Capítulo 2. Aline e sua magia
2.5 A consciência do gênero
No terceiro encontro, com o propósito de conversar sobre gênero, Aline lembrou a pergunta sobre a árvore cujas raízes representavam a criação; o tronco, o presente; e as folhas, os relacionamentos futuros. Ela dividiu o quadro branco da sala em duas colunas: uma para atributos das mulheres e outra para os dos homens. Depois, colocou umas frases escritas em cartolinas brancas para que os homens escolhessem, lembrando das “atitudes e experiências que ouviram de como os outros e eles mesmos deviam se comportar”. Em seguida, eles deveriam decidir em qual das colunas colocar a frase.
Herbert perguntou para Aline o que significava o “afeto”. “A capacidade de falar o que as pessoas sentem para outras”, ela respondeu. Herbert colou a frase “ser afetuoso” no meio das duas colunas. Depois, todos pegaram suas frases também na linha divisória, menos Josué, que se recusou a participar. Aline ficou interessada nas razões pelas quais eles haviam colocado as frases no meio, como se fossem características dos dois sexos: “chorar, brincar com os filhos, ensinar os deveres de casa, conversar com a filha sobre sexo, agressividade, alegria, chegar tarde em casa, ter amigos do sexo oposto, cuidar de parente doente”. O que significava estar no meio? Perguntou ela.
Josué, amargurado, respondeu que a mulher não podia ter amigos do sexo oposto porque seria uma traidora e o homem só teria interesse sexual nela. Para ele, a amizade não existia. Aline considerava que a mulher tinha direito de sair e beber uma cerveja com amigos sem que isto fosse motivo para partir para briga, e perguntou para Josué se esse pensamento não seria um costume regional do Nordeste, porque os homens do Rio de Janeiro consideravam o
contrário. Josué respondeu que não era uma questão cultural, mas sim que os cariocas eram “malandros” e falavam o que ela queria escutar, ao contrário dele, que sempre falava a “verdade”. Os outros balançaram a cabeça sinalizando assim que não valia a pena prestar muita atenção ao que havia sido dito. Herbert replicou sorrindo, mas com tom forte, que Josué devia aprender a ter “confiança em si mesmo” para poder acreditar nos outros, porque o que ele falava não mostrava mais do que “insegurança”. Aline lembrou que o grupo era para debater, sem precisar subir o tom de voz, e que ali eles tinham a oportunidade de “repensar hábitos aprendidos ao longo da vida” que eram “naturalizados”, como se impor gritando, o que era “próprio dos homens”.
Figura 12. Árvore da vida e do gênero.
Ignorando Herbert e citando a Bíblia, Josué comentou que o lugar da mulher era na casa, porque devia cuidar dos filhos. Todos concordaram, afirmando que muitas delas nunca trabalharam. Depois adicionou que a mulher adúltera devia levar pedrada. Aline não gostou do comentário. Maykson afirmou que o homem também era adúltero e, falando para Josué, disse que na Bíblia existia a Lei de Moisés, mas também a de Lei de Cristo, que falava de “amar o outro”. Aline destacou que “a palavra” era importante nas relações humanas e que “perdoar” devia ser um exercício diário. Dirigindo-se a Josué, ela perguntou: “a gente tem aprendido que
as religiões também foram construídas dentro de uma cultura e o grande desafio é, até nas religiões, o que tem lá que é cultural e o que tem lá que é eterno?”. Josué ficou em silêncio.
Aline voltou à atividade, argumentando que as “diferenças entre homens e mulheres” eram conhecidas como “gênero”. Transmitido durante a criação, ele modelava o comportamento dos adultos e mudava segundo a cultura, a geração e a religião. Se existiam essas divisões, por que eles optaram por colocar as frases no meio, como se fossem responsabilidades dos dois no lar, destacou Aline, para depois perguntar: “quem de vocês realmente está presente na criação e faz ofícios domésticos?”. Todos ficaram em silêncio.
O desafio para eles era conceber o relacionamento como uma “troca de afetos”, que permitia a “estabilidade emocional [e] as potencialidades” que cada uma das partes tinha para a manutenção do casal, trazendo como resultado “diversos arranjos familiares”, e não só o modelo de pai provedor e de mãe confinada no lar. Um olhar na “diversidade das trocas” permitia questionar as “verdades”, como as das religiões, explicava Aline, e finalizando, ela afirmou que “a gente pode pensar: bem, essa pode ser a minha verdade, mas há outras realidades no mundo afora, pela história fora”. A tentativa de Aline era tirá-los do “lugar da razão”, da “última palavra em casa”, lugar que, para ela, esses homens ocupavam e que viram seus pais ocuparem. Aline queria que eles valorizassem a posição da mulher como parceira e que parassem de enxergá-la como uma subordinada.
