Ação afirmativa (affirmative action) é uma expressão cunhada pelo direito norte-americano e surgiu no contexto da luta pelos direitos civis na década de 60. O Presidente John F. Kennedy utilizou o termo pela primeira vez em 1961 como sinônimo
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Cf. RIOS, Roger Raupp. Op. cit., p. 25.
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de medidas que tinham por objetivo ampliar a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho, sobretudo entre negros e brancos nos Estados Unidos52.
“Ação afirmativa, nos dias correntes, é um termo de amplo alcance que designa o conjunto de estratégias, iniciativas ou políticas que visam favorecer grupos ou segmentos sociais que se encontram em piores condições de competição em qualquer sociedade em razão, na maior parte das vezes, da prática de discriminações negativas, sejam elas presentes ou passadas. Colocando-se de outra forma, pode-se asseverar que são medidas especiais que buscam eliminar os desequilíbrios existentes entre determinadas categorias sociais até que eles sejam neutralizados, o que se realiza por meio de providências efetivas em favor das categorias que se encontram em posições desvantajosas”53.
É importante esclarecer que as ações afirmativas foram inicialmente concebidas pelo governo norte-americano como uma forma de encorajamento, para que as categorias sub-representadas em escolas ou empresas tivessem seu acesso viabilizado ao ensino e ao mercado de trabalho. No final da década de 60 e início da década de 70, diante da ineficácia de tal medida, houve uma alteração conceitual do instituto e sua associação com a imposição de cotas rígidas e de atingimento de metas (“goals”) para o ingresso de certas categorias no mercado de trabalho e nas escolas.54
A sinalização de uma política mais agressiva do governo norte-americano em relação ao combate à discriminação ficou caracterizada no discurso do Presidente Lyndon Johnson, na Howard University, em 1965:
“Você não pega uma pessoa que durante anos esteve acorrentada, e a liberta, e a coloca na linha de partida de uma corrida e diz, ‘Você está livre para competir com todos os outros’, e ainda acredita, legitimamente, que você foi totalmente justo. Assim, não é suficiente apenas abrir os portões da oportunidade, todos os nossos cidadãos devem ter a capacidade de atravessar esses portões”55.
Os principais objetivos das ações afirmativas são56:
52
MENEZES, Paulo Lucena de. A ação afirmativa (affirmative action) no direito norte-americano. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001, p. 27.
53
Idem, ibidem.
54
GOMES, Joaquim B. Barbosa. Ação afirmativa & princípio constitucional da igualdade. O direito como instrumento
de transformação social. A experiência dos EUA. Rio de Janeiro: Renovar, 2001, p. 40.
55
MENEZES, Paulo Lucena de, Op. cit., p. 91.
56
GOMES, Joaquim B. Barbosa. A recepção do instituto da ação afirmativa pelo direito constitucional brasileiro.
1. Induzir transformações de ordem cultural, pedagógica e psicológica, aptas a subtrair do imaginário coletivo a idéia de supremacia e de subordinação de uma raça em relação à outra.
2. Reconhecimento oficial da persistência e da perenidade das práticas discriminatórias e da necessidade de sua eliminação.
3. Coibir a discriminação do presente, mas sobretudo eliminar os efeitos persistentes (psicológicos, culturais e comportamentais) da discriminação do passado, que tendem a se perpetuar.
4. Implantar uma certa diversidade e uma maior representatividade dos grupos minoritários nos mais diversos domínios da atividade pública e privada.
5. Eliminar as barreiras artificiais e invisíveis que emperram o avanço de negros e mulheres, independentemente da existência ou não de política oficial tendente a subalternizá-los.
6. Proscrever idéias tendentes a legitimar a existência de cidadania de primeira classe e de segunda classe, aproximando, assim, a sociedade do ideal de eqüidade.
7. Incentivo à educação e ao aprimoramento de jovens integrantes de grupos minoritários, que invariavelmente assistem ao bloqueio de seu potencial de inventividade, de criação e de motivação ao aprimoramento e ao crescimento individual, vítimas das sutilezas de um sistema jurídico, político, econômico e social concebido para mantê-los em situação de excluídos.
8. Criar as chamadas personalidades emblemáticas (role models), que serviriam de exemplo às gerações mais jovens, que veriam em suas carreiras e realizações pessoais a sinalização de que não haveria, chegada a sua vez, obstáculos intransponíveis à realização de seus sonhos e à concretização de seus projetos de vida.
As principais modalidades de ações afirmativas são as seguintes57:
1. Adoção de diretrizes inclusivas que produzam o efeito de melhorar as perspectivas dos integrantes de grupos especificados.
2. Implantação de programas de assistência social, destinados a divulgar oportunidades de emprego aos integrantes de grupos específicos, bem como atrair candidatos qualificados que integrem tais grupos.
3. Tratamento preferencial no emprego e em outras áreas, mediante o qual são conferidos aos integrantes de grupos específicos benefícios denegados aos integrantes de outros grupos.
4. Redefinição do princípio do mérito, do que resulta tal condição de integrante do grupo tornar-se uma qualificação na mudança de emprego, em vez de constituir uma exceção.
5. Fixação de metas e cotas rígidas no acesso ao emprego e ao ensino. É importante destacar que no Brasil, erroneamente, as ações afirmativas estiveram sempre associadas ao sistema de cotas. Nos Estados Unidos, por exemplo, as cotas rígidas praticamente não são mais utilizadas, a não ser por determinação judicial, quando se reconhece que o acusado se torna hostil e renitente em acatar as medidas de inclusão de determinados segmentos e não há outra solução disponível para corrigir a discriminação58.