A viagem da minha vida joaquina affonso
Editora Recanto das Letras
© Joaquina Affonso
Editora Recanto das Letras editorarecantodasletras.com.br
Coordenadora editorial: Cassia Oliveira Revisão do texto: Maciel Salles
Diagramação: Michael Vasconcelos 1ª edição – outubro de 2019
Todos os direitos reservados.
A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação de direitos autorais. (Lei 9.610/98) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057
Affonso, Joaquina
Voando com a vida [livro eletrônico] / Joaquina Affonso. ––
São Paulo : Recanto das Letras, 2019.
220 p.
ISBN: 978-85-7142-055-7
1. Literatura brasileira 2. Contos brasileiros 3. Affonso, Joaquina - Memória autobiográfica I. Título
19-2164 CDD B869
Índices para catálogo sistemático:
1. Literatura brasileira
“Na vida, nossos maiores tesouros são os deixados por nossos filhos, netos e amigos em nosso coração.”
A autora
Agradecimentos
Quero agradecer a todos que sempre compartilham comigo a minha forma de viver, àqueles que me respeitam e que sempre me deram os pincéis exatos que eu precisava para fazer minha trajetória mais colorida e feliz.
Dos amigos mais antigos aos mais novos, que de alguma forma deixaram algo de bom que contribuiu para minha vida ser maravilhosa como é.
Àqueles que me enxugaram as lágrimas, àqueles que me deram bronca, aos que me ensinaram o melhor caminho e àqueles que me ajudaram a sair do pior momento. Aos que me ampararam, quando mais precisei.
Aos meus filhos queridos Marcus Glauco e Roberta Maria, ao meu filho de coração Marcelo e aos meus queridos netos Marcus Vinicius, Catharina, João Pedro e outros que ainda virão.
Às minhas irmãs de coração Maria Augusta e Dayse;
ao Alfredo, Josias, Cristina, Joaquim, Wilson, Marlene, Eri- nalda (Nalda), Graça de Minas Gerais, Maria do Guarujá, Sônia de Piracicaba, Zélia Galo e Jorcenice Barbosa Silva.
Ao meu marido, Eduardo, com muito amor.
Ao Roberto Sant’Anna, pai dos meus queridos filhos, pelas informações técnicas prestadas sobre aviação e sua orientação.
A todas as minhas irmãs e sobrinhos.
Muito obrigada! De alma e coração.
E, por último, mas não menos importante, um muito obrigado ao meu amigo e mentor, que tanto me ajudou e me incentivou a escrever esse livro: Carlos Gilberto Drecksler, escritor de Gramado – RS.
Obrigada por tudo que me ensinou!
Sumário
Memórias ... 15
Contos de criança ... 16
Os veadinhos brilhantes e a moita ... 17
A velha mala ... 19
Os pesadelos que me faziam esquecer de dormir ... 21
Onde está a calcinha? ... 22
João e Madalena, dos porcos à taboa ... 24
A cabeça de porco ... 26
Chapéu de burro ... 28
A troca ... 30
O espírito ... 33
Quem olha o rosto, vê a cara ... 36
Tempos de criança ... 38
Inocência ... 40
Carrinho de rolimã ... 42
Veneno para baratas ... 44
O ouro do capitão ... 46
Calmo, mas nem tanto ... 47
Perfume de alfazema ... 49
Nossa praça ... 51
O caminho das cabras ... 52
Lorde ... 54
Tiro na noite ... 55
Explicando palavrões ... 56
O leão da praia ... 58
Contos de adolescente ... 60
São João de horror ... 61
“Sem lenço e sem documento” ... 64
Sementes de melancia ... 67
O coral ... 69
Viver no interior ... 73
Asas de aço ... 77
Dia da viagem ... 80
Explicando o inexplicável ... 84
Impacto no ar ... 87
Viagem ao paraíso ... 90
Ases e asas de aço ... 93
Equilibrando-se em alto-mar ... 96
Os anjos existem ... 99
Eu e Nova York ... 103
As rosquinhas ... 107
A cura ... 109
O encantamento ... 114
O mistério ... 119
O que os olhos não viram ... 123
O salto ... 127
O poder ... 130
Meus filhos ... 132
Marcus Glauco ... 133
Roberta Maria ... 135
Sim ... 138
Viver ... 139
Pequenos contos ... 141
A carta encontrada ... 142
A chegada ... 144
A desculpa ... 146
A vida ... 148
A flor ... 150
A moça ... 152
A realidade ... 153
A viagem ... 155
As palavras e a razão ... 157
Fim ... 158
O cavaleiro ... 159
O veredito ... 161
O cartão-postal ... 163
Águas e agruras ... 166
I - A caminhada ... 166
II - A libertação ... 168
Viva ... 170
“O último conto” — No auge da solidão... ... 172
Poesias ... 179
A brincadeira ... 180
A cor da pele ... 181
A cura da paixão ... 182
A dança ... 184
A grama ... 185
A salada ... 186
A vida ... 189
Amigos ... 190
As rosas ... 192
Deus ... 193
Eu sou feliz ... 195
Minha pequena ... 197
Molhando o seco ... 199
No ribeirão ... 200
Nossa alegria ... 202
O beijo ... 204
O corpo ... 206
O tempo ... 207
O voo ... 208
Olhos não mentem ... 209
Rugas ... 211
Os apaixonados ... 213
Pensando ... 215
Quero você ... 217
Repassando ao futuro ... 218
Salto ... 219
Saudade ... 221
Seu olhar ... 222
Sonhando com você... 223
Sonhos ... 224
Sua presença ... 225
Você acredita? ... 227
Memórias
Contos de criança
Vai chover...
Sempre gostei de chuva, mas não de garoa, gosto daquelas tempestades com raios, trovões e pingos grossos escorrendo pela janela. Quando chove, sinto Deus no cora- ção e na minha vida e penso nas pessoas que fizeram parte do meu viver. Lá em casa, o teto era forrado com ripas, todo pintado de branco e, quando chovia, sabíamos que havia telha quebrada, pois vazava por entre as ripas, que logo fi- cavam amareladas.
Quando alguma telha estava rachada, colocávamos vasilhas grandes e médias, de plástico ou metal, para aparar a água que pingava. Dependendo do volume da chuva, fazia uma grande sinfonia dentro de casa e eu ficava lá, estática, só ouvindo a música e imaginado que cada pingo seria de uma cor, e assim eu tinha notas musicais coloridas, dançando e colorindo aquela sala. Quando chovia granizo, era uma festa:
eu saía escondida, ficava atrás da casa e ria com a sensação de que os pássaros estavam me atirando pedras. Depois da chuva, eu voltava toda molhada, chupando as pedras de gelo que conseguia colocar no bolso da minha roupa.
Durante a noite, eu tinha febre e, no dia seguinte, não saía da cama, e assim permanecia por vários dias.
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A menina se deliciava em ver todo o céu se movimentando para ela, a esperança de viver os sonhos naquele exato momento era primor- dial. A essência do momento era como as recordações que ainda teria durante a sua vida.
