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Sementes de melancia

No documento Editora Recanto das Letras (páginas 67-73)

Num domingo de sol, terminei de lavar meus lon-gos cabelos e sentei-me num degrau da área externa lá de casa. Meus cabelos davam a maior trabalheira, emaranha-vam, eram secos, difíceis de secar, armados, entre outras complicações...

De repente, bateram palmas na frente de minha casa

— era meu primo que morava no Rio de Janeiro e um amigo dele, também de lá. Eles eram sócios em uma empresa de eletricidade e tinham vindo nos buscar para almoçar. Prima Jandira já estava nos aguardando e contava com a presença do tio querido. Vesti um vestido de linho azul-marinho, com mangas curtas de organdi branco e viés vermelho. Eu não gostava muito de ir à casa de minha prima, mas seria melhor do que ficar em casa.

Durante o trajeto, eles foram parando em quase todas as esquinas de São Paulo para beber uma cerveja e comer alguma coisa, de modo que chegaram à casa da prima num estado de teor de alcoólico bem elevado. Lá, fomos apre-sentados ao Roberto Jr. e ao Nelson, filho do meu primo.

Roberto Jr. era um rapaz moreno, magro, mas nem tanto, cabelos curtos raspados atrás; tinha olhos lindos e sedutores, as mãos eram macias. Ele nos disse que seria piloto militar e havia passado recentemente no concurso da FAB – Força Aérea Brasileira.

Após o almoço, nos serviram melancia, e eu perma-neci na mesa, brincando de acertar as sementes de melancia dentro das tampinhas de refrigerante. De repente, vi uma

semente cair dentro da tampinha; levantei os olhos, era Ro-berto Jr., que sorria para mim, perguntando se eu era tímida sempre.

— Não! — respondi e, sorrindo, saí.

Por sugestão de minha prima, fomos ao cinema, em dois casais. Assistimos ao filme A Tulipa Negra, com Alain Delon, comi chocolate, conversamos durante todo o filme e trocamos endereços. Eu e Roberto Jr. começamos a nos corresponder depois que ele me mandou uma carta linda, com envelope e papel azul fino, com linhas, e o timbre da Escola da Aeronáutica em dourado. Foram tantas cartas lindas, com palavras tão doces e poesias escritas com tanto carinho, que minha vida mudou e coloriu.

Às vezes, ele vinha me ver, e em uma dessas vindas, quando fui me despedir dele, no portão, ele me olhou nos olhos e aconteceu meu primeiro beijo de amor. Sentia-me imensamente feliz, o mundo todo ficou cor-de-rosa, pois finalmente alguém gostava de mim.

Certo dia, Roberto Jr. me mandou uma carta, que, entre outras coisas, me falava de uma linda vizinha, chamada Mari, a qual ele amava. Foi sua última carta para mim, chorei por dois dias, pois eu o amava muito.

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As brincadeiras revelam o amor escondido numa imagem carente de felicidade.

O coral

O colégio onde eu cursei o ginásio ajudou muito na minha educação. Aliás, posso dizer, com certeza, que foi onde adquiri grandes valores de educação e cultura. Cató-lico e feminino, o colégio era uma construção tradicional, edificada em três andares: embaixo, um grande pátio com largas e arredondadas pilastras, onde nos escondíamos quan-do não queríamos assistir à aula. Havia banheiros e algumas salas onde os professores lecionavam aulas de piano, inglês e outras fora do currículo escolar. No segundo andar, fica-vam as salas de aula, extremamente limpas e enceradas, com carteiras individuais, e cada aluna era responsável por sua manutenção.

No último andar, havia os dormitórios das freiras, local cujo acesso era proibido. Na parte da frente, havia uma linda e romântica igreja, onde, aos domingos, as freiras da ordem passionista entoavam cânticos de louvor com uma suavidade que mais pareciam anjos louvadores do Senhor.

Algumas delas merecem ser citadas: a madre superiora Maria dos Anjos era a diretora, gordinha e sisuda; a madre dire-tora Maria das Graças era bem clara, de olhos esverdeados, de personalidade agradável e compreensiva. Era a que eu mais gostava, ela sempre me aconselhava e sorria para mim quando me encontrava pelo corredor.

