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A CEGUEIRA CORTICAL E AS AGNOSIAS VISUAIS

No documento Neuropsicologia - Roger Gil.pdf (páginas 117-120)

“Nosso conhecimento deriva de duas fontes, sendo que a primeira é a capacidade de receber representações... e a segunda, a faculdade de conhecer um objeto por meio dessas representações... Intuições e conceitos, esses são os elementos de todo o nosso conhecimento... Sem a sensibilidade, nenhum objeto nos seria dado, sem o entendimento, nenhum seria pensado."

K ant

A C E G U E IR A C O R TIC A I__________________________

A cegueira cortical designa a abolição da visão, relacionada a um a destrui­

ção do córtex visual occipital (área estriada ou área 17, que ocupa o sulco calcarino e a face interna do lobo occipital) e, mais com um ente, das cone­ xões geniculo-calcarinas ou radiações ópticas, o que possibilitou a proposi­ ção do term o, pouco usado, de cegueira cerebral. Assim definida, a ceguei­ ra cortical deve ser bem distinguida:

- da dupla hem ianopsia, que poupa a visão macular, isto é, a visão central. O doente passa a enxergar como se olhasse através “de um cano de fuzil”. No entanto, a dupla hem ianopsia pode preceder oü vir depois de um a ce­ gueira cortical.

- da cegueira psíquica de Munk, na qual não há desaparecim ento da sensa­ ção visual e que atualm ente é cham ada de agnosia visual.

- da cegueira histérica que deixa o doente indiferente, porém não anosognósico, e durante a qual é possível desencadear o reflexo de piscar a um a am eaça, mas cujo diagnóstico pode ser difícil.

- da cegueira sim ulada (no âm bito de um a síndrom e de M ünchhausen).

D e s c r iç ã o s e m io ló g ic a

A cegueira cortical (quase sem pre causada por um infarto bioccipital) pode instalar-se repentinam ente ou de maneira vacilante, depois de uma hem ianopsia unilateral ou, já inicialmente, bilateral. Trata-se de uma cegueira “verdadeira”, total ou considerável, que pode deixar um a vaga percepção da luz ou do movim ento. E ssa cegueira não vem acom panhada de nenhum a anom alia do fundo de olho e os reflexos fotomotores são conservados, sendo que o reflexo de piscadela à am eaça é abolido. A capacidade de evocar imagens visuais pode desaparecer; quando persiste, as cores não estão presentes, com o nos sonhos. Essa cegueira é, freqüentem ente, acom panhada de anosognosia (síndrom e de Anton), e o doente recusa-se a adm itir que está cego, mesmo que dê encontrões nos obstáculos ao andar. A anosognosia pode ser reduzida a um a indiferença ou a um a apreciação parcial da importância do déficit visual. A realidade desse

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desconhecim ento da cegueira foi discutida: efetivam ente, podem existir aluci­ nações visuais, sim ples ou elaboradas, que explicariam a negação da cegueira. Além disso, a cegueira pode estar associada a um a am nésia anterógrada e o fato de estar cego não é memorizado. Às vezes, existe também uma confabulação visual, que substitui a percepção ausente por lem branças visuais. Mas a anosognosia pode não se restringir a essas explicações. R aram ente a cegueira cortical é isolada. E la pode vir acompanhada de um a confusão mental, de uma desorientação espacial, de um a acalculia, de distúrbios sensitivo-m otores na m etade do corpo, de um a am nésia korsakoviana por infarto bilateral das cere­ brais posteriores, lesando os lobos occipitais e os hipocam pos e causando a síndrom e de Dide-Botcazo.

N o plano oculomotor, não é possível conseguir o m ovim ento de acom panha­

m ento e o nistagmo optocinético é abolido, mas os m ovim entos voluntários para obedecer a um a ordem e a m otilidade ocular autom ático-reflexa são pre­ servados. No plano eletroencefalográfico, a alfa é abolida, ou dim inui de am ­ plitude, com reação de parada abolida e ausência de im pulso diante da estim ulação lum inosa interm itente. Ondas delta lentas, muitas vezes retas e, mais raramente, anom alias epiléticas podem estar realcionadas às regiões pos­ teriores. Os potenciais visuais evocados podem estar alterados ou abolidos, mas a presença de um a onda Pl 00 normal não perm ite que se exclua um a cegueira cortical.

E tio lo g ia e p r o g n ó s tic o

As cegueiras corticais regressivas podem ser um a m anifestação de epilepsia, de enxaqueca, ou de encefalopatia hipertensiva. As cegueiras corticais durá­ veis são, quase sempre, de causa isquêmica, por infarto das cerebrais posterio­ res ou do tronco basilar; as cegueiras isquêmicas podem complicar a angiografia cerebral e a cirurgia cardíaca. As outras etiologias são a encefalopatia anóxica, a intoxicação oxicarbinada e, mais raramente, os traumatismos cranioencefálicos ou os tumores. Estas últim as podem se com plicar com um a isquem ia das cerebrais posteriores ao se instalarem.

