque não se pode ignorar a função das palavras de uma língua, quando se tem o propósito de investigar os processos de representação de tais conhecimentos;

2ª) aquela que se ocupa em descrever uma dada língua, focalizando-a pelos aspectos formais e funcionais, concebendo-a como a chave necessária para a compreensão de textos, cujos registros escritos rompem os limites do presente. As estruturas e regras de construção lingüística, obtidas por esse procedimento descritivo, posteriormente, são propostas como modelos para o bem falar e escrever, de sorte que esses textos antigos passam a funcionar como parâmetro capaz de orientar a produção escrita de um dado tempo presente, de uma dada contemporaneidade. Por essa razão os fragmentos de autores consagrados pelo passado povoam o exemplário dos resultados desses estudos até os dias atuais. Ressalta-se que o produto desses estudos emerge da vertente da lógica filosófica e são disciplinados pela gramática, compreendida como meio, recurso para se aprender e se dominar a língua, na sua modalidade escrita ou oral;

3ª) aquela que se ocupa do uso adequado da língua, empregada em situação discursiva e voltada para a arte da persuasão, implicando o bem falar, em público, mas sempre configurado pela arte do bem escrever. Essa perspectiva qualifica a proposta da retórica, cujo objetivo primeiro está centrado no ensino-aprendizagem de usos adequados da língua, na esfera da vida pública.

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configurados pelas formas léxico-gramaticais da língua, quando do exercício das atividades da fala - possibilitam dar ao pensamento humano tangibilidade necessária, com vistas a comunicá-los a outrem. Logo, representar, formalizar e comunicar para persuadir foram os eixos fundadores dos estudos lingüísticos, desenvolvidos pelos gregos.

Neste primeiro capítulo, o foco historiográfico tem a função de colocar os estudos lingüísticos, desenvolvidos no presente e que tratam dos pronomes pessoais, em uma perspectiva capaz de atribuir relevo às suas tradições. Estas tradições têm como ponto de referência a Grécia Antiga e como matriz de suas fundações o uso da língua escrita, cujo registro histórico é atestado pela palavra

grammatikós. Esse vocábulo fazia remissão ao uso das letras, então designadas por grámmata: sinais que podiam ou permitiam ler e escrever, aprendidos por meio do domínio de técnicas, chamadas Tecné gramatiké. (NEVES, 1987). Por conseguinte, os conhecimentos referentes ao domínio do campo das investigações gramaticais são concebidos, desde a sua origem, como meios que facultam a aprendizagem da escrita.

Essa aprendizagem de caráter técnico facultava ao homem tornar-se um artesão da letra: praticar um ofício manual capaz de lhe assegurar o exercício da arte da escrita e da leitura dessa mesma escrita. Assim, escrever e ler eram atividades concebidas como profissão de caráter artesanal; mas dissociadas entre si; segundo Ferreiro (2000 p.12, 13): “Houve uma época, vários séculos atrás, em que escrever e ler eram atividades profissionais e aqueles a elas destinados aprendiam- nas como ofício”.

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explicar a concepção de gramática. Essa abrangência fazia com que o termo filosofia encobrisse toda e qualquer reflexão crítica de que resultasse a produção de conteúdos, em quaisquer áreas do saber humano, sendo o filósofo “o amigo do saber”. Esse saber era conquistado pelo desenvolvimento da linguagem e implicava o conhecimento e domínio da língua grega, sem o que não se teria acesso a tais saberes. É nesse sentido que, para Quintiliano (apud. PEREIRA, 2000) nenhum estudo gramatical pode ser considerado adequado, se dissociado

(...) da Música, pois o gramático deve tratar dos metros e das rimas, e, se ignorar a Astronomia, não compreenderá os poetas, os quais – deixando de lado outras coisas – servem-se tantas vezes do nascimento e do ocaso dos astros para veicular a idéia de tempo. Não pode a Gramática, igualmente, ignorar a Filosofia, tendo em vista que numerosas passagens de muitos poemas se baseiam na mais profunda sutileza da Filosofia(...). Que ninguém, pois desdenhe os princípios da Gramática como de pouco valor (...), ela revelará muitas sutilezas, que poderão aguçar a inteligência das crianças, como também propiciar um saber de grande profundidade. (...) Por isso são menos toleráveis os que zombam da Gramática, considerando-a árida e de pouca importância. (PEREIRA, 2000. p.87-89).

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As classes de palavras designadas pela Gramática Tradicional Contemporânea da Língua Portuguesa (G.T.C), nesse contexto, se fazem herdeiras das categorias greco-latinas e, assim sendo, ponto de partida para resgatar as matrizes que orientam os estudos referentes à classe dos pronomes no fluxo do tempo da construção desses estudos gramaticais.

