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2 UMA VISÃO GERAL SOBRE A RESPONSABILIDADE CIVIL

2.5 DA RESPONSABILIDADE CIVIL

2.5.3 As mudanças sociais e a responsabilidade objetiva

A revolução industrial e a inserção de novas relações sociais trouxeram à reboque situações antes não vislumbradas pelos legisladores e operadores do direito. Em conseqüência, a teoria da culpa passou a ser insuficiente para abarcar a grande maioria dos anseios antes inexistentes e que foram agregados ao meio social.114

De modo gradual admitiu-se um direito à segurança por parte da vítima da lesão de direito, abrangendo tanto a integridade física da pessoa como a intangibilidade dos seus bens. Assim, quando o direito à segurança sofria uma lesão surgia uma responsabilidade por parte do autor do dano. A doutrina explicou que houve um deslocamento do prisma pelo qual se examinava a responsabilidade civil. Abandonou-se, em alguns casos, a apreciação da conduta do autor do dano para garantir o direito à segurança de quem tinha sofrido a lesão.115

Foi então que a responsabilidade civil passou a ser vista sob dois prismas. Ordinariamente, ela era configurada a partir da existência da culpa, porém já havia a germinação de uma nova vertente que, em nome da segurança da vítima, passou a trilhar o caminho da configuração desta obrigação secundária abrindo mão do aspecto subjetivo, como, por exemplo, nos acidentes laborais116. Para este tipo foi-lhe rotulada a característica de objetiva.117

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Somente a título de esclarecimento e sem qualquer pretensão de adentrar na temática, pode-se definir, sumariamente, negligência como sendo a ausência de cautela, de precaução. Ou seja, a falta de cuidados necessários para barrar o acontecimento danoso. Por sua vez, a imprudência é a infringência às regras de conduta necessárias para a realização de um ato. O agente pratica fato considerado como perigoso. Por fim, a imperícia é também conhecida como culpa profissional ou técnica, e refere-se a falta de aptidão no exercício de uma profissão ou de uma arte. É voltada diretamente aos profissionais em razão do seu ofício.

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Ainda segundo Arnold Wald, ele lembra que não só no aspecto material é possível explicar a evolução da responsabilidade civil. Tão importante quanto este aspecto, o patamar psicológico, com a inserção de novos pensamentos e a queda de diversos dogmas antes existentes, também são ingredientes para a “fermentação” deste instituto. Nas palavras do autor: “o desenvolvimento da noção da responsabilidade civil não se explica somente pelos fatores econômicos, mas também pela psicologia particular do homem do nosso tempo que se recusa a crer no inevitável, na fatalidade no acidente causado pela vida, procurando sempre um responsável pelos danos e prejuízos que sofre.” (WALD, Arnold. A evolução da responsabilidade civil e dos contratos no direito francês e brasileiro. Revista dos Tribunais, São Paulo, v. 845, ano 95, mar. 2006, p. 83).

115

Ibidem, p. 85.

116

“na década de 1930, o ilustre jurista Virgílio de Sá Pereira que foi desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, examinando os problemas decorrentes de acidentes de bonde, reconheceu que a vítima devia ser ressarcida independentemente da culpa, tanto do motorneiro, quanto da empresa exploradora da concessão, que era na época da Light. Dizia o consagrado magistrado que o motorneiro podia ter culpa, mas não tinha recursos para indenizar a vítima e que a Light (empregadora) tinha dinheiro, mas não tinha culpa. Ora, era preciso que a vítima fosse ressarcida, tanto mais que a empresa de bondes realizava atividade lucrativa e tendo as respectivas

Desta maneira, pode-se dizer que o viés objetivo da responsabilidade surgiu em decorrência de situações nas quais havia iminente configuração do risco ou nos casos de existência de profundas desigualdades entre o sujeito ativo do dano e o passivo. “A responsabilidade objetiva funda-se num princípio de equidade, existente desde o direito romano: aquele que lucra com uma situação deve responder pelo risco ou pelas desvantagens dela resultantes (ubi emolumentum, ibi ônus; ubi commoda, ibi incommoda).118

As teorias modernas têm se afastado da valorização da culpa para adentrar na teoria do risco, na qual a responsabilidade passa a ter aspecto objetivo. Ao exercer alguma atividade que seja potencialmente arriscada a causar prejuízos a terceiros, o agente assume o risco de ser compelido a ressarcir ou indenizar o dano decorrente da prática deste ato. Este pensamento vincula-se diretamente ao denominado risco-proveito ou risco-benefício, ou seja, aquele que exerce determinada atividade e, conseqüentemente, retira vantagens diretas ou indiretas deverá responder pelos danos causados, independentemente de culpa sua ou de qualquer outra pessoa a ela vinculada.

O Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal aponta, em seu enunciado 38 no sentido de que: “a responsabilidade, fundada no risco da atividade, configura-se quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano causar a pessoa determinada um ônus maior do que aos demais membros da coletividade.”

Além disso, atualmente, vislumbra-se a aplicabilidade da teoria do dano objetivo119 que vantagens devia arcar também com os ônus decorrentes Construiu-se, pois, gradativamente, uma jurisprudência que garantia a indenização da vítima pela empresa, sem prejuízo da eventual ação regressiva que esta poderia ter contra o empregado se tivesse atuado culposamente. Algumas décadas depois, essa jurisprudência se sedimentou definitivamente ensejando, na década de 1960, a Súmula 341 do Supremo Tribunal Federal.” (Ibidem, p. 86-87).

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Sumula 341 do STF: É presumida a culpa do patrão ou comitente pelo ato culposo do empregado ou preposto.

118

DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro – responsabilidade civil. 21. ed. rev. atual. vol. 7. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 51.

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Segundo o STF: RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO. DANO DECORRENTE DE ASSALTO POR QUADRILHA DE QUE FAZIA PARTE PRESO FORAGIDO VARIOS MESES ANTES. A responsabilidade do Estado, embora objetiva por força do disposto no artigo 107 da Emenda Constitucional n. 1/69 (e, atualmente, no parágrafo 6. do artigo 37 da Carta Magna), não dispensa, obviamente, o requisito, também objetivo, do nexo de causalidade entre a ação ou a omissão atribuída a seus agentes e o dano causado a terceiros. - Em nosso sistema jurídico, como resulta do disposto no artigo 1.060 do Código Civil, a teoria adotada quanto ao nexo de causalidade é a teoria do dano direto e imediato, também denominada teoria da interrupção do nexo causal. Não obstante aquele dispositivo da codificação civil diga respeito a impropriamente denominada responsabilidade contratual, aplica-se ele também a responsabilidade extracontratual, inclusive a objetiva, até por ser aquela que, sem quaisquer considerações de ordem subjetiva, afasta os inconvenientes das outras duas teorias existentes: a da equivalência das condições e a da causalidade adequada. - No caso, em face dos fatos tidos como certos pelo acórdão recorrido, e com base nos quais reconheceu ele o nexo de causalidade indispensável para o reconhecimento da responsabilidade objetiva constitucional, é inequívoco que o nexo de causalidade inexiste, e, portanto, não pode haver a incidência da responsabilidade prevista no artigo 107 da Emenda Constitucional n. 1/69, a que corresponde o parágrafo 6. do artigo 37 da atual Constituição. Com efeito, o dano decorrente do assalto por uma quadrilha de que participava um dos evadidos da prisão não foi o

encontra inserta, também, no âmbito da responsabilidade civil objetiva. Neste caso, a culpa é posta ao largo da análise. Havendo dano comprovado dever-se-á ressarcir. A idéia de culpa não é fator preponderante, isto porque, a tendência atual é não deixar a vítima de atos ilícitos sem a contraprestação a que tem direito.

A responsabilidade civil é, indubitavelmente, um dos temas mais palpitantes e problemáticos da atualidade jurídica, ante sua surpreendente expansão no direito moderno e seus reflexos nas atividades humanas, contratuais e extracontratuais, e no prodigioso avanço tecnológico, que impulsiona o progresso material, gerador de utilidades e de enormes perigos à integridade da pessoa humana. 120

Quando se fala no aspecto objetivo da responsabilidade, deve-se ter em mente que esta é configurada a partir da atividade exercida pelo agente e não pelo seu comportamento. O regramento jurídico constante no parágrafo único do art. 927 do Código Civil121 fala em atividade que venha a causar riscos122 a outrem, ou seja: aquela atitude que possui grande potencialidade danosa, ultrapassando os limites aceitos pela normalidade.

