Capítulo 2. Aline e sua magia
2.11 Ser uma pessoa reflexiva
A Copa do Mundo já havia terminado e nesse dia seria o último encontro. Aline levou uns bolos, Herbert uma caixa de suco, Henrique um pacote de biscoitos, Josué, chocolates. Como todos os dias, café fresco (que eu comecei a fazer a partir do terceiro encontro). O ambiente era descontraído, como nas últimas ocasiões.
Para esse dia Aline trouxe a Ética a Nicômaco, de Aristóteles, para indicar a importância de uma “postura reflexiva” como exercício diário ao longo da vida. A partir desse momento, eles podiam “exercitar a reflexão [para] pensar melhor o lugar da fala de cada um de nós [e entender] como eu me relaciono com o outro”. Ela fez circular o pequeno livro entre o grupo. Enquanto um e outro olhavam o livro, alguns com interesse, lendo passagens internas, Aline comentava que Aristóteles tinha escrito esse diálogo com seu filho para que ele se pensasse como adulto e definisse sua postura ética a partir das perguntas: “Quem sou eu? Quem somos nós? O que gostaria de ser? Quais as providências que devo tomar?”. A ideia era reconhecer aquilo “que não está legal comigo [...] como ser impulsivo, impaciente ou violento [para] ter uma implicação na própria atitude e [se perguntar]: o que posso fazer para mudar isso?”. Porém, Aline ressaltava que se fazer esta pergunta requeria “coragem” porque implicava um “reconhecimento próprio”, do “bom e do ruim de si mesmo”. Todos estavam em silêncio, interessados pela proposta de Aline.
Ela explicou que esse grupo foi desenhado para que eles pensassem “a violência cometida contra suas companheiras”, mas não só isso, para reconhecerem e saírem do “ciclo da violência”. Ele se iniciava com a tensão, produto da raiva, como eles já haviam falado, depois passava para a explosão, que se expressava com o xingamento ou a violência física, e retornava para a “falsa lua de mel”, na qual aparentemente tudo voltava à normalidade, sem ter falado dos conflitos. Esse estágio do ciclo não era mais do que uma armadilha, porque havia mudanças repentinas de comportamento, juras de amor, arrependimento e a ideia de que “tudo voltará a ser como antes”. Aline caracterizou como uma “falsa ilusão” esse momento, porque os conflitos permaneciam.
Para evitar o ciclo, Aline propôs transformar a raiva em palavra e em cuidado do outro na relação. Para isso, eles deveriam conceber o poder como potência. Como discutido em encontros anteriores, o poder se referia a uma “força derivada da raiva”, potencialmente negativa quando mal utilizada. A potência era o “uso positivo” da mesma força. A reflexão os ajudaria a reconhecer a emergência da raiva, a manipulá-la e focá-la de maneira positiva como potência através da “intenção”. Desta última dependia a qualidade moral da força, permitindo ou não o “reconhecimento do outro” e a formação de “relações saudáveis”. “De que forma vou usar essa potência?”, era a pergunta que Aline lhes deixava para responsabilizá-los pelo seu proceder. Eles permaneciam em silêncio, escutando atentos, assentindo a cada um dos seus aconselhamentos.
Aline sabia que as mudanças repentinas dos papéis de gênero geravam tensão neles, porque no momento atual ambos, homem e mulher, tinham que trabalhar, cuidar dos filhos e
serem referência da autoridade no lar. Mas existia outra fonte de tensão que caracterizava a sociedade moderna: “o individualismo”. Citando Amor Líquido, de Zygmunt Bauman25, Aline
mencionou que os valores do individualismo eram o prazer e a felicidade própria, o que fazia com que os relacionamentos fossem breves. Herbert fez o paralelo entre o amor e a cerveja, que evaporava rápido. Todos riram e concordaram. Aline, retomando o exemplo etílico, disse que o “amor líquido” era aquele que se esvaziava com facilidade, como o álcool da bebida, que só conduzia a ressacas e arrependimentos posteriores. Esse amor não permitia a “paciência com o outro”. A lição era: refletir para transformar a raiva em potência positiva e não só considerar a felicidade para si, mas para o outro, de modo tal que essa potência vire “cuidado do outro”. Dessa forma, afirmava Aline, os relacionamentos não se evaporariam.
Figura 14. O ciclo da violência.
O ambiente na sala era magistral. Aline estava recapitulando seu trabalho de várias semanas e sintetizando a postura que eles deveriam assumir assim que esse encontro terminasse. Agora a lição era “a importância de escutar”, momento no qual eles deveriam “suspender por um breve instante todos os seus julgamentos”. Eles precisavam escutar além do som físico para “entender o que o outro está passando para você e, então, você se coloca no sapato do outro”. Para Aline, a partir desse momento de compreensão, seria possível surgir o diálogo.