1.2 A Gramática da Palavra e da Frase no mundo greco-latino.

Apontam os historiadores que, em sentido genérico, a conquista do saber lingüístico na civilização grega é indissociável da criação do alfabeto e dos processos de elocução. Assim, os gregos, no chamado período “micênico” – aquele em que a Grécia helênica fora invadida por povos falantes de diferentes idiomas ou dialetos do sistema lingüístico do grego – já faziam uso do sistema silábico da escrita, que incluía alguns logogramas: sinais que representavam palavras individuais. Contudo, muitos dos conhecimentos desse período se perderam pelo uso de registros nesse sistema, ainda bastante insuficiente e, por essa razão, os gregos fizeram uso da escrita Fenícia: um conjunto de sinais consonantais que obrigava o leitor a fazer inserção de vogais, para poder atribuir sentido a essa modalidade de registro escrito, quando buscavam compreender o que esses sinais significavam, por meio da leitura. (NEVES, 1987).

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1.2.1 O Lógus e a Lexis: uma distinção necessária

Advertem os estudiosos dessa Civilização da Escrita, ser preciso, ainda considerar a relação entre o que os gregos denominavam por logus e por lexis, para se conceber o que significava para eles a arte do bem dizer, quer pela oralidade ou pela escrita. A lexis remete-se ao conceito de função da palavra, ou seja, da eficiência quanto ao uso efetivo da linguagem, de sorte que a palavra se consubstancia, ganha existência pelo exercício efetivo das atividades da fala, seja ela oral ou escrita. Assim, a instância em que se pode observar a ação da linguagem, formalizada em língua, é aquela em que as palavras se inscrevem no exercício da fala. A lexis se diferencia do logus como ato que faculta colocar as idéias em ordem,quando do exercício da fala: atividade que possibilita fazer com que

as coisas sejam no mundo, por meio do uso da palavra. O logus se torna um objeto à parte, quando focalizado através dos recursos lingüísticos, capazes de facultar a elocução, podendo ser observado como “regras de uso das palavras que, circunscritas à “arte do bem falar e do bem dizer”, faz da língua tão somente um meio para o exercício da fala. (NEVES, 1987). Nessa acepção, essas são duas dimensões da linguagem indissociáveis, a não ser por questões de caráter teórico-metodológico.

No sentido acima, ao contrário dos estudos lingüísticos contemporâneos, não se dissociava o léxico da gramática, pois o primeiro se ocupava da designação das idéias; o segundo dos processos de sua ordenação no fluxo do exercício da fala e esses processos de ordenação são observados e descritos, como regras de uso das palavras, ou de uma dada língua. Assim, a gramática trata das regras que, facultam o uso, a ordenação das palavras; circunscritos à estrutura da frase. São essas regras que devem garantir a arte do bem escrever e do bem ler, circunscritas ao uso efetivo da língua pelos sábios da época: homens capazes de fazer uso da razão crítica, de se indagarem sobre as razões primeiras, e não sobre as conseqüências dos problemas humanos e oferecerem respostas adequadas para as mesmas.

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mesmas palavras ordenadas pelas categorias da frase, em que elas funcionam para estruturar ou ordenar idéias. Logo, o léxico e a gramática não eram focalizadas como elementos ou objetos distintos, mas complementares. Todavia, o léxico já se fazia compreender como instância que também faz remissão aos sentidos e, por essa razão, a descrição dos mesmos exigia a construção de glossários e/ou dicionários, pois no espaço da gramática, a descrição de seus elementos constitutivos era focalizada como estrutura (morfologia) e função (sintaxe). Nessa acepção, a lexis reduzida à gramática era instância do logus; mas o logus estendido à instância do dicionário ou glossário se fazia lugar dos modos de significar da

lexis. Os modos de significar, quando institucionalizados, responderiam pelos significados: sentidos cristalizados ou instituídos pelo uso, registrados nas páginas dos dicionários e glossários para funcionarem como matrizes de outros/novos sentidos. Assim, os sentidos são decorrentes de novos usos de velhos significados. (TURAZZA, 2005).

1.2.2 A Gramática e a Prescrição da Norma Padrão: distinção necessária

Coseriu (1980) e outros estudiosos da História da Lingüística fazem referência ao fato de não se poder confundir descrição lingüística com prescrição lingüística. Assim, os estudos gramaticais são, em sua origem, fundados em especulações filosóficas: conjunto teórico cujo propósito não estava voltado para a descrição da língua grega, mas para a compreensão do modo como ela estruturava os conhecimentos e como tais conhecimentos, assim estruturados, funcionavam de sorte a facultar o acesso à sabedoria, por meio da comunicação. O produto desses estudos, uma conquista a várias mãos e uma construção secular, favoreceu a construção da gramática grega, bem como de glossários e dicionários: obras em que estão depositados procedimentos descritivos dos conteúdos das formas vocabulares dessa mesma língua.

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Assim, quando se fala em gramática prescritiva, o que se coloca em questão não são os fundamentos teóricos que asseguraram a descrição dos fatos lingüísticos, tampouco os critérios selecionados para tanto, mas sim a oficialização de uma política de ensino e, conseqüentemente, de uma variedade de uso para controlar as inevitáveis mudanças lingüísticas. Para os estudiosos de políticas lingüísticas, o objetivo da prescrição é assegurar o controle da variação lingüística, pois a unidade que assegurava/assegura o exercício do poder de um Estado Político Nacional é a unidade lingüística do povo.