O prognóstico é som brio quando a perda da visão é total, sem percepção da luz, quando a cegueira está ligada a um a infarto espontâneo (sendo que os acidentes arteriográficos e pós-cirúgicos tam bém têm um prognóstico ruim) e, sobretudo, quando a tom ografia m ostra lesões bioccipitais. A m elhora, quan­ do existe, com eça pela visão da luz e continua com a percepção do m ovim ento ou das cores e, por fim , das formas. A regressão pode ser parcial, com o doente m antendo uma agnosia visual mais ou menos intensa.

AS A G N O S IA S V IS U A IS __________________________

As inform ações visuais elem entares cam inham da retina para os corpos geniculados externos, depois para a área estriada (ou área visual prim ária ou área 17 ou área V 1 do m acaco), em seguida são objeto de um tratam ento separado pela form a, pela cor, pelo m ovim ento, no nível das áreas extra-

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estriadas (num eradas de V2 a V5): há um a especialização funcional das áreas extra-estriadas da região occipito-tem poral, da m esm a m aneira que o trata­ m ento dos atributos espaciais das inform ações visuais é feito pela região occipito-parietal. Assim, as inform ações visuais que chegam ao lobo occipital cam inham por dois sistem as. Um deles, arcaico, é o sistem a m agnocelular, que envereda pelos tubérculos quadrigêm eos anteriores (colliculi superio­

res), e se projetam de m aneira dorsal em direção à região occipito-parietal e

que perm ite a localização da inform ação. O segundo sistem a é o sistem a parvocelular, m ais recente, de trajeto ventral, que se projeta na direção do córtex occipito-tem poral, que tem por função a análise e a identificação da inform ação. Então, assim que a reação de orientação é posta em ação, o cérebro age induzindo o m elhor encontro visual do estím ulo (o “onde” da via occipito-parietal), antes de poder efetuar os tratam entos necessários à identi­ ficação do estím ulo (o “ quê” da via occipito-tem poral). As agnosias visuais e espaciais m ostram as conseqüências das lesões de cada um desses canais, um , localizador, o outro, identificador.

A cegueira corticai é definida com o abolição das sensações visuais: mesmo que as sensações visuais sejam preservadas, falta efetuar o tratam ento perceptivo, projetado com o integração de um conjunto de sensações que, em seguida, perm ite chegar ao conhecim ento do nosso am biente visível. A agnosia que

pode afetar todo o canal sensorial, designa, no âm bito da visão, a incapacida­

d e de ter acesso ao reconhecim ento de certos com ponentes do m undo visual, n a ausência de qualquer distúrbio sensorial elementar, de afasia e de perturba­ ções intelectuais. Segundo a expressão de Teuber (1968), trata-se “de um a percepção despojada de sua significação” . Uma agnosia visual é pura quando é lim itada ao canal sensorial da visão, pois, às vezes, ela está associada a um a agnosia táctil ou auditiva. As agnosias visuais podem estar relacionadas a objetos, a figuras, a cores e a fisionom ias, sendo que esses déficits estão freqüentem ente associados entre si. Excepcionalm ente, elas podem afetar só um hem icam po visual: é o caso, então de um a hem iagnosia.

A s a g n o s ia s v is u a is d e o b je to s

A preservação de uma sensorialidade visual é necessária para a individualização de um a agnosia visual, mas um exam e com pleto da visão desses doentes, pode ser difícil e, na presença de um a anom alia da visão, é preciso determ inar se ela pode, por si só, explicar o déficit do reconhecimento visual. É preciso dispor ao menos, de um a medida de acuidade visual, de um a perim etria que possa m os­ trar uma hemianopsia lateral homônim a de um registro do nistagmo optocinético (que pode ser normal ou assim étrico); potenciais evocados visuais norm ais ou unilateralm ente alterados não perm item excluir um a cegueira corticai (ver su­

pra). E útil poder dispor de um estudo da sensibilidade por contraste para as

diferentes gam as de freqüências espaciais, porém, é bom adm itir que não existe um limite claro, e sim um continuum entre as sensações visuais elementa­ res e a percepção, e que um déficit da sensibilidade por contraste, em bora possa tornar m ais difícil a análise perceptiva, não engana, clinicam ente, sobre um a agnosia visual. A visão das cores tam bém precisa ser analisada. A inda é

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clinicam ente eficaz, mesm o que as intrincações sejam freqüentes, continuar distinguindo, depois da fecunda abordagem de Lissauer (1890), dois tipos de agnosias visuais: aperceptiva e associativa.

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