Eu era rebelde! Uma vez estava desatenta, fazendo desenhos e cantarolando, e a irmã me disse que, se eu não quisesse assistir à aula, poderia sair. Imediatamente, levan-tei-me e saí para o corredor, descendo a larga escada para o

pátio. O pior é que me senti deslocada lá embaixo sozinha, pois todas as fotos das freiras superioras e diretoras mais antigas do colégio, estampadas em fotos na parede, pareciam me observar com ar de reprovação.

Foram longos dez minutos que permaneci no pátio, com aquelas fotos me observando, o que acabou me con-vencendo a nunca mais tomar a decisão de sair da sala. Mas a que mais colaborou com o que eu mais gostava, a música, foi a irmã Valeriana. Ela era professora de música, e como eu não tinha onde passear aos domingos, pois meus pais quase não saíam, eu ia todos os domingos ao teatro municipal de São Paulo assistir às apresentações da Orquestra Filarmôni-ca. Meus domingos ficavam encantadoramente iluminados com tanta música maravilhosa.

Essa professora criou o coral do colégio e, como lá não estudavam meninos, tudo que se fazia em termos de arte, teatro e coral, dividiam as meninas que atuariam como moças das que atuariam como rapazes. E eu era uma de-las! Éramos 25 meninas no coral, compúnhamos vozes de cinco vértices, eu era do vértice baixo. Cantar no coral, ou qualquer exercício de arte que eu fizesse, me fazia bem para a mente e para o corpo, e assim eu ficava mais tranquila e menos rebelde.

Eu realmente amava aquele colégio, foi o lar que co-nheci, foram as amigas que comecei a cativar para o meu coração. Nós não cantávamos simplesmente, interpretáva-mos a música com a alma e o corpo. Entoávainterpretáva-mos músicas lindas! Durante a missa, chegávamos a cantar junto com as freiras que ficavam reclusas e só saíam da clausura com esse fim. Eu adorava aquilo, era como se eu tivesse tido a chance de cantar com os anjos.

Na capela, às vezes, entravam pássaros, e quando começavam os cânticos, eles sobrevoavam por todos os la-dos, como em um desenho animado, e as pessoas presen-tes à missa se emocionavam com tamanha beleza. Durante as missas, cantávamos a Ave Maria, de Gounod, em latim, vestidas com roupa de gala: saia plissada xadrez nas cores cinza, vermelho e azul-marinho e um casaquinho branco, com gola alta e uma fita estreita na cor azul-marinho, com a qual fazíamos um laço na frente. A roupa era bem bonita, mas um pouco desconfortável, pois o tal casaco era bem engomado, e praticamente ficávamos em sentido, como se fôssemos militares aquartelados.

Quando terminávamos a apresentação na igreja, olhávamos ao nosso redor, e a maioria das pessoas estava enxugando os olhos de tanta emoção. Nós nos especializa-mos em algumas músicas, e uma delas era 500 Milhas, que cantávamos em inglês. Ensaiávamos tanto que, aos sábados, dia de feijoada, escolhíamos um restaurante e, após nos deli-ciarmos, cantávamos essa música, fazendo os frequentadores ficarem maravilhados, tanto que nos aplaudiam bastante.

Havia restaurantes que nos convidavam para cantar só com o intuito de aumentar a frequência da casa e não nos cobra-vam o que comíamos ou bebíamos.

Para minhas amigas era divertido, mas para mim, que não saía para lugar nenhum e muito menos para almoçar em restaurantes, era a glória! E o melhor: não pagávamos a conta! Eu também gostava muito de ir ao teatro do SESI, na Avenida Paulista, onde havia apresentações de peças inteiras.

Os Miseráveis, de Victor Hugo, assisti seis vezes. Aliás, o que mais me impressionou é que Victor Hugo era considerado,

na França, um herói nacional, e que no seu enterro até mes-mo as prostitutas de Paris vestiram luto.

Foi naquele colégio que aprendi a controlar minhas emoções; e que a arte molda o corpo, e a mente, o espírito.

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Todos os colégios deveriam se preocupar mais com o ensino da arte aos seus alunos, assim teríamos homens mais leves de coração; logo, mais humanos em suas atitudes.

No documento Editora Recanto das Letras (páginas 67-73)