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2 O DILEMA PRINCIPIOLÓGICO DA TEORIA JURÍDICO-

3.3 Os princípios como fundamento de validade do Direito do Trabalho

No capítulo anterior, foram elaboradas críticas ao estudo dos princípios gerais de Direito do Trabalho pela teoria clássica. Dentre elas, identificou-se que o foco das proposições teoréticas foram as relações individuais do Trabalho em detrimento das relações coletivas que restaram ofuscadas, limitando, inclusive, o papel do sindicalismo operário à representação simbólica dos trabalhadores nos instrumentos coletivos de concertação social. Alinhadas ao seu tempo histórico, as construções jurídicas edificadas atenderam aos reclamos da Sociedade Industrial, à medida que informavam inteiramente os contratos individuais de trabalho que se tornou o modelo contratual hegemônico no interior das organizações produtivas tayloristas-fordistas. A proteção jurídica foi erigida para dirimir a desigualdade econômica dos sujeitos do contrato de trabalho, relegando-se ao limbo civilista da autonomia da vontade todas as demais modalidades possíveis do trabalho humano.

Os princípios gerais do Direito do Trabalho foram elaborados a partir de modelo indutivo próprio do positivismo jurídico, cuja dinâmica parte do individual para o geral, a fim de informar, integrar e esclarecer os respectivos sistemas normativos nacionais e a coletividade de intérpretes que milita em torno dele. Portanto, não revelam nem esclarecem os verdadeiros fundamentos que legitimaram o surgimento do Direito do Trabalho como um ramo autônomo e específico da ciência jurídica: as lutas sociais emancipatórias e contra- hegemônicas da classe trabalhadora.

Andrade (2003) afirma que a teoria tradicional está estruturada no método cartesiano e encontra seu apogeu no racionalismo crítico. Através do sistema dedutivo, reforça a neutralidade do objeto de estudo e centraliza sua investigação na refutação. Todos os seus elementos estão relacionados e a maior parte das proposições deriva de algumas poucas que se tornam princípios gerais. Nessa perspectiva, a ciência tradicional não se ocupa de sua gênese ou dos problemas sociais, cuidando apenas de capacitar seus agentes para a sua manipulação instrumental, sem, contudo, conscientizá-los das coerções ocultas do pensamento científico. Nessa linha, salienta que:

Transpor o subjetivismo e o realismo, a forma e o instrumental da teoria tradicional e descobrir o conteúdo cognitivo da práxis histórica, os fins – social, econômico, político, ético – da produção científica, principalmente quando estão a serviço da dominação, constituem a preocupação principal da teoria social crítica. (2003:318)

Atualmente, a opção teórica pela uniformidade protetiva em torno do trabalho livre/subordinado já não responde adequadamente às diversas alternativas de trabalho e emprego que emergem na Sociedade Pós-Industrial multifacetada. O incentivo ao empreendedorismo e a introdução de neo-ideologizantes categorias de trabalho autônomo precipitam uma nova forma de dominação engendrada pelo capital que relega ao ostracismo protetivo uma parcela crescente da massa trabalhadora que mantém, sem embargo, a mesma dependência econômica, social e cultural de outrora, agravada, inclusive, pela exposição ao desemprego estrutural. Por tais razões, a partir das evidências analíticas e empíricas insurgentes sobre mundo do trabalho, Andrade afirma categoricamente que o objeto do trabalho juridicamente protegido pelo Direito do Trabalho já não responde pela maioria das múltiplas e variadas relações laborais hoje celebradas e, nesses termos, está refutado. (2012:42)

A crise da proteção jurídica oferecida pelo Direito do Trabalho à classe trabalhadora, que decorre em grande parte da globalização da economia e do modelo flexível de produção capitalista, determina a redescoberta dos históricos e legítimos fundamentos constitutivos do Direito do Trabalho, enquanto ramo distinto da ciência jurídica, inclusive

dotado de autonomia hermenêutica que deve gravitar sobre o sistema normativo e não o contrário. Para tanto, impende se introduzir novas construções gnosiológicas de caráter geral que alcancem a pluralidade e a complexidade das relações laborais hodiernas, a fim de redescobrir o valor ontológico do trabalho como ethos fundamental para a sociabilidade humana, o que vai muito além daquele comprado, vendido e separado da vida, tal como idealizado pelo liberalismo.

