Talvez as coisas não ditas signifiquem mais. Mas se não forem ditas, que diferença faz? Só faz diferença quando sai do cérebro e vai para a boca, e essa diferença se faz no percurso da boca até os ouvidos de alguém. Ou seja, não se faz na ação, mas na audição. Na audição de quem ouve, não de quem interpreta!
De quem interpreta já é interpretação. Então não tem valor pleno, pois se pode interpretar qualquer coisa. Qual-quer coisa também não, tem que valer algo para alguém. Aí, sim, será interpretado!
Interpreta-se para o bem ou para o mal. Se for para o bem, o crente dirá que é uma bênção! Se for para o mal, já é outra história, pode ser ruim e pode ser bom. Se for ruim, pode ser uma doença! Se for bom, pode ser uma esperança!
Ou seja, ou mal ou bem, ou simples ou complexo.
Todos os pensamentos, quando viram palavras, significam várias coisas boas ou ruins, depende do momento e de quem as escuta. Melhor transformá-las sempre em boas, que seja para o bem ou para o mal. Importam o momento e o que se quer ouvir e entender.
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Palavras são pensamentos que flutuam entre a mente e a razão: faça o melhor para se ouvir.
Fim
Entre queixas e lágrimas, foram se despedindo, talvez nunca voltassem a se ver. Mas foi bom! Foi inebriante aquela sensação de paz.
Dançaram, sorriram e agora se separaram. Foi bom!
Nada de rancores, só saudade, nem um pouco de mágoa, só dúvidas pairavam no ar. Fui certo ou foi você a errada?
Não importava mais, daquela situação de melancolia restou um adeus. Foram se distanciando e se sentindo livres.
O amor é assim, nem prende nem arrebata. Simples-mente domina. Chega, tumultua a vida e nossa Simples-mente e um dia termina ou vai embora.
Que chato!!
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Tem certas coisas que ficam no passado, mas de alguma forma nunca nos abandonam.
O cavaleiro
Abri a janela, o sol ainda brilhava, mas um pouco mais terno, já que avançava para o horizonte. Os pássaros se procuravam num balé inebriante, em círculos. Na rua, poucas crianças se reuniam para contar umas às outras suas peripécias do dia. Olhei para o pé da serra, no alto da rua, observei um cavaleiro que descia lentamente a rua montado em seu cavalo negro. Vestia uma camisa xadrez azul e branco, calças jeans, botas pretas e um chapéu marrom.
Parou em frente à minha janela, notei que segurava na boca um filete de mato verde; olhou-me e, com um gesto, tirou levemente o chapéu, revelando finos cabelos loiros. Seu olhar era cansado e triste, a voz forte e levemente rouca, e ele me disse:
— Boa tarde, dona!
— Boa tarde! — respondi-lhe.
— Essa rua vai sair na praia? — indagou-me.
— Sim — respondi-lhe baixinho.
Acenou-me agradecendo e se afastou devagar.
Virei-me, fechando a janela, e meu coração disparou.
Era como se meu mundo tivesse acendido mais ainda. Eu comecei a andar dentro casa, pensando naquele cavaleiro até à noitinha.
No dia seguinte, no final da tarde, já havia me es-quecido dele, e fiz o que sempre fazia todos os dias: encami-nhei-me até a janela e a abri. Não demorou muito e avistei novamente o cavaleiro descendo a rua, observei sua silhueta, montado em seu cavalo, todo garboso. Ele parou na minha
frente, tirou o chapéu e me sorriu com um sorriso malicioso.
Eu sorri e baixei os olhos.
Assim foi por semanas, todas as tardes eu corria, abria a janela e esperava por ele com o coração em chamas.
Numa tarde ele não passou, fiquei na janela até o entardecer.
No outro dia também não e também não nos demais. Mais uma tarde chegou e nada; abri a porta e fui descendo a rua até a praia. O mar estava calmo, as ondas espumavam na areia. Olhei em direção a uma árvore e ele estava lá, sentado cabisbaixo, e segurava o chapéu na mão. Aproximei-me, ele levantou o olhar e me deu a mão dizendo:
— Por que você demorou tanto? Esperei por todos esses dias e horas.
Nos beijamos e sentei-me ao seu lado. Conversamos sobre sonhos desejados, e desejamos sonhar com o que nun-ca fizemos. Contamos histórias um para o outro. Era muita felicidade no coração.
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As surpresas que nos aguardam, nos esperam para um baile de emo-ções, basta querer tentar.
O veredito
Ele estalava os dedos nervosamente. O tempo lá fora estava lindo, e algumas pessoas ainda estavam de plantão na escada do prédio onde ficava o local gelado e cheio de ouvintes que decidiriam sua vida.
Desde que ficou em reclusão, não parava de pensar no fato que aconteceu. Conhecera Helena há um ano. Ela não era muito bonita, mas o tratava bem, sempre com um largo sorriso no rosto. E só por isso valia a pena, pois não o discriminava pelo defeito que tinha em uma das pernas e que o fazia mancar.
Começaram a sair. Foram ao cinema, depois à expo-sição de flores, comer pizza. Eram felizes, sempre rindo das bobeiras do dia a dia. Ela tivera alguns namorados, mas há muito não os via. Quanto a Fernando, só tivera uma namora-da no colégio, por sua deficiência nunca aceitaram namorar com ele.
Certo dia, Fernando passou para pegá-la. Subiu, to-cou a campainha e notou que a porta estava entreaberta.
Chamou e foi entrando. Quando chegou ao quarto e em-purrou a porta, em cima da cama jazia Helena, com uma faca enfiada no peito. Ele se debruçou, tentando retirar a faca, mas ela já estava gelada. A polícia foi chamada e ele foi preso como primeiro suspeito.
— Não fui eu! — ele negava a todos.
Agora estava ali, no banco dos réus, esperando o ve-redito. Entrou o juiz, pedindo em seguida que um a um os
jurados dessem o seu veredito, entre culpado e inocente, e finalmente saiu o resultado.
— Inocente! — o juiz decretou.
Enfim livre, a justiça fora feita. Ele suspirou alivia-do, saiu pelas ruas sem o peso da condenação. Sentou-se no banco da praça e, para não perder o hábito, lembrou-se daquele dia.
Fernando chegou, tocou a campainha e notou que a porta estava entreaberta. Foi entrando e ouviu os risos de Helena. Chegou ao quarto e pode vê-la nos braços de outro, rindo e fazendo piadas sobre a sua deficiência. Seu mundo veio abaixo — qualquer outra, ele admitiria, mas não a sua Helena.
Ele voltou-se, caminhou até a cozinha e voltou com a faca que lhe enterraria no peito. Escondeu-se e aguardou o amante sair. Quando então ela adormeceu, ele terminou a sua história e a da mulher que amou um dia: Helena.
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O veredito liberta o homem, mas a alma acorrenta o espírito.