Capítulo 2. Aline e sua magia
2.3 Falar das emoções, um presente para a vida
Na terça-feira seguinte, dia do segundo encontro do grupo, cheguei com uma hora de antecedência. Aline estava atendendo uma mulher e suas colegas organizavam alguns relatórios para serem entregues ao juiz. Heitor e Herbert conversavam na sala de espera. Herbert estava com um olhar triste, como sempre. Ele acabava de sair de uma audiência com o juiz na qual Izete dissera que ele não estava respeitando a medida protetiva. Herbert negou tudo, insistindo que estava morando no barco no qual trabalhava e que tinha deixado duas casas para ela: o apartamento que recebeu de herança da sua mãe e uma casa que ele comprou em um bairro próximo da cidade de São Gonçalo. Por causa da medida protetiva, ele não podia visitar a sua
família. O lugar onde eles viveram enquanto eram um casal – uma enorme casa em que Herbert, sua mãe, seu irmão e duas irmãs moraram – havia sido dividida em quatro apartamentos após a morte da mãe, um para cada filho. Herbert considerava Izete uma “doente mental [e] doente de ciúmes”, que precisava de tratamento psiquiátrico, coisa que ele disse para o juiz e para Aline.
Heitor aconselhava Herbert a documentar e a ter testemunhas cada vez que ele visitasse a filha, e quando entregasse o dinheiro para a Izete, para demonstrar que estava cumprindo com a medida protetiva. A intenção era esclarecer para o juiz que eles não estavam passando por cima da sua autoridade e que cumpriam seus deveres como pais. Heitor colocou seu exemplo: ele se separou em setembro de 2010, enquanto Joana alegava que a separação fora há mais de um ano, razão pela qual ele tinha que pagar uma pensão com juros, coisa que considerava injusta. Meio brincando, meio falando sério, Heitor disse que casar de novo é coisa que ele não faria:
Deus que me perdoe um comentário muito machista, só tem homem aqui, mas é muito mais barato pegar R$ 100 ir num bordel e resolver. Pagar para resolver é melhor que passar por toda essa punição cara, entendeu? É sexo, então você vai, paga e resolve.
Herbert discordou e, sorrindo, respondeu que ele não era mais um garoto. Para ele o casamento não era só sexo, mas “companhia e cuidado”, coisa que não tinha da sua ex-mulher: o homem precisa de apoio, o que uma puta não pode providenciar. O problema para Herbert era quando o relacionamento virava uma “guerra”, porque nesse momento o cuidado era inexistente, especialmente na velhice, como na situação dele. Heitor assentia com a cabeça.
Os outros homens iam chegando. Pouco tempo depois, Aline nos convidou para entrar na sala. Ela colocou uma caixa na mesa “com presentes”, que os homens só podiam pegar assim que terminasse a música “O que é? O que é?”, de Gonzaguinha. Ela começou a cantar e Herbert a acompanhava: “[...] A vida é bonita! [...]”. Ele perguntou se o presente ia ser uma “correntinha dessas para monitorar”. Todo mundo riu, inclusive Aline, mas ela assegurou que o presente não ia ser uma tornozeleira eletrônica, como as utilizadas em outros estados18. Para tranquilizá-los, Aline afirmou que era “normal sentir temor e constrangimento” em uma situação de expectativa. Ela então abriu a caixa para cada um dos homens pegar seu presente. Eram
18 Para maiores referências sobre a utilização de tornazeleiras eletrônicas pelos homens processados pela Lei Maria
chocolates. Aline perguntou o que podiam associar ao ato de desembrulhar o chocolate e a situação que eles estavam vivendo nesse momento.
