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Mana vol.4 número2

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Academic year: 2018

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DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. 1995-1997. M il Plat ôs. Capit alismo e Esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34. 715 pp.

Ovídio Abreu Filho

Prof. d e An trop olog ia , UFF

Em 1997, p u b lica d o se u q u in to volu m e , con clu ía -se a e d içã o b ra sile ira d e M il Platôs, d e G ille s De le u ze e Fé lix G u a -tta ri, q u e se in icia ra e m 1995. O in te r-va lo e n tre a e d içã o orig in a l d e ssa ob ra , q u e é d e 1980, e a d e su a tra d u çã o com p le ta p a ra o p ortu g u ê s n ã o d e ixa d e re -ve la r a s d ificu ld a d e s n a re ce p çã o d e sse livro q u e fa z a va n ça r o tra b a lh o d e cria çã o d e u m a n ova im a g e m d o p e n sa -m e n to e q u e q u e stion a os p re ssu p ostos d om in a n te s n a filosofia e n a s ciê n cia s h u m a n a s: a cre n ça e m u m a te n d ê n cia n a tu ra l d o p e n sa m e n to p a ra a ve rd a d e , o m od e lo d o re con h e cim e n to e a p re -te n sã o d e u m fu n d a m e n to.

M il Platôs, q u e com p a rtilh a com O A n ti-Éd ip o o su b títu lo Cap italism o e Es-q u iz ofre n ia, n ã o é u m a con tin u a çã o li-n e a r d a s te se s p rop osta s li-n o livro d e 1972: d e u m volu m e a ou tro h á m u d a n -ça d e tom e a va n ços d a cria çã o. M e sm o q u e p u d é sse m os im a g in a r q u e o A n ti-Éd ip o tive sse com o su b títu lo “ p e la filo-sofia ” , n e le a con stru çã o é tico-filosófica se fe z a tra vé s d e u m a crítica . M il Platôs, a o con trá rio, é u m livro fu n d a m e n ta lm e n te p ositivo: n ã o e sta lm os lm a is d ia n

-te d e u m a crítica d o Éd ip o, e sim d a con stru çã o d o con ce ito d e m u ltip licid a-d e , p a ra a lé m a-d a op osiçã o a-d o Um e a-d o M ú ltip lo, e d os d u a lism os d a con sciê n -cia e d o in con scie n te , d a n a tu re za e d a h istória , d o corp o e d a a lm a .

A te oria d a m u ltip licid a d e e fe tu a u m a in te rp re ta çã o d o re a l q u e con ju g a u m a con stru çã o on tológ ica e u m a le itu -ra d o m u n d o e d a socie d a d e q u e su r-p re e n d e com u m a n ova d istrib u içã o d os se re s e d a s coisa s: n ã o a d m ite u n id a d e n a tu ra l, u m a ve z q u e n ã o se a p óia e m n e n h u m a n e ce ssid a d e e n ã o visa a n e -n h u m p ra ze r; -n ã o re co-n h e ce a fa lta , u m a ve z q u e n ã o se con stitu i e m r e fe rê n cia a u m a u n id a d e a u se n te (re cu -sa n d o, p ois, a n oçã o d e d e se jo com o fa lta ); e n ã o a ce ilta n e n h u m a tra n sce n d ê n -cia – se ja n a orig e m , com o id é ia ou m o-d e lo, se ja n o o-d e stin o, com o se n tio-d o h is-torica m e n te d e se n volvid o. A p e rsp e cti-va d a im a n ê n cia e o con ce ito d e m u lti-p licid a d e fa ze m d o lti-p e n sa m e n to u m a a tivid a d e é tica – se m m od e los e fin a li-d a li-d e s tra n sce n li-d e n te s – a ve ssa a q u a l-q u e r con forto m ora l ou orie n ta çã o h is-tórica .

M il Platôs é com p osto d e q u in ze “ p la tôs” , con ce ito q u e , tom a d o d e e m p ré stim o a Ba te son , d e sig n a u m a e sta -b iliza çã o in te n siva e , n o ca so, u m a m u l-tip licid a d e con ce itu a l. Pois os con ce itos, p a ra De le u ze e G u a tta ri, d e ve m d e -te rm in a r n ã o o q u e é u m a coisa , su a e s-sê n cia , m a s su a s circu n stâ n cia s. Exp li-ca -se , a ssim , q u e li-ca d a p la tô p ossu a u m

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títu lo re la cion a d o a u m a d a ta . O s títu los e n u n cia m u m ca m p o d e p rob le m a s e a s d a ta s in d ica m q u e se p re te n d e d e te rm in a r a p otê in cia e os m od os d e iin d ivid u a -çã o d e u m a con te cim e n to. C a d a p la tô re a liza u m m a p e a m e n to, cu jos m ovi-m e n tos d e scre ve ovi-m u ovi-m ovi-m e sovi-m o p e rcu r-so: p a rte -se d o in te rior d e u m ou m a is e stra tos e d e se u s d u a lism os n a d ire çã o d e su a s con d içõe s d e p ossib ilid a d e , d a s “ m á q u in a s a b stra ta s” q u e os e fe tu a m e os d e te rm in a m com o a tu a liza çõe s; sim u lta n e a sim e n te , os e stra tos sã o a ssocia -d os a os a g e n cia m e n tos -d e p o-d e r q u e lh e s sã o a n e xos e p rim e iros; p or fim , e m u m ou tro g iro, o p e n sa m e n to con torn a a s m á q u in a s a b stra ta s e a s re m e -te a u m p la n o d e con sistê n cia a q u e se a ce d e p or d e se stra tifica çã o: re ve la -se a ssim , n e sse p e rcu rso, a h e te rog e n e i-d a i-d e , a coe xistê n cia , a s im b rica çõe s e a im p or tâ n cia r e la tiva d a s d ife r e n te s lin h a s q u e com p õe m u m a m u ltip licid a d e . E a in d a q u e a e d içã o b ra sile ira te -n h a su b d ivid id o o orig i-n a l e m ci-n co vo-lu m e s, p e rce b e -se q u e os e d itore s b u s-ca ra m re corta r o livro d e a cord o com u m a ce rta u n id a d e d e p rob le m a s.

O p rim e iro volu m e con té m , a lé m d o p re fá cio à e d içã o ita lia n a (on d e os a u to-re s a va lia m a n ovid a d e e a to-re ce p çã o d o livro), u m a a p re se n ta çã o d a on tolog ia d a s m u ltip licid a d e s. N a In trod u ção: Ri-z om a, re cu sa -se a id é ia d o p e n sa m e n to com o re p re se n ta çã o, su a su b m issã o à le i d a re fle xã o e d a u n ifica çã o, e a p re -se n ta --se M il Platôs com o livro-rizom a q u e , a b olin d o a trip a rtiçã o e n tre o m u n -d o, com o ca m p o -d e re a li-d a -d e a re p rod u zir, a lin g u a g e m , com o in stâ n cia re -p re se n ta tiva , e o su je ito, com o e stru tu ra e n u n cia tiva , é ca p a z d e con e cta r-se com a s m u ltip licid a d e s. A e scrita rizo-m á tica , q u e se d e fin e p e la op e ra çã o d e su b tra çã o d os p on tos d e u n ifica çã o d o p e n sa m e n to e d o re a l, re a liza u m m a -p e a m e n to e u m a e x-p e rim e n ta çã o n o

re a l q u e con trib u i p a ra o d e sb loq u e io d o m ovim e n to e p a ra u m a a b e rtu ra m á xim a d a s m u ltip licid a d e s sob re u m p la -n o d e co-n sistê -n cia . O p la tô se g u i-n te , 1914. Um ou V ários Lob os?, con siste e m u m a crítica d a p sica n á lise q u e a p rofu n -d a a s re fle xõe s in icia is sob re o con ce ito d e m u ltip licid a d e . O te rce iro p la tô, 10.000 a.C. A G e olog ia d a M oral (Q u e m a Te rra Pe n sa q u e É?), a p re se n ta a on tolog ia com o g e olog ia d a s m u ltip licid a -d e s, con stitu í-d a s p or m ovim e n tos -d e e s-tra tifica çã o e d e se ss-tra tifica çã o q u e se con ju g a m com m ovim e n tos d e te r ritoria liza çã o e d e ste rritoritoria liza çã o tra ça -d os p or m á q u in a s a b stra ta s q u e op e ra m sob re d ive rsos p la n os d e con sistê n cia .

O se g u n d o volu m e con té m d ois p la tôs fu n d a m e n ta is: 20 d e N ov e m b ro 1923. Postu lad os d a Lin g ü ística e 587 a.C. S ob re A lg u n s Re g im e s d e S ig n os. Evita n d o p re ssu p or q u a lq u e r re la çã o d e re p re se n ta çã o e d e ca u sa lid a d e – m a te ria l ou sim b ólica – e n tre os siste -m a s d e sig n os e os siste -m a s -m a q u ín icos d os corp os, De le u ze e G u a tta ri d issolve m os p ostu la d os d e b a se d o e stru tu -ra lism o e d a te oria m a rxista d a id e olo-g ia . Ata ca m os p re ssu p ostos d a se m io-log ia , q u e stion a n d o o p rim a d o d a com u n ica çã o e su ste n ta n d o se r a “ p a la -vra d e ord e m ” a fu n çã o p rim e ira d a lin g u a g e m . C ritica m a d istin çã o lan g u e / p arole e d e str on a m a in d e p e n -d ê n cia e a u ton om ia -d a lan g u e com os con ce itos d e a g e n cia m e n to cole tivo d e e n u n cia çã o e re g im e s d e sig n os; n ã o a d m ite m u m a se m iolog ia g e ra l, n e g a n -d o q u a lq u e r p rivilé g io -d e u m re g im e -d e sig n os sob re os ou tros.

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p e rm ite p e n sa r o d e se jo com o p roce sso q u e p rod u z o ca m p o d e im a n ê n cia d e se u s a g e n cia m e n tos e n ã o n a d e p e n -d ê n cia -d a i-d é ia -d o corp o com o orig e m d a s n e ce ssid a d e s e lu g a r d os p ra ze re s. C ria r, se le cion a r e a rticu la r os corp os se m órg ã os p le n os, e is o p rog ra m a d a e sq u izoa n á lise . O p la tô A n o Z e ro. Rosti-d aRosti-d e fa z o m a p a Rosti-d e u m a se m iótica m is-ta , q u e com b in a sig n ificâ n cia e su b je ti-va çã o, e n ca ra d os com o p roce d im e n tos d e com p a ra çã o e a p rop ria çã o q u e a sse g u ra m u m a p olítica d e in clu sã o d ife re n -cia l q u e ig n ora a a lte rid a d e e q u e d e fi-n e , se g u fi-n d o os a u tore s, o ra cism o e u ro-p e u . O s ro-p la tôs 1874. Trê s N ov e las ou “O q u e se Passou ?” e 1933. M icrop olítica e S e g m e n tarid ad e , e n sin a m q u e o re a l é fe ito d e lin h a s, isto é , d e m ovim e n tos h e te rog ê n e os q u e op e ra m se g m e n ta çõe s (b in á ria s, circu la re s e lin e a re s), d u -ra s ou fle xíve is, con stitu in d o d im e n sõe s m ola re s ou m ole cu la re s, e fu g a s cria d ora s, tu d o e m p e rp é tu a coe xistê n cia e in -te rp e n e tra çã o. A d ife re n ça d e n a tu re za d os p la n os m ola re s e m ole cu la re s – q u e re m e te m a siste m a s d e re fe rê n cia d istin tos, lin h a s sob re cod ifica d a s d e se g m e n tos e flu xos m u ta n te s – n ã o im p e -d e , p e lo con trá rio, su a p re ssu p osiçã o re cíp roca . O s a u tore s p rop õe m u m a vi-sã o orig in a l sob re o q u e d e n om in a m ce n tros d e p od e r, d e fin id os p or su a s op e ra çõe s d e con ve rsã o d os flu xos m o-le cu la re s e m se g m e n tos m ola re s, e sob re o Esta d o, p e n sa d o com o a g e n cia -m e n to d e re te rritoria liza çã o ou -m ovm e n to d e sob re cod ifica çã o q u e org a n i-za a re sson â n cia d os ce n tros d e p od e r.

