Noutro dia eles saíram por sair, só para não ficar em casa, sem nada para fazer. Deram a volta no bairro, onde ha-via calçadas de pedra, que foram trazidas de Portugal, e seus desenhos ovais eram incrivelmente bonitos, pois criavam nuances de cores, intercalando-se uma à outra com pequenas pedrinhas azuladas.
Uma chamou-lhes a atenção: estava solta e bamba.
Resolveram mexer e levantá-la, e encontraram um papel do-brado. Parecia um papel vegetal bem gasto. Desdobraram com cuidado e leram as palavras já quase apagadas pelo tempo:
“Talvez fosse o poder supremo, mais forte que a mi-nha vontade de lutar agora! Hoje, espero a ida da mimi-nha vida embora, não me resta mais nada, além de me entregar à morte. Talvez a sorte me sorria ou me entristeça, quem sabe, trazendo-me o socorro pretendido. Meus olhos já choram as lágrimas que deixaram de cair faz tempo, talvez eu sobre-viva aos cortes profundos na carne. Mas, se porventura al-guém ler esse pequeno pedido de ajuda, leve à minha amada Constance o beijo que deixei de lhe dar, o abraço que deixei de sentir e todo o amor que ainda tenho por ela em meu coração. Diga-lhe ainda que eu a esperarei na eternidade.
Entregue no endereço: Rue Ilusion, nº 12. Junho de 1941.”
Olharam um para o outro e se perguntaram: o que faremos agora?! No dia seguinte, pegaram uma lista telefôni-ca e procuraram a rua inditelefôni-cada no bilhete. No lotelefôni-cal, havia uma casa velha e abandonada pelo tempo. Bateram à porta, e
surgiu uma senhora de cabelos brancos. Entregaram o bilhe-te e lhe contaram onde fora encontrado. Ela o abriu, com as mãos trêmulas, e o leu, deixando escorrer uma lágrima no rosto. Ao final, sorriu e disse:
— Ele se lembrou de mim até o seu último instante!
Realmente me amava e eu nunca acreditei!
A doce senhora fechou a porta atrás deles. A noite se fez escura e as estrelas voltaram a brilhar.
a
Palavras ditas nem sempre vão ao vento; às vezes, elas soam por anos a fio em nossas mentes, até se fazerem reais.
A chegada
Um dia, ela saiu. Era janeiro. Lá fora a chuva chegava lentamente, os pássaros gorjeavam e voavam em círculos sem parar e as árvores balançavam soltando suas folhas averme-lhadas ao léu. O céu, de uma cor cinza, salpicava aos poucos de água a viela por onde ela, descalça, andava calmamente.
Seus pensamentos não a deixavam só, atormentavam-na, dei-xavam-na zonza de tanto pensar. Eram tantas perguntas que ficaram sem resposta... Como ele poderia ter feito aquilo?
Logo com ela, que tanto o amava? Agora não era mais im-portante, já que ela havia saído, saído para não mais voltar.
Lembrou-se da época de sorrisos, de promessas e ju-ras de amor, dos dias de passeios na montanha, momentos em que se abraçavam e brincavam de mãos dadas, dos ba-nhos no riacho, quando se acariciavam e ficavam rubros dos pensamentos mais quentes de desejo. Ela o amava, agora não importava não mais, ele estava morto. Como ele podia tê-la abandonado? Ele disse que sempre ficaria ao seu lado! Co-meçou a chorar, e suas lágrimas eram de saudade — saudade de sonhos não acontecidos, do que nunca mais aconteceria, de palavras não ditas e de esperanças mortas.
Depois de algum tempo, ela começou a retornar, mais tranquila de quando havia saído, pé ante pé, não ha-via pressa. Abriu a porta e se deparou com um vulto em pé na janela lateral. Acendeu a luz da sala e ele se virou para ela. Como era possível?! Ela abriu um sorriso e correu em sua direção, aconchegando-se em seus braços como nunca
havia feito antes. Foram beijos, palavras abafadas, corpos se roçando, e a felicidade voltou.
