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Introdução ao Jyotiṣa

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Academic year: 2021

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Jyotiṣa Śāstra – Gaura Hari dāsa| http://jyotisha.com.br/

Introdução ao Jyotiṣa

A palavra Jyotiṣa vem de

jyotis que significa luz, ou corpo

celeste. Portanto, o Jyotiṣa é definido como o estudo das luzes ou, dos corpos celestes.

Estima-se que o Jyotiṣa começou a se desenvolver por volta de 3000 a.C. no vale do Indo, com base em certas passagens contidas do Ṛg Veda. Porém, o primeiro texto que fala diretamente sobre o assunto é o Vedāṇga

Jyotiṣa do sábio Laghada que data

de aproximadamente 1900 a.C.. Nesse texto podemos ver que o conhecimento astrológico e astronômico da época se restringia ao cálculo de calendários e a eleição de momentos auspiciosos para realização de certas atividades

religiosas. Signos e planetas não eram considerados nesse período, mas apenas

nakṣatras1, o Sol e a Lua.

O Jyotiṣa como o conhecemos hoje veio a se desenvolver no primeiro milênio d.C., graças as trocas culturais ocorridas entre diferentes povos nessa época. Os gregos, chamados de yavanas pelo povo hindu, foram especialmente influentes sobre o Jyotiṣa, visto que durante o período de Alexandre, O Grande, puderam incorporar elementos astrológicos dos babilônios e egípcios e então transmiti-los ao povo hindu durante o período em que dominaram o norte da Índia.

Uma das provas de que o Jyotiṣa de caráter horoscópico desenvolveu-se posteriormente são os próprios textos de astrologia, os quais datam do primeiro milênio d.C. em diante. Portanto, chamar a astrologia de védica, como hoje ficou popularizado, na verdade é historicamente incorreto, pois ela só veio a se desenvolver de fato após o período védico, com o povo hindu/indiano vivendo já

1 Uma divisão do céu em vinte e sete partes de 13º20’ (13º20’ x 27 = 360º00’), ao invés de doze partes de

30º00’ (30º00’ x 12 = 360º00’) como no caso do zodíaco.

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as margens do Ganges e não mais do Sarasvatī, que foi um importante rio do vale do Indo onde a cultura védica se desenvolveu e que devido a mudanças geológicas secou por volta de 2000 a.C, forçando o povo ariano a migrar.

Jyotiṣa enquanto um vedāṇga

Vedāṇgas são seis ciências auxiliares para a compreensão e o aprendizado

dos Vedas, sendo o Jyotiṣa uma dessas ciências. Cada vedāṇga é relacionado a uma parte do corpo, como se pode ver abaixo:

Jyotiṣa - Astrologia/Astronomia, que compõem os olhos.

Śikṣā - Pronúncia e fonética, compõem as narinas.

Vyākaraṇa - Gramática, compõem a face.

Nirukta - Etimologia, compõem os ouvidos.

Kalpa - Rituais, compõem as mãos.

Chandas - Métrica, compõem os pés.

Cada um desses vedāṅgas se complementam, formando um único corpo de conhecimento. No entanto, o Jyotiṣa enquanto um vedāṇga restringia-se apenas a determinação de muhūrtas2 e estabelecimento de calendários.

Skandhas

Dentro do Jyotiṣa contamos com uma divisão em skandhas (seções) que é posterior ao período védico. Esses skandhas são três: siddhānta, horā e saṁhitta.

Siddhānta - Siddhānta compreende os cálculos matemáticos

(Gaṇita) e as observações astronômicas, geometria (Gola).

Horā - É a seção genetlíaca, ou natal da astrologia a qual Maitreya,

discípulo de Parāśara, se refere como superior3. Consiste na

2 Eleições de momentos.

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interpretação dos dados objetivos, a compreensão do que os grahas (planetas), bhāvas (casas), rāśis (signos), nakṣatras (asterismos), etc., representam. Divide-se em vários membros como horóscopo (jātaka), horária (praśna), eletiva (muhūrta) e uma parte do estudo de sinais (nimitta).

Saṁhittā - Compreende o conhecimento de sinais (nimitta), sonhos (svāpna), eclipses, meteoros e estudos voltados para o âmbito mundial.

