RANK TÍTULO UF MÉDIA DE CIRCULAÇÃO IMPRESSO
3. A IMAGEM, UM CAPÍTULO À PARTE NOS ESTUDOS DO DISCURSO
3.4 A COMPOSIÇÃO VISUAL : ENTRE LINHAS E PERSPECTIVAS
Nas duas seções anteriores, descrevemos a constituição, o simbolismo e os possíveis efeitos (psicológicos e/ou discursivos) dos signos cromáticos e dos signos fotográficos. Desse modo, pudemos observar, dentre outros aspectos, que as cores integram os caracteres morfoestruturais das fotografias. Ampliando essa relação de contiguidade, trataremos, nesta seção, da articulação de diferentes elementos em
uma representação imagética, uma vez que, conforme salienta Dondis (1997, p. 02), “para controlar o assombroso potencial da fotografia [p. ex.], se faz necessária uma sintaxe visual”. Esta seção dedica-se, portanto, à síntese das postulações teóricas de Dondis (1997) e Kress e van Leeuwen (2006), referências fundamentais à compreensão da estruturação e da significação dos elementos visuais.
3.4.1 Das cores e formas figurativas à sintaxe
Dondis (1997) apresenta não só os elementos visuais básicos e as estratégias visuais empregadas em uma composição, como também suas implicações psicológicas e fisiológicas. Sua obra, publicada incialmente, em 1973, sob o título A Primer of Visual Literacy (“Princípios de alfabetismo visual”), evidencia – por meio do título original, da linguagem didática com vasta exemplificação e da proposição de exercícios ao final de cada capítulo – a preocupação da professora e pesquisadora em “construir um sistema básico para a aprendizagem, a identificação, a criação e a compreensão de mensagens visuais que sejam acessíveis a todas as pessoas”. Dessa forma, ainda que, na tradução brasileira, tenham-se sublinhado, no título, os aspectos estruturais de uma composição visual, Sintaxe da linguagem visual pode contribuir, significativamente, para o letramento referente a composições imagéticas, visto que a obra consiste em um “manual básico de todas as comunicações e expressões visuais, um estudo de todos os componentes visuais e um corpo comum de recursos visuais, com a consciência e o desejo de identificar as áreas de significado compartilhado” (DONDIS, 1997, p. 03).
Recuperando a etimologia do termo “sintaxe” – do grego, sýntaxis (“syn”: reunião + “taxis”: classe) – compreendemos que, assim como, em uma expressão verbal, os princípios sintáticos governam a ordenação e a significação de sintagmas na construção de sentenças, em uma composição visual, de forma semelhante, o sentido advém da relação entre os dez elementos básicos da comunicação visual – o ponto, a linha, a forma, a direção, o tom, a cor, a textura, a dimensão, a escala e o movimento – e as técnicas de composição: “A mensagem e o significado não se encontram na substância física, mas sim na composição.” (DONDIS, 1997, p. 132).
Segundo essa perspectiva teórica, embora o modo visual não ofereça sistemas estruturais absolutos, as escolhas sintáticas, do ponto de vista da produção, determinam o objetivo e o significado da composição visual e, do ponto de vista da recepção, apontam significações dependentes da resposta do espectador,
que também age sobre elas e as interpreta: “A forma é afetada pelo conteúdo; o conteúdo é afetado pela forma. A mensagem é emitida pelo criador e modificada pelo observador.” (DONDIS, 1997, p. 132). Em termos semiolinguísticos, os sujeitos comunicante e interpretante, com base na materialidade linguística e nas circunstâncias situacionais do ato de fala em que se inserem, ativam sua competência linguageira (em especial, suas bases semântica e semiolinguística) e, conjuntamente, constroem a significação (CHARAUDEAU, 2009).
Dessa forma, ao tratar dos fundamentos sintáticos do alfabetismo visual, a autora (1997, p. 32-50), destaca estas categorias abstratas que podem ser concretizadas por expressões imagéticas:
i. equilíbrio: como referência visual mais forte da humanidade, o constructo horizontal-vertical funda a relação do homem e o meio ambiente. Logo, a firme verticalidade em relação a uma base estável aponta o equilíbrio de uma representação imagética.
ii. tensão: como resultado da ausência de equilíbrio e/ou de regularidade, a tensão é um fator de desorientação. Constituindo-se como uma forma inesperada, complexa e instável, pode captar a atenção.
iii. nivelamento, aguçamento e ambiguidade: uma vez que “o poder do previsível empalidece diante do poder da surpresa” (DONDIS, 1997, p. 37), a ruptura da regularidade implica o aguçamento, aumentando a (a)tensão, ou a ambiguidade, a qual pode obscurecer o significado de uma composição.
iv. zona de visualização: não obstante a inexistência de um padrão definitivo de varredura do campo visual, defende a autora que o olho favorece a zona inferior esquerda. Em razão disso, os elementos que ocupam áreas de tensão (com a parte superior e a direita) possuem maior peso.
v. atração e agrupamento: em determinado campo visual, formas tendem a serem agrupadas à proporção de sua proximidade e similaridade. vi. positividade e negatividade: na relação entre elemento nuclear e
periférico, o positivo será aquele que domina o olhar, ao passo que o negativo será o que se apresenta de maneira passiva.
Tomando como base tais fundamentos, Dondis (1997, p. 107-160) assevera ser, dentre todas as demais, o contraste a mais importante e profícua técnica de composição visual. Isso porque, de acordo com a pesquisadora, no universo de polaridades, o contraste é uma “força vital”, uma “força de oposição” por meio da qual se evidenciam os traços constitutivos de polos contrários e, dessa forma, provocam-se o desequilíbrio e o estímulo: “Sem ele, a mente tenderia a erradicar todas as sensações, criando um clima de morte e de ausência de ser.” (DONDIS, 1997, p. 108). Como recurso para romper a monotonia e aguçar o significado, “o contraste não só é capaz de estimular e atrair a atenção do observador, mas pode também dramatizar esse significado, para torná-lo mais importante e dinâmico” (DONDIS, 1997, p. 118). Consiste, desse modo, em uma importante estratégia de captação.
As técnicas de expressão visual objetivam a melhor forma possível para expressar o conteúdo, oferecendo pistas textuais para que o observador (re)organize a informação visual. No intento de controlar o significado de uma composição segundo a manipulação do elemento visual com técnicas apropriadas ao conteúdo e à mensagem, as estratégias não devem ser compreendidas como opções mutuamente excludentes; ao contrário, como recursos combináveis e interatuantes. Nesse sentido, Dondis (1997, p. 139-160) propõe a exploração das polaridades de um continuum, entre cujos polos de significação antagônicos podem se distribuir as composições visuais – tal como sintetizamos a seguir.
HARMONIA CONTRASTE