Neves (1987) e Robins (1983) consideram que a língua grega, no período clássico, apresentava-se bastante heterogênea, se comparada a outros períodos históricos, em razão da existência de um número bastante elevado de dialetos falados no território sob o domínio daquele Estado. Contudo, tratava-se de dialetos de uma só língua e, apesar das guerras entre cidades-estado do mundo helênico, essa língua ainda era capaz de unir os gregos em uma única nação tornando-os um só povo. O seu ensino formal contribuiria, sobremaneira, para assegurar esse modelo de situação política; todavia, tal modelo de ensino não tinha por marco a aprendizagem da gramática pela gramática, conforme apontado por Quintiliano.

Observam que, embora esses dialetos não tivessem representação gráfica bastante lapidada, as inscrições ainda hoje existentes atestam o registro de uma variedade dos mesmos. Mas aquele registro de que se valera Homero, para construir os textos da Ilíada e da Odisséia, atestava que tal modalidade de uso não mantinha identidade com outros falares de que se faziam uso naquele tempo do Estado Grego.

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Esses conhecimentos passam a ser mais bem sistematizados, no final desse mesmo século por filósofos da Jônia, dentre outros, que exploravam não só as questões de linguagem, mas também aquelas referentes aos campos da astronomia, física, matemática, ética... Contudo, o produto dessas reflexões -incluindo aquelas desenvolvidas pelos primeiros retóricos que antecederam a Sócrates e até os elaborados pelo próprio Sócrates - é bastante fragmentado e nos foi legado de modo indireto. Assim, os conhecimentos sobre a linguagem – aos quais se têm acesso direto e que serviram como parâmetro para a construção da primeira gramática da língua grega – têm por marco os escritos de Platão e de Aristóteles. O primeiro diferencia o nome do verbo; o segundo, as partes do discurso.

Afirma Robins (1983) que Platão ou mesmo qualquer outro filósofo dessa época jamais reuniu e sistematizou suas observações lingüísticas e, embora se afirme ter tido ele o papel de fundador das primeiras reflexões de caráter lingüístico, elas estão esparsas na totalidade de suas obras. O mesmo ocorre com Aristóteles, com Plotino e outros estudiosos da época. Os estudos lingüísticos só passaram a ser registrados de forma mais ordenada com os filósofos estóicos que retomam os estudos de Aristóteles, cerca de 300 a. C: origem da chamada escola dos estóicos, fundada por Zenão. Tal escola responderá pela:

a) formalização da concepção de forma e conteúdo, da qual emerge a de significante e significado, na lingüística contemporânea;

b) tratamento de modo separado da fonética, da gramática, e da etimologia;

c) introdução das marcas de acento ou sinais diacríticos na escrita grega, para indicar a pronúncia correta das palavras e os sinais de pontuação;

d) sistematização de questões sobre a transitividade;

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Esses estudos estóicos, desenvolvidos no período helênico, antecedem àqueles dos alexandrinos e têm como parâmetro o contexto da língua grega e dos povos falantes de outras línguas.

Segundo Neves (1987), trata-se de um tempo em que se deu a implantação de uma política lingüística, com vistas a se prescrever o ensino e a aprendizagem da língua grega, para assegurar a unidade do Estado Político e preservar a cultura daquele povo, pela leitura e divulgação da sua literatura clássica. Outro diferencial bastante significativo dessa época era a divergência entre a língua falada e aquela presente nos registros dos clássicos literários. Desta feita, tomou-se essa modalidade de escrita como marco dos homens cultos da época, contribuindo com a criação de uma língua oficial: aquela que assegura a unidade do Estado. Nessa acepção, o princípio da prescrição é de caráter político e visa à aprendizagem, em larga escala, de uma língua para se sobrepor a outras, em territórios plurilíngües, ou a seleção de um dos usos dessa mesma língua, concebida como de prestígio, por ser tal uso aquele que orienta a produção de textos literários ou documentais.

Desta forma, à chamada escola dos estóicos outra irá se destacar na Grécia Antiga, a de Alexandrina: um território recentemente helenizado e com ela tem início a crítica literária, a verticalidade dos estudos etimológicos e o incentivo à leitura dos clássicos, principalmente aqueles de Homero. Os membros dessa escola ocupavam-se com a produção de comentários sobre a língua grega e conteúdos desocupavam-ses textos clássicos, com vistas à compreensão dos mesmos pelos novos leitores. Os glossários têm a sua produção intensificada ou reformulada, pois muito dos dialetos, diferenciados daqueles da língua grega, apresentavam vocabulário e sintaxe distintos, quando comparados aos textos clássicos. Observa-se, portanto, que o objeto de estudo dos alexandrinos era o texto literário, sendo Aristarco – mestre de Dionísio de Trácia – considerado o fundador dos estudos científicos das obras de Homero e Dionísio de Trácia o produtor da primeira gramática da língua grega. (NEVES, 1987).