Os veadinhos brilhantes e a moita
A decoração da minha casa era muito bonita. Na sala de jantar, tinha uma mesa retangular e oito cadeiras, todas forradas de veludo vermelho, eram lindas e nobres.
Lembro-me bem que eram móveis pesados e escuros, talha- dos à mão, com grandes flores e veadinhos esculpidos em pequenos cantos. Mamãe ficava por um longo tempo ali no chão, sentada, lustrando veadinho por veadinho com um chumaço de algodão embebido em óleo de peroba. Depois, levantava-se imponente, suspirando e esboçando um sorriso de glória. Então, olhava de longe, como se tivesse terminado um projeto do qual se orgulhava muito.
Quando cheguei à minha nova casa, tudo era diferen- te para mim. Nosso casebre anterior era feito de pau a pique e só havia um cômodo. Quando precisávamos fazer nossas necessidades, íamos até uma moita que havia no mato. Uma certa manhã, após polir os veadinhos, ela foi fazer o almoço e eu fiquei no sofá, só os observando. De repente, saltou um veadinho para o chão: ele era bem pequeno e brilhante, saltitou para lá, para cá e voltou para a porta do móvel. Le- vantei-me, caminhei até ele e fiquei olhando desconfiada:
mexi nele e nada, estava imóvel juntos aos outros.
No outro dia, aconteceu novamente: lá estava eu, sentada no sofá, observando os peraltas saltando de um lado para o outro; sim, pois já eram três saltadores. Com o tempo, todos saíam do móvel e vinham até mim! Comecei a interagir com eles, lhes dando até nomes: o meu preferido era o Bito, mas ele tinha seus amigos Pito e Mila. Fizemos uma amizade incrível, brincávamos o tempo todo correndo pela casa, eles saltavam no sofá e nas cadeiras de veludo,
deixando a marca de suas patinhas. Penduravam-se nas cor- tinas, e uma vez até se despencaram de lá.
Mamãe brigou comigo, pois descosturou em cima e, por mais que eu falasse que não havia sido eu, ela nunca acreditou. Meus amigos e eu éramos inseparáveis. Às vezes, quando eu ficava com medo de fazer algo, como subir no móvel e saltar de lá para o tapete, eles me incentivavam, mos- trando-me como era fácil. Certa vez, estávamos brincando debaixo da mesa da sala e, para a infelicidade da mamãe, tivemos um pequeno acidente, pois não me lembrei do ba- nheiro. Minha mãe descobriu o que eu e os veadinhos bri- lhantes havíamos feito e me puniu seriamente pela sujeira.
Daquele dia em diante, eles nunca mais saíram do móvel!
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A dedicação da soberba imediata nem sempre se coloca na frente da razão, a menosprezada infância toma mais atenção com o tempo.
A velha mala
Meu pai sempre foi enigmático, eu sempre achei que, quando ele morresse, iria descobrir muitas coisas interes- santes numa velha mala que ele guardava em cima do seu armário. Sempre que ele e minha mãe brigavam, ele corria para o armário, tirava a mala lá de cima e ficava por horas fuxicando, remexendo... E eu, entre a fresta da porta, espe- rando para ver o que havia de tão misterioso naquela velha mala de papelão duro. Eu o via retirando da mala uma farda toda arrumadinha e bem dobrada; uma arma grande, que ele acariciava com carinho; vários cartões-postais, os quais ele admirava um a um; algumas fotos grandes; e mais nada.
Era muito monótono e demorado, mas a curiosidade era mais forte. E quando começavam os palavrões e agres- sões, já me posicionava atrás da porta, esperando que ele corresse para lá após a pancadaria. Mamãe jogava tudo o que encontrava pela frente em cima do pobre coitado: panela, chaleira, tamanco, água fervendo, gato, cachorro, e tudo isso acompanhado de palavrões:
— Putanheiro, filho da puta, vai pra zona, seu safado!
— E assim era o palavreado.
Meu pai só dizia:
— Vai você, sua bruxa! Eu fui enganado, eu fui enga- nado! — bufava.
Na minha cabeça de criança de três anos, imaginava que, quando eles se casaram, minha mãe deveria ser uma
mulata bonita e cheirosa, que depois se transformou numa perereca verde e gosmenta.
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Às vezes, a arte do sigilo é mais importante do que a divina curiosida- de, e as suposições se levantam quando o som do invisível é mais forte.
Os pesadelos que me faziam esquecer de dormir
Aos quatro anos, quando eu ainda não entendia exa- tamente por que meu pai e minha mãe brigavam tanto, tive um surto de pânico. Talvez tenha sido por causa de uma chaleira que minha mãe certa vez jogou no meu pai, lhe acertando a cabeça e provocando sangramento. Achei que ele fosse morrer nesse episódio. Corri para a calçada chorando e pensei: “Ela vai sentir minha falta e vai parar de brigar com ele, daí ele se salva”. Mas não deu certo. Então fiquei lá na calçada chorando por um bom tempo.
A briga terminou e nem sentiram minha falta, foram dormir, ainda no meio da tarde. Olhei para o céu e comecei a observar as nuvens, elas eram lindas... Às vezes, pareciam carneiros, outras uma árvore, a mais distante um macaco e até mesmo um leão de juba branca. Horas depois observei o sol, e vi que ele procurava sua caminha verde para deitar lá atrás no horizonte. Resolvi voltar e entrar para casa, pois me deu fome. Depois daquele fato, virei sonâmbula, mas meus pais só ficaram sabendo por que a vizinha, chegando de madrugada, me viu na calçada sozinha. Naquela época, não era perigoso como é hoje, o máximo que poderia acontecer seria eu acordar na calçada no dia seguinte.
Meus pais sempre me ensinaram muitas coisas e, na- quele dia, aprendi que eu não era realmente o que importava para eles, também entendi que eu precisava ficar ali.
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As nuvens são eternas companheiras nos sonhos do asfalto.
Onde está a calcinha?
Quando eu tinha cinco anos, a amiga da minha mãe, Dona Mafalda, teve mais uma filha, a Maria Augusta. Lem- bro-me bem que, quando a Augusta nasceu, nossas mães, por serem muito amigas, ficavam conversando horas e horas, enquanto isso a bebê chorava — o que é muito natural, se tratando de um recém-nascido. Dona Mafalda então pe- dia que eu cuidasse da filhota, e colocava-me debruçada no berço da chorona, batendo nas suas costinhas, para que ela se consolasse. Eu odiava aquela pequena criatura! Minha mãe e sua amiga sempre conversavam bem animadas, riam, tomavam cafezinho, falavam das vizinhas, das roupas que tinham que costurar, falavam dos maridos e muitas coisas que eu ouvia atentamente.
Numa daquelas tardes, fiquei olhando para aquela criaturinha. Augusta era muito clara, de cabelos castanhos, lembrava-me uma história que a minha professora, Dona Marisa, havia certo dia contado na escolinha: a história da Branca de Neve e os Sete Anões. Ela era uma gracinha, e depois que Augusta adormecia eu podia sair de perto. En- tão eu ia para o chão, deitava-me embaixo da minha mãe e da Dona Mafalda para olhar por baixo das saias delas. Eu achava interessante que às vezes elas usavam calcinhas e às vezes não.