— Como você conseguiu? E a avalanche? Por que desa-pareceu por todos esses dias? — ela não parava de perguntar.
E ele respondeu:
— Calma, querida, eu fui escalado para outra área de trabalho e não tive como avisar.
Voltaram a esperança, os sonhos, os projetos... E en-fim a chuva cessou.
a
As surpresas são às vezes mais significativas do que a realidade infinita.
A desculpa
Um dia ela estava caminhando na praia. Enquanto chutava a água, pensava em que desculpa poderia dar para...
Todos nós arrumamos desculpas para algumas situa-ções, para não ir a uma festa, por não ter uma roupa adequa-da, desculpas por não aceitar um convite para jantar, descul-pas para ir ao shopping e comprar tudo. Enfim, desculdescul-pas são o que não nos faltam! Então, por que nos servimos de desculpas? Pode ser mais prático, cômodo, direto. Não é uma mentira, mas, às vezes, a desculpa é, ou quase sempre é.
Contudo, naquele dia, ela teria que pensar muito, não poderia ser qualquer coisa, afinal, Tereza conhecia Paulo há muitos anos, e isso envolvia duas famílias e amigos íntimos.
Foram meses de preparativos. Enquanto isso, ela andava na praia rasa chutando a água de um lado para o outro, pen-sando que poderia dar a desculpa de que ela amava outro, poderia dizer que estava gravemente doente. Tereza, sempre que a situação apertava, dava desculpas, umas esfarrapadas, outras nem tanto, e todos acreditavam.
Ela crescera assim, dando desculpas até para ela mes-ma quando não conseguia fazer algo ou não queria fazer.
Mas aquela, ela havia prometido que, se desse certo, seria a última desculpa que daria. Mas qual? Voltou para casa, foi para o salão e se preparou para o seu dia de noiva, mas não parava de pensar na desculpa que daria para não se casar com Paulo.
Havia chegado a hora: o relógio marcava 19h. Ela entrou no lindo carro enfeitado, beijou seu pai, que a
aguardava. Desceu na porta da igreja. Ao som da marcha nupcial, andou, pé ante pé, sobre o tapete vermelho, enquan-to ainda pensava.
— Você aceita Paulo como seu legítimo marido, até que a morte os separe? — indagou-lhe o padre.
— Sim! — respondeu Tereza. — E foi infeliz para sempre.
Existem pessoas assim, movidas a desculpas, infeli-zes, mas...
a
Sob a sombra da desculpa não encaramos nossos erros mais complexos.
A vida
As nuvens já deixaram suas estampas brancas e de-ram a vez à penumbra; o cinza e o negro se misturavam no céu, o vento se encarregava de ser o pincel. As árvores flutuavam embriagadas no vento, as flores despetalavam, esbarrando umas nas outras, o horizonte se condensava em cores variadas, do vermelho amarelado ao marrom.
O manto da noite recobria todo o céu. O povo da aldeia da praia correu em busca de um abrigo, a chaleira já fervia a água no fogão a lenha, que estalava o tempo todo. A vovó se aconchegava na cadeira de balanço e tricotava uma meia para alguém. A menina olhava pela janela de madeira que pendida por uma dobradiça quebrada.
A mesa pequena de madeira maciça, ornamentada no canto, com um pequeno panetone e biscoitos, e flores secas já sem perfume. O quadro era vivo, as pessoas colocadas sem sentido ali, o céu era o mesmo lá de fora e era noite. O Natal só mais um, como vários sem importância festiva para mim, presentes, doces e três pessoas assistiam à TV.
Levantei-me, olhei pela janela e vi os gatos: eles brin-cavam de atacar uns aos outros, os cachorros já recolhidos em seus farrapos, as galinhas quietas no galinheiro, o vento já havia ido embora e, com ele, a chuva que se formou. Tudo estava em ordem.
O quadro estava perfeito, as pessoas colocadas ali com grande espontaneidade e os animais lá fora também.
