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4 A TEORIA JURÍDICO-TRABALHISTA CRÍTICA E A NOVA VERSÃO

5.6 O poder e as relações de trabalho sob a perspectiva de Foucault

Na perspectiva de Foucault, o poder não se concentra unicamente em uma instituição, tampouco é cedido através de contratos políticos ou jurídicos. Na obra Microfísica

do Poder (2013), o filósofo francês relaciona Poder, Direito e Verdade na conformação

analógica de um triângulo para refletir sobre as relações de poder sob o prisma da ação, isto é, através dos diversos mecanismos tácitos, complexos e independentes que permeiam no seu

interior, orientam os discursos e disciplinam as regras de direito em todo tecido social para instituir regimes ou políticas de verdade.

Na obra Filosofia do Direito (2014), Mascaro elabora uma síntese da pesquisa foucaltiana ao descrever resumidamente as cinco precauções metodológicas indicadas pelo filósofo francês na abordagem da questão de poder: a primeira diz respeito ao fato de que o poder deve ser analisado pelos extremos, ou seja, pela periferia e não pelo centro institucionalizado do fenômeno. Nessa perspectiva, o poder se verifica nas relações sociais e não na formalidade das normas jurídicas. Assim, ao contrário de uma visão macroscópica, chama-se a atenção para a microfísica do poder. O segundo passo importante relacionado é que o poder não pode ser compreendido a partir de sua intenção, da vontade genérica de seus agentes ou mesmo de suas instituições e normas13, pois a verdade do poder e do direito é revelada por sua concretude, isto é, suas práticas efetivas. A terceira precaução ventilada adverte que o poder não é um fenômeno binário, no qual os indivíduos são dominadores ou dominados. Ao contrário, todos se colocam na condição de opressores e oprimidos no desenrolar de suas relações societais. Nos seus delineamentos microfísicos, o poder é circulante e exercido em cadeia. Na quarta precaução anunciada, o autor declara a inviabilidade da compreensão formalista e dedutiva do poder, à medida que ele se revela na especificidade dos fatos, o que contraria a visão positivista do direito. A análise que deve ser procedida é, portanto, de natureza ascendente (de baixo para cima) e não descendente (de cima para baixo), pois somente esse caminho permite revelar a história, a técnica e as táticas do poder, e depois examinar os mecanismos pelos quais foram e ainda são investidos, colonizados, utilizados, subjugados, transformados, etc., por instrumentos cada vez mais gerais e por formas de dominação global. Finalmente, a quinta precaução indaga sobre o caráter do poder, isto é, sua vinculação com as grandes visões de mundo. Para ele, o poder não é ideológico, pois os saberes-poderes de dominação constituem uma rede de operacionalização e de continuidade que independe dos grandes estabelecimentos ideológicos, pois são as diversas ideologias existentes que se utilizam desses saberes para a realização de seus fins. (2014: 437/440).

Segundo Foucault, o que faz com que o poder se mantenha e seja aceito é que ele não pesa somente como uma força repressiva que diz não, mas também que “produz coisas, induz prazer, forma saber, produz discurso” (2013: 8). Portanto, na sua visão, trata-se de uma

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Nessa perspectiva, portanto, não cabe se perquirir sobre a mens legis ou a mens legislatoris na interpretação das normas jurídicas.

rede produtiva que atravessa todo o corpo social, muito mais do que uma instância com a função de reprimir.

Reconhece também que cada sociedade tem um regime de verdade que regulamenta os efeitos do poder e a partir de múltiplas coerções acolhe e ordena os discursos para distingui-los entre verdadeiros e falsos, a partir de técnicas e procedimentos valorizados para a obtenção da verdade. Nesse contexto, descreve que os problemas políticos não devem ser trabalhados sob a clivagem “ciência/tecnologia”, mas sim de “verdade/poder”. Assim, “a verdade está circularmente ligada a sistemas de poder que a produzem e apoiam e a efeitos de poder que ela induz e que a reproduzem”. (2013: 11)