Uma vez coloquei um vestido e não vesti a calcinha, levei um tombo e minha mãe notou que eu não a estava
usando. Não entendi por que apanhei. Por que elas podiam e eu não?
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As peças se encaixam de acordo com o não esperado, as cores não são importantes para uma determinada consequência.
João e Madalena, dos porcos à taboa
João e Madalena, como num conto de fadas, casa- ram-se e resolveram ser felizes para sempre, criando seus filhos e dando o quanto pudessem tirar do grande amor que sentiam um pelo outro. Mas não foi assim! João sonhou ir mais longe, ele vendeu tudo — sítio e porcos —, e foram para São Paulo – SP, com seus oito filhos: Brasilina, Maria do Rosário, Jovita, Expedita, João, Isaura, Josefa e Joaquina, e mais um por vir, ainda na barriga de minha mãe.
Dos sonhos de moça bonita e cheirosa (como me disseram, anos depois), do rapaz trabalhador, dono de um sítio e criador de porcos, só restou pobreza e arrependimento de terem ido para a cidade grande. Eu pouco sei de minha mãe: nenhuma foto, nem lembranças, não havia laços que houvessem enfeitado seus cabelos, nem sonhos contados e muito menos alegrias vivenciadas. Nada! Só tristezas. Mi- nha mãe Madalena morreu aos 32 anos de idade, grávida do seu nono filho, na fila do hospital, à espera de uma ficha de atendimento. Cena triste, quase uma ópera inacabada, mas já gravada nas obras do nosso Criador.
Meu pai biológico, após ter se submetido a várias ci- rurgias e sem condições de trabalhar, fazia pequenas sacolas com fio de sisal e as vendia em feiras públicas em São Paulo.
Também se embrenhava nos brejos para colher uma haste, usada em decoração, chamada taboa, que lhe rendia algum dinheiro para o nosso sustento. A família não sobreviveu muito tempo unida, pois meu pai, no seu leito de morte e
vendo seus filhos abandonados ao vento, fez seu maior ato de amor: anunciou, na Santa Casa de Misericórdia, que daria seus filhos a quem quisesse adotar, para não morrerem de fome.
Eu estava com quase dois anos quando fui adotada, pelo Sr. Oscar (descendente de alemães) e Dona Maria José.
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O mais importante é tentar de novo depois da chuva, o solo é mais fértil, a colheita é certa e sempre tentariam juntos, até que a terra secasse.
A cabeça de porco
A visita dos meus tios alemães era sempre muito ani- mada, todos os irmãos do meu pai vinham do Rio de Janeiro.
Era uma festa! Meu pai ficava muito feliz, temperava um pernil de porco (comprava o maior que ele encontrasse no açougue) e trazia também a cabeça do animal. Comprava muita cerveja, vinho, um saco de batatas para cozinhar, re- polho e massa folhada para o strudel, um tipo de torta com massa folhada, recheada com maçãs e uvas passas, servida com colheradas de nata.
Mamãe ficava muito contente, eles se abraçavam, riam e eu pensava: “Quando eu me casar, sempre vai ser as- sim, nunca vou brigar, pois chamarei meus tios para virem na minha casa todos os dias”. Os meus tios Felipe, Eduardo, Gustavo e Cristovam chegavam rindo, cantando em alemão, me pegavam no colo, jogavam para o alto e ainda bem que não se esqueciam de me pegar na descida, pois eram enor- mes. Uma vez, meus tios me ensinaram uma frase em alemão para eu dizer à minha mãe, quando ela entrou na sala de jantar, trazendo uma bandeja com a cabeça de porco assada.
Reproduzi em voz alta, devagar e com muito orgulho o que o meu tio ditava ao meu ouvido:
— Unter albern mit diesem verdorbenes essen für die schweine essen! — Cuja tradução significa: “Entre, sua boba, com essa comida podre para os porcos comerem”.
Meus tios caíram na risada e meu pai, quando contou à minha mãe o que a frase significava, ficou muito brava.
Nunca entendi por que ele traduziu a expressão ao pé da le- tra, só sei que a comida veio a baixo, os palavrões foram para o espaço, foi uma brigalhada e sobrou a vara de marmelo...
Para quem? Para mim, é lógico!
Prometi a ela, aos prantos, que nunca mais falaria o que eu não soubesse exatamente o que estivesse falando.
Depois daquele evento, meus tios deixaram de vir nos visitar e, com o passar dos anos, naturalmente foram morrendo, um a um.
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A vida feliz é sempre bem-vinda, mesmo que a saudade fique no futuro.
Chapéu de burro
O colégio onde eu estudava, o Santa Mônica, ficava na Rua Augusta e era dirigido por freiras passionistas. Era um prédio bonito, todo de tijolinhos vermelhos aparentes, parecia um castelo, bem limpo, com piso de tábuas corri- das escuras e enceradas, e seus ambientes eram perfumados.
Havia um jardim ao redor, cheio de rosas, variando de cores que se mesclavam entre o branco até o mais profundo ver- melho. Tinha também algumas folhagens, em verde e tons amarelados. O jardim terminava com árvores flamboyants repletas de flores alaranjadas ou avermelhadas, e embaixo delas havia acomodados alguns bancos de madeira, onde sentávamos na hora do recreio para lanchar.
Havia um costume muito interessante no colégio:
em geral, quando a criança fazia bagunça na sala, coloca- vam-lhe um chapéu com bico bem alto, do tipo usado em bruxas, com a palavra “burro” escrita na frente, na vertical, e a criança ficava o resto da aula sentada em um banquinho no canto da sala. Eu tinha muita vontade de colocar aquele chapéu, só para saber qual era a sensação, pois a maioria das crianças choravam pedindo à freira para sair. Eu pensava:
“Por que elas choram? Quer coisa mais gostosa do que ficar sentado, com todos os olhos virados para você? Não dói nada, nem sequer apanham!”.
Mas, mesmo eu me esforçando para fazer bagunça, nunca cheguei ao ponto de ser punida com aquele castigo.
Já naquela época, nós todos sofríamos com o bullying na sala de aula, com a permissão dos próprios professores.
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A inocência é o humor que nos falta quando os anos passam.
A troca
Certa vez, lá em casa, houve uma briga entre meu pai e minha mãe, muito interessante. As brigas entre eles eram como uma avalanche, não se sabia como começavam e nem o motivo. De repente, aconteciam em todas as partes da casa, começava na cozinha, passava pelo quarto, sala e nunca se sabia como e nem onde iriam terminar. Mas aquela foi di- ferente, começou no portão da casa, com meu pai e minha mãe entrando juntos, e ele falando alto:
— Peça o que quiser, Josefina (apelido da minha mãe), que eu te dou!
Minha mãe dizia veementemente:
— Não! Vai para as tuas putas, eu não te dou!
