2 UMA VISÃO GERAL SOBRE A RESPONSABILIDADE CIVIL
2.5 DA RESPONSABILIDADE CIVIL
2.5.1 A conduta 102 do agente
O comportamento do agente é de suma importância para a construção dos paradigmas da responsabilidade civil. A cada dia, a interação social demanda uma proteção mais incisiva do Poder Judiciário a fim de evitar conflitos de interesses decorrentes de comportamentos socialmente censuráveis. A forma como o indivíduo se porta perante o meio em que vive é de fundamental importância para a engrenagem de toda a proteção que se pretende delinear.
Alguns autores, ao tratarem do primeiro pressuposto da responsabilidade civil extracontratual subjetiva, falam apenas da culpa. Parece-me, todavia, mais correto falar em conduta culposa, e isto porque a culpa isolada e abstratamente considerada, só tem relevância conceitual. A culpa adquire relevância jurídica quando integra a conduta humana. É a conduta humana culposa, vale dizer, com as características da culpa, que causa dano a outrem, ensejando o dever de repará-lo.103
Ao falar em conduta, é importante ter em mente que se deve excluir desta previsão os fatos naturais ou aqueles comportamentos humanos que venham a ser impelidos pelas forças da natureza consideradas como invencíveis. Está se falando, por exemplo, de acontecimentos decorrentes de enchentes, terremotos, inundações. Ou seja, somente poderá ser considerada acobertada pelo tópico ora sugerido aquele comportamento praticado exclusivamente pelo ser humano, sem qualquer interferência outra.
Num primeiro momento, pode-se imaginar que somente comportamentos positivos seriam considerados como “conduta do agente”. Porém, a manutenção de tal pensamento apresenta- se eivado de incompatibilidade, na medida em que, além da ação, também a omissão será abarcada pelo instituto da responsabilidade civil. O próprio art. 186 determina que o direito deve abranger tanto a ação como a omissão.104
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Sérgio Cavalieri Filho alerta que, o termo “ação” é empregado em sentido lado para indicar tanto o comportamento positivo, como a omissão propriamente dita. Segundo o autor: “não raro, entretanto, essa prática enseja confusão, daí se preferível a expressão “conduta”, ou “comportamento””. (CAVALIERI FILHO, Sérgio.
Programa de responsabilidade civil. 6. ed. rev. aum. atual. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 48).
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Ibidem, p. 47.
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Art. 186, CC – aquele que por ação ou omissão, voluntária, negligência, imperícia ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.
A voluntariedade é a peça chave para a configuração da conduta reprovável105. O conhecimento da conduta que está se adotando é a pedra de toque para o desenvolvimento deste primeiro pilar, seja quando se fala na responsabilidade subjetiva, seja na objetiva. Assim sendo, pode-se dizer que há duas formas de comportamento: a positiva e a negativa. A primeira delas representa um ato ou fato positivo, ou seja, um comportamento que deverá ser praticado para, a partir de então, vir a produzir o dano a ser sanado através da prestação jurisdicional. Por sua vez, a segunda opção relaciona-se, em outro extremo, com a ausência de atitude por parte do sujeito ativo. O “não fazer” também pode vir a causar prejuízo a terceiros. Aquele que se encontra compelido a adotar um posicionamento e assim não se comporta, certamente, causará algum agravo a outrem. Em assim sendo, deverá ele ser censurado pela sociedade, sofrendo as devidas sanções impostas pelo ordenamento. Vale salientar que somente poderá ser responsabilizado pela omissão aquele que tiver a obrigação de comportar- se ativamente diante da situação que lhe é apresentada.
Ademais, há situações nas quais o sujeito estará no pólo ativo de uma ação indenizatória, mesmo não sendo ele quem praticou a ação. Estas situações são denominadas de responsabilidade por fato de outrem e, diferenciando-se da modalidade por fato próprio, responsabiliza aquele que está ligado, de alguma maneira, com o sujeito ativo, seja em razão de uma obrigação de cuidado, vigilância ou guarda, por exemplo. Neste sentido, determina o art. 932 do CC/02 que também são responsáveis pela reparação civil, por exemplo, os pais “pelos atos dos filhos menores que estiverem sob a sua autoridade e em sua companhia”.106 Diante disso, é possível afirmar, com bastante tranqüilidade, que a conduta humana é peça fundamental para a análise da responsabilidade civil como um todo. “O ato de vontade, contudo, no campo da responsabilidade deve revestir-se de ilicitude. Melhor diremos na
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Para demonstrar a importância da voluntariedade para configurar a conduta humana, Pablo Stolze e Rodolfo Pamplona exemplificam com a situação na qual o sujeito “apreciando um raríssimo pergaminho do século III, sofre uma micro-hemorragia nasal e, involuntariamente, espirra, danificando seriamente o manuscrito. Seria inadmissível, no caso, imputar ao agente a prática de um ato voluntário. Restará, apenas , verificarmos se houve negligência da diretoria do museu por não colocar o objeto em um mostruário fechado, com a devida segurança, ou, ainda, se o indivíduo violou normas internas, caso em que poderá ser responsabilizado pela quebra desse dever, e não pelo espirro em si.” (GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de
direito civil: responsabilidade civil. 6. ed. rev. atual. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 27).
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Art. 932, CC “são, também, responsáveis pela reparação civil: I – os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia; II – o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas condições; III- o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele; IV- os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde se albergue por dinheiro, mesmo para fins de educação, pelo seus hóspedes, moradores e educandos; V – os que gratuitamente houverem participado nos produtos do crime, até a concorrente quantia”
ilicitude há, geralmente, uma cadeia de atos ilícitos, uma conduta culposa.”107