Recife era uma linda cidade, dotada de belas praias, com um povo acolhedor, temperatura agradável, em torno de 26 ºC, e um vento fresco vindo do mar. Meu marido fazia sempre viagens pelo Nordeste e Amazônia e trazia surpresas simples, como maracajás (um tipo de gato selvagem que comeu todos os enfeites que eu tinha pendurado no bandô da cortina da sala) e tartarugas negras superdóceis — que eu também o fiz levar de volta para a selva!
Uma vez, ao chegar de viagem da Amazônia, aden-trou na sala trazendo pela mão uma indiazinha de três anos.
Depois de muita explicação, entendi que a mãe dela havia morrido e a avó pediu para ele levá-la para a cidade, pois es-tava doente e já velha, não queria morrer e deixá-la só. Dois dias depois, ele partiu para mais uma missão no alto Xingu e eu ainda estava tentando entender a indiazinha Kamayurá.
A menina tinha os cabelos bem lisos e grossos nos quais um cheiro de rede molhada impregnara-se tão profundamente que, mesmo depois de tê-los lavados por duas vezes com shampoo para crianças, eu não consegui removê-lo. Meu gato estava ressabiado e vivia por cima do sofá olhando sor-rateiro para a nossa nova hóspede, como se quisesse entender onde ela guardava o forte odor.
Roberto trouxera consigo um pequeno livro, que se-ria quase um manual de instrução: era um dicionário do tupi-guarani para o português, e acho que, na sua cabeça, ele pensou que tornaria facílimo o nosso diálogo. Quinze dias transcorreram após a chegada de Eva (o nome que demos à
indiazinha) e eu não conseguia me comunicar com ela. Os seus cabelos já estavam mais finos e perfumados, mas ela estava cada vez mais triste, vivia olhando para o mar. Ria, ainda, como se fosse a primeira vez, sempre que eu a levava para provar a água salgada, e olhava a lua como se pensasse nos rituais oferecidos e redesenhados pelo pajé.
Eva não se sentia feliz lá em casa, como já era de se esperar. Pedi, então, ao meu marido que a levasse embora, de volta para a sua tribo, pois ela tinha “banzo”, que signi-fica saudades de casa. Um mês depois, eu soube que estava grávida do meu segundo filho. Foi uma gravidez de risco, eu tinha muito sangramento e febres constantes, até que um dia o médico, depois de constatar uma febre de 40 graus, deci-diu retirar o nenê, pois tudo levava a crer que estava morto.
Meu esposo trocou a viagem que faria no dia seguinte com um amigo nosso, e eles chegaram em casa para trocar informações sobre a missão. Eu estava deitada, sem forças nem para ir ao banheiro, por estar muito debilitada por con-ta da febre. Jane, a esposa dele, veio até o meu quarto, sen-tou-se na beirada da cama e ficamos conversando bastante tempo. Eu expliquei-lhe por que precisava retirar o bebê, e ela, grávida, no mesmo tempo que eu, contando que o en-xoval já estava pronto e até o nome escolhido.
Depois que nossos amigos foram embora, meu ma-rido foi até o quarto do nosso filho matar alguns pernilon-gos, jogando uma almofada pequena neles. Sentindo-me um pouco melhor, levantei-me e fui arremessar algumas almofadas também. Ele me repreendeu, dizendo-me que eu fosse deitar, pois teríamos que estar no hospital às 7h para o procedimento cirúrgico. Foi quando, ao arremessar
outra almofada, senti tremer minha barriga: era como se eu segurasse um pássaro bem forte e ele esperneasse para fugir.
Comecei a chorar segurando a barriga, dizendo-lhe:
— Não vou tirar, ele está vivo!
Meu marido não conseguiu achar palavras que me convencessem do contrário, e não fui mesmo para o hospi-tal no dia seguinte. Bem cedinho tocou a campainha lá de casa, era o Pereira, dizendo que não poderia viajar, pois a Jane passara mal à noite, fora internada e perdera o bebê — inexplicavelmente, pois ela e o bebê estavam bem.