Para ele, o desafio que se apresenta ao intelectual não é mudar a “consciência” das pessoas, há muito tempo adquirida pelas massas e tomada pela burguesia, mas constituir uma nova “política da verdade”. Não se trata, na sua abordagem, de libertar a verdade dos sistemas de poder, o que seria quimérico, mas desvincular o poder da verdade da hegemonia cultural, econômica e social no interior das quais ela funciona. (2013: 11)

Por sua vez, afasta-se da perspectiva marxista de conceber o poder em nível da ideologia, como também de analisá-lo sob o esquema poder-contrato ou contrato-opressão que se revela, segundo esse olhar, pelo exercício do poder fora dos lindes contratuais que o delimita formalmente. Segundo ele, nada é mais materialista, físico e corporal que o exercício do poder. De acordo com esse viés, o poder é concreto e não um direito que se atribui a um possuidor que pode transferi-lo ou aliená-lo através de um ato jurídico ou de um ato fundador originário e constituinte da soberania do poder político, como assentado no contratualismo rousseauniano.

Em todas as suas instâncias ou dimensões, “o poder é circulante”, ou seja, só existe em ação e se ativa ou se desdobra no âmbito de relações perpétuas de força que ocorrem silenciosamente nas instituições, no âmbito das desigualdades econômicas, ou ainda através da linguagem e sobre o corpo dos indivíduos, daí porque não se restringe apenas a uma funcionalidade da economia política. Assim, o filósofo francês propõe a análise do poder segundo a clivagem dominação-repressão ou guerra-repressão.

Sobre a análise do poder, ele explica textualmente que:

Poderíamos assim opor dois grandes sistemas de análise do poder: um seria o antigo sistema dos filósofos do século XVIII, que se articularia em torno do poder como direito originário que se cede, constitutivo da soberania, tendo o contrato como matriz do poder político. Poder que corre o risco, quando se excede, quando rompe os termos do contrato, de se tornar opressivo. Poder−contrato, para o qual a opressão seria a ultrapassagem de um limite. O outro sistema, ao contrário, tentaria analisar o poder político não mais segundo o esquema contrato−opressão, mas segundo o esquema guerra−repressão; neste sentido, a repressão não seria mais o que era a

opressão com respeito ao contrato, isto é, um abuso, mas, ao contrário, o simples efeito e a simples continuação de uma relação de dominação. A repressão seria a prática, no interior desta pseudo−paz, de uma relação perpétua de força. (2013: 100).

Em outras palavras, sua compreensão é a de que o poder se revela nas relações de poder (ações) existentes em todo o tecido social, as quais descortinam uma multiplicidade de relações de dominação que são desenvolvidas através do Direito, do Poder Judiciário e de diversas outras instituições em um ambiente de aparente pacificação social, mas que, na verdade, resplandece a ribalta na qual ocorre de forma silenciosa uma permanente guerra de forças no âmago das estratificações sociais.

Sua teoria denuncia que as regras de direito fundamentam-se na soberania do poder (real ou do Estado), para lhe emprestar legitimidade formal, fixar os limites de seu exercício e atribuir, de um lado, direitos legítimos e soberanos e, de outro, a obrigação legal de obediência. Na sua visão, no entanto, deve ser recobrada a ideia de direito como instrumento de dominação que circula entre os indivíduos, que, no bojo de suas variadas interações, sempre estão em posição de sofrer sua incidência e também exercê-lo. As relações jurídicas, sob esse mote, seriam relações de dominação e não de soberania. Não propriamente uma dominação global, de um grupo sobre outro, mas em suas múltiplas formas, funcionando em cadeia ou em rede. O poder não é consentido, mas transmitido nas ações.

