Além de marcar o fortalecimento da proteção à pessoa com deficiência, o período que sucedeu a Segunda Guerra Mundial se caracterizou pela grande explosão do consumo, sobretudo no Ocidente.
A propósito, o trecho seguinte, retirado da obra “História da vida privada no Brasil”, bem retrata as mudanças pelas quais o país passou em pouco mais de cinquenta anos, entre as décadas de 1930 e 1980:
Dispúnhamos, também, de todas as maravilhas eletrodomésticas: o ferro elétrico, que substituiu o ferro a carvão; o fogão a gás de botijão, que veio tomar o lugar do fogão elétrico, na casa dos ricos e da espiriteira, na dos remediados ou pobres: em cima dos fogões, estavam, agora, panelas - inclusive a de pressão - ou frigideiras de alumínio e não de barro ou de ferro; o chuveiro elétrico; o liquidificador e a batedeira de bolo; a geladeira; o secador de cabelos; a máquina de barbear, concorrendo com a gilete; o aspirador de pó, substituindo as vassouras e o espanador; a enceradeira, no lugar do escovão; depois veio a moda do carpete e do sinteco; a torradeira de pão; a máquina de lavar roupa; o rádio a válvula deu lugar ao rádio transistorizado, AM e FM, ao rádio de pilha, que andava de um lado para o outro junto com o ouvinte; a eletrola, a vitrola hi-fi, o som estereofônico, o aparelho de som, o disco de acetato, o disco de vinil, o LP de doze polegadas, a fita; a
TV preto-e-branco, depois a TV em cores, com controle remoto; o videocassete; o ar-condicionado.59
Essa evolução do capitalismo pautado no consumo fez surgir a sociedade de consumo de massa60, para a qual o direito tradicional não dava mais conta de toda a sua complexidade. Isso porque, até os séculos XVIII e XIX, diante do liberalismo dominante nas relações de força na sociedade, o Estado se pautava por uma função meramente negativa, o que era assegurado pelas Constituições da época.
Contudo, como assevera Claudia Lima Marques61:
O dinamismo e os interesses contraditórios presentes na atual sociedade de massa desencadearam o aparecimento de um grande número de leis esparsas, leis especiais, em um fenômeno que os alemães denominaram de ‘estilhaçamento’ do direito (Zersplitterung). Diante dos interesses contraditórios defendidos pelas leis especiais, em face da generalização excessiva dos Códigos dos séculos XVIII e XIX, a ciência do direito teve de buscar a segurança da lei máxima, da lei hierarquicamente superior, para ali resguardar os valores que considerava mais importantes para aquela sociedade. A Constituição toma assim o lugar da codificação maior. É o fenômeno denominado por Hesse da ‘força normativa da Constituição’ que leva a Constituição a guiar, com suas novas linhas mestras, tanto o direito público quanto o direito privado.
A Carta Constitucional de 1988 avançou muito nesse sentido, ao elevar a defesa do consumidor à categoria de direito fundamental (art. 5º, inc. XXXII), verdadeiro direito humano positivado, além de erigi-lo a princípio limitador da atividade econômica (art. 170, inc. V).
Da exigência de que o “aplicador da lei harmonize princípios constitucionais aparentemente contraditórios, como a defesa do consumidor e a liberdade econômica [Grifo da autora]”62 exsurgiu a necessidade de interpretação de todo o ordenamento jurídico conforme à Constituição, entendimento este
59
SCHWARCZ, Lilia Moritz (Org.). Capitalismo tardio e sociabilidade moderna. História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. v. 4, p. 563-564.
60
Sociedade de consumo é aquela na qual, segundo o professor Marcelo Gomes Sodré, “[...] tendo fundamento em relações econômicas capitalistas, estão presentes, pelo menos, cinco externalidades: (i) produção em série de produtos, (ii) distribuição em massa de produtos e serviços, (iii) publicidade em grande escala no oferecimento dos mesmos, (iv) contratação de produtos e serviços via contrato de adesão e (v) oferecimento generalizado de crédito direto ao consumidor”. SODRÉ, Marcelo Gomes. Formação do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p. 25.
61
MARQUES, Claudia Lima. Contratos no Código de Defesa do Consumidor. 6. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p. 620.
62
encampado pelo Supremo Tribunal Federal, conforme se depreende do excerto do seguinte julgado:
RECURSO EXTRAORDINÁRIO. DANOS MORAIS DECORRENTES DE ATRASO OCORRIDO EM VOO INTERNACIONAL. APLICAÇÃO DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. MATÉRIA INFRACONSTITUCIONAL. NÃO CONHECIMENTO.