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e modificá-las à luz da experiência. Tal procedimento era fonte de vários fatores como comprovam as discussões entre anomalistas e analogistas, ocupados com a observação e análise dos conteúdos das formas ou materiais lingüísticos.

Os analogistas, ao contrário dos anomalistas, afirmavam que a fala e a compreensão do seu funcionamento eram regidas pelo princípio da regularidade ou da analogia; os segundos, pelo princípio da irregularidade ou da anomalia. Embora essa discussão se estendesse por séculos, elas contribuíram com observações sobre os padrões formais da palavra. A essa questão associam-se discussões em relação ao fato de as palavras da língua serem produto de convenção ou de fatos não convencionais, naturais, de sorte que o tempo responderá pela transformação natural do vocabulário. Mas, de forma geral, essas controvérsias focam o princípio da regularidade e o da irregularidade dos fatos lingüísticos que, como se sabe, não são dicotômicas e sim complementares, visto serem as línguas tanto regulares quanto irregulares ou vice-versa. Contudo, esses estudos gramaticais terão como suporte o princípio da regularidade; razão porque eles se consubstanciam por descrições que visam a apontar “as regras” de uso, sejam elas da estrutura do sistema ou de um uso desse mesmo sistema, como é o caso da G.T.C.

Por conseguinte, o princípio da regularidade facultará uma descrição econômica da estrutura das palavras gregas, a criação da concepção de paradigma, que favorecerá o estudo das flexões nominais e verbais, bem como o reconhecimento das irregularidades desses mesmos modelos de paradigmas. É nesse espaço de reflexões que a filosofia assevera ser a linguagem a expressão do pensamento e dos sentimentos humanos; uma capacidade universal de qualquer ser humano, desde que ele não traga consigo distúrbios neuropsíquicos. Assim, os primeiros estudos emergem no campo da fonética, da etimologia e da gramática, mas.

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Posto isso, passa-se a considerar os estudos sobre as classes de palavras, para se poder atribuir relevo àquela referente aos pronomes.

1.2.3 Os pronomes pelos gramáticos gregos

A bibliografia de caráter histórico aponta que a primeira gramática da língua grega – Tecné gramatiké, de Dionísio de Tracia – compreende quinze páginas, vinte e cinco seções e seis partes e nela não há registros de estudos no campo da sintaxe. Trata-se, portanto, de uma gramática centrada no sistema de classes de palavras, cujas análises morfológicas contribuirão para o posterior desenvolvimento da sintaxe. A filologia, embora anunciada como uma dessas partes, também é pouco explorada por Dionísio.

Ressalta-se que a primeira parte dessa gramática está centrada na prosódia: fundamento da leitura em voz alta, designada por “leitura exata”. A segunda parte está voltada para o uso das expressões literárias; a terceira incide sobre a fraseologia e os temas; a quarta focaliza a filologia; a quinta parte trata das analogias e a sexta concebida como parte nobre da gramática, trata da composição do texto literário. Por conseguinte, esses estudos de Dionísio não são organizados pelos mesmos critérios propostos pelas nossas gramáticas contemporâneas, organizadas em três partes: fonologia e ortografia; morfologia e sintaxe.

Definida como conhecimento prático de uso comum aos poetas e prosadores, o tratamento dispensado aos elementos gramaticais (sons, letras e palavras) contempla três domínios ou campos: ta stoicheía = elementos da lingüística: os sons; tà mère lógou, = partes do discurso ou desses ou palavras e ta parepómea = acessórios, ou pronúncia e leitura correta das sílabas longas ou breves das palavras.

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afirmações comprobatórias. Apenas os estudos referidos à quinta parte da gramática dionisiana – analogia – serão futuramente considerados de domínio gramatical e, por eles se chegará à construção da Gramática Tradicional das línguas modernas, no mundo ocidental. O fato de os estudos das letras terem a pronúncia como fundamento fará com que a língua escrita seja o objeto de investigação gramatical, ao longo do tempo. Também é preciso considerar que a concepção de frase, embora não desenvolvida pelos primeiros gramáticos, estava associada ao logus ; a concepção de palavra estava associada à de lexis, de sorte a que ambas fossem propostas como unidades “mínimas” e “máximas” desses estudos. Assim, a frase já se define no tempo de Dionísio, como expressão de um pensamento completo e a palavra como parte do discurso. (NEVES, 1987).

