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Roberta Maria

No documento Editora Recanto das Letras (páginas 134-141)

Logo que a vi, fiquei com medo. Como eu poderia ter gerado um bebê tão delicado, mãozinhas macias, dedi-nhos que tinham a pureza da lua? Tão frágil e pequenina era minha menina, com um olhar terno, sempre me olhando por baixo da longa franja, que acabou sendo usada de lado.

Olhos castanhos profundamente lindos.

Minha filha, a meiga Roberta Maria! O primeiro nome foi escolhido pelo pai, e o segundo teve origem quan-do nasceu, pois tocou o sino da maternidade. Eu sempre disse que seria um nome inspirador e puro como Maria (e também sempre quis que alguém se inspirasse com o meu nome, mas que inspiração daria um nome como “Joaquina”?

Só se fosse da perna fina!).

Sim, esse nome lhe caiu bem. E eu, que nunca gostei de brincar com bonecas, aprendi com ela como era bom ter uma para passar o tempo colocando presilhas de bichinhos, laços coloridos e fivelas em seus lindos cabelos brilhantes.

Aprendi com Roberta Maria a colorir minha vida para que meus filhos fossem mais iluminados. Quando eu saía, ela adorava correr para o meu quarto. Ela gostava de vestir um robe de seda rosa, junto com uma sandália alta. Sentava-se em frente ao espelho, na penteadeira de pátina branca, co-locava maquiagem, um batom forte, e depois desfilava, se passando por mamãe. Ela me ensinou a ser mais feminina.

Sempre gostou de dançar e ficava horas ensaiando passinhos e trocando de roupa. Depois, quando veio o balé, virou uma senhorita, tão bonita, com sua malha de balé, lânguida e perfeita, ficando mais alta quando prendia os ca-belos, tudo ensaiado como sua personalidade exigente. Mas queria seguir o irmão, e então veio o karatê. Entre golpes e gritos ela se engraçava. Como poderia a minha filhinha tão meiga assustar alguém? Nunca!

Sua cor preferida era o rosa. Usou tanto que, depois que cresceu, tomou aversão pela cor, e não aceitava nem chiclete tutti-frutti, pois era rosa. Até eu, que gostava da cor, enjoei um pouco, pois as mães copiam suas filhas. No Carnaval, era um problema: queriam ir à matinê no clube dos oficiais da FAB, fantasiados, como todos os amigos. Mas, como o Marcus tinha asma, a roupa era sempre a mesma:

saía de índio, com um cocar na cabeça, bem curto, e uma sunga de penas penduradas, com um enfeite também de penas nos braços e tornozelos.

A Roberta ia de princesa, bailarina, azul ou rosa, e às vezes, de portuguesa, com um saiote curto de babados, uma

blusa de cetim e um lenço combinando na cabeça, cheia de pulseiras. Divertiam-se muito quando iam à praia. Ele sem-pre surfava, desde pequeno, e era muito destemido, o que sempre me deixava temerosa. Ela tinha um comportamento engraçado: caminhava em direção ao mar, dava uns cinco passos, se perdia e começava a chorar. Ela se perdia todas as vezes que íamos à praia.

Eu estava pensando que as mães são eternas. Os netos não são nossos, nós somos deles, mas os filhos sempre serão.

Mães não são só as que geram. Há as mães de coração, as por necessidade, as que olham de vez em quando, as mães--pais... — e todas estas se dedicam a cuidar dia e noite de seres indefesos, pois foram imbuídas por Deus a nos dar sua maior perfeição como responsabilidade. Nossos filhos são tão perfeitos que já nascem nos ensinando tudo. Eu apren-di a ser feliz com meus filhos. Aprenapren-di a deixar a tristeza de lado para que eles não me vissem chorar. Entendi que amanhã podemos recomeçar, mas não necessariamente de onde paramos: a brincadeira pode ser outra.

Passei a me preocupar mais com minha saúde, eu tinha medo de deixá-los por aí, sozinhos. Eu, que nunca gostei de brincar de casinha, muito menos de ser “a mãe”, depois que tive meus filhos, senti necessidade de aprender a fazer quitutes na cozinha e, mais ainda, de esperar uma nota e vibrar quando eles aplaudiam. Na primeira vez em que eles me olharam, entendi que, daquele dia em diante, seríamos três. Sempre fomos muito unidos, não importa o que falassem de um para o outro. Aprendi a ter persistên-cia, começando por um quebra-cabeça, depois ensinando a andar de bicicleta e daí por diante. Tornei-me mais forte,

mais guerreira, para poder defendê-los. Eles me fizeram ser uma pessoa mais terna e menos egoísta.

Deus é tão sábio que os filhos não vêm com manual de instrução, e Ele deixa que descubramos o caminho da nossa felicidade a cada dia, convivendo com eles. Eu adoro meus filhos tanto, mais tanto, que quando falo e penso neles meu coração rola pelo rosto em forma de lágrimas.

a

Meus filhos são a maior arte que pintei no quadro da minha vida.

Sim

Quero um final para meu livro, mas um final feliz, como todas as histórias, pois não sou mais princesa, já estou rainha.

Quero ser feliz totalmente, porque não quero ter meia felicidade, quero um companheiro que me preencha e que queira ser amado, não na ficção de um livro, mas na realidade.

Quero sentir novamente na pele o calor de um abra-ço, poder andar por caminhos nunca caminhados, parar num banco da praça para tomar um sorvete, rir do vento, falar sobre o nada.

Não quero viver de uma imaginação, preciso viver o real, pois minha vida é muito importante e eu tenho pressa em viver intensamente.

Não quero ficar no marasmo de uma espera, preciso viver o agora, já que o futuro é incerto: quero viver a vida, não só existir.

a

Na vida, a idade nos limita do externo aos olhos dos outros.

Viver

Meu bem, querer de viver...

Quero amanhecer em seu corpo, fazendo coisas que deixamos sem fazer, por não querer, por já ter passado, ou por não ter vivido.

Quero o sonho que não tive, a posse completa e ar-dente, cheia de desejo e calor.

Quero sentir o que não foi sentido e o que não faz sentido também, quero ir além do passado.

Quero um sonho sem juízo e sem cobrança, quero viver o desfalecido e renovar as forças em teus braços.

Quero o sono tardio, a paz constante e o tempo no seu tempo, inerte, só para mim.

Quero que a vida me ultrapasse, me esqueça e me deixe viver.

E, quando chegar a hora de eu ir para o futuro, que eu vá ficando, mas bem devagar, sem pressa, sem medo de ter vivido, irei devagar, voando muito além do meu sonho, do sonho de não mais acordar.

Para meus filhos e netos.

a

O medo da perda do amor nos prende às raízes que nos desprendem da alma.

No documento Editora Recanto das Letras (páginas 134-141)