Com seu tom forte e enfático, Josué falou de “arrependimento” por ter escolhido a mulher errada para ser a mãe dos seus filhos. Ele descreveu o chocolate como gostoso, mas que sempre dava dor de barriga, como sua ex-mulher, que “[era] bonita e cheirosa, mas na verdade [era] venenosa”. Aline escutava. Josué narrou de novo toda a sua história sobre traição, roubo de dinheiro, separação dos filhos, a cadeia, a perda dos contatos políticos... Fez uma pausa. Gritando, ele disse que se “tivesse quebrado a cara dela”, se ele “a tivesse matado”, já estaria livre: dela e do Judiciário. O tempo que levava o processo era maior do que o tempo de um assassino no cárcere. Também afirmou que se ele a tivesse matado, a “humilhação” de ter convivido com bandidos seria merecida. Josué não considerava as ameaças telefônicas nem os xingamentos como um crime, menos ainda como uma violência, mas o mínimo que sua ex- mulher merecia pela traição. Por mais de 20 minutos ele repetiu sua história, uma e outra vez. Aline e os outros homens escutavam um pouco impacientes, olhando entre si como se quisessem que ele calasse a boca. “Hoje minha vida é um inferno!”, gritava Josué enfurecido. “Eu sou vítima, eu fiquei sem casa, sem filhos, sem trabalho, sem escritório, e ainda vou preso?”, perguntava-se indignado e furioso. Aline não tinha uma resposta, só solicitava que ele se acalmasse, mas sem sucesso.
Em uma das pausas de Josué, Aline aproveitou para continuar com a atividade, não sem antes pontuar que “a raiva pode fazer com que você cometa um erro do qual pode se arrepender”, falando para Josué. Ela o convidou a pensar sobre sua atitude para encarar melhor futuras situações.
Heitor apoiou Josué. Para ele, “as mulheres [sabiam] como provocar”, colocando seus parentes contra o companheiro. Heitor considerava as mulheres “inteligentes, cautelosas e cruéis”; elas sabiam criar situações nas quais elas se mostravam como as vítimas. Por exemplo, Joana foi se aproximando de uma irmã de Heitor, com a qual não falava havia uns anos, depois de ele descobrir umas fotos na internet nas quais sua irmã participava de uma festa de swing. Heitor considerou que sua irmã prejudicava a criação dos seus sobrinhos. Joana postava fotos no facebook com a ex-cunhada com frases como “é bom ter uma família”, ou “adoro meus sobrinhos”. Heitor, com voz modulada e articulando cada palavra, falava: “Me incomoda o fato de ela estar fazendo isso, porque é uma opção minha não querer uma aproximação com minha irmã” – sua voz era muito bonita, ligeiramente grave e clara; quando ele falava, todo mundo escutava com atenção. Segundo Heitor, Joana jamais havia gostado da sua família, mas só no momento da separação foi que ela começou a se aproximar da sua irmã. Para Heitor, essa
situação estava interferindo em sua relação com a filha, a sua “princesa”, que naquele momento acreditava que ele não a amava porque só a visitava a cada 15 dias. Heitor fazia todo o possível para passar tempo com ela e demonstrar que ele realmente a amava, não como a mãe, que a usava para manter a briga.
Todos ficaram conmovidos com essa história, comentavam seus casos de visitação e a falta que sentiam dos filhos, particularmente das filhas. Aline os deixou falar por uns minutos. Depois, sorridente, ela interrompeu e qualificou o encontro desse dia como “produtivo” porque permitiu que “muitas emoções fortes, como a raiva ou a mágoa”, se manifestassem: isto lhe permitia compreender melhor o que cada um deles estava experimentando. Ela também disse que ao longo da vida as pessoas recebiam vários presentes, sendo alguns deles chocolates e outros, “abacaxis”, em outras palavras, eles iam ter “encontros e desencontros”. Nem tudo era como eles desejavam ou imaginavam, eles deviam saber que existia “um outro, com diferente posição e perspectiva de mundo”. O conhecimento desse outro era possível através do “reconhecimento dos próprios sentimentos”, falando deles, “sem censura”, para que as emoções não os “dominassem”. Aline convidou os homens para “um desafio”: ter uma “atitude positiva” e parar de pensar que era possível mudar a cabeça das outras pessoas.