Sobre a questão, o filósofo assevera textualmente que:

Nos últimos anos, o meu projeto geral consistiu, no fundo, em inverter a direção da análise do discurso do direito a partir da Idade Média. Procurei fazer o inverso: fazer sobressair o fato da dominação no seu intimo e em sua brutalidade e a partir daí mostrar não só como o direito é, de modo geral, o instrumento dessa dominação − o que é consenso − mas também como, até que ponto e sob que forma o direito (e quando digo direito não penso simplesmente na lei, mas no conjunto de aparelhos, instituições e regulamentos que aplicam o direito) põe em prática, veicula relações que não são relações de soberania e sim de dominação. Por dominação eu não entendo o fato de uma dominação global de um sobre os outros, ou de um grupo sobre outro, mas as múltiplas formas de dominação que podem se exercer na sociedade. Portanto, não o rei em sua posição central, mas os súditos em suas relações recíprocas: não a soberania em seu edifício único, mas as múltiplas sujeições que existem e funcionam no interior do corpo social. (2013: 102)

E continua:

Terceira precaução metodológica: não tomar o poder como um fenômeno de dominação maciço e homogêneo de um indivíduo sobre os outros, de um grupo sobre os outros, de uma classe sobre as outras; mas ter bem presente que o poder − desde que não seja considerado de muito longe – não é algo que se possa dividir entre aqueles que o possuem e o detêm exclusivamente e aqueles que não o possuem e lhe são submetidos. O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam, mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer sua ação; nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão. Em outros termos, o poder não se aplica aos indivíduos, passa por eles. Não se trata de

conceber o indivíduo como uma espécie de núcleo elementar, átomo primitivo, matéria múltipla e inerte que o poder golpearia e sobre o qual se aplicaria, submetendo os indivíduos ou estraçalhando−os. Efetivamente, aquilo que faz com que um corpo, gestos, discursos e desejos sejam identificados e constituídos enquanto indivíduos é um dos primeiros efeitos de poder. Ou seja, o indivíduo não é o outro do poder: é um de seus primeiros efeitos. O indivíduo é um efeito do poder e simultaneamente, ou pelo próprio fato de ser um efeito, é seu centro de transmissão. O poder passa através do indivíduo que ele constituiu. (2013: 103)

Sob sua ótica, a crítica que se impõe aos fundamentos clássicos do Direito do Trabalho é a reprodução da política de “verdade” instituída pelas engrenagens do poder soberano (originário ou delegado), contratualista e disciplinador. A análise crítica do positivismo trabalhista permite identificar a legitimação amiúde de procedimentos de dominação-sujeição para instrumentalizar uma série de poderes diretivos de regulamentação normativa, de disposição física e intelectual da força de trabalho e, sobretudo, de imposição de sanções disciplinares, que constituem, em si mesmo, a assimetria e a dominação típica de tais relações de poder.

Enfeixados no âmago da subordinação jurídica do contrato de trabalho, legitimam-se uma série de poderes contratuais conferidos ao comprador do trabalho subordinado para lhe garantir a submissão da classe trabalhadora durante a alienação contratada da força de trabalho e dirigir ao seu talante a atividade econômica com amplo controle da produção e da duração do trabalho, segundo a orientação do modelo produtivo que lhe seja conveniente. Ao mesmo tempo, o avanço ultraliberal sobre os lindes protetivos do Direito do Trabalho representa o recrudescimento da dominação através de relações trabalhistas ainda mais precárias autorizadas por um sistema jurídico flexível que, ao passo em que institui grave retrocesso social, amplia a possibilidade de imposição de piores condições objetivas de trabalho e enceta, por consequência, um empobrecimento ainda maior da classe trabalhadora.

Dessa forma, cumpre à teoria jurídico-trabalhista crítica problematizar e propor o Direito do Trabalho de uma forma mais ampla para recusar a mecânica tradicional de Poder que lhe dá ensejo e deslocar seu estudo para o âmbito de um discurso plural produtor de outras “verdades” obliteradas no decorrer do processo histórico e que conformaram sua genealogia. Sob o ponto de vista da dominação, seu escopo deve buscar oferecer respostas concretas a centenas de relações de poder que remanescem sem a couraça jurídica adequada e, portanto, destituídas de instrumentos capazes de orientar a totalidade do corpo social quanto aos mecanismos dominadores que instrumentalizam os costumes e suas estruturas, as técnicas e as conexões encadeadas no mundo do trabalho, inclusive no plano internacional, além de seus reflexos no domínio das outras interações sociais.

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