E assim foi a tarde inteira. Meu pai, num ímpeto de revolta, começou a chutar tudo, jogar objetos na minha mãe, repetindo:
— Josefina, te dou o que quiser... Peça!
Eu pensava: “Espera aí, o que será que ele quer?”.
Mamãe se trancou na sua parte da casa, pois eles dividiam- -na, de modo que cada um morava na sua parte. Ele quase arrancou a janela do quarto, até que ela abriu a porta e disse:
— Entra aqui!
Ele entrou e ela fechou a porta em seguida.
Eu pensei: “Pronto, vai ser abatido lá mesmo, ele é maluco?!”. Depois de um tempo, ele saiu, mais calmo, dizendo:
— Já volto, Nena! (Este era meu apelido).
Voltou, no fim da tarde, de táxi! Meu pai não pegava táxi por nada no mundo, achava que era dinheiro jogado fora. Para se ter uma ideia, uma vez ele tropeçou em um caibro no quintal e furou a perna gravemente com um prego.
Saía muito sangue pelo ferimento, ele enrolou um pano na perna e fomos para o hospital, de ônibus, depois de andar quinze minutos até o ponto. Naquela tarde, ele desceu do táxi carregando uma caixa enorme, amarrada com um lindo laço de seda rosa, cor preferida de minha mãe, e mais uma caixinha de veludo azul.
Minha mãe abriu a caixa bem devagar e de lá retirou um maravilhoso casaco de vison marrom e, da caixinha de veludo, um par de brincos de brilhantes, para mim uma visão inesquecível. Nunca vi minha mãe tão feliz, ela estava radiante, com os olhos encantados e um sorriso no rosto maior do que ela ficava quando limpava os veadinhos. Virou para meu pai e disse:
— Está bem, vamos lá amanhã de manhã!
Pronto, foi como se o mundo todo rodasse em volta deles. Meu pai era só alegria, ficou assoviando e cantarolan- do feliz até a hora de dormir. Também bebeu uma cerveja.
Dona Josefina ficou a admirar seu casaco, não saía da frente do espelho. No dia seguinte, ela me arrumou bem cedinho e saímos. Fomos ao zoológico e só voltamos à tarde. Meu pai havia quebrado a casa dele, os pratos, os copos, tudo veio abaixo.
Olhava para a minha mãe com raiva. Depois eu sou- be, por ele, que ela tinha marcado para ir assinar o desquite, mas não apareceu. Mamãe, desde que ganhou o casaco de
pele e o par de brincos de cristal, só os usou uma única vez, no casamento do filho da vizinha, mas garanto que ela era a mais linda e chique da festa.
E o casaco? Ah, o casaco acabou servindo de coberta para os gatos e os cachorros. Eles sempre foram muito bem tratados lá em casa!
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Quando a inexistência do amor dá vazão à raiva, não podemos mais respirar a vida, e simplesmente vegetamos.
O espírito
Na lateral de casa existia um terreno baldio onde sempre havia uma plantação de alguma coisa, que podia ser milho ou abóbora, dependendo da época do ano. Na época de plantação de milho, dava gosto ver aqueles ponti- nhos verdes rompendo a terra. Eram pequenos soldadinhos com capacetes de aço, marchando juntos e conquistando um lugar ao sol.
O pé de milho crescia livre em haste verde, nascendo, em seu corpo empinado, pequenas folhas arqueadas brilhan- tes e, entre uma e outra, eis que surgia um pequeno cone enrolado junto à folha. Enfim, após algumas semanas, os cones já ganhavam cabelos, no início brancos e levemente esverdeados, depois se alongavam e balançavam com o toque suave do vento. A colheita daquele cone quase seco tinha um leve perfume de mato verde e pamonha. No meio da plantação, ficava uma pequena casinha de madeira, onde um cachorro amarelo, que atendia pelo nome de Duque, assustava, com seus latidos e grunhidos, os pássaros que ousavam bicar os brotos de milho.
Certa noite, meus pais e eu chegamos de um passeio.
Recebi a ordem de ir até a plantação pegar a vasilha do Du- que, para colocar comida. Era uma noite de lua cheia, e a claridade mostrava que já estava na hora da colheita do mi- lho com seus cabelos dourados. Entrei no milharal, que para mim era como se fosse uma floresta, tal era o meu tamanho, e me embrenhei por entre a plantação gritando:
— Duque! Duque!
O pequeno animal não esboçou nenhum sinal. Era um silêncio que incomodava.
Continuei andando devagar e chamando baixinho:
— Duque!
Cheguei até o meio da plantação, onde estava a casi- nha, agachei-me, olhando para o seu interior, e nada. Quan- do desviei o olhar, me arrepiei até o último fio de cabelo.
Bem junto a mim, estavam dois pés unidos. Eram magros, esqueléticos e esbranquiçados. Eu fui subindo o olhar e des- cobrindo o resto do personagem: um homem bem magro, alto, pálido, que vestia alguns panos velhos e rasgados, levava na cabeça um cocar quase sem penas. Seu olhar era firme, autoritário e triste. Levantei-me olhando para ele, sem con- seguir esboçar nem um suspiro, tal era o meu pavor. Eu não conseguia correr ou andar, estava simplesmente paralisada.
De repente, ouvi o latido do meu cachorro e o far- falhar do milho anunciando a sua chegada. Duque aproxi- mou-se lentamente de mim, arrastando-se e olhando para o alto, como se estivesse sentindo o mesmo que eu. Olhei para o cão, esperando que ele tivesse uma atitude bem mais corajosa do que a minha, mas senti nos seus olhos o mesmo pavor que eu. De repente, puff! O índio desapareceu do nada, lá, bem na nossa frente!
Minhas pernas ficaram bambas, saí em disparada, meu coraçãozinho pulando no peito e o cachorro latindo atrás de mim como se estivesse me encorajando a correr. En- trei em casa branca como algodão e gelada como o vento de
inverno. Parei na frente da minha mãe e não consegui es- boçar nenhuma palavra, eu mal respirava, só apontava o milharal com a mão.
Meu pai correu para o quarto e saiu com a arma que ele guardava na mala, indo em direção ao milharal.
— Deixa comigo, Nena! — ele bradava enquanto corria.
Eu não consegui nem estender a mão para pegar o copo com água e açúcar oferecido pela minha mãe. Depois de algum tempo, senti meu corpo voltar ao normal, lenta- mente, e comecei a chorar, dizendo baixinho:
— O índio mãe, o índio está lá! O Duque latiu, ele viu o índio, ele também ficou com medo!
Meu pai veio até mim, passou a mão na minha cabeça e disse:
— Não era nada, Nena, só a sombra da lua...
Sombra da lua ou não, eu nunca mais entrei no mi- lharal nem de dia, quanto mais à noite! Eu sabia que ele estava lá, não sei o porquê, mas o índio esteve no milharal me esperando sempre, até meu pai construir no local uma casa para alugar.
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A imaginação ou a mediunidade se confrontam com as forças invisíveis das sombras.
