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C ONTRATOS E E STRATÉGIAS DO JOGO DISCURSIVO

RANK TÍTULO UF MÉDIA DE CIRCULAÇÃO IMPRESSO

2. A ANÁLISE SEMIOLINGUÍSTICA DO DISCURSO

2.5 C ONTRATOS E E STRATÉGIAS DO JOGO DISCURSIVO

Retomando os princípios da linguística estruturalista, compreende-se que qualquer enunciado deve seguir os princípios básicos constituintes do sistema linguístico. Nessa perspectiva, em uma comparação proposta pelo próprio Saussure, o funcionamento da langue aproximar-se-ia de um jogo de xadrez: por imposições sociais anteriores aos sujeitos, as peças e as regras do jogo estão pré-definidas, tal como os signos linguísticos e suas regras combinatórias básicas. Logo, na constituição de um sintagma nominal, em que se articulam, por exemplo, substantivos, adjetivos e artigos, embora o uso concreto da língua pressuponha variações (como a seleção, no eixo paradigmático, dos itens lexicais), a manobra dessas “peças linguísticas” deve seguir princípios básicos de organização sintagmática (como a anteposição obrigatória do artigo ao substantivo), sem os quais a expressão se torna agramatical.

De forma análoga, no plano discursivo, “os atos de linguagem se dão dentro de um quadro de restrições e de liberdades” (OLIVEIRA, 2003, p. 33, grifo nosso), as quais, para além da estrutura linguística, referem-se aos comportamentos linguísticos dos sujeitos. À luz da Teoria Semiolinguística, todo ato linguageiro é, pois, construído sob um contrato de comunicação, que autoriza e interdita estratégias discursivas.

Pacta sunt servanda (Os pactos devem ser cumpridos). Essa expressão latina encerra um fundamento do Direito Civil: o princípio da força obrigatória dos contratos. Se concluídos livremente e em conformidade às leis vigentes, os contratos obrigam as partes de forma quase absoluta, consistindo em uma

verdadeira norma de direito. Um contrato é, portanto, lei entre as partes; e seu descumprimento acarreta a responsabilidade sobre perdas e danos13.

Observando os preceitos legais imperativos constituintes de um contrato civil, Charaudeau e Maingueneau (2006, p. 130) postulam que os contratos de comunicação consistem, de forma semelhante, nos princípios discursivos capazes de conferir validade a uma troca linguageira: “É a condição para os parceiros de um ato de linguagem se compreenderem minimamente e poderem interagir, co- construindo o sentido, que é a meta essencial de qualquer ato de comunicação.” [grifo dos autores]. Dada sua força coercitiva, o contrato é o que permite aos parceiros discursivos reconhecerem as condições de realização da troca linguageira, não só referentes a dados externos – i) o objetivo do ato que os sobredetermina, ii) suas identidades, iii) o objeto temático de que tratam e iv) as limitações circunstanciais/materiais que lhes são impostas –, como também a dados internos, ou seja, às restrições acerca dos comportamentos dos sujeitos – i) o espaço de locução, a imposição do sujeito falante em sua “tomada de palavra”; ii) o espaço da relação (de força ou de aliança, de exclusão ou inclusão, de agressão ou de conivência) entre os sujeitos; e iii) o espaço de tematização, a posição do sujeito frente ao que enuncia e, consequentemente, o modo de organização discursivo que seleciona (CHARAUDEAU, 2006a, p. 67-71).

Em síntese, tendo em vista como, nas trocas linguageiras, veicula-se e/ou reconstrói-se um conjunto de representações sociodiscursivas, Charaudeau (2009, p. 56) explicita que:

A noção de contrato pressupõe que os indivíduos pertencentes a um mesmo corpo de práticas sociais sejam suscetíveis de chegar a um acordo sobre as representações linguageiras dessas práticas sociais. Em decorrência disso, o sujeito comunicante sempre pode supor que o outro possui uma competência linguageira de reconhecimento análoga à sua. Nesta perspectiva, o ato de linguagem torna-se uma proposição14 que o EU faz ao TU e da qual ele espera uma contrapartida de conivência. [grifo do autor]

13 Cf. artigo “Do Pacta Sunt Servanda ao Rebus Sic Stantibus: uma nova hermenêutica do direito das

obrigações”. Disponível em: https://taironysouza.jusbrasil.com.br/artigos/406775468/do-pacta-sunt- servanda-ao-rebus-sic-stantibus-uma-nova-hermeneutica-do-direito-das-obrigacoes. Acesso em: 02 out. 2017.

