4 A TEORIA JURÍDICO-TRABALHISTA CRÍTICA E A NOVA VERSÃO
5.4 O poder de fixar o valor do trabalho na relação de compra e venda da
Examinar o valor do trabalho a partir do enfoque da economia política não é uma tarefa científica nova. Isso já foi feito por Marx há mais de dois séculos e repetido vastamente
pelos continuadores de sua obra em todo o mundo. A importância daquelas conclusões para o objeto deste livro, no entanto, decorre do fato de que suas ideias passam absolutamente obscurecidas no estudo jurídico do trabalho assalariado – forma característica do modo de produção capitalista –. Mais do que isso, sua inferência revela a falsidade da abstração jurídico-trabalhista correspondente à assertiva de que o salário pago ao trabalhador remunera todas as horas de serviço prestado ao empregador e, portanto, que o salário tem caráter contraprestativo em relação à atividade laborativa dispensada, ou, mais especificamente, que todo o tempo de trabalho à disposição do empregador é devidamente remunerado, inexistindo no seu bojo trabalho não pago.
Com efeito, a separação do trabalhador das condições objetivas da produção e dos meios de subsistência e sua apropriação pelo capital transformaram as relações de trabalho em mera compra e venda da força de trabalho. Sob esse prisma, o trabalhador vende a mercadoria força de trabalho e a coloca à disposição do tomador que se interessa em explorá-la tanto mais quanto possível em troca da mercadoria dinheiro, conforme o montante ajustado. Por sua vez, para o empregado, a alienação de si mesmo se revela a única fonte para aquisição de meios de subsistência para si e sua família, o que, naturalmente, fundamenta as lutas por aumento remuneratório.
Na lei do valor, Marx afirma que as mercadorias mais diversas se relacionam entre si proporcionalmente pela única característica comum que lhes fomenta um patamar comparativo de valor (valor de troca), a saber, o trabalho humano. (2012: 99). Então, nesse sentido, se o trabalho é o referencial comum das trocas de mercadorias, o que distingue o valor de uma em detrimento do montante de outra é a quantidade de trabalho aplicada na sua produção. Não qualquer tipo de trabalho, pois devem ser observadas as distinções e peculiaridades da respectiva força produtiva, senão um trabalho social médio, conforme anunciado por Marx, que é inferido a partir das “condições médias de produção, com uma determinada intensidade social média e com a destreza média do trabalho utilizado”. (2012: 104).
O valor da força de trabalho, como acentua Marx, tem na sua formação dois elementos diferenciais em relação ao valor das demais mercadorias: um físico e outro histórico e cultural. (2012: 134). Pelo primeiro, o filósofo constata que a classe operária precisa adquirir artigos de primeira necessidade indispensáveis para a manutenção da vida e multiplicar sua reprodução, cujo montante constitui o limite mínimo do valor trabalho. Contra ele, milita o prolongamento da duração do trabalho responsável por acarretar o esgotamento e a debilidade precoce da força de trabalho, muito embora tais circunstâncias não se traduzam
em freios efetivos à exploração capitalista, uma vez que o capital pode substitui-la quando lhe aprouver, antes ou mesmo depois de seu ocaso. Além desse, há ainda o elemento histórico e cultural que concerne ao padrão de vida em cada sociedade que também deve ser contemplado. Trata-se de necessidades sociais introduzidas pelo modo de vida em cada país que é ditado em torno de uma ética capitalista de acumulação e cujo patamar salarial controla o acesso. A Constituição Federal brasileira, por exemplo, ao fixar o salário mínimo nacionalmente unificado, descreve quais seriam as necessidades básicas do trabalhador, mencionando, primeiro, que seu valor seja suficiente para cobrir as despesas com moradia, antes mesmo de elencar a alimentação, o que revela a existência de um padrão cultural da sociedade brasileira que influencia o consumo e as prioridades da subsistência humana.
Acrescenta ainda que, como não se pode fixar o lucro máximo, pois isso contraria a essência mesma do capital, também não é possível a fixação de um limite máximo para o salário. O que se pode dizer é que o máximo de lucro só encontra baliza no limite mínimo físico dos salários e máximo físico da jornada de trabalho. Entre o limite mínimo e máximo situa-se uma imensa escala de variações, cuja determinação é estabelecida pela incessante luta de classes. (2012: 136).
Na reprodução social, contudo, é comum os empregadores atuarem à margem do Direito e contratarem trabalhadores aquém do mínimo existencial, valendo-se do desequilíbrio entre a oferta da força de trabalho pela população ativa e a procura de trabalho pelo capital, que é causada, como ressalta Mandel (1968: 147), pelas forças motrizes do desemprego estrutural e do incremento do trabalho morto no processo produtivo. Isso não significa, entretanto, que seja a lei do mercado que defina o valor da força de trabalho. Sua importância está na fixação de limites do valor do salário, não do valor em si. É a força do mercado que puxa os salários naturalmente para baixo, inclusive para limites inferiores ao mínimo existencial do trabalhador, o que torna necessária a intervenção do Estado através de leis protetivas para repelir essa tendência do modo de produção capitalista. É importante salientar que historicamente as ingerências estatais nas relações trabalhistas não são fruto do acaso, tampouco dádiva ou oblação do capital, mas decorrem da luta sindical renhida para melhoria das condições de trabalho em geral e dos salários em particular, cujos lindes estão habitualmente à beira do mínimo civilizatório condizente com a dignidade humana, quando não abaixo.