As palavras, concebidas como partes do discurso ou mero logus, são classificados em: a) ónoma ou nome. b) rhêma, ou verbo; c) antenymia ou pronome; d) prótheses ou preposição; e) epírohema ou advérbio; f) syndesmos ou conjunções; g) metoche ou particípio; h) arthon ou artigo. A essa classificação se segue aquela das chamadas palavras primitivas que, concebidas como protótupon, se desdobram em classes derivadas, parágogon, em acessórios, parepómea. Assim, no corpo dessa Gramática, os critérios para se estudar as palavras são:

• Gênero – masculino, feminino e neutro;

Eidos – nome primitivo e nome derivado;

Scmênna – forma simples e composta;

Arithmós – singular, plural e dual;

Ptosis – caso nominativo, acusativo, genitivo e dativo;

A classe dos pronomes é concebida como parte do discurso ou mero logus

que se qualifica por ser uma paronomásia: de parágogon, porque derivada das classes primárias, ou seja, nome e o verbo. Por conseguinte, o pronome seria uma classe de palavras cuja identidade é assegurada, respectivamente, pela relação com o nome e o verbo; mas no que se refere à sua concepção, ele se tipifica como mero

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Mas, essa classe, quando focalizada pelos seus elementos constitutivos, também se qualifica como primitiva: os pronomes pessoais e, como derivada: os pronomes possessivos. Os pronomes primitivos não são antecedidos do uso do artigo; os derivados ou possessivos o são. Esses pronomes derivados são ainda qualificados como bipessoais, na medida em que asseguram relações, cujos sentidos são os valores de “possuidor” e objeto “possuído”, como: filho(s) de João e de Maria; (os) meu(s) pai(s); (a) casa de meus pais(s); a casa deles (de + eles). Os primitivos são classificados como unipessoais, quer quanto ao singular: eu, tu, ele(a) quer quanto ao plural: nós, vós, eles(as) ou quanto ao dual: casa dele(s).

Observa-se, nos exemplos acima, que os pronomes possessivos, à semelhança do pessoal de terceira pessoa, apresentam flexão de número “plural”; o que assegura a comutação de “sua(s) casa(s) por casa(s) dele(s) ou dela(s)”, visto que a terceira pessoa também é flexionada em gênero. Assim, torna-se agramatical os equívocos do tipo: minha(s) casa(s) por “casa(s) de eu” ou “de nosso”, por exemplo. Essas reflexões presentes na gramática de Dionísio apontam que, segundo a classificação proposta, os pessoais de terceira pessoa não seriam apenas primitivos, mas também derivados. Embora, para ele, seja preciso considerar que os pronomes possessivos apenas fazem referência aos pessoais - meu lápis: aquele que pertence à pessoa que fala (Eu); teu lápis: aquele que pertence à pessoa com quem se fala (tu). Já os pronomes de terceira não operam com o princípio da referencialidade, conforme apontado, e sim com o da reiteração ou repetição – aquele lápis = aquele sobre o qual eu falo e que não é o meu e tampouco teu.

Outro aspecto relevante, quanto a essa classificação, é o fato de os pronomes interrogativos, indefinidos, e relativos merecerem classificação à parte, ou seja: os interrogativos “que” e “qual” estão inclusos na classe dos nomes; já “onde” e “quando”, na dos advérbios. Os relativos estão inseridos na classe dos artigos e diferenciam-se desses últimos, classificados como protaktikón = o que se coloca antes do nome – O filho de Maria que é minha vizinha: o artigo “o” é colocado antes do nome “filho”; já o pronome relativo “que” é colocado depois do nome =

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os demonstrativos não se encaixam em quaisquer das classes propostas por esse gramático. Para Neves (1987) esses pronomes, em não sendo primitivos, também são derivados, pois não são bipessoais, ou seja, não se referem ao “eu” e tampouco ao “tu”, se se compreender serem essas as pessoas que possibilitam qualificar o pronome como elemento de interlocução. Também não se incluem entre os bipessoais da terceira pessoa: “ele”, “ela”, se compreendermos a bipessoalidade pela categoria de gênero:

O reconhecimento de que os pronomes indicam pessoas poderia pensar fazer na inclusão dos demonstrativos como pronomes da terceira pessoa, mas eles não se encaixam entre os primitivos, porque distinguem gênero, nem entre os derivados porque não são bipessoais. (NEVES, 1987. p.152)

Numa síntese, pode-se afirmar que os pronomes, para Dionísio, compreendem uma classe de palavras tanto primitivas (pessoais) quanto derivadas (possessivos). Diferenciam-se os pronomes primitivos dos derivados pelo fato de os primeiros não serem antecedidos do uso do artigo. Os pronomes possessivos ou derivados podem ser bipessoais: estabelecem relações entre pessoas: mãe e filho; comprador e vendedor... e, estas relações, implicam o valor de posse inalienável ; como o amante de Rosa, ou a casa de Rosa, respectivamente. Quando bipessoais sofrem flexão de número e de gênero: meu (s); minha (s); sua(s); seu(s); teu(s); tua(s)... Observa-se que esse valor de posse é qualificador do caso “genitivo”.

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1.2.3.1 Os pronomes segundo Apolônio

Apolônio, também gramático grego, faz uma revisão crítica da concepção e classificação dos pronomes proposta por Dionísio. Considera que o relativo não pode estar incluso na classe dos artigos, na medida em que ele é usado no lugar do nome; logo, a questão não se circunscreve à sua colocação após o nome, ou seja, ele não é um artigo hipotático. Nesse sentido, o relativo se qualifica pela flexão de caso e de número, expressos por outras formas claramente definidas e, quando se flexiona um gênero (cujo, cuja), este também se define pela forma (masculina e feminina).