Quem olha o rosto, vê a cara
A casa era grande, o terreno também ia de uma rua a outra e tínhamos um pomar na parte de trás, com uma grande amoreira no canto, mexeriqueira, bananeiras e um emaranhado de chuchus e maracujás doces. Eu e meu pai ficávamos todas as tardes embaixo da amoreira conversando.
Ele dizia que era bom ficar ali para limparmos nosso espírito dos malefícios diários. Eu não entendia nada, mas ficava e também o ajudava a abraçar a árvore para descarregar o corpo. Eu achava muito estranho.
Ele resolveu construir uma pequena casa para alugar e que serviria como saída para a outra rua. Então, mandou que arrancassem as bananeiras e o pé de mexerica. Eu gostei, já que nos caules havia muitas lagartas fedorentas, e nós as matávamos jogando álcool e em seguida ateando fogo. Cons- truiu dois quartos pequenos, sala, cozinha e um banheiro, e quando terminou, perguntou que cor eu preferia. Pedi então que fosse pintada de creme, com as janelas contornadas de branco e a porta de entrada branca também. Ficou linda!
Parecia casa de boneca!
Meu pai colocou-a para alugar e em uma semana estava alugada, tal era a lindeza de casa. Georgina era uma mulher nova, casada com um homem muito bonito, que parecia um príncipe: ele era alto, de cabelos negros e olhos verdes. O casal tinha duas filhas pequenas, com 2 e 4 anos.
Eles alugaram a casa e eu fiquei feliz, pois teria amiguinhas da mesma idade que eu para brincar.
A mãe delas era muito boazinha: fazia bolinhos para colocarmos nas panelas. Era eu quem sempre trazia
os brinquedos, e elas adoravam os meus brinquedos, pois os poucos que tinham estavam velhos e quebrados. Uma noite, ouvimos uma discussão, que não era lá em casa, mas, sim, na casa da Georgina, entre ela e o príncipe. Brigaram até de madrugada, ele estava bêbado e depois da briga saiu, deixando-a bem machucada.
As brigas aumentaram, as meninas começaram a apa- recer machucadas no dia seguinte, com os braços e olhos roxos e muitas escoriações pelo corpo. Certa vez, ele agrediu a Georgina tão gravemente que meu pai chamou a ambulân- cia. Ela precisou ser internada em um hospital e as meninas ficaram lá em casa, para minha alegria. Depois disso, meu pai proibiu a entrada do “príncipe” lá em casa, nem pelos fundos ele poderia entrar, tal era a sua agressividade com a família.
As meninas não tinham outros parentes, apenas a mãe. A mais nova acabou ficando doente, foi para o hos- pital e morreu. Não acreditei quando me contaram: como podia uma menina tão nova ter morrido? Eu achava que só os velhos e os cachorros morriam! O casal, com o tempo, se separou, e Georgina continuou vivendo lá naquela casa, criando a única filha até ela ficar moça. Meu pai nem cobrava mais o aluguel.
Na vida, adquirimos famílias de coração — são estas as que mais gostamos.
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Na aparência de um príncipe, esconde-se, às vezes, um coração de sapo.
Tempos de criança
Durante toda a minha infância, lembro-me de estar sempre junto ao Paulo e à Augusta, éramos inseparáveis.
Embora a diferença de idade fosse de cinco anos a menos em relação à Augusta, não percebíamos. Nós não tínhamos desenhos coloridos para crianças na TV, nem programação especial; no máximo, íamos ao cinema aos domingos assistir ao festival de Tom & Jerry. Soltávamos balões coloridos, em- pinávamos pipa, brincávamos de guardião da rua — aquela brincadeira cujos participantes ficavam na calçada e tinham que atravessar a rua, pulando numa perna só, e o guardião da rua ficava correndo, tentando pegar quem atravessasse de um lado para o outro e, quando conseguia, trocava de lugar:
quem ele pegasse passava a ser o guardião.
Jogávamos pião na terra seca e deixávamos que ele rodopiasse, como num balé mágico tridimensional, até cair exausto por terra, não um pião, mas um guerreiro cansado da guerra, depois, de tanto brincar, deixávamos que ele qua- se nos furasse a palma da mão. Brincávamos de família, eu sempre queria ser o pai, pois logo cedo eu acordava, tomava café, entrava no meu grande caminhão de plástico colorido e ia viajar; a Maria Augusta era a filha pequena, que ficava só no berço para não dar muito trabalho, e o Paulo era o irmão que cuidava do jardim, arrancando matinhos e provocando guerra entre formigas e minhocas que achava na terra fértil do jardim. Não existia mãe, pois “ser mãe” era muito chato, não tinha nada para fazer. A comida já pronta eu pegava lá na cozinha e colocava nas panelinhas.
Havia também a hora que cuidávamos dos gatos da casa, eu chegava do “trabalho”, pegávamos gato por gato e catávamos as pulgas de todos eles. Passávamos muitas tar- des brincando assim. Outra brincadeira era apostar para ver quem comia mais pimenta, daquela grande. Comíamos quatro ou cinco pimentas cada um; a Augusta era o que cha- mávamos de café com leite: ela podia tudo, pois era a mais nova. Augusta tinha cinco anos, mas já era valente, comia uma pimenta dedo-de-moça inteira. Um dia era pouco para tantas coisas que inventávamos.
Quando não tínhamos mais nada para fazer, ficá- vamos sentados na guia da rua, abraçando os joelhos em silêncio, não dizíamos uma só palavra, e até o barulho do vento se fazia presente entre nós, destacando nossa respi- ração. Depois de tantos pensamentos vazios, levantávamos lentamente e íamos andando e nos separando em silêncio.
Do outro lado da rua, Paulo e Augusta, meus irmãos do co- ração, levantavam a mão até a cintura e, com um leve abano, era como dissessem: amanhã tem mais!
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As irmandades presentes são meras amizades escolhidas na infância.
Inocência
Eu, além de ser a defensora do Paulo (ele tinha Sín- drome de Down) batendo em todos que debochassem dele, batia também nos meninos da rua de cima, e confesso que batia por vários motivos. Nós três — Paulo, Augusta e eu — passávamos o dia inteiro brincando na rua ou conversando animados, fazíamos vários planos para o futuro, talvez não soubéssemos ao certo o que queríamos dizer. Ele era meu irmão e meu melhor amigo, eu nunca via nele uma limi- tação, simplesmente conversava com ele como se conversa com um irmão.
Augusta, eu a considerava como minha filha, pois eu cuidava dela desde que ainda era um bebê: dava mamadeira, colocava para dormir, só não trocava as fraldas. Eca! Certa vez, eu falei para o Paulo, na frente da Augusta, com o maior amor e carinho que, quando eu crescesse, iria ter uma casa num quintal bem grande, e ele iria morar em outra casa no meu quintal e seria o jardineiro. Eu sabia que ele adorava cuidar das flores e plantas e, estando perto de mim, eu cui- daria dele para sempre. Ninguém mais lhe faria mal.