[...] lembrando que a idéia de reparação é muito mais ampla do que a de ato ilícito: se este cria o dever de ressarcir, há, entretanto, casos de indenização em que não se cogita a iliceidade da conduta do agente. Daí temos de cuidar do assunto tratando primeiramente da reparação originária da culpa e depois daquela a que é estranha a sua noção.123

O parágrafo único do artigo 927 do novo Código traz consigo previsão de suma importância para os dias atuais que é o dever de indenizar sem que seja necessária a observação da existência de culpa, nos casos em que há previsão legal ou quando a atividade normalmente efeito necessário da omissão da autoridade publica que o acórdão recorrido teve como causa da fuga dele, mas resultou de concausas, como a formação da quadrilha, e o assalto ocorrido cerca de vinte e um meses após a evasão. Recurso extraordinário conhecido e provido." (STF, Primeira Turma. RE 130.764/PR, Rel. Min. MOREIRA ALVES, pub. 07.08.92)

120

DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro – responsabilidade civil. 21. ed. rev. atual. vol. 7. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 7.

121

Art. 927 do Código Civil: “aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.”

Parágrafo único: haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei ou quando a atividade normalmente desenvolvida, pelo autor do dano, implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.

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Há algumas modalidades de riscos reconhecidas pela doutrina nacional, dentre as quais destacam-se: o risco proveito que imputa àquele que tira proveito da atividade danosa a obrigação pela reparação do dano; o risco profissional que alude que sempre que o fato prejudicial ocorra em razão de atividade profissional do lesado deverá haver a indenização (aplica-se muito nos casos de responsabilidade civil em razão de acidente decorrente do labor); o risco excepcional é aquela que abarca o dano quando ele decorre de uma atividade excepcional a qual a vítima não se configurava como sua atividade comum; o risco criado que é relacionado ao dever de indenizar imputado àquele que em razão da sua atividade ou da sua profissão cria o perigo; e, por fim, a do risco integral que é a mais radical de todas as teorias que envolvem a idéia de risco, pois ela aponta no sentido de que deve haver indenização mesmo nos casos em que inexiste nexo causal. Assim, o dever de indenizar apresenta-se apenas em razão do dano.

123

PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. 3. ed. vol III. Rio de Janeiro: Forense, 1993, p. 391.

desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, grande risco para os direitos de outra pessoa.

Na responsabilidade objetiva, a atividade que gerou o dano é lícita, mas causou perigo a outrem, de modo que aquele que a exerce, por ter a obrigação de velar para que dela não resulte prejuízo, terá o dever ressarcitório, pelo simples implemento do nexo causal. A vítima deverá pura e simplesmente demonstrar o nexo de causalidade entre o dano e a ação que o produziu.124

Nestes casos, o agente ressarcirá os danos experimentados mesmo em situações de ausência completa da culpa, pois tal obrigação é imposta por lei, sem a necessidade de indagar se houve a configuração de algum erro de conduta. Assim, diferentemente do que ocorre com a responsabilidade subjetiva, na objetiva, ao ônus probatório não se atêm ao ânimus do ofensor. É desnecessária a avaliação do dolo ou culpa do agente, devendo-se apenas comprovar o nexo de causalidade entre a conduta e o dano sofrido.

A exigência da identificação de culpa que, antigamente, reinava soberano no âmbito da responsabilidade civil, hoje se encontra mitigada diante de algumas determinações legais. A objetivação do instituto fez com que o aspecto subjetivo, em muitos casos, passasse a ser utilizado apenas como uma chancela que servirá como um aporte para confirmar a decisão adotada pelo magistrado. A culpa e o dolo saem da frente dos holofotes para, nestes casos, assumirem um aspecto subsidiário.

