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6 O TEMPO E O ESPAÇO NAS RELAÇÕES DE TRABALHO SOB A

6.4 A disciplina temporal do trabalho na sociedade industrial

Nada mais capitalista do que a frase tempo é dinheiro. A partir da relevância do tempo excedente para a extração da mais valia nas relações produtivas no modo de produção capitalista, a manipulação social do tempo tornou-se fundamental. Definir o tempo, medi-lo, esticá-lo e repassá-lo à sociedade como um valor cultural se transformou na tarefa fundamental de disciplinar a força de trabalho à necessidade do fluxo contínuo do processo produtivo. Harvey, ensinando a entender as lições d’O Capital, chama a atenção que a medida do tempo é flexível, pode ser esticada e manipulada socialmente. Relembra que a hora foi uma invenção do Século XIII, já o minuto e o segundo tornaram-se medidas comuns a partir do Século XVII, enquanto os nanossegundos são uma expressão mais recente do Século XX (2013: 139/140 e 147). O surgimento de tais medidas temporais não ocorreu, por óbvio, de forma natural e nem são indiferentes à transição do feudalismo ao capitalismo.

Ao contrário, a fixação de medidas de tempo foi fundamental ao advento do capitalismo. Relatos históricos dão conta de que o tempo de trabalho nas sociedades pré- capitalistas era bastante variado e sem uma maior sistemática. Não raro, as jornadas se restringiam a 4 horas por dia e o restante do tempo era destinado à socialização. Por sua vez, com a venda de 4 dias da força de trabalho da semana, acumulava-se excedente suficiente para que o trabalhador reproduzisse sua subsistência nos demais dias. Marx retrata a luta multissecular do capitalismo contra os trabalhadores para o estabelecimento de uma jornada normal de trabalho (2014: 312/313). Do Século XIV até o fim do Século XVII, o capital embrionário estabeleceu o prolongamento da jornada com o subterfúgio da coação do estado. Para convencer a força de trabalho a vender seu tempo ativo de vida, foram criados inúmeros sortilégios, desde o aumento dos impostos sobre os meios de subsistência e ao rebaixamento geral dos salários então pagos. Nessa perspectiva, os trabalhadores já não poderiam mais trabalhar apenas 4 horas por dia ou 4 dias por semana para garantir sua subsistência. Além disso, a influência religiosa também não pode ser desconsiderada nesse processo histórico, especialmente quanto ao regramento bíblico do repouso hebdomadário após seis dias de trabalho. Assim, exceção feita ao descanso dominical, ou seja, no dia do Senhor, os demais dias da semana pertenceriam ao trabalho, o que era conveniente às necessidades capitalistas relacionadas à manutenção do fluxo contínuo da produção.

Também merece referência no processo histórico da apropriação do tempo de vida pelo capital a criação de múltiplos turnos de trabalho com o objetivo de permitir a manutenção da produção 24 horas por dia. Se essa duração do trabalho era incompatível com os limites físicos do despendimento diário da força de trabalho contratada, a implantação de turnos de revezamento na produção, no qual os trabalhadores tem jornada fixa, mas se sucedem ciclicamente no horário de labuta, evita a existência de hiato morto na reprodução capitalista ou, em outras palavras, mitiga o tempo ocioso do processo produtivo e a interrupção do processo de acumulação de capitais. É importante salientar que esse sistema de trabalho compromete a qualidade do tempo fora do trabalho, à medida que inverte a reprodução da vida do trabalhador em relação àquela desenvolvida normalmente na sociedade e no âmbito familiar. As relações sociais fora do ambiente do trabalho, portanto, são decisivamente afligidas e o indivíduo, em muitas situações, entregues a distúrbios psicológicos decorrentes da solidão. Nessa dinâmica, a dependência do indivíduo ao capital se aprofunda demasiadamente. Para mais, o trabalho noturno altera o ritmo cicardiano do organismo, o que afeta o metabolismo biológico do corpo, especialmente no que diz respeito à

perturbação do ciclo sono/vigília que, em médio e longo prazo, pode desencadear doenças psíquicas e resultar na abreviação da capacidade de trabalhar.

Nessa perspectiva, a degradação do trabalho imposta pelo sistema de turnos é um pouco mais que evidente. Mas, há um componente político que não pode ser olvidado. O revezamento de trabalhadores em torno de turnos de trabalho movimenta a classe trabalhadora como cartas de um baralho no chão das fábricas, de forma a inviabilizar que os mesmos indivíduos trabalhem sempre ao mesmo tempo, o que obstrui ou retarda a formação de laços de solidariedade imprescindíveis à formação da consciência de classe, mormente no que se refere à mobilização coletiva para reivindicar a melhoria das condições objetivas de trabalho. Historicamente, portanto, a disciplina da jornada de trabalho significa estipular legalmente o limite máximo em que o capital pode explorar a força do trabalho a partir do pagamento de seu valor diário. Para os fins da reprodução capitalista um dia de trabalho compreende todas as 24 horas do dia, excetuados repousos mínimos para a alimentação e a restauração do sono. Sob essa ótica, não há qualquer sentido se falar em tempo de socialização, de desenvolvimento intelectual, de convívio familiar ou de mera ociosidade. Ao impor o prolongamento do dia de trabalho ou o revezamento de horários, o capital termina por encurtar o tempo da vida do trabalhador, encontrando o combustível necessário na superpopulação relativa. Em contrapartida, antes mesmo de surgir a indústria moderna, especialmente em momentos de subpopulação da força de trabalho, como os idos da Peste