O q u a rto volu m e re ú n e d ois p la tôs (1730. De v irIn te n so, De v irA n im al, De -v ir-Im p e rce p tí-v e l e 1837. A ce rca d o Ri-torn e lo) d e d ica d os a con Ri-torn a r a visã o m im é tica d a n a tu re za , q u e se su ste n ta e m u m a on tolog ia on d e o se r se d iz d e m od o a n á log o se g u n d o su a s d istrib u i-çõe s ca te g oria is. C on tra p õe m a u n

ivo-cid a d e à e q u ivoivo-cid a d e e a n a log ia d o se r, a firm a n d oo com o p otê n cia d e d ife -re n cia çã o ir-re d u tíve l à s id é ia s d e m o-d e lo e o-d e im ita çã o. C om o p e n sa r, e n tã o, os e n te s con cre tos e su a s re la çõe s? O s a u tore s re sp on d e m q u e os e n te s sã o d i-fe re n ça s e su a s re la çõe s d e vire s, a i-fe tos ou m od ifica çõe s, q u e d e ve m se r p e n sa -d os in -d e p e n -d e n te m e n te -d a s i-d é ia s -d e form a , fu n çã o, e sp é cie e g ê n e ro. O con -ce ito d e d e vir a com p a n h a o a b a n d on o d a s con ce p çõe s su b sta n cia lista s e d a p e rsp e ctiva “ h ile m orfista ” d a in d ivi-d u a çã o (sim p le s e n con tro ivi-d e form a e m a té ria ), p a ra p e n sa r os corp os com o sin g u la rid a d e s e se u s d e vire s com o p ro-ce ssos irre d u tíve is à s sob re cod ifica çõe s d o org a n ism o, d o sig n ifica n te e d o su -je ito. N e sse se n tid o, os d e vire s sã o m o-le cu la re s e m in oritá rios; im p e rce p tíve is (a n org â n icos), in d isce rn íve is (a ssig n ifi-ca n te s) e im p e ssoa is (a ssu b je tivos). N e sse u n ive rso d e in te n sid a d e s, o con ce ito d e “ ritorn e lo” e n fre n ta o p rob le -m a d a con sistê n cia ou d a con solid a çã o d e a g e n cia m e n tos d e h e te r og ê n e os, p e rm itin d o p e n sa r a a rte fora d e q u a l-q u e r m od e lo m im é tico.

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e volu cion ism o e tod a id é ia d e p rog re s-so h istórico. O p rob le m a p olítico é re co-loca d o a p a rtir d a d istin çã o e n tre d ois g ra n d e s tip os d e a g e n cia m e n tos, q u e d ife re m e m n a tu re za m a s q u e se p re s-su p õe m e q u e sã o coe xte n sivos a tod a a h istória h u m a n a : a m á q u in a d e g u e rra e o a p a re lh o d e Esta d o. A cria çã o d e se s con ce itos, a a n á lise d e su a s tra n sform a çõe s e d e su a s re la çõe s, e a d istin -çã o d e d u a s m od a lid a d e s d e te m p ora li-za çã o e d e e sp a cia lili-za çã o con fig u ra m n ova s d ire çõe s p a ra a com p re e n sã o d a s socie d a d e s: n ã o d e fin ila s p or su a s con -tra d içõe s, m a s p or su a s lin h a s d e fu g a ; con sid e ra r n ã o a s cla sse s e sim a s m in o-ria s com o p otê n cia s re volu cion á o-ria s; d e fin ir a s m á q u in a s d e g u e rra n ã o p e la g u e rra , m a s, a n te s, p or u m ce rto m od o d e ocu p a r e d e in ve n ta r n ovos b locos e sp a ço-te m p ora is.

Fin a lm e n te , a Con clu são: Re g ras Con cre tas e M áq u in as A b stratas re to-m a , n a forto-m a d e u to-m lé xico, os p rin ci-p a is con ce itos d e sse livro, cu ja a tu a li-d a li-d e e stá , n ã o a p e n a s n o rig or li-d e su a s a n á lise s, m a s, sob re tu d o, n a su a p otê n -cia d e re sistê n -cia à s força s q u e b u sca m lim ita r o p e n sa m e n to a u m a re ite ra çã o d a s e xig ê n cia s d o m e rca d o ou d e su -p osta s n e ce ssid a d e s h istórica s. N e sse se n tid o, M il Platôs p rocu ra in stig a r – a o m e sm o te m p o q u e n e le s se a p óia – m ovim e n tos q u e te n ta m e sca p a r d o con trole d os a xiom a s ca p ita lista s e d a s “ n e -ce ssid a d e s” p ostu la d a s p e la m od e rn a te le olog ia lib e ra l, b e m com o d o n iilism o q u e , a o con trá rio d o q u e se g osta d e im a g in a r, é im a n e n te a os id e a is d e “ p rog re sso” e m b u tid os n e sse s a xiom a s e n e ssa te le olog ia .

FERREIRA, Elizabet h F. Xavier. 1996. M ulheres, M ilit ância e M emória. Rio de Janeiro: Fundação Get ulio Vargas Editora. 216 pp.

Carla Costa Teixeira

Profa . d e An trop olog ia , Un B

O livro d e Eliza b e th F. Xa vie r Fe rre ira a p re se n ta , já e m su a s p rim e ira s p á g i-n a s, o p roje to te órico e e ti-n og rá fico e m q u e a a u tora se e n g a ja : a con str u çã o d a m e m ória socia l d os a n os d a d ita d u -ra m ilita r a t-ra vé s d a s re cord a çõe s d e e xp re sa s p olítica s, ou se ja , d e m u lh e -re s q u e vive n cia ra m o cá rce -re e a tor-tu ra n e sse p e ríod o. O títor-tu lo M u lh e re s, M ilitân cia e M e m ória q u a se con se g u e e sc o n d e r, p a r a u m le it o r d e sa v isa d o , a com p le xid a d e sin g u la r q u e ta l e m -p r e e n d im e n to a ssu m e n o te xto, -p ois n ã o se tra ta d e re g istra r ve rsõe s d e u m con tu rb a d o p e ríod o h istórico – e m b ora e ste ob je tivo e ste ja con te m p la d o n o tra b a lh o –, e ta m p ou co d e a ve rig u a r o e sta tu to d e ve rd a d e ou cre d ib ilid a d e d os re la tos – q u e stã o con sid e ra d a , m a s som e n te n a m e d id a e m q u e con stitu i u m a p re ocu p a çã o d a s p róp ria s m u lh e -re s. A a m b içã o é d e ou tra n a tu -re za , e n a s p a la vra s d e Eliza b e th Fe r re ira : “ m a is d o q u e a b u sca d e u m a ve rd a d e (m e sm o se n d o e sta se m p re p rob le m á -tica , p or se r r e la tiva ), d e ve -se b u sca r u m se n tid o p a ra a p lu ra lid a d e d e ve r-d a r-d e s q u e b rota m r-d os re la tos” (:105). Se u d e sa fio e sp e cífico, p orta n to, é tra -d u z ir e r e c o m p o r t r a je t ó r ia s in -d iv id u a is e m u m a tra je tória cole tiva , a tra vé s d a “ d e scob e rta ” d e va lore s d e re -fe rê n cia com u n s a os d iscu rsos, ou se ja , d e n ú cle os d e se n tid o.

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p e rig o” ; “ A id a d e d a ra zã o” . A ca d a u m d e le s cor re sp on d e u m m om e n to cru cia l d a tra je tória p olítica d a s tre ze m u lh e r e s e n tre vista d a s, r e sp e ctiva -m e n te , a e n tra d a n o -m ovi-m e n to p olíti-co; a cla n d e stin id a d e , a tortu ra e a p risã o; e a volta à p osiçã o le g a l n a socie d a d e . A d e lica d e za d o a rra n jo fin a l ca tiva o le itor, q u e se d e scob re tra n sita n -d o e m m e io a m ú ltip los n íve is -d e re a li-d a li-d e se m q u e , e m n e n h u m m om e n to, o fio con d u tor d o te xto p e rca d e n sid a -d e . Esse é u m -d os g ra n -d e s m é ritos -d e Eliza b e th Fe rre ira : a h istória cole tiva torn a -se viva n a s re cord a çõe s d e se u s a g e n te s se m q u e e ste s se ja m d e stitu íd os íd e su a s sin g u la riíd a íd e s; sim u lta n e a m e n te , a id e n tid a d e d e g ru p o e n -g lob a e d á si-g n ifica d o à s a fin id a d e s e id iossin cra sia s d e se u s m e m b r os e n -q u a n to in d iv id u alid ad e s – va lor ce n tra l n o con te xto h istórico e m q u e e ssa s m u -lh e re s fize ra m su a s e sco-lh a s p olítico-id e ológ ica e e xiste n cia l. Afin a l, “ a s p a rticip a n te s d os id e a is re volu cion á rios e n con tra m se n u m a m e sm a e stru -tu ra q u e n ive la a s d ife r e n ça s in d ivid u a is” (:104), se n ivid o a a ivid e sã o a o p roje -to cole tivo d a “ e sq u e rd a ” , e m si m e s-m a , e le s-m e n to e sse n cia l d e sse d os-m ín io a b ra n g e n te . Esse e n g a ja m e n to e , n os a le r ta a a u tora , a p róp ria d isp osiçã o p a ra r e m e m orá -lo e ve rb a lizá -lo e m su a s con se q ü ê n cia s, fa ze m p a r te d e u m p r oce sso e m q u e p r oje tos e e sco -lh a s p e ssoa is sã o fe itos n os lim ite s d e u m ce rto con te xto. Se o clim a p olítico d a é p oca in cita va à p a r ticip a çã o, re s-sa lta , “ n ã o é su ficie n te p a ra e xp lica r a a d e sã o d e d e te rm in a d os in d ivíd u os à lu ta con tra o re g im e , p ois n ã o e xp lica -ria o re cu o ou a in d ife r e n ça d e ta n tos ou tros” (:85).

