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Os anjos existem

No documento Editora Recanto das Letras (páginas 99-103)

Os anos se passam, fatos ocorrem e, no final das con-tas, não sabemos por que mudamos com coisas que presumi-mos. Em minha vida, deixei que a brisa me levasse, incansável e solitária, sempre tomando minhas decisões sozinha, pois era a melhor forma de as coisas acontecerem. Eu estava no início de uma separação, com dois filhos pequenos, moran-do longe de poucos parentes e amigos que nem sabiam da situação e sentia-me muito só.

Comecei a trabalhar como aprendiz de corretora de imóveis, mas era muito difícil, depois de quase 14 anos me mudando e me dedicando só ao marido e aos filhos. Saía por volta de 07h30 e deixava meu filho, de 10 anos, na es-cola pública do bairro, e minha filha, de 7 anos, dormindo, a comida pronta, o macarrão já cozido e o leite já fervido em cima do fogão, nosso apartamento bonito e arrumado.

Meu filho, quando chegava, dava comida à irmã e a levava ao colégio, buscando-a à tardinha. Eu só chegava às 22h, e eles estavam dormindo, após terem jantado e tomado banho.

Mais um final de mês chegando, as contas vencendo e eu sem ter como saldá-las. Meu filho com mais uma crise de asma e mais uma receita médica com remédios para com-prar. Eu não tinha comissão alguma para receber! Resolvi jogar a toalha: a vida tinha me vencido, eu daria uma chance para a morte. De meus filhos alguém cuidaria, aqueles que menos se preocupavam com nossa existência teriam que se preocupar com eles.

Cheguei às 22h, como todos os dias, olhei as crian-ças, dei-lhes um beijo e deixei uma carta para cada um de-les, na estante, para que fossem lidas quando tivessem 18

anos idade. Talvez assim pudessem entender meu ato de covardia. Coloquei um revólver, calibre 38, carregado só com uma bala na bolsa e tomei uma dose de vodka. Eu estava chorando muito, meus pensamentos rodopiavam acima da minha cabeça. Fiz uma oração para Deus, pedindo que ele me perdoasse e pudesse me receber na eternidade como sua filha de novo.

A praça do bairro do Grajaú, no Rio de Janeiro, era muito bonita, toda arborizada com flamboyants, as mes-mas árvores nas quais eu sentava para tomar meu lanche no colégio durante a infância. Havia um posto da polícia, e eu pensei que, quando ouvissem o tiro, me encontrariam, juntamente com os números de telefones de pessoas a quem poderiam avisar e meu endereço, onde estavam meus filhos.

Levantei-me do sofá, andei por todo o apartamento a fim de checar se estava tudo no lugar, olhei o armário dos meus filhos, para ver se as roupas estavam nos seus devidos lugares, e caminhei pelo corredor, em direção à cozinha. En-quanto eu bebia água, ouvi a campainha.

“Quem seria? Eu não conhecia e nem falava com ninguém no prédio...” Abri a porta. Era uma senhora que vestia um robe cinza. Ela perguntou-me se meu nome era Jô. Olhando-me de cima a baixo, devido ao meu estado de prostração e desânimo, me disse que havia alguém no tele-fone querendo falar comigo. Entrei no apartamento dela e me encaminhei até a estante. Atendi o telefone e ouvi uma voz aveludada e forte de homem do outro lado:

— Jô, é você?

— Sim — respondi. — Quem é? — perguntei em seguida.

— Está tudo bem com você? É o Affonso, estou em Campos.

Affonso era um amigo nosso da FAB, também piloto, que eu não via há mais de 6 anos. Respondi-lhe que eu não poderia falar com ele naquela hora, pois teria que sair.

— Está tudo bem com você? Eu fiquei tão preocupa-do de repente com você! Está tupreocupa-do bem? — perguntou com insistência.

Comecei a chorar desesperadamente ao telefone. A vizinha me trouxe um copo com água e açúcar e fui me acalmando aos poucos, enquanto ele, do outro lado da li-nha, dizia que precisava que eu lhe fizesse um favor no dia seguinte.

— Eu não posso, Affonso, não posso ajudá-lo. Adeus!

— disse-lhe aos prantos.

— Mas, Jô, não desligue, por favor! Preciso falar com você! — ele repetia, incansavelmente, prevendo o pior.

— Não posso mais falar, vou desligar. A senhora aqui tem que dormir.

Naquele momento, enquanto eu me despedia, ele, do outro lado da linha, me interrompeu e pediu que eu lhe telefonasse do orelhão a cobrar, pois era urgente. Voltei para o meu apartamento, peguei o número que eu havia anotado e desci. O orelhão era na esquina e o bar já estava fechado.

Liguei e, quando ele atendeu, soltou um suspiro de alívio.

Perguntou-me então onde poderia me encontrar na manhã seguinte. Dei-lhe o endereço da imobiliária e ele falou que estaria lá no dia seguinte às 9h.

Tomei um remédio, pois estava com muita dor de ca-beça. Dormi muito mal, acordei em um dia que não existiria mais para mim. Segui o mesmo trajeto para o trabalho. Ele chegou no horário marcado, encostou o carro em frente à imobiliária e entrou na recepção perguntando por mim. Ele estava diferente, um pouco mais velho, meio calvo, bigode,

mas o mesmo semblante austero de sempre. Conversamos, e ele me perguntou o horário em que eu almoçava, pois te-ria uma reunião no Aeroporto Santos Dumont. Marcamos de almoçar e no horário exato ele estava lá. Fomos a um elegante restaurante na Barra da Tijuca, escolhi uma mesa e sentamos. Pedi um camarão à baiana e ele um filé de lin-guado com batatas sauté.

Começamos a conversar, ele me perguntou como eu estava, pois soubera, através do meu ex, que havíamos nos separado. Pouco falei, e ele me disse que também estava se separando. Terminei a refeição rapidamente, afinal, havia mais de vinte dias que eu não almoçava. Não tinha dinheiro e minha única preocupação era comprar leite e macarrão para os meus filhos. Depois daquele almoço, ressurgiu uma grande amizade, a mesma que tínhamos no Recife havia mui-tos anos. Conversamos sobre tudo, rimos, contamos nossas decepções e esperanças. Sem entender muito bem o que o levou naquela noite a me ligar, fomos nos apaixonando.

Nosso amor e respeito nos alimentaram durante 24 anos, juntos. Ele me ajudou a criar meus filhos e fomos muito felizes, e ele foi o mesmo homem, amoroso, inteli-gente, culto e dedicado aos quatro filhos que ele criou, dois deles sendo os meus, desde o primeiro dia quando entrou na imobiliária, até o último dia de sua vida. E eu, sempre ao seu lado!

a

Os bons anjos às vezes nos socorrem de corpo e alma e depois, quando nos deixam, a perda faz nosso vazio encher-se de solidão.

No documento Editora Recanto das Letras (páginas 99-103)