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CAPÍTULO 4 – PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

4.3 A coleta de dados

 

4.3.1 Observações de campo (diário da pesquisadora)

Com base nos princípios da pesquisa qualitativa, procurei me aproximar dos atores que fazem parte do objeto de estudo, sem a pretensão de realizar uma observação participativa, mas com o intuito de perceber melhor o contexto e as relações existentes neste meio.

Este momento inicial foi importante para delimitar o campo do trabalho, direcionando a construção dos objetivos e das hipóteses iniciais que nortearam a pesquisa. As anotações pessoais deram origem a questionamentos, que contribuíram

para a elaboração do roteiro da entrevista realizada com os professores, para conversas junto à Coordenação do Curso e para o conhecimento do histórico do mesmo. Assim, fizemos uso desse material não como uma fonte documental, mas como apontamentos norteadores para a realização do trabalho formal de investigação.

Foram vários os momentos que ensejaram o registro de observações, destacando-se, entre eles, as conversas informais com os professores da equipe, com a Coordenação do Curso e com alguns alunos; a participação, como ouvinte, em reuniões da equipe; a participação em palestras oferecidas aos alunos; o acompanhamento das disciplinas no ambiente virtual; o acesso ao conteúdo e às atividades propostas nas disciplinas de Funções e Limites e Funções e Continuidade.

Durante o acompanhamento do desenvolvimento destas disciplinas por meio do ambiente virtual, da leitura do material escrito (conteúdo matemático e atividades) e das interações no Fórum entre alunos e professor-tutor, foi possível perceber como era realizada a prática dos professores, tanto no que diz respeito à autoria (elaboração do material escrito e ambiente virtual), quanto à tutoria (gerenciamento das disciplinas e interação entre professor-tutor e alunos). O ambiente virtual Moodle era utilizado pelo professor-tutor para disponibilizar material-texto sobre os conteúdos programáticos, propor atividades, prestar orientações e esclarecer dúvidas.

Nesse momento do trabalho, as características que os professores da equipe apresentam se assemelham àquelas típicas dos adotantes iniciais (ROGERS, 2003). De acordo com as observações realizadas, os professores envolvidos, como adotantes iniciais do ensino a distância, demonstram espírito de iniciativa na busca de soluções para lidar com a inovação e lideram o processo de adoção da inovação, diminuindo, assim, as incertezas e colocando em curso as atividades.

4.3.2 Documentos

O Projeto Pedagógico e Curricular do Curso de Licenciatura em Matemática serviu de documento-base para subsidiar as informações a respeito do curso de licenciatura em si, servindo de referência para se identificar a abordagem pedagógica do curso, sua estrutura, os critérios para a formação das equipes de professores, a previsão da estrutura de apoio técnico e pedagógico; as formas de trabalho para a elaboração de material e para a execução do curso.

A consulta a este documento contribuiu para a construção do roteiro da entrevista, esclarecimento das dúvidas com relação às observações realizadas nas atividades de campo e para a construção do histórico do curso.

4.3.3 Entrevista

A entrevista semiestruturada foi utilizada como instrumento para se obterem informações a respeito da primeira experiência dos professores com o processo de criação de um curso de Cálculo a distância.

O roteiro de entrevista considerou os diferentes momentos vivenciados pelos professores: o momento anterior ao curso, representado pela experiência acumulada na prática docente de conteúdos de Cálculo em cursos presenciais; o momento de execução do curso, em que o professor coloca em prática suas crenças e expectativas com relação ao trabalho com o ensino a distância; e o momento posterior à experiência vivida, em que o professor tem condições de se posicionar ante o processo de inovação pelo qual passou.

Assim, o roteiro de entrevista, mostrado no Apêndice A, foi construído a partir dos elementos presentes no modelo do processo de inovação-decisão, proposto por Rogers (2003): conhecimento, persuasão, decisão, implementação e confirmação. Os elementos apresentados constituíram os subsídios para se compreender a relação da equipe de professores com o processo de transição, contemplando os objetivos desta investigação.

Rogers, ao apresentar seu modelo de processo de inovação-decisão, enfatiza a importância de se levar em conta que a relação com a inovação é algo que ocorre ao longo do tempo e que, mesmo antes de entrar em contato com a inovação, a pessoa pode possuir algum conhecimento prévio ou mesmo breves informações que podem vir a influenciar a sua relação com a inovação, além da influência causada pelos canais de comunicação, principalmente, entre os membros da equipe e de pessoas próximas.

Desse modo, o roteiro para a entrevista foi elaborado a partir do mapeamento dos elementos da teoria, considerando-se o tempo anterior ao início das atividades da equipe, o período de desenvolvimento das atividades de autoria e tutoria e os momentos imediatamente posteriores à execução dos trabalhos. Tais elementos foram agrupados como se segue:

- Grupo A - Experiência anterior: as questões deste grupo pretenderam verificar a experiência que o entrevistado trouxe para o trabalho com o ensino a distância, antes de entrar em contato com as atividades do Curso de Licenciatura em Matemática a distância. Essas informações foram importantes para apontar seus conhecimentos anteriores ao trabalho desenvolvido, indicando as possíveis concepções ao lidar com a inovação a ser implantada e suas expectativas.

