Capítulo 3. Thor e sua proposta ética
3.12 Terceira síntese
A participação nesses grupos permitiu ver como elementos teóricos e filosóficos apresentados no primeiro capítulo, relativos à conformação de uma “sociedade civil” que se opõe a valores tidos como ditatoriais e autoritários e ao Judiciário como instituição punitiva, ganham vida através da prática do grupo reflexivo de gênero. Mas eles também dizem respeito à proposta ética do facilitador, sua postura, que Thor queria transmitir a seus estagiários. Esta postura implicava adquirir uma “consciência do lugar da fala”, em palavras de Thor, no discurso e nas relações sociais, vendo desse modo o gênero em si mesmo, comum a todos os homens, sem importar suas diferneças de classe e localização na cidade. Ver o gênero em si era também pré-requisito para dimensionar a própria violência. Uma vez feito esse reconhecimento, o propósito moral seria o afastamento desse lugar para se colocar em um outro, que permitisse o reconhecimento do sentimento e da singularidade dos outros, estabelecendo assim o parâmetro de humanidade, necessário para a implicação da própria atitude e da construção de vínculos igualitários.
Para Thor, bem como para os meus interlocutores consultados no primeiro capítulo, gênero e violência conformavam uma binômio que explicava de maneira estrutural a lógica das relações de poder entre os sexos na sociedade nacional vigente. Gênero e violência davam conta do lugar de subordinação do “outro”, “pessoa” de consideração que devia ser reconhecida por esses homens, estabelecendo assim a “empatia”. Este era o trabalho de humanização, de transformação de pessoas através do envolvimento com a própria atitude: de homens em posição de privilégio que se relacionam com coisas para homens atentos à igualdade que reconhecem pessoas. A reflexão, o deslocamento, a elaboração, o movimento e o olhar para si implicavam o questionamento de uma “performance” masculina sempre vinculada à violência e à revalorização de categorias de parentesco, concebendo um problema na humanização, pois a conformação da pessoa moral do bom pai é protagonista na queixa de reconhecimento de si tanto dos homens em situação de violência como dos de demanda espontânea.
Esse bom pai era muitas vezes assumido como a antítese do homem igualitário por parte dos faciltadores, o que escondia a verdadeira subjetividade humana desse indivíduo, oculta sob o papel social que aos olhos dos facilitadores dava conta do patriarcado. Nos dois processos de grupos aqui documentados fica evidente uma tensão entre, por um lado, as categorias de gênero relativas à humanização, universalizáveis e abstratas, as quais são apresentadas como projeto que tem relação com a noção de dignidade humana, definida pela expressão de emoções e por direitos consubstanciais e, por outro, pelas categorias da linguagem de parentesco, mães e filhas particularmente, que se vinculam com esse bom pai das relações sociais concretas dos homens e que outorgam o reconhecimento social que os dignifica (ou não) como homens. Mães e filhas eram sintetizadas como boas mulheres, bem como a esposa que ajuda o homem a se superar diante das vicisitudes da vida diária. Isto não implicava que os homens não pensassem na mulher em abstrato, que incluía tanto a “gostosa”, o “objeto de desejo sexual” quanto a demandante, que lograva sintetizar as qualidades ruins dos relacionamentos postos em consideração pelo Judiciário.
No meio desta tensão entre categorias de gênero podemos compreender, por um lado, a surpresa e o estranhamento dos facilitadores quando os homens se referiam às suas mães e às suas filhas e, por outro, a dificuldade de enxergar as demandantes fora das relações de dádiva, para assumi-las como um outro, contraparte de uma ligação contratual. Também podemos compreender o desafio dos homens participantes dos grupos em se pensarem como homens igualitários, quando eles estavam consolidando seu lugar moral como pais, reivindicando sua participação na criação dos filhos, graças a certas inflexões morais ao longo da trajetória de vida, produto da comparação com seus pais, amigos e colegas de trabalho (o que lhes permitia o reconhecimento de ser “o cara”), bem como do vínculo de responsabilidade criado com mães, esposas e filhas. Enquanto eles falam em serem pais em relação às suas mães, filhas, aos filhos e às esposas, os facilitadores ouvem a respeito de atos de masculinidade de um homem. Enquanto os facilitadores propunham a ideia de se conceberem como indivíduos com humanidade, alguns deles criticam “o individualismo” como causador do rompimento dos vínculos sociais e da ordem hierárquica, que outorgavam sentido às categorias que conformam sua individualidade.
