EDIÇÃO ESPECIAL • 2 0 0 5 • ©RAE • 1 2 7
“Eu não vivo no passado. O passado vive em mim.” Paulinho da Viola
A administração vem assistindo, ao longo das últimas décadas, a um mo-vimento que evidencia o vigor de uma área do conhecimento que busca sua afirmação enquanto campo científico estabelecido. Mesmo que isso expli-cite carências metodológicas, concei-tuais e, por que não dizer, interdisci-plinares que esta área carrrega, é im-possível não reconhecer os avanços alcançados.
Avanços que recuperam em
gran-EM PRESAS E gran-EM PRESÁRIOS, HISTÓRIA
E ADM INISTRAÇÃO
Por Allan Claudius Queiroz Barbosa
Professor e pesquisador do Cepead/ CAD/ UFMG e editor da RAE Edição Especial Minas Gerais
E-mail: [email protected]
RESENHA•EM PRESAS E EM PRESÁRIOS, HISTÓRIA E ADM INISTRAÇÃO
de medida a contribuição histórica das experiências empresariais e de gestores. Neste ponto, é importante dissociar a rica tradição dos estudos de Alfred Ch an dler, por exemplo, que se debruçou sobre a trajetória de grandes empresas norte-america-nas ao longo de décadas, das insos-sas biografias de preten sos ícon es geren ciais con t em p or ân eos, qu e nada trazem além da autoglorifica-ção de passagens e personagens. Os relatos e experiências empresariais, sendo um importante tópico para o entendimento das organizações, sur-gem como a possibilidade concreta de recon h ecer o papel da h istória
como elemento vital para construir o futuro.
Isso fica evidente quando as
refe-rências são os livros Amaro Lanari
Júnior – Pensamento e ação de um siderurgista e Nansen – 70 anos de pre-cisão. Memória Histórica, das ex-pro-fessoras e pesquisadoras da Faculda-de Faculda-de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG Ligia Maria Leite Pereira e Maria Auxiliadora de Faria.
Amaro Lanari Júnior, engenhei-ro formado pela tradicion alíssima Escola de Minas de Ouro Preto, com passagem docente pela Universida-de Universida-de São Paulo, foi seguramente um dos principais idealizadores do pro-AM ARO LANARI JÚNIOR – PENSpro-AM ENTO E AÇÃO DE UM SIDERURGISTA
De Ligia Maria Leite Pereira e Maria Auxiliadora de Faria
Belo Horizonte: Editora C/ Arte, 2002. 304 p.
NANSEN – 70 ANOS DE PRECISÃO. M EM ÓRIA HISTÓRICA
De Ligia Maria Leite Pereira e Maria Auxiliadora de Faria
128 •©RAE • VO L. 45 • EDIÇÃO ESPECIAL MINAS GERAIS
ALLAN CLAUDIUS QUEIROZ BARBOSA
jeto siderú rgico de Min as Gerais, qu e cu lm in ou com a cr iação d a Usiminas na década de 1950 e que alinhou de maneira inequívoca uma vocação m in eradora ao processa-men to e geração do aço. Esse as-pecto, a despeito de su a lógica, ra-tificou essa atividade como o cora-ção produ tivo de u m estado e con s-tru iu toda u ma simbologia em tor-n o da mítica figu ra da mitor-n eiridade. Com u m a argu m en tação m etodo-lógica pau tada n a h istória oral do person agem e de qu em o cercou, é possível entender e perceber que a trajetória de Lanari Júnior, falecido em 1999, expressa elementos tanto do caráter empreendedor e gerencial quanto da dinâmica política e pro-dutiva em curso na sua história. Pon-to de inflexão de uma época, a cria-ção da Usiminas, em parceria com sócios japoneses, foi o locus de sua atuação enquanto gestor, pois ele a presidiu por 18 anos, em meio às tur-bulências políticas que o país enfren-tava nos anos 60 e 70 do século pas-sado.