O estudo que vamos empreender neste curso é completamente focado em

horā e mais especificamente jātaka que é a astrologia natal, portanto não teremos

de realizar muitos cálculos. Nossa principal preocupação será em compreender como o tempo influi sobre um indivíduo, ou seja, são as regras interpretativas e preditivas que nos interessam mais.

Textos clássicos

Na lista abaixo estão alguns dos textos clássicos mais importantes do

Jyotiṣa, incluindo também as datas em que foram escritos:

Livros Autor Data

Vedāṅga Jyotiṣa Lagadha 1900 BC*

Garga Horā Garga Muni 1 CE*

Yavana Jātaka Sphujidhvaja 2 CE

Upadeśa Sūtras Jaimini 4-7 CE*

Bṛhat Saṁhittā Varahāmihira 6 CE

Bṛhāt Jatakā Varahāmihira 6 CE

Horā Sārā Pṛtthuyaśas 6 CE

Horā Ratna Bala Bhadra 6-7 CE

Bṛhat Parāśara Horā Śāstra Parāśara Muni 7-8 CE

Sārāvalī Kalyāna Verma 10 CE

Bhāvārtha Ratnakāra Ramanuja 11 CE*

Phaladīpikā Mantreśvara 13 CE

Sarvārtha Cintāmaṇi Vyakanteśa Śarma 13 CE

Chamatkāra Cintāmani Bhatta Nārāyaṇa 14 CE

Jātaka Bharanam Dhundirāja 15 CE

Jatakā Parijatā Vaidyanātha 1426 CE

Mānasagari Harji 16 CE

3 Verso 1-4, Cap. 1 - Bṛhāt Parāśara Horā Śāstra

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Uttara Kalāmṛta Kālīdāsa 16-17 CE

Jātakalankara Gaṇeśa 1613 CE

Praśna Marga Harihara 1649 CE

Jātaka Tattva Mahādeva 1874 CE

Bhṛgu Sūtras Bhṛgu Muni -

* Há dúvidas quanto a data em que esses textos foram compostos.

De todos esses textos, os que mais usaremos ao longo de nossos estudos serão o Bṛhat Jātaka, Horā Sārā, Bṛhat Parāśara Horā Śāstra, Sārāvalī,

Phaladīpikā e Jātaka Pārījāta. No entanto, são especialmente os ensinamentos

de Parāśara contidos no BPHS que nos dedicaremos mais a estudar, pois todos esses outros textos basearam-se no sistema desenvolvido pelo Mahāṛṣi, os quais usaremos como meio de nos aproximar do que veio a ser a astrologia Parāśari, como é chamada na Índia.

Mahāṛṣi Parāśara e o BPHS

Mahāṛṣi Parāśara é como chamam o grande sábio (mahāṛṣi) que é pai de Veda Vyasa, o compilador da literatura védica na era de Kali4. Sua figura está

envolta em mistérios e não se sabe muito a seu respeito e até que ponto o Parāśara que ensinou o BPHS é o mesmo mencionado nos textos védicos ou simplesmente um representante de sua linhagem (gotra)

brāhmin. No entanto, Varahāmihira, o

qual data do século seis, menciona em sua

Bṛhat Jatakā5 ter estudado os

ensinamentos do sábio, o que reforça a sua existência, assim como do BPHS na antiguidade. Além disso, há o Viṣṇu

Purāṇa, texto que data do período

compreendido entre o primeiro e o quarto século d.C. e que é atribuído ao sábio,

juntamente de outros textos também datados desse mesmo período. Isso poderia

4 Atual era do vício e da hipocrisia que teve início em 3102 a.C. de acordo com Āryabhaṭa em seu tratado

astronômico Āryabhaṭīya.

5 Śloka 7.1, onde Varahāmihira refere-se a Parāśara como Śaktipūrva, o filho de Śakti (sua mãe).