Josué, irônico, só disse que ele devia ter quebrado a cara da sua ex-esposa. Aline ficou em silêncio, encarando-o. Ele retomou o tema da provocação das mulheres e disse que sua ex- mulher fazia tudo para que ele virasse um animal, mas que pensando nos seus filhos, ele se controlava, meditava e se afastava dela. Baseado na Bíblia, Josué mencionou que os adúlteros e os inimigos deviam ser destruídos, coisa que aconteceria no seu devido momento, porque agora ele “praticava a paciência”. Um pouco cansada, Aline disse que era melhor colocar em suspenso essa história para continuar com a atividade: escrever em uma folha branca o que podem ou não podem fazer meninos e meninas. Josué replicou de maneira provocadora: “homem é para trabalhar e levar dinheiro para casa, enquanto a mulher deve cuidar dos filhos”. Aline sorriu cortesmente e, ignorando-o, leu o texto escrito por Edinaldo: “menino não pode usar calcinha, não brincar de boneca, não usar batom, não bater nas mulheres”. “É mesmo!”, exclamou ela, “como é que é o ditado? Em uma mulher não se bate nem com a pétala duma...”, “flor!”, responderam todos em coro, como se fosse uma escolinha. Josué, sarcástico respondeu: “algumas podem com machado...”.
Com seu tom doce e cadenciado de voz, Aline comentou que “[era] bom pensar na raiva”, porque isso ajudava a “crescer, mudar e se perceber melhor”, como Josué estava fazendo, para aprender com a experiência dos outros. Josué ficou em silêncio. Aline prosseguiu: “ser pai é muito, muito importante e compreendo o conflito interno que vocês estão
experimentando”. Depois os parabenizou por quererem estar presentes na criação dos pequenos. Ela estimulou Josué a não se afastar dos seus filhos e a procurar os meios para manter contato. Aline não o recriminou, reconheceu o argumento dos homens e mencionou que sabia que algumas mulheres queriam a guarda dos filhos só para receber a pensão, porque elas aprenderam que a expectativa de muitas mulheres desde pequenas era a de ser “dona de casa”, mantidas pelos homens, assim como a de muitos homens era a de serem “trabalhadores e pais protetores”. Eles a escutavam calmos e um pouco intrigados. Aline abaixou mais o tom de voz e disse que as “mudanças nos papéis de gênero [deixavam] as pessoas sem capacidade para lidar com as emoções”, criando tensões, nas quais “fortes emoções podiam desviá-las do caminho”. Ela afirmou que, para quando esse momento chegasse, eles tinham as ferramentas para contemplar tais mudanças, como “um presente para a vida”. Nessa ocasião, eles poderiam falar e reconhecer o que sentiam, para esclarecer a cabeça e lidar com o inesperado com maturidade.
Josué, olhando para o chão e com tom de voz baixo, disse que a única coisa que queria era “esquecer essa mulher”, que não significasse nada para ele. Ele perguntou, talvez cansado, por que sua ex-esposa estava fazendo isso; se ele havia sido um “bom marido e pai”, por que o submetia a esse “martírio”. Não adiantava apelar à justiça porque sua causa já era perdida: “Ela soube como alimentar minha raiva e convertê-la em ódio ... ela soube como tirar minha calma”. Aline, acolhendo-o, lhe agradeceu por “abrir seu coração” e compartilhar com todos o que sentia.
Finalizando esse encontro, Aline propôs uma reflexão para a semana: que se pensassem como uma árvore cujas raízes eram o passado, a maneira como foram criados; o tronco, o momento atual; e os galhos e as folhas, os futuros relacionamentos que eles iriam ter, levando em conta a pergunta: “o que mudou ao longo dos anos, desde que vocês eram crianças?”. Eles, rindo e enquanto saíam da sala, falavam ao mesmo tempo de brinquedos, de como o tempo passado foi melhor e da vida familiar com os pais. Fiquei com Aline arrumando a sala e organizando a documentação do grupo. Expressei minha inquietação: ver que Josué começava a falar nos termos que ela propunha, “desde o sentimento”. Ela qualificou como positivo esse “movimento” de Josué, pois permitia que ele “se desarmasse” e fosse “honesto”, sem se “vitimizar”.