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2 UMA VISÃO GERAL SOBRE A RESPONSABILIDADE CIVIL

2.3 DO ABUSO DE DIREITO

2.4.3 A responsabilidade a partir do viés penal

A responsabilidade penal – também conhecida como responsabilidade criminal – surge a partir da prática de um ato tipificado pela norma como delituoso, podendo ser tanto na forma comissiva como omissiva. Neste sentido, afirma Aguiar Dias:

Como a pena tem por objetivo a defesa da sociedade, há, de um lado, domínios onde se reprimem o ato, sem indagação sobre a responsabilidade moral do agente, como sucede nas contravenções e delitos de imprudência, onde se pune a falta de senso social e não a de senso moral; de outra parte, a lei penal faz influir, na dosagem da pena, o resultado do ato, ao lado do grau de culpabilidade, como nas medidas de segurança.62

Vale salientar, que durante o período romano, não havia que se falar em tal distinção. A responsabilidade era única, devendo o agressor restituir em pecúnia o dano por ele provocado. Foi apenas a partir da Lex Aquilia63 que se passou a identificar estas áreas atualmente conhecidas. O pagamento em dinheiro foi relacionado como forma de contraprestação para os atos considerados excluídos da esfera penal.

Da prática do ato contrário à norma poderá decorrer um dano que, a depender da sua gravidade e do sujeito passivo, será inserto ou no âmbito penal ou no civil. Naquele encontram-se os ilícitos de maior sisudez ou os que vão de encontro a interesses sociais. Nestes, por sua vez, estão abrangidos os atos de menor gravidade, que atingem apenas interesses que não necessitam da severidade trazida pelo direito penal.

Assim, desde que seja considerado como imputável, o agente responsável pela prática do ato delituoso deverá ser submetido a uma pena64 como uma forma de punição decorrente da sua transgressão legal. Porém, antes de ser atribuída a responsabilidade a quem quer que seja, deve-se alertar para os aspectos destacados por Alexandre Valença, Miguel Chalub, Mauro Mendlowicz, Kátia Mecler e Antônio Egidio Nadir, quando afirmam que:

Na fixação do pressuposto da responsabilidade penal com base na culpa

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DIAS, José Aguiar. Da responsabilidade civil. 10. ed. rev. atual. vol 1. Rio de Janeiro: Forense, 1997, p. 5-6.

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A Lex Aquília será abordada com mais cuidado no próximo tópico referente à responsabilidade civil.

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Vale lembrar que aos inimputáveis serão aplicadas medidas de proteção ou medidas sócio-educativas a depender da idade do agente ou, até mesmo, as medidas de segurança. A Constituição Federal determinou no seu art 228 que “são penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos, sujeitos às normas da legislação especial. Sendo assim, o Estatuto da Criança e do Adolescente – Lei 8069/90 – estipula que aos menores de 12 anos (considerados como crianças) devem ser aplicadas as medidas de proteção que buscam reintegrar o infante ao seio familiar. Por sua vez, para os maiores de 12 anos e menores de 18 anos, aplica-se as medidas sócio- educativas que são elencadas num rol taxativo de sete gradações, que vão da advertência ao internamento. Por sua vez no que se refere aos maiores de 18 anos, é considerado inimputável e, conseqüentemente, isento de pena, conforme preleciona o art. 26 do Código Penal brasileiro, “o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento”

moral, existem três critérios fundamentais: o biológico, o psicológico e o biopsicológico ou misto. O critério biológico condiciona a responsabilidade à saúde mental, à anormalidade da mente. Dessa forma, se o agente apresenta uma doença mental ou deficiência mental grave, deve ser considerado irresponsável, sem necessidade de posterior indagação psicológica. O critério psicológico não indaga se há uma perturbação mental mórbida: declara a irresponsabilidade se, ao tempo do crime, estava abolida no agente, seja qual for a causa, a faculdade de apreciar a criminalidade do fato (momento intelectivo) e de determinar-se de acordo com essa apreciação (momento volitivo). Finalmente, no critério biopsicológico, que é a reunião dos dois primeiros, a responsabilidade só é excluída se o agente, em razão de doença mental ou retardamento mental, era, no momento da ação, incapaz de entendimento ético-jurídico e de autodeterminação. É importante salientar que o nosso código penal vigente adotou este último critério. 65