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indicar que Parāśara é uma figura histórica do início do primeiro milênio, um pouco anterior a Varahāmihira. Porém, muitos ortodoxos hindus não aceitam isso, pois para eles Parāśara é da época do Mahābharata, ou seja, mais de 5000 anos atrás. O problema de assumir essa data é de que os ensinamentos do BPHS refletem as influências da astrologia helenística que tem seu início no fim do primeiro milênio antes de Cristo. Sendo assim, três alternativas são possíveis: (1) Parāśara é de fato de cerca de 5000 anos atrás e os seus ensinamentos foram passados oralmente e posteriormente compilados com modificações referentes a época; (2) de fato o sábio é do primeiro milênio e os ortodoxos estão errados; (3) o Parāśara mencionado no BPHS não é o Parāśara histórico, mas apenas um representante de sua linhagem familiar.

Apesar desses problemas quanto a determinação histórica que é tão comum na Índia, o fato é que os ensinamentos contidos no BPHS são ricos em saber astrológico, embora infelizmente o BPHS que temos hoje tenha sido muito provavelmente modificado, pois há indícios de interpolações e a possibilidade de parte dos ensinamentos terem se perdido. Esse problema da preservação do texto original, no entanto, pode ser em grande parte resolvido por um estudo do BPHS conjunto a obras posteriores que se basearam nos ensinamentos do sábio, como o

Bṛhat Jātaka, Sārāvalī, Phaladīpikā, etc. Através desses textos e de um teste

criterioso dos princípios expostos no BPHS podemos nos aproximar mais do que foi a astrologia de Parāśara no passado.

Ayanāṁśa, a precessão dos equinócios

Diferente da prática astrológica

predominante no ocidente que toma por base um zodíaco tropical, o Jyotiṣa conta com um zodíaco sideral, isso é, que tem como referência as posições estelares e consequentemente o recuo anual do ponto vernal (encontro do equador celestial com a eclíptica – o caminho aparente do Sol) ao longo do zodíaco. Dá-se o nome desse recuo de ayaṇāṁśa (precessão), o qual atualmente já recuou 24º04’ em relação ao zodíaco tropical se consideramos o lahiri ayaṇāṁśa. Sureśa

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define o ayaṇāṁśa da seguinte forma:

Ayaṇāṁśa é a distância entre o ponto do equinócio vernal (EV) e o

ponto inicial do zodíaco fixo ou sideral (nirayana). Devido a precessão dos equinócios (ayana chalana) o EV está regularmente recuando a oeste e, portanto, a distância entre o ponto inicial do zodíaco sideral contada a partir do EV está progressivamente aumentando o valor do ayaṇāṁśa a cada ano.

No momento do nirayana meśa saṇkrānti (ingresso sideral do Sol em áries), a longitude tropical do Sol é o melhor guia para determinar o valor do ayaṇāṁśa. – 1.88, Panchadhyayī

A precessão dos equinócios de que fala Sureśa Chandra Miśra leva cerca

de 25920 anos para dar uma volta completa por todo o zodíaco. Esse longo ciclo de precessão se justifica no fato de que o ano sideral compreende uma volta completa da Terra ao redor do Sol tomando como referência as chamadas estrelas fixas e não somente o Sol. Essa volta equivale a 365.2563 rotações da Terra, ao passo que uma volta da Terra em relação apenas ao Sol utilizada no ano tropical é de 365.2422 rotações. Portanto, há uma diferença de 0.0141 rotações entre o ano tropical e sideral que deve ser considerada para cálculos mais exatos, pois é essa mínima diferença anual que nos leva a um crescente recuo do ponto vernal, o que a cada setenta e dois anos equivale a aproximadamente 01º de recuo nos 360º compreendidos pelo zodíaco, ou seja, se multiplicamos 72 por 360 obtemos 25920 anos, uma faixa aproximada, visto que o valor de recuo anual não é fixo, mas variável.

Com base no que foi dito acima, estima-se que a última vez em que os zodíacos sideral e tropical se alinharam foi em cerca de 285 d.C. quando em 21 de março o Sol de fato transitava 00º de áries tanto em um zodíaco quanto em outro, dando assim início a primavera no hemisfério norte. Essa época foi a mesma em que viveu o grande astrônomo e astrólogo Ptolomeu, o qual foi fundamental no estabelecimento da tradição de astrologia tropical. Inclusive, muito provavelmente foi após Ptolomeu, ou principalmente devido a ele que os astrólogos, exceto os indianos, passaram a ignorar o ayaṇāṁśa. Porém, recentemente, graças a Cyril Fagan, um astrólogo irlandês, o zodíaco sideral tem sido novamente adotado por muitos praticantes da astrologia clássica ocidental como o zodíaco originalmente utilizado nos primórdios da astrologia.