Assim , C a ta rin a , J oa n a , Be th â n ia , An g é lica , M ile n a , Vitória , G ild a , Da l-va ... vã o con ta n d o su a s h istória s d e vid a e (re )e la b ora n vid o g a n ch os sig n ifica

-tivos e n tre o p re se n te e o p a ssa d o, q u e sã o a rticu la d os, p e la a u tora , e m fe ix e s d e re la çõe s e visõe s d e m u n d o fa m ilia -re s, d e m otiva çõe s su b je tiva s p a ra o in g re sso n e ssa n ova form a d e vid a , d e p osiçõe s id e ológ ica s, d e tip os d e in se rçã o n a m ilitâ n cia , d e con d u ta s e re p re -se n ta çõe s d a e xp e riê n cia d e p risã o, tortu ra e cla n d e stin id a d e . Em d ive rsos m om e n tos d e su a s tra je tória s, e ssa s m u lh e r e s e xp e rim e n ta ra m for m a s si-m ila re s d e situ a çã o-lisi-m ite , si-m a s, ca d a u m a a se u m od o, p ois a “ q u a lid a d e d a e xp e riê n cia ” e m e sm o su a d u ra çã o va -ria ra m n os d ife re n te s re la tos.

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A ra d ica lid a d e d a tra je tória p olíti-ca q u e se in iciou p a ra e ssa s m u lh e re s a o a ssu m ire m a con d içã o d e cla n d e sti-n a s, se a g u ça ria e se ria p rofu sti-n d a m e sti-n te e xa ce rb a d a com a vivê n cia d a tortu ra . Im p ossíve l a q u i d e ixa r d e e voca r a e s-tru tu ra d os ritos d e p a ssa g e m , com su a se q ü ê n cia d e se p a ra çã o, m a rg e m e a g re g a çã o, q u e se p od e vislu m b ra r n a p rop osta d e ord e n a çã o d a s tra je tória s p olítica s a p re se n ta d a p e la a u tora a p a rtir d os re la tos ou vid os. Tra ta se , p o -ré m , d e u m a a tu a liza çã o p e r ve r tid a d a s su ce ssiva s p a ssa g e n s q u e , n a te oria d e Va n G e n n e p , m a rca m a e xistê n cia socia l d os in d ivíd u os. As “ p a ssa -g e n s” vivid a s p or e ssa s m ilita n te s se in se re m e m u m con te xto d e a cir ra d o con flito p olítico, n o q u a l a su ce ssã o d e e ta p a s e n con tra su a ra zã o d e se r n a q u e b ra d o con se n so socia l. C om o re s-sa lta Eliza b e th Fe r re ira , a p rá tica d a tortu ra in stitu cion a l n o m u n d o m od e r-n o s ig r-n ific a u m a c o m p le t a ir-n v e r s ã o d e se u s va lore s: “ Se m o va lor p e d a g ó-g ico u m a ve z a trib u íd o a o su p lício e m p ra ça p ú b lica e se m o va lor corre tivo a trib u íd o à p e n a p or re clu sã o, a tortu -ra e stá se m p re à m a r g e m d os p rin cí-p ios é ticos e m ora is q u e or d e n a m o con vívio e m socie d a d e . Su a e xistê n cia é u m a a m e a ça a o p a cto socia l, sob re tu -d o q u a n -d o é p e rp e tra -d a p or órg ã os -d o Esta d o. Esta e sfe ra , q u e d e ve ria se r o locu s d a e fe tiva re a liza çã o e g a ra n tia d e sse p a cto, torn a -se , n e sse ca so, su a a n títe se , o ce n tro p rivile g ia d o d o a rb í-trio” (:144).

Pa ra o in d ivíd u o tortu ra d o, e ssa e x-p e riê n cia d e d or d issocia e coloca e m con flito corp o e m e n te , p ois, n a s p a la -vra s d o p sica n a lista H é lio Pe le g rin o, tra zid a s p e la a u tora , “ o corp o torn a -se n osso in im ig o e n os p e rse g u e ” (:144). Q u ã o d ista n te e sta m os d os sofrim e n tos corp ora is in flig id os a os jove n s n os ritos d e in icia çã o n a s socie d a d e s trib a is! Em

ve rd a d e , o q u e e stá e m jog o n a s tortu -ra s p olítica s n ã o é a con stru çã o d e u m n ovo e sta tu to socia l, m a s, sim , a in cita -çã o d e u m a fa la a tra vé s d a b u sca d o “ p on to in su p ortá ve l d e sofrim e n to” d e ca d a se r h u m a n o, se ja p or m e io d a tor-tu ra física ou d o d e se q u ilíb rio in d ivid u a l e cole tivo p roivid u ziivid o p e la “ ru p tu -ra d a n oçã o te m p o e a a u sê n cia d e n or-m a s q u e crie or-m e r e g u le or-m u or-m a r otin a d e vid a ” (:150).

(7)

Fin d o o e n ca r ce ra m e n to, a e xp e -riê n cia d e r e in se rçã o socia l d e ssa s, a g ora , e x-p r e sa s p olítica s e n volve u “ cu id a d os e sp e cia is” , p ois e sse p a ssa -d o a tu ou in icia lm e n te com o u m a “ m a rca ” , u m “ e stig m a ” , d ificu lta n d o a re -con stru çã o d e su a s vid a s. De sd e e n tã o, p or ca m in h os d ive rsos e com ê n fa se s d ife r e n te s, e ssa s m u lh e r e s vê m b u s -ca n d o, su ce ssiva m e n te , n ovos sig n ifi-ca d os p a ra e ssa s e xp e riê n cia s q u e , a p a rtir d o ca m p o p olítico, con ta m in a -ra m a tota lid a d e d e su a s vid a s.

A re m e m ora çã o p rop icia d a p e la si-tu a çã o d e e n tre vista in te g ra e sse p ro-ce sso d e r e ssig n ifica çã o d o p a ssa d o, m a s n ã o só p a ra a s e n tre vista d a s. Eli-za b e th Fe rre ira coloca -se com o su je ito d e u m d iá log o e m q u e a e scu ta é tã o p rod u tora d a m e m oriza çã o d a s e x-m i-lita n te s, q u a n to os se u s te ste m u n h os. An cora -se , n e sse e m p r e e n d im e n to, n a s id é ia s d e C h a rle s Pe ir ce sob r e a ce n tra lid a d e d o te rce iro e le m e n to n a lin g u a g e m , ou se ja , d a q u e le te rm o q u e torn a p ossíve l a p róp ria situ a çã o co -m u n ica tiva . N o p la n o d a s in te ra çõe s fa ce a fa ce , a e n tre vista d ora é o te rce iro te rm o q u e p e rm ite a fa la d a s e xp re -sa s p olítica s (su je itos d a fa la ) sob r e su a s tra je tória s d e m ilitâ n cia (re fe re n te d a fa la ) e , n e ssa m e d ia çã o p ra g m á -tica , con trib u i p a ra e sta b e le ce r u m a con e xã o d in â m ica e n tre p a ssa d o e p re -se n te n o p r oce sso d e con str u çã o d a m e m ória cole tiva . M a s a fu n çã o m e -d ia -d ora -d o te rce iro “ p e ircia n o” n ã o se e sg ota n o â m b ito d os su je itos e n volvi-d os n a situ a çã o volvi-d ia lóg ica , e m ve rvolvi-d a volvi-d e p od e a té d isp e n sa r su a e xistê n cia e m -p írica , -p ois o q u e e stá e m jog o é a -p ró-p ria fu n ção m e d iad ora in trín se ca a o con te xto com u n ica tivo, ou se ja , o fa to d e q u e a com u n ica çã o r e q u e r, p a ra ocor re r, u m u n ive rso com p a r tilh a d o q u e g a ra n ta o se n tid o d a p a la vra d ita . N o ca so, o u n ive rso com u m e n tre a a u

-tora e su a s e n tre vista d a s re ve la -se n o e n g ajam e n to com a con stru çã o d a m e -m ória socia l d os “ a n os d e ch u -m b o” , a tra vé s d e re la tos d e e x-p re sa s p olítca s, isto é , d e d e te rm in a d a s fa la s fe m i-n ii-n as. De ssa p e rsp e ctiva , a m e d ia çã o sim b ólica n e ce ssá ria e n tre e n tre vista -d a s e e n tr e vista -d ora e n g e n -d ra -se n a a rticu la çã o e n tre id e n tid a d e p olítica e d e g ê n e ro, q u e se con stitu i e m locu s a trib u id or d e le g itim id a d e à re m e m o-ra çã o e m p roce sso. N isso re sid e , a m e u ve r, a força d o g ê n e ro n o te xto: fio con -d u tor -d os te ste m u n h os – te ci-d o com a com p e tê n cia te órica d a a u tora n a lite ra tu ra d e g ê n e ro –, m a s, p rin cip a lm e n -te , in stitu içã o socia l q u e p re sid e a co-m u n ica çã o a o se a p re se n ta r coco-m o u co-m e sp a ço sim b ólico e m q u e os su je itos e m in te rlocu çã o p od e m se re con h e ce r.

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HERZFELD, M ichael. 1997. Cultural In-t imacy: Social PoeIn-t ics in In-t he NaIn-t ion-St at e. New York/ London: Rout ledge. 226 pp.

M arcio Goldman

Prof. d e An trop olog ia Socia l, PPG AS-M N -UFRJ

De orig e m b ritâ n ica e vive n d o h oje n os Esta d os Un id os, on d e é p rofe ssor n a Un ive rsid a d e d e H a rva rd , M ich a e l H e rzfe ld ve m , h á 25 a n os, p e sq u isa n d o e e scre ve n d o sob re a G ré cia m od e rn a , tra b a lh o q u e é , sim u lta n e a m e n te , u m a d a s re fle xõe s m a is orig in a is e p rod u ti-va s d a a n trop olog ia con te m p orâ n e a . Se u ú ltim o livro re ú n e a rtig os e scritos e n tre 1986 e 1995 – re e la b ora d os p a ra a cole tâ n e a –, b e m com o d ois in é d itos q u e a b re m e fe ch a m o volu m e .