14 Se, na Teoria Semiolinguística, o “propósito comunicativo” equivale à tematização, isto é, ao

assunto compartilhado pelos sujeitos do ato de linguagem; convém explicitar que, na citação em destaque, “proposição” (uma derivação do verbo “propor”) corresponde a “proposta”, ou mesmo, a “imposição”.

Desse modo, a comunicação midiática, em que se desdobram as capas- cartazes, corpus desta pesquisa, insere-se no contrato de “informação cidadã”, cuja finalidade primeira é fazer-conhecer ou fazer-saber. Nessa mediação de um evento do mundo, há, de um lado, a identidade do EUc (a instância de produção), que, por seu estatuto profissional, possui legitimidade democrática. Por outro, a identidade do TUi refere-se ao cidadão, que deve-se informar sobre a atualidade, não podendo, por isso, questionar a legitimidade do discurso jornalístico (CHARAUDEAU, 2004b).

Em que se pese a força vinculante de uma convenção contratual, convém observar, que – se, mesmo no Direito, a irreversibilidade ou intangibilidade da palavra empenhada é relativizada quanto à aquisição de proveitos injustificados e, assim, à proteção do consumidor – a rigidez dos contratos de comunicação pode ser atenuada pelas manobras discursivas, autorizadas previamente pelo próprio contrato ou instituídas pelo sujeito enunciador e tomadas como legítimas pelo sujeito interpretante. Nesse sentido, condições inflexíveis, que predeterminam, a priori, o adimplemento do contrato, são atualizadas e revistas por meio de diferentes estratégias:

Nenhum ato de comunicação está previamente [ou completamente] determinado. Se é verdade que o sujeito falante está sobredeterminado pelo contrato de comunicação [...], é apenas em parte que está determinado, pois dispõe de uma margem de manobra que lhe permite realizar seu projeto de fala pessoal, ou seja, que lhe permite manifestar um ato de individualização: na realização do ato de linguagem, pode escolher os modos de expressão que correspondam a seu próprio projeto de fala. (CHARAUDEAU, 2006a, p. 71)

No ato enunciativo – metaforicamente, um jogo (ou mesmo, uma guerra) –, os combatentes buscam vencer/persuadir uns aos outros, utilizando, para isso, diferentes técnicas, a fim de que a palavra-arma, para além de transmitir uma informação, possa concretizar seus projetos de fala. Em outras palavras, os sujeitos do ato de linguagem, necessariamente inseridos em um contrato de comunicação, selecionam (de maneira consciente ou não) certas operações linguageiras previamente autorizadas ou possíveis, para que alcancem seus objetivos. As estratégias discursivas são, portanto, os diferentes mecanismos para lograr êxito em uma troca linguageira.

A noção de estratégia repousa na hipótese de que o sujeito comunicante (EUc) concebe, organiza e encena suas intenções de modo a produzir determinados efeitos – de persuasão ou de sedução – sobre o sujeito interpretante (TUi), para levá-lo a se identificar [...] com o sujeito destinatário ideal (TUd) construído por EUc. (CHARAUDEAU, 2009, p. 56)

Tais estratégias constituem-se por escolhas linguísticas e proposicionais (temáticas) que visam à construção da legitimidade, da credibilidade e da captação – processos distintos, mas não excludentes. Assim, no que concerne ao discurso jornalístico, que se tensiona entre as visadas de informação e de captação, Charaudeau (2006a, p. 129-151) destaca, dentre as principais estratégias discursivas, a seleção e hierarquização dos fatos noticiados, a manipulação/distorção da realidade e, até mesmo, o falseamento de informações. Paralelamente, no que tange, especificamente, à captação, Charaudeau e Maingueneau (2006, p. 93) sublinham a possibilidade de o sujeito comunicante assumir a atitude de polêmica (questionando valores ou a própria legitimidade do interlocutor) ou de dramatização (construindo analogias, comparações e metáforas etc., a fim de suscitar emoções no interlocutor). O aprofundamento e a ampliação dessa listagem de estratégias discursivas de captação será, como já explicitamos, um dos objetivos centrais desta pesquisa.

Logo, o uso concreto da língua, muito além do respeito às normas do sistema linguístico, exige um posicionamento estratégico que considere, também, os saberes sociais compartilhados. Sob as restrições contratuais e o espaço de manobra que lhe são impostos, o sujeito comunicante deve, pois, ponderar o que e como deve ser enunciado para que seu projeto de fala se concretize e que, assim, ela vença no jogo discursivo.