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Chitrā pakṣa ayanāṁśa

O ayanāṁśa que usaremos em nossos estudos é o Lahiri6, também

chamado de chitrā pakṣa ayanāṁśa, o qual foi estabelecido no século XX como o cálculo de precessão oficial da Índia para determinação de calendários. Esse

ayanāṁśa foi desenvolvido pelos irmãos Ketkar e disseminado através de N. C.

Lahiri que teve a oportunidade de promover essa ideia na época de Pt. Jawaharlal Nehru, conduzindo assim uma reforma nos calendários da Índia.

O chitrā pakṣa ayanāṁśa foi determinado com base na afirmação do

Sūrya Siddhānta (um antigo e respeitado tratado astronômico) de que a estrela

Spica (chitrā) demarca os 180º do zodíaco, ou seja, basta calcular o ponto oposto para se obter o início do zodíaco a 00º de áries. É devido a esse fator que esse

ayanāṁśa é chamado de chitrā (refere-se a Spica, situada no nakṣatra chitrā) pakṣa (asa, moção, lado ou posição), pois toma chitrā como sua estrela âncora.

Além do Lahiri, há uma série de ayanāṁśas como Kṛṣṇamurti, Fagan-Bradley, De Luce, Raman, Puṣya pakṣa, etc., propostos por diferentes astrólogos. Seus valores podem variar pouco mais de 07º entre um método e outro, sendo que os mais populares detém 22º ou 24º. Sureśa Chandra Miśra diz o seguinte quanto a isso:

No momento todos os ayaṇāṁśas com mais de vinte e dois graus são baseadas no antigo Sūrya Siddhānta, enquanto os ayaṇāṁśas com cerca de vinte e quatro graus tomam por base chitrā pakṣa com pequenas diferenças em vikālas (segundos). – 1.91, Panchadhyayī

Como a maior parte dos astrólogos, S. Chandra Miśra defende o uso do

chitra pakṣa ayaṇāṁśa. Ele afirma:

De acordo com pesquisas científicas modernas e também devido as afirmações dos ṛṣis (videntes, sábios) védicos, o chitrā pakṣa ayaṇāṁśa é estabelecido como sendo preciso. Portanto, apenas ele deve ser considerado na prática astrológica.

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Atualmente, o ayana-gati (movimento de precessão) aparenta ser de 50.3’’ por ano, precisamente, o que é confirmado por meio de observações físicas. – 1.90, Panchadhyayī

Outro respeitado astrólogo da Índia que defende o chitra-pakṣa ayaṇāṁśa é K.N. Rao, que diz:

Use apenas o Lahiri ayaṇāṁśa, pois foi aprovado por um time contendo os melhores astrônomos da Índia e ignore os defensores de qualquer novo ayaṇāṁśa, como por exemplo esses engenheiros de hoje em dia que estudam astrologia e bombardeiam a internet com essas coisas, insultando aqueles que não aceitam suas ideias. – Pg. 9 da primeira edição do Advanced use of Jaimini Char Dasha.

Portanto, tendo em vista que o chitra pakṣa ayaṇāṁśa é recomendado tanto pela comunidade científica quanto pela maior parte dos astrólogos da Índia, o que inclui grandes nomes como Sureśa Chandra Miśra e K.N. Rao, nos valeremos desse ayaṇāṁśa em nossos estudos.

Tarefas:

1. Calcule o seu mapa no sistema tropical e sideral e note a diferença na posição dos planetas entre um sistema e outro. Identifique quantos graus e minutos o ayaṇāṁśa recuou em relação ao sistema tropical. 2. Repita o exercício calculando o mapa de Galileu Galilei em ambos os

zodíacos e identifique o valor do ayanāṁśa de sua época. Seus dados de nascimento são: 26.02.1564 as 15:41, fuso horário 00:41 (leste do meridiano de Greenwich) em Pisa, Itália (longitude: 10º23’10’’ leste; latitude: 43º43’10’’ norte). O lagna de Galileu reside a 26º52’ de câncer no zodíaco sideral.

Referências

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