Uma vez terminadas todas as indicações, Aline propôs uma última atividade: “pessoas e coisas”. Ela dividiu o grupo em dois, alguns deles iam ser “pessoas” e os outros “coisas”, dando a seguinte instrução: as coisas “não podem falar nem expressar qualquer sentimento” e iam ser comandadas pelas pessoas. Herbert imediatamente afirmou: “mas objeto não escuta, como eu vou dar um comando?”. Ela, tranquila e sorridente, respondia que a coisa só tinha que obedecer. Herbert percebeu “a intenção” de Aline e disse para Henrique: “faz de conta que a coisa é tua mulher, você manda nela”. Ele rapidamente replicou que a mulher não era objeto, porque ele só podia falar se ela quisesse: “eu sou o objeto dela!”. Depois de alguns minutos nos quais alguns deles se deixaram levar pela vontade dos outros, Aline perguntou como se sentiam sendo tratados como coisas e convidou-os a pensar como era esse sentimento na relação entre homens e mulheres. Henrique concordava com Aline que muitos homens tratavam as mulheres como objetos sexuais, mas isto mudava depois do primeiro filho, quando ela “destrói o corpo dela ... ela deixa de ser objeto sexual”. Aline reformulou essa afirmação: parecia que eles só viam a mulher como corpo, mas quando ela passava a ser uma mãe, virava pessoa. Para ela, a mulher sempre devia ser uma pessoa e esta percepção da mulher era possível quando eles escutavam realmente o que elas falavam.
Por último, ela perguntou qual era o projeto de vida que eles teriam a partir das reflexões geradas nessas últimas semanas. Josué, ausente de protagonismo nas últimas semanas, monopolizou a palavra pelo resto do encontro. Seu projeto era formar uma família, seguir sua religião e procurar que sua alma gêmea o obedecesse. Aline lhe perguntou se o grupo havia contribuído para alguma coisa. Ele respondeu que sim, de maneira entusiasmada, mas para fazer amizades, porque “minha cabeça não mudou”. Ele começou a repetir a mesma história de indignação, e Aline e os outros homens respiraram fundo. De todo modo, ele reconheceu o trabalho de Aline, porque era importante para esses homens que reconhecessem seu “coração impuro”, primeiro passo para serem “sinceros”. Para Josué, não adiantava nada que eles repetissem “discursinhos” se isso não se traduzia em respeito para com as mulheres. Aline recomendou a Josué “refletir desde seus princípios espirituais” o que faria com sua força, com toda essa potência que estava dirigindo em forma de ódio contra sua ex-companheira. Os outros homens presentes não investiram energia para dar uma resposta para Josué.
Aline agradeceu a presença de todos durante essas semanas, bem como os questionamentos que eles trouxeram, porque a ajudaram a “crescer como mulher e a ser uma melhor profissional”. Por último, ela afirmou que “as religiões presentes no grupo precisam pensar o papel da mulher”. Aline se afirmou como “religiosa”, que conhecia teologia e havia lido várias versões da Bíblia, bem como outros livros sagrados, para poder distinguir a
“orientação eterna” das versões marcadas pela “cultura”. Dirigindo-se a Josué, Aline afirmou que “eterno” seriam o “respeito e o cuidado pelo outro”, e “cultural” seria “o lugar oprimido que tinha a mulher em algumas sociedades”, o que faz com que ela seja vista como um “objeto”. Ela encerrou o grupo afirmando que as religiões precisavam ser questionadas para distinguir e facilitar a compreensão da mensagem eterna. Todo mundo saiu da sala agradecendo a Aline o trabalho das últimas semanas.
Aline estava cansada, mas satisfeita com o grupo, que “deu muito trabalho”. Em algumas ocasiões “eu me senti como se eu tivesse que convencê-los de alguma coisa e eles querendo me convencer do contrário”, particularmente Heitor e Josué, que estavam “congelados” e não se preocupavam em compreender a perspectiva das ex-companheiras. De todo modo ela reconhecia a violência de que eles estavam sendo vítimas, no sentido de não poderem exercer a paternidade que queriam. Não obstante, “eu saí mobilizada a compreender mesmo o universo masculino”. Aline estava curiosa com a ideia das “provocações”, que dava conta do “poder da mulher de desestabilizá-los emocionalmente”. Também queria entender melhor por que a recepção da Lei Maria da Penha não surtia o efeito esperado, de responsabilização, pelo contrário, “eles se colocam como vítimas da violência feminina”. Aline notou uma “inversão” no grupo, porque esses homens eram agressores para o Judiciário, mas no grupo “eles ocupam o lugar delas, o de vítima”.