1. O princípio da defesa do consumidor se aplica a todo o capítulo constitucional da atividade econômica.
2. Afastam-se as normas especiais do Código Brasileiro da Aeronáutica e da Convenção de Varsóvia quando implicarem retrocesso social ou vilipêndio aos direitos assegurados pelo Código de Defesa do Consumidor.
3. Não cabe discutir, na instância extraordinária, sobre a correta aplicação do Código de Defesa do Consumidor ou sobre a incidência, no caso concreto, de específicas normas de consumo veiculadas em legislação especial sobre o transporte aéreo internacional. Ofensa indireta à Constituição de República.
4. Recurso não conhecido.63
A inclusão inédita da proteção estatal do consumidor no rol dos direitos fundamentais inscritos na Constituição Federal apresenta uma dupla face: uma, de cunho negativo, como mencionado antes, para informar que os diversos poderes públicos não ajam de forma a prejudicar o interesse do consumidor; outra, de cunho positivo, para determinar que o Estado atue em defesa do consumidor, por meio da adoção de políticas públicas específicas e criação de órgãos de fiscalização da qualidade de produtos e serviços, por exemplo.
A previsão constitucional de princípios balizadores da ordem econômica faz com que, necessariamente, seja perquirida a atuação conjunta e harmônica de todos eles, especialmente o postulado da livre iniciativa, sempre à luz do princípio geral da dignidade humana. Os princípios, desta feita, devem ser acomodados para que deles seja extraída a máxima efetividade possível64.
Em situações excepcionais, seja na produção legislativa, seja na estruturação de políticas públicas ou mesmo em atos jurisdicionais, entre os diversos princípios da ordem econômica, “deverá o intérprete privilegiar aquele que
63
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. RE 351750, 1ª Turma. Relator Min. Carlos Britto. Brasília-DF.
Julgamento 17.03.2009. Publicação DJe 181, 24.09.2009. Disponível em:
<http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=603051>. Acesso em: 22 nov. 2014.
64
NERY JUNIOR, Nelson. Os princípios gerais do Código de Defesa do Consumidor. Revista de Direito do Consumidor, São Paulo: Revista dos Tribunais, v. 3, p. 49, jul. 1992.
tenha maior peso na busca do princípio supremo da dignidade da pessoa humana”.65
A defesa do consumidor também pode ser encontrada nas Cartas Magnas de países como Argentina, México, Portugal e Espanha66 e nelas está assegurado que as leis infraconstitucionais elaboradas se autodenominem de defesa do consumidor.
Não obstante essa assertiva, pode-se questionar se apenas a previsão constitucional seria suficiente para o nascimento de um novo ramo do direito: o direito do consumidor.
Ao analisar essa questão do ponto de vista da ciência, desde logo não a considerando puramente neutra, mas também fruto do momento histórico em que se vive, Marcelo Gomes Sodré67 assim se posiciona:
Sempre houve o estudo das relações de consumo dentro do Direito Civil e Comercial tradicionais. O que distingue o Direito do Consumidor do Direito Civil, enquanto ciência, é que o primeiro, explicitamente, assume o que o segundo sempre escondeu: sua relação íntima com o momento histórico de seu surgimento. O Direito Civil se deu uma aparência de universal, mas foi protetor da burguesia. O direito do consumidor se assume como particular e se define de forma partidária: ele somente existe na exata medida em que se justifica a proteção do consumidor. [...] A ciência não deve servir para esconder os objetos reais que sistematiza - e, portanto, entendo que este novo ramo deve ser chamado de Direito do Consumidor, posto que a ciência é fruto, também, do momento histórico em que se vive.
Um dos principais direitos do consumidor, quiçá o mais importante68, é o direito à informação, ponto central de discussão neste estudo, e que também possui anteparo constitucional.
65
MALFATTI, Alexandre David. O direito de informação no Código de Defesa do Consumidor, p. 82.
66
Vide obra de referência sobre o tema: ATLAS IBERO-AMERICANO DE PROTEÇÃO AO CONSUMIDOR. Brasília: Ministério da Justiça, 2013. Disponível em: <http;//portal.mj.gov.br>. Acesso em: 2 dez. 2014.
67
SODRÉ, Marcelo Gomes. A construção do direito do consumidor: um estudo sobre as origens das leis principiológicas de defesa do consumidor. São Paulo: Atlas, 2009, p. 54.
68
Essa é a opinião de Frederico da Costa Carvalho Neto: “A informação é sem dúvida senão o mais importante, um dos mais importantes direitos dos consumidores, essencial tanto para a formação como para o cumprimento do contrato.” (Direitos básicos: comentários ao artigo 6º, do CDC. In: SODRÉ, Marcelo Gomes; MEIRA, Fabíola; CALDEIRA, Patrícia (Coord.). Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. São Paulo: Verbatim, 2009, p. 63).