O INTERDISCURSO COMO RELAÇÃO CONSTITUTIVA ENTRE FDS: O CASO BOLSONARO E OS DIREITOS
1. A análise do discurso e o conceito de Interdiscurso
É na parte introdutória da obra Semântica e Discurso que Michel Pêcheux localiza a Semântica como sendo o ponto nodal das contradições que atravessam a Linguística (2009, p.18) por isso tamanha complexidade em um consenso teórico sobre a relação dos signos com o que eles designam. Mais ainda, é a busca teórica por compreender a produção social de sentidos, objetivo da Análise do Discurso. É nesse campo teórico, marcado por atravessamentos discursivos, heterogêneos em sua constituição que o presente trabalho deseja atuar. A importância de estudos na área discursiva caracteriza-se pela relevância do tema na sociedade. Compreender como se dá a constituição dos sentidos, significa compreender melhor o mundo a nossa volta, seus acontecimentos e nosso papel em interpretá-lo.
Pode-se dizer que diversas vozes entrecruzam-se no campo da Análise do Discurso (doravante AD), desde suas bases epistemológicas até as pesquisas contemporâneas. A natureza transdisciplinar desse campo teórico pode ser explicada pelos diferentes interesses que aborda, como linguagem, sujeito, discurso e história. Segundo Orlandi, é uma “disciplina de entremeio” (2005, p. 17) por estar ligada a campos de estudo que pouco dialogavam, como a Psicanálise, o Marxismo e a Linguística.
Com o intuito de ir além dos aspectos linguísticos, a AD busca agregar elementos extralinguísticos às suas análises, e num movimento plural de reflexões, conceitos ganham novas ‘vestimentas’ à medida que as linhas teóricas os tomam como objeto de reflexão. Foi o que aconteceu com a noção de interdiscurso, a seguir buscaremos fazer um breve percurso teórico sobre tal problemática.
Em Semântica e Discurso, Pêcheux ([1975] 2009) traz um de seus mais conhecidos pressupostos propondo-se a “chamar interdiscurso a esse ‘todo complexo com dominante’ das
formações discursivas, esclarecendo que também ele é submetido à lei de desigualdade- contradição-subordinação que (...) caracteriza o complexo das formações ideológicas”. Essa tese é questionada por Possenti (2003) quando este diz não se convencer da ideia de que uma FD é imposta ao sujeito pelo interdiscurso, para tanto o autor argumenta defendendo que quando um sujeito não se identifica com uma FD, esse processo se dá pelo confronto de discursos,
Ou seja, trata-se, em qualquer caso, de serem enunciados, nas formas linguísticas típicas dos pré-construídos, elementos que pertencem não ao interdiscurso, eu diria, mas a discursos específicos, em relação aos quais, de alguma forma, o sujeito está em franca oposição – independentemente, repito, de tratar-se de um caso de rebeldia ou de uma outra posição já sólida. E é isso que as marcas lingüísticas indicam (p.258)
Courtine se propõe a apresentar uma revisão de alguns conceitos da AD francesa em seu livro Análise do Discurso Político ([1981] 2009), dentre eles, a noção de interdiscurso. Para ele este pode ser definido como a “Instância de formação/repetição/transformação dos elementos de saber de uma Formação Discursiva, sendo, portanto, responsável pelo deslocamento das fronteiras dessa FD” (p. 49). Dessa forma, é no interior do interdiscurso que é possível identificar o domínio da memória de uma FD. O autor ainda acrescenta,
Com efeito, o interdiscurso é o lugar no qual se constituem, para um sujeito falante que produz uma sequência discursiva dominada por uma FD determinada, os objetos de que esse sujeito enunciador se apropria para fazer deles objetos de seu discurso, bem como as articulações entre esses objetos, pelos quais o sujeito enunciador vai dar uma coerência a seu propósito. (p.35)
Sendo assim, o interdiscurso seria o exterior específico que domina uma FD, podendo tratar-se de uma outra FD determinada ou de um conjunto delas com as quais uma relação relevante se mantém. Uma definição que sucintamente, reformula a noção pecheutiana do “todo complexo com dominante”.
Maingueneau (2005) propõem uma definição menos filosófica e mais operacional para o termo. O interdiscurso seria algo que funciona antes, em outro lugar e independe do sujeito, mas cuja mobilização ocorre todas as vezes que o sentido é produzido. Não temos um controle sobre essa memória, muito menos sobre essas falas que, mesmo distantes, ditas há muito tempo, tornam-se essenciais para a construção do sentido de nossas palavras. Para Maingueneau:
O interdiscurso é o espaço de regularidade pertinente, do qual diversos discursos são apenas componentes. Em termos de gênese, isso significa que
esses últimos não se constituem independentemente uns dos outros, para serem, em seguida, postos em relação, mas que eles se formam de maneira regulada no interior de um interdiscurso. (Maingueneau, 2005, p. 21)
Podemos dizer então, que os discursos formam uma grande rede interligada, onde uns dependem dos outros para adesão de sentidos, e mesmo que o sujeito não saiba, seu enunciado já foi dito em algum lugar, e surge permeado por sentidos de outros discursos que sua memória resgata independente da vontade própria de quem o fala. Para Maingueneau (1997), o interdiscurso se caracteriza como um espaço de troca entre discursos, não aleatórios, mas selecionados e que fazem parte de uma determinada situação discursiva responsável pela atualização do já-dito.
Com o objetivo de tornar mais claro o conceito, Maingueneau (2005) propõe substituir a noção, antes muito vaga, por uma ideia de tríade: “universo discursivo, campo discursivo e espaço discursivo.” (p.27). Não é o objetivo de presente trabalho aprofundar-se em cada uma dessas noções, mas faz-se necessário entendê-las mesmo que de forma breve. Por universo discursivo o autor entende como o conjunto de formações discursivas de todos os tipos que interagem numa conjuntura dada. Campo discursivo seria um conjunto de FDs que se encontram em concorrência, mantendo uma relação de confronto aberto, aliança ou neutralidade aparente. Seria nesse campo, segundo o autor, que um discurso é constituído. Os espaços discursivos seriam lugares ainda mais específicos, vistos como subconjuntos de formações discursivas cuja relação o analista julga pertinente para seu propósito.
Maingueneau (2005), em Gêneses dos discursos, traz para o centro de sua proposta a relação entre discursos, ressaltando a noção de interdiscursividade, é nessa perspectiva que ele lança a tese do “primado do interdiscurso sobre o discurso”, a partir da hipótese de que um discurso sucessor, como é o caso do jansenista (discurso analisa pelo autor na obra), explora sistematicamente a falta que o discurso anterior, humanista devoto, instituiu ao se formar. Nessa perspectiva o interdiscurso precede o discurso é soberano ao discurso, por isso o termo
primado. Sendo assim, a unidade importante para ser analisada não é o discurso em si, mas o
espaço de trocas entre vários discursos selecionados em uma situação discursiva, ou seja, no próprio interdiscurso. É a partir dessa perspectiva que buscaremos analisar o corpus proposto.