A te m á tica ce n tra l d o livro ta lve z p u d e sse se r loca liza d a n a re tom a d a im p lícita d e u m a ve lh a q u e stã o q u e se m -p re d ivid iu a a n tro-p olog ia a n g lo-sa xô-n ica . C om o se sa b e , sã o ixô-n ú m e ros os d e b a te s op on d o o p rivilé g io con ce d id o à s re laçõe s sociais p e la a n trop olog ia so-cial b ritâ n ica , e o p e so d os va lore s cu ltu rais e n fa tiza d o p or b oa p a rte d a a n -trop olog ia cu ltu ral n orte -a m e rica n a . O p rob le m a ce n tra l d e H e rzfe ld é ju sta -m e n te a in ve stig a çã o e tn og rá fica d o m od o p e lo q u a l os “ va lore s” sã o a g e n -cia d os n a p rá tica d a s “ re la çõe s so-cia is” . Pe rsp e ctiva q u e se op õe , p or su a ve z, à q u e la q u e , p rin cip a lm e n te n a G rã -Bre ta n h a h oje , su ste n ta q u e o a ce sso d o a n a lista à “ socie d a d e ” d e ve p a ssa r n e -ce ssa ria m e n te p e la s con -ce p çõe s q u e se u s m e m b ros d e la fa ze m – e sp é cie d e “ e tn osociolog ia ” à q u a l H e rzfe ld p a re -ce op or a lg o com o u m a “ sociolog ia d a cu ltu ra ” . Va le a p e n a a in d a ob se rva r q u e o fa to d e e stu d a r u m a socie d a d e “ m e d ite rrâ n e a ” fa z com q u e o e sforço

d o a u tor se ja a in d a m a is n otá ve l: com o se sa b e , os p rin cip a is d e se n volvim e n tos d o “ m e d ite rra n ism o” su b lin h a m e xa ta m e n te o p a p e l d e va lore s, com o “ h on -ra ” e “ ve rg on h a ” , n a sin g u la riza çã o d o q u e se ria e sse “ tip o” d e socie d a d e . E a in d a q u e n ã o se ja p ossíve l e xp lora r a q u i os m otivos q u e le va m H e rzfe ld a re cu sa r e ssa a b ord a g e m , m e re ce re g is-tro a e n orm e in flu ê n cia q u e os e stu d os sob re socie d a d e s “ m e d ite rrâ n e a s” tê m e xe rcid o sob re tra b a lh os a n trop ológ icos re a liza d os n o e sob re o Bra sil.

É n o in te rior d e ssa p e rsp e ctiva m a is g e ra l q u e d e ve m se r com p re e n d id a s a s n oçõe s q u e b a liza m o livro, e q u e sã o ob je to d e d e ta lh a d a d iscu ssã o n o ca p í-tu lo 1. A “ in tim id a d e cu lí-tu ra l” , e ssa p rote çã o d o e sp a ço cole tivo q u e o e tn ó-g ra fo te m d e in va d ir, se ria con stitu íd a ju sta m e n te p or e sse s va lore s q u e os in -d iví-d u os e g ru p os con si-d e ra m com o “ se u s” , e q u e e le s d e ve m , a o m e sm o te m p o, se g u ir e a p re se n ta r a os d e m a is, p ois a a p re se n ta çã o d e ta is va lore s n ã o ob e d e ce a n e n h u m scrip t rig oroso: re p re se n ta m se os va lore s n o se n tid o te a -tra l d o te rm o (a re fe rê n cia a q u i se n d o os “ d ra m a s socia is” d e Victor Tu rn e r), m a s isso só a d q u ire se n tid o n o q u a d ro d a s in te ra çõe s con cre ta s, in te ra çõe s q u e , sim u lta n e a m e n te , p rod u ze m os con te xtos e m q u e se p roce ssa m (e é a os tra b a lh os d e Ervin g G offm a n q u e se re -m e te a g ora ). Isso sig n ifica , e -m p ou q u ís-sim a s p a la vra s, q u e os “ d ra m a s” sã o o p róp rio cotid ia n o e q u e a p e rform an ce , e m se n tid o te a tra l, é “ p e rform a tiva ” , n o se n tid o d a filosofia d a lin g u a g e m d e Au stin .

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p ossib ilid a d e , im a n e n te à p róp ria lín -g u a e à p róp ria cu ltu ra ou socie d a d e , d e “ com e n ta r” a s m e n sa g e n s n o m om e n to m e sm o e m q u e e la s sã o e m itid a s, jo-g a n d o a ssim com os cód ijo-g os – d ijo-g a m e le s re sp e ito a os va lore s ou à s p osiçõe s socia is.

A “ p oé tica socia l” n ã o se con fu n d e , e n tre ta n to, com a “ p oe sia ” , e se u e stu -d o n ã o con siste -d e form a a lg u m a e m u m “ e ste ticism o” ou m e sm o e m u m a “ e sté tica ” . O ca p ítu lo 7 d e té m -se n e ste p on to, d e m on stra n d o q u e u m a coisa sã o os m od e los a n trop ológ icos “ b a se a d os n a lin g u a g e m ” , e ou tra , m u ito d ife re n te , a q u e le s “ d e riva d os d a lin g u a -g e m ” (:145). Se os p rim e iros con siste m e m te n ta tiva s m a is ou m e n os b e m su -ce d id a s d e e sb oça r se m â n tica s e / ou sin ta xe s sociocu ltu ra is, os se g u n d os d e ve m se con ce n tra r n os a sp e ctos p ra g m á ticos d a lin g u a g e m ou d a socie d a d e , ou se ja , n os a g e n te s, su a s re la -çõe s e su a s p rá tica s. É a re tórica , n a form a d e u m a “ re tórica socia l” , q u e d e -ve se rvir d e in sp ira çã o a o a n trop ólog o, n ã o a g ra m á tica , q u e te n d e a con d u zi-lo n a d ire çã o d e form a lism os e u n ive r-sa lism os se m p re m a is ou m e n os d u vi-d osos.

Pod e m os com p re e n d e r, a ssim , q u e o te rce iro te rm o d o títu lo d a ob ra se ja o “ Esta d o-n a çã o” , p ois H e rzfe ld , com o b oa p a rte d e n ós – se n ã o tod os n ós h o-je – d e se n volve su a s p e sq u isa s e m u m a socie d a d e d e sse “ tip o” . Q u a se tod o o li-vro g ira , con se q ü e n te m e n te , e m torn o d e ssa q u e stã o, a in d a q u e se ja m os ca -p ítu los 2, 3 e 4 os q u e a b ord a m m a is d i-re ta m e n te o te m a . Essa situ a çã o q u a se in e lu tá ve l coloca , p a ra o a n trop ólog o, u m a sé rie d e p rob le m a s m a is ou m e n os con h e cid os. C om o m a n te r a a b ord a g e m e tn og rá fica d a d iscip lin a se m p e r d e r os g ra n d e s p a n ora m a s ca ra cte rísticos d e s-sa s form a çõe s socia is? Por ou tr o la d o, com o a tin g ir e ssa visã o p a n orâ m ica

se m a b rir m ã o d a n ossa m a rca re g istra d a , q u e é a d e com p a rtilh a r e torn a r in -te lig íve is a s e xp e riê n cia s vivid a s p e los a g e n te s? Aq u i, H e rzfe ld n ão se re fu g ia n a solu çã o m a is fá cil: a b a n d on a r o p la-n o m a is g e ra l p a ra ou tra s d iscip lila-n a s e , a d a p ta n d o u m ve lh o ch a vã o, d ize r q u e n ã o e stu d a u m Esta d o-n a çã o, m a s e m u m Esta d o-n a çã o. C om o se e sse corte fosse p ossíve l, com o se fosse in d ife re n -te , p a ra a g e n -te s e a n trop ólog os, o fa to d e e sta re m , a m b os, im e rsos e m form a -çõe s d e ssa n a tu re za .

C om o p roce d e r e n tã o? Tra ta -se – o ca p ítu lo 5 e o p osfá cio d o livro sã o con -clu sivos sob re e sse p on to – d e d e m on s-tra r d e q u e m od o a a n trop olog ia p od e con trib u ir, d e form a e sp e cífica , p a ra a com p re e n sã o d o Esta d o-n a çã o. E a q u i se fe ch a o círcu lo, n a m e d id a e m q u e o a n trop ólog o, q u e e n ca ra e sse Esta d o-n a çã o e m se u s p la o-n os d e e xistê o-n cia m a is con cre tos – a q u e le s d a s e xp e riê n -cia s vivid a s p e los in d ivíd u os e g ru p os q u e n e le h a b ita m –, p e rce b e im e d ia ta -m e n te q u e o q u e se d e n o-m in a co-m e sse n om e con siste , n a ve rd a d e , e m u m con -ju n to a b e rto d e a g e n te s e op e ra çõe s, p ossu in d o com o d e n om in a d or com u m o fa to d e e sta re m volta d os p a ra u m a “ d e sp oe tiza çã o” d a vid a socia l, ou se ja , p a ra a e sse n cia liza çã o, n a tu ra liza çã o e lite ra liza çã o d e e xp e riê n cia s socia is se m p re m ú ltip la s e p olifôn ica s. E a q u i, d e fa to, o Esta d o e n con tra a cu ltu ra .

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Esta d o op e ra a tra vé s d e su a e sse n cia liza -çã o: a n in g u é m se rá p e rm itid o p ossu ir m a is d e u m a re lig iã o, u m p e rte n cim e n -to loca l, u m a e tn ia ou u m a cor. “ Estilos” , se m p re m óve is e con te xtu a is, con -ve rte m -se e m “ id e n tid a d e s” q u e , p or su a ve z, sã o crista liza d a s e m “ e tn icid a -d e s” q u e , fin a lm e n te , se e n rije ce m co-m o “ n a cion a lid a d e s” (:42-43, e tod o o ca p ítu lo 4). A “ la b ilid a d e se m â n tica d os va lore s loca is” , q u e fa z com q u e p e r-te n cim e n tos fa m ilia re s, g ru p a is, é tn icos e m e sm o n a cion a is fu n cion e m com o ve rd a d e iros sh ifte rs (:45-46) – ou se ja , só fa ça m se n tid o e m re la çã o a os a g e n te s e m in te ra çã o e m d e te rm in a d o con te xto –, te n d e a se r e lim in a d a ou lim ita -d a p e lo Esta -d o. Ao m e sm o te m p o, u m a ve z su b sta n cia liza d a s, e ssa s va riá ve is (d ora va n te “ va lore s” ou m e sm o “ coi-sa s” ) re torn a m à vid a socia l cotid ia n a e a lim e n ta m ód ios, d iscrim in a çõe s e m a s-sa cre s (ca p ítu los 4 e 5).

.A b oa von ta d e d a a n trop olog ia n ã o é su ficie n te n e sse ca so. N ã o b a sta q u e a firm e m os q u e a s id e n tid a d e s sã o m ú l-tip la s, q u e a s e tn ia s sã o re la cion a is, q u e o con ce ito d e ra ça n ã o p ossu i fu n d a -m e n to ob je tivo e q u e o “ ca rá te r n a cion a l” é u m a icion ve cion çã o. N ã o b a sta , ta m -p ou co, su ste n ta r q u e é -p re ciso e vita r os d u a lism os e os e sse n cia lism os, n e m a trib u ir tod o o m a l à q u e trib ra d e su p osta s re -la çõe s d e re cip rocid a d e , form a d e “ n os-ta lg ia e stru tu ra l” q u e , d e sd e M a u ss, te n d e m os a com p a rtilh a r com n ossos in -form a n te s (cf. ca p ítu lo 6). Isto p orq u e e ste s p od e m n ã o con cord a r con osco, ch e g a n d o a m a ta r ou m orre r p e la id é ia d e q u e o “ sa n g u e ” d e fin e o p e rte n cim e n to a u cim g ru p o, q u e o vizin h o é “ n a -tu ra lm e n te ” in fe rior, e q u e ta l ou q u a l m in oria só p od e m e sm o se com p orta r d e d e te rm in a d a m a n e ira . Ao re n u n cia r, e m n om e d o “ p olitica m e n te corre to” , à a n á lise d o q u e H e rzfe ld d e n om in a “ e s-se n cia lism os p rá ticos” (:26-29; 171),

corre m os o risco d e “ e sse n cia liza r o [p róp rio] e sse n cia lism o” (:171).