Minha filha Roberta Maria nasceu às 18h, e saudá-vel, mesmo depois de tantos problemas e de quase ter sido retirada do meu útero no quarto mês de gravidez. Ela se parecia com Eva, cabelos escuros e com uma franja lisinha até o início do nariz. Linda!
a
As luzes nos trazem os sonhos das cores e a dificuldade nos traz a razão de viver.
Impacto no ar
Entendi que, por trás do glamour dos bailes em co-memoração ao Dia do Aviador, quando nos vestíamos de cinderelas cor-de-rosa, vênus azuladas ou ninfas esverdeadas, ou ainda qualquer cor que preferíssemos, havia uma reali-dade constante que nos assombrava em cada voo. Desci as escadas do prédio, na vila militar dos oficiais em que morá-vamos, e avisei à empregada que demoraria um pouco, pois passaria no supermercado. Pedi-lhe, então, que servisse o almoço para as crianças.
Aquele dia era um dia comum, lindo dia em que o sol banha o mar e lhe deixa o calor do céu. Mas, para mim, seria mais um dia marcante na minha vida. Fui ao cabeleireiro, pintei as unhas de rosa clarinho e retoquei as finas mechas, mais claras nos cabelos, com o corte do tipo Pigmaleão. Parei no estacionamento cheio do supermercado e, tomando o maior cuidado para não estragar minhas unhas, escolhi um carrinho e fui procurar o que deveria comprar para o fim de semana, pois receberíamos um casal de amigos para o jantar.
Picles, champignons frescos, peito de frango para o salpicão, salsão para perfumar o prato, flores para colorir o centro da mesa, um vinho chileno, um leve licor de laranja, refrigerante, água com gás, sorvete de chocolate com cere-jas e só. Demorei num pequeno engarrafamento ao sair do mercado. Cheguei em casa e comecei a descarregar o carro, levando aos poucos as compras até lá em cima. Destranquei a porta e chamei a Alzira, minha empregada; e meu filho Mar-cus, na época com 3 anos, veio correndo ao meu encontro, já perguntando o que eu havia comprado para ele e Roberta.
Alzira correu chorando desde lá do corredor, dizendo:
— Dona Jô, corre para o hospital, acho que o Sr. Ro-berto morreu, caiu com o avião, vieram da base avisar aqui à senhora!!!
Meu coração disparou, fiquei atordoada, sem saber exatamente o que fazer. Pedi para ela cuidar das crianças para mim e saí avoada para o hospital. Eu, no trajeto, só me lem-brava de quantas cenas iguais àquela eu já havia presenciado;
tantas esposas já haviam ficado sozinhas pela estrada da vida, à espera de seu homem que nunca mais voltaria, pois já pertencia à esquadrilha do céu. Agora seria eu, a mulher que, no dia seguinte, velaria por seu amado, pai de seus filhos.
E, no final, só restariam as honras militares e uma bandeira dobrada em meus braços, e eu nunca mais sentiria o abraço terno de sua chegada.
Entrei no hospital correndo, igual a uma louca, per-guntando pelo meu marido, o piloto do acidente com o avião. Encontrei com alguns amigos médicos e pilotos no corredor, que me disseram para ficar calma, que ele estava na sala de cirurgia; o urubu tinha feito um estrago, mas ele ficaria bem.
— Urubu? Que urubu? O que isso tem a ver com o meu marido?
Durante um voo de treinamento, quando os pilo-tos voam lado a lado em formação, o que aconteceu foi o seguinte: o avião em que meu marido voava foi abalroado por um urubu, que adentrou pelo vidro, se chocando com o rosto dele e causando vários ferimentos. Ele voltara voando para a base, enxergando com um só olho e engolindo muito sangue, pois também quebrara o nariz e alguns ossos da face.
Na base, já estavam posicionados, para caso de emer-gência médica, uma ambulância; e, para o caso de explosão das bombas que ele levava a bordo, carros de bombeiros.
Calcularam o peso do urubu no choque com o vidro do T6 em mais ou menos 1.300 quilos.
Foi um acontecimento raro, normalmente fatal para o piloto. Mas, graças a Deus, ele se salvou.
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O nosso grande criador nos dá a graça do bem-estar e da liberdade.