De outra parte, deve ser destacado que não há uma relação necessária entre o valor do trabalho e o preço das mercadorias. Trata-se aqui de mais um mecanismo de distorção do sistema capitalista para ocultar o antagonismo fundamental capital-trabalho. Em outras
palavras, o aumento de salários não implica necessariamente, a partir dos fundamentos da economia política, no aumento do valor das mercadorias produzidas, muito embora isso seja frequentemente repetido por diversos atores neoliberais. Com efeito, por diversas razões mercantis o preço de mercado pode variar para mais ou para menos em comparação com o real valor de uma mercadoria. Este, como já foi visto, é definido pela quantidade de trabalho necessário a sua produção. Tais variáveis não se comunicam diretamente, pois nem o salário aumenta quando há uma promoção ou a diminuição do preço de mercadoria, nem diminui quando se realiza uma majoração no preço praticado.
A quantidade de trabalho que mensura o valor da mercadoria é medida pelo tempo em que o operário permanece à disposição do capitalista. Uma jornada de trabalho, seja ela horária, diária, semanal, quinzenal ou mensal, é composta pelo tempo social necessário para a reprodução da força de trabalho e pelo tempo excedente ou supérfluo que promove o
sobretrabalho ou o trabalho não pago, a partir do qual se gera a mais-valia – característica
essencial do modo de produção capitalista –. A dissimulação dessa dinâmica, ao lado de desfocar o sentido da luta emancipatória dos trabalhadores, faz parecer que todo o trabalho executado foi retribuído pelo pagamento do salário, quando é justamente o trabalho não pago que fomenta a reprodução do capitalista enquanto tal.
A respeito desse paradoxo, afirma que:
Essa falsa aparência distingue o trabalho assalariado das outras formas históricas do trabalho. Dentro do sistema de trabalho, até o trabalho não pago parece trabalho
pago. Ao contrário, no trabalho escravo, parece ser trabalho não remunerado até a
parte do trabalho que se paga. Claro que, para poder trabalhar, o escravo tem de viver, e uma parte de sua jornada de trabalho serve para repor o valor de seu próprio sustento. Mas como entre ele e seu senhor não houve trato algum, nem existe entre eles qualquer ato de compra e venda, todo o seu trabalho parece gratuito. (2012: 116).
Se o valor da força de trabalho é medido pela quantidade de trabalho necessária à aquisição de artigos de primeira necessidade, significa que o aumento desses repercute no aviltamento do padrão de vida do operário. Nessas circunstâncias, o salário (preço pago pela mercadoria força de trabalho) já não recompõe o valor do trabalho em si, de onde se conclui que algumas lutas sindicais por aumento salarial, na verdade, buscam apenas recompor o valor da força de trabalho aviltada, não representando uma melhoria absoluta nas condições de vida, senão a manutenção do patamar anterior.
As lutas sindicais também devem se dirigir contra a intensificação do ritmo de trabalho. Com efeito, uma jornada com menor duração pode ser mais fatigante que outra mais longa em função do ritmo empregado na produção. O aumento da produtividade diminui o tempo necessário e aumenta o tempo excedente, ampliando a mais-valia na sua forma relativa.
Ao mesmo tempo, o aumento da carga de trabalho sem a majoração salarial, representa a diminuição do valor pago pela mercadoria força de trabalho e, nesse sentido, o empobrecimento do trabalhador.
O autor deixa claro que o valor do trabalho, como, de resto, das mercadorias em geral, não são uma constante. Ao contrário, são variáveis sensíveis aos ciclos da economia capitalista. (2012:132). Se, de um lado, os trabalhadores são chamados a dividir os prejuízos com o capital em momentos de crise, como se tem verificado atualmente, em detrimento da alteridade econômica característica da classe trabalhadora, de outro lado, os momentos de expansão são os mais favoráveis ao aumento do valor do trabalho, à medida que sobe sensivelmente a procura da força de trabalho pelo capital, especialmente em áreas da economia em que o trabalho humano não é dispensado pela revolução tecnológica. Para assegurar a reprodução em escala crescente e ampliada do capital, além de manter intactos os fundamentos do modo de produção capitalista, até muito recentemente, no boom econômico vivido em Pernambuco na década de 2000, por exemplo, não havia, no âmbito da construção civil, profissionais qualificados para as demandas existentes, tendo surgido a necessidade de o capital importar trabalhadores de Estados circunvizinhos, pagando-lhe salários melhores. É curial, dessarte, que as lutas remuneratórias também sejam deflagradas nesses momentos, pois elas devem ser uma constante para evitar a degradação do trabalho e da própria classe trabalhadora.
A fixação contratual do salário pelo empregador representa a essência mesmo da sujeição do empregado. Se a produção é atrelada às condições objetivas do mercado e, por consequência, do consumo, o oferecimento de postos de trabalho obedece a essa variável e o patamar salarial é puxado para baixo com influência da população sobrante da força de trabalho. De fato, a geração de um exército de reserva de força do trabalho é ferramenta essencial da acumulação capitalista e, ao mesmo tempo, permite o controle dos níveis salariais pagos, além de fundamentar o recrudescimento da submissão da classe trabalhadora à exploração pelo capital. Durante as fases de estagnação da economia, a população excedente pressiona o conjunto de trabalhadores ativos e, em contrapartida, nos momentos de superprodução essa pressão é moderada.