N a d a d isso sig n ifica , é cla ro, q u e o Esta d o se ja m e n os “ p oé tico” d o q u e q u a lq u e r ou tra coisa . Ao con trá rio, se u p od e r d e p rod u çã o e m a n ip u la çã o d a re a lid a d e é b e m con h e cid o. O corre a p e n a s q u e fa z p a rte d a “ p oé tica d e Es-ta d o” o e sforço p a ra a p a g a r tod os os ra stros d e su a p róp ria cria tivid a d e , a o m e sm o te m p o q u e b u sca im p e d ir a d e tod os os d e m a is. De sse m od o, p od e su s-te n ta r – e h á q u e m n e le a cre d is-te – q u e su a s in ve n çõe s sã o “ n a tu ra is” , se m e a n -d o a ssim e ssê n cia s p or to-d a p a rte . To-d o cu id a d o é p ou co p or p a rte d o a n trop ó-log o: u m d e scu id o e e le e stá p ron to a a ce ita r com o d a d o a q u ilo cu ja con stru -çã o d e ve ria te n ta r d e m on stra r e torn a r in te lig íve l. De sse p on to d e vista , é p re ciso ob se rva r in clu sive q u e a “ d e m ocra -cia ” n ã o é n e ce ssa ria m e n te sin ôn im o d e m a ior tole râ n cia , ou se ja , d e m e n os e sse n cia liza çã o. É o con trá rio q u e p od e m e sm o ocorre r, n a m e d id a e m q u e , e m n om e d a ig u a ld a d e , tod a d ive rsid a d e te n d a a se r su p rim id a (cf. :83 p a ra o “ ig u a lita rism o e sse n cia lista ” ; e :111, p a ra a “ e xclu sã o” e m n om e d e “ id e a is d e m ocrá ticos” ).

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d e cria çã o a q u ilo, p a la vra s e coisa s, q u e n os é a p re se n ta d o com o “ n a tu ra l” .

NEIBURG, Federico. 1997. Os Int elec-tuais e a Invenção do Peronismo. São Paulo: Edusp. 242 pp.

Regina Abreu

Pe sq u isa d ora -visita n te , PPG AS-M N -UFRJ

Re d ig id o in icia lm e n te com o te se d e d ou tora d o p a ra o PPG AS-M N -UFRJ , e sse livro p a rte d e u m te m a a m p lo, p o-lê m ico e cru cia l p a ra a con stru çã o d a id e n tid a d e n a cion a l n a Arg e n tin a : o p e -ron ism o. N e ib u rg d e sca rta d e sd e o in í-cio a s le itu ra s a p re ssa d a s e m a is ób via s sob re o te m a , e xp licita n d o a m u ltip lici-d a lici-d e lici-d e sig n ifica lici-d os q u e e ssa ca te g oria foi a d q u irin d o a o lon g o d o te m p o: m o-vim e n to p olítico n a scid o e m m e a d os d a d é ca d a d e 40 e id e n tifica d o com a fig u -ra d e J u a n Pe rón ; p e ríod o d a h istória d a Arg e n tin a q u e se in icia e m 1945 e te r-m in a e r-m 1955; p a rtid o p olítico cria d o p or Pe rón log o a p ós su a vitória n a s e le i-çõe s d e 1946, q u e sob re vive a té h oje com ou tra s d e n om in a çõe s; re fe rê n cia p a ra a id e n tid a d e p olítica d os q u e p a s-sa ra m a in voca r a fig u ra d e Pe rón e a re cord a çã o d e se u s g ove rn os p a ra le g i-tim a r d ife re n te s p osiçõe s n o ca m p o d a p olítica .

A p e sq u isa é , n a ve rd a d e , o e stu d o d e u m p e ríod o d a h istória socia l e cu l-tu ra l d a Arg e n tin a ; a o m e sm o te m p o, o a u tor re ve la , com in te n sid a d e ca d a ve z m a ior, o p a p e l a tivo d os in te le ctu a is n a “ in ve n çã o” d o p e ron ism o, n oçã o q u e n a d a te m a ve r com u m ju ízo a ce rca d a a rtificia lid a d e d a s in te rp re ta çõe s a b a r-ca d a s p e lo te rm o. Pe lo con trá rio, N e i-b u rg i-b u sca a ce n tu a r u m a p e rsp e ctiva n ã o su b sta n cia lista , a te n ta à d im e n sã o p rod u tiva d a s a çõe s socia is sob re a

“ re a lid a d e ” socia l. Ag in d o d e sse m od o, e le in trod u z u m a sé rie d e su rp re sa s p a -ra o le itor p ou co fa m ilia riza d o com a h istória socia l e cu ltu ra l d a Ar g e n tin a . A p rim e ira é a m u d a n ça d e foco v is-à-v is b oa p a rte d a lite ra tu ra sob re o te m a , e m q u e o p e ron ism o a p a re ce com o o re -su lta d o d e a çõe s d e g ru p os p op u la re s. N e ib u rg , a o con trá rio, p a rte d o p re ssu -p osto d e q u e , com o tod o fe n ôm e n o so-cia l e cu ltu ra l, o p e ron ism o re su lta d a s a çõe s d e d ife re n te s a g e n te s socia is, si-tu a d os e m d istin ta s á re a s d o e sp a ço socia l. N e sse se n tid o, os in te le ctu a is tive -ra m d e sd e o in ício p a p e l ce n t-ra l n o p ro-ce sso d e con stru çã o d o p e ron ism o, e é ju sta m e n te e ste o p on to in ve stig a d o. N o e n ta n to, e m ve z d e e xp or u m a n ova in te rp re ta çã o d o p e ron ism o – ou ju lg a r o m é rito d a s d istin ta s in te rp re ta çõe s q u e o tom a ra m com o ob je to –, o in te re s-se d o a u tor é “ com p re e n d e r a lóg ica socia l su b ja ce n te à e xistê n socia d os d e b a -te s, a g ê n e se d a s fig u ra s in -te le ctu a is q u e d e le s p a rticip a ra m e se u s e fe itos sob re a con stru çã o d o p róp rio p e ron is-m o cois-m o fe n ôis-m e n o socia l e cu ltu ra l” (:16).

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d o re g im e m ilita r – a o m e sm o te m p o q u e se con ve rte u e m a lvo d e op osiçã o d e g ra n d e p a rte d os p a rtid os p olíticos e d a s e lite s socia is e e con ôm ica s. Re fle -tin d o sob re a s re p re se n ta çõe s d o p e ron ism o e d o a ron tip e roron ism o, o a u tor d e -cid e foca liza r ju sta m e n te o p e ríod o q u e se a b riu e m 1955, q u a n d o u m g olp e m ilita r p ôs fim a o se g u n d o g ove rn o Pe -rón . A p e rce p çã o d e q u e foi a p a rtir d a ch a m a d a “ Re volu çã o Lib e rta d ora ” q u e se d e u im p orta n te re e stru tu ra çã o d o e sp a ço socia l, com a e closã o d e in ú m e -ra s fa la s a fa vor e con t-ra o p e ron ism o, con d u z N e ib u rg a p rivile g ia r os d iscu rsos p rod u zid os n e sse m om e n to. Tra ta -se d e u m a e stra té g ia p rod u tiva : tom a r a via d o “ fim ” d o p e ron ism o p a ra p e rce b e r a lóg ica su b ja rce n te à su a in ve n -çã o. A d e stitu i-çã o d e Pe rón d o p od e r te ria p rovoca d o u m a sé rie d e d e b a te s com a fin a lid a d e d e e sta b e le ce r u m a n ova e ta p a n a vid a d a Ar g e n tin a , d e b a te s q u e con stru íra m o ch a m a d o “ fe -n ôm e -n o p e ro-n ista ” com o ob je to, a o p rocu ra r e n te n d e r a h istória re ce n te d o p a ís. N e ib u rg d e b ru ça se sob re a lg u m a s d e ssa s re p re se n ta çõe s, e xp licita n -d o os p re ssu p ostos m a is sig n ifica tivos q u e p e rm ite m com p re e n d ê la s e m con -ju n to. Su a in te n çã o n ã o é isola r ta is d is-cu rsos d a tra m a socia l ou d o con te xto e m q u e sã o p rod u zid os, m a s e n fre n ta r a s re la çõe s, os e m b a te s, os con flitos e os p on tos d e con ta to e n tre e le s. Tra ta se d e a n a lisa r u m a “ re tórica d e com b a -te ” , coloca n d o e m e vid ê n cia a lg u m a s d a s d im e n sõe s d a s lu ta s d e cla ssifica çã o tra va d a s n ã o só e m torn o d e re p re -se n ta çõe s d o p e ron ism o, com o ta m b é m d a s d ife re n te s p osiçõe s q u e su ste n ta -va m os d ive rsos p on tos d e vista sob re e le .

N o p rim e iro ca p ítu lo, n o in tu ito d e forn e ce r u m m a p a d a s d ife re n te s p osçõe s (“ re p e rtórios” ) a ce rca d e p e ron i-za çã o, d e sp e ron ii-za çã o e re p e ron ii-za çã o,

N e ib u rg vê -se d ia n te d a d ifícil ta re fa d e , d e n tro d a a m p la b ib liog ra fia e xis-te n xis-te sob re o a ssu n to, e scolh e r os xis-te xtos e os p orta voze s m a is sig n ifica tivos p a -ra com p or se u u n ive rso d e t-ra b a lh o. O a u tor d e cid e la n ça r m ã o d e a p e n a s trê s te xtos, ju stifica n d o su a e scolh a p e lo fa to d e se tra ta r d e trê s ob ra s con sa g ra -d a s, e scrita s p or a u tore s q u e sã o fig u ra s ce n tra is d a Arg e n tin a p ós-Pe rón , com p ote n cia l su ficie n te , p orta n to, p a ra ilu s-tra r a s d im e n sõe s con stitu tiva s d os site m a s d e q u e stõe s e d ife re n ça s con s-tru íd os p e los p a rticip a n te s d os d e b a te s sob re o p e ron ism o a p ós a “ Re volu çã o Lib e rta d ora ” . O p rim e iro é d e u m a u tor in d ivid u a l, M a rio Am a d e o, e foi p u b li-ca d o e m 1956 sob o títu lo A y e r, H oy y M añ an a. O se g u n d o, in titu la d o Las Iz -q u ie rd as e n e l Proce so Político, é o p ro-d u to ro-d e u m a re p orta g e m org a n iza ro-d a e m fin s d e 1958 p e lo a d vog a d o C a rlos Stra sse r. O te rce iro, La N atu rale z a d e l Pe ron ism o, foi la n ça d o e m 1967, p or C a rlos H . Fa yt, titu la r d a C á te d ra d e Di-re ito Político, com o ob je tivo d e “ r e u n ir m a te ria l p a ra e n te n d e r o q u ê e o p or-q u ê d o p e ron ism o” (:37).