O Direito do Trabalho na perspectiva clássica é um produto da modernidade. Em seu bojo, viceja a ideia de ruptura com passado absolutista e a ilusão sobre seu caráter revolucionário, cuja racionalidade é apontada como instrumento edificador de um projeto universal de felicidade e bem-estar dos indivíduos em uma nova ordem de poder. A sociedade moderna passa, então, ela mesma, a ser o fundamento da moralidade humana. Não mais se recorre ao saber teológico para se apurar o sentido da vida, tampouco o papel de cada um na coletividade. Supera-se a contradição envolvendo um mundo criado pelo divino e regido por leis racionais. O trabalho transcende à essência libertária e alcança a dimensão do dever social.

A racionalidade trabalhista, portanto, abre-se ao liberalismo político e promete a emancipação humana pela universalização dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Irrompe, no entanto, o fetiche do dinheiro, o acalanto ao germe do individualismo e do comportamento social fragmentado que fragiliza os laços comunitários de solidariedade. Tais contradições fazem com que essas abstrações não transcendam ao homem egoísta da sociedade burguesa recolhido aos seus caprichos pessoais e posicionado de costas para a coletividade, sufocando a formação e os ideais de uma classe trabalhadora com consciência de

si e para si.

Por sua vez, os fundamentos trabalhistas modernos são dicotômicos, ou seja, não plurais. Prometem proteger o indivíduo, mas não se destinam a organizar força social alguma em torno de uma revolução política realmente emancipatória do ser humano. Ao contrário, a concepção utilitarista engendrada a partir daqueles valores banaliza as injustiças sociais e transforma o fracasso da sobrevivência humana em uma contingência circunscrita ao âmbito pessoal ou particular e não coletiva ou social. Promove, em certa medida, o disfarce de suas limitações, como também sua indiferença ao alargamento da pobreza artificial que atinge um numeroso e permanente exército de excluídos do projeto social hegemônico.

Reativamente, a teoria jurídica-trabalhista crítica propõe a formação de uma nova ética sobre as relações de trabalho. Procura se afastar da ética dicotômica que abarca trabalhadores protegidos juridicamente em diferentes graus (pleno emprego e trabalho

precário, homens e mulheres, nacionais e estrangeiros, etc.) e trabalhadores destituídos de qualquer proteção jurídica em face da prevalência do poder econômico no confronto com sua necessidade de subsistir. Nesse contexto, a viga mestra dessa nova ética insurgente na Sociedade Pós-Industrial sustenta-se unicamente no pluralismo. Não se trata de romper abruptamente com a racionalidade anterior, mas de refletir sobre objetivações adormecidas, além de debater sobre seus limites, contradições e superação. Intenta-se, na verdade, promover o uso contra-hegemônico da ciência hegemônica. Para além de proteger o indivíduo particularmente, essa nova ética busca sua inclusão no contexto efêmero e fragmentado das relações sociais.

A pluralidade humana está no centro dessa ética pós-moderna. Como sustenta Arendt (2014: 219/224), trata-se da condição básica da ação e do discurso que revela o sujeito e suas identidades pessoais únicas. Para a autora, a pluralidade é mais que a simples alteridade, à medida que esta é uma das quatro características fundamentais do Ser, transcendendo toda qualidade particular. Na verdade, o olhar plural é revelado na diferença, isto é, na capacidade humana de distinguir tudo o que existe e distinguir-se a si mesmo.

A teoria social crítica desvela a ética da proteção social inclusiva. Confronta a sociedade do descarte através do olhar plural, adverte sobre as consequências da pobreza artificializada pela economia e denuncia a intolerância e o menoscabo aos indivíduos oprimidos e excluídos do projeto social hegemônico. Sob esse propósito, aliás, é bastante pertinente a crítica do pensador pós-moderno Bauman:

Com efeito, já não é claro por que os inúteis e problemáticos excluídos, de cujos corpos ninguém precisa e cujas almas ninguém quer conquistar ou converter (uma vez que não são mais o “exército industrial de reserva”, nem objetos em perspectiva de exploração ou carne de canhão), não devem ser removidos à força (“repatriados”) se há um lugar para onde possam ser removidos, ou impedidos de procriar se a sepultura é o único lugar para onde podem ser transferidos. (1999: 274/275).

Esse novo fundamento ético trazido pela teoria social crítica apresenta a solidariedade como a ponte para a tolerância social. Portanto, esse novo ethos não pode ser degenerado no egoísmo e na indiferença decorrentes do racionalismo da modernidade. Propõe o compromisso com o Outro, a partir do reconhecimento da diferença (diversidade) e da contingência finita do ser humano. Nesse viés, a solidariedade apresenta-se como a antítese do egocentrismo e da postura contemplativa e inerte reinante na sociedade liberal. É, sobretudo, um convite para se engajar na militância social em prol da diferença alheia e não da sua própria, no prelúdio de novos estandartes mínimos da convivência humana a partir do ethos do trabalho.

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