4 A TEORIA JURÍDICO-TRABALHISTA CRÍTICA E A NOVA VERSÃO
5.7 O poder simbólico e as relações de trabalho sob a perspectiva de
Na realidade social, o poder simbólico está por toda parte. Nos mais diversos campos, ele atua de modo invisível, à medida que, muitas vezes, mesmo diante dos nossos olhos, não se faz enxergar ou vagueia a revelia de seus destinatários. Sua atuação erige-se a partir de manifestações de força irreconhecíveis nas relações sociais de sentido. Através de mentais elementos estruturais de conhecimento e de expressão, ajustam socialmente a apreensão gnosiológica objetiva do sentido de mundo com a integração de produções simbólicas prenhas dos interesses das classes dominantes que geram, ao mesmo tempo, a aceitação subjetiva pela imposição mascarada da ordem estabelecida, inclusive porque a ignora enquanto tal, a desmobilização ou o imobilismo das classes dominadas culturalmente atingidas pela ortodoxia e, finalmente, legitima distinções e hierarquias culturais, rotulando de “subculturas” aquelas que confrontam com a dominante.
Sobre o poder simbólico, afirma Bourdieu que: “O poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível, o qual somente pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe são sujeitos ou mesmo que o exercem” (1989:7/8). Ao lançar os fundamentos de uma sociologia das formas simbólicas sob a perspectiva pós-estruturalista, o sociólogo francês reúne elementos da teoria sociológica de Durkheim e do método iconológico de Panofsky para indicar a cultura – e não história – como embrião do poder simbólico propulsor dos saberes no âmbito da reprodução social com vistas à edificação das relações e mecanismos de dominação (violência simbólica), das lutas históricas e das resistências dos grupos dominados, como também estabelecer o controle sobre os entes singulares e coletivos, os corpos, as intencionalidades e os interesses subjetivos e objetivos, através de um consenso construído em meio à indiferença ou relutância dos grupos subalternos e a partir de elementos estruturantes como os mitos, a língua, a arte, a religião, a ciência, entre outros, que legitimam o pensamento e os procedimentos de agir no mundo social.
Os artefatos culturais simbólicos se ramificam com naturalidade pelas diversas relações sociais cotidianas. Das familiares às afetivas, das religiosas às intelectuais, passando pelas relações políticas, econômicas e de trabalho, todo contexto relacional está envolvido por referenciais culturais incorporados nos modos de pensar e agir por elementos estruturados e estruturantes (habitus) nos diversos campos onde socialmente são incubadas, desenvolvidas e integradas. Do capital cultural empregado pela ação do indivíduo ou do grupo resultam os
gostos, os conteúdos, o domínio da língua na construção de significantes e significados, os bens e produtos a serem adquiridos e até os títulos acadêmicos a serem obtidos e validados nos processos de educação e ensino.
Para Bourdieu (1989: 11/12), as lutas sociais são eminentemente simbólicas, à medida que travadas entre classes ou frações de classe na tentativa de impor posições ideológicas a serem reproduzidas de forma transfigurada no campo das relações sociais para refletirem seus interesses e legitimarem a crença, dentro e fora da classe, acerca da própria da dominação. Sua condução é manejada tanto diretamente nos conflitos simbólicos cotidianos, quanto por especialistas (por procuração) no microcosmo do campo da produção simbólica com o intuito de promover o monopólio da violência simbólica, servindo, e só nessa medida, aos seus interesses na luta interna e, a partir disso, também aos dos grupos exteriores ao campo de produção.
No campo das relações de trabalho, como de resto no âmago das demais interações sociais, o poder simbólico é historicamente responsável pela formação de sensos/consensos irrefletidos pelos indivíduos subordinados que são integrados pelo capital cultural. Entre os povos sem escritura, por exemplo, a ideia de trabalho como castigo ou sacrifício diante do céu e dos deuses legitimou a clássica distinção entre trabalho manual e intelectual, além da própria escravidão. Já Aristóteles, no livro primeiro sobre a Política, justifica a existência de escravos e homens livres pela própria obra de Deus. Na Antiga Roma, onde tais relações se desenvolviam em um arraigado campo de estratificação social, promoveu-se o traço diferencial a partir da clivagem entre homens livres e não-livres, como também desde a antítese entre trabalho oneroso e gratuito e trabalho corporal e intelectual, sendo que apenas o primeiro mereceria salário, ante o esforço pessoal dispendido por seu prestador, daí ser devotado ao desprezo, à medida que comprado como uma mercadoria. Nesse contexto, o trabalho intelectual era, em regra, gratuito e prestado por benevolência, embora em algumas circunstâncias fosse admitido o pagamento de valor a título de retribuição, o qual era considerado um prêmio honorífico (honor/honorário) que não comprometia a dignidade humana de quem o recebia. Na Idade Média, por sua vez, período em que foram alteradas substancialmente as relações de produção e se inaugura uma nova divisão social do trabalho a partir do regime feudal/servil, o menoscabo ao trabalho manual se dissipa paulatinamente para atender às necessidades de subsistência das forças produtivas básicas da sociedade e construção da ideia do trabalho ontológico como protoforma da sociabilidade humana. Com o surgimento da Sociedade Industrial, alcança-se a concepção capitalista do trabalho, no qual o salário seria regulado pelas leis de mercado e a produção
voltada não apenas para permitir a sobrevivência do produtor, mas especialmente para a acumulação de riqueza e a circulação mercantil. 14
No modo de produção capitalista, a empresa aufere foros de centralidade da produção simbólica no campo das relações de trabalho e, portanto, é o lugar onde ocorrem os conflitos cotidianos de caráter econômico que são balizados pelo sistema jurídico. Em seu favor, diversas teorias organizacionais se sucedem no fomento da captura da subjetividade da classe trabalhadora e de sua dominação para ampliar a acumulação de lucros, enquanto os subordinados se resignam de forma domesticada em torno do direito de serem explorados pelo capital. Para além dessa perspectiva, a força simbólica das empresas se faz sentir pela elaboração de seletivos padrões de consumo de produtos e serviços, como também pela emergência de necessidades sociais coletivas antes inexistentes. O culto ao deus Mercado, cuja sanha é tão temida quanto à professada pelos antigos diante do Leviatã, justifica, à luz de tal violência simbólica legitimada pelos interlocutores da política, uma nova apreensão gnosiológica do trabalho humano com o rebaixamento de eventuais cânones protetivos do trabalhador e de sua dignidade e a introdução de novas categorias ideológicas acerca relações trabalhistas não salariais, como o empreendedorismo, a pejotização e outras tantas manifestações hifenizadas.