- Grupo B - Formação da equipe: as questões deste grupo tiveram por finalidade verificar as expectativas trazidas para a realização do trabalho, a percepção do ambiente da equipe, as ideias comuns e divergentes sobre a inovação e as consequentes negociações determinadas por essas ideias acerca do trabalho a ser desenvolvido por cada membro. Destas questões surgiram indícios quanto às atitudes de cada membro em relação à inovação; quanto ao sentimento ligado à decisão de aceitação desta ideia; quanto à relação que os membros da equipe estabelecem entre si para o desenvolvimento do processo de transição do ensino presencial para o ensino a distância no sentido do trabalho coletivo, e quanto à comunicação que foi estabelecida entre eles no cumprimento de suas atividades.

- Grupo C - Elaboração do material pedagógico: este tópico englobou a elaboração dos conteúdos, a estruturação do ambiente virtual, as atividades realizadas neste ambiente, compreendendo-se por atividades desde o conteúdo (explicação dos conceitos, exercícios) até a utilização de ferramentas para a interação com os alunos. As questões pretendiam suscitar o que cada um entendia a respeito da novidade, levando o entrevistado a refletir sobre a construção dos conteúdos e do ambiente virtual, sobre os materiais necessários para as atividades a serem desenvolvidas neste ambiente (ferramentas para interação, transmissão/tradução da ideia matemática, visão de aluno, visão de ensino no “novo” ambiente) e sobre a relação com a formação pedagógica e tecnológica que receberam para desenvolverem as atividades de tutoria e de autoria deste curso. Estas questões permitiram, também, verificar o envolvimento, a preocupação e as dificuldades que cada um teve com essa novidade, além de verificar o grau

de adoção do trabalho com a inovação (vontade de desistir, possível encantamento ou desencanto).

- Grupo D - Atuação na disciplina ou o acompanhamento do processo: este grupo continha questões a serem feitas de acordo com as tarefas desempenhadas pelos professores integrantes da equipe, uma vez que alguns atuaram como autores e outros como autores e tutores. As questões foram direcionadas ao perfil do integrante da equipe: para os que participaram de todo o processo, as questões objetivaram captar a visão com relação ao seu trabalho. Foram incluídas questões a respeito do trabalho com os alunos para verificar se houve influência no processo de adoção e mesmo na visão com relação à elaboração do material, e do próprio curso em si. Para os que participaram parcialmente, como autores, mesmo não atuando como professor-tutor, o objetivo foi identificar a reflexão que fazem a respeito do acompanhamento da disciplina, demonstrando a sua disponibilidade para o trabalho e, consequentemente, a sua relação com o processo de decisão de adotar a nova ideia, verificando a sua relação com a inovação em ambos os casos.

- Grupo E - Elaboração/avaliação da primeira oferta das disciplinas: as questões deste grupo referiram-se ao momento subsequente à primeira execução da disciplina. Tendo sido possível o contato com a nova ideia, ou seja, a possibilidade de sua experimentação e da observação e avaliação de lidar na prática com o ensino a distância de conteúdos de Cálculo, o professor teve a oportunidade de refletir sobre o que foi realizado e contrastar com as suas concepções e ideias iniciais a respeito de como lidar com a inovação, tanto individualmente como em equipe. As questões desse grupo, portanto, pretenderam verificar o processo de reflexão a partir da primeira experiência com a inovação e a forma como o entrevistado se relacionou com ela. Assim, tais questões serviram para verificar o grau de adoção ou aceitação, levando o professor a refletir sobre sua postura inicial e sua relação atual com a inovação em termos de como assumiu o trabalho realizado, o fazer com base na experiência, e a visão a respeito da inovação nessa altura do processo.

- Grupo F - Momento atual: este grupo de questões abriu espaço para pensar como estava a relação entre o professor entrevistado e a inovação, no momento da realização da entrevista, ao refletir sobre a sua participação no processo, sua visão naquela ocasião, inclusive com relação à adoção da novidade e perspectiva futura em lidar com a ideia de ensinar a distância. As entrevistas com os quatro professores membros da equipe de Cálculo foram realizadas entre os dias sete e oito de junho de 2011.

De posse do roteiro montado para a realização da entrevista, foi explicado a cada professor o motivo da entrevista, a importância da sua colaboração, o sigilo sobre suas identidades, o que era pretendido com as informações obtidas, ficando o entrevistado à vontade para expor suas ideias, a partir do direcionamento proposto. Ao final, foi pedido o seu ciente no próprio roteiro, concordando com a utilização das informações para fins dessa pesquisa.

A possibilidade de futuros contatos para novos esclarecimentos foi cogitada com os professores, os quais prontamente confirmaram a sua participação, caso fosse necessária.

As entrevistas foram gravadas em aparelho digital de som, MP4, e transcritas em formato texto, em arquivo digital, na íntegra, para posterior tratamento, utilizando-se recursos do software de análise de dados qualitativos, Atlas.ti.