Fui mal compreendida! Pela Augusta. Parece que ela não gostou do que falei, pois mais tarde citou aquele fato, deixando no ar uma mágoa, guardada depois de tantos anos.
Não entendi, pois, afinal, éramos crianças e inocentes em nossos pensamentos. Pois é, por falar em inocência, tinha uma coisa que eu e a Augusta fazíamos: quando brigávamos com os meninos, virávamos de costas, levantávamos as saias
e mostrávamos o bumbum para eles gritando: “Olha aqui pra vocês!!”.
Nós achávamos que aquilo era a maior ofensa possí- vel! Que vergonha! Será que era por isso que as brigas acon- teciam todos os dias?
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A inocência nos leva ao mais alto impacto de vida, não há queda, só ajuste.
Carrinho de rolimã
Além do Paulo, o Luizinho era um dos meninos do bairro que eu mais gostava. Ele era muito bonzinho e educa- do, e por isso eu nunca batia nele, pois tratava bem o Paulo e brincava sempre comigo com seu carrinho de rolimã. Uma vez, no meu aniversário, minha mãe me vestiu bem boni- ta, toda de azul. Quando digo toda azul, era tudo mesmo:
vestido, sapatos, meias e laço nos cabelos. Meu vestido era lindo! Todo de tecido organdi e renda muito fina. Minha mãe ia me levar ao cinema, então eu disse que ia esperá-la na calçada até ela se aprontar.
Saí e fiquei na calçada à sua espera, até que o Luizi- nho, que morava na casa ao lado da minha, saiu para brincar com um novíssimo carrinho de rolimã. Ele me disse que eu estava muito bonita e perguntou se eu queria dar uma volta no carrinho. Aceitei. Afinal, seria rápido! Fomos até o início da guia de paralelepípedos, sentei-me atrás dele e começa- mos a descer a ladeira. Que legal! De repente, o carrinho emperrou. Arrastamos, arrastamos e nada. Descemos para ver o que estava acontecendo, quero dizer, ele desceu, eu nem consegui sair do lugar. Meu vestido estava todo emaranhado com as rendas na roda de trás do carrinho.
— Meu Deus! O que vou fazer? Minha mãe vai me bater!! — eu desabafei.
O Luizinho disse:
— Espera, Nena! Calma aí que eu já volto!
Ele foi lá dentro. Voltou com agulha e uma linha branca, começou a dar uns pontos no meu vestido, enquanto eu me desmanchava em lágrimas. Não adiantou de nada.
Além de não sair, fiquei até à noitinha passando sal- moura nas pernas para não ficar com cicatrizes.
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A consequência do inesperado é sempre uma surpresa para os olhos e para o coração.
Veneno para baratas
Daquela vez eu resolvi morrer. Eu não aguentava mais vara de marmelo, e o pior é que ainda tinha vários ga- lhos disponíveis no marmeleiro. Fui ao banheiro e pensei:
“Como é difícil! Será que vai doer? Mas vou encontrar com minha mãe e ela vai tomar conta de mim. Não vou mais apanhar, terei beijinhos e ela ficará feliz por não estar mais sozinha lá no céu. Está decidido!”. O banheiro era grande, ti- nha uma banheira e o vaso sanitário ao lado da pia. Na outra parede estava o armário, onde eram guardadas as toalhas de banho bordadas, com flores bem coloridas, juntamente com as toalhas de rosto e alguns tapetes em crochê, de cores vivas.
Eu sempre ia para o banheiro de castigo quando apa- nhava. Aí eu deitava dentro da banheira e ficava chorando pelas dores nas pernas avermelhadas. Chorava até dormir e só acordava quando a porta era destrancada. Então eu saía devagar, minha mãe perguntava se eu havia aprendido a lição e eu concordava acenando com a cabeça.
Levei para o banheiro uma colher de pó de matar baratas e um copo. Coloquei uma colher de sopa bem cheia do pó, enchi o copo e bebi a água. O cheiro era muito ruim e o pó agarrou na minha garganta. Tomei um pouco da água e fui para a segunda colherada. Quando estava tentando tomar a segunda, me engasguei com o pó. Fiquei tossindo a tarde toda e bebendo água com medo de morrer asfixiada.
“Mas vem cá... não era pra morrer?”
Eu me senti pior do que as baratas, pois só fiquei com dor de barriga.
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Podemos morrer aos poucos, mas morreremos quase nada diante da liberdade da alma.
O ouro do capitão
Falar sobre meu pai me emociona em qualquer situa- ção, pois ele fez de minha vida uma coisa muito boa. Recor- do-me dele com um terno de linho branco, muito limpo e sempre bem passado. Ele usava também um chapéu Panamá.
Descia a rua sem asfalto andando pela guia como se fosse um barão. Todo garboso com seus olhos azuis e seus cabelos louros, os grisalhos aparecendo um pouco na nuca e sobre as orelhas, abaixo do chapéu.
Seu Oscar adorava jogar bilhar, e ele sempre ia até a Praça da Sé, no Bilhar de Ouro. Encontrava seus amigos para uma partida e lá passava o tempo, jogando por horas.
Voltava só à noitinha, todo calmo, feliz e assobiando pela rua. Assim que apontava aquele chapéu no alto da rua, eu saía correndo ao seu encontro e perguntava-lhe:
— Pai, cadê meu ouro? Onde está meu ouro?
Ele sorria, enfiava a mão no bolso, retirava as maiores moedas de ouro recheadas de chocolate que estavam lá e colocava nas minhas mãos, e eu saía gritando:
— Ouro! Ouro do capitão!
Meus amigos corriam ao meu encontro para a divisão das moedas. Era uma festa!
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A brincadeira é constante, o carinho é eterno, as lembranças passam.
Calmo, mas nem tanto
Seu Oscar era um homem calmo. No inverno, quan- do saíamos para o Largo de Pinheiros, meu pai sempre pa- rava no bar e pedia uma bebida:
— Me dá um rabo de galo pra aquecer!
Eu esperava por ele na porta do bar e uma vez lhe disse:
— Pai, quero tomar isso também, porque estou com frio, é só para me aquecer!
— Não, filha, criança não bebe isso, mas vou te dar algo mais gostoso! — ele me disse.
Ele pediu para o dono do bar um copo com leite e groselha, e eu me deliciei com aquele líquido rosado. A partir daquele dia, todas as vezes que saíamos ele pedia um rabo de galo para ele e o leite rosado para mim. Eu era feliz!
Lembro-me que, certa vez, quando voltávamos do Largo da Batata, em Pinheiros, passamos em frente a um bar próximo de casa, entramos e eu pedi um sorvete para ele.
Meu pai foi até a geladeira horizontal e começou a procurar o sorvete de coco que eu queria. Naquele momento, o dono do bar aproximou-se e deu uma bronca no meu pai, por ter aberto a geladeira sem pedir.
Seu Oscar, enfurecido, abriu todas as tampas da ge- ladeira, retirou as caixas de sorvete e jogou-as no chão. Foi terrível! Eu pensei: “Agora corremos ou ficamos e apanha- mos?”. O dono do bar foi para cima do velho, e papai pegou a carteira, retirou o dinheiro e jogou-o no chão gritando:
— Tome seu dinheiro! Pensou que eu fosse roubar um sorvete?