Outro ponto de divergência refere-se à culpabilidade. No âmbito civil, segue-se o preceito de que in lege aquilia et levissima culpa venit66, ou seja, até mesmo a culpa levíssima gera obrigação de indenizar. Por sua vez, apesar de conceitualmente possuírem similitudes, a culpa no âmbito penal não implica necessariamente na condenação do réu, posto que deverá analisar a intensidade desta quanto ao ato praticado, haja vista que o Juízo criminal não se atém em relação a culpa levíssima.

Na esfera civil, porém, é diferente. A regra actio inbumbit probatio, aplicada à generalidade dos casos, sofre hoje muitas exceções, não sendo tão rigorosa como no processo penal. Na responsabilidade civil não é o réu mas a vítima que, em muitos casos, tem de enfrentar entidades poderosas, como as empresas multinacionais e o próprio Estado. Por isso, mecanismos de ordem legal e jurisprudencial têm sido desenvolvidos para cercá-la de todas as garantias e possibilitar-lhe a obtenção do ressarcimento do dano.67

Não se deve concluir que tais classificações encontram-se separadas e hermeticamente isoladas uma das outras. Indubitavelmente, haverá situações em que incidirá apenas a configuração da responsabilidade penal e outras em que somente existirá a influência do preceito civil. Por sua vez, existem também acontecimentos nos quais incorrerão diretamente ambas as responsabilidades, devendo o sujeito ativo responder por ambas indistintamente68. Por isso, ao tratar do tema, Sergio Cavalieri sentencia no sentido de que “a separação entre

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VALENÇA, Alexandre; CHALUB, Miguel; MENDLOWICZ Mauro; MECLER, Kátia; NADIR, Antônio Egidio. Conceito de responsabilidade penal em psiquiatria forense. Disponível em: <http://www.ipub.ufrj.br/documentos/JBP(3)2005_(248-252).pdf>. Acesso em: 01 jul. 2007.

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Segundo Dirceu Rodrigues, o referido brocardo significa: “na lei Aquília trata-se até da culpa levíssima” (RODRIGUES, Dirceu. RODRIGUES, Dirceu. Brocardos Jurídicos. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 1948, p. 182).

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GONÇALVES. Carlos Roberto. Responsabilidade civil. 9. ed. rev. de acordo com o novo código civil (lei n. 10.406 de 10-1-2002). São Paulo: Saraiva, 2005, p.21.

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O exemplo clássico utilizado por boa parte da doutrina refere-se ao acidente automobilístico provocado por atropelo no qual o agente causador deverá indenizar a vítima no âmbito civil e, concomitantemente, também incidirá sobre ele a responsabilidade penal caso venha a ocasionar algum ferimento ou a morte da vítima.

uma e outra ilicitude atende apenas a critérios de conveniência ou de oportunidade, afeiçoados à medida do interesse da sociedade e do Estado, variável no tempo e no espaço.”69

Apesar de coexistirem, como preceitua o art. 91, I do Código Penal70, não se pode falar em dependência entre ambas responsabilidades. O artigo 935 do Código Civil é cristalino ao tratar do tema quando estampa para o operador do direito que “a responsabilidade civil é independente da criminal”71. Sendo assim, não há que se falar em bis in idem.

Nesta esteira, já que as normas criminais têm um caráter subjetivista e visam a assegurar a defesa da sociedade pela aplicação da pena entendida extracontratual, seja como fator intimidativo ou repressivo, ou até mesmo como meio de readaptar o infrator à vida social, pode-se dizer que a responsabilidade penal importa-se apenas com o resultado coletivo da agressão, não relevando, na maioria das vezes, valor aos prejuízos particulares que, por sua vez, seriam destinados ao âmbito civil72.