Assim, os relativos, à semelhança dos pronomes pessoais se opõem ao nome, na medida em que “indicam” apenas a existência, mas não a qualidade, ou seja, o atributo do sujeito corpóreo. Essa indicação, quando a pessoa já foi apresentada pelo nome, se faz pela “anaphórikon” e, em caso contrário, quando ela está presente, pelo diktikón ou demonstrativo, ou pelo homoiomatikon, ou seja, pela relação de semelhança. Tal distinção faculta Apolônio postular que o pronome relativo é um “anafórico” fundado na relação de semelhança com o nome que ele substitui, para demonstrar a pessoa do discurso por ele substituída e/ou referida. Já os demonstrativos podem ser considerados como dêiticos, pois apenas apontam para essas pessoas, mas não as substituem.

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diferenciadas se deve a outra dimensão lingüística: como as pessoas do discurso são representadas, em língua, no enunciado.

Essa dificuldade de revisão dos estudos de Dionísio não o impede de apresentar uma nova concepção de pronome, em que se atribui relevo ao fato de ser essa uma classe de palavras por meio da qual se faz a “indicação” de pessoa do discurso e de ela poder ser empregada no lugar do nome da pessoa indicada. Assim, o pronome, por manter relações de significação com o nome e com o verbo, é uma paranomásia: na classe que só tem identidade em relação a esses dois outros e, nesse sentido também é uma semiósis, pois arrasta consigo as significações dessas duas classes. Contudo, embora idêntico, diferencia-se do nome e do verbo e, nesse sentido é uma antonomásia, na outra forma de outra forma de antonímia. (ROBINS, 1983)

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Pode-se considerar nas gramáticas de Dionísio e de Apolônio, que o primeiro focaliza os pronomes na dimensão da palavra; o segundo trata não só da palavra, mas também busca focalizá-la pelas suas funções, na dimensão da frase. Logo, Apolônio desenvolve os primeiros estudos sobre a gramática da frase-grega. Nesse sentido, embora tenha mantido as 8 classes das partes do discurso, propostas por Dionísio, redefiniu o pronome não só como palavra que substitui o nome, mas também como sendo a representação da substância nominal por ele retomada no fluxo da fala, ou seja, “ousía”. (NEVES, 1987).

Observa-se ainda que os seus estudos não só apontam ser o nome e o verbo os elementos constitutivos da frase, mas também elabora a primeira descrição sintática, tendo por ancoragem a relação entre essas duas classes primitivas. As demais classes são definidas pela relação nome verbo. Embora não se ocupe com as relações entre o verbo e os casos oblíquos das palavras, atribui relevo à construção do particípio e o considera como elemento que participa do lugar ocupado pelo verbo, pelo nome e pelo pronome no espaço da formalização lingüística da linguagem. O esforço de Apolônio é apontar que o pronome não só participa do lugar ocupado pelo nome pelo verbo, mas também para o fato da dupla função que ele exerce. Essas funções explicitam-se pela retomada do nome ou pela indicação das pessoas por meio das categorias morfológicas e sintáticas da língua grega, registradas ou reiteradas pelas formas morfológicas da flexão verbal. (ROBINS, 1983).

1.2.4 Os pronomes pelos gramáticos latinos

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os gregos a dominar o mundo da ciência da razão, da poética e o da retórica. Descobriram, assim, um vocabulário sistematizado por glossários em que se registravam uma vasta terminologia referente a saberes sobre a matemática, a astronomia, a crítica literária e que lhes facultavam compreender textos. Esta compreensão era garantida pelo domínio da estrutura e funcionamento dessa mesma língua, aprendida na escola, por meio de estudos da sua gramática, que lhes assegurava a compreensão do vocabulário e, assim, puderam ascender a esses conhecimentos, registrados na língua grega, cujo fundamento fora a filosofia. (NEVES, 1987).

Entre o dado e o recebido, afirma Burke (1997), há um processo de reinterpretação para que o recebido possa não só se adaptar a outros modelos de compreensão, mas também às necessidades de contextos diferenciados. É dessa adaptação que vai emergir a gramática e o estudo do vocabulário da língua latina pelos mesmos parâmetros descobertos pelos gregos. Com eles Roma também irá elaborar uma política de ensino do latim, como língua de prestígio que assegurará ao seu império unidade e a capacidade e força para sobreviver em terras européias.