Na bem retratada experiência, é possível observar que o relato his-tórico demonstra inúmeros elemen-tos que se fazem presentes nos es-tudo organizacionais e que têm sido continuamente discutidos e/ou de-batidos pela comunidade acadêmi-ca de administração. Com efeito, a assimilação de diferen tes cu ltu ras quando da criação da Usiminas, os embates no plano político para ar-ticular interesses muitas vezes an-tagôn icos, os mecan ismos e ações voltadas ao gerenciamento cotidia-no e estratégico de uma empresa de perfil industrial e o resgate de uma reflexão acerca do papel do gestor como liderança institucional de um gran de projeto n acion al-desen vol-vimen tista podem ser exemplifica-dores dessa situação. Deve-se des-tacar ainda que o recurso da
histó-ria oral, pou co afeito ao percu rso metodológico usual da administra-ção, traz elementos de grande con-sistência a esse entendimento, fato em parte explicado pela experiên-cia das autoras, tendo uma delas – Ligia Maria Leite Pereira – inclusi-ve dirigido a seção Regional Sudes-te da Associação Brasileira de His-tória Oral, com forte tradição vin-culada aos famosos estudos de Paul Thompson.
A obra Nansen – 70 anos de
pre-cisão. Memória Histórica tr az em u m a ed ição bilín gü e ( p ortu gu ês-in glês) a trajetória de u ma empre-sa sin gu lar em Min as Gerais. Cria-da pelo médico Nan sen Araú jo em 1930, a Fábrica Nacion al de In stru -men tos Cien tíficos Nan sen , qu e se d ed icava à fabr icação d e in st r u -men tos de precisão, trazia in ova-ções importan tes n a su a lógica pro-du tiva, segu n do relatos con stan tes do livro.
Se a tônica naquela época era uma produção fortemente enraizada em um formato taylorista e centraliza-do, a ênfase da Nansen estava cen-trada na criatividade dos operários e na preocupação com a qualidade. Deve-se destacar a aderência dessa perspectiva aos estudos clássicos de Hawthorne, de conotação compor-tamental, fortemente ligados ao am-biente de trabalho.
Professor da Faculdade de Farmá-cia da Universidade Federal de Mi-n as Gerais dos aMi-n os 1950 até su a ap o sen t ad o r ia co m p u lsó r ia, em 1971, Nansen Araújo imprimiu uma marca gerencial que teve ressonân-cia inclusive em sua passagem pela Federação das Indústrias de Minas Gerais. A despeito dessa relevância, não se pode esquecer o papel despenhado pela então liderança em-presarial no golpe de 1964, identi-ficado a partir da obra da professo-ra Helosia Maria Murgel Starling, da
UFMG, sobre esse acontecimento da história política recente.
Amaro Lan ari Jú n ior e Nan sen Araú jo, dois h omen s com formações distin tas, são as figu ras cen -trais de du as obras qu e retratam, em diferen tes trajetórias, o desen -volvimen to de u m projeto econ ô-mico e social qu e modificava a fei-ção de u m estado. Ao segu ir u m percu rso metodológico pou co co-mu m em estu dos dessa n atu reza, as au toras propiciam importan tes re-flexões qu e perpassam diferen tes campos da Admin istração.
Primeiro, fica evidente nas obras a importância da história oral feita com base metodológica consisten-te, como grande contribuição para entender o papel das lideranças em processos de formação e desenvol-vimento organizacional. Segundo, o papel do empreendedor, que estimu-la e cria oportu n idades em ramos tradicionais e modernos da econo-mia. Terceiro, a inserção produtiva das experiências relatadas na pró-pria dinâmica do país, que oscilava entre um projeto desenvolvimentis-ta nacional com pilares na substi-tuição das importações e uma forte t u r bu lên cia n o p lan o p olít ico. E quarto, o apelo gerencial dos rela-tos, que evidencia o quanto a admi-nistração é cíclica, mas recorrente em suas opções e modismos.