Terminei minha última folha, já não havia mais nada para escrever, os contos ainda esperavam para serem vividos.
Olhei pela janela, os grossos pingos começavam a cair, os relâmpagos em guerra descarregavam mais eletricidade no céu, até se ouvir um estrondo ao longe.
Tenho que fechar a janela, será uma noite linda, vai chover.
a
A transferência de posse da existência pertence ao criador dos nossos sonhos.
A flor
A manhã era fria. As paredes já amareladas com o tempo pendiam um pouco úmidas formando o ambiente, a velha lareira estava acesa estalando de vez em quando, a mesa coberta com uma toalha rosa xadrez. Em cima dela, num prato de porcelana branco pintado à mão, com pequenas florzinhas coloridas, um pão cortado pela metade e umas fatias já duras ao lado; no chão, em cima do tapete redondo, um cachorro cor de mel se aconchega ao calor da lareira.
Uma senhora de cabelos presos tricotava uma meia azul de cano alto enquanto pensava no passado, em algo que lhe agradava, pois sorria levemente com os lábios entreaber-tos. Seus olhos brilhavam quando olhava as flores secas no vaso. Era uma noite quente... Ele chegou lindo e feliz, bateu à sua porta e chamou pelo seu nome. Ela usava um vestido rosa-chá de renda fina e abriu a porta lentamente. Ela estava linda. Ele olhou-a com um olhar terno e surpreso.
Foi um namoro perfumado e regado a uma com-pleta paixão que durou três anos. Casaram-se em junho, tiveram tantos filhos quanto puderam ter, amaram-se tanto que nunca enjoaram um do outro. O jardim floria sempre, e no inverno a lareira queimava, enquanto seu amor estalava.
Envelheceram. Um dia ele não acordou mais, mas ela não chorou: já era tarde, a luz tinha que se apagar para um dos dois primeiros. Era como um dever cumprido, ele fez a sua parte por ela e a amou eternamente.
Desde então, todos os dias ela colhia uma flor no jar-dim, qualquer uma, não importava. Colocava-a na jarrinha de cristal sobre a mesa e, quando ela secava, substituía por outra, para lembrar que ele estava lá ao seu lado, seu amor eterno.
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O amor é infinito quando dois corações não padecem de tristeza e presunção.
A moça
A moça sentada em um banco branco de praça, co-lorido por um frondoso caramanchão de rosas cor-de-rosa, se protegia do sol amarelo e laranja. Ela admirava o jardim onde havia pequenas mudas de grama verde, e no meio al-gumas flores de amor-perfeito, quase perfeitos. Ela se ajeitou dentro da blusa azul de bolinhas, levantou-se e caminhou a passos largos, com um sapato de um tamanho pequeno.
Tal fossem os pensamentos ainda não pensados, an-dou pelo jardim nunca antes explorado. Observou um rapaz que a seus olhos pareceu-lhe jovem. Ele a olhou, e se desco-briram. Era uma coisa intensa, daquelas que só quem viu, verá. A vontade era grande; o desejo, enorme. Caminharam na mesma direção, um para o outro. Descobriram a união pendente, como se gente pudesse prever.
Ele foi tudo para ela naquele instante. Ela comparti-lhou todo o jardim com ele, foi lindo, foi bom. E talvez fosse o que fosse para sempre. Só os dois souberam.
a
Os olhos evidenciam cores que se transformam em encantamento;
se encante, se deixe tocar.
A realidade
O céu ficava mais negro, enquanto trovões se faziam ouvir, relâmpagos provocavam clarões e pingos grossos co-meçavam a cair. A moça na janela olhava o mundo ao seu redor: tudo bailava, voava, subia e descia ao vento, a tempes-tade se anunciava. Ela estava aos prantos, junto com o céu que desabava ao seu redor, os pensamentos se misturavam.
Mais uma vez só, teria que resolver tudo ao seu modo.
