4 A TEORIA JURÍDICO-TRABALHISTA CRÍTICA E A NOVA VERSÃO
5.5 Hegemonia e poder nas relações de trabalho sob a perspectiva de
A noção de hegemonia de Gramsci, tal como exposta nos Quaderni del Carcere (2014), oferece uma grande contribuição ao estudo do poder na Sociedade Civil. O teórico marxista italiano amplia a ideia de Estado para além da Sociedade Política e se afasta do caráter coercitivo da conquista do poder, tão presente em Lênin, para acentuar a socialização da política através do consentimento das massas como elemento fundamental para a formação da hegemonia, o que é alcançado, sobretudo, pelo direcionamento cultural e ideológico da visão de mundo de um grupo social para outro que a absorve de forma acrítica e até mesmo incoerente em relação as suas posições práticas no âmago da reprodução social.
Na hegemonia gramsciana, portanto, a subordinação de um grupo social a outro não se realiza pela redenção total do seu pensar e do seu agir nas relações sociais, políticas e econômicas, mas se estabelece a partir de compromissos da classe hegemônica quanto a determinados interesses corporativos da classe opositora, ainda que tais sacrifícios não envolvam aspectos essenciais do monopólio intelectual ideológico, nem se comprometam de forma imediata com sua efetividade.
Andrade (2014) registra a análise de Althusser quanto ao posicionamento da filosofia como a ciência das “condições a priori de qualquer ciência” e sua pretensão de exercer poder sobre elas ao incorporar todas as práticas e ideias sociais, além de impelir a transformação de seu objeto e, finalmente, estruturar a ideologia filosófica no conjunto unificado de mediações societais. Em outras palavras, a filosofia intenta unificar as ideologias existentes em torno de uma dominante, conferindo-lhes seu poder de verdade, a fim de reduzir suas contradições e unificar as práticas sociais, o que, para Althusser, corresponde a um trabalho abstrato, isto é, uma teorização pura, portanto, realizada de modo abstrato e a priori. (2014: 62/64).
A articulação intelectual é fundamental ao conjunto das mediações sociais nas quais florescem a adesão voluntária de um grupo social sobre as concepções culturais de outro. A hegemonia cultural supera a ideia de dominação direta e deflui da reunião das forças intelectuais e morais em torno da manifestação de valores e convicções de um grupo, as quais passam a constituir sensos da vontade e da compreensão coletiva na Sociedade Civil dividida em classes. É, portanto, o exercício do convencimento dos subalternos que fortalece a dominação de uma classe sobre a outra, a partir da absorção acrítica de uma ideologia cultural capaz de, a sua maneira, dirigir e organizar as relações sociais de produção.
No Estado ampliado de Gramsci, ao lado dos “aparelhos coercitivos de Estado” existentes na Sociedade Política, através dos quais a classe dominante exerce coercitivamente seu poder e dominação, existem os “aparelhos privados do Estado” que emprestam estrutura e legalidade à direção política e cultural legitimada pelo consenso, ou, como explicam Montaño e Durighettto (2011: 46), promovem a “adesão voluntária contratual” das classes subalternas.
Como reporta Coutinho (2011: 118), Gramsci se deu conta de que os grupos e classes sociais, em seu processo de auto-formação e defesa de seus interesses próprios, criam aparatos privados de hegemonia, os quais pressupõem uma adesão voluntária contratual e cuja ação tem inegável influência nas relações de poder e no modo pelo qual se constitui a esfera pública da sociedade.
É bem verdade que a obra de Gramsci está voltada a uma dimensão mais ampla de hegemonia e dominação no conceito de Estado e suas distinções analíticas - Sociedade Política e Sociedade Civil. Mas, se sua teoria for transportada ao centro das diversas mediações existentes nas relações sociais de produção, pode-se antever que o subsistema jurídico-trabalhista se baseia na hegemonia do capital sobre a classe trabalhadora e orienta, sob o ponto de vista instrumental, uma série de procedimentos e de valores ético-morais inseridos no mundo do trabalho, os quais estão sujeitos a permanentes revisões e mudanças, conforme o momento histórico das relações de forças que permeiam os antagonismos e conflitos de classe na sociedade civil. Nesse sentido, o próprio ethos do trabalho foi transformado no âmago da consciência social. Do caráter libertário e emancipatório da sociabilidade humana, emergiu o trabalho como obrigação ou dever social, que representa, ao mesmo tempo, o martírio e a mortificação do indivíduo através da apropriação de si pela alheação de sua atividade laborativa, de seu tempo de vida e do sentido de sua existência.
Sob esse enfoque, desvela-se o vezo reducionista e reacionário a partir do qual foram lançados os fundamentos tradicionais do Direito do Trabalho, eis que, embora erigidos para proteger os trabalhadores subordinados, foram deixados ao largo do sistema normativo todos os demais sujeitos de trabalho não subordinado. Ademais, conquanto sejam indispensáveis suas proposições jurídicas para irradiar um mínimo palatável de direitos fundamentais aos trabalhadores subordinados, não se pode deixar de reconhecer seu invulgar contributo à organização do modo capitalista de produção, como também à divisão social do trabalho e à gerência científica do trabalho humano sob o prisma coletivo, legitimando, sob o mote do consenso contratual, as relações de hegemonia/sujeição entre as classes sociais. Desse modo, veladamente, tais fundamentos tradicionais se constituíram em concessões jurídicas da classe dominante em favor dos subalternos e, portanto, fazem parte de uma teoria
de dominação político-econômica-cultural no esteio da Sociedade Civil que não se explica fora do contexto da exploração da mão-de-obra humana empreendida sob as mais diversas formas e conforme as variadas necessidades dos respectivos modelos organizacionais de produção da economia capitalista.
Mas a hegemonia gramsciana não estabelece condições inelutáveis no interior da Sociedade Civil. Ao contrário, a direção política e a moral avalizadas pelo consenso dos subalternos estão sujeitas, como adrede afirmado, às variantes das relações de força na sociedade. Conforme acentua Coutinho (2011: 120), é sempre possível a superação dialética da hegemonia através de um movimento catártico capaz de articular uma nova vontade coletiva e de despertar uma consciência ético-política universalizadora para além dos interesses meramente econômicos de classe.
A formação de uma contra-hegemonia insere-se no contexto de rediscussão do papel dos atores sociais envolvidos no processo de criação das normas trabalhistas, como também na retomada dos movimentos coletivos de natureza emancipatória como forma de reconstrução crítica e consciente da chamada autonomia coletiva privada, a fim de que os sindicatos, os partidos, os novos movimentos sociais e a própria Organização Internacional do Trabalho se legitimem formalmente como interlocutores válidos não apenas da pauta econômica imediata dos trabalhadores subordinados, mas passem a atuar politicamente em favor de todos os sujeitos de trabalho, inclusive no plano supranacional, a fim de fomentar as bases de uma política econômica social e solidária que garanta o reencontro do ser social com sua própria humanidade, relacione novamente o trabalho a uma vida repleta de sentido e assegure uma renda mínima universal a todos os que vivam de uma alternativa laboral eticamente aceitável como forma inclusiva dos milhões de excluídos ao projeto social.