Negra, a aceitação de melhoria salarial e a fixação de limites à jornada tiveram que ser

suportados pelo capital. Atualmente, no entanto, essas formas naturais de redução do oferecimento da força de trabalho são infactíveis com o avanço da ciência e da medicina para a contenção de pragas e epidemias mundiais. Ademais, as empresas são geograficamente livres para modificarem seu endereço e se defenderem de catástrofes naturais. Remanesce, então, a redução de jornada pelo sistema jurídico como a via mais apropriada para salvaguardar o tempo livre da vida em relação à dragagem realizada pelo avanço do tempo de trabalho.

Marx explica que a necessidade de limitação da jornada de trabalho não atine à necessidade de conservação da força de trabalho, mas é o máximo dispêndio diário da força física permitida que estabelece os limites de descanso do trabalhador. O filósofo alemão descreve seu pensamento nesse seguinte trecho d’O Capital:

Mas, em seu impulso cego, desmedido, em sua voracidade por trabalho excedente, viola o capital os limites extremos, físicos e morais, da jornada de trabalho. Usurpa o tempo que deve pertencer ao crescimento, ao desenvolvimento e à saúde do corpo. Rouba o tempo necessário para se respirar ar puro e absorver a luz do sol. Comprime o tempo destinado às refeições para incorporá-los, sempre que possível, ao próprio

processo de produção, fazendo o trabalhador ingerir os alimentos como a caldeira consome carvão, e a maquinaria, graxa e óleo, enfim, como se fosse mero meio de produção. O sono normal necessário para restaurar, renovar e refazer as forças físicas reduz o capitalista a tantas horas de topor estritamente necessárias para reanimar um organismo absolutamente esgotado. Não é a conservação normal da força de trabalho que determina o limite da jornada do trabalho; ao contrário, é o maior dispêndio possível diário da força de trabalho, por mais prejudicial, violento e doloroso que seja, que determina o limite do tempo de descanso do trabalhador. O capital não se preocupa com a duração da vida da força de trabalho. Interessa-lhe exclusivamente o máximo de força de trabalho que pode ser posta em atividade. Atinge esse objetivo encurtando a duração da força de trabalho, como um agricultor voraz que consegue uma grande produção exaurindo a terra de sua fertilidade. (2014: 306/307)

Impõe-se insistir que a disciplina temporal do trabalho pelo capital é elemento fundamental à extração da mais valia e perenidade do fluxo da produção ampliada. Para tanto, todas as barreiras físicas, morais ou jurídicas devem ser superadas. Não importa se o trabalho é realizado de dia ou de noite ou em feriados, assim como não interessa a carga de trabalho dispensada, nem se o labor é permanente ou intermitente ou em revezamento e, tampouco, é relevante a idade ou sexo do trabalhador, sua degradação física e mental, como também o seu desenvolvimento pessoal e de suas interações sociais e familiares é indiferente na temporalidade do trabalho sob a imaginação do capital. Por sua vez, as leis da concorrência exigem que a superexploração do trabalho seja realizada com a mesma avidez por todas as empresas, sob pena desaparecerem do mercado. Por esse prisma, conclui-se que os fundamentos do capitalismo apontam para o total esgotamento da força do trabalho e o mínimo de tempo livre de vida. A população sobrante é tida como um manancial inesgotável para se empreender permanentemente novos ciclos de dominação.

A única alternativa para conter a temporalidade do trabalho imposta pelo capital é o controle social exercido por uma legislação imperativa à vontade das partes, a fim de margear ostensivamente os avanços do capitalismo no fomento à proteção da classe trabalhadora quanto aos infortúnios da sua exploração. No entanto, na atualidade, a perspectiva legiferante não é nada animadora. Ao contrário, os trabalhadores assistem desmobilizados ao circo de horrores da política brasileira que acelera a ultraliberalização do mundo do trabalho. Os lindes temporais protetivos da jornada de trabalho se liquefazem na mesma medida da diminuição da população ativa protegida com o incentivo a novas relações trabalhistas de tipo não salarial, da desertificação dos postos de pleno emprego com o apoio da revolução tecnológica e do surgimento de novas modalidades atípicas de contratação, nas quais a força de trabalho sucumbe sem resistência ao comando da produção capitalista flexível.

6.5 Relacionamento histórico entre o tempo de trabalho, as condições ambientais, a

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