Como afirma Coutinho (1999: 66), a empresa é um espaço simbólico. Envoltos em uma estrutura hierárquica de poder e de divisão do trabalho, os detentores do poder exercem seus interesses econômicos e emanam sua ideologia ocultada em disfarces, imagens e tabus, enquanto ao trabalhador incumbe se constituir como sujeito em uma seara que lhe domina, castiga e inviabiliza sua auto-realização. Ao tempo em que o trabalho é encarado como dever social para o progresso da empresa e do país, a exclusão permanente impulsionada pelo desemprego estrutural é vista como fracasso pessoal e não como uma questão de Estado. Ao incutir o sentimento de fracasso no trabalhador que não se adaptou à revolução tecnológica e não foi atraído pelas novas relações precárias, o poder simbólico esconde as limitações do próprio sistema, enquanto envida todos os esforços para cortar custos e maximizar seus lucros.
É de se reconhecer, desse modo, que no campo da luta simbólica das relações de trabalho, a manifestação do poder econômico se enraíza profundamente na estrutura da sociedade. Obnubilada por diversas teorias, como a que enaltece “a função social da propriedade”, o capital se investe de alegorias quase maternais para perpetuar sua dominação.
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À medida que o trabalho é cultuado como uma oblação da empresa que provê o sustento do trabalhador e sua família, o salário é recebido como dádiva, prêmio ou gratificação. Entre o empregador que “dá emprego” e o empregado que “ganha” salário, desenvolvem-se uma série de imbricações imperceptíveis aos olhos de um indivíduo fragmentado, desumanizado e alienado que potencializa sua dependência econômica e social muito além do contrato de trabalho, determina seu lugar no mundo e seu papel no projeto coletivo.
A divisão social do trabalho também é uma representação significativa da força invisível do poder simbólico. A reorganização produtiva do capital, que impele o surgimento de uma dominação ainda mais atroz do trabalho humano, destina os novos trabalhos precarizados às frações mais débeis da classe trabalhadora como os imigrantes, os não sufragados pela especialização imposta pela revolução tecnológica, os jovens, os velhos, os negros, e os integrantes do movimento LBGT.
Nesse mesmo contexto, o trabalho feminino é significativamente absorvido nas modalidades laborais mais precárias. Além de cumprimento de uma dupla jornada (no trabalho e em casa), a divisão sexual do trabalho imposta pela reorganização produtiva do capital, como descreve Antunes (1999: 105), reserva às mulheres atividades mais elementares, de menor qualificação e fundadas em trabalho intensivo, enquanto ao trabalho masculino se destinam os postos de trabalho mais relevantes, voltados às áreas de concepção ou de capital
intensivo, ou seja, de maior investimento e estratégia empresarial. Nesse caso, a incorporação
diferenciada do trabalho feminino no mercado de trabalho é responsável por gerar a discriminação de direitos e condições objetivas de labor, como também é fator decisivo para a desigualdade salarial entre os sexos. Com efeito, segundo estudos da Oxfam – Oxford Committee for Famine Relief15, mantida a tendência dos últimos vinte anos, a igualdade salarial entre homens e mulheres somente será alcançada no Brasil no ano de 2047.
No contexto do poder simbólico das relações das forças sociais, Bourdieu (1989: 15) revela que sua função ideológica de manter a ordem ou subvertê-la extravasa automaticamente pela crença nas palavras e na legitimidade daquele que as enuncia, para impor uma hierarquia de princípios de hierarquização e a própria legitimidade da dominação. Destaca, por sua vez, que sua destruição somente se revela possível pela tomada de consciência do arbítrio e construção de um heterodoxo discurso no âmbito das classes dominadas, a fim de aniquilar crenças incutidas e falsas evidências da ortodoxia das
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Disponível em
https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/22/politica/1506096531_079176.html?id_externo_rsoc=whatsapp. Acesso em 27/09/2017.
produções simbólicas. No que tange à divisão sexual do trabalho, por exemplo, convém se destacar que o movimento feminista tem oferecido grande contribuição a emancipação parcial das mulheres no âmbito da sociedade de classes.
5.8 A teoria jurídico-trabalhista que caracteriza o poder como dinâmica complexa nas