Há uma transmutação na ordem tradicionalmente estipulada. Os Juízes, antes acostumados a identificar a existência da culpa para, em seguida, localizar o direito do ofendido a ser indenizado, passaram a, primeiramente, constatar o direito da vítima ter de volta o seu status quo ante e depois caso fosse houvesse a sua configuração, ela apenas servirá para justificar a decisão tomada.

Um dos grandes defensores do âmbito objetivo da responsabilidade, Caio Mário da Silva Pereira alude que: “o fundamento ético da doutrina está na caracterização da injustiça intrínseca, que encontra os seus extremos definidores em face da diminuição de um patrimônio pelo fato do titular de outro patrimônio”125

Vale salientar que apesar de toda essa vertente objetivista, que emana da nova tendência da responsabilidade civil, não houve o abandono do modelo subjetivista. Não se encontra

124

DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro – responsabilidade civil. 21. ed. rev. atual. vol. 7. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 54.

125

PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil: Introdução. 5. ed. vol I. Rio de Janeiro: Forense, 1993, p. 459.

abandonada a responsabilidade por culpa. Ela continua, conforme já foi exposto, existente na parte geral no Título referente aos atos ilícitos e, mais adiante, na parte destinada à responsabilidade civil propriamente dita.

Deve-se lembrar, ainda, que apesar da força incontestável existente na teoria objetiva da responsabilidade civil – até mesmo porque protege a pessoa de forma mais ampla contra abusos de terceiros que possuem uma complexidade maior de configuração -, a outra face da moeda denominada de subjetiva ainda possui grande repercussão no atual Código Civil. “A responsabilidade objetiva não substitui a subjetiva, mas fica circunscrita aos seus justos limites”.126

Interessante também é a previsão feita por Sérgio Cavalieri ao afirmar que a tendência do futuro é a socialização dos riscos, fomentado pelo crescimento vertiginoso dos acidentes nas relações sociais. “Lança-se mão de técnicas de socialização do dano para o fim de ser garantida pelo menos uma indenização básica para qualquer tipo de acidente pessoal. É o que, em doutrina, se denomina de reparação coletiva, indenização autônoma ou social.”127

Muda-se, com isso o foco da responsabilidade civil.

Doravante, o causador da agressão não mais será o ponto nevrálgico para o funcionamento de toda engrenagem, mas sim a própria vítima. É necessário manter a paz social através da segurança de que, na hipótese de prática de um ato ilícito ou um abuso de direito, ao sujeito passivo será assegurada a satisfação do seu direito ofendido.

O dano, por esse novo enfoque, deixa de ser apenas contra a vítima pra ser contra a própria coletividade, passando a ser um problema de toda a sociedade. Um dano injusto deve ser indenizado e, em razão disso, pode-se dizer que ambas as vertentes se completam128, pois onde não houver espaço para a incidência da teoria subjetiva, aplicar-se-á a objetiva na busca de assegurar a paz social.129

126

GONÇALVES, Carlos Roberto. Responsabilidade Civil. 9. ed. rev. de acordo com o novo código civil (Lei 10.406 de 10-1-2002). Saraiva: São Paulo, 2005, p. 24.

127

CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de responsabilidade civil. 6. ed. rev. aumentada, atual. 2. tiragem. São Paulo: Malheiros Editores, 2006, p.165.

128

Neste mesmo sentido conduz Carlos Young Tolomeri quando afirma que “não parece existir algum problema em imaginar-se que, ao lado do sistema da responsabilização por ato ilícito, relacionado à culpa, possa conviver outro sistema, objetivo, relacionado ao risco da atividade desenvolvida. Em outras palavras, não se trata de declínio desta ou daquela teoria, mas surgimento de legítimos mecanismos para atender as novas demandas sociais.” (TOLOMERI, Carlos Young. A noção de ato ilícito e a teoria do risco na perspectiva do novo Código Civil. In: TEPEDINO, Gustavo (coord). A parte geral do novo código civil. Estudos na perspectiva civil-

constitucional. 2. ed. rev. atual. São Paulo: Renovar, 2003, p. 363).

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Alguns autores que se dedicam a desenvolver a temática em torno da responsabilidade civil, como por exemplo Sérgio Cavalieri Filho, lembram que esta socialização dos danos decorre na necessidade de estipulação