F A T O H ISTÓ R ICO
O N A S C IM E N T O D A S A Ú D E P Ú B L IC A
Moacir Scliar
R e v is t a d a S o c i e d a d e B r a s ile ir a d e M e d i c in a T r o p ic a l2 1 ( 2 ) : 8 7 -8 8 , A b r-J u n , 1 9 8 8 .
Saúde P ú blica pode ser con ceb ida co m o a prevenção e o controle das enferm idades que afetam o corpo social. E , assim com o o con ceito de corpo social tem variado ao lon go do tem po, tam bém a saúde pública evolu iu d e acordo co m m últiplas variáveis, sociais, eco n ôm icas, culturais, que determ inam a organização d e um a socied ad e. P od em os falar d os vários paradigm as d e saúde pública, sem elh ante aos paradigm as que K uhn3 d escreveu para a ciên cia em geral. Tais paradigmas sintetizam a forma de olhar o cor po social: a visão de saúde pública, que apresenta dois característicos principais: é evolutiva e é “telescopada”. Isto é, o surgimento de um a nova concepção do fenôm e no saúde - enfermidade não implica necessariam ente o desaparecim ento d e co n cep ções anteriores. O tem or à d oen ça e o desejo de evitá-la é algo profundam ente arraigado no ser h um ano, gerando id éias e evocand o fantasias que p ersistem ao longo do tem po, c o ex is tindo num a m esm a ép oca, num a m esm a socied ad e e às vezes num a m esm a p essoa.
Para M ich el F ou cau lt2, a história do p ensa m ento m édico se estrutura em d i s c u r s o s , separados por bruscos cortes ep istem ológicos estreitam ente vin culados à realidade só cio-econ ôm ica. Q u ais são estes paradigm as, estes discursos, estas form as de olhar o corpo social?
N o p ensam ento científico, de form a geral, exis tem , segundo G asto n B achelard1, três períodos: pré-cien tífico, com preendendo a antiguidade clássica, o Renascimento, chegando ao século X V III; científico, dos fins do século X VIII até com eço do século X X ; e o novo espírito científico, que se inicia com a relatividade. Para uma história de saúde pública, estas fases têm de ser desdobradas, de acordo com os “ olhares” lan çados sobre o corpo social:
1. M á gico 2. E m pírico 3. A utoritário 4. C ientí fico 5. S ocial.
O período pré-científico com preende duas fa ses: um a fase m ágica, em que as d oen ças são atri b u íd as a d em ôn ios, e a cura vem da divindade; o interm ediário entre o d oente e as forças do bem e do m al é o feiticeiro, o “ S ham an” .
N a fase p ré-científica propriam ente dita - da antiguidade clá ssica - a cren ça nos pod eres curativos
* M édico de Saúde Pública. E scritor
R ecebido p a ra publicação em 1 5 /1 2 /8 6
da divindade p ersiste, m as já na ép o ca grega aparece um a fissura n o pensam en to m ágico.
O s gregos cultuavam , além da divindade da m edicina, A sclep iu s, duas outras d eu sa s - H y g ieia (S aú d e) e P a n a cea (Cura). H y gieia era um a das m anifestações de A th en a, a d eusa da razão; sim boli zava o p rincípio de que a m anutenção da saúde depende de m edidas racionais. P an acea representa a crença de que tudo pode ser curado - m as esta cura, para o s gregos, era obtida pelo u so de plan tas e outros recursos naturais, e n ão ap en as por procedim entos ritualísticos.
A o reafirmar estes princípios em suas obras, H ip ócrates foi m ais longe no com bate às idéias m ísticas na ciên cia. A respeito da ep ilep sia, con hecid a à ép o ca por “ d oen ça sagrada” , escreveu: “ S e os asp ectos p eculiares de um a d oen ça fossem evid ên cia da p resença d ivina, haveriam m uitas d oen ças sa gradas” .
N a visão grega do fen ôm eno saúde-enferm idade m esclavam -se, pois, elem en tos m ágicos e elem en tos em píricos. N ã o havia um m étodo científico; o apoio técn ológico era praticam ente nulo. É um fen ôm en o característico d as socied ad es escravagistas: a tecn o logia não se d esen vo lve, porque a industrialização não o exige; e a in dustrialização n ão se d esen v olv e porque a u tilização da m ão-de-obra escrava a tom a dispensá vel. O s gregos já con h eciam um a forma rudimentar de m áquina e vapor, m as esta era u tilizada com o brinque do para crianças.
O escla va gism o é um ob stáculo à con stituição de u m corpo soc ia l, e portanto às m edid as de saúde. O s m agníficos sistem as de ab astecim en to d e água e esgo to de R om a destinavam -se não a toda a p op ulação, m as a um a reduzida parte desta.
A Idade M éd ia, um a era de p estilên cias, não trouxe contribu ições ap reciáveis para o d esen volvi m en to d a saú de pública. N e s s a fase surgiram os prim eiros hospitais, m as esse s eram estab elecim en tos destinados sobretudo à caridade e n ã o à cura d os d oen tes. T am bém n e ssa ép oca a farm ácia ganhou im pulso m as graças, sobretudo, à contribuição árabe no u so d e plantas e de drogas. A s universidades, criadas no fim da Idade M éd ia, p ouco tinham , p ois, a ensinar, m as contribuíram para a in stitu cion alização das p rofissões de saúde.