Trocaram a tempestade pelo sol, mas só diante dos seus olhos, pois, lá fora, continuava a mesma chuva terrível de antes. As árvores arrancadas, calçadas arrebentadas, vidas interrompidas e ninguém via isso — só ela. Seria sempre assim: por toda a sua vida teria que se acostumar, as pessoas só gostam de coisas belas, coisas complexas não interessam a ninguém, coisas do coração só ficam bem sem razão, só finais felizes.
Não! A princesa nem sempre tem um final feliz, ela nem sempre gosta do príncipe, só se casa por interesse de reinos; o príncipe nem sempre é bonito, às vezes ele usa es-partilho ou é brocha. Às vezes, a princesa tem mau hálito e leva o buquê de flores, como se fazia antigamente, só para disfarçar o cheiro do corpo por não tomar banho.
E assim surgiu a regra, as noivas casam em maio por-que era quando tomavam banho no verão, pois no inverno seria impossível. A vida é assim, cheia de regras a seguir e sem encanto às vezes, mas temos que seguir em frente.
a
A vida sempre nos revela a realidade de um desejo não realizado no futuro da mente.
A viagem
— Até domingo, Catarina! — acenou Suzane para a vizinha, ao sair com o carro abarrotado de coisas para uma viagem de uma semana na praia com Charles, que já a aguar-dava na casa.
Suzane era uma mulher de 52 anos, e os seus cabelos castanhos e olhos verdes a tornavam mais sedutora. Conhe-cera Charles na primavera, numa galeria de arte em Nova York. Não sabia quase nada sobre ele, somente que ele tinha a metade de sua idade e que estudava arte.
A estrada estava praticamente vazia, e os poucos car-ros que circulavam não chegavam a incomodar. Ao concluir uma curva bem fechada logo no início da descida da serra, percebeu uma mulher sentada no acostamento. Passou por ela e a olhou pelo retrovisor, e foi então que resolveu voltar para ver o que estava acontecendo.
Parou o carro, aproximou-se e perguntou para a mu-lher que estava cabisbaixa:
— Em que posso ajudá-la? Está se sentindo mal?
A mulher demorou alguns segundos e levantou a cabeça. Suzane notou que ela era bem idosa, e tinha rugas profundas no rosto e um olhar triste.
— Precisa de uma carona para algum lugar? — insistiu Suzane.
A mulher levantou-se, acenou que sim com a cabeça e entrou no carro.
— Onde posso deixá-la? Vai para onde? — perguntou Suzane, recebendo só uma indicação da mulher que, com a mão, a mandava seguir em frente.
Após dirigir alguns quilômetros, terminou de descer a serra, e teria que virar à direita para chegar até a sua casa de praia.
— Senhora, vou entrar à direita. Onde posso deixá-la?
— indagou Suzane mais uma vez.
A mulher virou-se e balbuciou para Suzane:
— Cuidado com aquele que está na praia. Ele a levará à ruína — disse a mulher, apontando que iria descer.
Suzane arrancou o carro e olhou pelo retrovisor — a mulher não estava mais lá. Seu romance com o rapaz con-tinuou, e Suzane pagou todos os estudos de Charles, que se tornou um grande e renomado pintor.
Certa noite ele lhe disse que ia embora para nunca mais voltar, pois estava apaixonado por outra mulher. Ela gelou, o chão fugiu de seus pés, não podia acreditar naquilo que ouvira. Ela o amava tanto... Depois daquela noite nunca mais o viu. Leu pelos jornais um comentário e a foto do seu casamento com uma linda e jovem mulher.
Suzane estava muito mal, afinal, após 18 anos, como ele pudera fazer aquilo com ela? Naquele dia ela saiu triste e não pensava em mais nada. Andou pela estrada até sentar-se no acostamento, quando uma senhora de cabelos castanhos e olhos verdes aproximou-se e perguntou-lhe:
— Em que posso ajudá-la? Está se sentindo mal?
a
O futuro pode, muitas vezes, assombrar nosso passado.