Aqui a atribuição do comportamento violento dos homens à cultura era mais explícita que no juizado de Niteroi. Uma postura engajada com o feminismo e com a sociedade civil por parte de Thor e seus estagiários requeria estabelecer uma fronteira política do indivíduo em relação ao social. Para além do indivíduo, essa frontera, contornada pelo corpo, mostra a violência estrutural e absoluta que potencialmente poderia se manifestar em qualquer situação
social, abarcando uma variada gama de relações e sentidos da agressão no contexto da sociedade nacional e do seu valor fundante, a família. No interior do indivíduo implicava um olhar para si, para a própria emoção, garantindo assim uma vigilância epistemológica da própria violência, da sua não modernidade. Estabelecer essa fronteira política viria a ser em estabelecer as relações, a linguagem do parentesco e as crenças que legitimam a ordem hierárquica que têm nas ideias de nação e família totalidades no âmbito da cultura e, em alguma medida, da religião.
Estabelecer relações, categorias e sentimentos emergentes no parentesco, que criavam o lugar moral de ser bom pai e que contornavam a individualidade desses homens, no reino moralmente questionado da cultura, produzia desconforto e desconcerto em vários homens, não somente por colocar múltiplos elementos que conformam a dignidade desses homens (que foi descrita como honra por Fabrício) como objeto de dúvida pelo Judiciário e pelos facilitadores, mas também por ser oposta à verdade da vítima. Esta verdade era afirmada pelas estagiárias ao relacionarem, por meio do sentimento de culpa, a violência potencial e de fato que elas experimentavam sendo mulheres com o sofrimento vivido por mães ou filhas na trajetória individual de cada um dos participantes. A construção desse argumento, cuja base são as emoções da vítima, era dificil de contestar e implicava um silenciamento das justificativas sobre a violência que esses homens levavam como argumento ao Judiciário e ao grupo reflexivo. O silenciamento e a sensação de desconforto que determinavam posicionar-se diante das categorias de humanidade da mulher e do homem igualitário contrastavam com as de reconhecimento de ser o bom pai e o cara, que se manifestava não só discursivamente, mas também no tom de voz, nas cadências do olhar e na expressão das narrativas sobre as relações que eles estabeleciam com seus familiares – e que é de dificil reprodução através de um texto escrito, como esta tese.
Não era intenção de Thor nem da metodologia que ele aplicava o fato de culpabilizar, assumindo que o seu papel era o de convidar à reflexão, porém, parecia ser o caminho para a implicação da própria conduta e, posteriormente, para a anelada responsabilização pelos próprios atos. Contudo, poucos tiveram a “abertura”, espécie de epifania moral esperada por Thor e seus estagiários, entre outras razões, porque muitas das relações qualificadas como violentas não o eram para os participantes dos grupos. Eles distinguiam graus de violência, sendo alguns merecedores de judicialização, além de atitudes e comportamentos das suas parceiras, como colocar para circular o nome deles em fofocas, humilhando-os, ou agressões físicas de fato. Apesar de Thor reconhecer uma dinâmica na qual homens e mulheres alternavam o lugar do agressor na relação sentimental, isto entrava em conflito com a proposta de
responzabilização pela própria conduta, a qual deveria responder ao imperativo político da não violência contra a mulher.
Como o trabalho feito por Aline em Niterói, o foco na revisão de si através do sentimento teve efeito. Mais do que a racionalização da marca do gênero na constituição de uma masculinidade igualitária nesses homens, as formas semióticas dos facilitadores para permitir a expressão de uma narrativa de si através de categorias e gestos qualificados como emocionais permitia a sensação de ter descarregado, liberado ou colocado para fora coisas que muitos dos participantes não podiam ou imaginavam falar no dia a dia. O objetivo era criar a palavra para falar, elaborar e permitir o anelado movimento no discurso que esperavam os facilitadores. O que parece interessante é que não era uma simples junção de razão e emoção, mas a criação de conhecimento a partir do registro emocional, que passava pela sensação no corpo. Esse conhecimento é a base para a agência na proposta ética de Thor. O sujeito implicado é um que sente, expondo seu self, sendo esta uma forma de afirmação política amplamnete valorizada pelos facilitadores, mais do que a do sujeito que racionaliza ou argumenta. Porém, não era qualquer tipo de afirmação emocional que era valorizada. Os sentimentos preferenciais eram os relativos à vítima, negando qualquer tipo de ressentimento produto da quebra da reciprocidade das pessoas na família, esta última tida como lócus de criação de subjetividades tanto para os facilitadores quanto para os homens acusados.
Disso é importante, por um lado, a vigilância epiestemológica já anunciada como meio de contornar uma modernidade consequente com os paradigmas filosóficos que informam a noção de dignidade humana; por outro lado, a noção de “sensação de si”, que dá conta de uma individualidade que se reflete no reconheciemnto social das relações estabelecidas por esses homens e que está relacionada ao parentesco e ao mundo do trabalho. Esta sensação é fundamental para pensar a postura ética dos homens nos grupos reflexivos e também as possibilidades da implicação de si para mudar de um sistema moral que valoriza o reconhecimento por terceiros para outro que assume o poder como qualidade consubstancial do indivíduo.