Então, pegou a minha mão e fomos embora, com- prou o sorvete que eu queria em outra padaria. Nunca en- tendi direito aquela atitude.
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Os nervos se revezam com a adrenalina, não se sabe quem chegará primeiro a sucumbir.
Perfume de alfazema
Mamãe, Dona Josefina, como era chamada, foi sem- pre uma mulher muito trabalhadeira e limpa. Eu me lembro dela arrastando os móveis de jacarandá maciço todos os dias para varrer por baixo deles. O assoalho era bem encerado e as roupas sempre bem branquinhas e perfumadas com al- fazema. Quando se tratava de comida internacional, Dona Josefina preparava a melhor comida, servida em belos pratos ingleses, brancos com estampas azuis — pratos esses que a patroa lhe dera de presente no casamento. Assim tam- bém eram os cálices, onde eles bebiam um saboroso licor de jenipapo ou jabuticaba, preparado com muito carinho e guardado numa jarrinha de cristal, dentro da belíssima cristaleira com espelhos bisotados.
Minha mãe sempre trabalhou em casa de família es- trangeira como cozinheira. Fazia comidas mais elaboradas
— alemãs, francesas e árabes. Por conta disso, preparava co- midas gostosas e servidas em lindos pratos. No entanto, a comida simples do dia a dia que ela fazia era um horror! E tínhamos que comer tudo elogiando:
— Hummm... Que gostoso, está uma delícia!
O feijão era duro e o arroz tipo unidos venceremos.
Depois de alguns anos, não sei exatamente o que houve, minha mãe foi entristecendo, ficando pelos cantos, não cui- dava mais de nada e mal comia. Os animais a adoravam, muitos deles eram apanhados na rua doentes, ficavam lá em casa, eram tratados, bem alimentados e medicados, depois demonstravam sua gratidão andando sempre ao lado dela.
Mamãe ajudava muitas pessoas também. Ao saber que estavam doentes ou sem comida, ela prontamente ofe- recia ajuda. Sempre que ganhávamos alguma coisa gostosa dos vizinhos, devolvíamos o recipiente com alguns ovos, das nossas galinhas, em retribuição. Dependendo da quan- tidade ou da qualidade do presente, eram oferecidos mais ou menos ovos.
O chato era quando ela colocava dois ovos em uma travessa enorme de macarrão e só ficava olhando a reação da pessoa que recebia. Eu entregava de volta a travessa, e era como uma grande e complexa avaliação do que havíamos recebido: menos ovos, menos nota. Às vezes, eu passava com a vasilha no galinheiro e apanhava mais alguns ovos, com pena da vizinha.
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As pessoas de gestos refinados não são necessariamente as mais no- bres, pois o bom gosto vem do gosto.
Nossa praça
No início da nossa rua havia um mato só. Eu ia sem- pre lá: entrava no mato e apanhava uma sacola de cambuqui- ra, um broto de abóbora com umas três folhas que era usado numa sopa de fubá, com pedaços de bacon. Uma delícia!
Ainda me lembro daquela vez que minha mãe, Dona Mafalda, Paulo, Augusta e eu fomos até o alto da rua, onde estavam cortando a cambuquira para erguer uma praça.
Aquela praça era muito aguardada por todas as crianças do bairro, afinal, não tínhamos nenhum lugar para nós, com brinquedos e bancos adequados para crianças. Ela era irre- gular e alta, tinha um formato de triângulo e uma vegetação rasteira, além de algumas pedras soltas.
Foi quando resolvemos ajudar a natureza e a prefei- tura a terminarem mais rápido o trabalho de ornamentação e paisagismo da praça. Nós arrancamos algumas mudinhas de figueira da casa da esquina e plantamos as três alinhadas lá no alto, deixando a nossa marca.
As mudinhas cresceram e estão lá exuberantes, há mais de cinquenta anos. Hoje, é a Praça João Francisco Lis- boa, um encontro da rua Delfina com a rua Arapiraca, si- tuada na Vila Madalena, em São Paulo.
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A natureza precisa de ajuda, mas, como todos nós, do imprevisível é que surgem as ideias.
O caminho das cabras
Sempre fui uma criança raquítica, e às vezes passava mal durante dias por qualquer coisa que ingerisse. Fui levada ao hospital em que meu pai trabalhara e, embora fosse um hospital de isolamento por doenças contagiosas, era onde meu pai conhecia pessoas e nem precisava marcar hora para eu ser atendida.
O médico disse que eu não podia tomar leite de vaca, mas, sim, o de cabra. Foi então que meu pai comprou duas cabras e um cabrito, que davam muito trabalho, principal- mente quando se mora em uma capital grande e relativa- mente próximo ao centro. Além disso, nós já tínhamos gatos, cachorros, patos e galinhas. Meu pai dizia que, além de ração, as cabras tinham que ir a um campo para pastar e passear, e havia um campo assim a algumas quadras lá de casa. Foi então que fiquei encarregada de levá-las até lá, todos os dias, à tarde.
Quando eu saía levando os três cabritos, sofria go- zações por parte dos meninos da rua. Eles iam cantando atrás de mim:
— Lá vai a menina das cabras, mééé... mééé... amarre elas com suas tranças, Nena! — E riam a altos brados.
No início, eu revidava, atirando-lhes pedras; depois minha mãe me ensinou que, quanto mais eu me importasse, mais eles debochariam de mim. E assim passei a não dar bola!
Cabritos iam e voltavam e eu a levá-los para pastar.
Brincava com os cabritinhos de dar cabeçada, corríamos muito pelo pasto, me divertia com aquelas criaturinhas fo- finhas e meigas, enquanto eles sorriam para mim com seus
olhinhos negros e brilhantes. O que mais me entristecia era quando minha mãe me levava para passear e, na volta, tí- nhamos cabrito assado para comer. Eu comia chorando, chorava, mas comia, pois era muito gostoso.
Um dia, quando eu estava sentada em uma pedra lá no campo, esperando que as cabras pastassem, avistei um rapaz que eu não conhecia. Ele se aproximou e me pergun- tou se eu ia lá sempre, e eu respondi que sim. Daquele dia em diante, quando eu lá chegava, ele já estava sentado me esperando. Essa situação se repetiu por algumas semanas.
Uma tarde, eu cheguei com as cabras, sentei-me e fiquei a observá-lo. Ele se aproximou e me perguntou:
— Você tem namorado?
— Eu não, sou muito nova ainda! — respondi.
— Você quer namorar comigo? — ele perguntou, se- gurando meu braço.
— Me solta! — retruquei.
Nisso, ouvi atrás de mim:
— Solta ela! Ela é nossa amiga, vamos acabar com você, seu idiota!
Olhei e vi três amigos lá da minha rua, com pedras nas mãos e olhares agressivos. No mesmo instante, o rapaz saiu correndo e meus amigos jogaram as pedras nele. Naque- le dia, conheci o poder que os amigos têm em nossas vidas.