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si p róp rios e p la n e ja n d o u m a n ova Ar-g e n tin a . A p róp ria “ socioloAr-g ia cie n tífica ” é tom a d a com o u m a voz d e n tre ta n -ta s ou tra s q u e com p u n h a m o ca m p o d a s re p re se n ta çõe s sob re o p e ron ism o. Atri-b u ir a si o p a p e l d e p orta -voz d a ciê n cia e ra u m d os se u s p rin cip a is a rg u m e n tos d e a u torid a d e .

O ca p ítu lo 3 é d e d ica d o a o e xa m e d a re la çã o e n tre a s in te rp re ta çõe s d o p e ron ism o e os re la tos con sa g ra d os so-b re a n a çã o a rg e n tin a e su a h istória . Sob o títu lo “ Pe ron ism o e M itolog ia s N a cion a is” , o a u tor re corre à n oçã o clá ssica d e m ito form u la d a p or Lé vi-Stra u ss, p rocu ra n d o os n e xos e n tre o p e ron ism o e o “ e sq u e m a d e e ficá cia p e rm a n e n te ” d o m ito, su a ca p a cid a d e d e m a n te r u m a re la çã o sim u ltâ n e a com o p a ssa d o, o p re se n te e o fu tu ro, su a d u -p la e stru tu ra h istórica e a n ti-h istórica . Por ou tro la d o, re tom a te m a s ca ros à sociolog ia w e b e ria n a a o p rocu ra r os vín -cu los e n tre a con sa g ra çã o socia l d e n o-va s p rofe cia s e d e n ovos p rofe ta s e u m a tra d içã o p a rticu la r. Su b ja ce n te a e ssa s p re ocu p a çõe s e stá o a n se io d e com -p re e n d e r o ca rá te r con stru íd o d a s re a lid a lid e s n a cion a is e lid os m itos q u e a s le -g itim a m , b e m com o d e scre ve r a ló-g ica socia l q u e e m b a sa e p e rm ite a e m e r-g ê n cia d e n ovos p rofe ta s. O a u tor p rcu ra d e m on stra r d e q u e m od o e sse s n o-vos p rofe ta s, vive n d o sob d e te rm in a d a s con d içõe s e a g in d o d e a cord o com in te -re sse s ta m b é m socia lm e n te con stru íd os, fora m con sa g ra íd os com o in té rp re -te s a u toriza d os d os d ile m a s n a cion a is – “ d ile m a s” q u e , p or se u tu rn o, fora m ta m b é m socia lm e n te con stru íd os e p a s-sa ra m a le g itim a r a fa la d e se u s “ in té rp re te s” . Acom rp a n h a n d o a s re rp re se n ta -çõe s d e ca d a in té rp re te fica e vid e n te o q u a n to e xp lica r o p e ron ism o n a Arg e n -tin a e ra e xp lica r a p róp ria Arg e n -tin a e d e q u e form a ca d a e xp lica çã o tra zia con sig o u m p roje to p a ra o p a ís. N e sse

m ovim e n to d e e xp lica r o p a ís, os in te -le ctu a is d e 1955 re sg a ta ra m ou a tu a liza ra m e m su a s a n á lise s a n tig os p a ra -d ig m a s, -d e n tre os q u a is a te se -d e se r a Arg e n tin a u m p a ís p e rm a n e n te m e n te d ivid id o, m a rca d o p e la “ con tra d içã o e n tre d u a s Arg e n tin a s, u m a visíve l, u r-b a n a , m od e rn a , cosm op olita , volta d a p a ra o m e rca d o m u n d ia l p or in te rm é d io d a m e tróp ole d e Bu e n os Aire s; ou tra ocu lta , ru ra l, tra d icion a l, volta d a p a ra o m e rca d o in te rn o, cu ja e xp re ssã o m á xi-m a e ra xi-m a s p rovín cia s d o in te rior d o p a ís” (:88-89).

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Pa ra a a n á lise d a fu n d a çã o d a “ so-ciolog ia cie n tífica ” , o a u tor tra b a lh a com a tra je tória d e G in o G e rm a n i, id e n -tifica d o com o o “ p a i fu n d a d or” d a d iscip lin a n a Arg e n tin a . A a n á lise d a b iog ra fia socia l e in te le ctu a l d e G e rm a n i con d u z à com p re e n sã o d o “ p roce sso d e fa -b rica çã o socia l” e d e in stitu cion a liza çã o d a sociolog ia n o p a ís a p a rtir d a se g u n -d a m e ta -d e -d os a n os 50. Por ou tro la -d o, a tra je tória d e G e rm a n i p e rm ite u m m e -lh or e n te n d im e n to d a s “ p ossib ilid a d e s a b e rta s n o ca m p o in te le ctu a l p a ra a con stitu içã o d e n ovos p on tos d e vista so-b re a socie d a d e d u ra n te o p e ríod o d a h istória socia l e cu ltu ra l d a Arg e n tin a e m q u e o p e ron ism o e a d e sp e ron iza çã o d e fin ira m u m a a g e n d a d e p rob le m a s n a cion a is” (:158). Por fim , o ú ltim o ca p í-tu lo con ce n tra -se n a p a la vra d e ord e m d ivu lg a d a a p a rtir d e 1955 in cita n d o à d e sp e ron iza çã o. N e ib u rg p rocu ra tra ça r u m p a in e l d os d ife re n te s sig n ifica d os d e ssa p a la vra d e ord e m p a ra os d ive rsos a g e n te s e g ru p os in te re ssa d os.

Se ca d a ca p ítu lo con té m u m a a n á li-se in stig a n te e re ve la d ora d e a sp e ctos ce n tra is d a h istória socia l e cu ltu ra l d a Arg e n tin a , o livro e m con ju n to fa z u m a in cu rsã o e m e xp re ssiva s te oria s “ n a tiva s” , p e rcorre n d o “ e xp lica çõe s d o p e ron ism o” q u e sã o, ta m b é m , “ e xp lica -çõe s d a Arg e n tin a ” . O a u tor le va a b om te rm o o ob je tivo in d ica d o n o in ício d o livro d e “ m ostra r q u e tod a s a s in te rp re -ta çõe s d o p e ron ism o fora m te oria s so-b re a Arg e n tin a , q u e n a s re la çõe s d a s d ife re n te s fig u ra s in te le ctu a is com o p e -ron ism o e sta va e m jog o ta n to su a p ró-p ria e xistê n cia socia l, q u a n to o id e a l d e u m a b oa socie d a d e , u m a p rop osta d e fu tu ro” (:158). Acom p a n h a n d o a lon g a e b e m d ocu m e n ta d a a rg u m e n ta çã o, fi-ca e vid e n te com o u m a socie d a d e n ã o a p e n a s con strói se u s “ e n ig m a s” , com o ta m b é m a s fig u ra s e n ca rre g a d a s d e im -p or form a s “ corre ta s” d e “ d e cifrá -los” .

STOCKING JR., George (org.). 1996. Volksgeist as M et hod and Et hics. Es-says on Boasian Ethnography and the German Ant hropological Tradit ion. M adison: The University of W isconsin Press. 349 pp.

Priscila Faulhaber

Pe sq u isa d ora d o M u se u G oe ld i/ C N Pq

La n ça d a e m 1983, a sé rie H istory of A n th rop olog y , d irig id a p or G e org e Stock in g J r., se com p le ta com u m volu -m e , o oita vo, in te ira -m e n te d e d ica d o à tra je tória d e Fra n z Boa s. N ã o se tra ta , con tu d o, d o fim d a sé rie , m a s d e u m a tra n siçã o: o p róxim o volu m e se rá a in d a org a n iza d o p or Stock in g J r., m a s já e m cola b ora çã o com Rich a rd H a n d le r – q u e , a p a rtir d o d é cim o volu m e , a ssu -m irá a d ire çã o d a -m e s-m a .

N e sse ú ltim o volu m e sã o e xa m in a -d os, sob -d ife re n te s â n g u los, a sp e ctos -d a form a çã o in te le ctu a l e cu ltu ra l (d a Bild u n g ) Bild e Fra n z Boa s – n a sciBild o e m M in -d e n , Ve stfália, p rovín cia -d a Prú ssia –, sob re tu d o su a s ra íze s e in flu ê n cia s n o p e n sa m e n to a le m ã o. Em lin h a s g e ra is, se u itin e rá rio in te le ctu a l d e lin e ia -se n a te n sã o e n tre d u a s a b ord a g e n s m e tod o-lóg ica s: a física e a cosm og rá fica .

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fe n ôm e n os q u e p a re ce m e sta r con e cta -d os a p e n a s n a m e n te -d o ob se rva -d or. Ao con trá rio, a p róp ria u n id a d e d e ob je tos d o físico lh e p a re ce su b je tiva (:16).

M a tti Bu n zl d e sta ca , d e n tr e ou tra s in flu ê n cia s a le m ã s sob re Boa s, os irm ã os H u irm b old t. A cosirm og ra fia foi con -ce b id a p or A. H u m b old t n o se n tid o d e u m a d e scriçã o d os h om e n s e su a s a çõe s a p a rtir d e se u p róp rio ca rá te r e d os e ve n tos q u e in flu e n cia ra m su a s vid a s, b e m com o a ob se rva çã o siste m á tica d e ca d a fe n ôm e n o a p a rtir d e su a p róp ria e xistê n cia (:13), n o con te xto d a s crítica s à te n ta tiva ilu m in ista d e re d u zir o m u n d o a p rin cíp ios a b stra tos e à cla ssifica çã o h ie rá rq u ica d os fe n ôm e n os se g u n -d o p rin cíp ios p ositivista s -d e -d e se n volvim e n to (:39). N os tra ta d os d e W. H u volvim b old t, d e n tro d o re fe re n cia l d o n a cion a -lism o rom â n tico a le m ã o, a lin g u a g e m , cu ja n e ce ssid a d e e h a b ilid a d e te ria m orig in a d o a h u m a n id a d e , é e n foca d a com o re p re se n ta çã o d o “ g ê n io d o p o-vo” (:33). A p a rtir d e ssa s p re m issa s, Ba stia n , d e q u e m Boa s foi a ssiste n te , con ce b e os se re s h u m a n os com o p rod u -tos h istóricos con stitu íd os d u p la m e n te p e lo m u n d o e sp iritu a l (g e stig e n ) e o m e io a m b ie n te físico, e a s tra je tória s d o Volk e rg e d an k e n (lóg ica p op u la r) e m re -la çã o com p rovín cia s g e og rá fica s (:52). Ap ós a m ig ra çã o p a ra os Esta d os Un i-d os, e m 1887, Boa s, a p e sa r i-d e a com o-d a r-se a u m a o-d ivisã o in stitu cion a l o-d os ca m p os d iscip lin a re s, a fa sta -se , d e n tro d e u m a p e rsp e ctiva p lu ra lista , d o e tn o-ce n trism o e m vig or, d á p rosse g u im e n to à s lin h a s tra ça d a s p or Ba stia n e re a liza o p roje to d e W. H u m b old t d e e sta b e le ce r a n á lise s d a s e stru tu ra s d a lin g u a -g e m , d a in ve sti-g a çã o d e su a s re la çõe s g e n é tica s e d a s re la çõe s com a p e rso-n a lid a d e rso-n a ciorso-n a l (:66). A p a rtir d e 1900, Boa s e n fa tiza os p roce ssos p e los q u a is o “ e sp írito d o p ovo” (Volk sg e ist) tra d u z e le m e n tos e xóg e n os, b e m com o

a te rm in olog ia d o p a re n te sco, d os ri-tu a is e d a s re la çõe s socia is.