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Ressalta Robins (1983), é preciso considerar que o Estado Romano tornara o latim “língua da administração, dos negócios, do direito, da erudição e da promoção social” (p. 35). Contudo, nas suas colônias do leste, onde predominava um modelo de colonização em que a língua grega também mantinha posição de prestígio, os funcionários romanos aprenderam-na para o exercício de suas funções administrativas. Desta dimensão, moldada pela formação da filosofia e literatura gregas, o Estado romano irá se fragmentar em dois impérios: o Ocidental e o Oriental, esse último tinha como capital Constantinopla. Assim, Roma assegurou um maior grau de hegemonia no Império do Ocidente, ainda que atribuísse grande valor àqueles funcionários do Estado que eram plurilíngües e, por isso, capazes de compreender súditos de diferentes regiões e língua sobre o seu domínio.

Tem-se, assim, Varrão como o primeiro lingüista latino a produzir estudos gramaticais, definindo essa sua obra como conhecimento sistemático do uso lingüístico da maioria dos poetas, historiadores e oradores. Por conseguinte, Varrão tem consciência de que a sua gramática é produto da observação, análise e descrição de uma norma de uso empregada, não só por aqueles que atuam no campo da literatura, mas também nos da história e da oratória. Ela é, portanto, um instrumento que faculta o domínio da estrutura e funcionamento da língua latina, focada como padrão oficial.

Esses estudos de Varrão adaptados do grego foram registrados, incluindo concepções como as de linguagem e sua origem, os de anomalia e analogia, dentre outros, em vinte e cinco tomos. Tais estudos foram organizados em Etimologia, Morfologia e Sintaxe.

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Outra contribuição desses gramáticos latinos, mais especificamente de Varrão, foi estabelecer diferenças mais precisas entre a forma derivacional e flexional, bastante obliterada nas Gramáticas gregas. Propõe serem os paradigmas flexionais mais homogêneos, visto não apresentarem omissões e, por isso, são naturais; já os derivacionais são heterogêneos, variáveis; por isso, anômalos. Entende-se que a derivação, apesar de irregular, por estar sujeita a uma “variação voluntária” – variar de uma pessoa para outra, em relação à forma primitiva das palavras possibilita à linguagem certo grau de flexibilidade. (ROBINS, 1983).

Assim, Varrão apresenta muito mais do que Prisciano, reflexões e reformulações dos estudos desenvolvidos pelos gregos, razão pela qual não se ocupa apenas de copiar e adaptar as classes de palavras do grego para o latim, mas também, reconhece as categorias de “caso” e de “tempo” como primárias para diferenciar as palavras do latim que sofrem flexão. Estabelece um sistema de quatro contrastes flexionais para classificá-las em palavras que apresentam:

• Flexão de caso - nome (substantivo e adjetivo, este último reconhecido como a classe do nome, mas como atributo do substantivo);

• Flexão de tempo – verbo;

• Flexão de caso e tempo – particípio

• Sem flexão de caso e tempo – advérbio.

Os pronomes pessoais e os demonstrativos são focalizados como palavras de flexão dupla; pois, em relação ao nome, eles sofrem variações de casos e, em relação ao verbo, de pessoa. O fato de as formas dos pronomes demonstrativos “elle”, “ella”, “ellud” se perderem no uso da língua latina, posteriormente, levará ao surgimento do artigo, razão porque os pronomes latinos não são classificados como artigo, como fizera Dionísio. Já os pronomes relativos – “quĩ”, “quae”, “quod”, por

serem morfologicamente semelhantes aos interrogativos – “quis” “quid” – ora são classificados como nome, ora como pronomes.

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instrumentos de planificação da política lingüística instituída pelo Império Romano. E, assim sendo, funcionarão para o ensino formal da língua latina durante a Idade Média. São, dessa forma, gramáticas bastantes semelhantes às do grego que, agora ensinadas, asseguram o estudo do latim a sua semelhança com a língua daquela da Civilização Antiga.

Nessa acepção, Prisciano descreveu o latim da literatura clássica e, embora não se ocupe em definir o que entende ser uma gramática, faz uma descrição sistemática da estrutura e pronúncia das silabas, definidas como menores partes do discurso articulado, dotado de três propriedades: nome, forma escrita e valor fonético. No que se refere à morfologia, diferencia a palavra da oração, definindo a primeira como unidade mínima da estrutura da frase e a segunda, como expressão de um pensamento completo. Adota a classificação das palavras e outras classes gramaticais e concebe a interjeição como uma classe independente.

No caso dos pronomes, estes são definidos como palavras que substituem os nomes próprios e especifica as pessoas do discurso. Reitera a posição de Apolônio ser propriedade específica dos pronomes indicarem substância desprovida de qualidade, de forma a diferenciá-los dos nomes próprios e, por isso, os pronomes podem fazer referência anafórica com todos os nomes. Observa-se a seguinte classificação para os verbos: ativos – aqueles a que hoje designamos por transitivos; passivos – aqueles cujo significado não se remte à ação de um agente, mas de um paciente, como é o caso de “apanhar”, “sofrer”, por exemplo; neutros – aqueles aos quais se designam, hoje, por intransitivos. O verbo transitivo (ativo) foi definido por se relacionar com os pronomes do caso oblíquo. Entretanto, não haveria concordância entre as formas obliquas e aquelas das formas fontes de tais verbos: elogio – te (laudō te), prejudicado a ti (noceō libi), tenha piedade de mim (egeō

miserantis). (ROBINS, 1983 p. 47).