Retomando a definição do conceito de gênero, Aline disse que ele se referia ao caminho das pessoas para se tornarem homens ou mulheres e aos papéis estereotipados que ficavam internalizados, conformando a identidade. Disse ainda que a ideia da divisão dos sexos era muito poderosa e eles precisavam ter consciência disto, colocando exemplos acerca da cor da roupa para os bebês ou dos brinquedos das crianças. “Qual a razão dessa divisão?”, perguntava Aline, se o suposto era a igualdade entre homens e mulheres. Heitor feminilizou a voz e disse que era para “não ter surpresas desagradáveis”. Todos riram. Aline, ignorando-o, perguntou por que os homens tinham que “levar porrada” e demonstrar que eram corajosos sempre, quando muitos não queriam isto. O nome para isto era “machismo”. Maykson concordou com Aline e disse que essas atitudes correspondiam ao passado e que a mente de todos estava no passado. Ele contrastou o machismo com “o pensamento do presente”, em função do que ele buscava “mudar”. Aline estava contente, até que Maykson feminilizou a voz e perguntou se podia brincar de boneca e cozinhar no futuro. A crítica à proposta de se pensar como um sujeito consciente do gênero feita por Aline não podia ser mais óbvia.
Aline respirou fundo e, com um leve sorriso, disse que o Rio de Janeiro do passado não era o mesmo de hoje, razão pela qual eles deviam se propor a mudar a “norma de gênero” e a
responder às expectativas igualitárias da época. Henrique, o policial militar, concordou com Aline, considerando que o tema era polêmico porque os homens estavam acostumados a trabalhar para prover dinheiro e muitas mulheres só se sentiam realmente como tal quando tinham filhos. Ele pensava na sua filha e não a imaginava com vários namorados simultaneamente, enquanto ele, como homem, foi estimulado a “pegar” várias mulheres ao mesmo tempo. Josué, irônico, comentou que era por isso que a mulher não podia ter amigos, para que não fosse uma “vagabunda”. Havia uma tensão acumulada entre eles dois a partir dos encontros anteriores. Henrique encarou Josué e respondeu:
O que ela está falando aqui é que o machismo existe, o homem pode fazer tudo, a mulher não pode fazer nada, se teu pensamento é assim, na boa, o teu pensamento é assim, cara risos de alguns, você é criado num quadrado, onde a mulher tem que usar esse negócio de burro que nem olhar para o lado ela pode21.
Depois de alguns tensos segundos de silêncio, Josué respondeu que era assim mesmo que devia ser, a mulher só podia olhar para o marido e ele só podia olhar para ela, isso era demonstração de “respeito”. Henrique, Maykson e Herbert riram alto. Henrique não acreditou e lhe perguntou se nunca olhava uma mulher na rua. Josué, sereno, respondeu que ele já superou “a ansiedade de ficar com cada mulher na rua”: “vivo no judaísmo de Adonai desde há dois anos e tenho outra concepção da minha vida”. Josué explicou que o homem e a mulher tinham um papel segundo o Eterno: a mulher deve ser submissa ao homem, o que não queria dizer que fosse escrava, e que era necessário existir respeito mútuo. Por isso ele não olhava para outras mulheres, “mesmo que andem devassas diante de você”. Josué meditava, contemplava seu “apetite sexual” e não frequentava a praia, nem andava de sunga. A partir desse novo parâmetro ético, Josué fez uma “análise crítica de quando vivia no cristianismo”, época em que deu “liberdade” para sua mulher, considerando-a como uma “igual”. Estes dois atributos só levavam à “traição” e à “libertinagem”, porque homens e mulheres estavam só pensando no seu “interesse particular” e não “obedeciam” ao mandamento do Eterno. Havia um ambiente de aprovação para as palavras de Josué. Ele sabia argumentar e contestar a proposta de Aline, mas também colocar em palavras a “doxa” que fundamentava as relações e os arranjos familiares desses homens.
Aline reconhecia o sentido das palavras de Josué, mas enfatizava que existiam “outras experiências nas quais a mulher tinha outro lugar, com papéis que antes não eram pensados
para elas”. Ela valorizou o fato de os homens falarem a partir da sua “experiência pessoal”, apontando “a diversidade e o dinamismo” da conversa desse dia. Ela lembrou que a relação de casal se construía com “afeto e carinho [para] harmonizar na base da igualdade e do respeito sem medo” e que não podia confundir-se “amor” com a “posse do outro”. Aline anunciou outro desafio para aquela semana: “aprender a reconhecer os afetos das mulheres no relacionamento”. Ela encerrou o encontro e todos saíram em silêncio da sala. “Foi um encontro muito interessante porque todos saíram mexidos”, comentava Aline. Ela estava satisfeita.