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Ira J a ck n is d e se n volve u m e stu d o d e ca so d e com o o con h e cim e n to e tn o-g rá fico é o-g e ra d o n a tra je tória d a m e to-d olog ia to-d e Boa s. N o com e ço to-d e su a ca r-re ira a té 1890, p e ríod o n o q u a l r-re a lizou a m a ior p a rte d e se u s tra b a lh os d e ca m p o, a p rá tica d e p e sq u isa e ste ve ce n tra -d a n a cole ta -d e a rte fa tos, a in -d a q u e se ob se rva sse u m a e volu çã o p a ra o te xtu a l. O in te re sse d irig ia se ta m b é m p a -ra a s in form a çõe s con tid a s n os re la tos n a tivos, p oré m a in d a volta d o p riorita -ria m e n te a os ob je tos d e stin a d os a os m u se u s, a lg o q u e p u d e sse se r cole ta d o, p re se rva d o e e stu d a d o (:200). A p a r tir d e 1890 p a ssa a con sid e ra r “ ‘tod a a cu ltu ra d e u m a trib o’ – a orie n ta çã o con -te xtu a l” (:200). Em Th e Lim itation s of th e Com p arativ e M e th od in A n th rop o-log y , d e 1896, os costu m e s e cre n ça s já n ã o e ra m os ob je tos ú ltim os d a p e sq u i-sa , p ois su a p re ocu p a çã o ce n tra l se ria p rin cip a lm e n te d e scob rir os p roce ssos a tra vé s d os q u a is ce rtos e stá g ios d e cu l-tu ra se d e se n volve ra m . Ve rifica -se , a s-sim , u m d e sloca m e n to d o “ ob je tivo” com o e xte rn a com e n te ob se rva d o p a ra o ob -je tivo com o cu ltu ra lm e n te con stitu íd o. É form u la d a a ssim u m a n ova con ce p -çã o d o ob je to e tn og rá fico e d o ob je to d a e tn olog ia , com a q u a l se p a ssa a p riori-za r o e xa m e d os con te xtos cu ltu ra is n os q u a is os ob je tos sã o con stru íd os. N o fim d e su a ca rre ira , o in te re sse ce n tra l n ã o e ra ta m p ou co o re la to orig in a l e n q u a n -to a rte fa -to, m a s a re con stru çã o ve rb a l. O s ob je tos p a ssa ra m a se r vistos ta m b é m com o re cu rsos p a ra u m a a u tore con stitu içã o cu ltu ra l p e los re p re se n ta n -te s d os p róp rios p ovos (:209).

J u d ith Be rm a n a n a lisa , e m u m a te n -ta tiva d e con stitu ir b a se s sólid a s p a ra a s g e n e ra liza çõe s a n trop ológ ica s, a s p rim e ira s e tn og ra fia s d e Boa s, p ila re s d e tod o o se u tra b a lh o fu tu ro (:215), b e m com o su a s re la çõe s com se u s “ in -te rlocu tore s d e ca m p o” , com o H u n t,

ta m b é m in té rp re te e a u tor. O tra b a lh o b oa sia n o te ria fica d o m a rca d o, a té o fim d e su a tra je tória , p e la s te n sõe s m a l re -solvid a s e n tre o p on to d e vista d o a n tro-p ólog o e o tro-p on to d e vista n a tivo.

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Su za n n e M a rch a n d a p on ta com o o cu lto a o e xótico p or p a rte d o cla ssicism o e d o rossicism a n tisssicism o g e rssicism â n ico n ã o le vou os e xp lora d ore s a con h e ce r e e stu -d a r a p e n a s os ch a m a -d os p ovos p rim iti-vos d a Am é rica . A in te rve n çã o a le m ã n a Ásia M e n or (:334) g e rou tod a u m a p olítica cu ltu ra l d e cole ta d e a rte fa tos a rq u e ológ icos vin cu la d a à p olítica im -p e ria lista e colon ia l. Esta -p olítica , já n o d e sp on ta r d o sé cu lo XX, n ã o sofre u ta n -ta in flu ê n cia d os id e a is rom â n ticos q u a n to d o p ositivism o e d o cie n tificis-m o, e itificis-m p licou a cole ta d e ve rd a d e iros te sou ros. Ta is a rte fa tos, d issocia d os d os con te xtos cu ltu ra is on d e tin h a m u m se n tid o, e ra m tra n sform a d os e m m e ros fra g m e n tos p a ra e xp osiçã o n os m u se u s, d e le ite d os se u s u su á rios.

A le itu ra d e ssa cole tâ n e a d e com e n ta d ore s d o itin e rá rio d e Boa s é u m con -vite à re a va lia çã o d e su a ob ra , a in d a n ã o p u b lica d a e m p ortu g u ê s, a p e sa r d a s in ú m e ra s tra d u çõe s e la b ora d a s com fin s d id á ticos. Boa s con stitu i re fe rê n cia n ã o só p a ra e tn ólog os, m a s p a ra tod os a q u e le s q u e se in te re ssa m p e la e tn og ra fia d e ou tra s form a s d e sa b e r. Va le -ria a p e n a u m e sforço e d ito-ria l n o se n ti-d o ti-d e sa n a r e ssa la cu n a .

TEIXEIRA-PINTO, M árnio. 1997. Ieipa-ri: Sacrifício e Vida Social entre os Ín-dios Arara (Caribe). São Paulo/ Curit i-ba: Hucit ec e Anpocs/ Edit ora UFPR. 413 pp., ilustr.

Julio Cezar M elatti

Prof. d e An trop olog ia , Un B

O livro te m p or foco u m a im p orta n te ce -rim ôn ia d os ín d ios Ara ra s, ce n tra d a e m u m p oste , e rig id o n o p á tio, e m cu jo top o, a té te m top os re ce n te s, se top u n h a o crâ -n io d e u m i-n im ig o, h oje su b stitu íd o p or

u m a b ola d e la m a . Só isso já d e sp e rta a a te n çã o d o le itor, p ois, vive n d o os Ara -ra s sob re o d ivisor q u e se p a -ra a s á g u a s q u e corre m p a ra o Iriri, a flu e n te d o Xin -g u , d a s q u e d e sce m d ire ta m e n te p a ra o Am a zon a s (m a s d e sta s ú ltim a s re tira -d os a p ós log ra re m o con ta to a m istoso com os b ra n cos), e le s tê m com o vizi-n h os vá rios ou tros g ru p os trib a is q u e ta m b é m fa zia m a ca ça d e ca b e ça s p or u m a e xte n sa á re a , d e sd e o Xin g u a té o M a d e ira . En tre ta n to, ta is g ru p os p e r-te n cia m a o tron co tu p i, e n q u a n to os Ara ra s, d a fa m ília ca rib e , con stitu ía m ta lve z a ú n ica e xce çã o.

M a s o a u tor op ta p or n ã o com p a ra r, p e rm a n e ce n d o n o u n ive rso d os Ara ra s, e n tre os q u a is re a lizou p e sq u isa d e ca m p o d e ce rca d e q u a torze m e se s e m vá ria s e ta p a s, d istrib u íd a s p e los a n os 1987, 1988, 1992 e 1994.

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s-tã o a ssocia d a s su a s m ú sica s. M ostra com o os ca ça d ore s, a g u a rd a d os cocom a b e -b id a fe rm e n ta d a , q u e d e ve m re tri-b u ir com ca rn e , e n tra m n a a ld e ia fin g in d o u m a ta q u e , u m a e n ce n a çã o a g re ssiva om itid a n a form a m a is a b ra n g e n te d o rito, q u a n d o h á o Ie ip ari. Exp õe o tra ta -m e n to d o in i-m ig o, o q u e lh e d ize -m n o câ n tico e n toa d o a n te s d e m a tá -lo e e sq u a rte já lo. Alé m d o crâ n io, sq u e in te -g ra u m in stru m e n to m u sica l a n te s d e vir a coroa r o p oste ritu a l, ou tra s p a rte s d o corp o lh e sã o re tira d a s, m a s se u d e s-tin o, ta lve z p or la cu n a n a m e m ória d os Ara ra s a tu a is, é a p e n a s e sb oça d o: os os-sos d a s m ã os e d os p é s, a p e le d o rosto, o e sca lp o, a s vísce ra s. De scre ve a e re -çã o d o p oste , com o os h om e n s o d e sca s-ca m com p a n s-ca d a s e p a la vra s a g re ssi-va s, e com o a s m u lh e re s o a b ra ça m for-te m e n for-te e n e le e sfre g a m se n su a lm e n for-te su a s vu lva s. A ca rn e tra zid a p e los ca ça -d ore s -d isp osta e m torn o -d o p oste , a ssim com o u m a p a n e la com b e b id a fe rm e n -ta d a coloca d a a o p é d o m e sm o, sã o co-m o ofe rta s d o Ie ip ari. E a s co-m u lh e re s, a o tom a re m d e ssa b e b id a , d ize m re ve la -d ora m e n te q u e e stã o b e b e n -d o u m filh o. Essa a p re se n ta çã o in icia l, q u e con s-titu i o p rim e iro ca p ítu lo, é e m si m e sm a a u tôn om a , n ã o d e p e n d e d o q u e se se -g u e p a ra se r com p re e n d id a . Dir-se -ia q u e o livro se com p õe d e p a rte s q u e a cre sce n ta m m a is se n tid o à a p re se n ta -çã o in icia l, m a s e la s p róp ria s ta m b é m a u tôn om a s.