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de serem o nome e o verbo capazes de formarem por si sós, frases com sentidos completos.

Para Robins (1983):

“A obra de Prisciano representa algo mais que o final de uma era: constitui a ponte entre a erudição lingüística da antiguidade e da Idade média (...) A sua descrição serviu durante oito séculos como base das teorias gramaticais em nossos dias como fundamento do ensino da língua latina. (p. 48)

1.3 Matrizes para a construção de Gramáticas Nacionais

Os estudos sobre a palavra e a frase das línguas greco-latinas, segundo o quadro apresentado, precisam ser focalizados por três perspectivas na Idade Média: a) aqueles propriamente voltados para a produção de Gramáticas; b) aqueles que, embora de caráter gramatical, estão voltados para a produção de manuais didáticos; c) aqueles de que buscam reconfigurar fundamentos teóricos para o tratamento de questões lingüísticas. Esses últimos, por não estarem sistematizados, serão desenvolvidos no fluxo da Idade Moderna e deles resultarão a construção da chamada Gramática Geral ou Racional, de caráter mentalista e cujo pressuposto básico é tornar as línguas como espelho do pensamento. (ROBINS, 1983). Mas, de forma geral, os gramáticos e, posteriormente, os lingüistas, pressupõem-na como um produto social. (COSERIU, 1980).

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As gramáticas de Prisciano e de Donato, conforme já apontado, já estavam concebidas como indispensáveis para o uso da escrita e leitura de textos latinos. No campo do ensino, os estudos gramaticais tinham caráter prático e normativo, funcionando como ancoragem para a aprendizagem da Lógica, da Retórica, da Geografia, da Medicina e da Astronomia: disciplina que, nesse modelo de currículo escolar, fora substituída por Santo Agostinho. Dois pilares asseguravam o cumprimento dessa matriz curricular: as traduções realizadas pelos estudiosos eclesiásticos e a produção de manuais didáticos para garantir o ensino em mosteiros, abadias e igreja, que iam sendo construídas na Europa.

Os estudos propriamente lingüísticos avançavam pela área da tradução, orientados pelos sentidos gerais dos textos, vertidos para o latim e não pela transposição de palavras entre línguas diferentes. Também o alfabeto – já inventado e sistematizado pelos gregos – assegurava a adaptação aos grafemas ou letras da língua latina.

Na Baixa Idade Média, os manuais didáticos ensaiavam introduzir o ensino da escrita de algumas outras línguas, como a inglesa, por exemplo, de sorte a facultar observações entre línguas diferentes, embora tais diferenças não fossem objeto de questionamentos. Contudo, é possível considerar referência a processos de assimilação parciais no que se refere ao esforço de descrição para facultar a aprendizagem do latim como língua estrangeira de prestígio, bem como a assimilação parcial da etimologia gramatical. (LYONS, 1971).

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áreas da tradução, da etimologia e da lexicografia, como atesta a produção de Izidoro de Sevilha, no século VIII.

Passa-se a considerar, já no século XII, a necessidade de construção de uma base teórica diferenciada da mera exposição dos fatos lingüísticos de natureza didática, de que resultaria a produção de uma Gramática Geral. Postula-se que a descoberta de fatos gramaticais não seria da competência do gramático, mas do filósofo, na medida em que aquele não era um homem versado em raciocínios da lógica da razão. Argumenta-se, ainda, que os gramáticos greco-latinos não se ocuparam e de indagações de ordem universal, mas apenas com descrições lingüísticas.

Esse quadro de caráter crítico fez com que os estudos lingüísticos voltassem a ser orientados pela filosofia escolástica e, assim, retomam-se os princípios de caráter especulativo fundadores da gramática grega; mas, agora, focalizados pelo olhar de Teólogos. Desse modo, a gramática especulativa estende-se para além dos conteúdos programáticos registrados em manuais didáticos para o ensino e, assim, define-se o lugar ocupado pela teoria lingüística e aquele ocupado pelo ensino. Propõe-se uma gramática geral, cujo sistema é universal e Gramáticas particulares cujos sistemas responderiam pelas particularidades de cada língua, pois as diferenças entre as várias línguas são apenas acidentais.

Incorporam-se à Gramática, concepções semânticas tendo como parâmetro a diferença entre:

... significātiō e supositiō, propriedades semânticas do vocabulário que,

apesar de relacionadas são independentes. A significātiō (...) foi definida

como a relação entre o signo (palavras) e aquilo que ele significa. Em virtude dessa relação o signo pode funcionar como substituto dos objetos, pessoas etc., (...) com referência aos nomes, esse tipo de fenômeno é designado supositiō (suposição, suplência) (...) a significātiō é anterior à supositiō, e

esta pode ter o seu alcance restringido pela combinação de significātiō no

contexto. (ROBINS, 1983. p. 50 )

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Referências