C om a R ev olu ção M ercantil tem in ício a Idade M oderna, caracterizada p elo in crem ento do com ércio e p ela urbanização. O surgimento das cidades gerou
F a to H ist ó ric o . S c l i a r M . O n a sc im e n to d a S a ú d e P ú b li c a . R e v is t a d a S o c ie d a d e B r a s i le i r a d e M e d i c in a T r o p ic a l 2 1 : 8 7 - 8 8 A b r-J u n , 1 9 8 8 .
problem as ap reciáveis d e saúde pública, sobretudo em term os de d oen ças transm issíves. A primeira aproxi m a çã o para o controle d e tais problem as foi autoritária de acordo, aliás, com os princípios d o E stad o absolu tista. O co n c eito de p olítica sanitária foi form ulado em 1 7 7 9 por J oh an P eterF ran k . T inha caráter autoritário e paternalista; quando aplicado a problem as específi c o s, preocupava-se co m as leis que tinham d e ser aprovadas e com o s detalhes do que deveria ser feito; tudo b aseado em ob serv ações em píricas, p ois, em bora o m icroscópio existisse desde o século X V II, não havia ainda conh ecim en tos suficientes sobre a gên ese das d oen ças, esp ecialm en te as transm issíveis. O que não im pediu, d iga-se d e p assagem , que em 1 8 5 4 John S n ow fizesse a prim eira investigação ep id em iológica em b ases cien tíficas, utilizando dados referentes a um surto de cólera. A fase cien tífica da saúde pú blica encontrou um substrato tecn ológico na R evolu ção Industrial. G ra ça s a os n ovos recursos de laboratório n asce, com Pasteur e K och , a m icrobiologia. Pasteur era, aliás, um cien tista m uito ligado à indústria; suas p esqu isas sobre ferm entação, por ex em p lo, foram feitas a p ed id o de fabricantes de vinho.
D a m esm a form a, os governantes passaram a exigir, das p rofissões d a saúde, respostas para os grandes problem as surgidos com a industrialização e urbanização, particularm ente no que se refere à n eces sidade de m ão-de-obra hígida. A m ed icina vin cula-se ao p rocesso de produção. O hospital, que até então fora um d ep ó sito d e doen tes, adm inistrado em m old es caritativos p assa a ser visto co m o instituição recupe-radora d a saúde; ao contrário, o s lou cos, que durante a Idade M éd ia eram tolerados, têm agora de ser con finados por estarem alien ad os d o p rocesso da produ ção. O en sino m éd ico p assou a ser regulam entado.
A cen tralização d o poder, à m ed ida que se foram estruturando as n açõ es m odernas, perm itiu que a S aúd e P ú b lica fo sse se definindo; o surgim ento das estatísticas vitais foi um p a sso im portante para isto. O utro foi a ad oção de m edidas legais de p roteção à saúde, sen do de destacar n esse cam p o o trabalho
pioneiro d o advogado inglês E d w in C hadw ick, que em 1 8 4 2 apresentou um relato intitulado “ C o n d ições Sanitárias d a P op u lação Obreira da G rã-Bretanha” . A p u b licação d esse relato estim u lou o P arlam ento inglês a form ular a L ei de S aúde P úb lica, d e 1848 .
E m 1 8 8 3 foi introduzido, na A lem an h a, por Bism arck, o seguro-d oença obrigatório; co m o a nota Sigerist4 isto ocorreu contra a vontade d os m éd ico s é m esm o das c la sse s dom inantes; Bism arck, porém teve suficiente visã o para verificar que a própria rentabi lidade da socied ad e dependia d e ssa m edida.
R ecen tem en te, um outro fator veio tom ar m ais n ecessário o controle social sobre a área de saúde e assistên cia m édica: trata-se da escalad a d os cu stos que, n os E stad os U n id o s e na E uropa O cidental, sob em a um ritmo superior ao da in flação É um a decorrência do que tem sid o cham ad o “ co m p lexo m édico-ind ustrial”: a a sso cia çã o entre assistên cia m éd ica e o in teresse de pod erosas indústrias, entre ela a d e m edicam entos e de equipam entos.
A s su cessiv as etap as acim a d escritas corres pon dem à evo lu ção clá ssica num país d esen volvid o segundo o m o d elo capitalista. N a d a im p ede que um a ou várias d essa s etapas p ossa m ser “ q ueim adas” . D e outra parte, a visã o da socid ad e sobre o seu próprio corpo social é, com o foi dito, um a visão “telescopada” . A lgu n s setores podem ter um a visã o so cial d os assu ntos de saú de, enquanto outros continuam vend o o p ro cesso saúde-enferm idad e por um a perspectiva m ágica.
R E F E R Ê N C IA S B IB L IO G R Á F IC A S
1. B achelard G . O n o v o e s p í r i t o c ie n tíf ic o . T em po B rasi leiro, R io de Jan eiro , 1968.
2. F o u c a u ltM . T h e b i r t h o f t h e c l i n i c . P antheon, N ew York, 1973.
3. K u h n T S . A e s t r u t u r a d a s r e v o l u ç õ e s c ie n t í f ic a s . P ers pectiva, Sào P au lo 2? edição, 1978.
4. Sigerist H E . C i v i l i z a t i o n a n d d i s e a s e . T h e U niversity o f C hicago P ress, Chicago, 1943.