O ca p ítu lo re fe re n te à cosm og on ia e à cosm olog ia a p on ta a orig e m d e ce rtos e le m e n tos in te g ra n te s d o rito ou a sp e c-tos d a con d içã o h u m a n a q u e le va m à su a re a liza çã o: o in stru m e n to d e sop ro q u e a d ivin d a d e p rin cip a l toca va p a ra m a n te r a ca lm a e a b oa ord e m n o cé u , on d e a h u m a n id a d e vivia d e m od o p a -ra d isía co, e q u e h oje fa z a m ú sica d e fu n d o d a s fe sta s; a e closã o d e u m con -flito q u e re d u n d ou n a q u e b ra d a ca sca

d o cé u , ob rig a n d o a h u m a n id a d e a vive r sob re os se u s fra g m e n tos, m istu ra -d a a os se re s m a lé ficos a té e n tã o m a n ti-d os ti-d o la ti-d o ti-d e fora ; o e n sin o ti-d a fe sta , d e stin a d a a tra ze r n ovos filh os, p e lo b i-ch o-p re g u iça , q u e ta m b é m d e u a os h u-m a n os a s fla u ta s, a te ce la g e u-m e u-m a lg o-d ã o e p a lh a e p ovoou a m a ta o-d e a n im a is d e ca ça ; a re cu sa d a s m u lh e re s d e con -tin u a r a a p lica r a s té cn ica s d e s-tin a d a s a tra ze r d e volta à vid a a q u e le s q u e m or -ria m , com o fa zia m a n te s d a ca tá strofe , d e m od o q u e a m orte se in sta lou d e fin i-tiva m e n te e n tre os h u m a n os e se rviu p a ra q u e a d ivin d a d e , a g ora tra n sfig u -ra d a n a vin g a tiva on ça p re ta , t-ra n sfor-m a sse a s p a rte s e sfor-m q u e se d ivid e sfor-m os corp os d os d e fu n tos e m u m a sé rie d e se -re s d a n osos; a via b iliza çã o d a ca ça p or in te rm é d io d a s re la çõe s d e re cip rocid a -d e e n tre os xa m ã s e os e sp íritos -d on os d e a n im a is, e m q u e e ste s d ã o à q u e le s b ich os p a ra cria r e p or su a ve z cria m u m ce rto tip o d a q u e le s se re s d a n osos oriu n -d os -d os m ortos. Se o p rim e iro ca p ítu lo su b lin h a a a u sê n cia d a vin g a n ça n a s p a la vra s q u e os Ara ra s d irig e m a o in i-m ig o, o se g u n d o n ã o tra b a lh a o te or d a vin g a n ça q u e a trib u i a o se r su p re m o.

(19)

ra zõe s os fa zia m lim ita r-se à d e fe n siva sã o p e rg u n ta s q u e ta lve z o a u tor n ã o te -n h a fe ito ou , se a s fe z, d a s re sp osta s -n ã o tirou p rove ito.

N o q u a rto ca p ítu lo e xa m in a a coe xistê n cia d e u m a cla ssifica çã o h orizon -ta l d os te rm os d e p a re n te sco, a p lica d a a os m e m b ros d a p róp ria u n id a d e re si-d e n cia l, com u m a ob líq u a , re fe re n te à s re la çõe s com ou tra s u n id a d e s. M ostra com o o ofe re cim e n to ritu a l d a b e b id a fe rm e n ta d a , q u e se fa z e n tre a irm ã (ou o m a rid o d e la ) e o irm ã o, m ora d ore s d e ca sa s d ife re n te s, é coe re n te com a cla s-sifica çã o ob líq u a . O b se rva ta m b é m q u e u m h om e m , a o d a r su a irm ã e m ca sa -m e n to, p od e re ivin d ica r e -m troca a filh a d a q u e le q u e a re ce b e u , q u e n ã o p re cisa n e ce ssa ria m e n te se r filh a d e ssa ou d e ou tra irm ã . E a in d a , q u a n d o u m a m u -lh e r, d e n tre a q u e la s a q u e p od e , p e lo jog o d a s troca s, a sp ira r a te r com o e s-p osa , se ca sa com ou tro h om e m , e ste ú l-tim o p a ssa a lh e d e ve r u m a irm ã ou fi-lh a . Em ou tra s p a la vra s, u m a e sp osa re ivin d ica d a q u e se torn a côn ju g e d e ou tro g e ra d ívid a com o se fosse u m a ir-m ã a e ste ce d id a . Se ir-m d ú vid a , tu d o isso é m u ito con vin ce n te e fe ito com m a e s-tria , a p e sa r d e a s troca s d e m u lh e re s e xa m in a d a s n os ca sos con cre tos m a is p a re ce re m d e d u çõe s d a s g e n e a log ia s d o q u e d e scriçõe s fe ita s a p a rtir d e d e -p oim e n tos d os Ara ra s. M a s, te n d o e m vista o rito q u e con stitu i o te m a d o livro, e ste ca p ítu lo ta lve z fosse o lu g a r d e e xa m in a r ta m b é m ce rta s re la çõe s, com o a d os a com ig os d e g u e rra , q u e , a o sa -crifica re m ju n tos u m in im ig o, troca va m e n tre si te m p ora ria m e n te a s e sp osa s. Se , ta l com o a d os a m ig os d e ca ça (re -cru ta d os e n tre os a fin s re a is d o m e sm o g ru p o re sid e n cia l), e ssa p a rce ria tin h a com o p rotótip o g e n e a lóg ico a re la çã o M B/ ZS, m a s e scolh id os e m ou tros g ru -p os re sid e n cia is, n o -p a ssa d o g ru -p os lo-ca is d istin tos, e la p od e ria te r sid o m a is

u m m otivo p a ra o a u tor e xa m in a r a g u e rra com o u m fa tor d e a rticu la çã o e n tre os vá rios g ru p os loca is. Q u e m g u a rd a va o crâ n io d o in im ig o e o u sa va com o in stru m e n to m u sica l? Q u e m g u a r-d a va os ossos r-d os m e m b ros, a p e le r-d a fa ce , o e sca lp o? C om o se fa zia a circu -la çã o d e sse s trofé u s? Q u e im p ortâ n cia te ria m e le s n os ritos d e p a ssa g e m re la tivos à id a d e ? Sã o q u e stõe s q u e p od e -ria m te r sid o e xp lora d a s n e ste ca p ítu lo. O q u in to ca p ítu lo, n a ve rd a d e , a b ra n g e d ois. Su a p a rte in icia l (:305-343) tra ta d a re la çã o e n tre os m od os d e d a r, a s coisa s d a d a s e a s re la çõe s socia is e n volvid a s, d e u m la d o, e os va lore s m o-ra is, d e ou tro. A cla ssifica çã o d a s for-m a s d e d a r b e n s e p re sta r se rviços for-m os-tra -se sob re m od o com p le xa , a p on to d e m a l p od e r se r ilu stra d a p e la clá ssica e s-fe ra q u e com b in a os d is-fe re n te s tip os d e troca com a d istâ n cia socia l, d e sd e o n ú cle o d a re cip rocid a d e g e n e ra liza d a ca -ra cte rística d os p a re n te s p róxim os a té a ca p a m a is e xte rn a d a re cip rocid a d e n e -g a tiva a ssocia d a a os in im i-g os. Alé m d isso, n o ca so d os Ara ra s, e sse g ra d ie n -te é d istorcid o p e los id e a is d e g e n e rosid a rosid e , g e n tile za , solirosid a rie rosid a rosid e , rosid e m a -n e ira q u e a re p re se -n ta çã o g rá fica e sco-lh id a p e lo a u tor le m b ra os e sq u e m a s d e m on stra tivos d a in flu ê n cia d o Sol e d a Lu a n a s m a ré s oce â n ica s (:337).

(20)

d a d e m od o d e m a sia d o su m á rio; H u -b e rt e M a u ss n ã o sã o con voca d os, n e m m e sm o a q u e le q u e os se g u iu n o e xa m e d o m a is d iscu tid o d os ritos d e tra ta m e n -to d os in im ig os e m n osso con tin e n te , Flore sta n Fe rn a n d e s.

Ta l com o a cla ssifica çã o d a s b e b id a s d e a cord o com a a ltu ra d a s p a rte s d os ve g e ta is d a s q u a is sã o p rod u zid a s (:62) ou ta l com o o p oste Ie ip ari, ce n tro d o g ra n d e rito, p od e ría m os d ize r q u e a in -te rp re ta çã o d e se n volvid a n o livro p a ssa d o m a is su b sta n cioso p a ra o m a is e té -re o à m e d id a q u e se d e sloca d a b a se p a ra o top o. M u ito d e m isté rio a in d a p a ira sob re a ca b e ça d o in im ig o. M a s, ce rta m e n te , o Au tor con tin u a rá a b u sca d e m a is se n tid o com a e la b ora çã o d e ou tros tra b a lh os.

N ã o ob sta n te , o livro con stitu i u m a e xce le n te con trib u içã o à e tn olog ia in d íg e n a , ta n to q u e a p a rticip a çã o d a An p ocs n a su a p u b lica çã o ve m a se r o p rê -m io q u e e ssa in stitu içã o lh e con ce d e u com o a m e lh or te se d e d ou tora d o d e 1995. C u riosa m e n te , n ã o h á n e n h u m a re fe rê n cia a o p rê m io n o volu m e .

TILLY, Charles. 1998. Durable Inequa-lit y. Calif ornia: Universit y of Calif or-nia Press. 299 pp.

Jorge Pantaleón

M e stra n d o, PPG AS-M N -UFRJ

A p u b lica çã o d e sse livro p od e ria se r e n -ca ra d a , e m p a rte , com o m a is u m -ca p í-tu lo d a p olê m ica a í-tu a lm e n te e m cu rso sob re p olítica s p ú b lica s e socia is n os Es-ta d os Un id os. O ce rce a m e n to d e fu n d os p a ra a ssistê n cia socia l, som a d o a u m a se le çã o m a is rig orosa d os se u s b e n e fi-ciá rios, à p re ca riza çã o d o e m p re g o e a u m a p e rsiste n te ra cia liza çã o d a s re la -çõe s socia is, vê m se d e se n volve n d o e m

u m con te xto d e a cirra d a s d iscu ssõe s, p rop icia n d o o p osicion a m e n to p ú b lico d e a tore s im p orta n te s d a a ca d e m ia n orte a m e rica n a . A a tu a liza çã o d e a rg u -m e n tos q u e te n ta -m fu n d a -m e n ta r a s d i-fe re n ça s e n tre os se re s h u m a n os te n d o e m vista su a s ca p a cid a d e s cog n itiva s – cu ja form u la çã o m a is crista lin a se e n -con tra n o livro, d e 1994, Th e Be ll Cu r-v e : In te lig e n ce an d Class S tru ctu re in A m e rican Life , d e Rich a rd J . H e rn ste in e C h a rle s M u rra y – d e se n ca d e ou in ú -m e ra s re sp osta s, d e n tre a s q u a is o p ró-p rio livro d o h istoria d or C h a rle s Tilly.

O a u tor é e xtre m a m e n te orig in a l a o tra ta r d a g ê n e se e d a p e rm a n ê n cia d a s d e sig u a ld a d e s h u m a n a s – m e sm o q u e e ssa con sta ta çã o se ja q u a se ób via n a s ciê n cia s socia is, q u e tê m d e m on stra d o q u e ta is d e sig u a ld a d e s se e ste n d e m n o te m p o e n o e sp a ço. Su a orig in a lid a d e con siste n a d iscu ssã o e n a u tiliza çã o d e te oria s e p e rsp e ctiva s a tu a is, p rod u zid a s n o â m b ito d e d ive rsa s d iscip lin a s, tra ta n d o e m con ju n to te m á tica s q u e te n d e m a se r a n a lisa d a s d e m a n e ira isola -d a . O a u tor p rop õe , a ssim , -d e se n volve r – com tod o o p e so q u e e ssa e xp re ssã o p od e ca rre g a r – “ e xp lica çõe s g e ra is” .

Referências

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As fontes escritas oficiais, que se encontravam sob os cuidados da própria Escola Nossa Senhora Auxiliadora (ENSA) serviram de suporte para a construção de um