Quando souberam do acontecido, meus pais venderam as cabras e passaram a comprar leite de uma pessoa que as criava em um bairro mais distante.
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O perigo nos ronda à distância e, quando ele se aproxima, deixa de ser feio e passa a ser inebriante.
Lorde
Tive vários cachorros, mas um deles merece ser citado aqui: o Lorde. Era um lobo do mato que meu pai ganhou de um amigo do interior de Minas Gerais. Lorde veio para nossa casa bem pequeno. Era cinza com grandes orelhas pontudas, dentes grandes e finos; a mãe tinha morrido e ele fora poupado. Aquele cão foi meu grande amigo e o terror dos homens da carrocinha (carro municipal que apanhava cachorros soltos nas ruas), que não conseguiam pegá-lo de jeito algum. Meu pai até aumentou o muro em mais um metro e meio, para ver se ele não fugia, mas não tinha jeito.
Vivia nas ruas do bairro!
Nas noites de lua cheia, uivávamos juntos no quin- tal, ele abanava o rabo para mim, com ar de aprovação. Seu olhar me dizia: “É isso aí, garota!”. Nós éramos bem parcei- ros mesmo, até que um dia, em uma das sessões da vara de marmelo, ele avançou contra minha mãe, mordendo sua barriga. No dia seguinte, quando voltei do colégio, ele não estava mais em casa.
Chorei vários dias me lembrando dele, e até fiquei com febre.
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O amor pelos animais transborda mais os sentimentos pelo lado oposto na necessidade.
Tiro na noite
O Rex foi o cachorro mais violento que já conheci, nasceu de um cruzamento do Lorde com uma cadela policial que tínhamos. Minha mãe o soltava bem tarde da noite para ele passear. Certa noite, depois de meia hora que ele já estava solto na rua, minha mãe me disse:
— Nena, vai lá chamar o Rex para dentro!
Eu fui. Ele estava em frente ao portão do seu antigo dono. Cheguei perto, chamei-o para dentro, mas, naquele momento, o cachorrinho da Dona Mafalda, o Bilú, pulou o muro e saiu para a calçada, Rex nem pestanejou, saiu cor- rendo atrás dele para exterminá-lo. Corri atrás dos dois.
Nisso, o seu antigo dono saiu no portão e deu um tiro em nossa direção. Senti a bala furar a manga do meu vestido e se alojar na coluna do Rex. Ele soltou um uivo enorme e saiu se arrastando para casa. Ouvi outro tiro, mas aquele não o acertou. Rex foi lá para baixo das bananeiras, deixando um rastro de sangue pelo caminho. Meus pais apa- receram, mamãe correu e me pegou no colo, pois eu estava chorando muito.
Nossos vizinhos chamaram a polícia, e o vizinho per- maneceu dentro da casa dele, com as luzes apagadas. Mas não adiantou negar, pois os policiais viram o furo na manga do meu vestido e levaram o criminoso para a delegacia, onde foi autuado e sua arma apreendida.
O Rex foi executado embaixo das bananeiras.
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A ignorância humana ultrapassa a debilidade do cérebro diante dos animais.
Explicando palavrões
Eu nunca entendi muito bem o significado dos pa- lavrões que minha mãe falava para o meu pai. Um dia, ela resolveu me explicar, e fomos até um bar lá em Pinheiros, onde, nos fundos, havia um jogo de bilhar com várias mesas.
Minha mãe me levantou do lado de fora e disse:
— Olha lá dentro, veja se seu pai está lá!
Eu olhei e vi meu pai sentado numa mesa tomando cerveja e, no colo dele, estava uma moça muito bonita. Não achei nada de mais, eram tantos homens que talvez ela esti- vesse descansando no colo do meu pai por não haver mais cadeiras disponíveis, pensei. Minha mãe não achou a mesma coisa, mandou que eu entrasse lá e chamasse meu pai para fora. E eu fui.
Lá dentro parecia um filme: havia algumas luzes sol- tas do teto, mesas e cadeiras escuras, um lustre arredondado caía sobre cada mesa de bilhar, o ar era pesado e havia uma forte fumaça branca. Eu até me perguntei: “Como meu pai fica num lugar assim horrível com seu lindo terno branco e seu chapéu Panamá?”. Ele ficou muito bravo, me perguntou o que eu fazia ali. Respondi que mamãe estava lá fora e o estava chamando. Num impulso, levantou-se, visivelmente contrariado e vermelho. Meu pai sempre ficava vermelho quando estava com raiva. Foi para a rua, e lá começou o bate-boca entre os dois.
Muitas pessoas correram para assistir à briga e mui- tas riam sem parar. Foi a maior briga que presenciei, pelo menos a que me deu mais vergonha, de ver todos rindo de
nós. Depois de muita confusão, fui para casa, puxada pela minha mãe, que soluçava sem parar. A pobre voltou cho- rando e ficou bastante tempo soluçando sozinha na cama.
Fiquei com muita pena dela, aproximei-me, dei-lhe um beijo e passei a mão em seus cabelos brilhantes. Embora eu não tivesse entendido bem a situação, comecei a perceber o motivo que ela tinha para falar mal do meu pai.
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Os homens carentes e livres na ternura liberam seus pensamentos, dando vazão ao vazio interior, para preenchê-lo com carinhos, não se importando com outro coração além do seu próprio.
O leão da praia
A lembrança mais gostosa que tenho de minha in- fância são as idas e vindas da praia. Meu pai dizia:
— No sábado que vem iremos à praia!
Pronto! Eu não parava mais de pensar. Todos os dias eu perguntava a ele se já era sábado ou se faltava muito para o sábado. Mas, se no sábado estivesse chovendo, eu chorava o dia inteiro, perguntando por que choveu e se era dia de ir à praia. Seria mais uma semana esperando que finalmente não chovesse no sábado. O sol nascia e logo me acordava com seus raios na janela. Eu me levantava, vestia meu maiô azul-marinho, com pequenos cogumelos bordados em ver- melho e branco, colocava minha calça rancheira, uma blusa de cambraia e corria lá pra fora, gritando:
— Vamos, vamos antes que chova de novo! — Era uma alegria geral.
Numa sacola impermeável marrom já havia sanduí- ches de queijo, mortadela e um saquinho de torresmos que meu pai gostava de comer no trem, tudo organizado pela minha mãe no dia anterior à viagem. Pegávamos o bonde Camarão e íamos até a Estação da Luz pegar o trem para Santos. Que beleza! O sacolejo do trem, as flores do caminho da Serra do Mar, a água que vertia das pedras e respingava na janela molhando meu rosto. Eu amava tudo aquilo!
Meu pai cantava para mim:
— Tô chegando... tô chegando... Praia, a Nena tá che- gando... Tá chegando!
Eu adorava aquilo... Minha mãe feliz! Eles se abra- çando e sorrindo. Era tudo o que eu queria! Em Santos, pegávamos o ônibus para a praia do Zé Menino ou para